Hunter's Instinct

42 Episódio 42 - Refuge


Notas iniciais
BOOOOM DIAAAA MEUS QUERIDOS E MINHAS QUERIDAS! Gente, que sufoco essa manutenção do nyah, hein? Atrasou legal minha data de postagem... Juro pra vocês, comecei a escrever durante a semana (estou em semana de provas, então final de semana foi complicado de montar capítulos), e quando já estava na metade do primeiro "episódio", BUUUUM... Nyah fora do ar! Mas estamos de volta... E DE VOLTA COM DOIS CAPÍTULOS DE UMA VEZ! Sim, hoje é um dia especial, pois temos publicação dupla de "episódios" Aêêê! Quero dedicar este capítulo a todos os meus leitores shippers tanto de Gleggie quanto de Davie... Porque esse primeiro será um POV do Glenn e outro POV do Daryl! Um momento de paz (maaais ou menos), antes de tudo ficar bem complicadinho de novo... Agradeço aos leitores Sami, Giovana Catalani, Vivi Costa, marcelammota, Filho de Kivi, Thaaty, Anna L, Harley Quinn e Luna Miller! Não só amo o apoio de vocês, como REALMENTE preciso dele! Cada comentário faz diferença, nunca se esqueçam disso! Por isso, a única coisa que peço de vocês é que, já que apareci com essa notícia pouco usual de dois capítulos de uma vez é que... Por favor, deixem comentários nos dois! Capítulo sem review é algo muito, muito triste. :( Dito isso... Beijos e boa leitura!

Sentia suas faces distendidas, inchadas como se tivessem dobrado de tamanho. Assim que abriu os olhos, uma pontada de dor aguda em seu ombro o fez recordar tudo o que acontecera.

Eu não o matei por pouco.

Glenn Rhee fez menção de se levantar abruptamente, mas seus braços tombaram no travesseiro da cama em que repousava assim que tentou se erguer. Soltando uma forte exclamação de dor, ele ouviu uma voz conhecida ansiar em resposta:

— Glenn? — A voz de sua esposa chamando seu nome serviu como um curativo mental para sua urgência.

— Maggie... — Rhee quase suspirou, fazendo força para estender seu braço até a mão dela, que agora acariciava seu rosto.

— Você demorou para acordar... — A jovem mulher tinha lágrimas correndo pelas faces, enquanto movia seus lábios para abrir seu amplo sorriso.

Somente para ele.

Como Glenn a amava. Só o lindo sorriso de Maggie era suficiente para deixá-lo aéreo, alheio a tudo além dela, mesmo depois de tanto tempo juntos. Era tão bom vê-la novamente.

— Você dormiu direito, não dormiu? — o futuro pai perguntou, olhando para a barriga grávida da esposa. — Não fala que ficou aqui o tempo todo. Se alimentou bem também, não é? — Rhee indagou, preocupado.

Maggie apertou sua mão, rindo de leve.

— Fiquei bastante tempo aqui, mas também cuidei de mim mesma. E dele. — Greene apontou para seu ventre.

— Quem disse que é um “ele?” — Glenn provocou, sorrindo o máximo que podia com suas bochechas ainda inchadas.

— Já tivemos essa conversa antes... — Maggie retrucou, revirando os olhos de deboche.

— Eu falei que eu tenho uma intuição boa para essas coisas — Glenn rebateu, brincalhão. — Vou acertar, você vai ver. Vai ser “ela” — garantiu, enquanto sua mulher acariciava sua mão.

— Como está se sentindo? — Maggie inquiriu, agora acarinhando os cabelos do marido.

— Como um baiacu. Todo inchado — Glenn respondeu de pronto, fazendo Maggie franzir as sobrancelhas e dar mais uma pequena risada.

— Você precisa me contar o que aconteceu. Quando puder — complementou Greene.

— Eu vou. Que horas são? E como está Nicholas?

— Ainda desacordado, parece. São cinco e meia da tarde, agora — Maggie disse — Glenn, o que houve entre vocês dois? — ela indagou, duvidosa.

— Uma coisa de cada vez; primeiro, me diga, no que deu a história do Rick? — Assim que fez a pergunta, o rapaz viu o olhar de Maggie Greene mudar, como se subitamente ficasse tensa, a postura mais rígida.

— Hey, o que houve? — ele insistiu, ansioso.

Maggie respirou fundo, levantando as sobrancelhas, contando detalhe por detalhe tudo o que acontecera, enquanto Glenn quase prendia a respiração. Pete matara Reg, que fora morto por Rick, por ordem de Deanna. E tudo isso acontecera em uma fração de segundo, com Daryl e Aaron voltando junto a outros três novos moradores, dentre eles o caipira do Alabama que uma vez vivera com o descendente de asiáticos no Aquário da Georgia.

— Daryl voltou? — o jovem asiático falou, aliviado em meio ao choque — E aquele cara do Alabama sobreviveu?! E chegou até aqui? — Glenn se ergueu da cama o pouco que conseguia, incrédulo.

— Esse Billy Ray, e também os outros três... Um mais novinho chamado Tucker, deve ter um pouco menos do que a nossa idade, eu acho... Uma loira alta chamada Rebecca, e um cara chamado Morgan. Parece que ele já conhecia Rick, Michonne e Carl.

— Puta merda — Glenn disse, sem saber como reagir.

— Yep — Maggie completou, o ar entre eles agora denso, pesado. — Por isso Deanna, Rick e nós, do comitê político, chamamos uma reunião mais cedo. As coisas estão um pouco estranhas aqui em Alexandria. Parece que Aaron e Daryl toparam com gente perigosa lá fora. Sobreviveram por pouco.

— E o que rolou na reunião? — Rhee questionou, ainda ansioso.

— Rick e Deanna falaram para todos que os dispostos poderão colaborar na nova rotina de Alexandria. Para ficarmos mais seguros. Nós, que sabemos como são as coisas lá fora... Vamos ensinar os moradores antigos a atirar, defesa pessoal, tudo isso... E inclusive teremos grupos de vigilância, turnos na torre de guarda, grupos de patrulha, aumentaremos as fortificações ao redor da comunidade...

— ...Rick acha que esse pessoal pode chegar a nos achar? — Glenn completou, atinente.

— Acho que ele está agindo meio que... Por via das dúvidas, sabe — Maggie admitiu, preocupada, soltando um suspiro.

— Vou ajudar. Vou garantir que nada aconteça com você nem com... Você sabe — Glenn sentenciou, decidido. Fez o máximo de esforço que pôde e se sentou na cama, seu ombro menos incômodo naquela postura mais ereta.

— Cuidado, meu herói! — Maggie o repreendeu, debochada, ajeitando o travesseiro atrás dele.

— Eu já estou bem. — Glenn mordeu o próprio maxilar para não demonstrar dor.

— Se já está bem, é sua vez de me contar o que aconteceu. Você me deu um susto horrível, sabia? — Greene, esperta, fuzilou o marido com o olhar.

Rhee soltou um suspiro cansado.

— Vou contar. Mas deixa eu olhar pra você só mais um pouco — Glenn pediu, dessa vez ele acariciando a mão da esposa.

— Não começa — Maggie rebateu, sorrindo amplamente daquela forma que tanto o acalmava e o seduzia.

— É sério. Eu tenho muita sorte. Até hoje eu não acredito — o rapaz disse, todo seu rosto dolorido relaxando enquanto admirava sua esposa.

— Glenn... — Greene parecia começar a repreendê-lo, tentar fazê-lo mudar de assunto. Rhee segurou com mais firmeza em suas mãos, juntando os seus dedos com os dela.

— Eu era um moleque antes de tudo isso... Só mais um moleque, sem noção do que eu queria, da vida, de nada. E quando tudo começou, eu sinceramente nunca tive muitas esperanças, nunca passou pela minha cabeça que... Que eu ia te encontrar um dia.

Maggie sorriu com mais candura agora, abaixando os olhos.

— E que você ia querer alguma coisa comigo. Vamos ser sinceros, essa foi a única vantagem dessa infecção — ele brincou.

— Hey! — Sua esposa deu-lhe um apertão gentil, censurando a brincadeira.

— Falando sério, no mundo normal eu nunca teria chance com você... Você é tão linda, tão decidida; e eu era, até te conhecer, um retardado. Ainda sou um pouco lesado, mas melhorei consideravelmente, eu acho — Glenn brincou, fazendo ela rir outra vez.

— Se a gente se conhecesse quando as coisas eram como eram, você nem olharia na minha cara duas vezes. Ia pensar que eu era um nerd esquisito de boné, que joga Pokémon até hoje. E olha, seria verdade, se ainda existissem Game Boys ou emuladores — Glenn continuou a debochar, feliz por alegrar sua linda mulher com suas piadas bobas.

— Acho que Ron e os outros meninos tem um Game Boy Color e alguns jogos — Maggie comentou rindo, e Glenn fingiu animação.

— Está falando sério? Preciso ficar amigo deles — debochou o jovem descendente de asiáticos — e peraí. Como você sabe o que é um Game Boy? — Glenn questionou, troçando incrédulo — Maggie Greene, você tem um passado obscuro que escondia das suas amigas de faculdade descoladas? Não, você não pode ser tão perfeita — Rhee continuou a zombaria, e Maggie só ria mais e mais.

— Cala a boca, seu idiota — Greene respondeu, rindo com doçura — eu tinha um irmão também, que jogava essas coisas — ela disse, lembrando de Shawn e diminuindo o próprio sorriso.

Glenn ia soltar mais uma piada, um pouco entristecido por ter feito Maggie lembrar da perda de seu irmão. Entretanto, antes de falar, Annie entrou no quarto, sem pedir licença.

A idosa médica levou apenas uma fração de segundo para arregalar os olhos e reparar que Glenn acordara, e logo voltou ao seu semblante sério e resoluto.

— Que bom vê-los felizes, conversando! — Annie falou, sorrindo um sorriso curto, parecendo impaciente por estar atarefada. — Mas, Maggie, Deanna disse que precisa de você. Falou para encontrá-la o mais rápido possível.

— Salvo pelo gongo — Greene sussurrou para o marido, estreitando os olhos para ele. Em seguida, levantou-se, e deu-lhe um beijo gentil em despedida.

— Vou poder dormir em casa hoje, doutora? — perguntou Glenn para Annie, enquanto Maggie parava para ouvir antes de fechar a porta e sair.

— Tudo indica que sim. Preciso só te examinar para ter certeza — confirmou Annie, dando aos dois mais um sorriso pequeno. Maggie soltou seu largo sorriso outra vez antes de sair, deixando o marido a sós com a idosa médica.

Glenn permitiu que Annie o examinasse em silêncio, conferindo se tinha algum osso quebrado, alguma torção, e aguardou o parecer da médica. Depois de algum tempo, Guinness voltou a falar.

— Ela deve ter te contado que as coisas em Alexandria estão um pouco mais... Rígidas, agora — Annie falou, examinando a pressão de Glenn.

— Sim — ele respondeu, incerto.

— Então você sabe que precisa contar a ela e aos outros que você e Nicholas fizeram isso um com o outro, certo? — a idosa foi direta.

— O quê?! — Glenn afastou-se um pouco, surpreso.

— Eu sou médica há muitos e muitos anos. Sei avaliar feridas e machucados que vieram de uma briga. Esses hematomas... Essa bala que eu mesma retirei daí, e todo o contexto da situação... Não é preciso ser nenhum Einstein para chegar a essa conclusão. Sua esposa com certeza já desconfia — a doutora afirmou, sem rodeios.

— Não quero deixá-la preocupada — Rhee murmurou, depois de alguns segundos.

— Ela vai ficar se achar que está escondendo algo dela.

— Mas e se Deanna punir Nicholas da mesma forma que puniu Pete? — o jovem descendente de coreanos questionou, preocupado.

— Você se importa com ele mesmo que tenha tentado te matar? — Annie respondeu com uma pergunta, levantando uma sobrancelha.

— É para isso que estamos aqui, não é? — Glenn disse, também direto. — Isso daqui é para ser uma comunidade. Uma sociedade, não? Com regras, leis a serem seguidas, até policiais temos. Não um lugar bestial em que todo mundo sai se matando. Eu me controlei. Poderia tê-lo matado. Quase o fiz. Mas não quis. Não é para isso... Não era para isso que estávamos aqui, ao menos — o rapaz completou, seco.

— Não é num lugar assim, bárbaro, que eu quero que meu filho nasça e cresça — afirmou o marido de Maggie, resoluto. Annie o encarava com cuidado, até que soltou um suspiro, desistindo.

— É muito nobre de sua parte. E sim, é assim que eu penso também — complementou a idosa, retirando o aparelho de pressão do braço do rapaz.

Annie pigarreou com polidez, ajeitando os óculos no rosto.

— Sabe, não achava mesmo que tinha sobrado gente decente assim, igual a minha neta. Mas você, Maggie e Tara me provaram isso. Fico muito feliz de ver que está realmente bem — Guinness disse, com um sorriso maior agora.

— Isso significa que...?

— Está liberado. Não tem nenhuma fratura óssea, nada debilitado. Pode voltar à sua vida normal. Só tente descansar o máximo possível. E, se sentir dor, tome no máximo dois desses por dia, no café da manhã e no jantar. — A idosa lhe deu um frasco de analgésico.

— Obrigado — Glenn agradeceu com um leve sorriso.

— Não há de quê. E não se preocupe, eu não sei de nada — Annie fez menção à briga entre Glenn e Nicholas — você escolhe quando e como contar aos outros.

— Obrigado. Muito obrigado mesmo. — Rhee se levantou, suas pernas respondendo bem ao movimento.

— Nicholas ainda está em recuperação? — Glenn indagou, apenas para confirmar.

— Ele saiu um pouco mais cedo do quarto. Acordou hoje de tarde — Annie falou, guardando os materiais do exame.

— O quê?! Mas Maggie falou que...

— Ela não estava aqui quando ele foi liberado — Annie comentou, avaliando Glenn com o olhar.

— Com licença. — O jovem descendente de coreanos saiu porta afora, andando o mais rápido que podia. Sabia onde era a casa de Nicholas.

Antes de falar com Maggie, antes de contar a qualquer um o que acontecera, precisava falar com aquele sujeito. Será que ele sabia como estavam as coisas em Alexandria? Teria medo de que Glenn o dedurasse?

Aflito, Glenn andou ligeiro, quase correndo até a residência do antes também coletor. Ao chegar à porta, tocou a campainha diversas vezes, sem resposta.

Reparou que a porta estava entreaberta, e, olhando de um lado a outro, entrou na casa de Nicholas. Furtivamente, foi devagar estudando o local, vendo que parecia completamente vazio. Abandonado, até.

Rhee subiu as escadas com cuidado, a pontada em seu ombro ainda o incomodando. Assim que chegou ao andar de cima, viu uma porta escancarada. Seguiu naquela direção, cuidadoso, e se viu na frente do quarto de Nicholas.

As gavetas estavam reviradas. Os armários, todos abertos. Roupas se espalhavam pelo chão, além de algumas malas abertas, e vazias.

Glenn não precisou conferir mais para entender. Desceu até a cozinha do sujeito, e a viu também toda revirada. Armários apenas com potes sem nada dentro, mantimentos velhos jogados pelo chão, vidros até quebrados, indicando que alguém vasculhou aquele lugar às pressas.

O descendente de coreanos saiu pela porta dos fundos, vagando em direção aos portões de Alexandria. Pediu licença para sair a Spencer, que guardava a porta, recebendo dele um sorriso e bons votos de melhoras.

Glenn acenou em resposta, e seguiu na direção da construção dos muros, encontrando Abraham, Francine, Carter, Billy Ray, Eugene, um sujeito de cabelos castanhos claros e cara de playboy metido a junkie, que alguém chamou por Tucker, além de alguns outros. Mal deu atenção a todos, indo ter com Abe.

— Cara, me fala uma coisa: você viu o Nick por aí? Saindo dos portões? — indagou Glenn, nervoso.

— Não. Achei que ele estava sendo tratado pela Rosita e aquela velha da Irlanda, que nem você — Abraham respondeu, franzindo as sobrancelhas, carregando um pesado saco de areia. — Você está bem, cara?

Glenn instintivamente levou uma das mãos à nuca, sem saber como reagir.

— O que aconteceu? — o soldado ruivo questionou, desconfiado.

— Nada. Está tudo ok — Glenn mentiu porcamente.

— Hey. Pode me falar — Abraham insistiu, franzindo mais ainda o cenho.

— Não é nada. Relaxa — Rhee insistiu, dando as costas para o soldado, que não tentou pará-lo.

Glenn engoliu em seco, cada vez mais preocupado. Se Nicholas tivesse saído pelo único portão conhecido de entrada e saída de Alexandria, seria impossível que o pessoal da construção deixasse de vê-lo.

Não havia outra explicação.

Fodeu.

Nicholas fugiu.



*****



Ele secou o suor da testa, jogando a flanela suja de graxa para o lado, agressivamente.

Está demorando pra voltar.

Daryl Dixon aprumou-se para ainda mais perto da motocicleta que montara com as peças acumuladas por Aaron. Ele estreara aquela moto improvisada alguns dias atrás, e quase a destruíra por completo até então.

Depois de retirar alguns entulhos presos no pára-lama dianteiro, trabalho que levara algumas horas pela quantidade de carne morta e detritos ali acumulados, Dixon se preocupava agora em confirmar se aquele trambolho ainda seria capaz de andar.

Olhou com cuidado o motor, certificando-se de que não havia nada de estranho nele. Funcionava perfeitamente, mas ele não duvidava disso, visto que voltara para Alexandria sem maiores problemas na velocidade e potência da moto. O que o deixava irrequieto na verdade era algum tipo de vazamento no escapamento.

Daryl estudava mais uma vez os pistões e o captador de óleo, verificando a integridade das partes. Se tivesse algum problema futuro, aprendera com Merle inúmeras técnicas úteis para fazer qualquer moto funcionar.

Assim, sem poder evitar, uma memória lhe veio a mente.

[...]

— Hey, baby brother! Traga o seu rabo preguiçoso pra cá agora! — Merle o chamava, gritando de fora do trailer, metros e metros colina abaixo.

Daryl saiu do RV de um amigo traficante do irmão, puxando um cigarro de maconha na boca. Um pouco distraído pelo efeito da droga, seguiu a voz do irmão mais velho, já irritado, pensando que Merle tivesse arranjado algum problema.

— Que merda você quer? — o Dixon mais novo retrucou, sem paciência para as besteiras do irmão. Todavia, se calou assim que viu o motivo da agitação na voz de Merle.

— Uma Harley, cara. De bobeira aqui. — Os olhos de Merle Dixon brilhavam de ganância, enquanto ele sorria quase faminto.

— Não é só uma Harley. É a porra de uma FLTR/I Road Glide — Daryl observou a moto, certo do que falava. Estreitou seus olhos, encarando ao redor para ter certeza de que ele e o irmão estavam sozinhos.

— Vamos sair daqui, cara. É de um rico cuzão qualquer — o Dixon mais novo aconselhou, mas Merle deu uma risada debochada.

— Não fode, irmãozinho. Seu pau vai cair e vai crescer uma boceta no lugar se continuar tão cheio de cagaço — Merle troçou, sorrindo com escárnio.

— Eu vi o dono dessa belezinha aqui. Um velho, um velho com toda a pinta de rico... Deve ter vindo acampar por essas bandas sem saber os tipos que moram por aqui... Daí desceu pro lago, e agora perdeu. Se voltar eu dou uns bons socos na cara gorda dele, não vai nem saber o que aconteceu quando acordar depois. — Os olhos de Merle Dixon faiscaram.

— E você vai ligar essa merda como? — Daryl duvidou, sem contestar a atitude do irmão mais velho. Ele sempre achou difícil discordar de Merle, por mais que não se sentisse confortável com aquilo.

— Ligação direta, seu otário. Só desencaixar uns parafusos, usar uns fios, temos tudo lá no trailer. Dá pra botar esse motor pra pegar rapidinho. Fique vendo e aprenda com o mestre! — garantiu o irmão do caçador arqueiro, afastando-se da moto a passos longos.

Daryl encarou a moto quando o irmão passou rápido por ele. Em seguida, voltou-se para ele, seguindo-o.

— Pra que você quer roubar essa porra, cara? — Era o máximo de resistência que Daryl Dixon conseguia mostrar aos comandos de seu irmão mais velho, naquela época.

Merle parou, virando-se para o caçula.

— Olha aqui, irmãozinho. Ou eu deveria te chamar de bichinha? — Merle apontou o dedo na cara de Daryl. — O que a gente sempre fez pra viver?

Daryl baixou os olhos e encarou o irmão outra vez.

— Um bando de merda.

— Exatamente. E por quê? Porque não tem outro jeito da gente sobreviver. É assim que é. A gente aproveita as oportunidades que aparecem, e não tem nada de errado com isso — Merle falou, parecendo realmente acreditar no que dizia — eu e você vivemos uma vida de merda, crescemos naquele buraco de lugar, a vida é assim. O que você acha que o rico dono dessa merda de moto vai fazer quando vir que foi roubado? Dar parte na polícia? Talvez! — Merle admitiu.

— Mas você acha que vai dar em alguma coisa? Até lá a gente já largou o trailer do Buck, já viajamos mais de 500 km até Chattanooga, eu nessa Harley e você na sua moto que mais parece uma bicicleta, e logo vendemos a porra da moto do rico e descolamos uma grana. E sabe o que o velhote vai fazer? — Merle Dixon parou para respirar, com raiva em seus olhos escuros.

— Tirar mais dinheiro do cu dele cheio de dinheiro, e comprar outra moto igual ou melhor. Vida que segue! Vê se aprende, baby brother. Não tem porque pensar nessas pessoas mimadas de merda, eles estão cagando e andando pra gente como a gente. — Merle voltou a andar em direção ao trailer.

— Fica de olho pra ver se não aparece ninguém mesmo! — pediu seu irmão mais velho, já entrando no RV.

Sem escolha, Daryl vigiou o local, como Merle solicitara. Depois de algum tempo, viu o irmão voltar com alguns fios e ferramentas, desmontar partes da moto e ligá-la de forma clandestina.

— Corre, irmãozinho! — Merle ordenou, rindo — pega a sua moto e vamos meter o pé! — E o Dixon mais novo assim o fez.

Depois de viajarem por alguns quilômetros, Merle e Daryl decidiram parar no meio da estrada vazia para comer alguma coisa, pois estavam de estômago vazio e de larica. O Dixon mais velho deu a ele um sanduíche velho que levara, dividindo-o igualmente entre os dois.

— Achou que eu ia comer tudo sozinho, né? Seu irmão sempre pensa em você. — Merle deu um tapa nas costas de Daryl. — Precisa aprender a me escutar sem reclamar, Darlena.

O Dixon mais novo nada disse enquanto mastigava.

— É bom se acostumar com o meu ritmo, baby brother. Em tooodo esse mundo fodido... — Merle abriu os braços para demonstrar o que defendia — ...Ninguém tá nem aí pra mim, nem pra você. Isso nunca vai mudar. Por isso não se iluda, irmãozinho. Nós nos bastamos. Cuidamos um do outro. — Merle deu outro tapa nas costas do irmão.

— E vai ser sempre assim. Você só vai se importar comigo. E só eu vou me importar contigo, baby brother.

[...]

Daryl Dixon retornou ao momento presente quando ouviu o som de alguém arrastando a porta da garagem de Aaron cerca de um metro para cima. Levantou-se, rápido e atento. Viu botas de caça, e uma silhueta que as calçava se abaixar e se arrastar para dentro da garagem, erguendo-se em seguida.

Daryl viu Mavie aproximar-se com curiosidade em seus olhos entre o verde e o castanho. Tinha as maçãs do rosto um tanto rubras, como se tivesse feito recentemente algum esforço físico, e os olhos um pouco avermelhados.

Os olhos de Dixon baixaram para os lábios entreabertos de Mavie, seus dentinhos salientes se insinuando para fora de sua boca em um sorriso arteiro.

Aquela visão foi suficiente para desanuviar as memórias controversas e tristes da mente de Daryl. Por mais que não tivesse plena consciência daquilo, não havia nada como a companhia da Esquila para colocar sua cabeça no lugar. Ou para deixá-lo ainda mais atordoado.

— Hey, Cupido. Sentiu minha falta? — debochou Mavie, sorrindo mais largamente para ele. Ela pegou um pistão desencaixado da moto com uma de suas mãos alvas, mas não parecia estar realmente prestando atenção nas peças mecânicas. Colocou-o no lugar, ainda encarando o caçador arqueiro sem pudor algum.

— Estava ocupado — troçou Daryl de volta, para não deixá-la convencida.

— Ah, é? Eu também. Nem me lembrei de que você existia. — Ela levantou uma sobrancelha, fazendo um biquinho metido.

Daryl deu uma risada silenciosa, sem sorrir, soltando ar pelo nariz. Abaixou-se outra vez para a moto, com uma chave de fenda em mãos.

— Ah, sério? Isso daí já é apelação — Mavelle falou, estreitando os olhos de avelã esverdeado para ele.

— Do que está falando, Esquila? — rebateu Daryl, tentando desencaixar uma das peças da motocicleta, mas um tanto desatento agora.

— Que já não basta o colete, o ar de caçador, atirar como um ás com a porra de uma balestra... Agora, camarada, você me aparece com todo esse conjunto aí — Mavie apontou para ele com uma das mãos, parecendo incrédula — e dando uma de mecânico? Não consigo lidar com tanta testosterona! — Mavie se aproximou devagar, mantendo toda a postura provocativa com que começara aquela conversa.

Daryl sempre era afetado, invariavelmente, pela proeza que Mavie conseguia como ninguém: ter um olhar angelical e um sorriso lascivo, tudo ao mesmo tempo.

— Não apareci em lugar nenhum, você que veio aqui — Dixon respondeu, sorrindo levemente agora, desistindo do reparo. Largou a chave de fenda em cima da mesa repleta de peças mecânicas, e mais uma vez se percebeu encarando a Esquila e seus dentes grandes emoldurando um sorriso provocador. Aquele jeito doce e simultaneamente descarado daquela garota realmente mexia com ele.

— Bem lembrado. O que te deixa em dívida comigo. — Mavelle parou na frente dele, recostando o quadril na mesa, bancando a tímida sonsa.

— Que merda está falando? — Daryl falou, rindo seco mais uma vez. Estava difícil prestar atenção em outra coisa além da insinuação dela.

— Que eu tive mesmo que vir aqui. Nem para me procurar para me contar o que aconteceu na reunião, né? Não sentiu minha falta... Nem um pouquinho? — provocou Mavie Berry, manhosa.

Os olhos de Daryl se estreitaram desejosos, mas antes que a puxasse para si Dixon viu uma mancha estranha nas mãos dela, e ao longo da parte interna de seus braços. Sangue velho, acumulado demais para ser decorrente da eliminação de errantes.

— O que foi isso? — Dixon cortou o clima na hora, genuinamente preocupado, puxando um dos braços de Mavelle. Ela recuou um pouco, virando-se de lado. Pareceu insatisfeita que ele tivesse visto aquilo.

Mavelle baixou os olhos, e finalmente Dixon percebera a estranheza que sentira nela quando ela ali entrara. A garota irlandesa estava triste. Seus olhos deveriam estar avermelhados de tanto chorar, assim como seu rosto corado.

— Está tudo bem com você, Esquila? — Daryl indagou, um pouco aflito, movendo-se para mais perto dela.

Mavie levantou os olhos para ele, devagar, franzindo os lábios, como se quisesse conter alguma coisa. Em alguns segundos, Dixon viu o olhar de avelã esverdeado dela marejar.

— Tara e eu fomos buscar suprimentos médicos — ela começou.

— Fomos no lugar mais perto... Um... Um hospital... Para crianças. E para bebês... Eu não... — Mavie Berry balbuciou, e Daryl Dixon entendeu tudo. Ficou aflito de vê-la assim, sentindo-se impelido de imediato a fazer algo para ajudar.

— Shh — ele falou, enquanto abraçava Mavelle prontamente, instintivamente. Colocou a cabeça dela em um de seus ombros, e logo sentiu os dedos trêmulos da irlandesa apertarem-no pelas costas, cravando-se em seu colete.

— Vai ficar tudo bem. Já passou agora. — Daryl aconchegava Mavie em seus braços, que aceitou o acolhimento sem hesitar. Ele passou os dedos de sua mão esquerda pelos cabelos morenos dela, em um cafuné acalentador. Seu braço direito a embalava em seu peito, enquanto Mavelle chorava em silêncio apoiada por ele, buscando conforto no caçador arqueiro.

Aquilo tudo era tão estranho para ele. Sempre fora um sujeito ensimesmado, recluso, que preferia evitar que os outros chegassem perto... Perto demais. A exceção à regra fora Merle, seu irmão, alguém repleto de defeitos, mas que o arqueiro não podia negar... Fora a pessoa que melhor o conhecera.

“Meu irmãozinho, sempre o sensível.” A voz debochada de Merle Dixon ressoou em sua mente como uma assombração.

Mesmo fechado em seu mundo, mesmo com uma grossa casca de proteção e reclusão ao redor de si... De algum jeito aquela Esquila conseguira quebrar aquela “noz” que envolvia Daryl, sem que nem o próprio arqueiro percebesse que ela o fazia.

O caçador ainda não entendia realmente porque vê-la triste o deixava também tão aflito. Assim como não compreendia plenamente como um mero sorriso daquela dentuça podia lhe fazer tão bem.

Não entendia, mas não precisava entender. Sentir o que ele sentia já lhe bastava.

Daryl abaixou o rosto de forma que pudesse beijar o topo da cabeça da irlandesa, sentindo o cheiro perfumado de seus cabelos, o mesmo cheiro de todo o corpo dela. Anestesiado, ele mesmo confortado, Dixon viu Mavelle afastar-se um pouco dele, olhando-o um pouco surpresa. Ambos se encararam, sem necessidade de palavras para transmitir qualquer coisa que fosse naquele momento.

Aquele intenso instante foi interrompido logo em seguida.

Os dois arqueiros sobressaltaram-se ao ouvirem em uníssono o som de alguém batendo na porta metálica da garagem.

Alguns segundos depois, a figura da excêntrica mulher loira que viera com Billy Ray e os outros novatos para Alexandria, fez-se presente na garagem de Aaron e Eric.

— Oi — Becky os saudou, um tanto sem emoção. Mal encarou Mavie, dividindo o olhar entre o ambiente e Daryl por todo o tempo. Parecia evitar algo.

— O que você quer? — Dixon retorquiu, irritado pela intromissão. Mavie continuava calada, um tanto sem reação.

— Quero saber quando vai ser o treino dos batedores. Annie me disse para falar com você. — Rebecca Gable moveu o queixo de forma a indicar Mavelle.

— Hã? — Mavie pareceu confusa.

— O que foi? Não te falaram ainda? O "Conselho" elegeu você e Glenn os líderes dos coletores — Becky acresceu.

— Eu... Acabei de chegar — Mavie Berry disse, levantando uma sobrancelha.

— Bem. Desculpa interromper qualquer coisa — Rebecca adicionou, não parecendo realmente arrependida de nada — mas eu não achei o japinha, então resolvi falar com você. Te vi entrando aqui alguns minutos atrás — afirmou ela, parecendo incomodada com algo.

— Enfim... O que eu quero dizer é: quero fazer parte da equipe — Becky atestou, decidida, e Daryl achou que aquilo estranhamente soava como uma espécie de desafio.

Notas finais
~ Gif Gleggie, porque eles são lindos e sempre merecem espaço por aqui. Só juntei as imagens, retiradas do tumblr: http://grimes-greene.tumblr.com/post/128951544446/whos-maggie ~ POR FAVOR COMENTEM NOS DOIS CAPÍTULOS! A diretoria agradece demaaaais! :D