Hunter's Instinct
41 Episódio 41 - It's All Over Now, Baby Blue
Notas iniciais
Leave your stepping stones behind, something calls for you.
Forget the dead you've left, they will not follow you.
The vagabond who's rapping at your door
Is standing in the clothes that you once wore.
Strike another match, go start anew
And it's all over now, Baby Blue.
Bob Dylan — It's All Over Now, Baby Blue
Rick Grimes estudava Morgan Jones como se visse um completo desconhecido à sua frente. Um desconhecido inseguro, ingênuo... E que potencialmente poderia atrapalhar seus intuitos. Era preciso cortar suas intenções desde já.
— O que eu quero?! — Morgan rebateu, encarando Rick com incredulidade pelo tratamento arrogante. O policial, por sua vez, não desgrudava os olhos do novato morador de Alexandria.
— Teremos uma reunião decisiva aqui em minutos. Não temos tempo para gastar com bobagens — o xerife manteve sua voz ríspida — então, se tem alguma coisa para resolver comigo, é melhor deixar claro de uma vez.
Morgan, parado defronte a Grimes, moveu-se alguns centímetros para o lado, em passos formando uma meia-lua. Ainda avaliava aquele sujeito com o olhar, aquele sujeito que, desde que pusera os pés naquela estranha comunidade de sobreviventes... Lembrava-lhe de qualquer um, menos do Rick Grimes que um dia conhecera.
— O que aconteceu com você? — Morgan Jones perguntou, sua voz em um tom entre o choque e o desgosto.
— O mesmo que houve com você — retorquiu Grimes, seco e duro. Os dois ainda trocavam olhares avaliadores, e nenhum parecia satisfeito com o que via.
Morgan levantou uma de suas mãos, apertando o osso do nariz, desviando os olhos por um momento. Concentrando-se, tentou soar mais indiferente.
— Rick, nós dois sabemos... Você sabe... — Jones limpou a garganta — ...Que este é o caminho para o buraco.
— Não. Este é o único jeito de sobreviver — Rick contra-argumentou imediatamente. Sua voz mantinha-se no mesmo tom decidido, a falta de emoção gritante.
Jones se aproximou, tentando um último apelo, provavelmente fracassado.
— Se você quer realmente ajudar essas pessoas, não será executando alguém em praça pública que vai resolver seus problemas. Mortes só vão trazer mais mortes — o novo integrante de Alexandria insistiu, agora mais incisivo.
— Deanna deu a ordem. Eu a cumpri. Alguém precisava fazer isso. Alguém com colhões para tanto — replicou Rick, uma ofensa implícita na frase.
— Se essa for a nova lei... — Morgan preparou-se para tentar outra vez, mas Grimes o interrompeu, aproximando-se mais e mais.
— ...Não há mais espaço para ideologias bonitas por aqui. Eu tentei, Morgan. Você sabe que eu tentei. Mas nesse mundo não existe o luxo de se viver fora da realidade — os olhos azuis-claros do policial fuzilavam os do outro homem — e a realidade é simples: nossa única ameaça não são os errantes. As coisas não são fáceis, nem bonitas. Como você mesmo me contou ontem à noite, como Daryl e Aaron me confirmaram hoje de manhã: esses Wolves, esse Exército, todos eles provavelmente muito em breve vão bater na nossa porta. E eles não vão pensar em poupar ninguém. Nem no valor da vida humana — Rick falou em tom claramente sarcástico.
— Você não era assim. Onde está o sujeito que tentou me dar uma segunda chance? O homem que me disse que eu poderia me recuperar, que qualquer um poderia se recuperar. — Morgan movia as mãos, em gestos ansiosos, preocupados. — A pessoa que disse que havia mais... Mais do que isso? — Jones questionou.
— Continuo sendo quem eu sempre fui. Você precisa entender. As pessoas que vivem aqui, estão aqui desde o começo. Aqui dentro. — Grimes deu um passo a frente. — Elas não sabem como é realmente. Sequer poderiam saber — assegurou o policial, e nisso ambos pareciam concordar.
— Eu não corro riscos. Não mais — esclareceu Rick, sério.
— E você não deveria. Mas você não pode... — Jones parecia querer insistir.
— Não posso o quê?
— Passar por cima de tudo. Se o fizer... Pode causar um dano irreparável. — Morgan engoliu em seco, mas manteve o olhar duro de Rick.
Grimes deu uma risada seca, balançando a cabeça de um lado ao outro, como se não acreditasse, como se Morgan Jones lhe fizesse uma acusação totalmente infundada.
— Se é assim que pensa... Apenas me observe — Rick redarguiu, fuzilando Jones com o olhar, em uma provocação debochada proposital. Morgan não soube como reagir, apenas mantendo-se silencioso, parecendo descrente.
Uma fração de segundo depois, ambos escutaram ruídos de passos curtos descendo as escadas. Logo Deanna já adentrava seu salão improvisado de conferências, os olhos inchados, vermelhos pelo luto oriundo da morte estúpida de Reg.
— Vocês me disseram que tinham notícias importantes. Podemos começar — a governante falou, sua voz ainda frágil assumindo o tom mais firme que ela conseguia impor.
*****
Cerca de meia hora depois, juntaram-se a eles o comitê político de Alexandria. Michonne veio primeiro, seguida de Annie Guinness e Maggie. Por último, Moritz chegou. Mal tiveram tempo de deliberar sobre os planos de Rick e Deanna para Alexandria, quando, logo em seguida, vieram Daryl, Aaron e Eric. Não muito depois, Tucker pediu licença para entrar, junto a um ensimesmado Billy Ray.
O ex-palhaço perguntou se Rebecca se juntaria a eles, pois seu testemunho poderia ser importante para esclarecer tudo frente a população de Alexandria, mas Billy avisou que dificilmente. Ela parecia indisposta, afirmou misteriosamente o caipira do Alabama.
Impaciente, o xerife aguardou que todos os moradores de Alexandria interessados em ouvir o pronunciamento oficial de Deanna se juntassem naquele local. Cerca de quase duas horas depois, grande parte dos habitantes da comunidade ali se reunia. Rick reconheceu em meio ao grupo até mesmo as adolescentes Aiyana e Peggy. Carl não poderia estar ali, seu pai o avisara que deveria ficar de olho em Judith enquanto o manifesto ocorresse.
Com exceção de Tara e Mavelle, que estavam em missão de batedores, Glenn e Nicholas, ainda em recuperação, recebendo cuidados médicos da também ausente doutora Denise Cloyd e da enfermeira Rosita, quase todos os rostos conhecidos de Grimes ali estavam.
Michonne o encarava, enquanto todos encontravam locais para ficar dentro do salão de Deanna. Alguns em pé, idosos sentados em sofás e poltronas, outros sentados no chão... Todos mantinham os olhares variando entre a governante, os novos habitantes, próximos à Deanna Monroe, e também ao policial Grimes.
Depois do ocorrido na noite anterior, pareciam um tanto... Preocupados, com o que estava por vir.
Provavelmente nem metade do que deveriam estar. Pensou Rick, sustentando os olhares de todos os rostos que seus olhos miravam.
— Imagino que todos estejam ainda... Abalados, pelo que aconteceu — Deanna começou, tentando manter seu porte imponente — então serei breve e o mais sucinta possível.
— Entrevistei quase todo o grupo dos novos moradores de Alexandria ontem, e tivemos mais uma conversa fundamental hoje de manhã com um deles, Morgan Jones. — Ela indicou Morgan com uma das mãos. — Como sabem, sempre fui e sempre serei transparente com vocês — a governante salientou — portanto, é meu dever contar-lhes algumas... Novidades.
— Morgan, Billy Ray, Tucker e Rebecca encontraram-se com Aaron e Daryl na estrada. — Deanna varria os olhos pelos habitantes ali a escutando. — E têm algo a nos contar. — Ela deu espaço para que Aaron se manifestasse.
— Tivemos alguns problemas. Topamos com alguns grupos mal intencionados — Aaron avisou, tentando fazer sua voz soar calma, para não incutir mais pânico do que o necessário à população. Logo depois de sua fala, muitos começaram a sussurrar, afoitos e angustiados, entre si.
— Há um grupo grande lá fora. Um grupo de mercenários — o namorado de Eric falou, levantando as mãos para acalmar a população ali presente. Rick aferiu a sensibilidade de Aaron de não falar nas palavras “Exército” para não suscitar descontrole. Até mesmo Deanna concordara em não revelar muitos detalhes. Tucker, ouvindo Aaron, pareceu remexer em algo em seu casaco largo estampado com grafites.
— Mas nós estamos bem armados. Temos muros, mantimentos, gente capacitada. Podemos nos proteger, se houver qualquer indício de invasão, qualquer motivo para se preocupar. Eles não sabem que moramos aqui, e que estamos aqui... Ninguém nos seguiu, senão vocês certamente já saberiam — garantiu o recrutador mais antigo, enquanto Grimes apenas avaliava os olhares tensos e agoniados dos habitantes.
— Espera um pouco. Você simplesmente fala que tem um bando de gente lá fora, como se já não bastassem os rastejantes, e que eles podem querer nos invadir? Nos atacar? — Heath, um sujeito alto, jovem, negro e com dreads no cabelo, questionou, inconformado.
— É por isso que convoquei essa reunião — Deanna esclareceu, falando alto. A população, reticente e preocupada, ainda se manifestava em sussurros, murmúrios e certa balbúrdia.
— Há riscos. Passamos um bom tempo livres desse tipo de perigo. Mas, como o grupo de Rick, como esses quatro novos sobreviventes, vivos aqui, de nosso lado, comprovam... Não somos os únicos vivos. Rick tem razão. — Deanna limpou a garganta, e o policial trocou um olhar levemente surpreso com a mandante de Alexandria. — Temos de nos preparar.
— Estamos em guerra?! — A idosa chamada Mildred tentou se levantar, assustada, sendo contida por seu marido.
— Se preparar? Falam de montar trincheiras? — foi a vez de Eugene perguntar, um tanto nervoso.
Michonne fuzilava Rick Grimes com o olhar. O policial a conhecia o suficiente para perceber que ela parecia julgar que ele apenas esperava o momento certo para falar.
Estava correta.
— Nós vamos continuar aqui. Vivos. Neste lugar. — Rick apontou para o piso da sala de Deanna, sua voz austera, calando a maioria dos habitantes preocupados.
— Deanna e eu conversamos com os novos moradores, e com Michonne, Daryl, Aaron, Maggie, Annie e Moritz. Nós temos diretrizes a seguir, temos um planejamento para nos guarnecer, para que tudo dê certo. Não vamos ficar sentados esperando algo acontecer. Não mais — assegurou o policial, certeiro.
Tucker olhava para Rick, que aferia seu olhar nervoso de esguelha. Insistira para que o rapaz não falasse nada. Sua descrença na capacidade de Alexandria aguentar um ataque do Exército de Wyoming County apenas deixaria a população aterrorizada.
— Morgan, Billy Ray, Tucker e Rebecca viveram por todo este tempo também na estrada — Deanna adiantou, tentando acalmar os mais exaltados — eles têm conhecimento do mundo lá fora, eles sabem o que poderíamos encarar, e estão dispostos a nos ajudar.
— Vamos fazer por merecer nossa estadia aqui — garantiu Morgan.
— E por que a tal Rebecca não está aqui para confirmar tudo isso? — Carter, um sujeito de testa grande e cabelos ralos, falou, rascante.
Rick mirou os novatos, que se entreolharam, com a exceção de Billy Ray, que mantinha os olhos no tapete próximo a onde estava parado, de braços cruzados.
— Ela não está se sentindo bem no momento — Deanna esclareceu, enquanto Carter pareceu controlar uma risada de escárnio. Moritz, próximo de Rick, lançou um olhar censor para o rosto de Carter.
— Entendam. O importante é que sabemos como agir. Vamos fazer funcionar. Manter este lugar seguro. Nossas famílias, seguras. — Rick voltou a se manifestar, usando da mesma postura respeitável e austera.
— E então nós apenas deveríamos ficar em fila atrás de você e obedecer? — Carter retrucou, indignado.
— É um trabalho em conjunto — Grimes rebateu, controlando-se pela provocação do sujeito presunçoso.
— O que nós pensamos em propôr é algo que deverá ser aceito individualmente. Quem estiver disposto, colaborará — Moritz disse, sua voz calma e polida acalmando um tanto os ânimos.
— Uma nova divisão de tarefas, novas funções a serem ensinadas e aprendidas — foi a vez de Michonne acrescentar, seu olhar tão sério quanto o de Rick.
— Nada que vá prejudicar ninguém. Muito pelo contrário — Annie falou, de pé. Orgulhosa como parecia ser, recusara-se a sentar durante a conferência.
Jessie, ainda que sofrendo em razão dos recentes acontecimentos, fizera questão de comparecer à reunião. Enfim tinha algo a dizer. Ao cruzar seu olhar com o dela, Rick sentiu-se um pouco mais relaxado. Era de fato bom estar na presença dela, mesmo que com diversas outras pessoas à beira da histeria junto a eles.
— Por favor, nos expliquem, então, o que pretendem? — a mulher loira indagou.
— Vocês precisam aprender a se defender. A usar armas, armas de fogo e armas brancas. Precisam aprender a lutar. Princípios básicos de defesa pessoal. — Rick andou alguns centímetros para mais perto da multidão, encarando mais Jessie do que a todos os outros. — Como eu disse ontem, não temos escolha. Precisamos lutar, porque é assim que as coisas funcionam hoje em dia. Eu gostaria, de verdade, gostaria que fosse diferente. Mas não é. Para protegermos a nós mesmos, para protegermos uns aos outros, precisamos estar sempre um passo a frente. Preparados para o que pode vir.
— Pensamos em organizar grupos com professores e alunos. Para técnicas de defesa e ataque, para ensinar a atirar, outros conhecimentos do gênero — Michonne falou, próxima de Rick — assim como aumentar os grupos de batedores e coletores.
— Tivemos a ideia de criar grupos de rondas de segurança. Aumentar as fortificações dos muros com mais urgência, com mais pessoas trabalhando. Manter o sistema de vigia de snipers na torre de vigilância, e construir mais dessas torres em pontos estratégicos. Pensamos também em organizar turnos de vigia. Com os capacitados. Deixando de fora as crianças e os mais idosos, se não estiverem dispostos a tanto — garantiu Maggie Greene, sentada em um sofá, suas mãos em sua barriga grávida.
— Meu neto acabou de fazer dezoito anos, vocês vão dar uma arma nas mãos dele e obrigá-lo a atirar em desconhecidos?! Deixar uma população andar armada, como num velho oeste?! — Outra idosa, chamada Tracy, parecia exaltada. Annie, alguns metros longe de Rick, soltou um muxoxo de desdém pela demonstração aparente de fraqueza da outra idosa.
— Ninguém vai obrigar ninguém a nada, muito menos a matar alguém — Morgan redarguiu, de imediato, antes que qualquer um pudesse falar. Tracy e outros o encararam, surpresos com a ousadia do novo morador.
— Por isso Moritz acrescentou que colaborar seria uma questão de escolha — Jones complementou, mais polido.
— Feitos os devidos esclarecimentos, caso ninguém tenha maiores dúvidas... — Deanna acresceu, aguardando maiores pronunciamentos. Alguns murmúrios foram ouvidos, mas ninguém falou nada.
— ...Deixamos à livre escolha dos habitantes. Os interessados em ajudar, em aprender, por gentileza falem comigo, com Rick, Michonne, Maggie, Moritz e Annie. Pensaremos em novas funções, tarefas e aulas que se encaixem com os itinerários de todos. Podemos nos organizar. Morgan, Billy Ray, Tucker e Rebecca também irão nos ajudar — sentenciou Deanna Monroe, enquanto seu filho, Spencer, a encarava, parecendo sem saber como julgar aquilo tudo.
— Apenas lembrem-se de que tudo o que faremos será pensando no coletivo. No futuro desta comunidade. Reflitam bem sobre suas escolhas e suas consequências, antes de decidirem. Tudo o que organizamos têm razões concretas — Deanna pareceu finalizar. A população ali presente se dividia entre expressões de seriedade, insegurança e reticência. Alguns pareciam negar totalmente os novos termos da comunidade.
Os covardes vão para fora, e os úteis ficarão. Grimes pensou, seus olhos perpassando os rostos dos habitantes. É uma bela forma de diferenciar os inúteis dos capazes.
Com o tempo, depois de alguns segundos de silêncio, Carter falou outra vez.
— Tudo o que temos é a palavra de gente desconhecida. E se enganaram e assustaram Aaron e Daryl? — o sujeito duvidou.
— Ninguém precisou nos contar nada. Nós quase morremos nas mãos dos mercenários — revelou Aaron, fazendo o grupo soltar algumas exclamações de surpresa.
— Essa história está me parecendo muito conveniente. Esse grupo hostil... Tudo isso. Como se não pudesse haver negociações? — Carter insistiu, fazendo outro burburinho questionador surgir.
— Nós passamos dois anos incólumes, sem preocupações... E coincidentemente... — Um garoto jovem e moreno, que Rick não lembrava o nome, complementou a frase de Carter.
— O que querem dizer? Sabem muito bem que eu não decretaria estado emergencial se não fosse algo sério — Deanna cortou, seca.
Carter e o rapaz apenas olharam para a governante, para os novatos, e para Grimes.
— Estou fora — Carter decidiu, virando as costas para todos. O rapaz o seguiu para fora da assembléia, os ombros de ambos trombando-se com a multidão. Alguns moradores de Alexandria os seguiram, dentre eles a idosa Tracy e também Mildred e seu marido, lançando olhares incrédulos e preocupados para Deanna Monroe. O medo fora superior à razão, no caso deles.
Depois de algum tempo, como ninguém mais fez movimentação alguma, Rick sentiu-se seguro para perguntar:
— Todos aqui estão dispostos a aprender e colaborar? — o policial indagou, seus olhos estreitando-se, avaliando cada um dos remanescentes. Passou-os pelos de Abraham, seguro de si, como sempre. Viu Padre Gabriel desviar o olhar, e Eugene esforçar-se para sustentá-lo. Carol, que mantivera-se silenciosa, misturada na multidão, apenas aguardava o desfecho, fria e resoluta como só ela conseguia ser. Sasha, respirando fundo, parecia ser uma das mais agradadas com as novidades de Alexandria.
Rick deixou seus olhos manterem-se por mais tempo nos de Jessie, sentindo-se outra vez mais calmo.
Pouco a pouco, os ali presentes foram afirmando suas decisões, reiterando-as.
— Vamos ao trabalho então. Temos muito o que fazer — atestou Rick Grimes, trocando um olhar significativo com Deanna Monroe. Morgan Jones, silencioso, encarava Rick de um canto alguns metros longe.
E é melhor para ele mesmo… Que não tente atrapalhar.
*****
[NAQUELA TARDE, EM ALEXANDRIA]
— E você tem algo mais a acrescentar, Rebecca? — perguntou Deanna Monroe, sua voz abatida como seu rosto, como se tivesse envelhecido anos de um dia para o outro. Becky tinha seu estado emocional completamente transtornado.
Os olhos da acrobata estavam focados na mulher à sua frente, de cabelos loiro platinados, e na câmera diante dela. Mas sua mente vagava para muito, muito longe dali.
[...]
— Oi, filhinha, mamãe demorou muito? — A mãe de Becky fechou a porta de casa com um pé e aproximou-se da filha, que pulara em seu colo, depois de passar semanas sem vê-la. Ruby Gable, mãe de Rebecca Gable, era uma atleta renomada, uma ciclista norte-americana famosa, ganhadora de diversos troféus e medalhas.
— Aham — Becky respondeu, ainda criança naquela época.
— Não se preocupe, mamãe não tem mais nenhuma competição para participar nesse ano. — Acariciou os cabelos da filha, que a abraçava pela cintura. Ruby sentou-se no sofá da sala, enquanto Becky ainda pedia por chamegos e abraços.
— Eu não me senti muito sozinha — afirmou Rebecca, sorrindo para a mãe.
— Papai te fez companhia, né? — a mãe de Becky disse, carinhosa.
— Não — a garota respondeu, animada, no colo da mãe.
— Não?
— Não. O Johnny fez! — Rebecca apontou para o outro lado do sofá. A mãe, achando que se tratava de uma brincadeira, riu e abraçou mais a filha.
— Mãe. Não seja grossa — Becky reclamou, se desvencilhando da mãe.
— O que foi, Rebecca? — Ruby perguntou.
— O Johnny está te cumprimentando. Diga oi para ele — a garota pediu, séria, encarando o sofá e vendo claramente seu amigo lá. Outra criança, da mesma idade que ela, que passara a morar em sua casa quando sua mãe viajara.
— Oi, Johnny — Ruby disse, olhando para o sofá que, para ela, aparentemente estava vazio.
— Vou pegar um copo d’água. Mãe, está com sede? — a garota indagou.
— Sim, obrigada.
Becky foi até a cozinha do amplo apartamento em que morava com sua mãe, atleta famosa e bem paga, e seu pai, empresário igualmente bem de vida.
Trouxe três copos d’água. Deu um para sua mãe e colocou outro em uma bancada ao lado do sofá. E o terceiro, deu nas mãos de Johnny, que o deixou cair e molhou o estofado do sofá.
— Becky! Essa brincadeira passou do limite! — ralhou Ruby, empurrando a filha para o lado e vendo o estrago nas almofadas.
— Mas mãe, eu não tive culpa! O Johnny que deixou cair! — Becky se defendeu, preocupada, não entendendo porque a mãe parecia ignorar a figura de seu amigo, que se movimentava para longe das mãos de Ruby, saindo do sofá.
— Você já está muito velha para inventar agora um amigo imaginário! Você já tem doze anos! Que besteira é essa?! — sua mãe a repreendeu, e Becky, muito sensível, passou a ter lágrimas nos olhos.
— Ela parece que não me vê. Sua mãe é esquisita — Johnny sussurrou aos ouvidos de Rebecca, que, preocupada, perguntou a mãe:
— Mamãe. O Johnny está aqui do meu lado — ela insistiu, séria. Ruby encarou a filha, seus olhos varrendo por um segundo o local que ela indicou. Sua expressão passou de amável para preocupada. Preocupada de uma forma como Rebecca jamais vira antes.
— Está brava comigo? Prometo que o Johnny não vai mais fazer isso. Ele está dizendo que não vai — assegurou a pequena menina loira, chorosa.
Ruby engoliu em seco, uma expressão indecifrável nos olhos.
— Rebecca… Chega disso — sua mãe pediu, como se não reconhecesse a própria filha.
[...]
— Mas mamãe, eu não quero tomar esse remédio… Ele me deixa com sono, e eu não consigo ficar sem vomitar… — a recém-diagnosticada esquizofrênica paranóica Rebecca Gable, já adolescente, reclamava de seu tratamento. Sua mãe a acordara para ir à escola, e, como toda manhã, era obrigada a tomar aquilo para não sofrer com as alucinações que sempre a atacavam.
— Você tem de tomar, Rebecca. Não pode ficar sem.
— Mas ele faz meu estômago doer…
— Não tem conversa. É o mal menor — Ruby insistiu, obrigando a filha a dar um enorme gole d’água depois de colocar a pílula em sua boca.
— Assim não vai acontecer nada, ninguém vai reparar. — Sua mãe sorriu para ela, acariciando seus cabelos loiros, como costumava fazer.
— Mas mãe, nem sempre eu escuto as vozes ruins. Ou vejo as coisas ruins — Rebecca reclamou, engolindo a contragosto.
— REBECCA! — Ruby gritou, descontrolando-se, deixando o vidro do remédio cair na cama, espalhando as pílulas pelas cobertas da garota loira.
Becky encarou a mãe, arregalando seus olhos castanhos escuros. Ruby fazia uma expressão de profunda dor… E de medo.
Como se algo em Rebecca a deixasse assustada.
— Apenas não discuta comigo. — Ruby respirou fundo, catando as pílulas.
Becky baixou os olhos, querendo chorar. Odiando-se a si mesma, pois ela sentia… Sentia que sua mãe também a detestava. Mas era boa demais para admitir.
— Está certo, mamãe…
[...]
Rebecca escondia-se atrás da porta do quarto dos pais. Acordara de madrugada, julgando ter ouvido um lamento feminino abafado vindo daqueles aposentos. Não sabia se estava imaginando aquilo ou não, mas não queria que sua mãe ficasse triste. Aquilo a machucava também.
Pé ante pé, esgueirou-se pelo corredor até chegar onde estava. Colou o ouvido na porta, e conseguiu escutar:
— Ah, Louis, eu não entendo… Simplesmente não entendo — Ruby chorava baixinho, sussurrando para o marido.
— Não tínhamos como prever, querida. Essas coisas acontecem… Simplesmente… Acontecem — Louis falou, sua voz não parecendo segura o suficiente do que dizia.
— Mas ninguém na família é assim… Não sei de onde veio isso — Ruby lamentou-se, angustiada.
— Talvez de algum parente longínquo… Dizem que tem carga genética — o pai de Becky disse, incerto.
— Ela era uma menina de ouro, Louis… Tão linda, tão forte, com tanto potencial… Lembra-se dela nas aulas de patinação de gelo? — Ruby indagou, e Becky começou a entender o que sua mãe dizia. Colocou uma das mãos na boca, contendo uma exclamação, sem conseguir parar de ouvir a conversa.
— Ela continua linda… E também tem potencial… — Louis tentou acalmar Ruby.
— Você sabe! Tanto quanto eu sei… Não minta para si mesmo… — rebateu, chorando copiosamente.
— Ela é doente, Louis. Doente. Maluca! — Ruby falou com um tom que pareceu enojado aos ouvidos de Rebecca. — Dependente de nós. Que futuro ela pode ter nesse mundo? — Ruby parou para um suspiro angustiado. — Eu achei… Eu achava que ela era normal — a mãe de Becky confidenciou a Louis, abafando o choro de alguma forma.
Rebecca não suportou. Correu para seu quarto, ela mesma chorando até não poder mais.
[...]
— Rebecca? Está me ouvindo? — A voz longínqua de Deanna Monroe pouco a pouco despertou Becky de suas lembranças vívidas e dolorosas.
— Sim. — Rebecca Gable baixou os olhos para seus próprios dedos, abrindo-os e fechando-os nas palmas das mãos, em um movimento quase sonhador. Levantou os olhos, e viu que Deanna encarava aquele movimento, com suas sobrancelhas levemente levantadas.
Está te julgando. Eles sempre te julgam. Também, né? Você é doente. Sua segunda voz falou consigo, e Becky fechou os olhos com força, sacudindo a própria cabeça. Agora não! Pensou ela, angustiada, temendo o que poderia ouvir dentro dela.
— Está se sentindo bem? — Monroe perguntou, parecendo conter um suspiro exasperado. Racionalmente, Rebecca sabia que a governante estava impaciente e com aquele ar sofrido por conta da morte de Reg na noite anterior. Mas os sentimentos paranóicos que nunca a abandonavam estavam lá, dentro dela, gritando em sua mente que Deanna a julgava, tinha medo dela.
— Estou — Becky disse, passando as mãos nas bochechas, mal disfarçando o nervosismo.
— Nós já finalizamos, você compreendeu isso? — Deanna indagou, encarando a jovem loira — se não tiver nada mais a acrescentar, não tenho mais perguntas. Obrigada pela colaboração. Foi um prazer conhecê-la melhor — Deanna Monroe tentou dizer de forma gentil, mas Becky olhou com cuidado para o rosto dela. Parecia tudo, menos agradada.
— É — Becky retrucou, tentando com dificuldades se manter presa apenas ao real, ao concreto, e não as emoções e sensações que urgiam dentro dela. Levantou-se, de súbito, tão rápido que se sentiu um pouco tonta.
— Tem certeza de que está bem?
— TENHO! — Rebecca falou alto demais, tentando abafar a segunda voz que a importunava em sua mente. Deanna pareceu assustar-se um pouco, movendo-se suavemente para trás na poltrona em que se sentava.
— Desculpa — Becky sussurrou, sua garganta se fechando. Sentiu-se humilhada, fazendo papel de desequilibrada na frente de Deanna, logo a governante de Alexandria. Controlando-se para não sair correndo da sala, Rebecca andou para fora, e, somente depois de sair da casa de Monroe, correu desabaladamente, na direção dos fundos das casas.
Correu por muito tempo, em um tiro de velocidade tão violento que até perdeu o fôlego. Aquilo servia para abafar as vozes que ouvia, que, com a ajuda da Clozapina, quase nunca se faziam escutar. Mas em dias como aquele... Dias difíceis, dias desafiadores... Ela não conseguia fingir para si mesma que não era o que era.
Um estorvo para todos.
Uma garota louca.
Becky não vira onde parara. Apenas se recostara em uma árvore aos fundos de um dos quintais das casas de Alexandria. Naquela tarde, quase ninguém ficara em casa. Quando finalmente se recompôs o suficiente para falar com Deanna, Rebecca vira muitos dos moradores de Alexandria irrequietos, organizando-se em grupos diferentes, andando pela comunidade com ar ocupado.
Fechou os olhos, não querendo chorar outra vez. Será que Deanna percebera? É claro que sim, sua burra. A segunda voz dizia, ferina. Becky apertou as pálpebras com agressividade, estapeando-se a si mesma para calar sua própria cabeça.
— Rebecca? — Uma voz masculina desagradavelmente familiar se fez ouvir. Becky abriu os olhos, por um segundo temendo tratar-se de outra alucinação.
Moritz a encarava, da porta dos fundos da casa que tinha o quintal onde a circense se escondera.
De súbito, com seu emocional instável, Rebecca sentiu seu medo, seu pavor serem substituídos por uma emoção menos angustiante: raiva, pura raiva.
— Seu filho da puta... — Becky rosnou entre dentes — seu palhaço de merda, seu velho tarado nojento... — Rebecca quase correu na direção de Moritz, que nem teve chance de se mover. No segundo seguinte, a garota loira o atirara contra a porta fechada, que tremeu pela força do golpe.
— Bem, não posso dizer que não mereci essa... — o ex-palhaço tentou, com um sorriso amarelo, e Becky lhe deu um tapa estalado, fazendo o maxilar do homem desviar-se um pouco pela força do golpe. Moritz fechou os olhos, levantando a palma de uma mão para a face atacada.
— Rebecca, será que você me daria a chance de me desculpar? — o antes dono de circo tentou, mas Becky apenas fechou suas mãos em torno do pescoço dele.
— Eu deveria te matar agora. Me dê um motivo. Um bom motivo para não acabar com você? E tem que ser bom mesmo pra me convencer! Porque eu sou maluca, se lembra disso? — Rebecca falou com deboche, se desprezando, apertando seus dedos fortemente no pescoço do homem. Moritz não era nada indefeso, se quisesse poderia muito bem golpeá-la de volta e se safar. Mas, pelo visto, não era o que o ex-palhaço pretendia.
Moritz levantou as mãos com cuidado, segurando com firmeza delicada os punhos de Rebecca que se fechavam contra seu pescoço. Mesmo com a pressão preocupante que sentia em sua garganta, ele conseguia manter o sangue frio de encará-la por todo o tempo.
— Posso te dar dois. Um. — Moritz tossiu um pouco. — Você não é uma assassina. Dois. Eu te conheço muito bem. — Ele arquejou, tentando engolir ar. — Você tem pleno controle das suas ações. Sabe o que faz.
— O que está dizendo? — Becky grunhiu, ainda apertando o pescoço do sujeito.
— Você não é maluca. E nós dois sabemos disso — o ex-palhaço disse com tamanha assertividade que Rebecca não conseguiu mais. Olhou nos olhos dele, e soltou-o.
Tossindo, Moritz levou uma das mãos ao pescoço, enquanto respirava profundamente para se recuperar.
— Rebecca. Por favor me escute — ele pediu, um pouco curvado, ainda com uma das mãos ao pescoço — sei que você deve ter se sentido abandonada na estrada, mas nós só seguimos adiante por uma razão. Lembre-se que nenhum de nós te enganou. Você sabia desde o começo qual era o plano.
Becky aguardou, olhando o homem ainda com desprezo.
— Nós sabemos que você era capaz de sobreviver, se escolhesse ficar para trás. Como você fez. Você é igual a qualquer um de nós, igual a mim, a Aiyana — afirmou o ex-palhaço — peço desculpas por termos deixado aquele tal de Billy Ray para a morte, que, pelo visto, era uma boa pessoa. Pude ver que ficaram amigos — adicionou ele — peço desculpas apenas por termos concordado em deixá-lo de isca. Mas não vou pedir desculpas, jamais vou pedir que me perdoe... Por confiar nas suas capacidades.
Moritz aprumou sua postura, abaixando a mão que levara ao pescoço. Becky ainda o encarou, seus olhos grandes agora estreitados, julgando aquele sujeito que conhecia há tanto tempo.
— Você tem uma língua de prata do caralho, seu velho pervertido — rebateu Rebecca, meio sorrindo por raiva debochada, meio chorando.
— Você sabe que estou falando a verdade — ele disse, suas feições honestas.
— O que aconteceu com Tejas? — Rebecca perguntou, já sabendo a resposta, seus olhos outra vez marejados.
— Saiu em uma missão de coleta... E não retornou — Moritz respondeu, seus olhos mostrando o pesar que ainda sentia.
— Como está Aya? — Becky indagou de imediato, não querendo sentir mais dor do que já sentia.
— Se recuperando. Ela tem uma boa amiga agora — disse Moritz, e Becky reparou em uma nota de carinho em sua voz. Aquele homem sabia ser desonesto, sabia ser egoísta, mas fora como uma espécie estranha de protetor para todos eles, para todas elas, especialmente... Desde a época do circo.
— Não quer entrar, Rebecca? — o ex-palhaço a convidou, e Rebecca soltou uma risada seca de escárnio.
— Você é inacreditável — replicou ela, pela audácia do homem de achar que tudo se resolveria tão rapidamente assim. Moritz franziu o cenho e deu um curto sorriso triste a ela.
— Espero que um dia possa me desculpar — o homem falou, parecendo sincero.
— Não sou eu quem tem de te desculpar. É a Mimi — Rebecca rebateu, agressiva e ferina. Mimi era o apelido de Micaella, a imigrante italiana que se juntou ao circo muito antes da infecção dos decompostos. Era a bailarina equilibrista do grupo, a pérola de todos aqueles párias sociais.
E também a jovem esposa de Moritz, que se suicidou ao não aguentar o horror do mundo povoado por mortos-vivos.
Becky deu um último duro olhar para o dono do circo Alvintzi, e seguiu caminho. Viu o rosto de Moritz tomar uma expressão arrasada, pois acabara de tocar em uma ferida daquele homem que jamais cicatrizaria.
Por mais que sentisse um pouco de compaixão por ele, era bom descarregar a raiva assim. Projetar suas emoções assim.
No fim, a raiva que sentia de Moritz era menor do que a que sentia contra si mesma.
*****
[NAQUELA TARDE, FORA DOS LIMITES DA COMUNIDADE]
A flecha triscou o ar e fincou sua ponta na parede de tijolos, antes de cair ao chão.
Tara Chambler, aferindo o erro, mirou sua pistola com silenciador no crânio do morto-vivo que se aproximava, uma enfermeira obesa de cabelos curtos. Atirou, eliminando a ameaça em uma fração de segundo.
— Errou de novo, garota! — Tara comentou, franzindo as sobrancelhas, encarando a figura feminina ao seu lado — tem certeza de que está tudo bem?
Mavie soltou o ar, entre a impaciência e a aflição. Andou até onde a flecha que atirara havia caído, passando o dedo pela ponta e avaliando o estrago. A flecha se partira perto do bico.
Jogou o projétil no chão, frustrada, e olhou para a amiga.
— Não é o meu dia — redarguiu Mavelle, seus olhos um tanto vazados, sem alegria.
— Logo, logo, você se recupera. Deve ser pelos dias sem prática. — Chambler deu um apertão afável no ombro esquerdo de Mavelle, adiantando-se para dentro da clínica mais próxima que havia de Alexandria.
Cerca de apenas quarenta quilômetros de distância da comunidade, havia um pequeno centro de atendimento particular médico. Repleto de medicamentos diversos e suprimentos hospitalares, mais necessários agora que Glenn e Nicholas estavam fisicamente avariados. E também para a futura parturiente de Alexandria... Maggie Greene.
Annie Guinness pedira a sua neta, na manhã daquele dia, que não se arriscasse além do necessário e buscasse apenas o obrigatório. Anestésicos, suprimentos vitamínicos, anti-inflamatórios, ansiolíticos, hipnóticos, e toda uma lista de medicamentos imprescindíveis. Era importante ter uma abundância daqueles produtos na comunidade, pois não se sabia o dia de amanhã. Em um mundo caótico como aquele, era melhor sempre prevenir.
— Pelo menos o hospital é pequeno — comentou Mavie, estudando o prédio de apenas quatro andares.
— Vamos. Tem poucas janelas quebradas e quase nenhuma pixação. Não parece ter sido saqueado — Tara considerou, passando por cima do cadáver da enfermeira. Mavie deteve os olhos em uma grossa mancha de sangue que havia no uniforme da mulher morta, e seguiu-a.
As duas fizeram a limpa nos primeiros andares, fazendo ruídos para chamar a atenção dos possíveis cadáveres ameaçadores. Mataram os carniceiros que se revelaram como sendo o restante dos funcionários que tentaram se proteger dentro da clínica, alguns com jalecos, uniformes de enfermaria, outros com crachás de trabalhos administrativos ou funcionários da limpeza.
Os últimos andares eram reservados apenas aos quartos dos enfermos, com o estoque menor, onde acharam a maior quantidade de carniceiros. Os primeiros, quase livres de mortos-vivos, continham a maior parte dos medicamentos guardados, pois eram reservados à administração da clínica. Depois de matarem quase trinta carniceiros e percorrerem os quatro andares, Tara e Mavie se dividiram.
— Eu fico com o terceiro e o quarto. Fica com o segundo e o primeiro — Mavie orientou Tara — você acabou de se recuperar. Se aparecer mais um carniceiro desgarrado, eu mato nem que seja na faca — a irlandesa garantiu, determinada.
— Tem certeza? — Chambler confirmou — por mim a gente não precisa se dividir.
— Estamos demorando muito já. Achei que o lugar era menor — Mavelle retrucou, mordendo o lábio inferior com seus dentes salientes — vamos fazer assim que vai ser mais rápido. Guarda tudo o que puder da lista no carrinho, até encher — a jovem irlandesa indicou o carrinho de supermercado enferrujado que haviam levado para a coleta.
— Ok. Te encontro daqui a quinze minutos, no máximo, na frente da porta? — Tara indagou.
— Com certeza. — Mavie forçou um sorrisinho maroto, e sua amiga lhe respondeu com outro sorriso curto.
Berry subiu as escadas com sua lanterna na mão, levantando a gola da camisa verde clara que usava para suportar o cheiro nojento de carne podre e mofo que empesteava aquele pequeno hospital. Lacraias e baratas se arrastavam pelo chão, e ela evitava olhar mais do que o necessário para o piso.
Aquele cenário era ainda mais grotesco do que seria em um hospital normal. Mavelle, já com seu emocional conturbado pela confissão depressiva que ouvira de Billy Ray naquela manhã, sabia que enfrentaria um de seus maiores medos internalizados naquela tarde.
Afinal de contas, deveria fazer a missão de busca dentro de uma clínica de atendimento médico... Voltada somente para crianças.
O hospital Riverside Children & Baby Care, completamente deteriorado, revelava seu interior a cada passo de Mavie. Mas ela ainda não entrara no local que mais temera.
O último quarto coletivo, que se tratava, na verdade, de uma UTI, guardava no fim de seu repartimento um estoque considerável de medicamentos necessários para pacientes em estado grave de saúde.
Mavelle respirou fundo, e empurrou a porta. Não havia nada ali além do mesmo cheiro pestilento, e algumas moscas voando ao redor. Estreitando os olhos para não ver mais do que o necessário, evitando pensar em tudo o que aquele lugar a lembrava, Mavelle andou reto até a porta do estoque. Quando chegou, próxima de tocar a maçaneta, porém... Não aguentou.
Olhou para seu lado esquerdo, deixando a gola da camisa cair. Seus olhos arregalaram-se, vendo inúmeros berços equipados para bebês enfermos, à beira da morte, tratados emergencialmente naquela UTI.
No último berço, ao seu lado, havia uma enorme poça de sangue seco... Com um pequeno sapatinho de crochê semi-mastigado largado em cima do colchão.
Mavelle deixou a lanterna cair no chão, suas mãos tremendo como se não tivesse mais controle delas. Suas pernas bambearam, enquanto ela se arrastou até a borda daquele berço.
Mavie caiu de joelhos, suas mãos crispando-se como garras na borda do berço, sem conseguir parar de encarar a poça de sangue indicando o bebê que fora devorado por algum daqueles mortos-vivos que ela e Tara eliminaram. Tirou o sapatinho de crochê com uma das mãos, o sangue escuro manchando o símbolo de inocência daquele calçado delicado.
Berry não mais suportou. Pôs-se a chorar, um pranto tão aflitivo, tão honesto por não aguentar a crueldade daquele mundo, a crueldade do que também acontecera com ela...
...Do filho que não conhecera, que jamais conheceria, que fora arrancado de si, não por carniceiros, não devorado vivo... Mas morto antes mesmo de nascer, sem que ela pudesse fazer nada para impedir. Porque fora burra. Porque confiara em Jeffrey.
A culpa era dela também.
Mavie abraçou o sapatinho de crochê junto ao peito, sentando-se de lado junto ao berço, movendo-o delicadamente com o ombro direito para frente e para trás enquanto chorava. Esquecera do que viera fazer ali. Estava esgotada... Cansada de fingir que ela mesma não sofria.
Berry não soube quanto tempo passou até que Tara veio procurá-la. A amiga a ajudou a se levantar, perguntando o que acontecera, mas Mavelle demorou para conseguir se erguer novamente.
Anestesiada pela dor, Mavie recolheu os últimos medicamentos junto a Tara, que a olhava com grave preocupação no rosto. A irlandesa deu um último olhar ao berço, não mais chorando, como se não tivesse mais lágrimas para deslaçar.
Desceram juntas, e Tara obrigou Mavelle a ficar no banco do carona, dizendo que iria dirigir. Depois de muito tempo, Chambler perguntou pela décima vez o que acontecera, e Mavie finalmente conseguiu falar.
— Antes de tudo começar, eu estava grávida — Mavelle admitiu, olhando a paisagem ao lado do banco do carona, sem realmente a ver.
— Meu noivo não queria o bebê, mas fingiu que o queria apenas para me trazer da Irlanda para cá. Não queria nem casar comigo, na verdade. Moramos em uma casa nos arredores de Atlanta, aquelas casas enormes, coloniais. Sem eu saber, me drogou, e me fez abortar, tudo dentro de casa, sem testemunhas além dos médicos clandestinos que ele contratou.
— No dia seguinte, quando acordei, só vi o bisturi sujo de sangue perto da cama, e o colchão e meu avental todos manchados também. Desci as escadas, me sentindo grogue, fraca... E vi meu noivo fugindo de casa, com uma mala imensa repleta de dinheiro.
— Dinheiro? — Tara perguntou, assombrada.
— Meu pai e ele tinham combinado o aborto, com meu pai o pagando para me enganar. Meu pai era prefeito de Galway, na Irlanda, membro de um partido católico muito conservador. Se descobrissem que sua filha, sua única filha, estava grávida e nem era casada seria um escândalo que ele poderia perder toda a carreira de prestígio que construiu. — Mavie mantinha seu rosto inexpressivo, entorpecido.
— Ele nunca me quis realmente. Uma filha que ele nunca amou. Já sua própria carreira... — Mavelle sorriu enviesado.
— Isso é horrível demais, Mavie! — Tara exclamou, perturbada, seu rosto mostrando uma expressão de repúdio.
— Eu sempre disse que não tinha medo de carniceiros... Só de pessoas — completou Mavelle, seus olhos pálidos no horizonte. Seus dedos passavam pelo crochê delicado manchado de sangue velho do sapatinho de bebê, apertando e soltando os dedos em volta dele.
— Me dá isto aqui. Agora — Tara exigiu, parando o furgão que dirigiam. Mavie foi empurrada para a frente pela força do freio.
— O quê?!
— Me dá este sapatinho. Eu não vou deixar você fazer isso consigo mesma — sua amiga demandou, séria.
Mavie fez menção de esconder o sapatinho, mas Chambler o arrancou de suas mãos e jogou-o pela janela ao lado do motorista. Em seguida, pisou fundo no acelerador.
Mavelle olhou para trás, agoniada, enquanto o carro se afastava do sapatinho.
— Não! Por que você fez isso?! — Berry questionou, raivosa, encarando Tara com novas lágrimas aos olhos.
— Todos nós temos fantasmas no nosso passado. Uns piores do que outros, é verdade — Chambler complementou — mas se não conseguirmos deixá-los ir, superá-los, nós mesmos viramos fantasmas. Ficamos iguais a eles. — Tara apontou com o indicador um morto-vivo que se arrastava na beira da estrada.
— Você deu um grande passo me contando isso, Mavie. Fico grata pela confiança, de verdade — Chambler disse, olhando para a estrada — mas se você guardasse esse sapatinho... Você só alimentaria isso dentro de você. Para sempre assombrada.
— Você merece mais do que isso. Merece viver. Merece ser feliz de verdade — Tara falou, voltando os olhos para a amiga.
Mavelle a encarou por um tempo, sem nenhuma das duas dizer palavra. Depois de alguns longos segundos, anuiu com a cabeça, concordando, deixando descer lágrimas silenciosas em seu rosto pálido.
Enquanto isso, a voz tristonha de Bob Dylan cantava no tocador de cds do carro a música "It's All Over Now, Baby Blue", com Tara praticamente fazendo eco as palavras de Billy Ray naquela manhã.
"Eu ainda amo você. E por isso quero que seja muito feliz. Garanto que nunca mais vou te importunar."
Mavie deixou as lágrimas descerem, sua mente enevoada escutando as notas melancólicas que embalavam aquele dia infeliz, como uma canção de ninar tristonha...
"...And it's all over now, baby blue..."

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