Hunter's Instinct
35 Episódio 35 - The Wolf
Notas iniciais
Wide eyed, with a heart made full of fright
Your eyes follow like traces in the night
And the tightrope, that you wander every time
You have been waiting
You have been found wanting
You've been wandering for days
How you felt me slip your mind
Leave behind your wanting ways
I want to learn to love and kind
Cause you were all I ever longed for
Shelter, you better keep the wolf back from the door
He wanders ever closer every night
And how he waits, baying for blood
I promised you everything would be fine…
Mumfords and Sons – The Wolf
Daryl Dixon esgueirava-se em silêncio pelo matagal fechado.
Dando-lhe cobertura, Aaron tinha os olhos bastante abertos em meio à escuridão. Atentos, os dois recrutadores de Alexandria moviam-se imperceptíveis em meio às sombras das folhagens varridas pelos ventos noturnos.
Passo após passo, os dois homens seguiam cada vez mais próximos ao casebre abandonado, onde, algumas horas antes, um desconhecido escondido por um capuz rubro aparentemente buscara refúgio, munido de uma tocha flamejante.
Daryl moveu o rosto de um lado a outro, seus instintos de caçador tão aguçados quanto cada um de seus sentidos. Não havia sinal de errantes naquela região, tampouco de seres humanos viventes. Nada era visto, ouvido ou percebido além do sujeito de capa vermelha que se mantinha em silêncio por horas a fio, escondido por entre a madeira gasta daquela construção rudimentar.
O caçador arqueiro olhou para trás em um único movimento rápido e certeiro. Aaron o encarou, seu olhar mostrando uma expressão alerta, enquanto Dixon apontou para que seguisse a sua direita. O tagarela obedeceu a ordem de imediato, enquanto Daryl moveu-se pela esquerda.
Protegidos pelas paredes de madeira de qualquer tipo de movimento hostil vindo do lado de dentro do casebre, o arqueiro deu um único toque, um empurrão medido e concentrado na porta caindo aos pedaços.
Em um som agourento e crepitante, ela se moveu de forma lenta e penosa, entreabrindo-se aos poucos. Com a visão privilegiada para o lado de dentro, Daryl pôde ver o que havia ali, iluminado pelas chamas da tocha que fora pendurada próxima a uma janela, que era uma espécie de rombo aberto na madeira.
Absolutamente nada.
Em seguida, deu mais um olhar significativo para o recrutador veterano. Aaron assentiu de forma rija, enquanto Daryl empurrou com o pé o restante que faltava para abrir completamente a porta e liberar a entrada.
Com a balestra empunhada e o rifle a postos, prontos para atirar, os recrutadores adentraram o único cômodo daquela construção tosca e velha, seus olhos cautelosos vasculhando todo o recinto.
— Ali. — Aaron apontou com a luz da lanterna para uma mochila surrada caída ao chão.
Em meio ao fedor amargo, penetrante e rançoso de corpos putrefatos, restos de comida salgada estragados e suor humano, Daryl abaixou-se até pegar aquele item, revirando o que havia lá dentro.
Novamente... Coisa alguma.
O chão em volta da mochila revelava, pela quantidade de pó, mato e outros vestígios trazidos por um sapato humano, que o homem da capa vermelha mal andara dentro daquele lugar.
— Mas o quê... — o namorado de Eric comentou, ressabiado, movendo a lanterna para um canto. Com a luz proveniente, ele e Daryl descobriram uma espécie de buraco em uma das paredes do casebre. Baixo, porém largo o suficiente para que um homem de tamanho mediano se arrastasse para fora dele.
— Cale a boca — Daryl repreendeu o outro recrutador. Aquilo não lhe cheirava bem, em todos os sentidos possíveis.
A cada segundo que se passava, lhe parecia que o sujeito da capa vermelha tinha apreendido o que acontecera ali.
Notara que estava sendo seguido.
E agora, enquanto ficava cada vez mais atento, Dixon aos poucos percebia outra coisa.
Movimentando a sua lanterna acima do chão fétido ao longo daquele casebre largado, os olhos ágeis do caçador descobriram outra pista estranha.
Apontou para Aaron, gestualmente indicando com o braço para que ele se abaixasse e recolhesse o que Dixon acabara de ver.
O recrutador veterano retirou do chão, preso em meio a duas tábuas de madeira encarquilhadas, um papel imundo.
Sujo de folhagens, manchas de gordura e um tanto amarelado, liam-se dizeres no mínimo... Inusitados. Bizarros. Quase inacreditáveis.
“JUNTE-SE AO NOSSO EXÉRCITO.
NA BATALHA CONTRA OS MORTOS-VIVOS, QUANTO MAIS RECRUTAS, MAIS FORTES SOMOS.
GARANTIMOS ABRIGO, COMIDA, MUNIÇÃO, ARMAMENTOS E TREINAMENTO.
WYOMING COUNTY, WEST VIRGINIA”
Abaixo do texto, alguma estranha letra japonesa assinava aquele folheto improvável.
— Desliga essa porra. — Dixon apontou com o queixo para a lanterna do outro recrutador, enquanto apagava a sua.
— Vamos dar o fora daqui — Daryl sentenciou, dando um olhar resoluto para Aaron. Não era um conselho, nem um pedido. Era uma ordem.
Aaron parecia reler o texto, sem acreditar no que tinha em mãos. Daryl, agora definitivamente preocupado, o puxou pelo colarinho da camisa, para demonstrar o quanto falava sério.
— Agora — exigiu o arqueiro. O namorado de Eric o encarou com olhos surpresos, enquanto Dixon virou as costas para ele, recusando-se a dar ouvidos ao seu lado pessimista que já lhe dissera que era tarde demais.
Ao saírem do casebre, Daryl Dixon certificou-se com seus melhores esforços de que o terreno continuava tão limpo quanto estava no momento em que ali pararam para observar. Contornaram com discrição a construção vazia, atentos a qualquer movimento estranho e inusitado.
Enfim tendo certeza de que não havia ninguém por perto, Daryl disse a Aaron que o melhor que poderiam fazer, naquelas condições, era voltar ao mesmo lugar onde haviam acampado.
Enquanto se embrenhavam novamente nas florestas adjacentes, os recrutadores seguiram um bom tempo em completo silêncio, sua atenção totalmente focada no ambiente e em qualquer tipo de sinal alheio que ali poderia haver. Fossem de animais, de mortos-vivos... Ou de outras pessoas.
Depois de passar quase uma hora em silêncio, já bastante próximos da região onde haviam parado para se alimentar, Aaron enfim se manifestou. Daryl sentiu raiva na hora, sabendo que aquele era o pior momento para qualquer tipo de conversa.
— O que você acha que foi isso? — perguntou Aaron, parecendo aflito.
— Não sei — rosnou o arqueiro de volta — não era você o expert nessa merda? — debochou Dixon, referindo-se ao trabalho de Aaron como recrutador.
— Você sabe o que eu quero dizer. Precisamos entender o que aconteceu. Para decidir o que vamos fazer — sussurrou o namorado de Eric em meio às folhagens densas.
— Eu sei o que vamos fazer e já falei. Você ouviu lá dentro — Daryl fez menção a sua ordem de se afastarem do casebre o mais rápido possível.
— Daryl, seja razoável... — Aaron começou a pedir, mas Dixon já não tinha mais paciência para aquilo. Quase explodindo de tensão e agressividade, o caçador voltou-se para trás, controlando-se para não puxar o recrutador pelo colarinho outra vez e esmurrar sua cara.
— Razoável? — Daryl falou em tom sarcástico — vamos sim, vamos ser razoáveis — acresceu.
— Aquilo que nós vimos não é uma merda à toa não, ou você não entendeu ainda? — Dixon rosnou — você passou esse tempo todo vivendo debaixo da saia daquela velha coroca da Deanna, desse seu mundinho perfeito de fantasia suburbana, que vocês nunca chegaram a entender como é que é aqui fora! Como é a porra do mundo, hoje em dia! — Sua voz aumentou alguns níveis invariavelmente. Aaron olhou para os lados em meio ao matagal escuro, com medo de que Dixon chamasse a atenção de companhias indesejáveis.
— Acabamos de descobrir que o merdinha de capa vermelha não estava sendo seguido por nós. Ele estava nos seguindo — Daryl afirmou.
— Você não pode saber dis... — Aaron tentou contestar, mas o arqueiro o interrompeu outra vez.
— Ah, vá se foder. Cale a porra da boca de uma vez por todas — Daryl insistiu, suas mãos fechadas em riste, querendo socar o rosto ingênuo do outro recrutador.
— Passamos horas esperando aquele filho da puta sair de lá. Reviramos a porra daquele casebre dias antes, e não vimos a merda daquele buraco. Por que será? — troçou o arqueiro.
— Entramos lá de noite, e as únicas tralhas que achamos são a porra de uma tocha acesa, uma mochila sem nada, e um papel colocado “por coincidência” no meio do chão. — O caçador parou para respirar, olhando para Aaron com raiva.
— Ele pode estar fazendo a mesma coisa que eu costumava fazer. Aquele papel deve dizer a verdade. Ele na verdade deve fazer o que nós estamos fazend... — o namorado de Eric tentou mais uma vez, mas Daryl meneou a cabeça, soltando um “tsc” sonoro.
— Pare de se enganar para não se cagar todo nas calças de medo — Daryl grunhiu, desprezando a negação de Aaron — quando você estava seguindo o meu grupo, nenhum de nós achou a porra de uma mulher pelada morta cravada numa árvore — atestou o arqueiro.
— Aceite a verdade. Estão nos seguindo. Isso é a porra de uma armadilha. Quem quer que esteja por trás disso deve ter pegado aquela loira. E eles querem nos pegar também. Lide com isso — assegurou Dixon, olhando para os lados, compenetrado.
— Acho que você está muito nervoso... — Respirando fundo, o namorado de Eric levantou as mãos em um sinal conciliador, mas Dixon aproximou-se dele sem hesitar.
— Ou você vai embora comigo agora por bem, ou vou te convencer te quebrando na porrada — o arqueiro ameaçou Aaron sem um traço de oscilação na voz dura e rouca.
O sujeito apenas piscou os olhos e levantou ainda mais as mãos.
— Ok — rendeu-se, por fim.
Aaron e Daryl seguiram o restante do caminho que faltava até encontrarem seus veículos. Apenas para serem surpreendidos com mais uma maldita visão imprevisível.
Na frente do painel do carro do recrutador veterano, outro papel com o idiograma japonês se fazia ver em meio à iluminação do luar.
— Vamos para bem longe daqui — Dixon impôs, depois de amassar o papel com agressividade e atirá-lo em outra direção. Subiu em sua moto, olhando desconfiado para o ambiente livre e despovoado ao seu redor.
— Onde? Não podemos voltar — Aaron disse, preocupado.
— Não vamos — garantiu o caçador.
Não ia deixar esses malucos de merda chegarem a Alexandria, de jeito nenhum. Vão ter que tentar me matar primeiro. Pensou o arqueiro, assertivo, a moto zunindo veloz no meio da noite escura, seguida pelo carro de Aaron.
Com o coração palpitando a mil, esforçando-se para se concentrar apenas em dirigir e despistar aqueles sujeitos doentios, Daryl tentava não pensar na comunidade que deixara. Esforçava-se ao máximo para não se lembrar de seus amigos ou se questionar se estavam bem.
Mas a imagem daquela mulher loira nua e destroçada, com os intestinos devorados, não saía de sua mente.
Haviam pessoas perigosas por perto. Gente nociva, desumana, com desejos e mentes distorcidas, moldadas pela crueldade do novo mundo.
E seu maior dever, agora, além de sua mais febril vontade... Era impedir que eles chegassem em Alexandria. Mantê-los longe de seus amigos.
Longe da sua Esquila.
*****
— Então é isso que o seu Exército faz? — Billy Ray perguntou, falando alto com sarcasmo evidente em meio ao seu sotaque interiorano.
O sujeito de nome Tucker olhava, junto ao sulista do Alabama, para a desalentadora imagem do que agora tornara-se a cidade de Oakland, em Virginia.
Tudo queimava.
Casas, prédios, lojas, veículos abandonados... Alguns metros ao longe, Billy Ray encarava a loja Tom Sawyer’s artigos de pesca, que ele e Becky haviam visitado na manhã daquele dia e retirado de lá diversas provisões. Completamente incendiada, Billy deu as costas ao local de forma melancólica, voltando a sentar-se no banco do motorista, enquanto Rebecca o aguardava mascando um chiclete de tutti-frutti e fazendo bolas com a goma de mascar, agindo como se fingisse estar alheia a toda aquela situação.
Levou Tucker de volta ao veículo, que ainda continuava com as mãos amarradas atrás das costas, os pés inutilizados pelas cordas de forma que apenas conseguisse arrastá-los pelo chão. Caso tentasse andar mais rápido, tropeçaria. Billy matou cerca de três carniceiros que já se esgueiravam para o carro, atraídos pelas chamas intermináveis daquele incêndio da cidade.
— Não, já que você perguntou... Não costumava ser assim — o sujeitinho com cara de drogado respondeu, enquanto Billy o empurrava de qualquer jeito para o compartimento traseiro, atrás dos bancos do motorista e de passageiro ao lado.
Becky voltou-se para trás, retirando do casaco cor de rosa uma das pistolas que Moritz havia lhe deixado, destravando-a e apontando a arma para o rosto de Tucker com um sorriso. Soltou mais uma bola de chiclete, e continuou sorrindo para o rapaz, dando-lhe uma piscadela.
Em silêncio, o bizarro trio avançou até uma estrada montanhosa, subindo muitos quilômetros ao longe de Oakland. Estavam em terrenos quase fronteiriços a West Virginia, e Billy Ray percebia o que aquilo significava.
As chances de topar com o enigmático grupo de Tucker continuavam altas.
Tinham passado aquele dia aguardando de longe para que os tais membros do Exército enfim deixassem a cidade. A partir do anoitecer, em sua vigília discreta, Billy e Becky, porém, repararam que eles não pretendiam abandonar Oakland a própria sorte... Fizeram questão de destruí-la, pedaço por pedaço.
Naquele momento, Billy Ray enfim decidira parar o carro e ter uma conversa definitiva com o moleque prepotente que levava consigo. Já lera o caderno de anotações dele algumas vezes, e insistira em questioná-lo ao longo do dia, assim que ele acordara, sobre quem era, o que pretendia, e qual era o real propósito de seu grupo.
Debochado, desconfiado e evasivo, o rapaz apenas abrira a boca para troçar dele e de Rebecca, mesmo depois de ter levado um par de socos de Billy, que não conseguira se controlar. Ou era muito leal aquelas pessoas... Ou temia as consequências se contasse algo relevante.
— Vamos lá de novo, e dessa vez é melhor você abrir o bico, fedelho... — Billy aconselhou, enquanto puxava o rapaz sem nenhuma gentileza para fora do veículo, jogando-o no chão como faria a um saco de lixo.
Gemendo de dor pelos socos, maus tratos, cordas firmes e outras atitudes não muito convidativas tanto da parte de Billy quanto de Becky, o rapaz continuou quieto, apenas suspirando de dor aqui e ali, e dando olhares debochados para Billy. Tucker arrastou-se para o acostamento, sentando-se em meio a vegetação rala da estrada.
O rapaz e o sulista continuavam se encarando, enquanto Billy Ray tentava pensar em uma forma suficientemente amedrontadora para ameaçá-lo, sem ter de torturá-lo. Não queria chegar tão baixo... Sabia que, quando descia a esse nível, se tornava perigosamente... Descontrolado.
Com um suspiro audível de resignação, Rebecca abriu a porta do carro, saindo dele, e enfim retirando de sua mochila o taco de baseball que costumava usar.
— Sabe, na época do circo, quando a gente flagrava algum ladrãozinho, aquele velho filho da puta do Moritz me mandava fazer um servicinho especial... — A jovem loira falou, girando o bastão no ar com agilidade, enquanto se aproximava devagar, seus quadris movendo-se de forma sinuosa, quase rebolando.
Billy olhou de esguelha para o rosto de Tucker, que agora parecia finalmente mostrar outra expressão que não arrogância.
— Ladrão? Vocês me prenderam, sua vadia! Vocês dois são malucos — o rapaz ratificou, franzindo as sobrancelhas. Quase imperceptivelmente, empurrou-se para trás, quando Rebecca sentou na frente dele com um amplo sorriso no rosto.
— Maluquice, você sabe, é algo que está por aí hoje em dia — brincou Becky, com uma expressão sedutora. Sua voz macia e sensual não combinava com a força e a agilidade com que brandia aquele taco de baseball. E, de mais a mais... A forma receptiva e charmosa com que ela decidira tratar aquele sujeitinho desprezível começara a incomodar muito Billy Ray.
— Eu duvido que você realmente saiba como usar isso aí. — Tucker indicou com o rosto o taco de baseball de Rebecca. A garota loira apenas ergueu uma sobrancelha e sorriu de forma discreta.
— Ah, duvida é? — disse ela, de forma infantil. Apontou com o taco para um caramujo que se arrastava perto das pernas do rapaz.
— É melhor chegar pra lá — falou a mulher loira, enquanto mal esperou para que o rapaz desviasse a tempo. Ergueu-se, e em um golpe agressivo e certeiro, que passou raspando centímetros do joelho do sujeito, esmagou o caramujo, com carapaça e tudo, em uma gosma escura. Limpou os restos do animal nas calças do rapaz, que, aparentemente abismado com a força e a rapidez de Rebecca, deixou o queixo cair.
Billy riu internamente com a expressão assustada do drogado. No final das contas, não passava de um garoto. Deveria ter no máximo uns vinte e poucos anos.
— Vai querer que eu dê um trato no little Tucky aí no meio das suas pernas? — Becky falou de forma sádica e lasciva ao mesmo tempo, o que gerou reações controversas em Billy Ray. Tucker, no entanto, reagiu da única forma possível: ficou apavorado, enquanto Rebecca retirava de sua cabeça o gorro azul escuro que o rapaz usava.
Tentando se controlar para demonstrar um mínimo de dignidade e voltar ao ar petulante anterior, o sujeito que parecia um moleque voltou o rosto para Billy Ray, respirando fundo:
— Está bem. O que vocês querem saber? — Tucker falou.
— Antes de mais nada... — Billy retirou do bolso do casaco o caderno do rapaz. O sujeito arregalou os olhos outra vez, mas voltou a se controlar melhor.
— Pode tratar de nos explicar o que diacho é isso aqui. — Billy Ray indicou uma folha do caderno em específico. Após ler o que ele mesmo havia escrito, Tucker fechou os olhos, meneando a cabeça, e respirou fundo.
Naquela folha específica, lia-se: “W is for Wolves”.
*****
[NO DIA SEGUINTE]
Uivando como os ventos de outono, uma flecha perpassou o ar gelado dos arredores de Alexandria. Cravando-se em meio ao crânio de um morto-vivo cambaleante, o carniceiro atingido nem teve chance de perceber o que se passava antes que fosse eliminado em menos de um segundo.
— Boa! — Mavelle Berry ouviu a voz de Glenn Rhee enaltecendo sua mira, enquanto o descendente de coreanos, munido de uma faca comprida, se livrava de mais um Frankie que os cercara naquela tarde.
Mavie viu Glenn passar a mão pela testa, limpando o suor que descia pelo seu rosto, ao passo que ela própria arregaçava as mangas de seu casaco e arrancava a flecha da cabeça do corpo em decomposição que fizera tombar.
— Obrigada — respondeu a irlandesa, recuperando o fôlego.
Juntos, os dois batedores estudaram o terreno próximo de onde estacionaram o furgão das missões de coleta. Entraram em um grande Wegman’s, um supermercado em estilo “vintage”, imitando as antigas lojas do gênero norte-americanos. A fachada feita de tijolos rosados estava completamente depredada, pichada com dizeres em vermelho — os quais Mavelle já imaginava a origem —, com dizeres sobre o fim dos tempos.
Ignorando aquela visão nada convidativa, os dois coletores, dando cobertura um ao outro, adentraram o amplo mercado, matando os poucos carniceiros que, há muito em decomposição, mal conseguiam se arrastar na direção deles.
Após feita a limpeza final, Glenn e Mavie passaram a estudar o ambiente, vasculhando o que ainda não havia sido levado. Passando pelas prateleiras de enlatados, Mavelle guardou algumas azeitonas e latas de conservas, e jogou uma específica nas mãos do amigo.
— Para a Maggie — sugeriu ela.
— Lentilhas? Ela não gosta muito — respondeu Glenn, com um sorrisinho torto. Nos dias que viviam, ninguém realmente poderia se dar ao luxo de não gostar de uma comida. Embora a realidade torta de Alexandria tentasse ensinar seus habitantes a se permitirem essas fraquezas.
— Tem ácido fólico — insistiu Berry, com um sorriso gentil — é fundamental durante a gestação.
Rhee concordou, meneando a cabeça com leveza. Guardou a lata e agradeceu, enquanto formava uma pilha tão imensa de latas de lentilha em sua mochila que quase não sobrava espaço para mais nada.
— Hey, hey, vai com calma! — Mavie riu um pouco.
— Sei lá. Com as mudanças de humores dela, é melhor agradar — comentou o precavido esposo de Maggie, fazendo Berry rir mais.
— Ok então, espertinho. Eu levo o que for para o resto do grupo. — Mavelle puxou um carrinho de supermercado largado em meio ao corredor, equilibrando-se no ferro um pouco acima das rodinhas, sustentando-se de forma propositadamente infantil enquanto se empurrava para a frente.
— Eu era o rei dessas paradas há uns anos atrás — Glenn recordou-se de suas besteiras de adolescente, enquanto Mavie olhava para trás e o via rindo de sua galhofada. Ela largou o carrinho e continuou a tarefa.
— Duvido que fosse melhor do que eu — a irlandesa o desafiou, enquanto Rhee bufava de desdém.
— Cara, eu sabia fazer manobras com esse troço. Tipo um kickflip 360 versão carrinho de supermercado — gabou-se Glenn, levantando as sobrancelhas ao passo que guardava algumas caixas velhas de cereais.
Mavie riu da comparação. Imaginar o amigo asiático sendo o ás do skate — versão adaptada —, era algo no mínimo cômico.
— Quer dizer que você era skatista profissional antes de tudo? — debochou Mavelle, com feições descrentes.
— Poderia ter sido — Glenn falou, mantendo o deboche — mas sou um cara mais humilde, então quis ser entregador de pizza — afirmou, enquanto os dois riam um pouco.
— Eu sei como é — Berry retrucou, respirando fundo — eu queria ter me mudado para os Estados Unidos e ter tido meu filho, mas só consegui cumprir o primeiro objetivo.
A expressão no rosto de Rhee murchou imediatamente. Seus olhos estreitos se arregalaram levemente, enquanto ele tentava recobrar a compostura e demonstrar solicitude.
— Eu não... — Glenn tentou, mas Mavie levantou uma mão, enquanto balançava a cabeça, como se dissesse que não havia problema.
— Isso foi... Foi em outra vida. Desculpa ter puxado esse assunto, ainda mais com você — Mavie se repreendeu, já que falar sobre o aborto que sofrera junto a um sujeito que em breve seria pai não era algo muito sensível — foi mal pelo climão... — Berry falou, dando-lhe as costas e tentando comprimir a dor que novamente se espalhava pelo seu corpo e fechava sua garganta. Jogou alguns produtos alimentícios a esmo no carrinho, sem nem mesmo ver o que fazia.
Antes que pudesse dar muitos passos, Glenn parara seu carrinho com uma mão.
— Hey. Não se desculpe. — Rhee colocou uma de suas mãos gentilmente no braço de Mavelle.
— Eu realmente sinto muito. — A voz e a expressão de Glenn mostravam tamanha empatia e sinceridade que surpreenderam Mavelle. Depois de Jeffrey, depois de tudo o que vivera no Oceanário, das surpresas e decepções, ela não esperaria realmente encontrar outro ombro amigo.
Lágrimas inconvenientes subiram aos olhos da irlandesa, que se forçou a suprimí-las a todo custo.
— Obrigada. De verdade. — Mavie limpou a garganta em um pigarro discreto, e desviou os olhos para o carrinho. — Acho que temos o suficiente para reabastecer os produtos que faltavam — certificou, enquanto movia-se para a saída.
— Ainda não — Rhee disse e abaixou-se para pegar um vidro. — Falta isso. Para você, sua avó e Peggy. — Entregou-o a Mavelle, que leu a embalagem:
“Compota de maçã verde”
A garota morena moveu os olhos para encarar o amigo asiático. Maçã verde era sua fruta favorita, assim como de sua avó Annie. Glenn sorria discretamente, com gentileza.
— Vocês asiáticos sempre sacam tudo — brincou a irlandesa, guardando a compota, enquanto Rhee meneava a cabeça negativamente, fingindo-se ofendido pelo estereótipo.
— Pelo menos não somos um bando de bêbados trambiqueiros — troçou Rhee do preconceito típico contra irlandeses e seus descendentes.
— Bêbada, é? Olha lá, sua mulher descende de irlandeses — Mavie já estava menos pesarosa novamente, graças a demonstração delicada de amizade de Glenn.
— Se eu fosse uma bêbada, conseguiria fazer isso? — Mavelle subitamente pegou velocidade e impulso e pisou no ferro traseiro do carrinho, equilibrando seu corpo junto ao peso da pilha de comida, zunindo rapidamente pelo corredor até a porta de saída.
Rindo de forma abobalhada, a garota de dentes salientes se divertiu um pouco com aquela brincadeira tola, enquanto Glenn a seguia apertando o passo e sorrindo.
— Com carrinho cheio não vale, não dá para mandar um Freestyle — comentou Glenn, fingindo que Mavie tinha jogado sujo. Os dois riram uma última vez enquanto seguiam até o furgão e guardavam as coletas.
— Camarada, nós somos dois idiotas... — atestou Mavelle, rindo um pouco de si mesma e extravasando sua angústia e pesar dos últimos dias.
— Pode me deixar fora disso. Dizem por aí que eu sou um futuro jovem pai de família muito responsável. Por favor, não revele a verdade a ninguém — Rhee continuou a piada, enquanto os dois mantinham o humor mais leve.
— Nah — Mavelle retrucou, com um sorriso afável — não é mentira. Você e a Maggie vão ser muito felizes. — A irlandesa deu um tapinha de encorajamento e enaltecimento no braço de Glenn, enquanto fechava o porta-malas junto a ele.
— ...Vocês dois e o mini Ching Chong — não resistiu a piada.
— Cara, você tem de aprender a hora de calar a boca — Glenn sorriu com uma risada seca, enquanto Mavelle gargalhava.
Passaram alguns minutos em silêncio, enquanto Mavie colocou para tocar um dos CDs da coleção country que Deanna Monroe os emprestara. Estavam sozinhos naquela missão, pelo nível baixo de risco e complexidade, e pelo fato de que não tiveram coragem de convidar Spencer, depois da morte tão recente de seu irmão, Aiden.
Sobre Nicholas, não havia sequer o que se comentar.
Berry lembrou-se de Tara, e não pôde conter um suspiro preocupado.
— Sabe, ela ainda não acordou — comentou, angustiada.
— Eu sei. Mas ela vai. Sua avó diz que ela está estável — Glenn tentou ser otimista, olhando para a estrada que os levaria a Alexandria.
Mavelle não respondeu nada. Passou a roer e mastigar uma pele solta em volta de seu dedão direito, esquivando seus olhos para a paisagem da estrada. O clima pesado que a nova realidade trazia voltou a pairar entre os dois amigos, enquanto minutos lentos se passaram em completa quietude.
Contemplativa, foi impossível não se lembrar do temor que a assombrava sempre, por mais que tentasse fugir daqueles pensamentos.
Mais um dia se passara, e Daryl e Aaron não haviam voltado.
— Hey... — Mavie começou, tentando soar calma.
— ...Ninguém ainda tem notícias do Aaron e... Do Daryl... Certo? — ela falou, forçando uma postura controlada que provavelmente não convenceu Rhee.
Ele demorou um pouco para responder.
— Ah, mas eu não estou preocupado — Mavie aferiu a clara mentira de Glenn.
— Aaron é um cara stealth para caramba, até eu que costumo passar despercebido invejo um pouco as habilidades dele... E o Daryl, bem, é só olhar para a cara dele que já dá para ver porque o cara sobreviveu esse tempo todo — Seu amigo tentou soar assertivo e simpático, mas Mavelle percebeu que ele colocava panos quentes na gravidade da situação.
Berry muniu-se de coragem para fazer a próxima pergunta.
— Você acha mesmo que eles vão voltar? — indagou, e percebeu como sua voz parecia uma súplica infantil. Sentiu-se uma idiota, logo em seguida.
Glenn chegou até a desviar o olhar da estrada para encará-la. Deu um sorriso surpreso, enquanto sua mão direita balançou o ombro esquerdo de Mavelle, rapidamente.
— Hey, o que é isso? É claro que vão! — o descendente de coreanos falou com mais empolgação, mas a irlandesa percebia suas dúvidas.
As poucas horas e quilômetros que os separavam de Alexandria passaram devagar. Mavie tentou puxar outros assuntos e fingir desprendimento e desinibição, mas volta e meia seus pensamentos a denunciavam, levando sua atenção para longe, para o medo que a atormentava nos últimos dias.
Ao enfim chegarem na comunidade em meio a um belo fim de tarde de outono, Glenn foi passar o resto do dia junto a sua esposa. Mavie se despediu e o agradeceu mais uma vez pela compota, na verdade querendo agradecer pelo apoio que seu amigo a dava, e seguiu para a casa desabitada onde agora Rosita e Annie trabalhavam.
Adaptada a uma espécie de pronto-socorro da comunidade, aquela residência agora era um local frequentado por médicos, enfermeiros, pacientes e visitantes ocasionais. Mavelle bateu na porta, mais uma vez respirando fundo para enfrentar seus temores, e foi recebida por Abraham, que tinha uma cerveja na mão.
— Ih, a outra irlandesa — o soldado ruivo falou sem muito tato.
— O quê? — perguntou Mavie, atônita.
— Ah, hoje teve visita entrando a torto e a direito. Eugene marca presença nesse lugar como se fosse a porra de um cão de guarda. Já o Padre “Crazyel” acabou de passar por aqui. Estava com uma cara péssima — comentou o homem fanfarrão, enquanto bebia mais um gole de cerveja.
— Deixe ela entrar, Abe! — Rosita falou alto do corredor, olhando para o companheiro com feições de repreensão. O sujeito deu espaço para que Mavelle entrasse, enquanto ela o olhou com certa desconfiança.
— Estou atrapalhando alguma coisa? — a garota morena perguntou para a assistente de sua avó, que deveria estar no quarto de cuidados de Tara.
— É claro que não — Rosita respondeu com um ar entre o assertivo e o surpreso — é só esse grandalhão que é um sem noção mesmo. Eu já te disse, Abraham, isso é um local de trabalho, igual à construção, respeite! — a jovem latina exigiu, e Mavie saiu de perto antes que presenciasse alguma discussão constrangedora.
Buscando o quarto onde Tara era tratada, Mavelle abriu a porta e logo viu sua avó recostada perto da cama, parecendo ouvir os batimentos cardíacos da paciente e medir sua pressão.
— Como ela está? — quis saber a jovem irlandesa.
— Estável — afirmou Annie.
— Algum sinal de melhora? — Mavie franziu as sobrancelhas, enquanto sentava-se em uma poltrona do outro lado da cabeceira. Tara parecia dormir um sono profundo.
— Nada diferente dos outros dias — sua avó foi sincera — mas eu realmente acho que ela vai se recuperar — garantiu. Annie não era de mentir. Ainda mais em relação a pacientes.
— Eu trouxe compota de maçã verde — a garota de dentes salientes avisou, forçando um sorriso. Sua avó continuou a examinar Chambler, e falou com a voz ainda concentrada.
— Que ótimo, podemos dividir na sobremesa do jantar com Peggy.
— Estou preocupada — Mavelle confessou. Estava junto com sua avó, sozinha naquele quarto. Tara estava desacordada. Se havia algum espaço seguro para manifestar o que realmente sentia... Era aquele.
— Eu sei, meu bem — Annie disse, mudando de humor na hora. Mavie era a única pessoa capaz de atravessar a camada de frieza de sua avó, e despertar seus fortes instintos maternos. A idosa se levantou e foi até a jovem irlandesa, por mais que a garota insistisse que não havia necessidade.
Com os olhos novamente lacrimejantes, permitindo-se um momento de fraqueza, Mavelle confidenciou.
— Eu fiz besteira, ‘vó’ — disse Mavie. Annie a olhou com zelo, passando os dedos em seus cabelos escuros.
— Não, filhinha, muito pelo contrário. Não foi sua culpa — a idosa contestou, achando que Mavelle mencionava apenas Tara.
— Não, é sério... Eu fiz. É muito egoísta falar isso... Eu deveria me preocupar só com a sua segurança, com a Peggy, com a Tara... Manter vocês bem... É só o que eu deveria... — a jovem irlandesa balbuciou, tentando manter o tom de voz firme.
— O que houve, meu amor? — perguntou sua avó, e Mavelle não tinha mais defesas ante aquele tratamento tão carinhoso.
— Eu não consigo parar de pensar nele! — admitiu Mavie, enquanto as lágrimas novamente desciam por seu rosto. Sentia-se mais do que estúpida... Indefesa. Perdida.
Annie piscou os olhos, um lampejo de compreensão passando rapidamente por seus orbes castanhos escuros. Havia entendido.
— Eu estou apavorada com a ideia de que ele... Ele pode não voltar — reconheceu a garota morena, enxugando seus olhos com as costas das mãos, enquanto a avó a puxava para um abraço. Inspirou uma lufada de ar enquanto seu rosto se escondia no jaleco da idosa, sentindo-se fraca, impotente, tola demais.
— Você é uma boa garota. Sempre foi — Annie salientou, levantando o rosto de sua neta — seu coração é bom demais para este mundo. E para o mundo como era antes, também. — Acariciou o rosto da garota irlandesa.
— Você já nos ajudou muito, querida. Ajuda todos os dias. A única coisa que eu quero que faça é que continue sendo você. Não importa o que aconteça... Não desista de si mesma. Nunca tenha vergonha de ser quem você é — Annie pediu, segurando o rosto da neta.
Mavie meneou a cabeça positivamente, respirando fundo, e se afastando da avó.
— E quanto aquele caipira maldito... Quando ele voltar, é melhor que esconda bem aquela balestra, se não vou flechá-lo tanto que vou transformá-lo numa peneira por ter feito você chorar de preocupação — Annie garantiu com frieza gélida, voltando sua atenção para Tara, enquanto Mavelle soltava uma risada fungada.
Poucos segundos depois, as duas ouviram Abraham abrir a porta, que entrou sem pedir licença e passou a procurar algo que deixara em uma bancada próxima. Pegando de volta o abridor de cerveja, o sujeito parou ao lado de Rosita, que já havia entrado no quarto depois dele e estava de braços cruzados, com feições de poucos amigos.
— E aí, Berry, como foi a missão de hoje? Acharam algumas boas? — perguntou Abe com um sorriso simpático. Annie o ignorou, enquanto Rosita ainda o encarava com um olhar fatal.
Mavelle levantou o rosto para ele. Provavelmente o homem percebeu que ela tinha o rosto lavado de lágrimas que acabara de secar, pois logo se retratou.
— Acho que não é um bom momento — Abraham atestou a obviedade.
*****
— O que você pensa que está fazendo aqui, Sam? — Carol Peletier perguntou, já advertindo de antemão o filho de Jessie, que entrava na casa dividida por ela, Rick, Carl, Michonne e Daryl parecendo muito contente consigo mesmo.
— Consegui mais chocolate para você! — O menino mostrou as barras que havia surrupiado, enquanto Carol o olhava com frieza ensaiada. Sem escolha, olhou para os lados, fechando a porta da casa e puxando o doce das mãos do garoto.
— Você tem de ser cauteloso. Não entendeu nada do que eu falei na noite da festa? — A mulher fechou ainda mais sua expressão, referindo-se as ameaças que fizera ao garoto.
Não tinha outra escolha. Ser pega saqueando os armamentos na calada da noite poderia gerar-lhe consequências muitíssimo desagradáveis... Não apenas para ela, como para todo o seu grupo, que ainda passava por uma espécie de teste de adaptação em Alexandria.
Carol julgava que seria fácil lidar com aquele garoto. Ingênuo, tolo, despreparado para a realidade, poderia manipular aquela criança se assim fosse necessário, para proteger os seus. Mas não imaginava... Não sabia que ainda existiam pontos fracos nela que jamais conseguiria superar.
— Desculpe, senhora Peletier — falou o menino, contrito.
— Vá para a sua casa. Sua mãe deve estar se perguntando onde você se meteu — Carol exigiu, dando as costas a criança.
— Mas... — Sam começou, e ela o interrompeu.
— Não tem “mas”. Os biscoitos vão demorar para ficarem prontos. Vá jantar, está na hora — a mulher ordenou.
— Não está. Minha mãe está ocupada. — Sam baixou os olhos para o chão. Sua expressão espevitada já tinha se modificado. O garoto ia a passos lentos para a porta, parecendo desapontado.
Sem conseguir se conter, Carol foi até ele e o segurou pelo braço.
— Como assim, “ocupada”?
— Você disse que não queria saber da minha vida no outro dia. Falou que não somos amigos — Sam retorquiu, ferino.
— Olhe a malcriação. — Carol deu-lhe um olhar sério, e Sam baixou o rosto de novo. Aquilo era perigoso. Estava começando a dar muito espaço para aquela criança.
— Eu não posso ficar lá em casa. Não quando ela... Quando o papai... — O garoto torceu os lábios, parecendo reprimir algum tipo de emoção internalizada.
— Quando o papai o quê, Sam? — insistiu a mulher de cabelos grisalhos. Segurou Sam pelos dois braços, agora com delicadeza.
— Nada — o menino disse, e desvencilhou-se dos braços de Carol. Abriu a porta de entrada, e saiu correndo rua afora.
— Sam! — Carol chamou, e a emoção pungente que tomou conta de seu peito realmente a deixou preocupada.
Ela reconhecia aquele olhar. Aquela expressão retorcida. Aquela forma escusa... Reprimida... Oprimida de agir.
Entendera o que estava acontecendo, e só havia uma atitude a tomar.
Carol Peletier sentou-se no sofá da sala de visitas de sua casa em Alexandria, aguardando a volta de Rick de seu trabalho naquele dia. Assim que o policial entrou pela porta, ela se levantou, e disse-lhe o que já havia pensado e decidido.
Carol julgou que jamais se deixaria levar emocionalmente por nada que acontecia em Alexandria. Todas aquelas pessoas eram ingênuas, tolas, frágeis. Não poderia se envolver com elas, pois estavam fadadas a sucumbir naquela nova realidade, se não conseguissem se fortalecer.
Imaginou que não haveria nada que pudesse lhe mover ali. Nada que a atingisse. Mas não estava preparada para conviver com aquela criança. Aquele menino doce, apesar de tolo, esforçado, apesar de ingênuo, e gentil... Mesmo que maltratado.
Aquele garoto que tanto a lembrava de quem uma vez fora sua filha, Sophia.
— Carol... Está tudo bem? — Rick Grimes perguntou, enquanto tirava sua jaqueta.
— Não — ela foi direta. O policial a encarou, e Carol manteve o contato por alguns segundos de tensão.
Tomou fôlego, e falou o inevitável, que deveria acontecer:
— Você vai ter que matar o Pete.

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