Hunter's Instinct
37 Episódio 37 - Blood On The Tracks
Notas iniciais
[MANHÃ]
— Eu já falei para vocês que vai dar merda... — A voz do sujeito com cara de drogado insistia irritante atrás dos bancos principais da picape.
— Por que foi mesmo que a gente parou de calar a boca dele com silver tape? — Rebecca perguntou ao lado de Billy Ray, o motorista.
— Porque esse filhote de carniça* é mais irritante gemendo feito um bezerro desmamado do que de boca aberta. Não tenho paciência para ouvir esse estrupício berrando abafado pela fita adesiva. Falando é mais fácil de ignorar — afirmou o homem do sul, movendo as mãos com agilidade pelo guidão.
— É verdade — concordou Becky, olhando por cima do ombro na direção de Tucker, que mantinha um olhar de peixe morto à distância. Parecia desconsolado com a decisão que a jovem loira e o sulista do Alabama haviam tomado.
Naquela manhã, o veículo que o homem do Alabama dirigia zunia com rapidez pela autoestrada 10, em direção a Jesse, pequeno município limítrofe ao condado de West Virginia, considerado incluso ao seu território.
— Você não disse que essa é uma região pantanosa? Seu mapa e seu diariozinho confirmam — disse Billy Ray, troçando de Tucker.
— E que porra isso tem a ver? — o rapaz desbocado retrucou.
— Tem a ver que você se recusa a me falar as coordenadas da base do seu Exército, mas eu já tenho algumas ideias — acrescentou Billy.
— Olhei o seu mapa e reparei nas marcações que fez ao longo do condado. Algumas siglas... — comentou o sulista do Alabama. Becky, ao seu lado, parecia animada.
— São marcações de terrenos irregulares — retorquiu Tucker, mostrando desinteresse. Billy, entretanto, pôde ver as sobrancelhas do rapaz se franzirem ainda mais.
— Eu sou macaco velho, pirralho — rebateu Billy Ray, sorrindo com escárnio — o que significa que eu tenho alguma noção de siglas que o Exército usa. T1 é para o tipo de treinamento em que o recruta aprende o básico, por exemplo. — Billy sorriu mais ao ver a expressão de Tucker mostrar-se apreensiva.
— E, no nosso caso... Estamos indo para os pântanos dessa região, onde existe um enorme O1 antes de um pequeno I1, alguns quilômetros mais ao norte — falou o homem de chapéu com algum orgulho.
— O que quer dizer que esta é uma área vazia de soldados, e, seguindo em frente, chegaremos à área de treinamento da infantaria, pela sigla I1... Onde os soldados têm missões em que treinam para defender seu Exército de um ataque. O que significa, por sua vez, que estamos muito perto da base — finalizou Billy, enquanto Becky lhe dava aplausos agudos em meio a um sorriso amplo.
— Você não sabe o que está fazendo — Tucker parecia implorar agora.
— Já falei que não tem como voltar atrás, pivete — redarguiu Billy Ray, seco, fazendo uma curva na frente de uma placa que indicava a primeira entrada da estrada no município chamado Jesse.
Alguns poucos carniceiros rastejavam, muitos deles em um estado de decomposição tão avançado que seus membros quebrados e puídos mal lhes ajudavam a se arrastar pelo chão.
— Eu estou falando sério! Nós vamos morrer, todos nós, depois de sermos tão torturados que não vamos mais nem nos lembrar de como falar! — O rapaz parecia desconsolado, realmente apavorado. Jogava-se de um lado para o outro, remexendo-se nas cordas e fitas silver tape que o mantinham preso, parecendo um peixe tentando respirar fora d’água.
Pela primeira vez, depois de ouvir em inúmeras ocasiões diferentes as ameaças do rapaz falastrão, um arrepio de mau agouro subiu pela espinha de Billy Ray, enquanto ele estacionava a picape em meio às folhagens de um salgueiro imenso.
— Ai, estou com tanto medo... — debochou Rebecca, levantando as sobrancelhas e fazendo um biquinho forçado. Billy ignorou o entrave entre os dois, e abriu a porta ao lado do banco do motorista.
— Por favor, yo, eu estou implorando... Vocês têm que me ouvir! — Tucker lamuriou-se, olhando do homem do sul para Becky, inconformado com o próprio destino. Billy lançou-lhe um olhar longo e profundo, refletindo por algum tempo.
Não há outra escolha. Preciso saber se é verdade. Billy Ray pensou, sabendo que não poderia desistir antes de no mínimo dar uma olhada de longe nas imediações do quartel general do Exército de Hashimoto.
Enquanto Rebecca o ajudava, os dois retiraram Tucker do carro, soltando partes das cordas e amarras que o mantinham completamente preso, para agora permitir que pudesse ao menos caminhar.
— Se eu ouvir um barulho qualquer vindo de você, a gente vai te enfiar tanto a porrada que quando se olhar no espelho outra vez não vai mais se reconhecer — ameaçou-o Becky, com um sorriso lunático, alisando seu bastão de baseball como se fosse seu bicho de estimação.
Tucker, não vendo outra escolha, passou a caminhar junto a eles, cabisbaixo, andando mais a frente. Billy e Rebecca seguiam alguns poucos passos atrás do rapaz, que, incapaz de correr ou se movimentar de forma mais efetiva, seguia-se arrastando pelo chão pantanoso como se fosse um carniceiro.
Naquela região desolada, provavelmente não havia habitantes além de cobras e um ou outro crocodilo nas regiões mais alagadas. Muitos mosquitos zumbiam pelo ar, picando os três estranhos membros daquela comitiva, disfarçando os sons distantes de lamentações dos poucos mortos-vivos que andavam por uma região tão erma.
O sol da manhã do outono que já se aproximava do inverno mal os esquentava, e o terreno úmido e hostil que adentravam cada vez mais os deixava irrequietos e com frio. Becky passou a bater os dentes, sendo silenciosamente repreendida por Billy Ray, e Tucker seguia em silêncio completo, obediente como um fiel cachorro.
— Tenham cuidado — Billy sussurrou, percebendo a mudança de terreno — está ainda mais úmido, pisem com cuidado para não caírem em algum lamaçal ou mangue.
Rebecca subitamente o cutucou no ombro, ainda quieta, e apontou a distância para alguns arbustos frutíferos.
— Mirtilos — murmurou ela com alegria infantil, arregalando os olhos — me deixa colher alguns rapidinho! — pediu ela, pois se desviariam apenas alguns passos da rota.
Billy assentiu com a cabeça, silencioso, e andou alguns passos até o rapaz com cara de junkie, segurando-o pelo braço. Tucker olhou-o com desprezo, mas nada disse, e parou conforme o gesto de Billy Ray o obrigou a fazê-lo.
A garota loira estava a alcançar os arbustos, correndo com leveza pelo terreno enlameado, quando subitamente algo inimaginável aconteceu.
Em um piscar de olhos, Becky havia sumido, enquanto ofegava. Billy sentiu seu queixo cair e imediatamente empurrou Tucker para o lado, que soltou um alto “mas que porra foi essa”, parecendo tão incrédulo quanto o homem do Alabama.
Demorou alguns segundos até Billy Ray compreender que Rebecca caíra em alguma espécie de buraco.
Correndo veloz até a beirada do local onde Rebecca havia caído, Billy surpreendeu-se ainda mais ao olhar para o lugar onde se dera sua queda. Com o bastão em punhos, Becky se afastava devagar de uma cobra enrolada em seu próprio corpo reptiliano. Pelo padrão de losangos claros e escuros no corpo do réptil e os chocalhos no fim de seu rabo, Billy aferiu tratar-se de uma cobra venenosa, algum tipo de cascavel, e que provavelmente media cerca de um metro de comprimento.
Pelo comportamento alerta, porém ainda calmo, e a barriga estufada, a cobra fora provavelmente despertada pela queda de Rebecca naquele buraco. Não parecia inclinada a atacar, mas estava a postos caso se sentisse ameaçada, acordada de seu sono digestivo.
— Saiam daí, pelo amor de Deus, vamos embora daqui — Tucker implorou ao longe — isso é uma armadilha, não entenderam ainda? — o rapaz falou, nervoso, olhando para os lados aterrorizado.
— Becky... Caminhe devagar para trás, não se aproxime da cobra, mas fique de olho nela — aconselhou Billy — quando não conseguir ir mais para trás eu te puxo pelos ombros, vai dar certo, não se preocupe — garantiu o homem do Alabama, abaixando-se e estendendo seus braços para resgatar Rebecca, que o olhou de esguelha.
— Olhe para a cobra! — Billy repreendeu, ao passo que Rebecca lançou um olhar nervoso para o réptil sacudindo lentamente seu chocalho.
Assim que Rebecca bateu com as costas na parede de terra que havia no buraco, Billy a puxou para cima, e a cobra por pouco não mordeu o calcanhar da garota loira. No momento do bote, ainda com seu corpo reptiliano elevado, Billy Ray leu algo cravado na cabeça da cobra.
“W”
— Vamos embora agora — Billy falou, finalmente assustado como Tucker, puxando Becky e tendo certeza de que ela não havia se machucado. Cambaleando um pouco por conta de alguma possível torção, Becky seguiu na direção do rapaz que já tentava se arrastar para longe, mas sabia não ter chances de fugir.
De súbito, Billy sentiu-se levado totalmente pela adrenalina.
Ao longo da vegetação arbustiva, inúmeros galhos, folhagens e troncos estalaram, crepitando agourentos em meio ao completo silêncio. O chocalho da cobra ainda vibrava no buraco agora abandonado, mas os três bizarros viajantes agora tinham companhia.
Um homem de cabelos escuros, compridos na altura de seu ombro, com o rosto sujo de terra, sangue e lodo aproximou-se devagar, com uma pistola 9mm nas mãos. Ao longo da vegetação, mais quatro homens o acompanhavam, armados, e todos tão imundos quanto ele.
Viram um homem robusto, negro e forte, um sujeito ruivo e magricelo, tão magro que os músculos de seu braço ficavam marcados em seus braços longilíneos. Avistaram um rapaz que parecia ter a idade de Tucker, com longos cabelos loiros e nariz proeminente e braços fortes como os de um estivador, e um homem que devia ter mais de cinquenta anos, com cabelos grisalhos, chapéu de pescador e barriga proeminente, porém cujo olhar atroz revelava que sua idade não o deixara inofensivo. Além de um revólver, levava uma peixeira, suja de sangue e gordura, que movia perigosamente.
Tucker, ainda apavorado, não fazia som algum. Billy e Rebecca já tinham levantado suas armas havia muito. Cada um com uma das pistolas de Moritz em mãos moviam as miras ao longo dos homens que os cercavam devagar... Todos os homens partilhando a mesma aparência tenebrosa, suja e selvagem, além de algo em suas testas...
Cicatrizes proeminentes nas quais se lia a letra “W”.
— É melhor vocês abaixarem as armas — o sujeito de cabelos escuros, o primeiro que haviam visto, disse com suavidade.
— Apenas... Fiquem quietos. — Seus dentes eram afiados, o que o deixava com uma aparência esquisita. Realmente... Bestial.
— Eu sei quem vocês são — Billy respondeu, mantendo a mira de sua pistola na testa do Wolf, onde havia o maldito “alvo” em forma de “w” para que atirasse.
— Não vou pedir duas vezes.
Tucker abafou um som angustiado. O grupo de homens se entreolhou e riu.
Armados, alguns deles portando rifles e fuzis, Billy não viu outra escolha a não ser, ao menos a princípio... Render-se.
Abaixou sua pistola, não retirando os olhos do homem de cabelos escuros, enquanto Rebecca, com um ar desdenhoso inconsequente, fazia o mesmo.
— E como é que você saberia da gente? — o homem gordo, o mais velho dentre eles, perguntou, com um ar sadicamente divertido.
Billy olhou de esguelha para o rapaz. Será que não mentiu, enfim?
Tucker baixou a cabeça, preocupado. Olhou diretamente para Billy, como se lhe implorasse algo mentalmente.
O Wolf de cabelos escuros se aproximou de Tucker, encostando o cano da arma em sua bochecha. O rapaz pareceu tremer dos pés a cabeça.
Ao que tudo indicava, Tucker falara a verdade... Seu Exército e os Wolves não eram a mesma gangue, e ele próprio de fato não era um soldado tão importante... A ponto de sequer ser reconhecido pelo grupo contratado por Hashimoto.
— Pelo menos assim é inédito. A primeira vez que pegamos alguém que sabe alguma coisa da gente — troçou o magricelo ruivo, com um sorriso amarelo apodrecido faltando alguns dentes.
— Deveríamos revistar as coisas deles — sugeriu o homem negro — quem sabe não pegaram as pistas falsas de Hashimoto — complementou o Wolf de pele escura.
Puta que pariu. O moleque falou a verdade. Billy percebeu, sentindo o suor frio percorrer seus poros. O Exército... Aqueles papéis convidando-os a conhecer a base... Tudo, tudo era uma grande arapuca.
— Não vamos falar demais na frente dos nossos convidados... Para que eles vão querer saber de tudo se logo não vão se lembrar de mais nada? — debochou o homem de cabelos escuros. Pelo visto, realmente pretendia assassiná-los. Sequer chegariam a ser mortos pelas mãos do terrível Exército do qual Tucker tentara escapar... Seriam mortos pelos capangas contratados, que não faziam ideia de que carregavam consigo um verdadeiro dedo-duro.
— Por favor, deixem a gente ir, por favor... Vocês podem esquecer tudo isso, já ganharam mais armas, levem o que quiserem, mas nos deixem em paz! — Tucker pediu com um ar ainda mais atemorizado do que com o que implorou para Billy.
— Por favor digo eu, moleque — o velhote barrigudo redarguiu, incrédulo — você entra em um pântano carregando ouro, e acha que não vai ser roubado? Deveria ser mais esperto da próxima vez... Pena que não terá uma outra vez para contar história — o homem grisalho sorriu enviesado.
Assim, o maldito Wolf ruivo se aproximou da jovem loira, enquanto o Wolf negro revistava Billy Ray.
Ao procurar por mais armas ou objetos nas roupas de Rebecca, o ruivo não se deu por satisfeito ao conferir que não havia nada com ela, e aproveitou para apertar obscenamente suas partes íntimas e seus seios por cima das roupas, recebendo olhares e murmúrios de aprovação dos outros lobos.
Rebecca fechou os olhos, controlando seu incômodo profundo, enquanto Billy se segurou o melhor que podia para não arrancar a garganta do sujeito com as próprias mãos. Se o fizesse, seria morto de imediato, e o que mais não poderiam fazer com Rebecca se não pudesse protegê-la?
— Vamos comer ela? — perguntou o magrelo ruivo para o homem de cabelos escuros, que ainda avaliava Tucker, como se o reconhecesse de algum lugar.
— Um segundo — o Wolf que parecia ser o líder daquele bando o parou com uma mão. Olhou para Billy e questionou.
— Como é que nos conhece?
— Já vi as coisas que vocês fazem — rebateu Billy Ray, tentando blefar — vi os “W” que marcam nos corpos andantes. Vocês tentaram nos matar antes, mas escapamos. Seguiram-nos no Tennessee — afirmou Billy, tentando evitar que o homem percebesse que soube mais por conta de Tucker.
Subitamente, o grupo se aproximou ainda mais de suas três presas. Rondando-os devagar, com as armas a postos, facões, peixeiras, lâminas diversas e sorrisos cruéis, pareciam mesmo um grupo de predadores... Famintos e prontos para dar o bote.
— Eu acho que me lembro deles. O Lambda estava encarregado de caçá-los. Usou como isca aquele papel de Hashimoto. Era aquele grupo que tinha a indiazinha gostosa... E ei, que tinha a loira gostosa — acresceu o Wolf ruivo com um sorriso perverso — bem que achei que já conhecia esses peitos de algum lugar... — O sorriso maligno do homem apenas se ampliou.
— Então fugiram só para serem caçados de novo... E com um brinde — o homem de cabelos loiros compridos encarou Tucker, e tinha o mesmo olhar devasso do ruivo encarando Rebecca. Billy percebeu que estupro e outras atitudes bárbaras eram comuns para aqueles homens.
— Mas ainda não sei... Tenho a impressão... — o homem moreno acrescentou, a pistola perpassando o rosto de Tucker e se cravando em sua testa.
— Acho que já te vi em algum lugar — o homem de cabelos escuros completou, fuzilando Tucker com os olhos.
O rapaz fez o máximo de esforço que pôde para manter o olhar, até que o que parecia ser o líder do grupo desistiu.
— Delta, sai de perto da loirinha... Sou eu que vou começar. — O Wolf líder seguiu até Rebecca, movendo as mãos para abrir o próprio cinto, enquanto o homem negro e o ruivo a seguravam de forma que não pudesse escapar.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Billy pulou em cima do homem de cabelos escuros, enquanto o negro o puxou pela nuca e o jogou no chão com violência. Passou a esmurrar seu rosto com prazer doentio nos olhos, enquanto o homem grisalho se aproximava e desferia chutes repetidos em seu corpo caído.
Quase vomitando sangue pela violência sofrida, Billy Ray podia ver de canto de olho o ruivo ainda mantendo Becky parada ao passo que o homem de cabelos escuros abaixava as calças dela, enquanto ela chorava aterrorizada e se esforçava para se desvencilhar e morder o homem que tentava estuprá-la.
Ao seu lado direito, Tucker se arrastava pelo chão, não precisando ser contido por já estar amarrado, enquanto o homem de cabelos loiros compridos passava ele próprio a retirar suas calças e espancava o garoto com cara de drogado.
Tudo culpa minha. Tudo culpa minha. Era o que Billy conseguia pensar naqueles segundos infernais. Sentia o osso de seu nariz se quebrar, sentia seus molares trincarem, sentia seu corpo sendo cada vez mais atacado, mas nada doía... Nada doía mais do que saber que pessoas morreriam por sua culpa.
Tucker e Becky seriam violentados... Morreriam porque ele foi um idiota.
Eu sinto muito, Becky... Eu realmente...
Billy estava prestes a perder as forças, Rebecca e Tucker urravam de humilhação, medo e dor, próximos de serem violados... Quando uma pedra enorme foi arremessada no crânio do homem de cabelos escuros, derrubando-o instantaneamente no chão, fazendo sangue sair em um filete escuro de seu ferimento.
— Mas o quê? — Os homens que espancavam Billy pararam, e subitamente caíram ao chão, alvos de mais duas pedradas certeiras e pesadas, que zuniram como vespas até atingirem seu alvo.
Sem espera, o Wolf ruivo saiu correndo, enquanto o Wolf loiro, largando Tucker no chão, não tendo tido tempo de despi-lo e ajeitando as próprias calças, tentou seguir seu encalço. Fugiram em meio à vegetação, enquanto Billy arrastou-se até Rebecca, sentindo seu rosto tão inchado como se fosse explodir.
Cobriu-a com seu casaco e a abraçou com as poucas forças que lhe restavam, ao passo que ela arregalava os olhos e se escondia em seus braços, como uma criança aterrorizada, tremendo sem parar.
Ao longe, ouviram o som de dois corpos caindo em um ruído refreado.
— Puta que pariu — Tucker murmurou, seu rosto também sangrento de tanto apanhar, rastejando até Billy e Rebecca, ainda amarrado.
O silêncio retornou a imperar pelo pântano. Quando os zumbidos dos mosquitos tornaram-se outra vez insuportáveis, o sulista do Alabama não mais aguentou.
— Quem está aí? — Billy Ray perguntou.
E a resposta veio personificada, logo em seguida.
*****
[NAQUELA TARDE, AO ANOITECER]
— Alguém passou por aqui tem um tempo. — Daryl Dixon caminhava alerta em meio a uma região fronteiriça do estado da Virginia. Reparava, cuidadoso, em marcas e pistas indicando pegadas recentes humanas.
Próximos a pequenas e sinuosas estradas de terra, ele e Aaron haviam parado seus veículos, depois de quase vinte e quatro horas dirigindo sem parar.
— Se os virmos, podemos recuar e observar de longe — acrescentou o caçador arqueiro, sua balestra prontificada para qualquer defesa.
— Observamos e ouvimos... Por quanto tempo? — questionou o recrutador mais experiente, deixando claro que já se sentia exausto daquela tarefa.
Daryl andou mais alguns passos ligeiros para a frente, saindo da vegetação para uma rua asfaltada. Não havia nada além de um terreno descampado e uma construção longínqua, algum tipo de depósito em meio a uma autoestrada principal.
— Até sabermos. Precisamos saber. — Dixon movimentava-se com cuidado, enquanto Aaron o seguia já com dificuldade.
— Do que você desconfia, realmente? — murmurou o namorado de Eric para o arqueiro, percebendo que Daryl provavelmente tinha algum palpite já consignado. O caçador limpou a garganta, cuspindo para o lado.
— Vocês já expulsaram pessoas? — Daryl fez a pergunta que parecia retórica.
— Sim — Aaron foi direto.
— E o que aconteceu? — insistiu Dixon, guiando o outro habitante de Alexandria até as amplas grades que cercavam o que agora ele aferia ser um galpão. Daryl estreitou os olhos e estudou o lugar repleto de contêineres e caminhões da marca Del Arno Foods.
— Foi no começo. Expulsamos três pessoas... Dois homens e uma mulher. — Aaron parecia ainda mais cansado ao tocar naquele assunto.
— Davidson era o líder. Muito inteligente e forte. Pensei... Pensei que daria certo, mas não foi o que aconteceu — o recrutador falastrão fez uma pausa — eu os trouxe... E tive de vê-los ir embora — admitiu seu fracasso.
Daryl pegou o binóculo que guardara em sua mochila. Olhou ao redor, capturando atentamente cada detalhe do galpão, e viu apenas poucos errantes perambulando a esmo.
— Então eu, Aiden e Nicholas levamos eles para longe. Demos a todos o equivalente a um dia de alimentos e água... E os deixamos lá — continuou Aaron, segurando um suspiro de frustração.
— E eles foram embora? — insistiu o arqueiro, descrente.
— Estávamos com as armas deles. Todas as armas — confidenciou Aaron — não é como se tivessem muita escolha... Ou até mesmo muitas chances. — O recrutador tagarela coçou a cabeça.
— De qualquer jeito, sinto que não posso cometer o mesmo erro novamente — falou, exibindo sua culpa — acho que deveríamos reconhecer que essa missão não está dando certo — considerou o namorado de Eric.
Daryl se manteve em silêncio, andando lentamente para mais perto da abertura dos portões, ainda investigando o local.
— Sabe, estamos a mais de 100 quilômetros de casa... É mesmo hora de voltar — Aaron parecia renunciar à missão.
Enquanto Dixon não se manifestava, o tagarela continuava, apenas seguindo os movimentos do caçador.
— Verificamos a floresta, as estradas... As pistas mais concretas realmente sumiram. Isso às vezes acontece. — Aaron parou e apontou para os dizeres da marca produtora de alimentícios. — No entanto, não se vê algo assim todos os dias. — Ajeitou a mochila nos ombros, esperando as considerações de Daryl.
— Você está com tanto medo que quer desistir? — Daryl perguntou entre a incredulidade e o deboche, mas sabia que o sujeito tinha razão. Aaron o olhou sério, ignorando a pequena ofensa.
— Nós vimos esses dias... Tem gente maluca aqui fora — conjecturou o falastrão.
— Por isso procuramos as boas — retrucou Daryl, guardando o binóculo e tirando do bolso a faca que um dia fora de Beth Greene.
— Daryl, honestamente... Precisamos de mais gente, e vamos achar. Mas, quando acharmos, precisamos ter comida, também, para alimentá-los. Certo? — Aaron falou com sensatez.
Dixon encarou o outro homem. Refletiu por alguns instantes, e enfim anuiu com a cabeça, concordando. Em seguida, bateu com a faca de Beth na grade, atraindo os errantes com o barulho que retiniu por todo o estacionamento do galpão.
Depois do trabalho de limpeza dos mortos-vivos, os poucos que ainda se arrastavam por ali, Aaron e Daryl abriram o portão, caminhando até o que pareciam ser as portas principais do depósito. Um vento frio soprava, uivando ao longo das árvores.
— Não fale nada — Dixon se precaveu, avisando a Aaron sobre o que reparara: uma mancha de sangue recente, ainda clara e úmida, se arrastando até o que pareciam ser as portas fechadas do galpão.
Algum corpo fora arrastado por ali.
Aaron e Daryl, atentos, passaram pelos contêineres e caminhões com os dizeres “como a colheita chega em casa”, ambos com balestra e fuzil a postos para qualquer intempérie.
Conforme caminhavam e reparavam que não havia ruído algum, nenhum sinal de vida ou de atuação de mortos-vivos por perto, presumiram que quem quer que tenha sido arrastado provavelmente não mais respirava... Ou ainda não tinha se transformado.
Aaron avisou em silêncio a Dixon que retiraria uma das placas do caminhão para guardar consigo em sua estúpida coleção, mas o caçador estava desconfiado.
Assim que o recrutador mais antigo retirou a placa, fazendo um leve ruído agudo com o metal e os instrumentos que utilizara, ouviram um som abafado vir de dentro do depósito.
Uma voz humana... E masculina.
— Por favor! — A voz era aguda, parecendo desesperada. — Tem alguém aí? — O timbre fraco e roufenho demonstrava que o detentor daquela voz parecia de fato machucado.
Aaron olhou para Dixon, subitamente alarmado. Daryl levantou o indicador, indicando que continuasse silencioso.
— Por favor, eu ouvi! — o homem quase gritava — eu ouvi você aí! Ajude-me, por favor! Não consigo me mover! — o desconhecido dentro do galpão implorava.
— Por favor! — Foi a vez de uma nova voz masculina soar. — Por favor, ajude a gente, por favor! Nosso pai está sangrando muito! — Duas vozes infantis se juntaram as súplicas do homem adulto.
Aaron moveu os olhos ao redor, irrequieto, aproximando-se da porta fechada do galpão. Antes que Dixon pudesse analisar a gravidade da situação, o outro homem já se prontificara.
— Não se preocupem, vamos ajudar! — O recrutador falastrão se adiantou, abaixando-se para puxar para cima aquela porta de depósito. De imediato, o arqueiro também se curvou e passou a ajudar o outro recrutador.
Mas as surpresas ainda não tinham acabado.
Logo que Daryl e Aaron empurraram a pesada porta para cima, perceberam que um fio transparente e firme de algum material cortante estourara com aquele movimento.
Zunindo pelo ar, como se movido por algum sistema de polias e roldanas tão bem elaborado e disfarçado que nem os olhos alertas de Dixon puderam perceber, o fio rompido foi pouco a pouco abrindo outras portas.
Portas de compartimentos de carga de caminhões, portas de contêineres... Exibindo seu verdadeiro conteúdo.
Hordas massivas de errantes, escondidos dentro de compartimentos acolchoados para não revelar o que continham por meio do som e do tato.
Movidos imediatamente por seus instintos de sobrevivência, Daryl e Aaron, com adrenalina a mil, correram para longe daquela quantidade assombrosa de mortos-vivos. Em um rápido vislumbre, o arqueiro contou cerca de cinquenta deles, enquanto esfaqueava os crânios dos que impediam sua fuga, auxiliado por Aaron que executava outros errantes com seu facão de abrir trilhas.
Reagindo como o ser meio homem, meio animal que era, favorecido por sua experiência ímpar em meio à vida selvagem, Dixon guiou e protegeu o outro homem, levando-o para baixo de um dos caminhões, evitando um ponto mais fechado da horda de cadáveres ambulantes.
Ao saírem debaixo do veículo, Daryl improvisou uma arma com as correntes que achara caídas debaixo dele, atacando cerca de três errantes de uma vez. Estourou seus crânios decompostos, liberando caminho para que ele e Aaron corressem em direção a um carro preto.
Seguidos de perto por mãos, unhas, garras e dentes famintos por vísceras humanas, os dois se jogaram para dentro do automóvel, e Aaron fechou a porta do banco do passageiro ao lado do motorista, por onde entrou Daryl. O recrutador tagarela esmagou a cabeça de uma errante no processo, demorando até enfim conseguir se trancar dentro do carro, e Dixon e ele puderam ver vestígios de uma testa com um “W” vermelho cravado.
Ansioso como se fosse ter um infarto, Aaron voltou-se para o caçador e perguntou.
— O vidro vai segurá-los, não é?
— Talvez — Daryl respondeu, ele mesmo muito preocupado, porém anestesiado pela adrenalina — talvez tenha algo que possa nos esconder.
Aaron olhou ao longo do carro, sua boca aberta, arfando pelo nervosismo.
— Em algumas horas algo aparecerá e vai atrair a atenção deles — assegurou Dixon, embora não estivesse muito certo disso — enquanto isso, deve ter algo aqui para bloquear a visão deles. Vamos cortar os bancos.
Contudo, o homem ao lado do caçador cutucou-o em seu ombro, indicando algo inesperado.
— Olha! — Aaron apontou ao longe para o teto do galpão, enquanto uma quantidade abissal de errantes cercava o veículo onde estavam. Daryl seguiu a direção, e viu o que o namorado de Eric havia testemunhado.
O homem de capuz vermelho estava lá em cima... Parecendo olhar diretamente para o carro onde estavam.
Daryl finalmente sentiu-se realmente angustiado. Enquanto isso, Aaron abriu o porta-luvas procurando algo que pudesse ajudá-los, e achou apenas um papel amassado, como um post-it, e o que parecia ser... Um gravador.
O caçador e o recrutador leram o papel escrito, manchado com sangue ainda fresco.
“É uma armadilha. Pessoas ruins estão chegando. Não há crianças lá.”
O arqueiro já tinha adivinhado o que aquilo significava.
Enquanto o carro em que se escondiam tremia, com mãos incontáveis de errantes esmurrando os vidros, bafejando em cima deles, grunhindo de fome... Dixon tomou fôlego, piscou os olhos devagar e ligou o gravador.
— Por favor! — A voz do menino que ouviram dentro do depósito se reproduziu pelo gravador. — Por favor, ajude a gente, por favor! Nosso pai está sangrando muito! — As mesmas vozes infantis suplicavam... E os recrutadores perceberam que tinham sido enganados.
Era uma armadilha.
Fugindo de quem quer que os seguisse, tentando com dificuldades continuar a missão... Daryl e Aaron foram levados...
...Diretamente para a toca do lobo.
*****
— Mamãe anda muito estranha ultimamente — Sam comentou ao lado de Carol, ajudando-a a fazer a massa dos biscoitos de chocolate.
Como o garoto decidira não largá-la de vez, Carol Peletier decidira ao menos lhe dar alguma função de utilidade. Ensiná-lo a cozinhar não era uma das habilidades mais importantes que pretenderia instruí-lo, mas deveria dar tempo ao tempo.
Quando Rick e ela enfim mandassem naquele lugar... Quando Deanna se provasse incapaz para todos, inclusive seu povo, aí sim as coisas poderiam de fato mudar.
Naquele final de tarde, próximos da janela da cozinha da residência que dividia com Rick, Judith, Daryl, Carl e Michonne, Carol untava a fôrma para os biscoitos pelos quais Sam era apaixonado, enquanto o garoto juntava a massa para o preparo.
— Eu sei, Sam. — A mulher de cabelos grisalhos suspirou.
— Sabe o quê? — o menino indagou, levantando uma sobrancelha desconfiada. Suas pequenas mãozinhas ágeis enrolavam a massa com facilidade.
— Sei o que vocês estão passando — ela afirmou, contendo mais um suspiro. Olhou para o garoto com o máximo de rigidez que pôde reunir.
Respondendo o olhar com orbes surpresos, Sam parecia revoltado.
— Não sabe não — teimou o garoto, entre a malcriação e o terror perene de ter um pai violento.
— Sei — insistiu a mulher — não discuta comigo. — Carol terminou de untar a fôrma e colocou os biscoitos prontos para assar nela. Sam parou de auxiliá-la.
— Como você sabe? — o garoto perguntou, espantado.
— Isso não é da sua conta, Sam — ela retrucou irritada. Contudo, Carol sabia a origem de sua irritação... A mesma razão que a levava a ficar tão mexida na presença daquela criança.
Sam a movia demais, pois a lembrava constantemente de sua filha Sophia.
— Bem, então não é da sua conta o que estamos passando... — a criança redarguiu, malcriada, e Carol o segurou pelos ombros.
— Eu já lhe falei para parar de dar respostas atravessadas — a mulher deu a bronca no garoto, que baixou a cabeça. Carol levantou o queixo do menino, severa.
— Se você está preocupado com a sua mãe, Sam, você deveria buscar ajuda. Com alguém que você confie. E eu estou desconfiada de que é isso que você está fazendo — a mulher de cabelos grisalhos disse assertiva.
O garoto pareceu respirar fundo, como se reunisse coragem.
— A senhora pode me ajudar? — Sam pediu, seus olhinhos enchendo-se de lágrimas. Os dedos de Carol tremeram no ombro do garoto. Sentiu um impulso urgente de abraçá-lo, mas, no momento em que pensava que cederia aquilo...
Ouviram um barulho ríspido e cortante de vidro sendo estilhaçado.
Subitamente, em meio ao ruído anterior, urros, gritos, exclamações diversas se fizeram ouvir em uma zurraria de sons assustados.
— Sam, fique aqui dentro, não saia de jeito nenhum — Carol mandou, quase derrubando a fôrma de biscoitos ao sair pela porta dos fundos e correr na direção dos sons.
O que significava aquilo? Aqueles sons lhe remeteram de imediato a alguma ideia de briga, de confusão... E não lhe passava pela cabeça nenhuma outra ideia de conflito que não envolvesse Rick e Pete, o marido de Jessie.
Não, Rick, não era para ser assim. Pensou a mulher, já frustrada de antemão, correndo o mais rápido que conseguia na direção da confusão.
— Deanna! — Carol viu Reg gritar pela esposa e líder de Alexandria. Em seguida, varreu os olhos pela rua principal da comunidade, vendo Glenn correndo a toda velocidade ao longe, seguido de Nicholas e Tobin. À direita, Carol Peletier viu Mavie e Annie se aproximando, a irlandesa mais jovem ao lado da avó, como se a acobertasse. Atrás delas vinham Spencer, Denise e Rosita.
Do lado esquerdo, mais pessoas se juntavam a plateia da briga. Cercando o embate, Carol podia enxergar Padre Gabriel, Abraham, uma mulher de cabelos curtos chamada Francine, e também Maggie, que foi logo amparada e protegida por seu esposo.
Por fim, retardatários, vinham correndo Peggy e Aiyana, seguidas de Moritz que andava rápido, além de Eugene que parecia se locomover da direção da casa que fizeram de pronto-socorro.
Carol piscou os olhos, e reparou também em Carl e Enid chegando dos portões, o garoto gritando pelo pai, e Peletier, antes de ver a cena da briga, compreendeu que estava certa.
Jessie, muito perto dos homens que se espancavam, mal controlava as lágrimas, tremendo dos pés a cabeça. Seu filho Ron, o mais velho dentre os irmãos, se aproximou da mãe e a abraçou, ele mesmo apavorado.
E enfim, em meio aos ombros de Reg, Tobin e Mavelle, Carol pôde ver a cena com seus próprios olhos.
Rick, sanguinolento, todo cortado por cacos de vidros, se atracava no chão como uma fera com Pete, o marido de Jessie. Ambos sangrando, vermelhos pelo esforço e pelos machucados, pareciam determinados a se matar no murro.
— PAREM! — Jessie urrou, desesperada, e tentou puxar o marido, que quase esganava Rick Grimes. Pete deu um soco firme em cheio no rosto da mulher, que caiu para trás e bateu a cabeça no asfalto.
Carol levou uma das mãos ao rosto, ao passo que Rosita ajudou a mulher loira a se levantar e se afastar da briga.
Subitamente, Carol Peletier sentiu algo tocar-lhe por trás. Mãos pequenas enlaçavam suas pernas, escondendo um rosto choroso nelas.
Ela olhou para baixo e viu a figura de Sam apertando-se contra ela, aterrorizado com aquilo.
Sentindo uma pontada de dor lancinante em seu coração, Carol Peletier comprimiu ela mesma a emoção que lhe atacara por aquele gesto genuíno do garoto.
Sam correra para ser protegido por Carol, e não por sua própria mãe.
Mantendo seus olhos livres de lágrimas, a mulher abraçou Sam, uma de suas mãos puxando seu rosto para que ele não visse o que ali se desenrolava.
Naquele momento, Carl tentava puxar o pai que, ainda desvairado, empurrou seu filho para longe.
Em meio aos berros e protestos da multidão, Rick enfim pareceu levar a melhor, segurando Pete em um mata-leão, por pouco não o asfixiando. Grimes parecia além de qualquer controle, incapaz de reagir aos chamados de seu filho ou de qualquer outra pessoa ali.
Até que Deanna chegou.
— PARE! — Deanna Monroe exigiu com severidade.
— Se tocar neles outra vez, mato você! — Rick rosnou bestialmente aos ouvidos do homem que quase sufocava.
— Porra, Rick, mandei parar! — Deanna exigiu, perdendo a compostura ante aquela situação descontrolada.
— Ou o quê? — Grimes pareceu debochar, largando o corpo de Pete, desacordado. Carol viu que seu rosto tinha a mesma expressão enlouquecida de quando tivera surtos esquizofrênicos na época da prisão.
— Vai me expulsar? — provocou ele, ajoelhado no meio da rua, apontando a arma que Carol conseguira para ele diretamente no rosto de Deanna.
— Abaixe a arma, Rick — insistiu a líder de Alexandria.
Para a surpresa de Carol e de todos os outros, o policial passou a rir, parecendo realmente se divertir. Aquela cena ficava ainda mais chocante e perturbadora com a quantidade de sangue no rosto de Grimes.
— Você ainda não entende. Nenhum de vocês — falou Rick, enquanto Carol ouvia ao longe poucos errantes batendo nos muros de Alexandria.
— Nós sabemos o que precisa ser feito, e o fazemos. — O policial gesticulava com a arma em mãos, perigosamente.
— Nós somos os que vivem! — Grimes apontou com a arma para si mesmo e para alguns de seu grupo, inclusive Carol, que apenas observava, acariciando os cabelos de Sam para tentar acalmá-lo.
— E vocês? — O policial riu com escárnio.
— Já vocês só ficam aí sentados, planejando e hesitando! Fingem saber como é, mas não sabem de nada... Vocês queriam que as coisas não fossem como são, vivem em um mundo de fantasia! — acusou o homem.
— Querem viver? Querem que esse lugar continue de pé? Então saibam que o modo de vocês de agir não existe mais! As coisas não melhoram porque vocês simplesmente querem! — Grimes voltou a apontar a arma para Deanna, parecendo duvidoso sobre puxar o gatilho ou não.
— A partir de agora, vamos viver no mundo real. Precisamos controlar quem vive aqui — ordenou o policial, mantendo a mira na líder de Alexandria. Carol apertou Sam ainda mais contra si.
— Isso nunca foi tão claro para mim quanto agora, vendo você — retrucou Deanna Monroe, olhando com desprezo para Rick, ajoelhado como um louco ensanguentado no asfalto.
Carol viu Rick arregalar seus olhos azuis, parecendo incrédulo.
— Eu? Eu? — Grimes gargalhou quase com histeria.
— Você está falando de mim? O seu modo de agir é que está destruindo este lugar! Matará pessoas... Já matou. Matou seu filho Aiden! — acusou ele novamente.
— Mas eu não vou ficar parado deixando isso acontecer. Se vocês não lutarem, vão morrer — Rick continuava seu discurso enlouquecido — não vou ficar parado... — De súbito, Carol viu Michonne aproximar-se discretamente do policial, pelas costas, e o desacordou em um único golpe agressivo.
A multidão encarou a outra policial com olhos surpresos. Muitos pareciam apavorados, outros apenas chocados, e outros até mesmo constrangidos, como era o caso de Carol.
Ela olhou para Jessie, depois para o corpo desacordado de Pete, e por último para Rick, desmaiado no chão. Viu que Carl encarava o pai com um rosto que demonstrava desapontamento, mas, ao mesmo tempo, empatia. Michonne, ao lado do garoto, logo o puxou pelos ombros, levando-o para longe.
Glenn, Mavelle, Tobin e Abraham se aproximaram de Deanna que rapidamente pronunciou aos habitantes da comunidade que Rick precisaria ser mantido em algum lugar para que pudesse se acalmar. Suas ações haviam sido impensadas, e ele precisaria de tempo para refletir e se recuperar.
Moradores de Alexandria rebateram aquela proposição, querendo alguma explicação para o que ocorrera, para aquele surto. Alguns inclusive exigiram punição, ao passo que Glenn, Maggie e Abraham defenderam Rick, dizendo que aquilo fora apenas um descontrole momentâneo.
Carol, tendo de se manter em seu papel discreto, não pôde dizer palavra. Apenas levou Sam até sua mãe, que, amparada por Rosita, limpava um pouco de sujeira que se acumulara em seu rosto quando caíra bruscamente no chão pela violência de Pete.
Jessie a agradeceu por ter cuidado de seu filho, e Sam lhe deu um abraço antes de se afastar dela. Enquanto isso, Abraham e Glenn carregavam o corpo de Rick para uma casa onde seria mantido, e Michonne os guiava para tal local.
Decidida a voltar para sua casa e esperar as coisas acalmarem até poder conversar com Rick e orientá-lo melhor, Carol segurou suas emoções e voltou para sua residência, pensando em cuidar de Judith por algum tempo.
Ao chegar à varanda de entrada de sua casa, entretanto, uma presença inusitada ali se encontrava.
— Eu sei o que vocês pretendem — Annie Guinness falou, sentada no banco da varanda.
— Do que está falando Annie? Se me dá licença, estou cansada, preciso entrar um pouco — Carol respondeu sonsamente, enquanto Annie se levantou e impediu sua entrada, parando na frente da porta.
— Eu já te conheço. E conheço também Rick — a avó de Mavie continuou, seu olhar penetrante firme nos olhos claros de Carol — sei como funcionam as estratégias de vocês, e não vou me meter enquanto isso não ameaçar a segurança da minha neta. Nem de Peggy — acresceu ela.
Carol continuou em silêncio, levantando uma sobrancelha e respirando cansada. Era isso mesmo que estava ouvindo? Aquela velha tentava ameaçá-la?
— Se você nos conhece, sabe que não somos suicidas, Annie. Não sei o que significou esse destempero de Rick, mas ele vai se recuperar. Passamos por situações piores, como você sabe — complementou Peletier, com sarcasmo.
— É melhor que nada de ruim aconteça aquele garoto — Guinness se referiu ao filho de Jessie, Carol sabia — ou vou ser obrigada a começar a me meter também.
— Não tem com o que se preocupar — Carol revidou, a ira crescendo dentro dela. Porém, conseguia manter sua frieza ímpar.
— Você já sabe que procuro o melhor para o meu grupo, sempre. Sou perita em cuidar dos meus — adicionou ela.
— E, para o seu próprio bem... Espero que queira continuar inclusa nesse grupo — disse Carol Peletier com um sorriso cínico exemplar. O olhar de Annie vacilou por um instante, e Carol quase trombou ombro com ombro contra a idosa, para entrar em sua casa.
Em seguida, fechou a porta com um estrondo.

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