Hunter's Instinct

40 Episódio 40 - Old Friends


Notas iniciais
OIIII MINHA GENTE AMADA! Meus queridos, venho neste sábado com um capítulo caprichadíssimo! E, com apenas um dia de atraso... Quero dedicá-lo a duas LINDAS e MARAVILHOSAS aniversariantes do dia 21/08! Minhas queridas leitoras divas marcelammota e Harley Quinn!!! Espero que vocês duas tenham aproveitado demaaaais seus aniversários e se divertido muito! Desejo tudo de melhor para vocês, e fica como um dos presentes que lhes darei este capítulo, que está recheado de: drama, revelações, confissões e tensões! Três POVs: Billy Ray (SIM, SIM, SIM, TODA A TRETA QUE VOCÊS QUEREM COMEÇA AGORA), Peggy e Rick! Se preparem, porque MUITA coisa vai rolar dentro de Alexandria, e MUITA coisa vai acontecer do lado de fora também! O cenário está preparado para inúmeros eventos, e posso dizer que nunca as coisas estiveram tão feias na comunidade quanto a partir de agora. É, minha gente, nessa temporada a PORRA FICOU SÉRIA! Agradeço também aos leitores Luna Miller, Anna L, Thaaty, sami, marcelammota, Giovana Catalani, Vivi Costa e Filho de Kivi, comentaristas do capítulo anterior! Muito obrigada por toda a gratificação e lisonja que me fazem sentir a cada lindo comentário de vocês! Rosie Santana e Hamitt, meninas lindas que também costumam estar sempre presentes nos reviews, quando puderem, por favor, estou curiosa para saber a opinião de vocês não só sobre esse capítulo como a respeito do anterior, se puderem me contar! ^^ GENTE! TEM ATUALIZAÇÃO NO TUMBLR! FICHA DA REBECCA POSTADA! Aos interessados: http://hunters-instinct-fanfic.tumblr.com/ Dito isso... Beijos e boa leitura!

Old friends,

Memory brushes the same years,

Silently sharing the same fear...”

Simon and Garfunkel – Old Friends



Billy Ray fechou o livro que acabara de reler por uma incontável vez seguida e olhou para o teto. Jogou o exemplar de “O Chamado Selvagem” de Jack London para um dos lados da cama, com as cobertas intocadas.

O homem piscou os olhos, encarando a tinta metros acima de si. Limpo, branco, alvo como se não pertencesse aquele mundo... Assim era não apenas a cobertura daquele quarto como toda a comunidade de Alexandria. Bonita, apresentável, organizada... Apenas aparentemente. Pois o homem do Alabama vira sua verdadeira face na noite anterior.

Billy se levantou da cama, não tendo dormido por um minuto sequer. Olhou pela janela dos aposentos que escolhera para si, vendo que o sol estava perto de nascer. Talvez fosse uma hora segura para sair daquela sua suposta casa sem levantar maiores suspeitas, evitando parecer um maluco vagando pela madrugada.

O sulista lembrou-se novamente do ocorrido horas atrás. Ao ser levado para o que Aaron prometera ser uma promissora comunidade de sobreviventes, não apenas um refúgio como uma espécie de chance de começar a construir novamente a sociedade, Billy, Becky, Tucker e Morgan se surpreenderam com atos não muito... Civilizados.

Assim que chegaram ao local, sua primeira visão fora a de Rick Grimes atirando na testa de um homem desconhecido, explodindo sua cabeça e pintando a grama verde com o sangue rubro do morto, bem como espalhando vigorosamente pedaços de seu cérebro.

Descendo as escadas de seu novo e incômodo lar com tais pensamentos em mente, Billy Ray ainda refletia sobre como seria de fato recebido dentro daqueles muros. Não era um completo novato no convívio com aquelas pessoas, como era o caso de Tucker, por exemplo. Ele conhecia boa parte daqueles moradores, que uma vez recepcionara sob o seu teto, sob o jugo do local em que uma vez fora um habitante bem quisto, antes de estragar tudo.

Seria novamente um pária em Alexandria, como fora no Oceanário de Atlanta? Antes um dos braços direitos de Jed, um dos moradores do Aquário mais habilidosos e respeitados... Para terminar expulso, por conta de suas atitudes enlouquecidas que não eram culpa de mais ninguém além de si próprio.

Billy já sabia disso. Os dias que passara na estrada o ensinaram que, se ainda quisesse se apegar à vida, teria de mudar. De alguma forma, teria de aprender a se salvar a si próprio, nem que fosse na marra.

Mas como? Teria tomado a decisão correta? Teria mesmo alguma chance de um dia se sentir pertencer aquele lugar, seguro entre aqueles muros, quando tantas improváveis e até mesmo indesejáveis companhias dividiam aquele espaço consigo?

Descrente, o homem vagou da sala de estar até a porta de entrada, saindo para o ar matutino. Colocou o chapéu que sempre levava consigo em sua cabeça, e caminhou na direção do local onde Olivia lhe contara, anteriormente, resguardar a horta e os pomares de Alexandria.

Alguns idosos já haviam acordado e caminhavam no ar frio daquela manhã de outono. Incrivelmente, o cumprimentavam com gentileza, como se o sulista fosse de fato um morador daquele local. Com o céu parcialmente encoberto por nuvens e cantos de pássaros da aurora, o dia poderia de fato parecer abençoado, se Billy não sentisse que carregasse consigo, impreterivelmente, uma maldição inexpugnável.

O que se passaria agora pela cabeça daquele policial desequilibrado e todo o seu séquito? Seriam contra sua estadia na comunidade, tentando expulsá-lo novamente? Ou o receberiam com falsos olhares compadecidos, fingindo aceitá-lo como um deles, mas querendo que abandonasse aquele lugar?

E, mais importante do que tudo... O que se passaria na cabeça de Annie? De Peggy?

O que Mavie estaria achando de tudo isso?

Billy imediatamente passou uma das mãos ao rosto, esfregando a palma na barba limpa pelo banho tomado na noite anterior. Alexandria tinha confortos e luxos, isso era inegável... Mas seria suficiente?

Assim, perdido em pensamentos torturantes, o homem do Alabama sequer reparou que já havia chegado ao pomar. Seguindo as instruções de Olivia, se distraiu por alguns momentos buscando com uma das senhoras que trabalhava na plantação uma cesta para colher algumas frutas para o café da manhã. A idosa, Mildred, o levou até um galinheiro improvisado, e permitiu que levasse também alguns ovos.

O caçador reparou que, apesar de esforçados, aqueles moradores da comunidade não entendiam muito bem o que faziam. Plantações secas, com frutos pequenos e insossos, demonstravam que eram leigos no assunto. Observando até mesmo os animais de criação, como as galinhas e poucos porcos, podia perceber que estavam magros e frágeis.

Era um recém-chegado, então não se pronunciou a respeito. Mas talvez, quem sabe, pudesse ser de alguma utilidade lá dentro, afinal de contas.

Despediu-se da idosa que o ajudara, e Mildred lhe deu um sorriso amplo junto a um animado “bem-vindo a Alexandria”. Billy Ray sorriu de volta por educação, ajeitando mais uma vez o chapéu em sua cabeça, ainda duvidoso quanto ao seu futuro... E quanto ao futuro daquele lugar.

Logo Billy retornou a residência que agora habitava. Direcionou-se à cozinha, e passou a preparar um café da manhã suficientemente variado para alimentar as quatro pessoas que ali moravam.

De súbito, o sulista julgou ter escutado algo. Uma movimentação baixa, apressada. Com seus instintos de caçador sempre alertas, voltou-se nos calcanhares, encarando a porta da cozinha, desconfiado.

Morgan Jones ali se encontrava parado, uma mão em cima de uma das bancadas da cozinha, a outra repousando ao longo do corpo.

— Precisamos conversar com Deanna — falou o enigmático sujeito diretamente — todos nós quatro — ressaltou.

— Acho que está um pouco cedo — Billy respondeu, um tanto hesitante em ser um dos portadores das péssimas notícias que em breve se abateriam sobre Alexandria. Ligou o fogão, colocando um pouco de manteiga na frigideira.

— Não temos tempo a perder — Morgan salientou — não deve passar de hoje a conversa. Mas concordo que devemos ir com calma. Não acho que devemos deixá-los em pânico. Rick já o fez ontem.

— Como foi a conversa com ele? — perguntou Billy Ray, tentando evitar o assunto. Olhou por cima do ombro na direção do sobrevivente, que baixou os olhos para a bancada que tocava.

— Não como eu esperava — disse, em tom de quem não queria falar sobre aquilo. Billy levantou as sobrancelhas, como se a expressão de seu rosto dissesse “não estou surpreso”.

— Eu te falei que ele era diferente da pessoa que você me contou — Billy Ray ratificou, fazendo alguns ovos mexidos.

— Precisava ver por mim mesmo — Morgan falou, mais uma vez evasivo.

Com uma leve tensão espalhando-se pelo ar, os dois homens ficaram por algum tempo em total silêncio, e o único ruído que se ouvia era de Billy Ray espremendo algumas laranjas para fazer suco.

— Bem, vou averiguar algumas coisas lá fora. Volto mais tarde, vou dar um tempo para aqueles dois descansarem. — Morgan Jones apontou com o queixo para cima, indicando os quartos onde Becky e Tucker ainda dormiam.

— É melhor. Os últimos dias foram difíceis para todos nós — complementou Billy Ray, soltando uma expiração cansada.

— Para alguns mais do que para outros, aparentemente... — Morgan comentou de forma misteriosa, mas Billy compreendeu que ele provavelmente se referia ao comportamento insensato de Rick Grimes.

Mais um que se decepciona com as pessoas, hoje em dia. Billy pensou, sorrindo com deboche melancólico para si mesmo.

Passou algum tempo terminando de preparar um vistoso desjejum, quando logo ouviu batidas na porta. Provavelmente deveria ser Mildred, querendo lhe entregar mais alguma coisa que esquecera.

Billy desligou o fogo e foi até a porta da sala. Abriu-a sem vacilar, mas logo surpreendeu-se com uma visão repulsiva que quase lhe tirou o apetite.

Daryl Dixon estava parado na varanda da entrada de sua casa, com aquela sua expressão odiosa de poucos amigos no rosto.

Billy sentiu uma súbita vontade de rir de escárnio e fechar a porta na cara daquele sujeitinho de merda, mas foi obrigado a se controlar. Em vez disso, disse:

— Que porra você está fazendo aqui? — Billy Ray grunhiu para aquele caipira maldito, a mesma raiva que tempos atrás o enlouquecera começando a ser novamente nutrida dentro dele.

— A mesma merda que você fez quando eu cheguei no Aquário — Dixon rebateu, sua voz ainda mais rouca e gutural que a do homem do Alabama. Seus olhos se encararam com ódio mútuo, e Billy fez um gesto instintivo de levar as mãos ao coldre que levava à sua cintura quando ainda estava na estrada.

— Se você quer me ameaçar, perdeu a viagem — o sulista do Alabama desdenhou, sorrindo enviesado com desprezo.

— Não vou perder meu tempo te ameaçando. Estou te avisando. É diferente — sentenciou Daryl, seus olhos faiscando perigosamente. Deu um passo curto para perto do sulista do Alabama, que manteve o contato ocular em desafio.

— Você salvou Aaron e me salvou. Essa é a única razão pela qual eu deixo você continuar aqui dentro — Dixon falou com propriedade — então é bom que você saiba bem as merdas que faz. Vou ser bem direto para que até mesmo um imbecil como você me entenda: você não vai encher o saco dela. Você não vai falar com ela. Você não vai nem chegar perto dela — demandou o caipira da Geórgia.

Billy deu uma risadinha de escárnio, e Dixon apenas fechou ainda mais a expressão.

— Com que direito você acha que decide isso? — troçou o homem do Alabama, com descrença debochada.

— Eu não vou deixar você foder com a vida dela outra vez — garantiu Daryl — se eu souber que você tocou na porra de um mísero fio de cabelo dela que seja, vou esmagar sua cabeça no asfalto até que você não tenha mais nenhum dente nessa sua boca imunda de merda — ameaçou — e só depois disso vou deixar que te expulsem com só uma passagem de ida para a puta que te pariu. Outra vez — acrescentou o caipira da Georgia, cruel.

Billy sentia tanto ódio que nem soube o que responder. Daryl ainda o avaliava com raiva no olhar, até que enfim falou:

— Estamos conversados — decidiu o arqueiro, dando as costas para Billy Ray que ainda estava parado, estático, a raiva e a amargura o consumindo por dentro. Ficou algum tempo entorpecido pela ira reprimida, até que finalmente agiu.

O homem do Alabama trincou o maxilar, crispando os dentes e fechando as mãos em punho. Voltou-se para dentro da casa, sentindo-se tonto pela profunda cólera que o corroía por dentro, e, sem pensar, apenas botou para fora.

Fechou a porta atrás de si com tanta violência que o pequeno vitral que havia nela tilintou, rachando um pouco. Mas não era o suficiente.

Viu uma mesa de canto repleta de esculturas de arte, ironicamente, retratações de animais marinhos. Atirou no chão com força desmedida inúmeros golfinhos, belugas, baleias e peixes, partindo-os a todos em estilhaços. Em seguida, passou a socar a parede branca ao seu lado com tamanha agressividade que fez os nós dos seus dedos sangrarem, quando enfim se vira exausto, fatigado pela explosão de ódio. Viu de esguelha que conseguira afundar um pouco o gesso da parede com aquele ato.

Billy Ray passou os dedos pelos cabelos e buscou uma vassoura e pá para limpar a bagunça que fizera, se sentindo o medíocre, o inútil, o degenerado sujeito que Rick Grimes e seu grupo julgavam que era.

Quando enfim limpara toda a sala, decidiu comer o café da manhã que esfriara. Tentou se distrair colocando na cabeça tudo o que havia conversado com Morgan, como poderiam agir de forma a proteger Alexandria, a serem de fato úteis.

Vão ver. Todos eles. Vão ver. Billy tinha os pensamentos desconexos em mente, suas mãos tremendo nos talheres, comendo uma porção de ovos mexidos frios sentado à mesa da cozinha.

— YEAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — Billy ouviu subitamente um grito agudo e descontrolado que ele já sabia a quem pertencia. Fechou os olhos, baixando a cabeça, e respirou fundo.

Também tinha outras responsabilidades ali.

Levantou-se, tentando recobrar a compostura, e foi até a sala de estar, na direção dos berros infantis de Rebecca, ver se ela não fazia, para variar, algo completamente ensandecido.

Assim que chegou, viu a jovem loira escorregando pelo corrimão, ainda usando um pijama cor de rosa. Quando viu a expressão igualmente meiga e tola no rosto dela, chegando ao fim do corrimão da escada com agilidade, Billy não sabia se ria ou se ficava ainda mais irritado.

— Bom dia! — Rebecca o saudou com um sorriso luminoso, e se jogou em seus braços para abraçá-lo. Um pouco surpreso, sem esperar por aquilo, Billy nem se moveu enquanto ela já se desvencilhava dele.

— Eu sinto cheiro de ovos mexidos... E de suco de laranja? — perguntou ela retoricamente, saltitando com graça em direção à cozinha. Aquela menina era mesmo um caso à parte.

— Bom dia. Mas nem se anime muito, menina. Estão frios — retrucou Billy, sorumbático, seguindo-a até a cozinha.

— Credo. Acordou de ovo virado? — a garota loira fez a piada infame, levantando uma sobrancelha e servindo-se de um prato.

— Mais ou menos — afirmou Billy, com outro sorriso enviesado. Rebecca bebeu um gole de suco, sentando-se na frente dele.

— Obrigada por cozinhar para a gente. Você é quem faz isso melhor mesmo — elogiou ela, daquele seu jeito petulante.

— Becky... Acho que hoje, naquela conversa que vamos ter com a Deanna... — começou Billy, ainda nutrindo sua amargura. A garota loira o encarou, atenta.

— Acho que você deveria contar para eles da sua... Condição. Dos seus remédios e tudo o mais — Billy Ray falou, consternado demais com os seus próprios problemas para se dar ao trabalho de ter mais tato com a situação da garota.

Rebecca piscou os olhos, incrédula. Sua expressão antes vivaz murchou completamente, e Billy se arrependeu por sua falta de sensibilidade.

— Vou fingir que você não falou isso — Becky disse, levantando as sobrancelhas e passando manteiga em um biscoito já amanteigado.

— Becky... — Billy Ray tentou insistir, inspirando profundamente.

— Não. Não me venha com essa. — Rebecca bateu com um dos punhos na mesa, uma de suas mãos que segurava a faca de manteiga tremendo levemente.

— Eu só estou falando... — Billy tentou, mas ela o interrompeu.

— Você tem noção de como eles vão me olhar? Você tem noção de como você está me olhando agora? — Becky retorquiu, suas sobrancelhas franzidas, parecendo se controlar com dificuldades. — É isso que você quer para mim?

— É isso que quem quer para quem? — Tucker disse, bocejando e entrando sem cerimônias na cozinha, usando suas roupas típicas de drogado riquinho metido a rapper.

Billy passou uma de suas mãos ao rosto. Acho que não tem como piorar.

Rebecca de súbito se calou, passando a comer seus ovos mexidos em silêncio. O jovem sentou-se entre o caçador e a garota loira, servindo-se enquanto bocejava outra vez.

— Yo. Café da manhã irado. Obrigado — agradeceu o rapaz, enquanto Billy apenas acenou a cabeça em resposta.

— Cadê o Morgan? — continuou Tucker, mastigando de boca aberta enquanto os dois continuavam silenciosos.

— Saiu ao amanhecer — contou Billy, ainda taciturno.

— Wow. O cara é meio Mestre Jedi né? Deve ter ido treinar o “ki” ou o “chakra” no mato, ou alguma coisa assim — comentou o rapaz, bebendo um gole de suco de laranja.

Ninguém se prestou a rir ou a respondê-lo.

— Isso é muito esquisito — Tucker ainda não decidira ficar quieto.

— O quê? — perguntou Rebecca, um pouco ríspida, se recusando a encarar Billy Ray.

— Nós três. Aqui. Tomando café da manhã. Em um subúrbio no meio do fim do mundo. Tipo, vocês passaram os últimos dias me enchendo de porrada, quase morremos e agora estamos dividindo ovos mexidos. A vida sabe como ser bizarra — falou Tucker, em sua suposta sabedoria.

— Vou dar uma espairecida — avisou Billy, levantando-se de uma vez. O rapaz deteve seus olhos no homem do Alabama, enquanto Becky ainda se recusava a mirá-lo.

— Vê se não vão malinar* a casa toda — pediu Billy Ray, saindo da cozinha.

— Que porra é “malinar”? — indagou Tucker à distância, mas o homem do Alabama o ignorou. Saiu da casa em que agora morava, sentindo-se estafado de ficar lá dentro, sua cabeça fervendo.

Billy caminhou a esmo até ser interpelado por Olivia, que perguntou se não poderia ficar um tempo cuidando do arsenal para ela. Precisava fazer uma lista para Tara, que em breve a encontraria na casa onde guardavam os armamentos.

Billy Ray concordou, sentindo que adoraria munir-se de um rifle e estourar a cabeça daquele caipira da Geórgia. Entretanto, sua vontade não se realizaria, pois a munição ficava escondida e trancada, sem acesso para quem não tivesse a chave.

Foi até o local onde havia o arsenal de armas da comunidade, e ali ficou, examinando os rifles de caça. Lembrou-se da época em que ainda tinha sua pequena propriedade no Alabama, com sua esposa Mary Ann.

Outra época em que também se deixara destruir tudo o que um dia o fizera feliz.

Billy estudava um rifle específico quando ouviu um burburinho de vozes femininas na porta do quarto onde havia o estoque das armas.

— Você tem certeza de que está bem o suficiente? — Uma voz familiar em um sotaque familiar demais para Billy Ray se fez ouvir. — Está bem, me espere aí fora que eu já volto com a munição! — A mesma voz flutuou sonora pelo ar, adentrando os aposentos e os ouvidos do homem do Alabama. Sentindo seu coração apertar de saudades e amargor, Billy voltou-se para trás, encarando a dona daquela voz cantada como a de um passarinho.

Mavie o olhou de volta, parada na frente da porta que acabara de fechar. Seus olhos de avelã esverdeado encararam os olhos escuros do homem do Alabama, com uma expressão que o nocauteou por dentro.

Mavelle o encarava com surpresa... E com compaixão. Como se tivesse acabado de ver um mendigo que iria lhe pedir esmolas.

Billy caminhou para trás, sem dizer nada, permitindo que ela se aproximasse do arsenal e o destrancasse. Olivia dera a chave a irlandesa, pelo visto. Percebeu assim que confiavam nela em Alexandria. Aquilo não surpreendeu Billy Ray. Quem não gostaria daquela menina?

Assim que Mavelle retirou a munição de que precisava, também em silêncio, Billy desviou os olhos dela. Vê-la de novo, assim, falante, animada, ocupada em fazer algo para os outros... Aquilo era dela. Era Mavie.

Billy Ray foi acometido de um alívio que ainda não havia sentido em vida. Por ver que ela estava bem, ali, com amigos, sendo querida pelos outros. Ele estragara tudo que poderia ter com ela, destruíra a amizade que tinham, destruíra talvez a afeição que ela poderia ter sentido por ele... Mas ela estava bem, estava feliz. Isso era o suficiente.

Com os olhos um tanto marejados, Billy disfarçou sua emoção intensa encarando o mesmo rifle de caça, supostamente muito interessado naquela arma. Ouviu o ruído de Berry trancando o local da munição com suas mãos alvas como toda sua pele, reparando de esguelha que ela já tinha sua aljava de flechas nas costas. A aljava que ele a presenteara, quando a que ela trouxera para o Aquário da Geórgia rasgara.

— É bom ver que você está bem — Mavie falou, quase aos sussurros, e Billy soltou a expiração, comprimindo um soluçar. Julgou-se patético, mas não conseguia fingir não sentir o que sentia.

Sabia que ela falava a verdade.

Billy Ray continuou em silêncio até ouvir os passos de Mavelle quase chegando até a porta de saída para as ruas de Alexandria. Finalmente muniu-se de coragem o suficiente e falou o que precisava falar, o que há tempos urgia dentro de si confessar:

— Eu queria te pedir desculpas — Billy voltou-se na direção da garota irlandesa, seus olhos brilhando de tristeza encarando os dela. Mavie continuou parada, encarando-o de volta, ouvindo.

— Queria me desculpar por tudo o que eu te fiz. Algumas coisas nunca vão ter conserto, e eu não peço desculpas para tentar diminuir os meus atos horríveis — continuou Billy, parando para tomar fôlego.

— Eu nunca vou me esquecer e nunca vou me perdoar pelo que aconteceu com o Haywood. Nunca. E não vou jamais me perdoar pela forma com que você me olhou naquele dia — Billy mencionava o dia em que agarrara Mavelle à força no Oceanário, quando ficara fora de si.

— Eu sei que tudo isso foi minha culpa. Mas queria que você soubesse que eu jamais quis te machucar. Nunca. Jamais, em nenhum miserável segundo da minha vida, eu quis que você sofresse — Billy Ray garantiu, enquanto Mavie agora parecia ter os olhos lacrimosos.

— Peço perdão por tomar o seu tempo. Mas eu precisava te dizer isso — Billy pareceu terminar, e Mavie baixou os olhos para a maçaneta.

— Obrigada — Mavelle agradeceu, ainda olhando para a maçaneta, lágrimas grossas nos cantos de seus olhos. Sentindo-se miserável, mas sabendo que não tinha outra escolha, Billy Ray enfim falou o que sabia que deveria ter dito há muito tempo.

— Preciso te dizer uma última coisa — Billy inspirou fundo, controlando-se.

A irlandesa esperou, inerte.

— Eu te amei muito. Mais do que consigo compreender — Billy Ray confidenciou a Mavie, querendo poder abraçá-la, mas sabendo que sua vontade era tão impossível de concretizar quanto à possibilidade de ela um dia querer se aproximar de si outra vez.

— Eu ainda amo você. E por isso quero que seja muito feliz. Garanto que nunca mais vou te importunar — Billy enfim confessou tudo o que sentia, reagindo como se finalmente se livrasse de um fardo de carga incalculável. Sentiu-se leve, muito leve, ainda que destruído por dentro ao comprovar mais uma vez sua rejeição irreversível.

Mavie não reagiu por algum tempo. Parecia tentar lidar com o peso de tudo aquilo, um pouco desnorteada. Ela não falou nada, até enfim abrir a porta e sair, com lágrimas nos olhos.

Billy Ray passou um tempo a sós. Como não escutou nada durante alguns minutos, enfim se entregou. Socou a parede onde alguns rifles estavam dispostos, deixando as lágrimas de raiva, frustração, rejeição e desalento descerem por seu rosto.

A quem queria enganar? Como poderia nutrir a esperança de ser alguém melhor, de ser uma pessoa que valesse a pena... Quando tudo, quando todos que ele mais amava eram as pessoas que ele mais machucava?

Olivia enfim voltou para cuidar do arsenal, e Billy já havia se recomposto. Ainda que totalmente destroçado internamente, ele sorriu com polidez para a mulher, que o agradeceu, e saiu por uma sala anexa ao arsenal, onde havia outros depósitos de itens diversos.

Foi surpreendido com a visão de um vulto feminino, que se levantou de um canto. Teve apenas vislumbres de cabelos loiros soltos movendo-se rápidos, e a porta se abriu e se fechou em um segundo.

Perguntando-se se aquele dia infeliz teria mais alguma calamidade a recair sobre si, Billy Ray seguiu, também rápido, aquela movimentação.

Reconhecera Rebecca ali, correndo para longe dele.

Ao sair daquela casa, Billy viu Becky correr desvairada ao longo dos muros de Alexandria, escondendo-se pelos fundos das casas que transpassava. Billy a seguiu até enfim alcançá-la e puxá-la pelo braço.

— Por Deus, menina, o que aconteceu? — Billy questionou, segurando Becky que se recusava a mostrar o rosto para ele.

— Me solta! Me solta, por favor, senão eu juro que eu tenho um ataque, que eu revelo para todo mundo o quão maluca eu sou! O quão maluca você acha que eu sou! — Rebecca garantiu, puxando-se para longe de Billy com tanta vontade que ele temeu que ela torcesse alguns de seus membros.

— Rebecca, se acalme — Billy Ray pediu, tentando ele mesmo ordenar seus pensamentos — não sei o que aconteceu, mas fique calma, estou aqui. Conte para mim. O que foi? — Billy disse, tentando fazer ao menos alguma coisa certa em vida.

Becky enfim parou de se movimentar, ainda escondendo o rosto dos olhos dele. Billy levantou uma de suas mãos com cuidado, e moveu o queixo dela com delicadeza, para ver o que se passava.

Como imaginava, o rosto da garota loira estava lavado de lágrimas. Sua maquiagem forte no olho borrada, seus olhos grandes inchados, tão tristes que ele se sentiu ainda mais desconsolado.

— Por deus, menina, o que houve? — perguntou ele de novo, movendo-se para reconfortá-la, mas Becky recuou, abaixando a cabeça. Meneou o rosto de um lado ao outro, as lágrimas ainda caindo.

— Nada. Não foi nada. Eu sou maluca. A culpa é minha — Rebecca falou, sua voz em um discurso desequilibrado.

— Becky. Olhe para mim — Billy solicitou, segurando uma das mãos dela. Ela parou, encarando-o outra vez, um pouco menos irascível.

— Eu ouvi você e ela. Ouvi o que você falou — Rebecca confessou, ainda chorando, sua mão apertando a de Billy como se jamais quisesse soltá-la.

Foi a vez de Billy Ray não saber como reagir. Becky estava chorando tanto... Por isso?

— Por favor, não venha atrás de mim. A culpa é minha. Eu sou maluca — a garota loira reiterou, dando as costas para Billy Ray, ainda soluçando. Soltou a mão que segurava a dele, e saiu, andando rápido para longe.

Billy Ray continuou por um longo tempo sem ação, sua mão ainda estendida no ar, aos poucos compreendendo o que ali acontecera.

*****

— Você recua um pouco e... Lança! — Aiyana deu alguns passos para trás, zunindo com habilidade uma adaga afiada que perfurou a testa de um carniceiro. A lâmina transpassou a pele em um segundo, atingindo o cérebro putrefato, eliminando-o rapidamente.

Peggy observou os movimentos da garota com cuidado. Girando o punho flexível, Aya atacou outro carniceiro que se aproximava cambaleando, o aniquilando com a mesma agilidade fatal.

Depois do incidente em que as duas foram surpreendidas dentro de Alexandria por mortos-vivos que adentraram os muros, Peggy não mais se deixou confiar na aparente segurança inabalável da comunidade. Sentiu-se muito envergonhada e inferiorizada na frente de Mavelle, que teve de, literalmente, salvá-la da morte naquela noite.

Aquilo não aconteceria de novo. Peggy queria ser forte, queria que confiassem em suas habilidades... Queria ser respeitada. E conseguiria.

Colocando uma das mãos na frente da testa, protegendo-a do sol que banhava o terreno descampado alguns quilômetros longe de Alexandria, a adolescente matava aula da estúpida escola da comunidade para se dedicar a tarefas mais úteis.

— Aquele ali — Aya apontou — vai!

Peggy pegou uma das adagas da coleção pessoal de Aiyana, antes a atiradora de facas do circo em que trabalhava. Imitou a movimentação da garota indígena, e acertou o olho esquerdo do carniceiro, que se aproximava com os braços estendidos.

— Você tem que calcular mentalmente os movimentos dele. Eles tremem muito, andam instáveis... — Aiyana atirou uma de suas outras adagas, fazendo desfalecer o cadáver caminhante que Peggy não matara.

— Só assim você vai atingir o cérebro de uma vez — afirmou a indígena, limpando a testa do suor que escorria.

— Me passa mais uma — Peggy pediu, rangendo os dentes de frustração por ter errado seguidamente, depois de inúmeras tentativas.

A garota pegou mais uma das facas de Aya. Mirou, prevendo em sua mente o cambalear do último morto-vivo que se aproximava delas, faminto. Lançou-a, movendo seu punho como Aiyana fazia, e ele caiu assim que a lâmina perfurou seu crânio.

— Boa! — Aiyana elogiou, batendo palmas curtas e sem som.

— Vamos voltar então — Peggy falou, enfim satisfeita.

— Amanhã treinamos mais — Aya garantiu, puxando Peggy pelos ombros para abraçá-la em congratulação. A garota mais nova sorriu, ansiando por mais uma “aula”.

Recolheram as facas usadas das cabeças destroçadas dos decompostos, e seguiram caminho de volta a Alexandria. Mataram mais alguns carniceiros antes de chegarem aos muros, escalando-os em um ponto a oeste da comunidade, onde não havia muita vigilância.

Quando chegaram até a casa de Aya, movendo-se furtivamente para não serem vistas, Peggy lhe pediu para tomar banho em sua casa. Não queria que Annie ou Mavie a flagrassem matando aula, para evitar maiores complicações.

Depois de limpas, Peggy vestiu algumas das roupas de Aiyana, sentando na cama da garota indígena. A mais velha passou a se encarar no espelho, com um estojo de maquiagem em mãos.

— Sério, pra que você perde tempo com isso? — a adolescente mais nova perguntou, incrédula.

— Por que acha que é uma perda de tempo? — indagou a indígena, passando batom nos lábios.

— Porque tem, tipo, mortos-vivos lá fora! E você vai se preocupar em agradar homens se embelezando? — Peggy mantinha o mesmo tom descrente.

Aya deu uma risadinha.

— Você acha que eu faço isso por outra pessoa além de mim mesma? — Aiyana perguntou, e seu tom agora também era de incredulidade. Peggy a encarou como se não entendesse.

— Como você mesma falou... Tem mortos-vivos lá fora. Eu tenho plena noção disso — Aya começou a passar corretivo em suas olheiras — e é por isso mesmo que eu “perco tempo” me arrumando.

— Hein? Não entendi a lógica. — Peggy levantou uma sobrancelha.

— O mundo está todo de pernas para o ar. E é por isso mesmo que eu me preocupo em cuidar de mim mesma, também desse jeito. Eu me sinto bem me olhando no espelho e me achando bonita. Me sinto mais segura da minha sanidade, fazendo algo por mim mesma, algo que eu faria quando as coisas estavam normais. Melhor dizendo, como vocês adoram falar dos índios... Me sinto mais civilizada — debochou Aya.

Peggy parou de falar, apenas olhando a amiga se maquiar. Voltou a conversa, depois de recordar algumas lembranças que apertaram seu peito dolorosamente.

— Minha mãe era muito vaidosa, e tentava passar isso pra mim. Mas não do jeito que você fala — a garota soltou a expiração, entre o cansaço e as saudades — ela queria chamar a atenção. Queria todos os olhos sobre ela, todos os homens a desejando... E conseguia. Ela era linda, muito mais bonita do que eu — confessou Peggy, sorrindo constrangida.

— Isso é a sua visão dela. Provavelmente errada — respondeu Aya, passando lápis em seus olhos.

— Era a minha mãe! Eu sei do que estou falando! — Peggy retrucou, insistente.

— Você parece se sentir diminuída falando dela. Acho uma bobagem. Você é bonita e charmosa. Tem muitos atrativos além da beleza também — Aiyana elogiou despretensiosamente.

— Até parece — a adolescente mais jovem retorquiu, depreciando-se — não sou que nem você. Com esse seu cabelo de Pocahontas e seu jeito que faz você parecer, sei lá... Mais velha. Mais mulher.

— Se eu passo essa impressão, é só porque passei por mais coisas do que você — Aya rebateu, direta, terminando de delinear seus olhos.

— Eu passei por muita merda — redarguiu Peggy, agora um pouco ofendida.

— Não quis dizer nesse sentido — Aiyana falou, voltando os olhos para a outra garota. Peggy a encarou em retorno.

— Eu já fiz coisas que me tornaram “mais mulher”. Faço sexo desde os meus doze anos de idade, por exemplo — contou ela, ajeitando os cabelos.

— O QUÊ? — Peggy exclamou, chocada. Aya riu de sua surpresa genuína.

— Na minha tribo, nós tínhamos uma noção de amadurecimento diferente da de vocês. Eu menstruei cedo, aos onze anos, e nós tínhamos a compreensão de que o amadurecimento sexual feminino se dava após a menstruação, bem... Biológico mesmo — assegurou ela, ao passo que Peggy ainda a encarava sem acreditar.

— Você transou com quantos caras?! — A adolescente mais jovem arregalava os olhos.

— Dez. Cinco antes das coisas ficarem como estão agora, e cinco depois — confidenciou Aya, enquanto Peggy piscava os olhos, assimilando a ideia — e você?

A adolescente mais jovem ficou sem fala por um tempo. Engoliu em seco e respondeu:

— ...Dois.

— Mentira. — Aya riu, percebendo a hesitação na voz da garota.

— Você teve mesmo dez namorados? — Peggy perguntou, sem acreditar.

— Quem falou em namorado? — Aiyana levantou uma sobrancelha. — Meu único relacionamento foi com Tejas.

— Então...

— Peggy, você é virgem, então não deve entender — Aya falou, enquanto Peggy deixava o queixo cair, um tanto constrangida por ela perceber a verdade — mas sexo é sexo. É natural. Não precisa de muita regra. Ao menos é assim, pra mim.

— Como você arranjou tempo para isso no meio de todo esse caos? — A filha de Dakota ainda não compreendia.

— É meio óbvio, não? — a índia falou, enquanto a outra garota apenas meneava a cabeça, ainda a olhando com incredulidade.

— Peggy, nós vivemos por dois anos na estrada. Eu e toda a minha trupe, os que não foram contagiados desde o começo. Quase todos nós morremos, e tínhamos uma rotina muito difícil. Toda semana alguém falecia, algo horrível acontecia. Era natural nos apegarmos demais a vida. Aos momentos, ainda mais fugazes com essa perspectiva de morte ao redor o tempo todo. — Ela parou para tomar fôlego.

— Sabendo que qualquer instante poderia ser o nosso último momento vivos, qualquer prazer, qualquer momento de acolhimento, de conforto, era muito mais do que bem-vindo. Era instintivo, natural — esclareceu a garota indígena.

— Foi assim que eu transei com o Tejas, algumas vezes, assim como com Moritz. Mas Tej e eu tivemos um vínculo mais forte que a pura sexualidade, então nos relacionamos.

— Você transou com o Moritz?! — Os olhos de Peggy se arregalaram tanto que a indígena gargalhou.

— Claro! Ele é um homem bonito quando não está com aquela barba toda. Vai dizer que não reparou, depois que passamos a morar aqui e ele deixou a cara lisa? — Aiyana provocou, descrente da inocência exagerada de Peggy.

— Ele tem idade para ser o seu pai! — a garota mais inexperiente continuava chocada.

— E?

— Isso é errado! — Peggy falou, atônita.

— Por quê? — Aiyana parecia duvidar — eu quis. Ele quis. Foi consensual. Cadê o erro nisso? — a indígena contestou.

— Mas... — a menina mais jovem queria rebater, sem argumentos.

— Olha isso aqui. — Aya abaixou-se, pegando uma mochila que deixava embaixo de sua cama. Abriu-a, e retirou um jornal empoeirado de dentro dela.

Entregou-o a Peggy, que olhou para a primeira página. Tratava-se de algum folhetim pequeno de uma cidade minúscula do estado do Tennessee.

Ali, na primeira página, haviam duas fotos. Todos os colegas circenses de Aiyana, e outra do mestre de cerimônias e também dono do circo. Na legenda das fotos, lia-se:

“Alvintzi Circus em espetáculo temporário na cidade, promovido por Moritz Alvintzi e sua trupe”

— Ele não era palhaço? — indagou Peggy, surpresa com mais revelações.

— Sim. E apresentador do show, e chefe do circo — Aya disse — eu era atiradora de facas. Tej, domador de animais. O vínculo que ele criava, com qualquer animal que fosse, era impressionante. — Peggy reparou em uma nota saudosa na voz de Aiyana. — Rebecca, aquela loira que chegou ontem, era contorcionista e acrobata.

— Ela também transou com ele? — Peggy perguntou sem pensar. Aya deu mais uma risada.

— Sim.

— Vocês são muito estranhos — Peggy constatou, sentindo suas bochechas ferverem.

— Você que é uma virgenzinha reprimida — brincou Aya, empurrando a amiga. Peggy sorriu ainda mais constrangida.

Logo em seguida, ouviram batidas na porta de madeira do quarto. Aiyana falou “entre”, antes que Peggy pudesse atirar aquele jornal em seu colo para o lado.

Moritz adentrou os aposentos de Aya, detendo seu olhar rapidamente no jornal que Peggy tinha consigo.

— Meninas, não precisam se esconder aqui — troçou o ex-palhaço — suas aulas foram canceladas. Haverá um pronunciamento oficial em Alexandria. É melhor estarem presentes, creio que será algo sério — asseverou o homem, saindo do quarto e fechando a porta educadamente.

Depois de algum tempo em silêncio, Peggy devolveu o jornal para Aya, que o guardou.

— Admita — a garota indígena falou para a amiga, com um sorriso debochado no rosto.

— Você acha ele atraente — Aiyana insistiu, troçando de Peggy.

— Ah, cala a boca — a adolescente retrucou, desviando o olhar, fazendo Aya rir às suas custas mais uma vez.

*****

Rick Grimes aguardava na imensa sala de “conferências” de Deanna, um amplo cômodo capaz de abrigar toda a população de Alexandria debaixo de seu teto.

Reflexivo e austero, Grimes recordava-se da breve troca de palavras que tivera com Morgan no dia anterior. O recém-chegado o surpreendera em todos os âmbitos. Não apenas por estar vivo e ter chegado de tão longe, atravessando estados americanos, assim como Rick, porém, no caso de Morgan, ele o fizera sozinho.

Ou assim dissera.

Morgan Jones perguntara apenas como as coisas funcionavam em Alexandria, e como Grimes chegara até lá. Indagara se Carl estava bem, e também o motivo da execução de Pete. Depois de todos os esclarecimentos, ainda assim não parecera satisfeito, mantendo um olhar severo e julgador sobre o policial.

Aquilo deixara Grimes enraivecido. Durante a última vez que encontrara Morgan, vira um lunático sobrevivendo sozinho fechado em meio a inúmeras armadilhas contra errantes. Um homem que o implorara para matá-lo, porque era fraco demais para se suicidar.

Quem ele pensava que era para contestar suas decisões?

Com tais pensamentos em mente, Grimes foi surpreendido com a primeira batida na porta. Nem mesmo Deanna estava presente, ainda chocada pela morte inusitada de seu marido.

Moveu-se para abrí-la, e logo a figura de Morgan se revelou. O homem adentrou a sala, com a mesma expressão julgadora em seus orbes escuros.

— Acho que deixamos a nossa conversa inacabada — o novato disse, encarando Grimes com um olhar que Rick não aprovava.

— Diga logo o que quer — replicou o policial, seco.

Rick não toleraria aquela insolência.

Notas finais
*Malinar: bagunçar, zonear. Lembrando que tem atualização no tumblr! Ficha da Becky completinha! http://hunters-instinct-fanfic.tumblr.com/ ~ Gif demonstrando um pouco de alguns momentos do capítulo... Aguardo reviews!