Hunter's Instinct

44 Episódio 44 - Failure


Notas iniciais
Oiii meus amores! Mil desculpas pela demora, gente! Eu achei que ficaria livre semana passada com o fim da semana de provas do diurno, mas infelizmente tive de me virar para terminar rapidamente meu projeto de monografia. Passei um tempo bem ocupada, mas eu prometo que as postagens voltarão a ser semanais a partir de hoje, ok? Dedico este capítulo aos leitores Thaaty, Sami, Anna L, marcelammota, Harley Quinn, Luna Miller, Giovana Catalani e Vivi Costa! Cada review de vocês conta, é um pedacinho de céu pra mim, saibam disso. O que me sobra tempo para dar um puxão de orelha em certo leitor atrasildo... FILHO DE KIVI! O senhor está intimado a comparecer na diretoria para retirar o atraso da leitura de Hunter's Instinct, sob pena de multa diária no valor de 50% dos honorários sucumbenciais auhushsuheuh! Adianto que esse capítulo tem três mortes (sim, três mortes), PORRADA, briga, tiro, Frankies a torto e a direito... Tudo isso em um POV da Mavie! E também tem um POV da Carol com mais revelações sobre o Exército de Wyoming County e uma interação no mínimo curiosa entre ela e o Tucker! Dito isso... Beijos e boa leitura!

A garota ajeitou a aljava de flecha nas costas, passando a alça em um de seus ombros. Tocou as pontas traseiras das flechas levemente, apertando-as com certo nervosismo.

— Hey! Gente, falei para prestarem atenção.

A voz de Glenn soou imperativa, porém um tanto tensa. Mavie percebia que não era um privilégio dela estar completamente preocupada com a difícil tarefa que desempenhariam em breve.

Saindo de manhã cedo após um módico café da manhã — para que a barriga cheia não impedisse ninguém de manter suas habilidades motoras e atenção —, o grupo de batedores de Alexandria se reunia na frente de dois amplos furgões. Os novos coletores pareciam ainda mais dispersos e preocupados do que seus líderes, andando de um lado a outro, cruzando os braços, sussurrando ansiosos.

A única exceção aquele clima de tensão pura era Aiyana, que não pareceu se surpreender com o plano dos chefes dos batedores. Berry ainda se sentia surpresa ao aferir que aquela garota tinha apenas dezessete anos de idade. Ao contrário do que fez Moritz — quem era compreendido como o responsável pela garota indígena —, Mavelle jamais permitiria que Peggy saísse em uma missão tão cheia de... Poréns.

Mavelle e Glenn eram a liderança do grupo, os que estudaram os mapas, fotos da localidade que pretendiam ir, e elaboraram todo o plano de coleta e de volta à comunidade.

Era arriscado. Era o mais arriscado que já tinham bolado.

Mas tinham de fazê-lo.

A garota irlandesa passou os olhos por todos os presentes que, pouco a pouco, iam se calando para dar atenção a Rhee. Contou os cerca de oito batedores que agora seriam liderados por ela e pelo marido de Maggie, respirando fundo para se controlar.

— Pode falar, chefe. Estamos esperando — Becky, a jovem moça loira que se voluntariara para integrar o corpo de coletores da comunidade girava o bastão nas mãos, andando impaciente de um lado a outro. Mavie Berry aos poucos aferia que a loira, por alguma razão, parecia evitar falar, olhar, ou trocar qualquer tipo de mínima interação com ela. Se dirigia sempre, praticamente, única e somente a Glenn.

— Então, é simples. Nós vamos nos organizar em dois grupos, de acordo com nossas habilidades — o descendente de asiáticos começou — por isso foi tão importante treinarmos vocês ao longo de todo esse tempo que passou.

— Essa missão não será como as outras — continuou o futuro pai — vocês precisam entender que realmente será fundamental que escutem tudo que eu e Mavie tivermos a dizer pra vocês. Cumprir nossas diretrizes pode ser a diferença entre a vida e a morte — assegurou o esposo de Maggie.

— Como já falamos para vocês, a área que pretendemos limpar está atolada de carniceiros — Mavie interrompeu, forçando-se a soar mais assertiva e menos aflita — por isso nós desenvolvemos toda uma estratégia para que ninguém saia ferido. — Mavelle cruzou os braços, buscando aparentar uma postura mais respeitável.

— Por que nós não tentamos em um lugar menos... Perigoso? — Jenny, uma garota de dezenove anos, muito magra e de cabelos naturalmente loiro platinados, roía as unhas, com um barulho irritante de estalo.

— Nós já explicamos, Jenny... — Glenn controlou um suspiro cansado. — Precisamos armar melhor Alexandria. Agora que temos tantas pessoas em tarefas de patrulha, mais missões externas e tudo o mais, precisamos de mais armas. O arsenal não é suficiente — ele repetiu o que já haviam esclarecido algumas vezes.

Jeez, tudo bem, já entendemos — Becky falou, impaciente. — Por favor, passem as instruções, antes que o tempo passe e a gente nem saia daqui — ela insistiu, impertinente. Mavie levantou uma sobrancelha, intrigada.

Nos treinos, Rebecca Gable sem dúvida se destacara — assim como Aiyana —, como uma das sobreviventes mais bem preparadas para missões externas. Atleticamente adaptáveis, rápidas, boas de mira, ágeis, as duas poderiam ser consideradas "alunas nota 10" de como sobreviver a infecção dos Frankies em qualquer cenário de risco.

Ao contrário da jovem indígena, Mavelle reparava que Becky não parecia tão estável emocionalmente. Impertinente, piadista em excesso, impaciente... Será que ela estava emocionalmente preparada para o que fariam?

Não poderiam se dar ao luxo de cortá-la do grupo, porém. Cada ajuda seria necessária.

— Ok. — Mavie se espreguiçou, estalando o pescoço. — Vamos nos dividir em dois grupos de cinco. Os "atiradores de elite" vêm comigo, e os camaradas da "linha de frente" vão com Glenn. Eu dirigirei um furgão, ele dirigirá outro.

— Vamos por entradas diferentes? — perguntou Heath, um jovem alto, coçando a cabeça repleta de dreads.

Mavelle viu Glenn afirmar com a cabeça.

— Eu, você, Tara, Rebecca e Chester iremos pela entrada principal. Como falamos pra vocês e mostramos nas fotos de Aaron e no mapa, vamos para um galpão amplo. Isso significa que temos pouquíssima probabilidade de ficarmos presos em algum lugar. — Os olhos estreitos do descendente de coreanos se afunilaram ainda mais. — Mas isso também significa que as chances de toparmos com hordas grandes lá dentro são consideráveis — garantiu ele, parecendo atento a qualquer reação covarde de um dos batedores.

— Todos prontos? — Mavelle questionou. Sentia que a tensão no ar só aumentava, quanto mais tempo postergassem a viagem inevitável.

— Posso ir no banheiro rapidinho? — pediu Chester, um rapaz branquelo e parrudo que, apesar do físico forte, não demonstrava um emocional condizente com seus músculos.

— Já deveria ter ido, bexiga de grávida — debochou Rebecca, enquanto Heath, próximo dela, dava um risinho nervoso.

Por St. Patrick, esses camaradas vão ter de dar conta do recado. Pensou Mavie, angustiada, tentando não demonstrar sua falta de confiança no grupo.

Assim que Chester voltou, os grupos se dividiram devidamente, e Mavie Berry ajeitou-se no banco do motorista do furgão. Ao seu lado, sentou-se Aiyana, seus olhos muito negros reluzindo em uma calma translúcida que deixou Mavelle embasbacada. De que material é feita essa gente do circo?!

Na parte de trás, ajeitava-se Jenny, colocando nervosamente a munição no rifle que usava bem, quando concentrada. Ao lado dela, Lisa, uma mulher de uns quarenta anos, ruiva, a pele curtida pelo sol, um pouco acima do peso. Tinha uma mira talentosa que ela dedicava, em outros tempos, apenas ao golfe. Por fim, como único homem do grupo, Mavelle levara Eugene, que decidira perder definitivamente seu medo de errantes. A garota irlandesa percebera que ele conseguia manejar suficientemente bem uma carabina, se conseguisse manter seu auto-controle.

A viagem foi curta em termos de quilometragem — apenas cerca de 117km de distância de Alexandria, nos arredores de Dahlgren, pequena cidade localizada também no estado da Virgínia —, e Berry a passou em conversa fiada com a garota indígena, tentando esconder sua ansiedade. Volta e meia, ouvia Glenn chamá-la no walkie talkie, avisando quando mudaria de rota por conta de um aglomerado maior de mortos-vivos, ou destroços demais nas estradas.

Seguiu o furgão de Rhee por todo o tempo, tentando se focar apenas no momento presente da missão. Mas parte das fotos que Aaron lhes dera — e que os dois haviam escondido do grupo de coletores —, revelava que o galpão para onde iriam escondia muitos tesouros, porém a custos altos.

Por diversas fotos, Mavelle e Glenn puderam ver que cerca de centenas de carniceiros se agrupavam ali. Não era difícil imaginar a razão daquilo.

Os líderes dos batedores haviam decidido aquela viagem por conta do que havia naquele local. No momento do início da infecção, se dava na parte rural de Dahlgren uma convenção de um nicho particular de habitantes daquele estado. Uma convenção que, mais especificamente, foi feita naquele galpão para o qual iriam: a feira anual de exposição de armas dos membros da ANR, Associação Nacional do Rifle, moradores do estado da Virginia.

Todos os norte-americanos malucos por armamentos — a mesma estirpe de gente bitolada que, Mavelle imaginava, deveria ter feito aquelas entrevistas constrangedoras para o filme "Tiros em Columbine" —, do estado e de estados vizinhos provavelmente devem ter se reunido ali, assim como uma pesada quantidade de armamentos diversos que poderiam ser mais do que úteis naquele momento.

"— Deus abençoe a América!" Berry havia dito, com ironia, para Rhee. Aaron fora contra a decisão dos dois, mas não tentara impedí-los. Achava que dificilmente sairiam ilesos da missão, e, se saíssem, mais dificilmente ainda conseguiriam fazer a coleta das armas.

Mas ela e Glenn sabiam. Tinham de tentar.

Mavelle, perdida em pensamentos, fez a curva final na estrada, vendo ao longe o galpão imenso que deveria reunir dentro de si inúmeros estandes com diversas armas em exibição. Concentrando-se apenas na missão, na ideia de pegar o que precisavam e sair rapidamente, ela tentou evitar lembrar-se do que fizera.

Mavie não contara para Annie os riscos da tarefa que iriam fazer. A idosa parecia ver que algo a preocupava, mas não perguntou-lhe nada, talvez temendo importuná-la. Mas não era a reação da avó que a preocupava, quando voltasse.

Na verdade, o que a deixava um tanto incomodada era que não contara para Daryl a ideia que ela e Glenn tiveram. Sabia que ele seria contra, que talvez tentasse frustrar os planos dela, ou se meter no meio. Mavelle não fazia a menor ideia de como ele reagiria aquilo, mas ela imaginava que não seria de uma forma... Tranquila.

Um bipe no walkie talkie e a interferência de uma chamada em curso a despertou de suas preocupações mais internalizadas. Berry levantou as sobrancelhas, atrapalhando-se um pouco para atender.

— Mavie, assim que parar o carro traga o pessoal para cá. Para a entrada, onde estou — solicitou Glenn, sua voz um pouco falha.

— O que foi? — a irlandesa perguntou, crispando os lábios.

— Você tem que ver isso. — A voz do descendente de coreanos saiu quase muda, revelando alguma espécie de choque.

Aos poucos, aproximando-se cada vez mais do galpão, Mavelle podia ver que a entrada principal, ao contrário do que mostrava as fotos de Aaron... Estava totalmente fechada. Ainda mais nervosa, Mavelle parou o furgão, seu coração quase estourando dentro de seu peito.

Tentando soar o mais fria e controlada possível, ela direcionou todos para fora do automóvel, pedindo que a seguissem, atentos a qualquer movimentação.

O grupo seguiu a garota morena, usando suas armas para eliminar alguns mortos-vivos que surgiram pelo caminho, a maioria demasiadamente empodrecida pelo tempo, provavelmente infectados logo no início do surto da praga.

Assim que alcançaram a entrada da exposição de armas, Glenn ali estava, os outros quatro batedores ao seu lado tão confusos quanto o líder.

— Mas que porra é essa? — perguntou Lisa, seus olhos castanhos estreitando-se, tentando entender porque o local parecia hermeticamente fechado.

— Eu já falei para eles. Deve ter alguém aí dentro — Rebecca comentou tão despojadamente que parecia falar sobre um assunto sem importância.

— Acho que deveríamos desistir da missão — Eugene aconselhou, estático, parado alguns metros atrás do grupo.

— Espera aí, cara! — Heath usou o braço da pistola para coçar o rosto. — A gente nem decidiu o que fazer ainda.

— Vamos decidir agora. É melhor voltarmos — insistiu o professor de ciências, resoluto.

Mavelle percebeu que a situação estava saindo de controle. O grupo, que ficou mais controlado dentro dos furgões, com a auto-estima mais elevada depois de aniquilar alguns carniceiros, novamente se mostrava desconfiado e acovardado.

— Depois eu que sou o "amarelão". Qual é a sua, nerd? Tá com medo de quê? — Chester, o sujeito parrudo, encarava Eugene, disfarçando seu medo destacando o temor do professor de ciências.

— Isso tem toda a cara de uma armadilha.

Glenn falou o que Eugene tentava defender, e o que certamente havia passado pela cabeça de todos ali.

Um silêncio angustiante imperou sobre o grupo, até que finalmente Rebecca o cortou, revirando os olhos e mascando a própria língua.

— Tá. Se é uma armadilha, por que não aconteceu nada até agora? Nós dez matamos cerca de uns trinta decompostos, todos aqui caídos pelo chão. — Ela indicou com o bastão de aço de baseball a trilha de cadáveres falecidos, sangue e órgãos internos dilacerados. — Não tem vivalma por aqui. Não apareceu ninguém. Já estamos aqui há uns bons quinze minutos — falou a jovem mulher, raspando o bastão no chão para limpar o sangue escuro.

— É verdade. Acho que se tivesse alguém por aqui teríamos reparado em algum mínimo movimento. Qualquer barulho do lado de dentro, desse galpão enorme fechado, ecoaria, não? — Heath perguntou diretamente ao professor de ciências.

— Bem... — Eugene considerou a ideia, coçando a testa.

Mavelle varreu com os olhos todo o grupo. Alguém precisava tomar uma atitude, ou tudo sairia do controle. Ela cruzou o olhar com o de Glenn, e percebeu que ele estava na mesma situação que ela. Indeciso.

— Eu tenho uma ideia. — A garota irlandesa impôs sua voz. Todos olharam para ela.

— Nós temos por aqui alguns equipamentos de alpinismo. Vamos fazer o seguinte: vamos encaixar aquele ferrinho das cordas... — Mavie falou, mas foi interrompida por Heath.

— O ascensor — falou o jovem negro.

— Isso — continuou a irlandesa, levantando as sobrancelhas. — Vamos pegar o ascensor e encaixá-lo no ferro que abre a porta do galpão. — Orientou ela, e Heath já se movia para corrigí-la, mas ela o calou levantando uma mão.

— Com outro ascensor, podemos encaixar a outra extremidade das cordas no furgão. Algumas cordas vão arrebentar no processo, provavelmente. Mas vai dar para fazer um cabo de guerra com a porta do galpão. — esclareceu a garota de dentes salientes, encarando a todos, atentamente.

— Você quer usar a aceleração do veículo pra arrancar a porta articulada? — questionou Eugene, um tanto incerto sobre a ideia.

— Me parece mesmo o único jeito de nós tentarmos abrir isso daqui sem risco de vida para ninguém — retrucou Tara, direta.

— Então... Poderemos fazer assim: um dos furgões puxa a porta até arrebentá-la do lugar, ou ao menos levantá-la. Parte do grupo se esconde, observando perto do outro furgão, e, se não vermos nada, entramos cautelosamente — complementou Glenn.

— Provavelmente o que deve ter ali dentro são apenas mais uns poucos carniceiros, ou um grupo pequeno que usa esse local de esconderijo. Gente que se escondeu, fechou as portas, e sobreviveu ali. Provavelmente estão com medo da gente, se é que tem alguém aí dentro — assegurou Mavelle, tentando incutir mais coragem no grupo. Ela trocou olhares com Glenn. Era realmente estranho, muito estranho, que centenas de mortos-vivos não estivessem mais ali. Mas... O que poderiam fazer? Desistir sem ter certeza não era uma opção.

— E se a porta arrebentar e tivermos de fugir pelo que tem lá dentro? — questionou Chester. — Vamos sair como se estivéssemos em um desenho animado arrastando a porta? — duvidou o sujeito.

— Claro que não, né — adiantou-se Tara, parecendo incrédula — é só abrir a porta traseira do furgão e soltar o ascensor.

Os batedores se entreolharam, alguns mais animados com a ideia, outros duvidosos. Glenn e Mavie se encararam mais uma vez, decididos.

— Ok, vamos nessa — falou o descendente de asiáticos, e logo todos puseram em prática o plano. Encaixando o ascensor no puxador da porta articulada do galpão, e também na traseira da van, Glenn e os quatro "atiradores" fora Mavelle se reuniram no furgão. Mavie liderou o restante do grupo para uma área próxima, onde se esconderam atrás de alguns destroços e muros encarquilhados, próximos do outro automóvel. Ela pegou um dos binóculos, mirando atenta na entrada da exposição de armas. Tara, ao seu lado, tinha a pistola apontada diretamente para a porta, assim como todos os outros batedores restantes.

Não foi necessário muito esforço, e logo o furgão abriu com surpreendente suavidade a porta de correr, dobrando-se em si mesma e subindo. Revelou o espaço escuro lá dentro, o que foi uma surpresa ainda maior, e mais inquietante.

Não viram absolutamente nada se movimentar.

Jenny abriu a porta do furgão, desencaixando o ascensor, deixando a corda de alpinismo rolar pelo chão, solta, encaixada apenas com a porta de correr do galpão.

Em seguida, os coletores escondidos foram pouco a pouco se aproximando da entrada, enquanto os outros seguiam logo atrás. Em pouco tempo, Glenn e Mavelle trocaram de posições, ele liderando a "linha de frente", e a irlandesa a retaguarda.

Os coletores que entraram primeiro tinham lanternas em mãos, e logo todos — da retaguarda e da frente — viram o cenário bizarro que havia lá dentro. Inúmeros corpos sem cabeça, desfalecidos no chão, outros com tiros em seus crânios, largados retorcidos, indicando que uma luta difícil contra mortos-vivos se dera naquele local.

O cheiro grotesco de carne morta concentrada empesteava o galpão, e logo todos estavam tapando seus narizes com suas camisas e casacos, enquanto os mais despreparados tossiam. Chester virou-se para o lado, e vomitou.

Não havia sinal de cadáveres ainda ambulantes por ali. Todos pareciam ter sido destruídos, com exceção dos carniceiros que se atiravam para frente de grossas grades de ferro, do tipo que se viam nas lojas de shopping, fechadas no que seria a saída do galpão. Mavie percebeu, rapidamente, que estavam restritos a uma mesma saída e entrada, se quisessem voltar para Alexandria. Do jeito que aquelas grades tremiam, reverberando aquele barulho ameaçador de rosnados e ferro arrastado, provavelmente uma parte ameaçadora das centenas de mortos-vivos que viram nas fotos de Aaron ali fora trancada.

Mas, em meio aquele necrotério superpopuloso, havia o material que eles se arriscaram para buscar. À vista e à mão, prateleiras e prateleiras reviradas de armas ainda tinham munição, rifles e armamentos de todo o tipo para serem levados. Aquele local já fora saqueado anteriormente, mas sobrara mais do que o suficiente para guarnecer bem Alexandria.

— Agradeçam à sorte dos irlandeses — Mavelle sussurrou mais para si mesma do que para seu grupo, enquanto Jenny, perto dela, tremia o rifle que tinha em mãos, seu maxilar trincado em concentração.

Pouco a pouco o grupo foi levando para fora um novo arsenal de armas, enchendo as malas dos furgões. Quando estavam fazendo a última limpa, porém, Glenn indicou a Mavelle que havia um local que não haviam olhado. Uma outra grade longínqua, que também ia do chão ao teto, separava o grupo de uma pequena área do galpão, que, pelas paredes mal tinha espaço para conter um estande. Devia servir de depósito para algo.

Tara, Glenn e Mavie se moveram para examinar o local, Rhee e Chambler com lanternas na mão.

O queixo de Berry caiu e seu coração quase parou.

Nicholas estava ali dentro. Nicholas, que sumira de Alexandria, que Daryl, Aaron e outros grupos de patrulha procuraram por dias e dias, e parecia ter desaparecido por completo.

Nicholas ali estava, amordaçado, amarrado, olhando para Glenn em desespero. Parecia gritar dentro das mordaças, movendo a cabeça insistentemente em negativa, desesperado.

— Puta que pariu — falou Tara, exibindo o sentimento geral.

Glenn não esperou. Puxou a cerca de ferro para cima, empurrando-a com toda a sua força.

Não poderia ter cometido um erro maior.

— NÃO! — A voz curta de Eugene vaticinou o temor que os acometeu.

Assim que Glenn levantou a cerca e Nicholas continuava se debatendo em desespero, um estalo alto e agudo ecoou pelo ar. Fez um ruído particular e estranho, como se algo corresse de um lado a outro.

Mavelle olhou para o teto, assim como alguns batedores, que iluminaram as vigas ali expostas. Algum tipo de sistema com fios de aço fora organizado com precisão ali, unindo, meticulosamente...

A cerca que separara Nicholas do resto da exposição de armas... Junto a cerca que separara as centenas de carniceiros do grupo de coletores.

Um zumbido, talvez o eco daquele som horrível do aço estalando e abrindo a cerca muitos metros atrás deles, tomou conta da cabeça de Mavie. Por alguns segundos, ela não reagiu, apenas olhou a grade de ferro de loja que continha os errantes ser levantada, como um portal para o submundo.

Uma fração quase incontável de tempo depois, eles já estavam correndo, perseguindo os dez coletores como feras bestiais. Dentes arreganhados em rostos que eram mais cadavéricos do que humanos, olhos injetados como vidro, unhas amarelas como garras de monstros mitológicos.

Nesta mesma fração de segundo, Mavie percebeu algumas coisas.

Chester tinha todo o corpo trêmulo, como se fosse incapaz de manter-se de pé. Lisa cambaleara para trás, o rifle em suas mãos quase caindo de seus braços. Jenny, ignorando todo o resto do grupo, jogou seu fuzil para o lado e correu desesperada para a porta, gritando mais alto do que a multidão de cadáveres.

Aiyana retirou uma de suas adagas, pronta para atirar no carniceiro que se aproximasse primeiro. Seus olhos calmos agora estavam injetados de medo.

Becky sorriu um sorriso maníaco, parecendo aterrorizada e simultaneamente divertida. Tara mirou sua pistola o melhor que podia, seus braços também tremendo. Glenn chutou a grade de ferro para baixo, prendendo Nicholas novamente.

Eugene colocou-se na frente de Tara, ele mesmo levantando sua pistola, mirando na parede ao invés de mirar nos mortos-vivos. Heath apontou sua arma para os carniceiros, olhando para Glenn, esperando ajuda.

Todos os carniceiros correndo na direção deles tinham uma estranha marca de "W" em suas testas.

E Mavie subitamente soube o que fazer.

Antes que sequer percebesse que se movera, Mavelle arrancou uma flecha de sua aljava, correndo na frente de todo o grupo. Atirou certeira no morto-vivo mais adiantado, perfurando sua testa e o fazendo cair, barrando o caminho de alguns que tropeçaram em cima de seu corpo desfalecido.

— EM FORMAÇÃO! VAMOS MATAR ALGUNS E RECUAR! — Mavie rugiu, tomada de uma determinação que era nova para ela até então.

A irlandesa pôde ver, de esguelha, os batedores de curta distância se aproximarem dela, fazendo uma espécie de linha de tiro. Glenn correu até onde ela estava, agradecendo com um olhar significativo.

— ATIRADORES, COMIGO! — Mavelle urgiu outra vez, afastando-se da linha frontal, reunindo consigo os que portavam fuzis. Jenny, covarde, havia corrido até a porta, mas ali parara. Percebera que não tinha a chave do furgão, e que não teria como fugir sem o grupo.

— JENNY, BUSQUE A PORRA DA SUA ARMA E VOLTE AQUI AGORA! — exigiu a irlandesa, atirando em mais um cadáver que corria para mais perto deles. Jenny continuou estática, incapaz de se mover. Parecia chorar.

O grupo já recuava até a porta, os novatos atirando mais nas paredes, prateleiras e chão do que nos mortos-vivos, mas, surpreendentemente, nenhuma baixa havia ocorrido.

Assim que chegaram na porta levantada, entretanto, Jenny finalmente reagiu. Seus olhos azuis se arregalaram, e ela puxou a corda prendida pelo ascensor na porta articulada. Parecia tentar trancar o resto do grupo lá dentro, temerosa pelos mortos-vivos.

— SUA VADIAZINHA! — foi a vez de Becky gritar, incrédula.

E tudo finalmente fugiu do controle dos líderes dos coletores.

Chester correu até Jenny, puxando-a pelos pés, fazendo-a cair no chão, tentando rastejar para longe dos fortes braços dele. O sujeito arrastou a garota para dentro, e parecia ensandecido pelo próprio medo.

— BECKY, EUGENE, SEGUREM ELE! — Mavie ordenou aos dois mais próximos dele, nervosa, percebendo o que o sujeito iria fazer. Eugene se moveu para puxar Jenny dos braços de Chester, mas ele apenas o empurrou, fazendo o sujeito acima do peso cair no chão. Becky ignorou as ordens de Mavie, ainda atirando nos carniceiros que se aproximavam.

— BECKY, EU FALEI PARA SEGURÁ-LO! — Mavelle exigiu, tentando atirar uma flecha na perna de Chester, mas errando. Rebecca continuou ignorando-a totalmente.

— Você não vai fazer isso conosco — Chester disse, sua voz ribombando assustada. O homem parrudo literalmente jogou Jenny, que se debatia e o arranhava, aterrorizada, para cima da multidão de cadáveres.

— BECKY! — Mavelle gritou, mas era tarde demais. O queixo de Mavie caiu mais uma vez. Seus olhos arregalaram-se, sem conseguir acreditar no que vira.

A garota covarde, gritando desesperada, passara a ser devorada viva por incontáveis carniceiros. Arrancando seus membros para devorá-los, lutando por um pedaço da carne da garota, alguns dos cadáveres cansaram de tamanha competição e se voltaram para o restante do grupo. Aiyana, certeira e fria, conseguiu mirar uma adaga na cabeça de Jenny, poupando-a de piores sofrimentos.

Chester, que julgou estar livre do perigo, ao se vingar da covardia da garota, foi a próxima vítima. Ele errou alguns tiros, e um carniceiro tão grande e forte como ele lançou-se em seu pescoço, deliciando-se com a carne ao redor de seu pomo de adão. Outros se aglomeraram em volta do corpo do homem, no mesmo festim carnívoro com que atacaram Jenny. Dessa vez fora Lisa quem atirara na cabeça do coletor em um tiro de misericórdia.

Abalado demais para manter posicionamento, o grupo de batedores apenas atirava por suas próprias vidas. Mavie tentava raciocinar, mas era difícil. A cena de Jenny sendo atirada para a morte por um companheiro de missão e devorada daquela forma horrível não saía de sua cabeça.

Já próximos dos furgões, Tara, Heath e Glenn foram para o automóvel que o descendente de coreanos dirigira mais cedo naquele dia. Aiyana, Lisa, Eugene e Mavelle se dirigiam ao seu próprio furgão, mas a irlandesa parou no meio do caminho.

Berry correu até Becky, agarrando-a pelo braço e arrastando-a para o furgão que iria dirigir.

— O que você pensa que está fazendo?! — A jovem mulher loira se defendeu, tentando empurrar Mavie para longe e falhando, enquanto Mavelle somente a arrastava com violência para dentro do furgão.

Jogou-a dentro da porta de trás, enquanto pulou para o banco do motorista, uma mão segurando uma flecha que fincou na cabeça de um morto-vivo que se aproximava dela.

Glenn arrancou com a van, e Mavelle fez o mesmo, dando a partida. Becky ainda reclamava no banco de trás pela violência com que fora tratada, e Lisa parecia tremer, em estado de choque. Eugene estava quieto, olhando para o chão, e Aiyana ainda mais imóvel e silenciosa.

Mavelle viu a multidão de carniceiros restante sumindo pelo retrovisor, conforme disparavam pela estrada com o automóvel. Dirigindo o mais rápido que podia, Mavie chegou a ultrapassar Glenn. Estava fora de si de tão irritada, de tão incrédula, de tão furiosa com tudo o que acontecera.

Ninguém falou nada dentro da van, exceto Rebecca, que foi calada pelos protestos do resto do grupo, exigindo que ficasse quieta. Assim que chegaram nos limites de Alexandria, Eugene e Aiyana tinham lágrimas nos olhos, assim como Mavie, que enfim botou para fora o que aguentou para trazê-los a salvo. Lisa parecia dormir, muito cansada. Mal respirava.

Mavelle parou num descampado perto da entrada da comunidade, freando tão rispidamente que atirou todos do veículo para a frente.

Abriu a porta do motorista, enquanto os outros batedores a olhavam, confusos. Mavelle abriu a porta lateral e falou:

— Rebecca, saia daí. Preciso falar com você. — Os olhos de Mavie cintilavam de raiva.

— Não vai dar um showzinho não, né? — Becky respondeu, forçando deboche, saindo do furgão. Mavelle não aguentou mais. Estalou um tapa na cara da loira, que a encarou em choque. Os outros coletores exclamaram, dentro do furgão.

— Eu falei para me obedecer. Eu e Glenn falamos que essas eram as condições. Você está fora do grupo — decidiu Mavie, dando as costas para a jovem mulher e voltando para o banco do motorista.

Todavia, Becky a segurou pelo ombro. Assim que Mavelle voltou-se para a mulher loira, levou um forte soco no rosto, cambaleando para trás. Ao mesmo tempo, Mavie ouviu o som de outra porta se abrindo.

— Não fique achando que vai poder botar a culpa do seu fracasso em mim, queridinha! — retrucou Rebecca, mexendo os dedos que socaram o rosto de Mavelle. — Se a gente falhou, quem estava liderando a todos era você. Eu não escolhi a vadia covarde da Jenny para fazer parte do grupo. Nem o filho da puta do Chester. Pode me botar para fora dessa merda se quiser. — Becky fuzilou Mavie com o olhar. — Mas você sabe que a culpa de tudo isso foi sua. Da Jenny. Do Chester. E do japonês. Lidem com isso. — Rebecca deu um empurrão em Mavelle, e foi andando, sozinha, para os limites de Alexandria.

— Você está certa. — A voz de Mavelle admitindo o erro fez Becky parar, e girar nos calcanhares para encará-la.

— Errei com os dois, é verdade. Mas errei também em deixar você fazer parte. Você não tem estrutura nenhuma para participar do grupo. Desequilibrada desse jeito — completou Mavie, sem dó.

Rebecca arregalou ainda mais os olhos, e parecia que ia partir para cima de Mavelle, como se ela tivesse de fato a ofendido profundamente. Mas, antes que pudessem continuar aquilo, Aiyana se interpôs entre as duas, separando-as.

— Acho que precisam ficar calmas. Ainda não acabou — a indígena, sempre silenciosa, interrompeu.

— Do que está falando? — indagou Mavelle, sem compreender.

Aiyana apenas a levou de volta para o furgão. Enquanto brigavam e discutiam, Mavelle e Rebecca não tinham percebido o que ocorrera. O que a garota indígena e Eugene tiveram de conter, sozinhos.

Lisa estava no chão do automóvel, amarrada com o que restara das cordas de alpinismo, debatendo-se e rosnando. Eugene, ao lado dela, tremia a pistola que segurava, incapaz de livrar a mulher ruiva de seu sofrimento.

Mavelle não tinha reparado que Lisa havia sido mordida. Na altura de sua cintura, sangue ainda jorrava da ferida profunda gerada por um carniceiro.

Ela morrera e se transformara, enquanto as duas brigavam.

— Vamos lá, chefinha — disse Becky, com deboche evidente. — Lide com isso.

Mavie controlou o choro, e fincou uma flecha na testa de Lisa.

*****

[EM ALEXANDRIA, ANTES DA VOLTA DOS BATEDORES]

— Você deixou no quintal da casa dele aquilo que eu te pedi? — Carol Peletier sussurrou para Sam, olhando pela varanda da frente de sua casa em uma direção específica.

— Sim. Acho que ele achou — o garoto confirmou, olhando na mesma direção.

— Você entende porque preciso fazer isso, não é? — ela perguntou.

— Sei. Você me explicou. Acha que ele está escondendo algo.

— E não podemos deixar que ele nos esconda nada. Pessoas perigosas estão lá fora, pessoas que ele conhece. Precisamos ter certeza de que é seguro que ele fique conosco — esclareceu Carol, segurando o garoto pelos ombros e olhando em seus olhos.

— Eu entendi. Para proteger a mamãe, o Ron — disse Sam, assertivo.

— Isso mesmo. — Carol sorriu para o garoto, controlada. — Você vai manter segredo, não é mesmo, Sam?

— Sim, senhora — garantiu o menino.

— Então, tudo bem. Amanhã de manhã venha aqui em casa, antes da escola, e eu te entrego a fornada extra de cookies que te prometi — Carol afirmou, e o garoto assentiu com o rosto. Se despediram, e logo ela pôs em prática o que tencionara.

A mulher de cabelos grisalhos andou até a praça de Alexandria que conseguia ver da altura de sua varanda. Encostado em uma árvore, achando que se disfarçava em meio as folhagens, sozinho, Tucker fumava um cigarro de maconha. Cigarro este que Carol pedira a Sam para deixar largado perto de uns cogumelos de aparência suspeita no quintal da casa dos novos moradores de Alexandria.

— Boa tarde — ela o saudou, com gentileza ensaiada.

Tucker começou a tossir, tentando esconder o cigarro de maconha atrás do corpo.

— Yo! B-b-boa tarde — o rapaz disfarçou mal e porcamente.

— Posso dar um tapa? — pediu Carol ao jovem drogado, que a encarou totalmente surpreso.

— O-o quê?

— Ah, por favor. — Carol Peletier abanou o ar com a mão, em um gesto impaciente. — Eu já tive vinte anos também, sabia? — troçou ela, divertida. Sorriu ainda mais.

— Bem... Ok, eu acho. — Tucker estendeu o baseado para Carol, que fingiu que daria uma tragada curta, mas parou no meio do caminho.

— Ah, sabe de uma coisa? — Ela abriu outro sorriso simpático.

— O quê?

— Pra que ficar fumando escondido? Tem outras pessoas por aqui que também gostam de "se divertir", sabe? — sugeriu ela, seus olhos azuis cintilando em um convite.

— Está querendo dizer que...

— Que eu tenho uns "space brownies"* prontos lá em casa. Mas me falta companhia para dar cabo deles. — Carol deu uma piscadela divertida para o rapaz.

— A senhora... — Tucker parecia incrédulo.

— Sem essa de senhora. Eu já tive vinte anos um dia, sabia? — brincou Carol, repetindo a mesma piada e rindo com simpatia.

— Vamos lá? — A mulher deu outro sorriso acolhedor. Tucker, surpreso porém muito aberto à ideia, seguiu-a de bom grado.

Estava conseguindo enrolar aquele moleque com a maior facilidade do mundo.

Carol o levou para a casa onde morava, e, assim que entrou, levantou o indicador como se pedisse silêncio pelo "ato proibido" que iriam concretizar. Os dois riram um pouco, e a mulher logo serviu ao rapaz um pedaço imenso de brownie, com um recheio especial.

Obviamente, Carol não perderia seu tempo e suas capacidades mentais fumando maconha ou se drogando. Não nos tempos atuais, ao menos. Mas ela precisava descobrir algumas coisas que aquele fedelho poderia estar escondendo, questões que a importunavam noite e dia. Nada melhor do que jogar o joguinho que tinha certeza que o agradaria, para tanto.

Assim, além da maconha que fizera Sam roubar do estoque do irmão mais velho, Ron — que fumava escondido da mãe —, Carol recheara o doce com um remédio anestésico forte que retirara do estoque de Annie, o tipo de medicamento que dosado corretamente tiraria toda e qualquer inibição de uma pessoa, ainda mais combinado com drogas relaxantes. E, o melhor de tudo, pelo efeito de anestesia... Impediria que a pessoa drogada se lembrasse do que falou, do que aconteceu.

Funcionaria quase como um soro da verdade.

Carol comeu a porção do brownie que estava livre de qualquer droga, fingindo entrar na mesma onda que o rapaz. Tucker, ingênuo, se encheu de doce, até que finalmente começou a falar demais. Exatamente o que Carol queria.

— Senhora Peletier, tenho que admitir que não esperava isso de você — falou o rapaz com a voz enrolada.

— Ah, é? Tenho cara de ser tão chata assim? — zombou ela em resposta.

— Não, não... Não é isso. Você tem cara de mãe mesmo. De... De mãe, mas tipo... Não qualquer mãe — Tucker parecia ter dificuldade de formar frases, drogado como estava.

— Você está muito chapado — Carol brincou, rindo, e o rapaz gargalhou.

— Sim! Estou, yo... Mas é que... Puxa, você é uma MILF! Uma mãe gostosa do cacete — o rapaz a "elogiou", e Carol levantou uma sobrancelha, surpresa.

— Mas, bem, aqui em Alexandria... Caralho, nem parece que o mundo acabou, yo. Luz, água quente, comida, bebida... Maconha! — o rapaz riu, feliz. — E, meu Deus, tantas, tantas mulheres lindas... MILFs, sim, mas as novinhas também... Aquela índia e aquela outra mais novinha... Ah, meu Deus... — Tucker ia aos poucos se revelando. — ...Olha o que a senhora está me fazendo falar! — o drogado riu, descontrolado.

— De onde você veio, não tinham muitas mulheres? — indagou Carol, levando a conversa para o rumo que queria.

— Ah, tinham sim... Mas é... Era outra coisa. Não quero falar de lá. Não gosto de me lembrar. — Tucker quase fez uma cara de choro.

Carol engoliu em seco, estudando o rosto do sujeito enquanto ele mexia os lábios como uma criança prestes a chorar.

— Como era lá, Tucker? — Carol Peletier insistiu em falar sobre o Exército de Wyoming County.

— Horrível. Eles... Eles faziam uma lavagem cerebral com a gente. E... E a gente chegava a acreditar. De verdade. O que eles conseguiam fazer a gente fazer... — Tucker tremeu, angustiado.

— O que você fez, Tucker?

— Não quero falar. Não... — o rapaz mexeu a cabeça de um lado a outro, desnorteado, seus olhos fora de foco.

Carol segurou a mão do rapaz.

— Pode falar para mim. Sou sua amiga — Carol Peletier olhou para ele com doçura fingida. Tucker piscou os olhos e a encarou.

— A senhora é um anjo — disse ele, respirando fundo. — Eu tive de torturar gente... Gente inocente. Era uma das provas que Hashimoto incutia nos novos membros do Exército. Quem aguentasse um certo tempo de tortura, algumas técnicas, podia fazer parte. Era forte o suficiente.

— Hashimoto acha que os fracos não merecem viver no mundo de hoje, porque uma hora ou outra vão ser mortos. Acha que é um favor que fazemos a eles, matá-los de uma vez. Poupá-los de mais sofrimento inevitável — o rapaz falou, atormentado pelo passado.

— Então você é forte? — indagou Carol, acariciando as mãos do rapaz.

— Não. — Tucker realmente passou a chorar, e Carol sentiu uma leve dó daquele garoto pateticamente perdido. — Não, eu sou fraco. Eles só me usaram porque precisavam de mim. Eu ia ser morto uma hora ou outra. Tive muita sorte de ter sido encontrado pelo Billy e pela Becky. Eu queria mesmo fugir.

— Te usaram para quê?

— Sou arquiteto. Sei construir coisas, desenhar coisas... Eles precisavam de mim para ajudar a fortificar a base do Exército. Eu sou fraco, mas tinha esse conhecimento.

— Você é forte sim — Carol mentiu, apertando a mão do rapaz. — Passou por tanta coisa.

O rapaz assentiu com o rosto, controlando o choro.

— Tenho pesadelos com eles todos os dias. Todos os fodidos dias — afirmou o garoto. — É por isso que me drogar é uma benção. Esquecer de tudo... Ficar longe de mim mesmo — falou Tucker, limpando as lágrimas dos olhos, muito chapado para se controlar, mas ainda assim tentando.

— Tucker, juro que podemos conversar de outra coisa depois... Mas preciso que você me diga uma coisa.

O rapaz levantou os olhos para Carol.

— Esse grupo que veio comigo, eles são... São a minha família. São como se fossem meus filhos. E há algumas crianças aqui, na comunidade... — ela mencionava implicitamente Sam — ...Que são como se realmente fossem minhas.

— Quero que me diga, Tucker... O que esse Exército fazia com as crianças? Com os jovens? — questionou Carol, e ela engoliu em seco, nervosa.

— Treinam.

— Como... — ela ia perguntar, mas Tucker continuou a responder.

— Drogam as crianças. Os adolescentes. Como faziam na África aqueles membros de grupos militares malucos. Tem alguns moleques no Exército de Wyoming County assim... Totalmente dependentes da droga. Tão dependentes, que acham que Hashimoto é a única salvação do mundo. Não tem mais personalidade nenhuma. São... Uns soldados viciados, sem pensamento.

— E você acha que Alexandria tem alguma condição de resistir a eles? Acha que vão nos achar?

Tucker parou, encarou Carol, e segurou a mão dela.

— Não pense nisso agora, Dona Peletier. — Os olhos do rapaz brilhavam.

— Responda o que eu perguntei. — Carol tirou a mão de perto dele.

Tucker abaixou os olhos, e encarou-a outra vez.

— Eles vão nos achar, uma hora ou outra. E não terá jeito. Nós vamos todos ser massacrados — o rapaz admitiu, soltando uma risada histérica. Riu sem parar, as lágrimas saindo do canto de seus olhos, até finalmente cansar. Sua cabeça tombou de lado, e ele desmaiou, totalmente desnorteado pela quantidade de drogas em seu organismo.

Carol arrastou o rapaz o melhor que pôde até o sofá mais próximo, jogando-o de qualquer jeito em cima do estofado.

— Obrigada pela honestidade, Tucker.

Notas finais
*Space brownie: brownie recheado geralmente com maconha ou haxixe. ~ Edit: gif trailer atualizado! ~ Aguardo reviews!