Hunter's Instinct

36 Episódio 36 - Homo Homini Lupus


Notas iniciais
Boa noite, meu pessoal amado! Venho, com um mero dia de atraso, com mais uma atualização em Hunter's Instinct! Esse capítulo está grandinho, também, pudera, tem quatro POVs... E todos caprichados! Começamos com Billy Ray, e Tucker revelando bastante sobre o que sabe a respeito do Exército de Wyoming County e o que conhece dos Wolves. Depois temos um POV totalmente político e repleto de intrigas e confrontos a la House of Cards do Rick (HAHAHAHAHA), para depois termos um POV inédito: Michonne is in the house, rapaziada! Espero que eu tenha mandado bem escrevendo sobre ela. E, para fechar, um POV da Esquila mais amada de todas as fanfics, nossa querida Mavelle! Esse capítulo tem drama, mistério, suspense, politicagens pra caramba, discussões, debates... Tá recheado de muitas coisas diferentes, e tem até um flashback do Rick com a Lori! Tem de tudo, minha gente! Espero que gostem. Quero agradecer aos leitores Luna Miller, Rosie Santana, Vivi Costa, Anna L, Thaaty, Hamitt, Filho de Kivi, Giovana Catalani e marcelammota, meus muito queridos leitores que sempre marcam presença nos reviews! Devo sempre reiterar o quanto Hunter's Instinct avança firme e forte GRAÇAS A VOCÊS! É sério, tenho de escrever em caps lock para que saibam disso... Na minha opinião, a fic é um trabalho em conjunto: do ficwriter, de escrever, e dos leitores, de incentivá-lo a continuar, a melhorar, e perseverar! Por isso, H.I. é minha, mas é de vocês também. Dedico esse capítulo ao leitor Filho de Kivi, que passou por uma tristíssima perda recentemente. Sabe que tem todo o meu apoio, meu amigo, pode contar comigo para desabafar sempre. Espero que gostem! Beijos e boa leitura!

[DOIS DIAS ATRÁS]

Em meio a noite escura de outono, três sobreviventes solitários conversavam aos murmúrios junto a uma picape redneck na estrada abandonada. Perto das montanhas fronteiriças a West Virginia, nada se escutava além dos rumores do vento nas folhagens e das vozes abafadas daquele trio esquisito.

— Vocês realmente estão querendo me foder... — Tucker abaixou os olhos para o chão, enquanto sacudia a cabeça com vigor.

— Ah, não, docinho... Se eu quisesse fazer isso, teria ameaçado colocar esse taco em outro lugar! — Becky deu uma risada escandalosa, enquanto fazia um movimento simulando o gesto obsceno a que sua frase remetia.

Billy Ray pigarreou. Tanto Rebecca quanto o rapaz olharam em sua direção.

— Olha aqui, seu fedelho. Já te dei a chance de falar por bem. Você vai acabar dizendo o que tem para nos contar, quer você queira ou não... Então vou abrir o jogo com você. Nem adianta ficar nesse seu teatrinho de bicho carpinteiro* não — alertou Billy, usando suas expressões do interior.

Tucker olhou para Becky, levantando uma sobrancelha.

— Esse cara é assim mesmo, na real? — perguntou o sujeito debochado com ar arrogante.

— Se é — respondeu a garota loira, dando a Billy Ray um olhar significativo. Parecia encará-lo com admiração genuína. Billy ainda não tinha entendido como conquistara a afeição daquela garota.

Billy Ray não esperou. Chutou as costelas do rapaz prepotente, que se curvou para o lado soltando uma exclamação de aguda dor.

— Eu não sei qual é o medo que você tem desses seus amiguinhos. E dessa tal “matilha” que anda rondando por aí — troçou o sulista do Alabama — mas o seu único perigo real aqui somos eu e ela. — Apontou para Rebecca, que abriu um largo sorriso perverso para o rapaz. — Nós estamos armados, e sobrevivemos por todo esse tempo porque sabemos como fazer isso... Tanto quanto esses seus amiguinhos — ameaçou.

— Acho que o certo é “alcateia”, já que, como está escrito aí, “W is for wolves” — corrigiu-o Rebecca. Billy lhe deu um olhar de reprimenda, indicando para que ela ficasse quieta. Becky levantou as sobrancelhas e mudou o bastão de posição, ajeitando-o junto ao ombro esquerdo.

— Acreditem em mim. Vocês não são páreo para esses caras — afirmou Tucker, depois de analisar os dois com olhos desdenhosos.

Becky não esperou mais. Brandiu o taco de baseball como se fosse uma espada, e acertou um golpe certeiro na virilha do rapaz. Ele sequer teve tempo de tentar esquivar-se, e logo soltou um urro de dor.

— Você só deveria fazer isso se ele estivesse com a boca tapada! — queixou-se Billy Ray, indicando Tucker com as mãos, que agora se movia para frente e para trás pela aflição intensa do golpe. Billy estudou as cercanias, vendo se nenhum morto-vivo estava à espreita.

— Oops! — Becky arregalou os olhos. Billy Ray meneou a cabeça e rangeu os dentes, tentando acabar logo com aquela cena ridícula e dar-lhe algum sentido.

— Chega! Foda-se, se vocês querem saber tanto assim, eu conto... Não é como se algum de nós fosse realmente conseguir sair dessa vivos mesmo... — resmungou Tucker, ainda arfando pela dor.

— Comece pelo começo. E para te facilitar a vida, eu te indico qual é — começou Billy Ray, agachando-se perto do rapaz caído ao acostamento da rodovia.

— Eu e ela fomos seguidos por esses seus coleguinhas. Os Wolves. Esses que colocam W na cabeça dos carniceiros — blefou Billy, tendo porém quase certeza de que tinha um palpite infalível.

Os olhos de Tucker modificaram sua expressão subitamente. Billy Ray soube, enfim, que tinha acertado.

— Espera um pouco... Aqueles monstrinhos com o W na testa... — Becky parecia finalmente compreender, deixando claro que a afirmação de Billy não passara de mera suposição, mas o rapaz com cara de drogado a interrompeu.

— Parabéns, gênios — Tucker provocou novamente, contudo, encolhido para não ser atacado em certas áreas de seu corpo outra vez — deduziram certo.

— Eu acho melhor você guardar a sua língua para responder apenas o que eu te perguntar — advertiu-o Billy — somos bem criativos não só para deduzir fatos, mas para inventar formas de te machucar — disse o sulista do Alabama cruelmente.

Tucker respirou fundo, e baixou mais uma vez o rosto, tentando se controlar.

— Esses seus parceiros tentaram nos matar com esse bando de carniceiros. Mandaram eles para cima de nós, e depois picaram a mula. Por qual razão você e o seu... Seu Exército têm relações com essas pessoas? Vocês são essas pessoas?

O rapaz limpou a garganta e inspirou lentamente.

— Não somos essas pessoas. Não eu, pelo menos. E não meu... Meu... — olhou para Billy e Becky, procurando a palavra.

— Esquadrão? — tentou o rapaz.

— Parece coisa de HQs — brincou Becky, e Billy a calou com um olhar.

— E o que você e o seu “esquadrão” fazem? Além de incendiar cidades? — indagou Billy Ray, com deboche óbvio.

— Ninguém me avisou disso — falou Tucker, adotando uma expressão sincera — juro. Não fazia a menor ideia de que queimariam tudo depois — garantiu.

— Não foi o que eu perguntei — insistiu Billy Ray, retirando uma faca de caça de seus bolsos. O jovem olhou para aquilo e se afastou alguns centímetros.

— Ok, ok! — Tucker parecia exaltado, sua bochecha tremendo em um tique nervoso. Enfim Billy conseguira o respeito do moleque. — Continuando: minha função no Exército não é a de soldado propriamente dita... — Engoliu em seco.

— ...Eu sou uma espécie de funcionário, apenas, e obedeço como todos as ordens de Hashimoto. É quem nos lidera, quem organiza toda a... Fundação. O ideograma japonês que colocamos nos folhetos de recrutamento que vocês arrancaram... Tiraram da minha mochila, significa “Hashimoto”. Somos muito metódicos — esclareceu o homem de vinte e poucos anos.

— E que diacho você estava fazendo em Oakland? — repisou Billy.

— Eu estava com um grupo de elite. O pessoal mais qualificado para o combate, para fazer minha segurança. Minha função em tese era a de arquiteto, vamos dizer assim. Eu ajudei a montar a infra-estrutura da nossa base — acresceu o rapaz — e me levaram para cá para avaliar novas áreas de construção. Bons terrenos. De vez em quando sou indicado para missões assim, mas não achamos até agora nada melhor que nosso lugar em Wyoming County — contou Tucker.

— Sei, arquiteto... Pra cheirar o pó das obras, só se for — zombou Billy Ray, fazendo Rebecca dar outra gargalhada histérica. Tucker não se moveu, apenas deu um sorriso enviesado, provavelmente controlando-se para não dar uma resposta atravessada.

— Se duvida de mim, olhe de novo a porra do caderno. — O rapaz indicou com o queixo para as anotações nas mãos do sulista do Alabama.

Billy Ray continuou encarando o jovem por longos momentos de tensão. Em seguida, Rebecca puxou de suas mãos o caderno e começou a folheá-lo.

— Sabe, chefinho — falou ela em tom de brincadeira — até que parece verdade. — Becky mostrou ao homem moreno os desenhos de plataformas complexas, e outras plantas de construção.

— E os Wolves... — Billy trouxe o interrogatório ao ponto relevante outra vez.

— São uns sujeitos malucos, anárquicos... Meio sem regras. Instáveis. Acho que Hashimoto ousou demais ao negociar com eles. Não parecem ser do tipo que aceitam barganhas e tratados — elucidou Tucker, torcendo o nariz enquanto falava.

— E o que o tal de Hashimoto ajeitou com eles? — Billy Ray controlava a respiração agora que chegava ao cerne da questão.

— Eu não sei. Eu sou só o arquiteto — disse o jovem de cabelos castanhos claros, olhando para os dois com feições sérias.

Becky bocejou falsamente, enquanto empunhava o taco mais uma vez. Tucker se encolheu todo, e fechou os olhos franzindo as sobrancelhas com tamanho esforço que começou a suar.

— É verdade! Eu não sei. Só sei que eles usam rastejantes em seus trabalhos. Conseguimos alguns com eles, para cercar nossa base. Só sei disso, eu juro, porque foi o que eu vi, cara — informou-os o rapaz.

— Bem, um dos trabalhos que esses lobos filhos da puta ganharam foi o de tentar nos matar — retrucou Billy, afiando a faca de caça — talvez a gente tente tirar a diferença com esse seu chefe... Jogando o seu cadáver com um W na testa por cima dos muros da sua casa. — Billy aproximou a faca do rosto do sujeito arrogante.

A bochecha direita de Tucker tremia novamente.

— Não vai adiantar. Se chegarem perto de Wyoming County, não vão ter outra opção. Vão ter de se juntar ao Exército — garantiu o rapaz, olhando de soslaio para a faca muito próxima de seu maxilar.

— E se eu quiser ser uma soldada? — retorquiu Becky, fazendo uso do termo errado. Billy não soube se era proposital ou um erro legítimo.

— Não faz o estilo de vocês — disse Tucker com um sorriso amarelo.

— Agora o moleque acha que nos conhece... — Billy Ray abafou um riso cruel. Becky sorriu de forma sádica outra vez, rondando o rapaz enquanto movia periculosamente seu bastão de baseball.

— Olha, vocês querem sinceridade? Eu prefiro tomar porrada no saco até ele estourar numa bolsa de sangue do que virar a vadia daqueles caras! E é o que vai acontecer comigo se descobrirem que contei tanto para vocês. — Tucker os fuzilou com seus olhos azuis cintilando de medo.

— Eu queria sair daquele lugar. Queria mesmo. Não entrei lá por minha própria vontade. Mas uma vez dentro, não tem escapatória. Não vivo, pelo menos — asseverou o rapaz — estava pensando em uma fuga. Bolando uma, que fizesse parecer que eu morri, que tinha sido devorado. Ia colocar em prática com esse grupo mesmo, mas vocês me acharam primeiro. — Tucker os olhou com desprezo. — Muito obrigado — debochou.

Billy Ray deu-lhe um soco forte no maxilar. Os dentes de Tucker trincaram, e ele voltou o rosto para o lado e cuspiu um pouco de sangue pelo corte formado em seu lábio superior.

— Eu falei para ser educado — debochou o sulista do Alabama.

— E por que você queria sair de lá? — o homem moreno retornou a perguntar.

— Porque eles... Porque Hashimoto é doente. Doente de verdade. Essas pessoas desse Exército vão herdar o mundo, uma hora ou outra, e eu espero ter morrido antes disso acontecer. Não quero viver na... Na sociedade que eles querem construir — certificou o rapaz, parecendo agora assustado.

— O que eles querem? — Becky também mostrava uma curiosidade espantada.

— Construir uma sociedade, com todos os sobreviventes que sobraram... Onde tudo o que vale é a lei do mais forte. Caçar, para não ser a presa. Matar, para não ser morto. Tudo o que não tem uma utilidade dentro de um mundo predatório é para ser jogado fora. — Tucker encarou Billy com uma sombra em seus olhos azuis. — O que aconteceria comigo, uma hora ou outra.

— Cace ou seja caçado... — Rebecca comentou, parecendo refletir.

— Isso me lembra algo que eu já ouvi antes — Billy recordou-se de Jed Freeman e seu autoritarismo disfarçado de gentileza.

— E vocês... Sem ofensas, falando na boa... Vocês podem estar me sacaneando, mas não são páreo para eles. Essas pessoas... Elas não tem um... Como se diz... Código de ética como antigamente. Se estivessem no lugar de vocês, fazendo o que vocês estão fazendo, eu já estaria morto, e teria sido torturado como se fosse uma mosca, um nada — segredou o rapaz.

— Você torturou alguém? — Billy Ray perguntou, sua faca perigosamente a postos.

O ombro de Tucker tremeu involuntariamente.

— Não tive escolha — defendeu-se o jovem.

— Não, você teve... Mas fez o mais fácil. — Billy guardou a faca no bolso. — Eu sei como é — o homem do Alabama troçou de si mesmo.

— Eu sinto muito, Tucker — disse Billy Ray, ainda com deboche — mas não é hoje que você vai fugir de Wyoming County.

— O quê... Você não ouviu nada do que eu falei?! — O rapaz parecia indignado, se remexendo no chão.

— Ouvi muito bem. E é por isso mesmo que não tenho outra escolha a não ser tirar a prova. — Olhou para Rebecca.

— Concorda? — indagou o homem moreno.

— Você é que sabe, chefinho — troçou a jovem loira — confesso que gosto de adrenalina! — Becky riu consigo mesma e lançou um olhar zombeteiro para Tucker. Fingiu que ia atingi-lo com o bastão outra vez, ao passo que o rapaz se retraiu de imediato, levando-a as gargalhadas.

— Se forem para lá, não tem volta. Eles vão saber que vocês sabem. Vão matá-los por terem ido parar lá porque eu desobedeci as ordens. E vão me matar também. De um jeito tão doloroso que vocês não podem nem imaginar — assegurou-os o jovem de aparência largada, enfatizando cada palavra.

— Sabe como é o ditado, temos de tentar... Um dia da caça, outro do caçador — Billy Ray consolidou, enquanto dava a Becky um olhar cúmplice. A excêntrica loira sorriu com alegria lunática, enquanto o sulista do Alabama arrastava um apavorado Tucker para o carro.

Ao longe, coincidentemente, um lobo uivava em meio à mata fechada.

*****

[DOIS DIAS DEPOIS, DURANTE A TARDE]

— Acho que começamos agora a soar redundantes — disse Deanna Monroe, de pé defronte a uma mesa na qual se sentavam Michonne e Maggie.

As duas mulheres a encaravam com perfis observadores, enquanto Moritz, o ex-palhaço de circo, estava de pé, apoiando-se no batente de uma lareira da sala de visitas da líder de Alexandria. Annie Guinness, a avó de Mavelle, sentava-se em uma poltrona estampada em formas coloridas, enquanto Rick Grimes compunha-se como o último membro do grupo debatedor.

— De que maneira? — logo questionou Maggie Greene, suas mãos postas sobre a mesa. A jovem mulher tinha de se sentar afastada da madeira, uma vez que sua gravidez já pronunciada a impedia de se aproximar mais.

Quase cinco meses de gravidez... Pensou Rick Grimes, seus olhos perdidos na barriga da moça, não realmente a enxergando. Memórias distantes passaram a enevoar seus sentidos, levando-o para uma pequena cidade da Georgia, mais especificamente a uma casa de classe média com cheiro das bergamotas do quintal modesto.

[...]

— Rick, você não precisa trabalhar dois turnos seguidos — Lori pedia, sentando-se no sofá que haviam ganhado de seus pais que tinham se mudado para Atlanta.

— Querida, não há outra escolha. Não vou poupar despesas para você... Para o Little Guy — retorquiu Rick, referindo-se a seu filho ainda não nascido. Enquanto o dizia, massageava os pés da esposa, que se esforçava para se sentar da forma correta para sua postura, conforme o marido a auxiliara.

— Acho que é hora de parar de chamá-lo assim. Sinto como se fosse um apelido de algum serial killer da região — debochou Lori, soltando uma risada dolorida pela aflição na coluna gerada pela nova formação de seu corpo durante a gravidez.

— É, acho que tem razão — Grimes concordou, rindo junto com sua companheira. Enquanto acariciava seus pés cansados, parou para olhar seu rosto, como já fizera tantas outras vezes.

Aqueles mesmos olhos castanhos de corça que o seduziram quando ela não passava de uma menina ali se mantinham. Os mesmos cabelos também castanhos, que luziam como bronze ao sol.

Aquele sorriso largo... A mesma mulher por quem se apaixonara.

Como tivera tanta sorte? Rick se perguntava a mesma frase inúmeras vezes. Não conseguia acreditar. Encontrara a mulher de seus sonhos, a profissão de seus sonhos, a casa de seus sonhos... Era um homem realizado, e mal tinha anos de vida condizendo com tamanhos objetivos concretizados.

— Eu gosto de Carl — sugeriu Lori, seus cílios longos e volumosos batendo de forma charmosa enquanto dava a entender de forma discreta para o marido que era aquele o nome que escolhera para a criança em seu ventre.

— Carl é ótimo — anuiu Grimes outra vez, apertando de forma delicada os músculos do pé de sua linda mulher.

Lori apenas balançou a cabeça, sorrindo de forma mais sutil. Passou uma das mãos pelos seus cabelos, e falou:

— Baby... — ela começou — ...você sabe que eu te amo muito?

— Eu sei — Rick respondeu, abaixando os pés da esposa com suavidade.

— Eu te amo demais. Você e o Little Guy Carl — acrescentou Grimes, brincando, enquanto Lori lhe dava uma palmadinha brincalhona no braço esquerdo, ao passo que ele se aproximava da esposa e a enlaçava pelos ombros.

— Você é o centro do meu mundo, sabia disso? — Rick falou, enquanto acariciava o rosto da esposa. Grimes não sabia como podia ter vivido anos de sua vida sem a companhia daquela mulher. Amava-a mais do que tudo.

— Eu sei — Lori beijou seus lábios.

— Você é mesmo um pobre coitado — troçou ela com bom humor, enquanto Rick lhe fazia cócegas nas costelas, e ambos riam juntos.

[...]

— ...Estamos conversando há horas e não chegamos a uma resolução — continuou Deanna, enquanto Rick ainda mantinha o olhar perdido no suéter de Maggie, na altura de seu ventre.

— São as desvantagens da Ágora** — brincou Moritz, fazendo alguma referência desconhecida.

— Deveríamos votar por alguma das colocações? — Maggie deu a ideia, passando os dedos por seus cabelos castanhos escuros.

— Se for da vontade geral, não me oponho — falou Deanna, caminhando para perto de Rick, que enfim modificou o rumo de seus olhos — mas ainda acho que é desnecessário. Nosso sistema é funcional. Vocês dois são nossos aplicadores da Lei, e a própria presença de vocês é indutiva o suficiente — asseverou ela, de forma ingênua demais para o policial.

— Quer dizer que nossas jaquetas convencem todo mundo? — Michonne disse um tanto incrédula.

— É o que tem sido demonstrado — insistiu a líder da comunidade.

— De qualquer jeito, não há como negar que eventos... Desafortunados, aconteceram recentemente. Precisamos estar preparados para lidar com eles... Se for necessário, investigá-los — Michonne se referiu a morte de Aiden e Tejas com o máximo de delicadeza que conseguiu.

— Nós já temos a base para as investigações. Quando eu tiver estudado suficientemente os depoimentos de Glenn, Mavie e Nicholas poderei passá-los a vocês — disse a mulher loira com autoridade. Parecia se esforçar para controlar algum tipo de emoção reprimida. Rick percebia como ela parecia abatida.

— Eugene não se manifestou? — perguntou Maggie.

— Não estava presente na hora que... Que aconteceu — complementou Deanna, com tristeza contida.

— Se me permitem dizer algo sobre isso, e digo com todo o respeito, acho que não é com esse caso que devemos nos preocupar — sustentou Moritz. A sala toda parou para encará-lo.

— Acho que não podemos negar que temos de nos preocupar mais com possíveis ameaças externas, como Rick sempre defende — o ex-palhaço moveu a mão para apontar o policial — do que com situações já passadas. Temos de estar preparados para lidar com fortuitos externos. Acho que é esse o termo legal, policial? — perguntou o homem educado.

— Entendo o que quer dizer — Annie se prontificou — mas acho que todos deveríamos ter acesso a estes vídeos. Todos nós que... Compomos algum tipo de função política aqui — completou a idosa.

— Não vejo, nesse caso, como sendo relevante. Todos os remanescentes concordaram que foram mortes acidentais. Acho que os testemunhos bastam — defendeu o circense.

— Se formos nos basear sempre em testemunhos apenas, abriremos precedentes para... — Annie já se preparava para retrucar, mas Rick a interrompeu.

— Estamos perdendo o ponto aqui. Marcamos esta reunião para debater o que são... O que serão os códigos, os respaldos legais de Alexandria. E não vejo outra forma de fazer isso que não do jeito mais prático possível — afirmou Rick Grimes.

— O que quer dizer? — Deanna questionou, um brilho fulgurante em seus olhos enquanto encarava Grimes sem pestanejar. Rick percebia o quanto ela o estudava com afinco desde que passara a viver junto as suas leis e seu território.

— As pessoas têm de saber o que as esperam se saírem da linha — o policial foi duro e certeiro — se você quer governar uma comunidade próspera, que sobreviva no novo mundo, as pessoas têm de saber como se encaixar nele — Grimes não fez rodeios.

Annie ajeitou o casaco que usava, enquanto Maggie cruzava os dedos das mãos. Michonne encarava Rick com cautela, e Deanna mantinha o mesmo olhar fuzilante na direção do policial.

— Vigiar e punir? — acresceu Moritz, com um sorrisinho curvo.

— Não. Nada tão elaborado quanto às teses de Foucault sobre as prisões — rebateu Grimes, já um tanto cansado da pompa do ex-palhaço.

— Quero propor algo mais rudimentar, porém necessário em situações limites — perdurou o policial em sua posição rígida.

— O mundo lá fora é... É barbárie. Não há leis além das leis da selva; apenas o mais forte, o mais adaptado sobrevive. Não há dúvidas de que, para este lugar se manter — Rick apontou ao redor da sala — precisamos ser realistas quanto ao que nos espera lá fora — ele fez uma pausa.

— Uma hora isso vai chegar batendo em nossas portas — garantiu o policial, soando desconfortavelmente agourento.

— Não vamos inventar uma “Lei de Talião” por aqui. Nada de olho por olho, dente por dente — Deanna foi sucinta, cruzando os braços.

— Não é bem isso — persistiu Rick, ficando um tanto irritadiço.

— O que é, então? — Michonne questionou. Até mesmo ela parecia incomodada.

— Acho que temos de adotar penas severas — sentenciou o policial.

— Não há cadeia por aqui, caso não tenha reparado — debochou a idosa irlandesa, dando a Grimes um olhar descrente.

— Não. Mas temos armas. Temos terrenos. Temos condições de nos preparar e nos guarnecer para o novo mundo. — O xerife se posicionou mais próximo de Deanna.

— Temos de treinar essa população. Ensiná-los a manejar armas, a vigiar os portões, a rondar os terrenos. Temos o espaço, temos os instrumentos, temos inclusive o pessoal capacitado. Antes de engravidar, Maggie era uma de nossas mais exímias combatentes contra errantes, Michonne nem se fala. Salvou minha vida tantas vezes que sou incapaz de contar.

— Vocês dois — Rick olhou para Annie e Moritz — também sabem atirar, foram capazes de sobreviver na estrada por conta própria. Isso é mais do que fundamental hoje em dia — adicionou Grimes, enfático.

— Ele tem razão. As pessoas, ao menos os adultos, têm de saber um mínimo de defesa pessoal. Contra errantes, especialmente — confirmou Michonne, séria.

— É importante. Até mesmo para diversificarmos as funções e empregos dentro da comunidade — Maggie concordou também.

Ao ver Annie e Moritz analisando as propostas de Rick com certo ar convidativo, Deanna balançou o rosto como se negasse o que via.

— E de que forma isso envolveria criar novas penas e novas leis? — a governante perguntou.

— Simples. Uma questão lógica: com novos “bônus”, vêm novos “ônus”. Assim, com novas responsabilidades, punições de acordo com o peso delas — completou Grimes.

— Está falando de pena de morte? — Annie Guinness indagou, direta.

Um silêncio desagradável se ergueu na sala de visitas de Deanna Monroe.

— Sim. Condizente com a gravidade de seus crimes — finalizou Rick Grimes.

Maggie olhou para a mesa, silenciosa. Michonne apenas encarava Rick. Não parecia ter tomado uma posição. Annie estudava o policial com um olhar avaliador, ao passo que Moritz refletia.

Deanna chegou a uma conclusão e parecia resoluta.

— De jeito nenhum. Isso é impraticável — determinou a líder de Alexandria — nós vivemos em uma ordem democrática evoluída, não na era das cavernas. Não aceitaremos execuções — disse a governante, resoluta.

— Deanna, eu respeito seu pensamento. Eu já tentei viver assim. Nosso grupo já tentou viver assim, em diversos locais — insistiu o policial — mas a verdade é que nós vivemos exatamente na era das cavernas. Numa nova era das cavernas — Rick Grimes foi sincero.

O resto da sala fez silêncio. Todos pareciam observar o impasse entre a líder e o policial.

— Isto é uma sociedade, Rick Grimes. Uma sociedade fundamentada em princípios éticos e morais. É por isso que nos diferenciamos dos seres que andam lá fora. Se nossos códigos de conduta caírem, o que nos resta? — insistiu a utópica política.

— Pessoas vivas — retorquiu Rick, sem dó.

O clima de tensão entre aqueles indivíduos que compunham a “Ágora” de Alexandria apenas aumentou. Ninguém parecia ter o que dizer para pôr fim aquela dicotomia moral.

Até que finalmente Moritz falou.

Homo Homini Lupus... — disse misteriosamente o ex-palhaço — ou, como vocês devem conhecer, “o homem é o lobo do homem”, a expressão atribuída ao contrato social proposto pelo filósofo Thomas Hobbes — completou o sujeito de meia idade.

— Consigo compreender o ponto de vista de Rick — continuou Moritz — afinal de contas o tipo de governo que ele propõe ainda é um governo, por mais que rudimentar... E não necessariamente há de ser anti-democrático. Se a maioria for favorável — disse o ex-palhaço.

— A ideia de Estado surgiu quando um acordo foi necessário para se proteger algum tipo de ordem ante ao caos — falou Moritz — para evitar a barbárie, havia algo a regular os direitos de todos, resguardando suas necessidades iguais e instintos de preservação. Sem as leis rígidas a controlarem seus instintos predatórios, os homens matavam-se uns aos outros, indiscriminadamente — refletiu o homem grisalho.

— Lá fora, nós convivemos dia e noite com os nossos instintos mais primários, mais animais. Por mais que aqui tenhamos muros, energia elétrica, água encanada... Lá fora não é assim. E quem está lá não vive desse jeito. Somos um oásis no meio do deserto, e nesse deserto há mais gente com sede, que pode um dia nos enxergar — afirmou o policial.

— Eu conheço a filosofia de Hobbes — retrucou Deanna Monroe, certeira — mas a renúncia que a sociedade faz de sua liberdade individual pela ordem do Leviatã não finaliza a lei do mais forte — a líder argumentou — apenas a troca por outra. A lei do mais esperto, que pode subverter a rigidez das leis e autoritarismo do governo ao seu favor. — Ela encarou Rick com olhos fuzilantes. Era uma indireta.

— A lei do mais manipulador — acrescentou a governante, quase explícita.

— Não necessariamente — Moritz rebateu, levantando as sobrancelhas.

Rick falou antes que o homem de meia idade tivesse chance de contra-argumentar.

— As mesmas pessoas que elegeram o governante, que respondem as suas duras leis... Têm o direito de retirá-lo do poder se ele não for capaz de manter a ordem — disse Rick Grimes, com o olhar firme em Deanna.

Rick viu de esguelha Michonne respirar fundo, enquanto Maggie engolia em seco. Annie estava estática, e Moritz o encarava com olhos curiosamente divertidos.

— Acho que não vamos chegar a conclusão alguma por hoje, então. Tenho de cuidar de meus pacientes — Annie falou, levantando-se com um suspiro.

— Está tarde. Acho melhor mesmo finalizarmos por hoje — disse Maggie Greene, um tanto constrangida, sendo auxiliada a se levantar por Michonne.

— Sem dúvidas — Deanna afirmou, enquanto o grupo do “Conselho” de Alexandria se arrumava para sair de sua residência. Não parava de voltar os olhos para o policial, e o xerife podia ler em seus orbes o que ela pensava.

Rick deu-lhe as costas, por fim, assim que vira todo o grupo saindo pela porta da frente, sentindo os olhos de Deanna Monroe em si como se o apunhalassem.

Ao caminhar pelos jardins de Monroe até alcançar os túmulos meramente simbólicos de Aiden e Tejas, Rick já sabia qual seria sua próxima tarefa. Já dera o aviso para Deanna. Contestara a mulher abertamente na frente das outras pessoas envolvidas com a gerência política da comunidade.

Aquela governante não era a líder que Alexandria precisava. Rick sabia disso desde que pusera os pés naquele lugar, e não hesitaria em fazer o que seria necessário.

Derramando sangue, ou não.

— Rick — A voz de Deanna se fez ouvir, enquanto a mulher saía por trás de uma das árvores dos jardins onde havia o cemitério de Alexandria.

— Acho que tenho de deixar algo muito claro aqui — afirmou, ao passo que caminhou até ficar frente a frente com Grimes.

— Não vamos executar ninguém. Não tente sugerir nunca isso de novo — complementou a mulher, decidida — esse tipo de pensamento não pertence a este lugar — ela ameaçou Rick implicitamente.

— As pessoas morrem agora, Deanna — o policial a cortou, sem paciência — elas morrem. — Grimes deu mais um passo para perto dela.

— Em tempos como esse, você pode escolher quem e quando. — Encarou-a por todo o tempo.

— Ou isso pode ser decidido no seu lugar — Rick Grimes a desafiou, e soube.

Não havia mais volta.

*****

De tudo o que pudera interpretar daquela reunião repleta de tensão, o principal não lhe escapou.

Michonne compreendera que Rick se preparava para tomar Alexandria. Quando e como eram questões de tempo. Mas não havia forma do policial ter deixado aquilo mais claro do que contestando Deanna abertamente e até mesmo propondo sua renúncia nas entrelinhas, como ele o fizera.

Enquanto fazia a vigia da tarde pelos muros de Alexandria, a mulher se preocupava mais do que com seu amigo.

Preocupava-se com como aquilo poderia contribuir ou atrapalhar a segurança de Judith... A segurança de Carl.

Cada dia mais próxima da família Grimes, Michonne já se sentia de certa forma responsável por eles. Por mais astuto, decidido e habilidoso líder que Rick fosse, seu temperamento não era dos mais confiáveis. Ela já o vira tendo alucinações e perdendo completamente as estribeiras, e temia que aquilo estivesse próximo de acontecer de novo.

Aquela conversa hostil com Deanna demonstrara que seus ânimos estavam exaltados. E o que quer que ele fizesse, haveria consequências para quem dependia dele... Muito mais do que para o grupo que ele trouxe para dentro dos muros da comunidade pacífica, as consequências atingiriam seus dois filhos.

Crianças por quem Michonne veio a ter um apreço imensurável.

Com seus instintos maternos mais uma vez alertas, a mulher se perguntava onde Carl teria se metido. O garoto andava esquivo nos últimos dias, ao passo que Judith era constantemente vigiada e cuidada por inúmeras pessoas apaixonadas pela bebê charme de Alexandria.

Tendo um palpite de onde poderia encontrá-lo, a sobrevivente olhou para os lados, verificando que estava de fato a sós. Em seguida, escalou com habilidade os muros da comunidade e passou a procurar pelo filho de Rick nas adjacências.

Em cerca de meia hora o encontrou. Como imaginava, o garoto tentava viver o que poderia ser um suspiro de adolescência naquele mundo doentio... Quebrando as regras, fora dos limites de Alexandria... Na companhia de uma garota.

Enid era o nome dela, Michonne se lembrou, enquanto se escondia por trás de algumas árvores e os vigiava para ter certeza de que não havia nenhum perigo por perto.

Em silêncio e completamente escondida pelas folhagens, mimetizando-se em meio a vegetação, a mulher mantinha-se alerta, sondando os locais próximos para garantir a segurança dos dois.

Foi quando Carl e Enid, sentados próximos a um tronco no qual a garota morena escrevia algo com sua faca que Michonne não conseguira ler, subitamente se levantaram. Ouviram o barulho depois que a habilidosa sobrevivente já o havia escutado.

Errantes estavam por perto.

Os dois mal tiveram tempo de se esconder em um tronco largo de árvore, em uma situação íntima que Michonne não realmente pretendia interromper, quando a espadachim surgiu em meio aos arbustos cortando as cabeças e espetando errantes que se aproximavam, famintos pela carne dos adolescentes.

A expressão que fizeram ao vê-la, arfante depois de ter eliminado cerca de dez mortos-vivos sozinha em poucos segundos, fora impagável. Ela teria rido, se Carl imediatamente não tivesse mudado suas feições para um semblante que revelava incômodo profundo.

Enid afastou-se dos dois, apenas falando um quase mudo “sinto muito” para a espadachim e voltando pelo caminho que a levaria para Alexandria.

Carl aguardou um pouco, para enfim sair do tronco e segui-la em silêncio, em retorno à comunidade.

— Não queria cortar seu barato, mas essa ideia de vocês não foi muito inteligente — a mulher o repreendeu com delicadeza.

— E o que você tem a ver com isso? — o filho de Rick reclamou, mal olhando-a nos olhos.

— Hey! Eu salvei vocês! — Michonne o puxou pelo braço.

— Obrigado — disse o garoto com sarcasmo evidente, se desvencilhando. Ela se pôs na frente dele.

— Você tem de me respeitar, garoto — ratificou a espadachim.

— Eu respeito. Respeito seu trabalho aqui. Respeito você — disse Carl, enquanto levantou os olhos para ela.

— Mas não tente ser quem você não é. — O filho de Rick parecia julgá-la.

— O quê?! — a espadachim questionou, irritada com aquela prepotência adolescente.

— Você não é minha mãe — Carl a cortou, virando-lhe as costas, dando-lhe um último olhar desconfortável... E significativo.

Michonne passou algum tempo sem reação, guardando a espada em suas costas. Olhou os cadáveres que havia acabado de destroçar, e, quando ouviu os passos do garoto se afastando...

Esmagou um crânio, desprendendo sua raiva.

*****

Faltam só quinhentos metros.

Mavelle pensou, enquanto sentia seu corpo suando em bicas dentro do suéter cinza que usava, e as calças leggings escuras que colocara para correr.

Aprendera aquela atividade para ter condicionamento físico para as caçadas que fazia com seu pai. Quanto mais longe, quanto mais tempo corresse, mais resistência teria, mais tempo aguentaria perseguir animais e mais rápido os alcançaria.

Ao longo dos anos, Mavelle percebera como a corrida era uma atividade tanto cansativa quanto maravilhosamente recompensadora. Cada gota de suor, cada músculo extenuado significava o esforço tremendo que seu corpo fazia para se concentrar naquela tarefa exaustiva, evitando que se focasse em qualquer outra coisa que não o movimento de suas pernas, braços... E o caminho, sempre à frente.

Sem olhar para trás.

Sem pensar.

Sem sofrer.

Durante a infecção dos Frankies, descobrir-se uma excelente corredora fora mais do que gratificante para ela. Capaz de aguentar longas caminhadas e fugas que tirariam o fôlego dos mais sedentários ou despreparados, ela tinha a vantagem de um ótimo condicionamento físico.

E de ser capaz de fazer um exercício que a ajudava a esquecer de todos os seus problemas... E de todos os seus medos.

Enquanto corria, estava livre. Livre do peso daquela vida, livre do horror do caos dos mortos-vivos, livre da morte sempre a espreita... Livre de seus pensamentos, do constante pavor de lidar com a realidade de perder pessoas queridas.

Ao completar os quinhentos metros restantes para correr cinco quilômetros, um treino mediano, Mavelle segurou-se em um dos postes em uma das ruas de Alexandria, arfando em suspiros cansados.

Recuperou aos poucos o fôlego enquanto caminhava, ajeitando o rabo de cavalo despenteado e desligou o Ipod que pegara emprestado com Eric, o namorado de Aaron. Ouvira muitas canções country e de classic rock enquanto corria, e já atravessava uma das praças de Alexandria, para alcançar a casa dele e devolver-lhe o tocador de música.

Caminhando devagar para acalmar sua respiração e batimentos cardíacos, a jovem irlandesa atravessou uma ponte que havia em meio ao lago daquela praça, e julgou ter escutado, ao longe, uma voz feminina conhecida.

Aguda, soltando risadinhas controladas... Um som que ela não vira a detentora daquela voz fazer há meses.

Berry seguiu em direção ao ruído que escutara, esgueirando-se por entre os bancos e troncos de árvores. No bosque próximo da praça, ela encontrou a garota indígena, chamada Aiyana, colhendo algo da terra junto com a pessoa que julgara ter escutado.

Lá estava Peggy, que sorria abertamente para a adolescente ao seu lado.

— Oi — Mavie as saudou, sem se controlar.

Peggy e Aiyana levantaram os olhos para Mavelle de imediato. A expressão de Aya continuou a mesma, divertida e tranquila, enquanto Peggy pareceu mostrar um semblante culpado.

— Oi, Mavie — a filha de Dakota respondeu, meio sem jeito, enquanto a garota indígena a cumprimentou com gentileza.

— Que bom ver que está se divertindo — a garota de dentes salientes falou, com um sorriso discreto — mas acho que ainda está na hora da escola, não? — perguntou Mavelle.

— Ah, sim. Mas eu saí mais cedo... — afirmou Peggy, guardando em uma cesta que Aya levava algo que parecia ser algum tipo de erva.

— Está se sentindo mal? Fale com a minha avó — sugeriu Mavie, estudando com atenção o rosto da garota.

— Não, estou bem, obrigada — retorquiu a menina, ainda parecendo incomodada.

— Então por que saiu antes? — a jovem irlandesa não tinha como não indagar. Peggy passara tempos ensimesmada, quieta, fechada em seu próprio mundo... Por mais que Mavelle e Annie tivessem tentado de tudo para trazê-la de volta.

— Mavie, por favor, não é como se isso realmente servisse para alguma coisa — debochou Peggy, enquanto Aya deu algumas risadas sarcásticas.

— Bem, mas são as regras desse lugar, então... — Mavie tentou complementar, mas a garota ainda não tinha terminado.

— Ah, não aja como se você realmente gostasse daqui. Como se concordasse com tudo isso — a adolescente falou com uma expressão desaforada.

— Nós concordamos em morar aqui. Nem tudo são flores — ela fez a piada infame com um sorriso forçado, apontando para as plantas que as duas colhiam. Nem Peggy nem Aiyana riram.

— Olha, Mavie, eu acho muito legal da sua parte você se importar comigo, e imagino que ache que está falando isso para o meu bem... Mas você não precisa cuidar de mim — redarguiu a adolescente, se levantando. Aya fez o mesmo ao seu lado, afastando-se um pouco das duas.

— É uma das minhas funções, Peggy. Nós somos parceiras — falou a irlandesa com simpatia.

— Não, não somos. Nós éramos. Na estrada. Quando você me ensinou a matar carniceiros para que eu tivesse uma chance de sobreviver, para que não te atrapalhasse e não acabasse matando a mim mesma, Annie e você por tabela — complementou Peggy, um pouco revoltada.

— Aqui, você quis entrar na mesma palhaçada de Jed no Oceanário. Agir como todos agiam, como se eu fosse fraca, inútil... Apenas mais uma adolescente, mais uma garotinha frágil incapaz de se defender. Um peso para todos — falou a garota, seu lábio inferior tremendo.

— Eu nunca achei isso de você, Peggy! — Mavie rebateu, incrédula com o que ouvia.

— Mentira! — a garota retrucou, já irritada — você, Annie e Tara... Você e quase todo mundo aqui querem me tratar como se eu fosse exatamente isso, só uma adolescente. Mas eu não sou. Eu nunca pude ser. Porque quando essa merda começou há dois anos, retirou de mim e de todo mundo que quis sobreviver a chance de uma vida normal. A chance de ter algum tipo de inocência. Adolescência, infância... Isso não existe mais. Não aja como se existisse — assegurou a garota, raivosa.

— Nós te tratamos com carinho, Peggy. É diferente — Mavelle ainda não acreditava naquilo.

— Carinho... — Peggy riu com escárnio — vocês me tratam com pena. Como se eu fosse um bicho perneta, algo deficiente que merece cuidados porque não pode se virar sozinho. Quer saber da novidade? Eu posso. Não preciso da pena de vocês. Não sou mais uma adolescente. Sou tão capaz quanto você. Não me subestime — a garota parecia transfigurada na frente de Mavelle. Aya, um tanto distante, apenas aguardava o desenrolar daquela discussão dramática.

Com pesar, a irlandesa não tinha outra posição a tomar.

— Eu nunca te subestimei, Peggy — insistiu Berry — na verdade, parece que eu te superestimei. — A jovem morena encarou a adolescente com olhos desapontados.

— O quê... — Peggy tentou revidar, mas Mavelle continuou.

— Jamais imaginei que veria você tão ingrata assim. Tão fora da realidade. — A irlandesa sabia que talvez devesse deixar aquilo passar, por ser provavelmente apenas uma crise adolescente, mas não resistiu. Peggy realmente sofrera muito, talvez mais do que todos os que conhecia, mas era chegada a hora de parar de sentir pena de si mesma.

A hora de crescer.

— Se quer ser adulta, Peggy, aja de acordo. Cumpra suas responsabilidades. Quando estiver preparada para crescer de verdade... Venha me procurar. Acho que posso te ajudar — concluiu Mavie, abandonando a adolescente em meio ao bosque de Alexandria junto à garota indígena.

Notas finais
*bicho carpinteiro: pessoa inquieta, que não sossega. **Ágora: local que muitas vezes servia para a realização das assembleias do povo, tomada de decisões políticas e debates na Grécia antiga. ~ Gif trailer do capítulo! ~ Aguardo reviews! :D