Hunter's Instinct
39 Episódio 39 - The Soft Spot
Notas iniciais
Demorou alguns segundos para assimilar o que havia ocorrido.
Daryl Dixon piscou os olhos, mantendo a mesma expressão impassível. Em apenas uma fração de segundo, compreendeu alguns fatos: Rick acabara de assassinar Pete, o marido de Jessie, com um tiro na cabeça. Pedaços de carne e cérebro do homem preenchiam a grama ao redor de seu crânio agora esburacado.
Deanna estava no chão, agarrada ao cadáver de seu marido, que ainda sangrava de um ferimento fatal na garganta. Michonne, parecendo nervosa, mantinha sua katana a postos. Abraham, perto dela, parecia vigiar Jessie, talvez temendo que ela tivesse alguma reação imprevista. Carol se encontrava próxima da mulher de Pete, e Daryl sentiu-se melhor ao avistar outra vez sua grande amiga.
Rick e Morgan trocavam olhares como se um simplesmente não reconhecesse o outro.
Dezenas de pessoas permaneciam em completo silêncio, em meio a uma tensão tamanha que contagiou até mesmo o arqueiro recém-chegado de sua série de desventuras.
E, ao lado de Annie, na frente de Moritz, Peggy e Aiyana... Mavie estava ali. Com uma daquelas roupas das suburbanas de Alexandria, o tecido um pouco manchado de sangue velho, mas inteira, sã. Intocada. Com seus cabelos escuros, sobrancelhas erguidas, mãos ao rosto escondendo seus dentes grandes que ele há muito ansiava rever.
Ela está bem. O alívio percorreu seu corpo em uma lufada gratificante de sua expiração. Sentiu como se acabasse de atirar no chão um peso de toneladas incontáveis. Seus músculos antes retesados desfadigaram um tanto, seu maxilar trincado diminuiu a pressão, enquanto seus olhos não conseguiam desviar de onde repousavam.
Incapaz de se mover, Daryl apenas mirou aqueles olhos entre o verde e o castanho, agora arregalados, também o mirando diretamente.
— Aaron. — A voz de Michonne vinha de muito longe, como se falasse léguas distante.
— Aaron, tire essas pessoas daqui — a samurai exigiu, e Dixon finalmente desviou o olhar para entender de quem ela falava.
— C-como? — o namorado de Eric gaguejou.
— Eles! — A espadachim indicou, abatida, Billy Ray, Morgan, Tucker e Becky.
— Mas... — o recrutador mais antigo parecia atônito.
— Não é o caipira do Oceanário? — Abraham falou para Michonne, surpreso, e ela o mandou calar-se com um “shh” audível.
— Deanna...? — Daryl viu Aaron perguntar, sem saber como agir. Ao seu lado, Billy Ray, Becky e Tucker compartilhavam o mesmo olhar espantado, silenciosos.
— Pode levá-los. Você sabe o procedimento — a governante concordou, sua voz frágil, debilitada, como se ela mesma estivesse à beira da morte.
— Rick. Você fica aqui. Por enquanto — Dixon testemunhou a líder ordenar, e Rick Grimes retirou o olhar de Morgan para fitá-la — temos trabalho a fazer — ela completou, olhando para os dois cadáveres.
Subitamente, o arqueiro moveu-se para trás, instigado por uma movimentação alheia à multidão a sua frente. Percebeu que mais gente se aproximava, gente que não estava presente naquele grupo.
— AJUDEM! — A voz de Maggie se fez audível, assustada, urgente. Dixon, reagindo com velocidade, correu na direção daquele som, acompanhado de Abraham e Michonne. Pudera ver de relance que Mavelle também se movimentou, um pouco mais atrasada.
— Por favor, me ajudem! — a mulher grávida suplicou, e, das sombras em meio aos arbustos daquela praça, Daryl e todos os outros puderam enxergar Maggie Greene, com sua gravidez pronunciada, acompanhada de Sasha, suas sobrancelhas levantadas, seus olhos aterrorizados. Maggie arrastava Glenn em seus ombros, sanguinolento, sujo, esfarrapado, parecendo Rick e seu rosto manchado de ferimentos. Entretanto, Dixon aferiu algo pior. Nos ombros de Glenn, ele reconheceu um buraco de bala.
Atrás de seu amigo perigosamente ferido, Sasha carregava o bostinha de Nicholas consigo.
Os dois homens tinham a mesma aparência rota, dormente, como se estivessem semi-conscientes, parecendo que desmaiariam a qualquer momento. Daryl, desconfiado, refletia sobre o que poderia ter levado os dois a ficarem naquele estado.
Daryl Dixon e Abraham retiraram cuidadosamente Glenn dos braços de Maggie, que tinha os olhos apavorados e marejados de lágrimas pelas condições físicas do marido. Michonne e Mavie insistiram para que Sasha as permitissem carregar Nicholas.
Se todo aquele cenário parecia confuso e sem sentido, tornou-se ainda mais digno de apreensão. Inúmeros cidadãos patéticos de Alexandria começavam a sussurrar entre si, um burburinho ansioso cada vez mais gritante tomando conta do ambiente.
— Abe! — Michonne chamou, consolando Maggie, enquanto Daryl percebia a respiração fraca de Glenn. O soldado ruivo olhou para trás, atento.
— Você, Sasha e Mavie levam esses dois. Annie, Denise, por favor, cuidem deles — a espadachim requisitou, e as duas médicas se prontificaram, aproximando-se dos dois feridos.
— Carol, ajude Jessie e Deanna, Tobin, Rick, vocês também! — ela continuou dividindo as tarefas, eficiente.
— E alguém pelo amor de Deus traga o Padre Gabriel para cá! — Michonne demandou, nervosa.
— Façam como ela falou — Deanna retorquiu, sua voz ainda fragilizada, sem largar o corpo morto de seu marido.
Parecendo assim dar autoridade suficiente a Michonne, diversas pessoas se movimentaram, seguindo as ordens da espadachim, enquanto Abraham continuava a levar Glenn.
Em seguida, a mulher negra voltou-se para o arqueiro, seus olhos injetados de autoridade e nervosismo.
— Você e Aaron: levem-nos para alguma casa. Vamos conversar muito em breve.
Dixon compreendeu que ela mencionava os recém-chegados, e o “comitê político” de Alexandria que os recepcionaria. Sabia que precisaria testemunhar aquela reunião. Pelo que o tal do maconheiro chamado Tucker dissera e Morgan, Becky e o merda de Billy Ray certificaram, os problemas de Alexandria não se resumiam ao que acontecera naquela noite.
O que tinha acontecido com Rick? Quando saíra de Alexandria dias atrás, ele parecia são, equilibrado. Será que teria voltado àquela época em que agira como um maluco?
Reg morrera nas mãos de Pete, pelo que o arqueiro pudera entender. Deanna deixara Rick executá-lo, e o policial o fez sem nem hesitar.
Que porra está acontecendo aqui?
Como explicar Glenn e Nicholas? Como o esposo de Maggie tomara um tiro?
Se foi esse filho da puta mesmo quem fez isso... Pensou Dixon, desconfiado, imaginando se aquilo não ocorrera por alguma briga feia entre os dois.
Angustiado e suspeitoso, Daryl mantinha a cara fechada, disfarçando as emoções controversas que o acometiam, movimentando-se junto a Aaron para guiar os recém-chegados. Não era bem aquilo que imaginaria testemunhar quando chegasse em Alexandria.
Mas, apesar de todos os males e surpresas desagradáveis...
Dixon olhou por cima do ombro, vendo Mavie, que seguia atrás, junto a Sasha. Ela também o mirava, saindo daquela praça da comunidade.
Teve um ímpeto absurdo e patético de esquecer o que deveria fazer. Foi quase impossível vencer a vontade que sentiu de jogar tudo para o alto e abraçar aquela garota, apertá-la contra si para ter certeza de que ela estava bem, sentindo seu coração bater, forte, saudável... Viva.
Foda-se. Ela está viva. É o que importa. Daryl pensou, movendo o rosto de volta para a frente, sentindo as mesmas ondas de alívio relaxá-lo mesmo naquele ambiente de pura tensão.
Assim, os recrutadores de Alexandria guiaram os novatos, provavelmente reticentes com a perspectiva de morar naquele lugar. Levaram-nos para a casa de Aaron, que deixou a luz da varanda ligada, como um sinal para quem mais fosse se juntar naquela bizarra recepção.
Lá dentro, surpreenderam Eric, que cochilava sentado em uma poltrona da sala. Daryl desviou o olhar enquanto os dois se agarravam, apaixonados e saudosos. Becky olhou para o casal com um sorriso empático no rosto, enquanto Tucker olhava para os lados com a mesma cara de drogado assustado. Morgan, silencioso, mantinha o respeito.
Billy Ray, mais atrás do grupo, parecia não saber onde enfiar a própria cara escrota. Parecia irremediavelmente arrependido de ter ido parar lá.
Filho da puta covarde. Pensou Dixon, controlando outra pulsão de descarregar a tensão dando umas porradas na cara daquele caipira de merda.
Não foi precisa muita força de vontade para refrear e si mesmo, pois logo o arqueiro ouviu algumas batidas na porta de Aaron e Eric, apressadas.
Abriu para quem quer que desejasse entrar ali, e logo viu Moritz, com feições que pareciam esboçar constrangimento. Deu espaço para que o homem entrasse, seguido de Olivia, a mulher que cuidava do arsenal de Alexandria.
— Sei que isso pode parecer estranho depois daquela situação no mínimo... Bizarra, mas é o procedimento daqui — Aaron começou, finalmente afastado do namorado. Acabara de contar a ele um resumo do que acontecera, e o passivo da relação parecia agora um tanto atarantado.
— Vocês querem alguma coisa? Água, refrigerante...? — ofereceu, nervoso.
— Eric — Daryl viu que Aaron repreendeu seu namorado, que apenas baixou a cabeça, concordando. Pediu licença, e foi para a cozinha, como se pretendesse “servir as visitas”.
— Continuando... — o recrutador mais antigo falou outra vez — ninguém anda armado em Alexandria.
— Só um cara vestido de policial que atira no meio da testa dos outros? — perguntou Becky, levantando uma sobrancelha. Billy Ray soltou um riso seco, e Tucker ainda olhava para todos, alerta.
— Por que não estou surpreso? — Billy Ray provocou, ao olhar para Daryl. O arqueiro fez menção de se aproximar do caipira do Alabama, mas Aaron o segurou com as mãos.
— Vamos por favor não piorar as coisas? — pediu o namorado de Eric, sério. Olivia olhava os recém-chegados, esperando que lhes dessem suas armas.
— Rebecca... É muito bom ver que está bem — tentou Moritz, saindo do hall de entrada e se revelando finalmente. A mulher loira girou nos calcanhares, mais uma vez arregalando seus olhos castanhos. O homem de meia idade caminhou para mais perto dela, mas ela recuou, se aproximando de Billy Ray.
Seus olhos ensandecidos revelavam uma espécie de raiva acumulada, e Daryl pensou se não seria melhor tirar aquele sujeito dali.
— Nem comece. Cale a boca. Não dê mais um passo, senão você já sabe — a mulher maluca enfatizou, enquanto todos se entreolhavam. Seus dedos se crisparam, fechando a mão em punho, como se quisesse enfiar um soco na cara daquele ex-palhaço. Quantas pessoas já não se conhecem nessa merda? Dixon pensou, incrédulo com aquelas coincidências.
— Você ouviu a moça — Billy Ray disse, ao lado de Rebecca, parecendo se divertir com o tratamento que a mulher estranha deu ao circense.
— Como quiser — Moritz respondeu, recuando e levantando uma das mãos em sinal de rendição.
— Então? — Aaron insistiu, estendendo a mão para Becky, mais próxima dele.
— Nem pensar — a mulher loira retrucou.
— Yo — Tucker finalmente se manifestou, olhando para Moritz e Daryl com curiosidade em seus olhos espantados — quem é que manda nessa parada, afinal?
— Deanna. Mas é uma democracia — respondeu o namorado de Eric, ainda com a mão estendida, esperando as armas.
— Aquela velha no chão? — O drogado arregalou ainda mais seus olhos azuis. Não parecia acreditar.
— Escutem. — Morgan encarou Daryl e Aaron com calma, porém alerta.
— Não sei o que estava acontecendo naquela praça, mas Aaron, você nos ajudou a chegar aqui. Estava procurando Rick, e ainda estou procurando. Gostaria de saber se aquele sujeito que vi ali ainda é ele — disse o homem, de forma direta.
— E é — retorquiu Daryl, mostrando um tom irritadiço. Não ia deixar um cara que acabara de chegar julgar seu amigo, por mais que ele o tivesse ajudado. Rick provavelmente teve seus motivos. Ou ao menos assim Dixon esperava.
— Morgan, é o seguinte. — Aaron parecia começar a se irritar, o que era surpreendente. O arqueiro jamais havia visto o amigo assim antes.
— Você pode esperar para falar com Rick. Ele tem duas pessoas para enterrar agora. Provavelmente faremos um funeral pela manhã. Sou e sempre serei grato pelo que fez por mim e Daryl, mas é muito simples: se quiser ficar, vocês todos vão ter de me entregar as armas de fogo. Já chega de... Incidentes — finalizou o recrutador.
— Essa é boa — falou Becky com ironia, sorrindo enviesado. Billy Ray segurou o braço dela, como se pedisse silêncio de forma delicada. Tucker fitava Morgan, assim como todo o resto dos presentes.
— Vocês decidem. É o que têm de fazer se quiserem ficar — garantiu Aaron.
O grupo de novatos se entreolhou. Morgan não parava de avaliar os dois recrutadores. Eric, nesse meio tempo, chegou com algumas bebidas e copos, estudando com preocupação o que ali se passava. Deixou todos os refrescos em cima da mesa daquela sala, e se aproximou de seu namorado.
— Eu vou ficar — decidiu Tucker. Não portava nenhum tipo de arma consigo além de uma faca, e andou até ficar ao lado de Daryl. Encarou o arqueiro com a mesma expressão receosa, e Dixon sentiu que olhava para uma criança com medo de um cachorro bravo.
Rebecca encarou o sujeito drogado com repúdio nos olhos. Billy Ray não demonstrava maior emoção além do mútuo desprezo que ele e Dixon sentiam um pelo outro, e Morgan finalmente se resolveu.
— Tudo bem — o homem negro concordou, entregando uma pistola que Rebecca e o merdinha do Alabama haviam lhe entregado nas mãos de Aaron.
Billy Ray respirou fundo, ajeitando o chapéu ridículo na cabeça. Em seguida, retirou a espingarda que carregava consigo, jogando-a junto com sua mochila aos pés de Aaron.
O recrutador mais antigo passou a abrir a mochila de Billy e tirar o restante das armas que ali haviam.
— Vocês estão loucos? — Rebecca perguntou, olhando para Morgan e Billy, sem acreditar. Encarou Aaron e Daryl com desdém nos olhos, até que por fim bufou, derrotada.
— Que seja então — a mulher desequilibrada atirou sua pistola ao chão de madeira da sala, que deslizou até bater de leve nos sapatos de Aaron. Ele a recolheu, e entregou a última arma que faltava nas mãos de Olivia, que viera preparada. Guardou todo o armamento em uma sacola grande e saiu.
— Agora só temos de esperar por Rick e Deanna, e quem mais for se juntar a nós — orientou-os Aaron.
— Estão servidos? — Eric perguntou, ansioso, de braços cruzados. Indicou a mesa posta com algumas bebidas.
Enquanto Becky e Tucker, aparentemente os mais descarados do grupo, se serviam de um pouco de suco de frutas, o tempo passou de forma lenta e torturante para todos os convivas naquele repartimento.
Em uma espera irritantemente desconfortável, Daryl e Billy Ray, profundamente desagradados um com o outro, evitavam-se com mútuo desgosto. Dixon percebia que Rebecca fazia o mesmo com Moritz, que ainda mantinha o mesmo ar pesaroso. Tucker bebeu um galão de suco sem parar, mostrando ansiedade.
Eric andava de um lado ao outro, irrequieto, enquanto Aaron estudava Morgan, que mantinha seu semblante pacífico, porém um tanto confuso.
— Há algum problema aqui? — Aaron perguntou, olhando para Rebecca e depois para Moritz.
— Há. Esse filho da puta me abandonou na estrada — esclareceu Becky, sem rodeios, mirando Moritz com um olhar enojado. Daryl franziu ainda mais o cenho, encarando o ex-palhaço. Nunca ligara muito para aquele sujeito, mas não esperava por aquilo. Ele e seu grupo pareciam muito unidos.
— Não foi bem assim — o homem de meia idade tentou começar a se justificar, mas foi interrompido.
— Foi exatamente assim, seu cretino — retorquiu a maluca, ácida. Ao mesmo tempo, ouviram a porta da sala de Aaron ser aberta, sem sequer escutarem batidas anteriores. Todos se levantaram de onde se sentavam, outra vez atentos.
Quem eles aguardavam enfim havia chegado.
Annie Guinness, Michonne, Abraham e Rick Grimes entraram pelo hall, andando até a sala de Aaron e Eric.
— Deanna não vem — Annie informou, seu olhar severo incidindo em todos.
— Pelo visto você me encontrou — o policial olhava para Morgan, parado perto de Tucker, que engoliu um gole muito grande de suco de frutas.
— Pelo visto — o homem calmo o fitava de volta, reflexivo. Daryl aproximou-se do policial, como se instintivamente se movimentasse de forma a dar-lhe cobertura.
— Será que a gente pode saber o que acabou de acontecer? — Becky perguntou, franzindo os lábios. Billy Ray, ao seu lado, analisava Rick, como se refletisse sobre algo.
— É uma boa ideia — Aaron surpreendeu-os, concordando.
— Pete pirou. Queria matar Rick. Apareceu com a espada da Michonne, Reg quis impedí-lo e tomou uma cortada na garganta. Fim — Abraham, perto de Daryl, esclareceu em seu estilo nada gentil. Michonne o repreendeu com olhos desaprovadores.
— Deanna concordou com a proposta anterior de Rick. De que as punições, em alguns casos, poderiam ser de execução. Pete assassinou Reg, assim como batia em Jessie e seu filho... E assim Deanna o sentenciou a morte. — Annie completou.
O olhar de Morgan pareceu vacilar por alguns instantes. O arqueiro reparou que o homem negro não parecia acreditar que aquele desequilibrado ensanguentado na sua frente era Rick.
— Execuções? — Morgan perguntou, incrédulo. A decepção era visível em seus olhos negros.
— Yo — Tucker chamou, levantando a mão como uma criança que pede espaço para falar. Rick o encarou com severidade, e o rapaz gelou.
— É que... Agora que vocês explicaram o que aconteceu, precisamos falar daquilo. — O junkie voltou-se para Morgan, Becky e Billy Ray.
— O quê? — Rick questionou, firmando os olhos no rapaz duramente.
— Vocês não estão sozinhos, yo — continuou o rapaz com cara de drogado — tem... Tem um Exército lá fora. Tem uns grupos assassinos à solta. Precisam estar preparados — afirmou o rapaz.
— Acho melhor esperarmos por Deanna para contar isso com mais detalhes — Aaron interrompeu, segurando Rick pelo ombro, forçando-o a encará-lo.
— Rick, você passou por muito hoje. Todos passamos. Não vamos resolver nada hoje à noite. Se me permite, preciso levar essas pessoas para sua nova casa — o namorado de Eric disse com sensatez.
Daryl testemunhou Rick Grimes varrer os olhos de Aaron para Tucker, Becky, e, por fim, para Billy Ray.
— Você sabe que ele foi expulso do último grupo com quem conviveu? — Rick apontou para Billy, sem sequer esconder sua reprovação da presença daquele homem. O arqueiro se sentiu um pouco vingado internamente, mas não manifestou.
— Daryl nos contou — Aaron afirmou, enquanto o arqueiro disse:
— Ele ajudou a salvar nossas vidas. — Dixon controlou o próprio desgosto. — Morgan, Rebecca e Tucker também — assegurou o arqueiro.
Grimes avaliou o grupo de novatos, ainda detendo mais seus orbes em Morgan.
— Eu gostaria de conversar com Rick antes de me recolher — insistiu o homem negro, com gentileza.
— Morgan... — Aaron ia começar a pedir, mas Grimes o cortou.
— Está bem — disse o policial. Michonne fixou seus olhos nele, como se duvidasse se ele estava em condições para aquilo.
O grupo de Morgan não se moveu.
— A sós — complementou o homem plácido.
— Pode ser — Rick afirmou, mantendo o contato ocular com o sobrevivente.
— Olha, se precisarem de mim, estarei lá em cima — Eric falou, afastando-se, dando um olhar ansioso para Aaron antes de subir escadas acima.
Michonne continuou olhando com firmeza para o policial, mas Grimes a ignorava. Pouco a pouco, apesar de hesitantes, todos foram saindo. Aaron ficou com a missão de levar os novos habitantes de Alexandria para sua casa, e Daryl ficou por último, resoluto. Não deixaria seu amigo sem ajuda.
— Daryl, está tudo bem, você pode ir — Grimes urgiu, decidido. Dixon não arredou pé, até que Rick deu-lhe seu típico olhar definitivo. Sabia que não o convenceria do contrário, então saiu.
Sem escolha, o caçador deixou a casa do recrutador, afastando-se. Sabia para onde deveria ir, apesar daquela noite continuar no mínimo desordenada.
Depois de caminhar por algum tempo, Dixon enfim alcançou a casa onde havia uma espécie de “pronto-socorro” da comunidade. Pediu licença para entrar, e foi recepcionado por Rosita, com um olhar cansado, amparada por Abraham, que já fora atrás de sua mulher.
Daryl foi levado por ela até o quarto onde Glenn era tratado, e Annie lá estava, parecendo costurar um ferimento em seu ombro. Os estilhaços de bala tinham sido retirados, colocados em cima de uma vasilha de vidro na cabeceira. Maggie, sentada em uma poltrona confortável ao lado do leito do marido, não parava de fitá-lo, seus olhos secos porém inchados pelo choro recente.
— Como ele está? — indagou o arqueiro, com voz rouca. Ficou surpreso. Esperava ver a Esquila por ali. Sentiu certa pontada de frustração, inevitável.
— Bem — alegou Annie, terminando de dar um ponto no ombro ferido do descendente de coreanos — se machucou muito, mas vai se recuperar logo. Está dormindo porque o dei um anestésico. Sentia muitas dores — informou a médica.
— Denise está cuidando de Nicholas em outro quarto — relatou Maggie, com a voz embargada — Tara acordou, finalmente — contou ela, com a voz um pouco mais animada.
Daryl aproximou-se, e a filha de Hershel estendeu-lhe a mão. Dixon a apertou, apesar de não ter muita facilidade para lidar com contato físico.
— Vou deixar vocês a sós então. — O caçador despediu-se de Maggie, olhando para a barriga grávida dela, ficando um tanto mais aliviado ao ver que o pai daquela criança estava bem. Por fim, deu boa noite para a avó de Mavie, que não lhe deu muita atenção, ocupada com o paciente.
Sem mais o que fazer além daquilo, Daryl decidiu ir até a casa onde morava com Rick, Michonne, Carol, Carl e Little Ass Kicker. Esperava que Grimes ficasse melhor e conseguisse se entender com Morgan, mas não era isso o que ocupava sua mente no momento.
Não podia evitar se sentir um pouco esmorecido com aquela chegada em Alexandria. Não só por tudo o que acontecera, mas porque, em verdade... Mavelle mal parecera se importar com o fato de que retornara.
Aquela Esquila maldita não saíra de seus pensamentos desde quando deixara Alexandria, e, pelo visto, a recíproca não era verdadeira.
“Você é uma piada, é isso o que você é.” A voz de Merle repetiu em sua cabeça o que ele já sabia há muito ser verdade.
Era óbvio, seu imbecil. Nem se despediu da garota, covarde de merda. Dixon se repreendeu em pensamento, ajeitando a balestra em seus ombros com agressividade.
Ao caminhar por uma rua vazia de Alexandria, com poucas casas, a maioria delas de uso público, Daryl esmiuçava sua frustração, um pouco distraído e amargurado.
Foi então que foi surpreendido com uma pedra pequena atirada em seu ombro.
Daryl ergueu a balestra, pronto para atacar qualquer ameaça, mas ao se voltar na direção de onde fora jogada a pedra, viu uma figura impremeditada parada, meio escondida atrás de uma árvore na calçada.
Mavelle Berry estava ali, erguendo um estilingue nas mãos.
— Seu idiota — a garota irlandesa falou, sua voz um pouco chorosa — seu babaca. Seu gouger* escroto — ela dizia, com a voz metade irritada, metade sufocada. Daryl ficou um segundo estático, encarando o rosto dela, cujo queixo tremia brevemente. Viu seus grandes dentes da frente aparecendo em meio a sua expressão confusa, e agradeceu internamente por poder estar ali... E vê-la de novo.
— Hey, Esquila — saudou ele de volta, aparentando não muita emoção, sem saber muito bem como reagir. Queria correr mais rápido na direção dela do que no dia em que reencontrara Carol, depois de Terminus. Queria abraçá-la contra si, com tanto ímpeto que temia machucá-la.
— Cala a boca! — Mavelle retrucou, andando impávida até ele, a passos largos. O rosto dela — irritado e emocionado —, era tão adorável que Daryl queria rir.
— Cala essa maldita boca — ela reforçou, quase correndo na direção dele. Daryl enfim reagiu.
Num átimo, moveu-se para perto dela, mais rápido do que sabia ser possível.
Mavie parou de caminhar, arregalando um pouco os olhos. Dixon primeiramente tirou o estilingue de sua mão quase com violência, arremessando-o longe. Logo em seguida, puxou-a pela nuca com uma das mãos, enquanto a outra alcançava as costas dela, empurrando-a em sua direção.
Encarou o rosto confuso e surpreso de Mavelle, vendo pasma que ele lhe dava um esboço de sorriso, antes de beijá-la com ânsia, com dias e dias de preocupação e saudades reprimidas se manifestando naquele gesto.
Mavie deu-lhe alguns tapas nos ombros enquanto retribuía o beijo, suspirando entre o furiosa e o desejosa. Por fim parou de lhe punir por algo que ele estava pouco ligando para saber o que era. O importante é que ela ali estava, furiosa ou não, irritada ou não... Segura, nos braços dele.
Quando enfim permitiu que ela se afastasse dele, Mavelle estava arfante, um rubor subindo às suas bochechas redondas, seus lábios entreabertos mostrando aqueles dentes que Dixon agora admirava.
— Seu filho da puta — Mavie Berry falou, respirando fundo — por que demorou tanto?
— Foi mal, Esquila — retrucou ele, pura e simplesmente. Mavie soltou um riso frouxo, e ele percebeu o quanto ela também estava aliviada, além de revoltada.
Daryl enfim se sentiu em paz, em meio ao completo caos.
*****
Daryl voltara.
Ele enfim voltara. Não tinha morrido. Não tinha virado comida de Frankie, nem fora assassinado, nem sofrera todos os horríveis destinos que ela temera em sua mente.
Chegara, vivo, bem, saudável, junto a Aaron, e outras duas pessoas que ela não conhecia. Mavelle sequer dimensionara o fato de que Billy Ray também passaria a morar em Alexandria, porque nada de mais importante, de mais reconfortante passara em sua cabeça... Além do fato de que Daryl voltara, ele voltara, e ela enfim poderia respirar com tranquilidade outra vez.
Pensando naquilo, depois de ter descarregado sua raiva no caçador por sua demora infindável, Mavie o encarou nos olhos, finalmente tendo a chance de abraçá-lo, de estar com ele, de demonstrar o quanto se preocupara.
— Morri de preocupação, seu babaca — Mavelle Berry disse, empurrando-o para longe, meio sorrindo, meio chorando. Daryl não reagiu, apenas continuou a mirá-la com aquele olhar simples, e uma expressão um tanto... Nova, no rosto. Ele nunca fora muito bom com as palavras, a irlandesa sabia, mas não era preciso que lhe dissesse nada para que ela aferisse o quanto ele também queria vê-la de novo.
Mavie nunca vira Daryl sorrir, até agora.
A garota irlandesa pulou outra vez nos braços do arqueiro, abraçando-o, deixando seu rosto mergulhar no pescoço dele, sentindo seu cheiro masculino, aspirando-o com força. Fechou os olhos, quase não acreditando naquilo, quase não acreditando que era verdade. Apertou-o contra si, enlaçando-o pelo pescoço, enquanto Daryl abraçava-a com tanto vigor que quase doía.
Palavras não eram necessárias naquele momento. Quando ela se afastou enfim, limpou com as mangas do casaco as poucas lágrimas que marejavam seus olhos e estendeu a mão para ele. Dixon ficou ressabiado por um tempo, como se pensasse em outra ação.
— Vamos, não vou te morder. Por enquanto — ela disse, provocando-o, seus olhos estreitados com lascívia, enquanto lhe dava um sorriso doce. Gostava de ver o quanto mexia com ele essa expressão que misturava meiguice com descaramento.
Daryl deu-lhe a mão, soltando uma risada silenciosa, expelindo o ar pelas narinas. Mavie não esperou, e o arrastou para uma casa vazia de Alexandria.
Assim que fechou a porta, voltou-se para ele mais uma vez, firmando o olhar nos olhos dele com uma expressão não mais confusa, mas sim sôfrega. Desejosa.
— Senti tanto... — Mavie começaria a falar, mas dessa vez foi a vez de Dixon calá-la.
— Cale a porra da boca, Esquila — rosnou o caipira, agarrando-a de forma que quase a prensou com agressividade contra a porta fechada. Ávida e afoita, Mavie o enlaçou outra vez, beijando-o com intensidade, vigor este retribuído pelo caçador, que a puxou ainda mais contra si, levantando-a do chão.
As mãos de Dixon desceram das costas de Mavelle para seus glúteos, ao passo que ela não só o agarrava com os braços, como cingia seu corpo contra o dele com a ajuda de suas pernas, enlaçadas na altura da cintura do caçador.
Enquanto se beijavam com sofreguidão, Daryl levou-a, sustentando o peso dela em seus braços, até um sofá coberto por algum tipo de manta naquela sala de entrada. Sequer haviam trancado a porta, mas nenhum deles pensaria naquilo, naquele momento em que era impossível raciocinar.
Abaixou Mavie, que sorria devassa, deixando-a no sofá, enquanto largava a própria balestra no piso de madeira da sala. Seguiu-se uma sessão rápida, violenta e desvairada em que se desnudaram mutuamente, e logo Mavelle finalmente sentiu-se mais uma vez deliciosamente entregue. O contato que havia entre ela e o caçador era intenso, selvagem quase, vindo de recônditos instintivos de seu âmago.
Naquele momento, eram apenas carne e pulsação, concretizado ardor feroz.
Mavie gemeu alto quando sentiu o arqueiro beijando seus seios, as mãos ágeis dele tocando seu corpo, alisando e apertando sua pele, suas curvas. Não mais podia aguentar, fervendo de desejo, quando enfim o sentiu dentro de si, transpondo-a, infiltrando-a com o mais pleno prazer.
Sem sequer se preocupar com os ruídos animalescos que ambos faziam, a irlandesa o agarrou com as coxas, ainda o enlaçando com os braços, apertando, beliscando e acariciando suas costas, seu torso. Sentia-o cada vez mais fundo dentro de si, embevecida, saciando a fome infinita que sentia por aquele homem, por seu toque... Pelo que ele a fazia sentir.
Por fim, depois de impelir-se dentro dela em movimentos deliciosos, profundos, esfaimados, Mavelle revirou os olhos, gemendo pela sensação que acometia todo o seu corpo, trazendo a cada minúscula parte de si o deleite absoluto.
Ainda se recuperava da imensurável onda de prazer, enquanto ele ainda arremetia bestialmente dentro dela. Dentre gemidos lascivos e deleite contínuo, Mavie o viu acima de si, grunhindo com brutalidade... Percebendo que o caçador também alcançara aquele ápice.
Exaustos, suavizados porém fatigados pela violenta satisfação do desejo implacável que sentiam um pelo outro, Mavelle sentia seu coração bater descompassado embaixo do corpo daquele homem, ainda entrelaçada por pele, membros e suor a ele.
Demorou algum tempo até que Daryl se recuperasse, como se recobrasse a consciência, os sentidos, e com dificuldades ela o viu se afastar dela. Observou-o vestir as calças, e, quando fazia menção de colocar a camisa, Mavie pediu:
— Ah não... Espera só um pouco — ronronou ela, fazendo charme, ainda deitada nua no sofá. Dixon voltou-se para ela, demorando seu olhar ao longo do corpo da irlandesa, parecendo tentar disfarçar o quanto ficava extasiado com aquela visão.
— O quê? — perguntou o caçador, com uma expressão levemente divertida.
— Não veste a camisa ainda. Pode botar seu colete, se quiser, Cupido — brincou ela — fica mais sexy assim.
Dixon fez um som de desdém com a boca, meneando a cabeça. Porém, Mavie pôde ver um olhar de divertimento nos orbes azuis dele.
— Por favoooor — pediu ela entre o lasciva e o infantil, se insinuando enquanto se enrolava um pouco na manta do sofá.
— É melhor você botar suas roupas — Daryl aconselhou em tom de ordem, enquanto ela levantou uma sobrancelha. Viu, satisfeita, que ele colocou apenas o colete e sentou-se ao lado dela, já não mais deitada no sofá.
— Por quê? Vai dizer que... — Mavelle iria provocá-lo, mas Dixon a cortou.
— Não quero que ninguém te veja assim — o caçador a olhou com seriedade, seus olhos denotando um princípio de ciúmes.
— Ora, ora... — Mavie retrucou, ainda enrolada na manta. Deu um sorriso travesso para o arqueiro.
— E se eu saísse nas ruas de Alexandria assim...? — perguntou ela, brincando com ele, levantando-se enrolada na manta do sofá.
Os olhos do caçador brilharam, provocados.
— Você não faria isso — retorquiu o arqueiro, não caindo na brincadeira.
— Ah, não? — Mavelle jogou a manta no chão, perto de suas roupas, fingindo que iria sair assim, como veio ao mundo.
Daryl mais uma vez se mostrou hipnotizado pela nudez dela por um segundo, para depois reagir e se levantar em um sobressalto imediato.
Mavie riu, abaixando-se para se vestir, divertida.
— Caiu que nem um patinho — debochou ela, vestindo sua calcinha e depois a calça jeans. Procurou em seu bolso por um maço de cigarros que tinha, e jogou-o junto com um isqueiro na direção de Dixon, que se sentara novamente.
Enquanto ele acendia um cigarro, Mavie vestiu seu sutiã, sua blusa e seu casaco, colocando um dos colares de contas de sua avó. Em seguida, sentou-se ao lado do caçador e arrancou o maço do colo dele.
Acendeu por si só um cigarro, expelindo a fumaça extasiada pela sensação recompensadora da nicotina depois do sexo.
— Sabe, eu realmente me esqueci de que as coisas estão como estão... Enquanto... Você sabe — ela confessou, rindo um pouco. Daryl deu uma tragada em seu cigarro.
— Eu sei — disse o caçador de poucas palavras.
— Posso te perguntar uma coisa? — Mavie indagou, mordendo o lábio inferior. Voltou seus olhos para o arqueiro, percebendo finalmente que tinham tido tempo de acender apenas uma das luzes daquela sala de estar.
— Manda — respondeu ele, tragando mais uma vez.
— O que são essas... Essas suas cicatrizes, nas costas? — a irlandesa foi direta, sem saber como ele reagiria.
Daryl passou um tempo em silêncio, e depois encarou-a profundamente. Parecia estar em dúvida se contaria ou não.
— É complicado — falou o caçador, por fim.
— Não é como se não tivéssemos nenhuma intimidade — insistiu Mavie, um pouco frustrada. Do que ele queria fugir? Será que tinha medo de se envolver com ela?
Isso explicaria ter quase abandonado Alexandria sem se despedir.
— Por que perdeu seu filho? — retorquiu Daryl, também duro e direto. Mavelle não esperava por essa.
— Isso não é algo tipo “mostra o seu que eu mostro o meu” — rebateu ela, um pouco seca. Afastou-se levemente dele do sofá, que, se reparou naquilo, não pareceu ligar.
Ambos fumaram por um tempo em silêncio, até que Mavie tomou coragem e quebrou a quietude incômoda.
— Eu não queria ter de dizer isso, mas... Eu gostaria de te conhecer. Se você quiser me deixar fazer isso — afirmou ela, preparada para o que viria.
Daryl a encarou, mantendo o silêncio. Apagou o cigarro em uma obra de arte que havia na mesa de centro na frente do sofá, mantendo a expressão ilegível.
— Eu não entendo isso — disse o caçador, levantando levemente as sobrancelhas.
— Que parte? — retorquiu ela, um pouco debochada.
— Isso — apontou para ela, e depois para si mesmo — não entendo. Não consigo entender o que você pode querer de alguém como eu — disse, duramente.
Mavie olhou para ele, inerte, chocada. Pensou em várias coisas para dizer, enquanto Dixon desviou o olhar, parecendo incomodado. Por fim, respirando fundo, um pouco desapontada, falou outra vez.
— Eu perdi meu filho... Porque meu noivo me forçou a fazer um aborto. Eu não sabia, ele me drogou e me enganou — ela falou, mantendo o olhar firme nos olhos azuis de Dixon, que a encarou um tanto pasmo — no fim das contas descobri que ele me trouxe aos Estados Unidos porque meu pai o pagou para me fazer abortar longe da Irlanda. Meu pai era o prefeito de Galway, de um partido conservador, e meu pai jamais demonstrou qualquer afeição por mim.
— Era melhor ter uma filha longe, humilhada por um homem que ela imaginava amá-la, do que perto de casa com um filho bastardo. Meu futuro marido fugiu, com uma bolsa cheia de dinheiro, que ganhou por matar seu próprio filho. Paga pelo meu próprio pai — falou a irlandesa, olhando para baixo e acendendo outro cigarro, enraivecida.
— Semanas depois do aborto rolou toda essa merda. E aqui estou eu, agora — finalizou a garota, soltando a expiração com raiva controlada.
Lembrar daquilo ainda doía. Foi inevitável ficar mais uma vez com os olhos lacrimosos, fosse pela humilhação, fosse pela lembrança dolorosa, fosse pelo sofrimento que ainda não passara.
Ela se surpreendeu quando sentiu os braços do arqueiro ao redor dos seus ombros, puxando-a para si. Mavelle tentou desvencilhar-se de leve, um pouco ofendida ainda. Depois de tudo aquilo, não tinha mais paciência para qualquer dilema masculino medroso que Dixon poderia ter.
Mais forte do que ela, o caçador não permitiu que a garota se afastasse. Ainda desviando o olhar dele, tragou fundo o segundo cigarro, soltando a fumaça com agressividade.
— Meu pai foi quem me criou, se é que eu posso dizer isso — Daryl falou, respirando fundo. Mavie Berry o encarou lentamente.
— Merle era o irmão mais velho, eu o mais novo. — Dixon tinha o olhar perdido em uma parede da sala.
— Minha mãe morreu num incêndio que ela mesma causou, bêbada, dormindo enquanto fumava um cigarro na própria cama. Quando cheguei em casa, não tinha sobrado nada. Só... Carvão — continuou o arqueiro, enquanto Mavelle engoliu em seco, imaginando aquela situação horrível.
— Eu sempre tive uma vida fodida, quase nenhuma grana, nada desses luxos que você e o pessoal daqui estão acostumados — confessou ele, sério — e meu pai era também um alcóolatra, como minha mãe.
— Quando bebia, ou seja, todos os malditos dias — asseverou Dixon — ficava violento. Aquele clichê de drama familiar... Gostava de me enfiar a porrada. Em Merle também, mas ele foi mais esperto. Fugiu de casa quando era adolescente, e eu fiquei sozinho, ainda pirralho — pareceu concluir Daryl aquele momento de confidências de péssimas histórias de vida.
Dixon ainda enlaçava Mavelle pelos ombros, que se sentiu à vontade para deitar sua cabeça nos braços dele.
— Nossos pais poderiam competir para o título de piores pais do século — falou a irlandesa, sem alegria alguma.
— Parece que temos algo em comum, afinal de contas — troçou em retorno o caipira, também nada divertido.
— Eu sei que não é só isso que temos em comum — rebateu Mavie, movendo-se de forma a olhar Dixon de perto. Mergulhou seus olhos nos olhos dele, e um silêncio significativo imperou.
— Vamos. Vou te escoltar até a sua casa. Está tarde pra porra — falou Daryl, erguendo-se quando viu que Mavelle havia terminado seu cigarro.
Mavie não protestou, apenas o seguiu, observando com tristeza as cicatrizes dele quando o caçador despiu seu colete para vestir a camiseta, e depois colocar o colete outra vez, por cima. As cicatrizes dela eram menos aparentes, mas a vida tinha sido cruel com ambos.
Seguiram em silêncio até a residência de Mavelle Berry, parando na frente da porta de entrada.
— Obrigada por me falar — agradeceu ela, olhando um pouco sem jeito para o arqueiro. Daryl, novamente com sua balestra nos ombros, apenas meneou o rosto, como se não precisasse agradecer.
— Eu acho essas roupas de “mãe rica” muito escrotas — confidenciou Daryl Dixon, olhando para a forma como Mavelle estava vestida, com as vestimentas de típicas habitantes de subúrbio, surpreendendo-a.
— Mas em você não ficou tão ruim assim — admitiu o arqueiro, olhando-a com doçura em seus olhos azuis. Mavie abaixou o rosto, soltando uma risada silenciosa e discreta, e quando o encarou outra vez, ele ainda a olhava, como se a admirasse.
Um pouco sem reação, a irlandesa lambeu os lábios, sorrindo sem jeito.
Dixon a beijou em despedida, e se afastou tão rápido quanto a tocou.
— Se cuida, Esquila — falou ele, já de costas para Mavie, andando na direção da casa onde morava.
Mavelle entrou em sua própria residência, como se acordasse de algum tipo de sonho. De portas fechadas, acendeu mais um cigarro, sozinha, refletindo.
Daryl ainda tinha muitas reservas, assim como a garota irlandesa, mas aquilo não a preocupava. Depois de tudo o que ele enfrentara, depois de tudo o que ela enfrentou, depois de tudo o que viveram juntos...
Ela sabia que aquilo era apenas uma questão de tempo.

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