Hunter's Instinct

43 Episódio 43 - No Neverland


Notas iniciais
Olá de novo, meus lindos e lindas do coração! Mais um "episódio" postado no mesmo dia, hehehe! Espero que gostem... Dessa vez teremos um POV da Peggy e um POV totalmente novo! Adivinhem de quem?? ENID! O que significa que, para a alegria das fãs de plantão do little sheriff in town... Um POV do Carl também está cada vez mais próximo! Uhuuul! Esse capítulo é um pouco mais treteiro e cheio de suspense que o anterior, mas, ainda assim, não se enganem... As coisas vão ficar realmente feias logo, logo... Teremos, assim, um maior desenvolvimento da personagem Peggy, um estreitamento de sua relação com os circenses, e um momento importante de interação entre Carl e Enid. O filho de Rick vai mostrar que é bem parecido com o pai! A fruta nunca cai longe do pé! Capítulo dedicado ao leitor Filho de Kivi, que passou por uma barra pesada ultimamente. Força, meu amigo! Falei que tudo daria certo! =) Logo... Beijos e boa leitura! Ps: por favor, não deixem de comentar nos dois "episódios"!

A garota bateu a terra das botas de trilha que usara, tão sujas que já pareciam negras, quando sua coloração original era de um marrom claro.

Andando pelo caminho que as levaria de volta para Alexandria, Peggy e Aiyana caminhavam, cansadas, depois de um dia de treinamento exaustivo. Mataram, sozinhas, algumas boas dezenas de carniceiros.

— E, como eu te falei... O povo de minha tribo acreditava no animismo: a crença de que todos os seres naturais têm espíritos, estão vivos de alguma forma, têm essência além da material — falou Aiyana para a outra adolescente.

— Tipo... Os rios, os mares, os animais, as plantas... Tudo mesmo? — indagou Peggy, interessada pelo exotismo da amiga.

Aiyana confirmou, meneando a cabeça em um sinal de concordância.

— E mais do que isso: acreditamos em guias espirituais também — adicionou a indígena, seus cabelos negros ondulando ao vento, apenas deixando sua fala exótica ainda mais cheia de charme.

— Como assim? — Peggy não pôde evitar perguntar outra vez.

— Por exemplo: na minha tribo, eu era chamada de Aiyana “Olhos de Coiote”. Primeiro porque, desde pequena, eu tinha esse dom para mirar nas coisas e acertar tudo. Os homens me treinaram em caçadas, como faziam com os rapazes da nossa tribo, por causa desse meu talento.

— Segundo, quando fui crescendo, alguns dos homens da tribo diziam que eu tinha “olhos de coiote” porque achavam meu olhar sedutor — confessou Aya, rindo um pouco. Peggy baixou os olhos para o chão de terra macia, sentindo uma inveja branca da amiga.

— E terceiro porque nosso curandeiro sabia avaliar qual era o animal espiritual de cada um, nosso guia que nos permite nos desenvolvermos plenamente, amadurecermos mais e mais. E ele disse que meu guia era o coiote — contou Aiyana.

— Era uma habilidade que eu admirava muito, tanto que estudei um pouco para saber avaliar o guia espiritual das pessoas que me cercavam. Isso me ajudava a entendê-las melhor. — Aya soltou a respiração, encarando Peggy. — Posso dizer qual é o seu. Já te conheço o suficiente.

— Ah, é? — falou a garota mais jovem, um pouco duvidosa. — Diga qual é então, ó sábia xamã do olhar sexy de coiote — Peggy fez a troça, enquanto Aya a empurrava de leve, de brincadeira.

— Seu animal espiritual é o tigre. Na minha tribo, eu te chamaria de Peggy “Garras de Tigresa” — assegurou Aiyana, encarando a amiga.

— Tigre? — indagou Peggy, duvidosa.

— Sim. O significado essencial do tigre é a resiliência, força de vontade, firmeza pessoal e coragem — falou Aya, e a garota mais jovem se sentiu recompensada por aquelas palavras elogiosas. Foi bom receber aquele reconhecimento. A indígena manteve a fala:

— Ao mesmo tempo, o tigre indica algum tipo de obscuridade interna, controvérsias, partes de você que não quer que os outros saibam que existem, partes que você mesma rejeita. Demonstra também que há agressividade e raiva contidas dentro de você até o momento em que explodem, além de uma vida imprevisível, ações também não muito previsíveis... Sentimentos imprevisíveis — disse Aiyana, e Peggy se espantou como aquilo era realmente uma leitura precisa dela mesma.

— Isso é realmente... Bizarro. Você conseguiu ler todo mundo assim? — a adolescente mais nova estava embasbacada.

— Aham. Eu só errei na leitura da Becky. Achei que ela era tigre, que nem você. Mas ela é uma corça, na verdade. Muito sensível, muito gentil, muito amorosa. Por incrível que pareça — garantiu Aiyana, colhendo uma erva que crescia no canto da estradinha em que andavam.

— Moritz, por exemplo, é o mais fácil de todos de ler. Coruja. O animal espiritual da sabedoria, da busca pelo conhecimento, da libertação. Que, inclusive, é o símbolo da filosofia, como ele me falou quando o avaliei — acrescentou Aiyana, voltando ao caminho para Alexandria.

— E o que tem filosofia a ver com isso?

— Você não sabe? — Aya questionou, incrédula. Peggy franziu as sobrancelhas, genuinamente sem saber aonde ela buscara chegar. Apressou o passo para acompanhar a rapidez de Aiyana, bem mais alta do que ela.

— Moritz era professor de filosofia em uma universidade no Alaska. Antes de abrir o próprio circo. Se formou na Europa e tudo. Na verdade, ele nasceu lá, na Áustria — complementou a garota de sangue índio.

— Vocês são realmente cheios de surpresas... — admitiu Peggy, boquiaberta, enquanto Aiyana parou de caminhar. Haviam chegado à frente dos muros de Alexandria, do lado leste. Escalaram a murada, entrando na comunidade em seguida.

— Acho que já podemos nos separar a partir daqui — Aya falou, dando um tchauzinho para a garota mais jovem. — Se quiser saber mais sobre animais espirituais, dá uma lida nos livros que têm na biblioteca da nossa casa.

— Hey! Não foi você que falou “já chega por hoje”? — Peggy retorquiu, parando de andar. Aya sorriu para a amiga.

— Já chega de treinar. Você está ficando muito boa de mira — a indígena elogiou a outra adolescente.

— E o que você pretende fazer agora? — perguntou Peggy, sem entender a despedida misteriosa de sua amiga.

— Meditar. É algo que preciso fazer sozinha. Senão não consigo me concentrar — Aya afirmou, séria, andando mais na frente da outra menina, que a seguia com dificuldade, dada a diferença de altura entre as duas.

A filha de Dakota a encarou sem acreditar, quase debochada.

— Você veio de outro mundo ou o quê? — indagou a garota mais jovem.

— Quase isso. Vim de uma tribo — debochou a jovem alta, em retorno. — Mas quem me ensinou a meditar não foi nenhum dos Arapaho. — O olhar de Aiyana ficou mais solene, um tanto melancólico.

— Foi Tejas — ela completou, retornando a olhar para frente.

Peggy ficou sem reação. Aiyana lhe mostrara o rito de passagem que a fizera lidar melhor com a perda de Noah, e finalmente começar a superar tudo o que passara, quando plantou uma azaléia vermelha em homenagem ao garoto.

A amiga lhe dava muito apoio, mais do que ela jamais imaginaria conseguir encontrar, mesmo que não compreendesse alguns de seus costumes exóticos. Assim, a garota mais nova apenas bradou para a adolescente indígena que já caminhava muito ao longe, na direção dos bosques da comunidade:

— Boa meditação! — Logo que quase gritou em despedida para a indígena, a filha de Dakota viu Aya lhe dar outro tchauzinho, de costas para ela.

Ficara sozinha debaixo dos céus escuros do poente, banhados pela fraca luz do final de outono em Alexandria. Peggy tentou decidir o que fazer a partir dali. Não percebera como sua rotina acompanhada de Aiyana se firmara como sua forma preferida de passar o tempo.

Inevitavelmente, sentiu suas pernas pesarem só de pensar em retornar a morada onde residia com Annie, Tara e Mavie.

Não é como se eu não gostasse delas, Peggy refletia, enquanto andava a esmo, chutando algumas pedrinhas no chão. Mas, estranhamente, cada vez mais a filha de Dakota se sentia mais confortável, mais à vontade... Na casa dos circenses. Como se lá, na verdade, fosse de fato seu lar.

A garota de cabelos castanhos decidiu-se, por fim. Aya não demoraria muito a voltar. Ficaria frio demais à noite, e por mais exótica que fosse sua amiga, Peggy ainda tinha certeza de que ela não era imune às sensações humanas como o frio e o cansaço.

Seguiu determinada para a casa dos membros do Alvintzi Circus, franzindo as sobrancelhas, pensando no que faria para se distrair na ausência da amiga. Ao subir pela varanda de entrada da residência, tocou a campainha da porta, aguardando para que Moritz fosse recepcioná-la.

Depois de vários minutos e diversas tentativas, ninguém apareceu. Dando de ombros, Peggy, sentindo-se segura o suficiente para aquela ação, decidiu entrar caso a porta estivesse aberta. Girou a maçaneta, e viu que não estava trancada.

Perpassou a sala de entrada, indo na direção da sala onde haviam montado uma espécie de biblioteca, em seguida. Decidira pegar o tal livro sobre animismo que Aiyana lhe recomendara, pois ficara realmente surpresa com aquela análise precisa que a amiga fizera de si mesma.

Quem sabe ler mais sobre aquilo não poderia ajudá-la, de alguma forma... A se sentir melhor consigo mesma, com sua bagagem dolorida, seu emocional instável.

Ao chegar à sala que fora usada como a biblioteca, viu a luz de um abajur em estilo vintage aceso, iluminando parcamente a penumbra de estantes altas de madeira, repletas de livros que iam do chão ao teto.

Andou discretamente na direção das estantes, quando seu olhar, varrendo o local, viu algo que a fez parar por um instante.

Moritz estava deitado em um sofá de couro escuro, de três lugares, parecendo dormir profundamente.

Peggy nunca o vira assim, tão exposto e ao mesmo tempo tão fragilizado. Tão comum. Por vezes, ao ser surpreendida em tantas ocasiões pelo jeito misterioso daqueles ex-trabalhadores de circo, a adolescente esquecia de que eles eram pessoas normais, como ela.

Aquilo fez um sorriso esquisito brotar em seus lábios, uma vontade súbita e constrangedora de rir. Sentindo-se muito infantil por aquilo, Peggy foi pé ante pé até a estante, sem fazer ruído algum. Analisou tomos dos mais diversos gêneros e classificações, desde livros didáticos, não fictícios, ficções em geral e até mesmo auto-ajuda.

Aquela casa da comunidade fora de fato preenchida com muitos volumes, mas pela qualidade duvidosa da maioria dos tomos — que Peggy não reconhecia nem por nome, nem por autor —, provavelmente eram os restos dos livros acumulados pela população, largados naquela casa e não na biblioteca oficial de Alexandria.

A filha de Dakota girou nos calcanhares, buscando nessa mesma sala uma cadeira para que pudesse elevar a própria altura e procurar algo decente para ler nas prateleiras de cima, quem sabe até mesmo o livro que Aya falara.

Depois de ter tirado as próprias botas, Peggy colocou um de seus pés em cima do estofado, certa de que Moritz estava completamente adormecido. Maldizendo a própria estatura baixa em pensamento, ela segurou no espaldar do móvel, e deu impulso para cima.

— Se está procurando alguma coisa, pode deixar que eu pego pra você. — A voz gentil do ex-palhaço se fez ouvir, surpreendendo a adolescente e fazendo com que ela instintivamente pulasse para trás, tropeçando e quase caindo no chão.

Ele fez isso de propósito, só pode. Peggy pensou, constrangida e um pouco zangada pela súbita manifestação daquele homem que supostamente dormia. Voltou os olhos para ele, ressabiada.

— Desculpe pelo susto — o sujeito falou, contrito, dando um sorriso sonolento para a garota. Peggy baixou os olhos antes de encará-lo outra vez.

— Desculpa por invadir sua casa — brincou Peggy, um pouco sem jeito.

— Ah, isso não é motivo para se desculpar. Não precisa pedir licença para entrar aqui — Moritz abanou o ar com uma das mãos, erguendo-se do sofá. De pé, passou uma das mãos por seu rosto, e dirigiu-se até onde Peggy estava parada.

— E então, o que você quer? — indagou ele. — Que tal algum volume do meu setor de filosofia? — sugeriu o ex-palhaço, indicando com uma das mãos os volumes alguns centímetros acima da própria cabeça dele.

— Hmm... — Peggy balbuciou, se sentindo simultaneamente agradada pela gentileza e um pouco tímida pela proximidade do circense. Por um instante, esquecera do livro de Aiyana, então deixou-se estudar os livros disponíveis.

Subitamente, avistou um exemplar de J. M. Barrie, um dos poucos livros de ficção, um clássico, que ali se ofertava. Arregalou um pouco seus orbes castanhos, imediatamente decidida.

— Aquele! — Peggy falou, mais animada do que queria soar. Os olhos de Moritz seguiram o indicador de Peggy, que apontava para um volume muitos centímetros acima de sua altura diminuta.

— Peter Pan? — comentou o ex-palhaço, parecendo divertido. Peggy se sentiu contrita por um momento. Era literatura infanto-juvenil, de certa forma. Será que isso o levaria, como a todos os outros em Alexandria, a julgá-la um tanto infantilizada?

Bastante incomodada, a adolescente pensou no que responder, mas Moritz novamente acrescentou:

— É uma excelente escolha — elogiou o sujeito. — Não só um clássico, mas um clássico repleto de metáforas amplamente estudadas por diversas áreas do conhecimento... Fonte de material para a psicanálise é claro, mas para a filosofia também — disse o homem, impulsionando-se para cima e pegando o livro para Peggy. A garota segurou o tomo com as duas mãos, abraçando-o junto ao peito assim que o recebeu de Moritz, ainda reservada.

— Sério? Pelo filme da Disney que eu via quando era criança, não captei muito bem tudo isso — Peggy falou, dando uma risadinha. Moritz riu de forma polida, caminhando até se sentar em uma poltrona perto do abajur aceso.

— É por isso que existem as adaptações, e as obras originais. Sempre muitíssimo diferentes. Aliás, o nome original do livro, que era uma peça antes de ser publicado neste formato... Era Peter e Wendy, caso não saiba — acresceu o ex-palhaço, colocando os óculos que usava e abrindo o livro “História do Pensamento Ocidental”, de Bertrand Russell.

Peggy caminhou devagar até o sofá, sentando-se a meio metro de distância do ex-palhaço. Sempre se sentia intrigada com o vasto conhecimento dele.

— Mas, se quer saber de uma coisa... Até mesmo o filme que mencionou permite a abordagem das metáforas. Os mesmos preceitos estão lá — admitiu o homem, dividindo seu olhar entre o texto que lia e os olhos de Peggy.

— Conheço um pouco daquela história de... Complexo de Peter Pan — falou Peggy, ajeitando uma mecha atrás da orelha, encarando a capa do livro. — Acho que minha mãe sofria disso — confessou ela, dando um sorriso encabulado. Peggy sabia que Dakota fora uma refém da própria beleza, incapaz de aceitar o próprio envelhecimento, querendo permanecer linda e jovem para sempre.

— Ah, qualquer pessoa que atinge a maturidade tem de passar por essa fase... Mas eu diria que o complexo de Peter Pan é pouco para a riqueza de detalhes deste livro. Afinal, a história abrange temas metafísicos, como a total negação do homem da certeza da morte, a passagem do tempo, a completa dificuldade de aceitar o envelhecimento... O desejo impossível da maturidade e da juventude ao mesmo tempo — Moritz suspirou, baixando seu livro.

— Consegue analisar o que é a figura do crocodilo que comeu o relógio? E o significado dele para o personagem Capitão Gancho, se eu te perguntar? Ou, em outras palavras... — O circense estudou Peggy com cuidado. — O que significa o crocodilo com o relógio dentro de si, seguindo o Capitão Gancho e nunca o deixando em paz, apenas esperando para devorá-lo? — indagou o ex-palhaço, uma centelha de interesse brilhando em seus olhos castanhos, focados nas íris da adolescente. Ela baixou os olhos para o livro de Barrie, entrelaçando os dedos, sem jeito.

— Acho que ele é uma metáfora para o tempo. Que persegue a todos, mas mais especificamente os piratas, que são os únicos mais... Velhos. — Os olhos de Moritz se estreitaram enquanto ela falava. Peggy continuou:

— E mais especificamente ainda, persegue o Capitão Gancho. Que ele sempre quis devorar. O crocodilo por si só é o tempo, o tempo contando, passando, que o Capitão não consegue aceitar... Por isso ele odeia o Peter Pan: pela inveja da juventude que se foi e não voltará mais? Projeta seu medo da morte e sua inveja nele, o garoto jovem para sempre? — respondeu ela em uma pergunta, sem certeza.

Moritz sorriu amplamente para ela, levantando as mãos e lhe batendo palmas discretas. Peggy sorriu, sem jeito, encolhendo os ombros.

— Você daria uma excelente estudante de filosofia. Com uma mente tão afiada assim... Quem me dera se a maioria dos meus alunos tivessem tamanha habilidade interpretativa — o também ex-professor de filosofia sorriu para ela, transparecendo admiração. Sem saber como reagir, Peggy continuou em silêncio.

— Consegue analisar algo mais, Peggy? — perguntou Moritz, interessado, ao passo que a filha de Dakota tentou ter alguma ideia.

— Aquela princesa indígena da tribo da Terra do Nunca me lembra um pouco a Aya — comentou ela, sorrindo sem graça, fazendo o ex-palhaço rir de leve outra vez, polidamente.

— Uma comparação justa — brincou ele — você também tem sua representação no texto — acrescentou, com o mesmo olhar brincalhão.

— Quem? Wendy? — indagou Peggy, torcendo os lábios, ressabiada.

— Não. — Moritz abanou o ar outra vez, franzindo as sobrancelhas. — Wendy representa a figura da irmã mais velha, da mãe. Da menina quase sem imaginação, a protetora já cínica demais para as reflexões da Terra do Nunca — julgou ele.

— Então...? — Peggy indagou, curiosa, ainda sem saber bem como reagir.

— Você seria a Sininho — completou Moritz, e Peggy riu, incrédula.

— Isso é por causa da minha altura, por acaso? — ela rebateu, passando a mão pelo rosto, um tanto envergonhada.

— Não — o sujeito respondeu, afável. — É pela sua postura independente, liberdade de pensamento e personalidade questionadora. Além da lealdade e firmeza em suas próprias convicções. O que se comprova por ter sido a única pessoa em toda Alexandria que recebeu a nós, as “aberrações de circo”, sem nenhum pré-julgamento — complementou ele a fala elogiosa, e Peggy sentiu um rubor subir às suas faces.

— Até o supostamente temível Capitão Gancho, o personagem mais humano da história... Admira a personalidade da fadinha decidida. Sua coragem — adicionou Moritz, ajeitando os óculos no rosto.

— Eu bem gostaria de ser tudo isso...

— Você é. Um dia ainda há de descobrir por si mesma — Moritz falou, comprimindo um bocejo. Ainda parecia exausto.

— E você? Tem seu “representante”, também? — indagou Peggy, divertindo-se com a conversa, ficando cada vez mais desinibida.

— Ah, é fácil reconhecer — ele riu, levantando as sobrancelhas.

— Capitão Gancho? — Peggy analisou, certeira.

— Bingo! — o ex-palhaço completou. — Por mais que tenha estudado muito por toda a minha vida, ainda não descobri a forma de aceitar a efemeridade da vida... Por mais que este mundo seja ainda mais caótico hoje em dia... Pense bem e veja como, ironicamente, todos nós nos agarramos ferrenhamente à vida, mesmo cercados de mortos-vivos por todos os lados? Em um mundo onde só há caos, ameaçando esta pequena redoma de proteção que é esta comunidade... Ainda assim preferimos à vida, repleta de possibilidades, em comparação a certeza inevitável da morte.

— Somos escravos do tempo, agarrando-nos a uma ilusão de estabilidade... É de nossa condição inflexível esta fragilidade, esta incapacidade de aceitar que somos, de fato, meros mortais... Apenas humanos — terminou ele, seu olhar contemplativo na parede atrás de Peggy, refletindo. — Não há Terra do Nunca para nenhum de nós, infelizmente. Por isso não passo de mais um dos muitos e patéticos Capitães Ganchos — zombou ele, rindo melancolicamente.

Não há Terra do Nunca... Peggy pensou, também melancólica. Ainda digeria a verdade evidente nas palavras de Moritz, quando deu um sorriso curto.

— Na verdade... O Capitão Gancho sempre foi meu preferido — admitiu ela, ingenuamente.

Moritz levantou os olhos para a garota, outra vez atento à sua presença. Outra centelha curiosa faiscou em seus orbes escuros, e, subitamente, Peggy se perguntou se não falara demais.

— Você guarda muitas surpresas, não é, minha querida? — falou o ex-palhaço com afabilidade tamanha que Peggy não soube o que responder. Manteve o olhar nos olhos dele, sem reação, até que por fim o ex-professor decidiu se levantar.

— Bem. Sinta-se à vontade para ler o que quiser. Vou cochilar mais um pouco lá em cima. Passei a manhã e a tarde debatendo com o comitê político de Alexandria, acredite, isso pode ser incrivelmente desgastante... — O ex-palhaço se despediu de Peggy com um aceno de cabeça, deixando-a a sós na sala.

Por que toda vez que conversamos é assim? A filha de Dakota se questionou, incerta. Baixou os olhos para o livro, sentindo alguns gêneros desconhecidos de emoções conflitantes duelarem dentro de si.

Começou a leitura do livro, pouco a pouco se ajeitando no sofá. Quando deu por si, já estava deitada, avançando rapidamente na leitura.

Adormeceu ali mesmo, dormindo por horas a fio.

Ao acordar, sobressaltada, sem saber onde estava, Peggy engoliu ar em um espasmo angustiado. Viu-se aconchegada em um cobertor cheiroso de lã, na mesma sala onde adormecera, com a mesma iluminação do abajur.

Olhou seu relógio de pulso, e logo escutou uma voz conhecida:

— Já ia te acordar. São quase dez horas da noite — afirmou Moritz, um pouco atrás dela. Peggy voltou os olhos para ele, sentando-se no sofá, seu corpo quente por causa do cobertor. O homem parecia absorto na leitura do mesmo exemplar que o vira retirar da estante naquele fim de tarde.

— Espero que não se incomode. Aiyana me acordou algumas horas atrás, quando voltou, dizendo que você estava congelando de frio aqui embaixo. — Ele indicou o livro de James Barrie, em seguida, em uma mesa próxima. — Seu livro está ali, caso esteja se perguntando.

Peggy encarou o cobertor, sentindo-se subitamente muito emocionada. Aquele tipo de cuidado e gentileza que Aiyana e Moritz tinham com ela era algo tão gratuito, e ao mesmo tempo, lhe parecia mais genuíno do que a culpa que ela via nos olhos de Annie e de Mavie. A culpa que Peggy julgava levá-las a cuidar dela. Sabia que as duas tinham apreço por si, mas a filha de Dakota não podia deixar de interpretar que aquele carinho vinha de algum tipo de “dever” que as duas julgavam ter para com ela, dever esse que não existia, na verdade.

Já os dois membros do circo Alvintzi... Apenas conheceram Peggy em Alexandria, e criaram um vínculo com a menina, apesar das probabilidades. Como Peggy já refletira, não era na presença de Mavie e Annie que ela se sentia em casa.

Era com seus amigos circenses.

— Obrigada. — Peggy controlou lágrimas inconvenientes que lhe subiram aos olhos.

— Disse para não se desculpar, agora digo para não agradecer. Não precisa — adicionou o ex-palhaço, ainda lendo.

— Não estou agradecendo por isso.

Moritz levantou os olhos para Peggy, agora mais atento. Outra centelha se fez ver nos olhos enigmáticos daquele sujeito.

— Entendo — falou o homem, misteriosamente. Os dois se encararam por algum tempo, até a garota decidir se levantar.

— Se Annie estiver preocupada, posso conversar com ela amanhã — Moritz falou, depois de levar a menina até a porta.

— Não precisa — a adolescente afirmou, balançando a cabeça. O ex-palhaço abriu a porta para ela, e, antes de sair daquela casa, Peggy pensou no que Aya havia lhe dito mais cedo, naquele dia.

“O significado essencial do tigre é a resiliência, força de vontade, força pessoal...

...E coragem”.

Peggy tomou uma decisão.

A garota voltou-se para trás, lançando os braços aos ombros de Moritz. Abraçou-o, demonstrando, naquele gesto, mais do que poderia almejar falar.

Demorou alguns segundos para que ele reagisse, enfim abraçando a garota em retribuição, com suave gentileza. Peggy sussurrou, baixinho:

— Obrigada por tudo. — E o soltou, virando de costas para ele, saindo pela porta afora.

— Não há de quê, Sininho. — A voz do ex-professor de filosofia atingiu os ouvidos de Peggy, que riu discreta, saindo na noite de Alexandria para a casa de Mavie, Tara e Annie.

Ouviu os grilos cricrilando na noite fria, enquanto ela sorria para si mesma. Não demoraria muito, mas já ansiava para acordar no dia seguinte... E reencontrar sua nova família.



*****

[UMA SEMANA DEPOIS]

Retirou sua faca do bolso lateral do jeans, prestando atenção nos ruídos que a cercavam. O som gutural solitário que entoava pelo ar como um pio de uma ave moribunda indicava que apenas um estava ali perto.

Tudo sob controle. Pensou ela, respirando fundo. Se acalme, você vai conseguir.

O morto-vivo saiu de trás do tronco grosso de um salgueiro velho, suas mãos erguidas para ela, sua camiseta de flanela suja de sangue já tão escurecido que parecia negro. Mordia o ar, faminto, mas a garota se aproximou até o ombro dele, circundando-o com rapidez.

Fincou a lâmina de sua arma por trás do crânio do cadáver ambulante, fazendo-o cair de joelhos, desfalecido.

Logo depois, limpou a faca na barra de seu próprio casaco, já identificando outro som alguns metros atrás de si. Galhos se partiram, e um estampido leve, muito leve, movendo parcialmente a terra úmida, foi identificado por seus ouvidos atentos. Não estava sozinha.

Enid sorriu, e falou:

— Carl, eu sei que está aí — a garota riu, guardando a faca no bolso outra vez.

Nenhum ruído em resposta, nenhum movimento. Revirando os olhos, ela se abaixou. Enid pegou uma pedra do chão, atirando-a na direção que sabia que o garoto estava escondido, erguendo-se novamente.

— Ai! — O som da voz do filho de Rick ergueu-se no ar silencioso da mata, enquanto ela riu outra vez. Arbustos foram movidos, e logo o rapaz com chapéu de xerife revelou-se aos olhos de Enid.

— Bela forma de agradecer pela proteção — debochou o menino, seus olhos azuis cintilando um pouco irritadiços. O orgulho daquele garoto era enorme, e provocá-lo a divertia demais.

— Ah, porque você me ajudou muito a matar o morto-vivo, né? — troçou ela de volta.

— Eu sabia que você daria conta. Deveria ficar feliz por eu reconhecer suas capacidades — Carl retrucou, encarando a menina. — Só que, se fosse eu, teria dado cabo dele uns bons minutos antes — gabou-se o garoto, andando para mais perto dela.

— Ah, falou o “fodão” — zombou Enid, sorrindo para ele.

— Falei apenas verdades — retorquiu Carl, dando de ombros.

— Bem, que tal se a gente, ao invés de alimentar seu ego... — Enid deu um olhar debochado para ele, que sorriu enviesado — ...Fôssemos buscar aquilo que combinamos ontem?

Os olhos azuis de Carl brilharam animados.

— Acha que vamos conseguir?

— Não sei. Nunca entrei naquele galpão. Mas vai que dá certo? — mentiu a menina, mantendo o olhar de Carl Grimes.

Enid testemunhara a chegada do grupo de Rick Grimes a Alexandria. Desde que estivera na comunidade, jamais vira um grupo tão grande aparecer de uma vez nos portões. Soube que eles eram excepcionalmente diferentes da população da comunidade assim que pôs os olhos neles.

E, por isso, os observou de longe, do galpão antes da entrada dos muros, lugar que gostava de ir para se esconder do mundo, se esconder daqueles habitantes pacatos. Moradores que ela, no fundo, desprezava. Pessoas que nunca souberam a verdadeira dor de perder alguém para o novo mundo, para o caos dos mortos-vivos, longe daqueles muros de falsa segurança.

Enid perdera toda a sua família para a nova ordem mundial. Nova ordem mundial que era, na verdade, a plena instabilidade. Ela soubera na pele, na alma, o sofrimento de viver sem saber o dia de amanhã, de passar dias e dias na estrada sem um abrigo, sem nada entre a fome, o medo e os mortos que caminhavam.

Mas nada lhe doera mais do que quando a sua própria comunidade, lugar em que morava antes de Alexandria... Fora tomada pelos mortos-vivos. Pelos mortos-vivos, e por pessoas.

Pessoas que se auto-intitulavam os “Wolves”.

Fora por muito pouco que a garota conseguira fugir de Wiltshire Estates. No meio de toda a confusão, da massiva horda de cadáveres famintos que adentrou os muros explodidos, queimados e derrubados por aquele grupo cruel, ela mesma guiou seu pai, sua mãe e seu irmão, uma criança parecida com Sam, o filho de Jessie, até um buraco na construção da murada que somente ela julgava conhecer, quase como uma passagem secreta.

Correram juntos, desesperados, mas eram muitos carniceiros. A multidão de mortos ambulantes os encontrou, e somente Enid foi ágil o suficiente para escapar de ser devorada, arrastando-se veloz como um animal acuado para o buraco nos muros que conhecia.

Ela nem lembrava bem como foi parar em Alexandria. Lembrava-se que foi encontrada nos limites da comunidade por Aaron e Eric, e recepcionada por todos os moradores com toda a gentileza do mundo. Mas nada daquilo soava normal para ela. Demorou muito tempo para conseguir se sentir à vontade lá, para conseguir conversar com alguém mais do que palavras monossilábicas.

Até que encontrou Carl, e reconheceu nele outro sobrevivente. Não mais uma das crianças estúpidas de Alexandria, preocupadas em jogar videogame e comparecer naquele projeto ridículo de escola na garagem de uma das casas. Alguém que passou por tudo o que ela passou, e talvez até mais.

Assim, ambos seguiram juntos, conversando e provocando um ao outro, até chegarem ao galpão vazio, o “depósito de lixo” dos arredores da comunidade.

— Toma cuidado com aranhas, escorpiões, essas coisas. Devem ter desses bichos aí dentro — Carl aconselhou, empurrando a porta dos fundos até que ela abrisse. Entrou na frente, ligando uma lanterna e iluminando o casarão aos pedaços.

Os dois caminharam juntos pelo lugar, Enid espirrando um pouco pela quantidade de pó ali sempre contida. Começaram a vasculhar os armários, mesas de cabeceira e outros móveis quebrados e inutilizáveis ali largados, assim como todo e qualquer objeto que poderia esconder alguma coisa.

— Se a gente não achar nada por aqui, podemos procurar debaixo das tábuas, quem sabe... — Carl sugeriu, enquanto um calafrio gelou a espinha de Enid. Em uma das tábuas soltas, ela escondera diversos itens que roubara de dentro de Alexandria.

— Ah, claro, pode ser — ela respondeu, tentando dar um tom despreocupado à sua voz.

Depois de alguns minutos de procura, Enid fingiu surpresa ao achar um maço de cigarros que ela mesma havia escondido ali, em outra ocasião. Roubara-os do marido de Jessie, Pete, quando ele ainda era vivo, revirando um casaco dele que o homem havia deixado jogado em uma das cadeiras da sala de sua própria casa.

— Olha só! — A garota mostrou o maço para Carl, que sorriu, empolgado.

Os dois saíram do depósito, encontrando o que buscaram. Andaram alguns metros, se certificando de que o caminho estava livre de mortos-vivos, e enfim se acomodaram a sombra de uma árvore em uma clareira aberta. Se algo se aproximasse, poderiam ver e ouvir com folga.

Enid abriu o maço, dando um cigarro para Carl. Ele ficara encarregado de levar fósforos para aquela tarde.

O garoto acendeu primeiro o cigarro dela, e depois o que ele mesmo fumaria. Enid sorriu, vendo a forma decidida com que o menino fingia saber como fazer aquilo.

— Você está soprando toda a fumaça pra fora — a garota riu com gosto, enquanto Carl lhe deu um olhar irritadiço. — Não é assim que se fuma! — Enid disse, mas o garoto ainda a ignorava, agindo como se fumasse com frequência.

— Olha. É fácil. — a garota segurou a mão dele, com gentileza, para que prestasse atenção. O olhar de Carl se modificou na hora, primeiro encarando a mão da garota, depois voltando a encará-la, muito mais atento.

— Você pega o cigarro, inspira e traga. — Ela assim o fez. — Depois disso, sente a fumaça entrar, relaxando seu diafragma. — A garota tocou o próprio tórax. — E aí, solta — esclareceu.

Carl Grimes repetiu os movimentos dela, com mais calma daquela vez. Tossiu, fazendo a garota rir.

— É normal não aguentar de primeira — falou Enid, simpática.

— Isso daqui é uma merda. — Carl fez uma careta de repulsa para o cigarro, jogando ele ao chão e apagando-o com o tênis. — Fede e é nojento. Mas a sensação quando entra a fumaça é boa — admitiu o rapaz.

— Então esse foi seu primeiro cigarro? — Enid indagou, levantando uma sobrancelha sugestivamente.

Carl anuiu com um aceno de cabeça, um pouco constrangido.

— Relaxa — falou a garota, olhando dos olhos azuis de Carl para o céu de tonalidade tão parecida. — Apenas aproveite o momento. — A menina deu mais uma tragada no cigarro, enquanto os dois ficaram em silêncio, relaxando na tranquilidade do ambiente.

Enid finalmente terminou seu cigarro, apagando-o da mesma forma que Carl o fez com o seu.

— Acho que já sei o que fazer para aproveitar — Carl disse, e Enid voltou-se para ele. Sentados lado a lado, ela viu algo mudar nos olhos claros do garoto.

Carl Grimes passou um dos braços ao redor dos ombros dela, gentilmente enlaçando-a para perto dele. Aproximou seu rosto do dela, enquanto Enid fechava os olhos, sentindo um rubor fervente subir-lhe às faces.

Como ela já sabia que aconteceria, mais cedo ou mais tarde... Beijaram-se.



*****

Carl acompanhou Enid de volta para casa, enquanto ela reparava de esguelha que o garoto mantinha um sorriso curto vitorioso ao rosto. Será que foi o primeiro beijo dele também, não só o primeiro cigarro? Pensou ela, divertindo-se com a ideia.

Quando chegaram aos fundos do quintal da casa em que a garota morava, Enid pretendia se despedir de Carl com um aceno, mas o garoto a segurou pelo braço.

— Enid. Por que mentiu pra mim? — o garoto indagou, enquanto ela se voltava para olhá-lo.

— O quê?! — ela se sobressaltou, afastando-se. Carl não se moveu.

— Eu sei. Você acha que eu não percebi que você conhecia o lugar? Não sou burro. Sabia que você já conhecia aquele depósito desde que descobri que você gostava de vir aqui fora sem ninguém saber.

Enid baixou os olhos para os próprios pés, desviando o olhar do garoto.

— Foi você que pegou a arma do meu pai? — perguntou o rapaz, olhando-a com seriedade. Avaliando-a. Nunca se parecera tanto com Rick quanto agora, aos olhos dela.

— Não. O quê? — Enid falou, genuinamente surpresa. — Do que você está me acusando? — ela acresceu, agora irritada.

— Não estou te acusando. Estou te perguntando — esclareceu o garoto, ainda austero. — E, pelo visto, agora você falou a verdade. Fica completamente diferente quando fala assim — observou o filho de Rick, sua voz monocórdia.

— Você não precisa ter medo de mim, Enid. Não precisa mentir pra mim. Até porque, assim como você, eu já passei por muito, aprendi muitas coisas. — Ele se aproximou dela, estudando seu rosto por todo o tempo.

— Você não precisa me contar nada. Não tenho direito de te cobrar nada. Mas, uma das coisas que eu aprendi, foi a identificar gente mentirosa. E, admito que... — Ele deu um sorriso triste. — Não gostaria que você fosse um desses — Carl disse, afastando-se dela, finalmente desviando o olhar.

Enid encarou a silhueta do garoto se afastando, andando para longe, virando por trás de uma casa vizinha a que ela residia.

Sentindo seu coração acelerar, a garota entrou em sua casa, vazia aquela hora, respirando fundo. Encostou-se na parede, depois de fechar a porta, segurando o maço de cigarros que guardara no bolso. Pensou em subir até o sótão e fumar mais um, para refletir sobre o que acontecera.

Carl era ainda mais imprevisível e esperto do que ela imaginara.

Foi então que uma sombra se moveu por um corredor anexo a cozinha onde ela entrara, tão rápido que ela comprimiu uma exclamação de susto. Viu uma pistola ser apontada para ela, enquanto uma voz falou:

— Venha comigo.

Notas finais
~ Gif resumo do que aconteceu nos dois capítulos postados hoje. ~ Aguardo reviews em ambos os "episódios"! Beijos, beijos, nos vemos a partir de quarta-feira da semana que vem! Minhas provas do período da manhã terminam terça-feira, quarta terei alforria hahahahaah!