Hunter's Instinct

38 Episódio 38 - Juris Populi


Notas iniciais
Olá gente! Tudo bem com vocês? Feliz dia dos pais aí para quem aproveitou a data de hoje... Particularmente, não é uma data muito feliz para mim, maaaaaaaaaaaaaas... Vamos ao capítulo! Falei que traria dois "episódios" em uma mesma semana para compensar, e aí está (por favor, contem a semana a partir de segunda-feira hahahaha)! Pessoal que ainda não comentou no "episódio" passado, como minhas queridas Giovana Catalani, Hamitt e Rosie Santana, por favor, se não for pedir muito, gostaria de ler suas opiniões no capítulo passado quando puderem escrevê-las! Enquanto isso, agradeço aos rápidos leitores Vivi Costa, marcelammota, Thaaty, Luna Miller, Filho de Kivi e Anna L! :3 O apoio de vocês é imprescindível para mim, espero que saibam disso e que possamos continuar sempre juntos ao longo da jornada de Hunter's Instinct. Eeeee... SE PREPARA GALERA QUE HOJE TEM "SEASON FINALE"! Temporada dois de Hunter's Instinct acabando agora, e semana que vem já tem a terceira hahahaah! Ou seja: fiquem ligados, que vai ficar cada vez mais difícil de adivinhar o que vem por aí a partir de agora, pois a fic já alcançou os últimos acontecimentos da série... Agora é ler para crer hahahahah! Capítulo repleto de tensão, encontros e reencontros, cenas fofas e cenas pesadas... Tem de tudo um pouco! POV do Daryl, da Mavie e de dona Annie, a vovó mais mito do apocalipse zumbi! Não posso falar muito senão é spoiler, portanto... O que estão esperando para ler? Hahahah! Dedico este capítulo à leitora Harley Quinn, que deu a Hunter's Instinct sua décima segunda recomendação! Muito obrigada, querida! Você ainda está no início da história, mas suas palavras foram maravilhosas, me recompensaram demais! Agradeço de coração! E quem mais quiser recomendar... Sinta-se à vontade para tanto, hahaahha! Beijos e boa leitura!

Como poderia ter acabado daquele jeito?

Preso com Aaron dentro de um carro em meio a uma armadilha repleta de errantes criada por alguma mente doentia, Daryl Dixon não conseguia acreditar, assimilar realmente o que ali acontecia.

É isso. Fomos uns otários... E termina aqui. Pensou o caçador arqueiro, sem escolha a não ser aceitar seu destino. O que poderiam fazer? Eram apenas dois, dois idiotas que, enganados por sua própria bondade ingênua, estavam prestes a serem devorados vivos naquele galpão desolado no meio do nada.

Como deixara aquilo acontecer? Como poderia ter falhado? Daryl não conseguia entender, não conseguia simplesmente raciocinar que era isso, acabava ali, e eles não tinham outra escapatória.

Nunca mais voltariam a Alexandria. Aaron jamais veria Eric de novo, nem Deanna, nem seus outros amigos. Depois de dias e dias na estrada, Dixon não voltaria para saber como estava Rick, se havia ou não desistido de mais um golpe político junto a Carol, outra que não mais veria, quem provavelmente era sua melhor amiga.

Nunca mais encontraria Michonne, ou Glenn, ou Maggie. Não saberia se o filho deles nasceria bem, não saberia se Little Ass Kicker estava segura, se estava tudo bem com Carl.

Nunca mais veria a Esquila de novo. Nunca mais ouviria sua risada juvenil junto a algum comentário impertinente. Nunca mais implicaria com o tamanho dos dentes dela, ou com sua mira no arco e flecha, ou com seu forte sotaque irlandês.

Nunca mais a veria sorrir daquele jeito presunçoso que o deixava maluco.

Nunca mais teria Mavie em seus braços.

“Você é uma piada, é isso o que você é.”

A voz de Merle ressoou em algum canto obscuro de seus pensamentos outra vez. Sem sequer ter como reagir, Daryl esmurrou o volante, socando a buzina do veículo. Aaron, ao seu lado, seu rosto branco como o de uma caveira, o encarava por todo o tempo.

— O que foi? — perguntou o recrutador, retoricamente.

O arqueiro deu um sorriso enviesado, sem alegria alguma.

— Eu vim para cá, fazer esse trabalho, porque me sentia enjaulado lá dentro. Preso. Até mesmo agora... — Dixon olhou pelo vidro, vendo a multidão de mortos-vivos com bocas escancaradas sedentas por seu sangue.

— ...Acabo me sentindo mais como eu sou, do que ficando lá naquelas casas de merda. O quão fodido isso soa? — admitiu, amargurado.

— Você estava tentando — Aaron o apoiou, com um olhar de empatia.

— Eu tinha que tentar. — O caçador voltou os olhos para o volante, não realmente o enxergando. Sua mente o levava para muito longe. Outro lugar. Outras pessoas.

Uma, em especial.

— Não, você não tinha — o namorado de Eric interrompeu seus devaneios. Dixon moveu o olhar para encará-lo outra vez.

— Eu vi você com o seu grupo na estrada. Você que achou o celeiro, quando caiu um temporal... Foi você quem os protegeu. Quem os deixou seguros. E aí, foi isso, para mim. — Aaron sorriu.

Daryl continuou em silêncio, com um olhar indagador.

— Foi quando eu soube que precisava levar vocês comigo... Por causa do que você fez. — O recrutador respirou fundo, parecendo conter um suspiro de frustração.

— Você tinha razão. Eu não deveria ter desistido... Fui um covarde — Aaron se repreendeu, olhando para Dixon como se lhe pedisse desculpas.

O arqueiro nada disse, apenas meneou a cabeça e buscou seu isqueiro e seu maço de cigarros Marlboro em sua jaqueta de couro.

— Eu vou — Daryl disse. Desculpe, Esquila. Pensou, enquanto dava uma tragada funda no cigarro, obrigando-se, pela fumaça inalada, a relaxar sua própria garganta, comprimida pela angústia que sentia naquele momento.

— Vou atraí-los e você corre pra cerca — Dixon sentenciou. Espero que esteja bem, Mavie.

— Não, não, não — o recrutador mais antigo parecia alarmado — isso foi culpa minha!

— Não foi uma pergunta. E não é uma decisão sua — o arqueiro acresceu — não é culpa de ninguém. Só me deixe terminar esse cigarro antes — pediu o caçador, soltando a fumaça como se estivesse se despedindo de sua própria vida.

Fechou os olhos por um segundo, pensando em Mavie naquela noite na cabana perto dos trevos de três folhas.

Se era para morrer, queria que fosse com aquela imagem em mente.

— Não. Você não vai afastá-los — Aaron retrucou, segundos depois — vamos lutar juntos. Vamos juntos para a cerca. Conseguindo ou não, faremos isso, os dois. Precisamos fazer — assegurou o namorado de Eric, encarando Dixon com firmeza sentado no banco do passageiro frontal.

Daryl jogou o cigarro no chão do carro e o pisoteou. Olhou para Aaron, e concordou discretamente com a cabeça.

— Beleza. Está pronto? — O arqueiro tomou fôlego, ajeitando a balestra e a faca de caça nas mãos.

— Sim. — O recrutador mantinha contato visual o tempo todo.

— Vamos no três. Um, dois...

Contudo, subitamente a contagem fora interrompida.

— É HORA DA NANINHA, CRIANÇADA! — Uma voz feminina esganiçou-se muito perto da porta dianteira do carro, ao lado do motorista, tão aguda que fez os ouvidos de Daryl zumbirem. Atônito, Dixon viu vários dos errantes que já se empilhavam pela porta tendo seus crânios pouco a pouco esmagados por alguém que os espancava com fúria assassina, quase sádica, com um taco de baseball de aço, vermelho e preto.

Em seguida, quase meio segundo depois, ouviram tiros de rifles de longo alcance, atingindo os rostos dos mortos-vivos restantes que ainda impediam a visão e a saída dos homens dentro do carro.

Ao mesmo tempo, ao lado de Aaron, os dois recrutadores puderam enxergar um sujeito muito rápido, inacreditavelmente ágil com o que parecia ser um pedaço comprido de madeira. Em segundos, livrou-os dos errantes na porta do carro, permitindo sua passagem. Atrás dele, havia um outro rapaz, com olhos claros esbugalhados, parecendo apavorado com a quantidade de mortos-vivos, matando alguns poucos de forma atrapalhada.

Daryl e Aaron não esperaram mais. Por algum milagre, foram salvos por um triz. Lançaram-se para fora do carro tão ligeiros quanto o sujeito que matava errantes com aquele toco de madeira.

Correram em um átimo para os portões da cerca, parando apenas quando o homem negro de casaco bege com o pedaço de madeira, o rapaz com cara de assustado e a mulher barulhenta — uma loira com olhos escuros esbugalhados, sorrindo como se matar errantes a divertisse —, finalmente saíram e fecharam os portões. Os poucos mortos-vivos que restaram se lançavam inutilmente contra as grades, inconformados com as presas que haviam escapado.

E então Daryl viu o homem que atirara de longe, posicionado a outro canto dos portões. Portando um rifle de caça, casaco de caça, e chapéu de caipira.

Dixon demorou a assimilar que acabara de ser salvo por ninguém menos do que...

...O filho da puta que era Billy Ray.

— Filho da... — o caipira do Alabama quase fez coro ao pensamento de Daryl, sua expressão provavelmente tão chocada e incrédula quanto a do homem da Georgia. Antes de terminar, porém, foi interrompido.

— Isso foi foda! — Aaron quase gritou de alívio, colocando uma mão ao peito, sua respiração arfante.

— Quero dizer... Obrigado. — O recrutador mais antigo se recompôs. Daryl não tirava os olhos do filho da mãe que por uma coincidência escrota do destino fora parar da Georgia nos limites do estado da Virginia.

Tampouco Billy Ray desviava o olhar.

Qualquer um que os testemunhasse, naquele momento, conhecendo ou não sua história pregressa... Poderia perceber claramente o desprezo e o desgosto mútuo em ambas as expressões de seus rostos.

Aaron finalmente pareceu aferir que havia algo estranho ali. Dixon percebeu que ele o encarava pelo canto dos olhos, ao passo que o rapaz apavorado, o homem negro e a loira bizarra se entreolhavam, sem entender.

— Hã... — tentou o recrutador mais antigo — eu sou Aaron, e esse é Daryl.

— Morgan — o homem que parecia conhecer artes marciais respondeu, com um sorriso gentil.

— Becky! — a mulher loira sorriu e deu um tchauzinho, enquanto ajeitava o taco de baseball em um dos ombros e movia o quadril para o lado.

— Tucker — o mais jovem entre eles se apresentou, receoso.

Ainda encarando aquele sujeito que Dixon esperara jamais ser obrigado a ver na sua frente outra vez, o silêncio se seguiu, enquanto todos aparentemente aguardavam que Billy Ray dissesse como se chamava.

— E você...? — Aaron indagou com discrição. Daryl encarou o outro recrutador, para depois olhar para o caipira do Alabama com ainda mais desdém em seus orbes.

— O nome dele é Billy Ray — grunhiu Dixon, como se fizesse menção a algo repugnante, nocivo, como um rato. Billy abaixou a cabeça, ajeitando o chapéu, meneando o rosto em sinal de negativa, com um sorriso amarelo nos lábios como se não acreditasse em seu infortúnio.

— O quê? — o recrutador mais antigo parecia confuso, encarando seu amigo como se não entendesse. A mulher loira, o rapaz assustado e o homem negro ainda mantinham expressões indagadoras.

— Por quê? — Daryl ignorou a pergunta de Aaron, e moveu-se defronte a Morgan. Queria saber o porquê daquilo. Ainda mais quando soubera que fora salvo por aquele merdinha do Alabama.

— Por quê? — Morgan não parecia entender a razão da pergunta — porque toda vida é preciosa, Daryl — afirmou ele, segurando seu cajado de madeira com uma postura séria.

— Bem... — Aaron se meteu outra vez, esfregando as mãos — quem fez aquela armadilha está vindo, mas temos boas notícias! Nós temos uma comunidade, não fica muito longe daqui. — Sorriu para os outros.

— Tem muros, eletricidade, é segura... Se quiserem se juntar a nós... — o recrutador ofereceu.

— Eu agradeço — Morgan se adiantou — mas estou indo para outro lugar. Na verdade, estou mesmo é perdido.

— Passe o mapa para ele, Morgan. Ele deve saber — Billy Ray falou, indicando o homem da Georgia. Sua voz enrolada e grave demonstrava aquele sotaque do Alabama que Dixon veio a detestar.

Morgan encarou o caipira, e aproximou-se de Daryl. Entregou-o um mapa, no qual havia algo escrito em tinta preta.

— Se puderem me dizer onde estamos... — o homem com o pedaço de madeira falou, enquanto Dixon imediatamente lia.

“Desculpe por ter sido um babaca, venha para Washington.

O novo mundo vai precisar de Rick Grimes.”

*****

[NA TARDE DO DIA SEGUINTE, PÔR DO SOL]

Mavelle Berry despediu-se da avó, que, muito atarefada, lhe fizera apenas um pedido.

— Por favor, encontre a Peggy e dê um jeito de convencê-la a ir nessa reunião. É importante — solicitou-lhe a idosa, segurando uma de suas mãos. Mavie se abaixou para beijar o rosto da avó.

— Se for possível... Essa menina agora gosta de se esconder pelos cantos — respondeu a irlandesa mais jovem com um sorriso atravessado.

Annie a olhou como se lhe dissesse para não brincar. Mavelle, contrita, encarou a avó sem sorrir, com feições mais sérias.

— A coisa vai ficar feia — Annie Guinness asseverou, encarando a neta com um olhar grave e preocupado. Berry franziu as sobrancelhas.

— Bem, o show tem que continuar... — a garota de dentes salientes falou, ajeitando o cabelo preso em um rabo de cavalo alto — ...Se o Rick pirou, a gente não pode se dar ao luxo de perder também as estribeiras. Temos de manter ao menos as aparências — disse Mavie, tentando diminuir a tensão.

Annie meneou o rosto, negando, como se Mavelle ainda não tivesse entendido.

— Falei com Carol ontem — acrescentou Annie, e Mavie arregalou levemente os olhos. Nenhuma das duas particularmente confiava naquela mulher depois que ela se provou surpreendentemente astuta e ardilosa no Oceanário de Atlanta. Era bom que estivessem do lado dela, ainda mais agora que ela repetia a jogada de boa moça em Alexandria.

— E...? — A garota morena questionou a avó.

— Não me disse nada. Desconversou. Eu fui direta, pois conheço a dissimulação dela — Guinness agora sussurrava — fique esperta, filhinha — aconselhou a avó de Mavelle com carinho.

— Falei que sabia como ela e Rick agiam, e que eu não os atrapalharia enquanto isso não nos prejudicasse. Mas que não ia engolir tudo quieta caso... Caso fizessem merda — Annie falou a linguagem de baixo calão, o que em uma ocasião menos tensa faria Mavie rir.

— Vó, você não devia comprar briga diretamente com ela... Vai saber o que ela pode querer fazer! — A garota irlandesa ficou receosa, mordendo o lábio inferior e olhando para os lados.

— Não comprei briga. Foi um aviso, não uma ameaça. E ela se fez de sonsa, como era esperado — adicionou a idosa — não sei, pelo jeito que ela está agindo, pela forma como Rick está agindo... Acho que tem algo planejado. Outro golpe — garantiu a irlandesa mais velha.

— E vai acontecer hoje à noite? — Mavie perguntou, seus olhos atentos para qualquer possível pessoa alheia à conversa.

— Não há ocasião mais propícia a isso — ratificou Annie, austera. Seus olhos escuros brilharam, espertos.

— Fique atenta. Fique esperta. Não vamos perder nosso espaço aqui. — A avó de Mavelle deu-lhe um abraço forte, e quando a soltou já tinha mudado a expressão. Sorria com ternura para a neta, enquanto colocou a palma da mão direita na bochecha esquerda da moça.

— Vou cuidar da Tara. Agora vá correr e volte logo. Vai começar ao anoitecer — disse a idosa, agindo em sua típica postura maternal.

Após acenar em despedida para a avó, Mavelle voltou-se nos calcanhares e começou um dos trajetos que gostava de fazer pelas ruas de Alexandria para manter-se fisicamente ágil e preparada.

O Ipod que pegara outra vez emprestado com Eric já estava ligado, e o shuffle fez tocar a música Mr Tambourine Man, de Bob Dylan. Sentindo um calafrio pela lembrança de Jed, a quem Mavie apelidara com o nome dessa música em outros tempos — tanto por seu falso jeito de líder sábio quanto pela literalidade de seu gosto por tocar tamborim —, ela tremeu o aparelho sonoro para que pulasse aquela música imediatamente.

Coincidências estranhas... Pensou a jovem irlandesa, engolindo em seco.

Continuou a corrida, mantendo seu passo habitual, e quando chegou perto da marca dos quatro quilômetros, passou por uma das ruas mais externas da comunidade, junto aos altos muros projetados por Reg.

A garota de dentes proeminentes teve um sobressalto. Glenn estava sentado em degraus de uma varanda, parecendo arrasado.

Com discrição, Mavelle diminuiu o ritmo, passando a um trote leve, para não importuná-lo. Quando estava a poucos metros de distância, o rapaz de feições asiáticas a enxergou, e acenou para ela desanimado. Parecia tentar disfarçar o que quer que o perturbava.

Mavie ficou duvidosa por alguns momentos se deveria ou não parar e perguntar o que se passava com ele. De qualquer forma... Apesar de tudo o que acontecera no Aquário, de algum jeito ela e Glenn viraram amigos. A garota arqueira confiava nele, e vice-versa.

Assim, não poderia simplesmente dar-lhe as costas e fingir que não vira nada.

Desligando o Ipod, Berry retirou os fones de ouvido e ajeitou a camisa esportiva que usava. Foi andando devagar até os degraus da pequena escada que levava a uma varanda frontal da casa onde Rhee se sentava. Logo que alcançou a varanda, sentou-se em um degrau perto dele.

— O que tá pegando, camarada? — Mavie perguntou direta. Poderia soar inconveniente, mas não se importava.

Glenn soltou o ar, parecendo realmente incomodado.

— Nada, deixa quieto.

— Por que está aqui com cara de fome e não com sua mulher? — perguntou a irlandesa, tentando fazer graça. O rapaz descendente de coreanos sequer sorriu.

— Maggie está ocupada. Convencendo Deanna a não expulsar Rick. — Rhee olhou para baixo, parecendo muito interessado na grama do jardim.

— É, eu imaginei que chegaria a isso... — Mavie não o enrolou, e Glenn a encarou diretamente.

— Mas, sei lá, a Maggie é muito boa nessas coisas. Já a vi falando com a Deanna. Vai dar um jeito de amenizar a situação — Mavelle falou, não muito convencida do que afirmava.

— Ah, cara, eu não sei. — Glenn passou as mãos pelo rosto, parecendo exausto. — Não sei, nos esforçamos tanto... Porra, a gente quase morreu, e o filho da puta do Nick... — o rapaz mencionava a ocasião da morte do namorado de Aya, e Mavie segurou no ombro do amigo com gentileza.

— Eu sei. Vai ser foda se... Se acabar tudo agora. Mas não vai — garantiu ela, tentando soar assertiva, apertando com cumplicidade fraternal o ombro do amigo.

— Porra, cara, eu vou ter um filho, sabe! — o rapaz de traços asiáticos parecia finalmente desabafar — eu preciso disso daqui. Maggie precisa disso daqui. Nosso filho precisa disso.... Cara, esse lugar precisa da gente! — o futuro pai estalou os dedos, preocupado e irritado.

— Camarada... Eu jamais pensei que admitiria isso, mas o Rick vai dar um jeito. A gente... Vocês saíram de merdas bem piores, pelo que já me contou — Mavelle falou com propriedade.

— É a Deanna cara. Não é nenhum Jed não — brincou a moça irlandesa, dando uma risada nervosa. Finalmente Glenn pareceu relaxar e a acompanhou, rindo um pouco.

— Pelo menos aqui não tem tubarões — comentou Glenn, com um sorriso pequeno no rosto.

— Tudo tem um lado positivo, menos cerveja estragada — brincou Mavie, soltando o ombro do amigo. Rhee concordou, ainda com o mesmo sorriso discreto.

— Agora me responde algo sério... — a irlandesa acresceu, fingindo olhar preocupada para Glenn, que a encarou de volta, solícito.

— ...Eu te deixei mais calmo de verdade, ou você só concordou comigo porque quer que eu vá embora por estar fedendo muito? — Mavie brincou com seu estado pós-corrida, suada e provavelmente malcheirosa.

Glenn gargalhou, surpreso com aquela bobagem, e Mavelle também.

— Se eu não tivesse te visto antes, te confundiria com um errante pelo cheiro — debochou o rapaz, enquanto Mavie lhe estapeava o braço de brincadeira.

— Essa machucou, tá? — troçou ela, fingindo-se de ofendida, e lhe dando um tchauzinho.

— Mavie! — Glenn chamou, ao longe. Berry voltou-se para ele.

— Obrigado — o amigo sorriu para ela à distância.

— Disponha sempre! — Mavie fez um sinal de positivo com o polegar, virando as costas outra vez, sorrindo também.

— E não esquece de usar desodorante! — Glenn zombou dela ao longe, e Mavelle lhe deu um dedo do meio, andando de costas para ele. Riu, sentindo-se um pouco mais leve.

Foi para sua casa tomar banho e trocar de roupa para se preparar para a reunião. Os dias em Alexandria estavam ficando cada vez mais angustiantes, por vezes até mesmo torturantes. Dias em que não podia passar quase todas as horas fora em missão de coleta eram particularmente complicados.

Quanto mais o tempo passava, menos esperança Mavelle nutria de que Daryl poderia um dia voltar a Alexandria. E aquela espera, aquela incerteza ia pouco a pouco a consumindo por dentro, corroendo sua mente, angustiando-a tanto que tinha sintomas físicos. Mal conseguia dormir ultimamente, seus músculos ficavam rígidos de tensão, ela chegava até a ter taquicardia, dificuldade de respirar... Pois os momentos mais aterrorizantes eram os de silêncio, de solidão...

...Os momentos em que não conseguia tirar o medo de perdê-lo para sempre de sua cabeça.

Obrigando-se a não pensar naquilo, a se preocupar apenas com sua avó, com Tara e com Peggy, Mavelle criara mantras mentais para repetir, toda vez que a imagem de Dixon viesse à sua cabeça. Todos temos trabalhos a fazer. Todos temos trabalhos a fazer. Todos temos trabalhos a fazer.

A noite já caíra quando Mavelle Berry estava enfim pronta para participar da reunião, do júri popular que Deanna estabelecera. Entretanto, ainda não havia encontrado Peggy, que sequer dera as caras em casa naquele dia, saindo de manhã cedo e não voltando até então.

Ai, meu São Patrício... Não podia esperar uma hora pior para ter crise adolescente não? Pensou a jovem irlandesa, preocupada. Revirou todas as ruas da comunidade, procurou Peggy por todos os cantos, até mesmo fora dos muros de Alexandria.

Depois de cerca de uma hora e meia procurando a garota, sabendo que a reunião já havia começado há muito, Mavelle viu pistas... Estranhas, no asfalto de uma rua pouco habitada. No fim daquela rua estreita havia um pequeno bosque, uma espécie de rua sem saída de Alexandria.

Mavie agachou-se, diante da pouca iluminação dos postes de luz daquela rua... E olhou com mais atenção para o que vira no chão.

Gotas de sangue, bile e muco.

— Peggy! — Mavelle chamou, instintivamente alerta. Se antes caminhava rápido, passou a correr na direção daquelas árvores e vegetação arbustiva.

— Peggy! — a garota irlandesa repetiu alto, preocupada, avançando pela grama e árvores. Aquele cheiro era característico... Não poderia ser outra coisa.

Ela os ouviu antes de vê-los.

Mavie contornou algumas árvores, já retirando uma faca que carregava consigo sempre de um bolso de sua calça jeans que Daryl um dia a ajudara a costurar. De imediato, viu o que temera.

Peggy e Aiyana estavam rodeadas por cerca de cinco carniceiros, que as prensavam contra os muros.

— MAVIE! — A garota adolescente segurava um morto-vivo pelo pescoço, que estava a centímetros de mordê-la. Aya, desesperada, empurrava para longe um carniceiro que estava semi-decomposto já, seu tronco se separando de suas pernas quando caiu no chão.

Os outros três cadáveres ameaçadores avançavam pela escuridão, suas mãos em garras prontas para arrancar a pele fresca daquelas meninas.

Quase urrando de fúria, com seus instintos de caçadora e de proteção fortemente instigados, Mavelle se jogou contra o errante que quase abocanhava a filha de sua falecida amiga Dakota, cravando a faca com ódio em seu crânio asqueroso.

Movendo-se com raiva para um dos mortos-vivos que agora tentavam atacar a garota indígena, a irlandesa arrancou a faca ensanguentada do crânio do cadáver que tombava apenas para fincá-la imediatamente na têmpora do outro errante.

Os outros carniceiros restantes, atiçados pela movimentação rápida e fatal de Mavie, desistiram de suas antigas presas para tentar abocanhar um pedaço de carne irlandesa.

A jovem mulher deu cabo dos três sem maiores dificuldades, manchando as mangas e o torso de seu casaco de sangue escuro e fétido.

Mavelle secou o suor frio da face com a parte limpa de seu casaco, enquanto Peggy e Aya encaravam os corpos no chão.

— Eu estava desarmada, sinto muito mesmo — Aiyana começou a se desculpar, mas Mavie levantou uma das mãos, arfante pelo esforço.

— Não esperávamos por isso — Peggy continuou, encarando com seus grandes olhos agora um tanto lacrimosos a garota irlandesa.

— Acho que ninguém esperava... Que porra foi essa? Como eles entraram aqui? — Mavelle passou as mãos pelos cabelos, acalmando sua respiração. Seu coração ainda batia a mil, preocupada com essa inexplicável invasão de mortos-vivos em um terreno antes perfeitamente seguro.

— Não fazemos a menor ideia. O que fazemos com eles? — Aya perguntou, temerosa.

— Vamos levar um deles para a reunião, depois de comprovarmos que os portões estão fechados. Precisamos mostrar para todo mundo que algo aconteceu. — Berry abaixou-se até o cadáver mais leve, e Aiyana e Peggy fizeram o mesmo, dividindo o peso entre as três, quando se levantaram.

De fato sua avó tinha razão. Precisavam estar espertas. Alertas. Independente do comportamento recente de Carol, de Rick... As coisas estavam estranhas. Tensão no ar, desaparecimentos, mortes, traições, fugas covardes, surtos de loucura...

Mavelle apenas torcia para que aquela noite não piorasse ainda mais.

*****

Sentada em um dos bancos da praça, com um casal de idosos amigos ao seu lado, Annie Guinness mantinha seus olhos fixos em determinadas pessoas naquela reunião.

Deanna Monroe, de pé em uma espécie de semi-círculo improvisado, com tochas acesas em meio a um dos jardins principais de Alexandria, aguardava a vez de Abraham dar seu parecer acerca do recente réu Rick Grimes.

No que fora um tribunal do júri montado às pressas, Deanna convidara toda a comunidade, além do próprio réu julgado, a participar e opinar pela defesa ou condenação do homem que uma vez fora um líder respeitado e até mesmo temido.

Aparentemente, tornara-se não mais um homem que despertava admiração, que passava a impressão de austeridade... Mas sim, de loucura, de ambição desmedida... E de violência descontrolada.

Carol Peletier e Michonne já haviam deixado suas impressões, e Annie ouviu atenta a cada uma daquelas palavras. Deixou seu olhar em Carol durante todo o tempo que a mulher de cabelos curtos discursara a favor de Rick, com suas palavras mentirosas sobre sua própria suposta índole frágil e inofensiva, dizendo o quanto ele sempre a salvara e a protegera. Annie não duvidaria de que Carol fosse ainda mais perigosa do que Rick, na verdade, ela realmente a encarava assim.

Michonne, menos dissimulada, fizera um discurso mais aberto. Annie gostava dela. Era uma mulher firme, centrada, que de fato protegia os seus mas mantinha alguns limites saudáveis. Sabia o que poderia esperar dela, ao menos até que a provasse algo em contrário.

Naquele momento da noite, o soldado ruivo limpou a garganta, e levantou-se, preparando-se para opinar a respeito daquele assunto. A multidão o encarou, enquanto Annie desviou os olhos de Carol, que ainda olhava ao redor com feições inocentes como o lobo em pele de cordeiro que era, e passou a estudar Abe.

— Resumindo... Existe um vasto oceano de merda do qual vocês não sabem merda nenhuma. Rick conhece cada nobre grão dessa merda. E mais — Abraham finalizou seu curto porém diretíssimo discurso, enquanto Annie levantava uma sobrancelha. Esse foi bem peculiar.

Em seguida, o homem ruivo passou a palavra para Maggie Greene. A jovem moça, apenas poucos anos mais velha do que Mavelle, despertava a estima de Annie. Era alguém de boa índole, ela pudera reconhecer, assim como seu marido de traços físicos asiáticos. A vizinha ruiva de Jessie a ajudou a se levantar, e Maggie ajeitou o casaco comprido que usava, cobrindo sua barriga proeminente pela gravidez.

— O meu pai respeitava Rick Grimes. — a moça de cabelos castanhos olhou para os habitantes de Alexandria, perpassando seus verdes orbes com gentileza por cada um deles. Ela tinha potencial político, Annie reconhecia.

— Rick é um pai também. E é um homem de bom coração, que sente as coisas que faz. As coisas que precisa fazer — acresceu — e todos nós estávamos juntos antes desse lugar, não importa onde nos encontramos... Agora formamos uma família. Rick foi quem começou isso — ela assegurou — e vocês não o impedirão. Não podem. E nem querem! — a jovem moça aumentou o tom, e Annie percebeu o quanto as pessoas pareciam movidas com suas palavras.

— Essa comunidade, vocês, essa família que menciono... Vocês também querem fazer parte dela — afirmou Maggie com precisão.

Um silêncio respeitoso se ergueu quando ela acabou de falar. Rostos se entreolhavam, olhares mais calmos e empáticos eram visíveis em meio à multidão. Talvez assustada pelo possível maior partidarismo após o discurso carismático e cativante de Maggie Greene, Deanna novamente falou alto, com seriedade.

— Antes de ouvir mais de qualquer outra pessoa, eu gostaria de compartilhar algo pelo espírito da transparência. O Padre Gabriel me procurou anteontem, e disse que os nossos recém-chegados não são confiáveis — os olhos espertos de Deanna Monroe cintilaram — que eles são perigosos, e tentariam se colocar acima dessa comunidade. E um dia depois, Rick pareceu demonstrar tudo o que Gabriel disse. Eu esperava que ele estivesse aqui hoje à noite — disse a governante da comunidade, em tom de quem apenas atesta a culpa do réu ausente.

O silêncio antes mais acolhedor tornou-se novamente hostil. As pessoas voltaram a se entreolhar, tensas e preocupadas. Annie apenas estudava a tudo e a todos, refletindo em silêncio.

— Eu não o vejo aqui, Deanna, então você só está repetindo o que alguém falou — Jessie falou, depois de passar todo o tempo da reunião em silêncio.

Annie Guinness viu que Monroe pareceu encará-la com incredulidade no olhar. Como se ela estivesse propensa a debandar de seu lado... Para apoiar a causa de Rick Grimes.

— Você o filmou? — a mãe de Sam e Ron perguntou, com mais naturalidade, menos acusadora.

— E ele não está aqui — Maggie acrescentou, diminuindo ainda mais a força do argumento de Deanna.

— Nem o Rick — a líder de Alexandria retrucou, cortante. Annie viu Maggie levantar as sobrancelhas.

— Com licença — a mulher de Glenn se afastou do grupo, deixando o tribunal do júri, parecendo decidida a fazer alguma coisa. A idosa irlandesa já imaginava que ela pretendia buscar Rick, uma vez que reclamara no início da reunião que iniciaram o suposto julgamento sem a presença do réu e de outros habitantes da comunidade, como seu marido.

Enquanto deliberações curtas e em voz baixa eram feitas, e uma vizinha de meia idade conversava com Carol, aos sussurros, que se fingia de assustada, Annie não mais esperou. Também participaria.

— Acredito que podemos acrescentar mais colocações? — a idosa perguntou com educação. Deanna indicou-lhe com a mão, dando espaço para que ela dissesse o que queria.

Annie levantou-se devagar, ainda preocupada porque Mavelle e Peggy não estavam naquele lugar.

— Eu demorei a confiar em Rick Grimes — a avó de Mavie foi direta, levando vários rostos a se virarem em sua direção, um pouco chocados. Supostamente, deviam imaginar que ela era uma das fiéis partidárias do policial.

— Nos conhecemos em circunstâncias... Ruins. Ele, seu grupo, e o meu grupo, dos quais só restam, além de mim, minha neta e Peggy. — Ela parou para tomar fôlego. Todos estavam atentos às suas palavras, e Annie demorava seu olhar particularmente entre Deanna e Carol.

— Morávamos no Aquário da Georgia, local que muitos de vocês já ouviram falar, se é que não conhecem — Annie ouviu burburinhos de reconhecimento — mas nosso líder... Não era uma pessoa muito... Honesta.

— Depois de algum tempo, quando ganhamos sua confiança, Jed passou a nos usar não apenas para manter o local limpo e funcionando, com comida e segurança... Mas para recrutarmos novos moradores. E não da forma como Aaron faz — a idosa fez o adendo.

— Jed nos obrigava a sequestrar novos moradores, que eram desarmados e obrigados a cumprir as regras do Oceanário. Que apenas eram informados das gravações e das câmeras de vídeo quando enfim passavam no crivo de aprovação do nosso líder, forma que ele usava para nos controlar. — Annie baixou os olhos para as mãos, que seguravam as contas de seu colar.

— Na verdade, nós vivíamos em um regime de medo e de terror, sobrevivíamos lá dentro nas mãos de um homem inescrupuloso, que matava quem quer que discordasse dele. Astuto, carismático e falsamente polido, Jed conseguia o que quisesse, e se livrava de ameaças com a facilidade com que alguém mataria uma formiga — afirmou a irlandesa idosa.

— Não tínhamos escolha, pois éramos poucos, e ele sabia fazer o lugar funcionar. Sem Jed, que uma vez fora o zelador do Oceanário de Atlanta, conhecedor do lugar como a palma de sua própria mão... A energia teria acabado, nosso estoque de comida e água teria tido fim, teríamos sofrido invasões de carniceiros, entre outros problemas. Ele nos ensinou a sobreviver e a nos adaptar a esse novo mundo terrível — adicionou Annie.

— Quando Rick e seu grupo chegaram, eles vieram em resgate. De Carol — Guinness encarou a mulher, que a olhava com cuidado — Rosita e Daryl. No início, Rick usou como estratégia fingir submissão, para se rebelar contra Jed no momento certo. Quando descobriu por si só que aquele homem tinha cruzado todos os limites — Annie reprimiu um suspiro exausto — matara e usara um de nós como cobaia em experimentos científicos.

— A partir dali, não tinha mais volta... Por conta de alguns acidentes, perdemos o local onde morávamos, por culpa do nosso próprio líder. Se não fosse Rick, eu, minha neta e Peggy certamente já estaríamos mortas — a idosa admitiu.

— Ele talvez não seja o líder que eu queria, o líder que sonhamos... É um homem duro e seco, propenso a momentos como vocês viram. Porém não é um tirano — garantiu Annie — e sabe de fato proteger quem se dispõe a proteger.

— Infelizmente, este lugar precisa dele. Vocês precisam dele — a idosa confirmou as palavras de Maggie, finalmente se sentando.

Deanna parecia prestes a retrucar, e a tensão evidente entre os habitantes da comunidade era palpável.

Entretanto, o réu do tribunal do júri finalmente chegara. Munido de algumas... Surpresas.

Assim que cruzou os portões dos baixos muros de tijolo daquele jardim, Rick Grimes jogou no chão algo embrulhado em lençóis sujos que carregava em seus ombros. Com seu rosto já repleto de pontos e curativos sujo de sangue, bile e outros líquidos viscosos, o policial exibiu para a população de Alexandria o “presente” que trouxera.

Um errante morto.

Alguns segundos se passaram em que a multidão, chocada, soltou exclamações e entrou em polvorosa, com diversas conversas paralelas surgindo enquanto Deanna tentava acalmar a todos, e finalmente Mavelle apareceu, junto a Peggy e Aiyana. Moritz, atrás de Annie, pareceu conter uma exclamação de alívio.

— Não havia um guarda no portão. Ele estava aberto — Rick Grimes acusou a falha de segurança, enquanto Mavie, Aya e Peggy colocavam outro cadáver carniceiro no chão.

— Mas eu pedi para o Gabriel fechar! — Spencer retorquiu, indignado.

— Vá! — Deanna Monroe ordenou, mandando o filho que faria a vigilância aquela noite voltar a seu posto.

— Ele entrou sozinho — Rick afirmou.

— Eles entraram sozinhos — Mavelle corrigiu, aproximando-se da avó. Annie acariciou um de seus braços, segurando a mão de sua neta. O alívio percorreu seu corpo como uma onda de incrível gratificação ao ver que ela estava bem, segura e sadia.

— Eles sempre vão entrar — o policial manteve a palavra, andando para o meio do semicírculo. Annie e toda a multidão o encaravam, atentos.

— Os mortos e os vivos... Porque nós estamos aqui. — Rick olhava para cada rosto da população ali reunida.

— E os que estão lá fora vão nos caçar. Vão nos encontrar. Vão tentar nos usar — ele discursou com austeridade, e todos pareciam prender a respiração em uma unidade simbiótica.

— Vão tentar nos matar — Rick garantiu com mau agouro, discursando para a multidão.

— Mas nós vamos matá-los. Vamos sobreviver. Porque eu vou lhes mostrar como — assegurou Grimes, seus olhos azuis claros faiscando em meio à escuridão. Ninguém falava palavra.

— Eu andei pensando... — acresceu ele com um sorriso triste, o tom de sua voz melancólico, amargurado — ...Eu andei pensando em quantos de vocês eu teria que matar para salvar suas vidas — o policial admitiu, o que aumentou sua credibilidade aos olhos do público reticente.

— Mas eu não vou fazer isso. Pois vocês vão mudar — ele certificou, seus olhos fixos em Jessie, que o encarava perplexa.

— Não me arrependo do que falei ontem. Me arrependo de não ter falado antes. Vocês não estão prontos, mas precisam estar. Precisam estar agora! — asseverou o policial, movendo-se de forma a varrer os olhos por toda a multidão.

— A sorte acaba um dia — ele encarou Deanna, que o estudava com olhos cautelosos, calculistas.

De súbito, outro barulho estranho se fez ouvir junto aos portões daqueles muros baixos do jardim. Ruídos de passos arrastados, que até poderiam ser de um carniceiro. Exaltado, todo o público do tribunal do júri voltou-se naquela direção, alerta.

— Você não é um de nós! Você não é um de nós! — Pete, o marido de Jessie, avançava trôpego na direção de Rick Grimes. Estava caindo de bêbado... E portava a espada katana de Michonne.

— Pete, você não quer fazer isso! — Annie viu Reg, o esposo de Deanna, se prontificar para detê-lo.

— Saia da porra da minha frente, Reg — rosnou Pete, tentando se desvencilhar do homem que o segurava.

— Pete, pare! — pedia o marido da governante, junto da multidão alarmada.

— Agora não — Annie ouviu Carol sussurrar para Rick, que já exibia sua postura de ataque, caso fosse necessário partir para cima daquele homem desequilibrado.

— SAI DA PORRA DA FRENTE! — Pete exigiu, enquanto dilacerava a garganta de Reg, que caiu imediatamente aos chãos gorgolejando sangue abundante. Annie, chocada, levou uma das mãos ao rosto, se aproximando junto com Denise, a outra médica, para ver o estado do corte.

De longe, Guinness pôde ver que era um ferimento fatal.

Jessie gritou, junto de sua vizinha ruiva. Abraham, como um touro, pulou diretamente para cima de Pete, mantendo-o preso no chão, puxando seus braços para trás, firmando sua cabeça na grama.

O estado de Deanna era lamentável. Livre de sua pose e respeitosa postura, via-se apenas uma mulher chorando desesperada a morte estúpida e sem sentido de seu marido. Ela estava caída no chão, sentada com Reg em seus braços, chorando sem amarras.

— NÃO, NÃO, NÃO! — Annie viu e ouviu Deanna chorar desamparada.

— É culpa dele! Ele causou isso! — afirmou Pete, enlouquecido pelo ódio e pela bebida, seu rosto prensado na relva daquele jardim banhado de sangue.

— Meu Deus... Meu amor, meu amor... Não, meu amor, não... Não, meu amor... — Monroe via os últimos suspiros de seu esposo, que faleceu em seus braços, a garganta jorrando sangue.

— ELE CAUSOU ISSO! FOI ELE! — Pete insistia em sua loucura. A multidão também desesperada não sabia o que fazer. Michonne parecia tentar conter alguns, enquanto outros recuavam, apavorados, gritando e soltando exclamações aterrorizadas.

Subitamente, a voz de Deanna se fez ouvir. Límpida. Certeira. Sem lágrimas a engasgando.

— Rick... Faça. — Annie viu a líder de Alexandria autorizar a execução sumária de Pete.

Rick Grimes não hesitou. Preparou a pistola que roubara do arsenal e apontou-a no rosto do marido de Jessie.

Um disparo, e mais sangue banhou os jardins de Alexandria naquela noite.

E, um segundo depois, Annie ouviu sua neta exclamar, um ruído tão intenso e sincero que parecera vir de seu âmago. Voltando-se para Mavie, preocupada, Annie Guinnness viu que seu rosto parecia ainda mais chocado do que o do resto da multidão. Seus olhos piscaram várias vezes, como se não acreditasse no que vira.

Atrás delas, a idosa escutou uma exclamação mais baixa vir de Moritz. E, enfim, Annie viu o que eles haviam testemunhado, fazendo-os reagirem com tamanha surpresa.

— Rick?

Um homem negro olhava para Rick Grimes com incredulidade em suas íris. Ao lado dele, estavam um rapaz esquivo e uma mulher loira de olhos esbugalhados.

Além de Aaron, Billy Ray e também Daryl Dixon.

Notas finais
~ Gif trailer deste "season finale"... Se preparem que na terceira temporada o bicho pega o tempo todo! Exército de Wyoming County e os lobos tocando o terror! ~ No próximo capítulo, preparem seus coraçõezinhos, fãs de Davie... DARYL E MAVIE TERÃO O AGUARDADÍSSIMO REENCONTRO OFICIALIZADO HAHAHAHA! É isso aí, gente, vai ser caprichado! ~ Aguardo reviews! =D