Hunter's Instinct

34 Episódio 34 - Underdog


Notas iniciais
Oiê, meu povo amado! Gente, eu sei que de novo demorei duas semanas para atualizar... Antes que queiram me matar, eu realmente peço desculpas! Mas a minha semana de provas que tecnicamente acabava há duas semanas atrás só terminou NESSA segunda-feira, pois tive de fazer uma segunda chamada, e logo em uma das matérias mais difíceis do período! Então não pude escrever e tive de ficar focada nos estudos até terça... Entretanto, voltei essa sexta com força total, e certamente vou poder atualizar na semana que vem e voltar à nossa rotina de um capítulo por semana (ou mais, quem sabe? =P Dependendo do retorno de vocês é capaz de eu me inspirar e escrever mais de um, hehehe)! Nesse capítulo, teremos 3 POVs! Estou amando esse esquema de múltiplos POVs, realmente faz parecer bem mais um "episódio"! Então, fiquem com mais do amado/odiado caipira Billy Ray, mais do nosso amadíssimo caipira Daryl Dixon e mais de nossa querida adolescente Peggy! O capítulo está caprichado, tem muitas revelações, surpresas, momentos emocionantes e reflexivos, e cliffhangers! Preparem-se! Já aviso que a coisa está perto de ficar feia em Alexandria... Aliás, viram o trailer da sexta temporada? FIQUEI MUITO EMPOLGADA! Dedico este capítulo ao ArturM, que presenteou Hunter's Instinct com sua décima recomendação! Suas palavras foram lindas, com elogios fenomenais, só posso agradecer muito! *o* Espero que H.I. continue angariando mais e mais leitores, e que o pessoal se anime a comentar mais. Por isso, devo SEMPRE agradecer aos meus leitores queridos que não me deixam na mão e comentam com frequência, que são de fato os que me impulsionam a jamais pensar em abandonar essa história! Obrigada, de verdade, Thaaty, Vivi Costa, marcelammota, Anna L, Luna Miller, Rosie Santana, Giovana Catalani e Filho de Kivi! Hunter's Instinct nunca teria ido tão longe se não fosse pelos comentários de vocês. Eu repito isso sempre, porque é a mais pura verdade! Aleatório, mas justo: deem uma olhada no canal do youtube da leitora marcelammota! Ela fala sobre viagens e cultura (e fala inglês super bem): http://youtu.be/-nbbpmTV8Es Dito isso, já falei pra burro aqui... Então... Beijos e boa leitura a todos!

Hey, that sounds like my luck

I get the short end of it

Oh I love to be

I love to be the underdog

Hey, that sounds like my luck

I get the short end of it

Oh I love to be

I love to be the underdog

Living the low life

Low life...

Living the low life

Imagine Dragons – Underdog



— Não é à toa que minha mãe já dizia... — Billy Ray começou, limpando a garganta e olhando a água corrente da confluência de Levisa. Naquele momento, tinha uma novíssima e moderna vara de pescar com uma bela minhoca gorda dentro do imenso rio que cortava boa parte do território do sudeste americano, o rio Big Sandy. Já conseguira pescar cinco bagres, guardados em uma caixa impermeável que haviam encontrado nas redondezas.

— ...Que você é um estereótipo caipira personificado? — Becky terminou, dando uma risadinha debochada.

Billy levantou os olhos para ela, devagar e discretamente. Ajeitou o chapéu, enquanto mascava um pouco do tabaco que havia achado na loja Tom Sawyer’s Artigos de Pesca.

Depois de três dias desde que protagonizara o primeiro — e até então, único — episódio de surto esquizofrênico da garota loira, Billy e Rebecca haviam descido o território montanhoso perto de Brush Creek e caminhado alguns quilômetros para nordeste. Depois de percorrerem cerca de 40 milhas a pé, conseguiram achar um antigo GMC Syclone, uma picape preta, típico sonho de consumo redneck, abandonada em meio a estrada erma.

Por sorte, havia combustível o suficiente para percorrerem mais uma centena e meia de quilômetros, até terem de parar para abastecer. Moveram-se para nordeste, seguindo o mapa que Billy levara do Oceanário da Georgia, na direção de Wyoming County, em West Virginia.

No fim das contas, conseguiram se movimentar de carro por um total de quase quatrocentos quilômetros, revezando-se ao volante e mal parando para descansar ou dormir. Naquela manhã, o sexto dia de convivência com Becky, a jovem mulher parecia particularmente entusiasmada.

Talvez pelo fato de estarem enfim próximos a Wyoming County, ou por terem parado em um local bucólico e aparentemente livre de errantes, a pequena cidade de Oakwood, na divisa entre a Virginia e West Virginia. Típica cidade interiorana dos Estados Unidos, cercada por reservas naturais, lagos e rios. Em outros tempos era focada em turismo de caça, pesca e passeios ecológicos.

Na atualidade... Era apenas mais uma de todas as cidades fantasmas do mundo. Fossem Nova York ou a cidade natal de Billy Ray, Tuscaloosa, no Alabama.

O tempo já estava frio. O inverno parecia cada vez mais próximo, e os ventos gélidos de outono obrigavam os dois viajantes a se agasalharem com o máximo de roupas que puderam achar. Saqueando as poucas provisões remanescentes daquela pequena cidade caipira, Becky achou um casaco térmico bastante chamativo, em um tom rosa choque, com algum tipo de pelo falso ao redor do pescoço, na gola do casaco, além de segundas peles para prevenir-se do tempo hostil.

Billy muniu-se de um casaco impermeável marrom, do gênero que já tinha o costume de usar, além de um par novo de calças impérvias. Manteve o mesmo chapéu de cowboy que gostava de usar, seu chapéu de estimação desde antes do início daquela praga dos carniceiros. Não ter se livrado daquela peça de vestuário para encontrar uma em melhor estado e mais limpa gerou protestos debochados por parte da excêntrica garota que o acompanhava.

A cidade interiorana estava vazia, tanto de pessoas, quanto de mortos-vivos, e até mesmo de veículos e provisões. Inúmeros cadáveres de suicidas eram testemunhados aqui e ali, com as marcas de tiros na cabeça como manchas de pinturas de arte moderna nas paredes, veículos, muros.

A marca de saques e episódios violentos estava visível, com construções queimadas, poucos carros revirados, vidraças de lojas quebradas e prateleiras reviradas. Alguns carniceiros enforcados — fruto de suicidas que não sabiam como de fato se matar, naquelas novas perspectivas —, se encontravam nas casas e construções abandonadas.

Billy e Becky não encontraram mantimento algum, apenas sacos de balas e de comida de máquinas eletrônicas, ou produtos em estoque já estragados há muito.

Quando enfim encontraram a loja de artigos de pesca, a mais afastada da cidade, próxima do rio Big Sandy, finalmente viram sua sorte mudar um pouco. Além de boas roupas, que haviam encontrado na cidade, puderam ter acesso a alguns rifles de caça e munição, o que sobrou dos saques do início da infecção, além de varas de pescar de última geração, iscas de toda sorte, cordas, e outros equipamentos bons para a sobrevivência na estrada.

O humor de Rebecca, sempre instável, melhorou consideravelmente. Apesar de ter, ao todo, uma personalidade bastante única e inusitada — em todos os sentidos —, Billy Ray reparava que ela compartilhava algo em comum com Mavie: a irritante mania de esconder o que realmente sentia por trás de uma fachada de bom humor, algo que, para ele, experiente no assunto... Parecia-lhe bastante forçado.

Naquele instante, após Billy ter dado algumas lições de pesca para a amadora Rebecca, a garota parecia ter se divertido com aquela atividade calma e relaxante. Conseguira inclusive lhe lançar aquela tirada sem sinal de agressividade, mostrando um bom humor finalmente genuíno.

Era bom para alguém como ela se concentrar em uma tarefa que exigia paciência e atenção, já, que, aparentemente, tinha emoções mal controladas e reações em consequência desequilibradas. Ela precisa acalmar os nervos...

...Mas quem é que não precisa, hoje em dia?

— Não — Billy respondeu, permitindo a ela um sorrisinho sardônico — minha mãe sempre falava: tanto o homem quanto o peixe se dão mal quando abrem a boca — completou. Olhou para Becky outra vez, agora sorrindo mais.

— E você acabou de comprovar essa verdade tirando sarro de mim — confirmou ele, meneando a cabeça.

— É um esporte! — Becky falou, ainda debochada. — Como pescar — acrescentou, dando a Billy Ray um sorriso luminoso. O sol daquela fria manhã de outono fazia os cabelos loiros dela parecerem ainda mais resplandecentes, iluminando seu rosto faceiro.

— É, isso aí. Tome tento, menina, e quem sabe consiga pegar um bagre que nem os meus. — Billy moveu a cabeça em negativa mais uma vez, soltando um suspiro falsamente exasperado. Na verdade, estava se divertindo também.

Pouco a pouco, usar o bordão típico que usava para repreender Mavelle parecia doer cada vez menos. Enquanto não era obrigado a fechar os olhos e tentar dormir, ou a ficar em silêncio por muito tempo, seus antigos fantasmas pareciam sossegar. Assombravam-lhe cada vez menos.

As lembranças do Aquário e daquela menina que ainda tinha seu coração iam vagamente tornando-se mais turvas, agora que não mais as remoia a todo instante. Tinha uma missão a cumprir que ajudava a distrair-lhe dos seus infortúnios passados: levar Rebecca até o tal forte do Exército contra os mortos-vivos, conforme o folheto que os circenses haviam encontrado. Ajudá-la a sobreviver.

Protegê-la.

— Que bagre o quê?! Eu quero achar é uma tilápia. Elas não costumam nadar por aqui, no rasinho? — perguntou Rebecca, demonstrando claramente que não entendia muito de pescaria.

Billy deu uma risada honesta. Rebecca levantou uma sobrancelha, movendo o pescoço de forma interrogativa enquanto olhava para ele em desafio. Deu mais linha, levantou a vara da forma como o sulista a havia ensinado, e jogou a isca para longe.

— Algum problema? — Becky questionou.

— Nenhum — Billy lhe deu um olhar sarcástico — se você quer achar um peixe do sudoeste no sudeste — complementou.

— Ah, vá! Todo mundo diz que esses peixes são criados em aquários, e sei lá aonde... Deve ter um perdido por aqui. Se os mortos podem levantar dos túmulos, por que as tilápias não podem nadar pra leste ao invés de oeste? — troçou a garota loira, torcendo o nariz enquanto dava um sorrisinho enviesado.

— Isso é verdade. O mundo ficou de ponta-cabeça mesmo — admitiu o sulista do Alabama, olhando o céu de outono erguer-se placidamente acima deles.

Becky riu de novo. Billy a olhou com uma expressão inquiridora, como se dissesse “o que é que foi agora”?

— Você é mesmo muito caipira. Por que não fala “de cabeça para baixo”, como uma pessoa normal? Não que eu tenha muita moral para te cobrar normalidade... — Becky manteve o deboche, agora um tanto mais acabrunhado.

— Pare com isso, menina. Se concentre na linha — Billy orientou.

— Ah, não tem peixe nenhum por aqui, estamos aqui há horas e não mordem nada do meu lado... — reclamou a garota loira, audivelmente.

— Estamos aqui há trinta minutos só. Pescaria é assim. Tem de ter paciência — ele aconselhou, dando mais linha na vara de pescar.

— Se dermos mais sorte do que já demos hoje, quem sabe não achamos um esturjão branco por essas bandas? — falou um animado sulista do Alabama.

— E que bicho seria isso? — questionou impavidamente Becky.

— O maior peixe que já fisguei na minha vida! Juro por estes meus olhos que a terra ainda há de comer — garantiu o homem — tinha seis metros de comprimento! Seis metros! Um tubarão, quase — assegurou o sulista do Alabama.

Rebecca deu mais uma gostosa gargalhada. Billy não pôde evitar sorrir também, invariavelmente.

— E olha que mais um estereótipo se faz verdade... Caipira pescador mentiroso! Acho que isso é uma hipérbole, né? Dizem que todo pescador mente... Aí está a confirmação! — Becky fez a galhofa, mordendo o lábio inferior em um sorriso divertido.

— Não é mentira! Achei que era estudada, menina... Nunca leu essas revistas de National Geographic, essas coisas? — retrucou Billy, seu sotaque cada vez mais evidenciado.

— Meus interesses são outros, querido — disse Rebecca com um olhar maroto. Apesar do deboche claro, Billy apreciou em seu íntimo o novo tratamento.

— Pois então. Se lesse, veria que é verdade verdadeira. É um baita peixão, um dos maiores do nosso país. Eu tive a sorte de pegar um com essas minhas mãos aqui! — Billy insistiu gestualmente, soltando uma das mãos da vara de pescar.

— Ok, então. Se entrarmos na brincadeira do “pescador que quer contar vantagem”, eu quero poder participar. — Becky lhe deu uma olhadela esperta de canto dos olhos.

— O que você inventou agora, menina? Vê se não vai campeá* de falar besteira... — comentou Billy, soltando todos os seus maneirismos.

Ela deu mais uma risada legítima, e Billy Ray respirou fundo. Era melhor ver aquela garota assim, animada, espevitada, porém controlada, do que instável... Mas não era bom ficar naquele clima de festa. Estavam em uma região abandonada, solitária, mas não poderiam contar com isso indefinidamente.

— Confesso que acho muito legal esse seu jeito “peãozão” de ser — brincou a garota loira, lhe dando mais um belo sorriso. Billy apenas a olhou de esguelha, tentando manter o controle da situação.

— Mas o que eu queria dizer é que não posso contar vantagem de pescar. Só do que eu sei fazer. Por exemplo... Sou capaz de levantar essa perna aqui. — Apontou com o cotovelo esquerdo e o queixo para a perna esquerda, imóvel. — E encaixá-la atrás do meu pescoço sem quebrar, torcer ou distender nenhum músculo ou coisa que o valha. O mesmo com a direita. — Indicou a outra perna.

Billy Ray se recusou a olhar aquilo. A garota tinha seu jeito atirado, parte da personalidade ou de alguma defesa que inventou para aquele mundo, aquela vida... Mas ele não pretendia dar espaço para aquilo. Não era hora, não era o momento... Não era algo que ele se julgasse preparado para lidar.

Não depois do que aconteceu no Aquário de Atlanta.

— Ah, qual é? — Becky reclamou, depois de um tempo em silêncio. — Você é tímido demais. Acho isso engraçado. Como será que você reagiria se eu tirasse seu chapéu da sua cabeça só movendo minha perna? — Rebecca provocou outra vez.

— Por que você só usa esse chapéu encardido, afinal de contas? Sua mamãe te deu? — perguntou ela, troçando já indignada pela aparente indiferença de Billy Ray a seus esforços.

— Ele foi presente da minha ex-mulher. Eu uso para me lembrar. Para não me esquecer do que eu fiz — confidenciou Billy Ray, olhando apaticamente para a outra margem da água corrente.

Becky subitamente ficou em silêncio. O homem viu, com o canto dos olhos, a vara de pescar que a garota loira portava abaixar um pouco, enquanto seu rosto mais uma vez se movia para encará-lo com cuidado.

Sentados ali, a sós naquela desolação de mundo, Billy subitamente se arrependeu por tocar naquele assunto. Mas já era tarde demais para voltar.

— Eu sinto muito — Rebecca se solidarizou, e Billy Ray, embora não a encarasse, podia claramente imaginar os grandes olhos escuros dela se fixando de forma compassiva no olhar dele.

Chega. Não preciso de mais pena.

— Não é nada. Isso acabou tem tempo pra dedéu — afirmou o sulista, com seu sotaque forte.

— Se quiser me contar como... — a garota loira ofereceu um ombro amigo. Billy não queria que ela sentisse dó dele, então apenas respirou fundo e continuou.

— ...Conheci Mary Ann há muitos anos. Muitos anos mesmo. O quê, uns... Vinte e dois anos? — pensou alto o homem.

— Éramos dois pirralhos na época. Ela era uma pirralha linda, eu me lembro bem... Sardas no rosto, sorriso fácil, “sassariquenta” que só... — lembrou Billy daquelas recordações aflitivas.

— É estranho pensar que, na verdade, eu me lembro melhor do que ela me fez e do que eu fiz a ela, do que do próprio rosto dela... E Mary Ann foi minha esposa. Minha única esposa — confessou Billy, levantando as sobrancelhas. Olhou mais uma vez contemplativo para a margem oposta, vazia tanto de animais quanto de seres humanos vivos ou mortos.

Becky continuou quieta. Provavelmente aguardava por mais.

— No final das contas, nós não soubemos, como se diz... Administrar as coisas. Por aí. — Billy Ray respirou fundo mais uma vez.

— Casamos muito jovens, e o casamento não durou muito... Brigávamos demais, não tínhamos dinheiro, não tínhamos nada, um ao outro só e olhe lá... E ela queria mais do que isso. Mais do que eu podia dar, naquele tempo. — Billy afundou o chapéu ainda mais na cabeça, mordendo o maxilar.

— Eu não vi os sinais. Eu não percebi que ela... Que ela estava me abandonando — admitiu o sulista, soltando um pigarro.

— Enfim, um diacho de dia eu descobri que ela já estava dando há meses para a porra do peão de rodeio da cidade vizinha. Um sujeito que era uma celebridade local em Tuscaloosa. — Billy deu uma risada sem alegria, debochando de si mesmo.

— Eu não me controlei quando descobri. Não foi em um flagrante dramático, nem nada do tipo. Simplesmente a ouvi falando com ele no telefone da loja em que ela trabalhava. Estava indo buscá-la para tentar levá-la em uma viagem romântica para as montanhas. Era uma surpresa, perto do dia dos namorados — o sulista falou com dor.

— Ouvi ela dizendo para o sujeito de merda que iria dar um jeito de fingir que trabalharia dois turnos para sair com ele. Fiquei lá, parado, até ouvir um “eu te amo”. E daí, de corno eu virei bicho — confidenciou o sulista, e enfim encarou Rebecca.

Ninguém no Oceanário sabia daquele seu segredo grotesco.

— Entrei na loja sem raciocinar. Apenas puxei ela do balcão, ela, minha esposa, que eu amava perdidamente naquela época. E enfiei a porrada nela. Não sei até hoje o que aconteceu, só sei que saí de mim... Do meu controle. — Billy Ray passou a mão direita pela barba e pela boca, novamente tenso.

— Quando ela estava caída no chão, com uma poça de sangue em volta do rosto, cabeça contundida, dentes quebrados... Eu vi que tinha feito algo horrível. Que não tinha volta. Eu quase tinha matado minha própria mulher. As pessoas em volta gritavam, e eu sabia que era uma questão de tempo até o policial que me viu crescer, que nos viu crescer, chegasse ali e me prendesse. E eu fiz algo ainda pior depois. — Billy agora esfregava os olhos cansados.

— Fugi. Fugi sem olhar para trás, peguei o carro, e fui para a Georgia. Vivi anos e anos no campo, escondido em trabalhos de cidades do interior ainda menores e ainda mais pobres que Tuscaloosa, eu e outros tipos miseráveis como eu.

— Não quero me justificar contando isso. Eu era a porra de um imbecil, um estorvo, e acho que não melhorei muito ainda — afirmou mais para si do que para Rebecca, ao seu lado.

A garota loira o encarava sem dizer palavra alguma. Por fim, ela franziu as sobrancelhas, mas manteve o contato ocular por todo o tempo.

— Eu sei o que é se descontrolar. E fazer merda por causa disso — garantiu a jovem mulher, enquanto coçava a nuca. Parecia ela mesma desconfortável, pensando se deveria ou não contar-lhe algo.

— O que você fez com certeza foi... Foi escroto. Mas você realmente tem um puta azar nessa vida — comentou ela, dando um sorriso curto, entristecido.

— Qual deles? — brincou Billy, sabendo que nenhum dos dois achava graça daquilo.

— Você só se apaixona por vadias — troçou Rebecca de volta, mencionando pelo visto Mary Ann e Mavie.

Billy Ray realmente não esperava por aquela reação. O riso nervoso foi inevitável, mas cessou no instante em que começou. Mal já se preparava para repreender a garota loira, quando ambos ouviram um ruído inconfundível.

Passos.

De seres humanos... Vivos.

— Recolha sua mochila, rápido! — sussurrou Billy para Becky, levantando-se de pronto, escondendo consigo a vara de pescar, a caixa que guardara os peixes, e levando sua bagagem.

Os dois se esconderam em meio a um matagal espesso próximo ao rio, vegetação fechada e de tamanho mediano que evitaram por provavelmente conter cobras e outros animais indesejáveis. Naquele momento, porém, era melhor topar com algum bicho peçonhento do que com pessoas de má intenção.

— Yo! — Ouviram uma voz masculina berrar alguns metros longe.

— Vamos aproveitar a porra desse rio! Estou morrendo de sede! — Gritou um homem desconhecido.

— Porra, Tucker, você não sabe cumprir ordens! — Outro homem, com voz mais grossa, reclamou audivelmente. — Hashimoto mandou a gente ir até a porra desse estado para ver no que deu aquela merda. E é isso que devíamos fazer! — O sujeito de voz potente insistiu.

— Olha só, vadia. Eu só quero parar por uns segundos e beber água gelada, não desse cantil que fede a mijo morno — implorou o homem com voz mais juvenil.

— Você adora chamar todo mundo de vadia, Tucker, mas você que é uma vadiazinha... Não aguenta marchar por um dia, não é à toa que era um arquiteto... Profissão de viadinho. Demorou quinhentos anos pra aprender a matar um rastejante de merda! — troçou um outro homem. Um grupo que parecia conter ao menos uma dezena de homens riu quase em uníssono.

— Chupem o meu pau, vadias! Podem me xingar, yo, mas eu vou beber a porra de uma água gelada depois de quase foder meus pés todos! — ratificou o sujeito que berrara primeiro, cada vez mais perto de onde Billy e Becky se esconderam.

Puderam ver como ele era. Tinha a pele branca, usava casaco e calças largos, além de aparentar uma postura largada e ter cara de drogado.

— Ninguém vai te esperar, Tucky! Vê se termina logo com isso e nos encontra mais na frente da estrada. Vamos saquear a cidade — um homem com voz mais solícita avisou, enquanto o drogado, de nome Tucker, abaixava-se nas margens do rio, a centímetros de distância de Billy Ray e Becky. Era uma questão de tempo até que notasse os dois.

Billy e Becky se entreolharam. De forma gestual, Billy avisou que sairia dali discretamente e o golpearia com uma coronhada, para que tivessem uma chance de fugir despercebidos para onde pararam a picape.

Rebecca assentiu, silenciosa.

Segundos depois, quando Billy tentava ser o mais sutil possível, a mulher loira fez o contrário.

Em um pulo que parecia ser coreografia de um filme de ação, Rebecca saltou do meio do amplo matagal que os escondia, o taco de baseball já empunhado e deu um golpe tão forte na nuca do tal Tucker que Billy temeu que tivesse matado o homem de vez. Mal fizera ruído, apenas um baque surdo que aqueles homens com certeza não poderiam ouvir naquela distância, em meio ao farfalhar do mato em que caminhavam.

Billy, guardando dentro de si uma exclamação de xingamento, apenas arregalou os olhos, saindo do mato enquanto o corpo de Tucker caía na beira do rio, sua cabeça e tronco resvalando e afundando na água rasa.

— Você ficou maluca?! — perguntou Billy Ray, retoricamente, enfurecido.

— Há muito tempo! Mas eu sei o que estou fazendo agora! — garantiu Becky, murmurando de volta, ansiosa. Olhou por cima do ombro, percebendo que o grupo de Tucker continuava se afastando cada vez mais.

— Leva ele para o carro e me joga a sua mochila — pediu Rebecca, séria — vamos correndo pela beira, paramos no sentido oposto onde eles estão indo, ouça! — Billy parou para escutar, e de fato os sujeitos andavam na direção sul de Oakwood, enquanto eles haviam parado o veículo mais ao norte.

— Levar esse estrupício?! — perguntou um indignado Billy Ray.

— Óbvio, seu caipira lesado! — Becky o encarou incrédula.

— Ele pode ser útil para nos levar para Wyoming County! Vieram daquela direção! — Apontou para onde ela e Billy pretendiam seguir.

Sem querer entrar em uma discussão com a garota esquizofrênica em um momento no qual eram alvos ridiculamente fáceis, Billy Ray carregou o sujeito com cara de junkie nos ombros enquanto seguia uma ágil garota circense até onde pararam o veículo.

Becky se livrou de uns poucos carniceiros no meio do caminho, que pelo visto haviam sido atraídos pelo burburinho dos homens barulhentos, e enfim largaram o corpo desmaiado de Tucker no compartimento traseiro da picape, uma espécie de banco de trás improvisado antes da caçamba.

Amarraram-no com firmeza com as cordas que encontraram, deixando-o completamente imóvel em uma posição deitada.

Billy revistou o sujeito antes de assumir a direção da picape. Becky revirava a pequena mochila a tiracolo que ele carregava, sem ver nada de particularmente interessante. Binóculos, mapas, frutas, cantis, o que seria esperado de um grupo na estrada.

Mas Billy Ray achou, perdido em meio aos bolsos do sujeito, um caderno pequeno de anotações. Guardou-o consigo, escondido no bolso de seu casaco, sem que Becky o visse fazendo aquilo. Seria um material de utilidade para descobrir a procedência daquele rapaz.

Por fim, mexendo no bolso do casaco do desconhecido com cara de drogado, o sulista do Alabama e a garota circense viram algo mais do que determinante ao mesmo tempo.

Um papel dobrado, amassado, que parecia ter sido impresso recentemente... Com uma insígnia japonesa e os dizeres que já haviam encontrado nas fronteiras do Tennessee:

“JUNTE-SE AO NOSSO EXÉRCITO.

NA BATALHA CONTRA OS MORTOS-VIVOS, QUANTO MAIS RECRUTAS, MAIS FORTES SOMOS.

GARANTIMOS ABRIGO, COMIDA, MUNIÇÃO, ARMAMENTOS E TREINAMENTO.

WYOMING COUNTY, WEST VIRGINIA”

*****

[NAQUELA TARDE]

— Você acha que isso foi feito... Recentemente?

Aaron encarava preocupado o cadáver de uma mulher de cabelos compridos, loira, presa em uma árvore. Sua boca movia-se no frenesi alimentício dos errantes, mordendo o ar, como se os pregos e cordas que a mantivessem presa ali não pudessem impedi-la de tentar arrancar um naco dos dois homens que a observavam.

Daryl Dixon olhou cada detalhe daquele corpo morto, com emoções indizíveis dentro de si. O tronco cortado ao meio, intestinos e órgãos internos à mostra e parcialmente removidos já indicavam que ela havia sido devorada ali mesmo, pela poça de sangue que havia ao redor e pela terra remexida por passos incongruentes.

Voltou-se para Aaron em silêncio, concordando com um meneio de cabeça. Depois, puxou o rosto da mulher pelos cabelos, enquanto cravava a lâmina de sua faca de caça na têmpora esquerda dela, eliminando sua última deplorável existência no ato. O cadáver ali continuava, preso por cordas e pregos junto ao tronco da árvore, em um indicativo claro de crueldade e da loucura humana.

Reparou que, em sua testa, havia a marca de um “W” feito com algum tipo de lâmina.

— E você acha que... Alguém a prendeu aí, para ser devorada? — O namorado de Eric insistiu, dando vazão aos pensamentos sombrios de Dixon.

Instintivamente, Daryl olhou para trás. Como se algo o freasse, imediatamente voltando-se na direção de Alexandria. Engoliu em seco, tentando manter-se firme, impassível, fingindo que aquela cena hedionda não havia mexido consigo.

— Acho que foi algum tipo de castigo — afirmou o arqueiro, sorumbático. — Ou algum tipo de diversão para gente muito, muito fodida — assegurou ele.

Aaron engoliu em seco, mantendo seus dedos ainda mais firmes no rifle de longa distância que carregava. Daryl lhe deu um olhar de esguelha, enquanto limpava a faca e mais uma vez empunhava sua balestra.

— Vamos. Não é uma boa ideia ficarmos parados aqui — Dixon disse, severo, e manteve a caminhada atrás do rastro que acharam.

Seguiram desde o dia anterior o rastro de um sujeito de capa vermelha, que vislumbraram andando a milhas e milhas de distância quando subiram em uma colina alta, e o encontraram sozinho, em meio a uma planície longínqua. Pela distância e pela vantagem do terreno, tinham certeza de que o homem estranho não os havia notado.

Provavelmente não sobrevivera aquilo. Sumira das vistas dos dois recrutadores desde a noite passada.

Quem quer que tenha se dado ao trabalho de prender uma mulher viva ou recém morta naquela árvore, para servir de isca para errantes ou coisa que o valha, certamente não estava a sós. Havia um grupo mais perigoso por perto, e Daryl e Aaron tinham de manter os olhos, os ouvidos, e todos os seus sentidos bem atentos. Talvez o homem de capa vermelha tivesse encontrado seu fim de forma tão horrenda quanto a mulher loira presa à árvore.

Daryl e Aaron assim seguiram caminho, alertas, seguindo um rastro agora confuso de passos humanos e de errantes misturados. Viram inúmeros mortos-vivos eliminados e alguns poucos retardatários ainda vivos naquela região erma, matando-os sem que os oferecessem grande perigo.

Quando a tarde já caía e não viram sinal de nenhuma presença humana, decidiram voltar aos seus veículos, estacionados na descida de um barranco alguns poucos quilômetros longe. Acamparam perto do carro de Aaron e da moto de Daryl, atentos a qualquer sinal estranho aos ruídos noturnos da floresta.

— Eu fico com a primeira ronda, se quiser puxar um ronco — avisou Dixon ao recrutador falastrão, enquanto Aaron comia um pouco de carne enlatada.

— Não precisa. Estou bem — afirmou o namorado de Eric, embora seu semblante estivesse visivelmente cansado.

Daryl não contestou. Sabia que o sujeito estava exausto, mas ele tinha outras preocupações em mente maiores do que o sono de Aaron.

Sua mente não parava de puxá-lo de volta para Alexandria, e isso não era um bom indicativo para o sucesso da missão que os recrutadores pretendiam.

Dixon não sentia falta daquele lugar. Ou daquelas pessoas da comunidade.

Mas estava preocupado com a segurança de alguém em especial, que agora lá residia. Que também fora em missão no dia anterior, horas depois de quando ele saíra. Que ele não esperara para se despedir, estranhamente grato e também aflito pela oportunidade que Aaron lhe dera para sair de fininho.

Alguém irritante, petulante, arrogante e inconveniente... E muito dentuça.

O que estava acontecendo com ele? Dixon poderia ser muitas coisas, muitas delas ruins e reprováveis, mas algo que ele jamais fora, era um medrosinho de merda. Um covarde.

E era assim que se sentia agora. Profundamente arrependido por sua falta de colhões.

Desde que pusera os malditos pés na estrada, não conseguia parar de pensar e se angustiar com o fato de não saber se Mavie estava bem ou não.

— Você precisa de um descanso — disse Aaron, de forma aparentemente despretensiosa, mastigando a comida. Daryl não tinha fome, algo incomum para ele, que não costumava ser fresco com essas necessidades. Sua inapetência era mais uma prova de que algo anormal acontecia dentro dele.

— Não — grunhiu o caçador de volta.

— Hey — o namorado de Eric começou — não acho que deva se preocupar.

Daryl o ignorou, limpando as flechas que usara para matar errantes naquele dia.

— O grupo deles é bem grande. Glenn, Tara, Aiden, Nicholas, Eugene, Tejas... Mavie. — Dixon sentiu uma espécie de contorção interna desagradável.

— Têm um furgão resistente. Aiden e Nicholas fazem isso há dois anos. São espertos, vacinados, e só foram buscar um troço. Com certeza já voltaram ontem mesmo — afirmou Aaron.

Dixon continuou fingindo que não era com ele, evitando encarar o recrutador tagarela.

— Eu sei como é. É uma merda mesmo. No começo, eu ficava vidrado na segurança do Eric, mal prestava atenção na missão... — O homem falastrão foi subitamente interrompido por Daryl, que respondeu em um rosnado direto.

— Não sei que porra é essa que você está inventando, mas é melhor calar a boca logo — alertou-o o arqueiro, com agressividade evidente.

Aaron o encarou de forma compassiva. Sequer pareceu mexido pela ameaça.

— A quem você está tentando enganar? — perguntou o homem tagarela.

— Eu falei para calar a porra da boca — grunhiu o caçador outra vez.

— Daryl, por favor, é fácil perceber o quanto vocês... — Aaron ia insistir com gentileza, mas Dixon, tomado por um impulso de fúria infantil e irascível, zuniu uma pedra pesada na lata de carne de Aaron, fazendo-a rolar pelo chão e espalhar todo o seu conteúdo.

O namorado de Eric assustou-se por um momento, para depois recobrar a compostura e encarar os restos de comida pela grama.

— Muito maduro da sua parte. — Aaron recolheu do chão o conteúdo ainda aproveitável e voltou a mastigar, lambendo os dedos.

— Não fale do que não entende — o arqueiro ameaçou mais uma vez, com um olhar fuzilante na direção do recrutador.

Mas não podia negar que o tagarela tinha certa razão. As chances para Mavelle e os outros eram maiores do que as deles dois. Se afastaram menos, pelo que ele sabia, já que iriam para um depósito de um shopping center das redondezas, era uma missão de menor risco.

Tinha de confiar que estava tudo bem. Ou perderia a cabeça, e jamais se perdoaria se falhasse ali, no meio do nada, e deixasse seu grupo na mão... Deixasse-a sozinha.

— Eu entendo uma coisa — Aaron voltou a falar, depois de alguns minutos, com um sorriso convencido no rosto — tenho certeza de que ela está tão preocupada com você quanto você está com ela — certificou o recrutador falastrão. Daryl já estava preparado para mais uma reação agressiva e sem sentido quando ambos foram surpreendidos com uma visão inesperada.

— Viu isso? — perguntou Aaron, subitamente sério.

— Vem daquele lado. — Daryl indicou com a mão direita, levantando-se de pronto. Ajeitou a balestra nas mãos, guardando algumas flechas, enquanto Aaron seguia ao seu lado.

Tiveram a chance de ver, muito ao longe, com o binóculo de visão noturna de Aaron, que não tinham percebido apenas a imagem de uma chama acesa em uma tocha muito longínqua.

Mas sim do sujeito de capa vermelha, andando na direção de um casebre caindo aos pedaços, com a tocha nas mãos.

*****



[NAQUELA NOITE]

Mais um dia entediante e torturante havia se passado para Peggy Taylor.

Com a rotina repetitiva e atormentadora de Alexandria, a menina acordara e tomara café da manhã junto a Mavelle — que parecia um tanto ensimesmada e preocupada com algo —, e Annie, que tornara-se mais fria no decorrer dos dias na comunidade. Tara continuava desacordada, pelo que as duas falaram, e Peggy associou o nervosismo de Mavie com a condição da nova amiga.

Em seguida, aprontou-se para mais um estúpido dia escolar na garagem de uma das casas daquela ridícula imitação de cidade, ao passo que passou o tempo todo do dia letivo esforçando-se para não se perder mentalmente em todas as suas lembranças angustiantes, e o horror que elas geravam dentro de si.

Ao fim da tarde, Peggy fizera o seu melhor para tentar esquecer quem era, o que a levara ali, e toda a confusão mental que experimentava desde quando acordava até o momento em que adormecia. Tentou se distrair fazendo o reconhecimento de todas as ruas de Alexandria, gravando seus nomes, e até conversando com Carl e Enid, que pareciam mais próximos a cada dia.

A garota se afastara bastante do convívio com outros adolescentes, pois aquilo a lembrava de Noah. Era inevitável pensar o quanto ele teria amado Alexandria, se tivesse vivido para conhecê-la... Como gostaria de ter dividido aquele espaço com ela, jogado videogame com os outros garotos, enfim... Tentar algum tipo de esboço de vida normal, em sua companhia.

Junto a sua fiel companheira, sua melancolia interminável, Peggy forçava passo após passo para inventar algo o que fazer. Para fazer a dor diminuir, nem que fosse apenas um pouco.

Quando anoiteceu, decidiu ir para onde pensara primeiro, o lugar que de imediato viera a sua mente quando pensara em se distrair. Ficara reticente, tentara se controlar, pois não sabia o quanto aquilo era uma boa ideia ou não...

...Mas, por fim, acabou decidindo ir até a casa de Moritz.

Ao chegar ao pé dos pequenos degraus que levavam aquela varanda frontal da casa, no típico estilo dos subúrbios americanos, ela ouviu um assobio agudo que a sobressaltou.

— Ele não está.

Peggy voltou-se nos calcanhares, olhando assustada na direção do som.

Aiyana a encarava com um olhar zombeteiro, embora não sorrisse.

Peggy sentiu certa dose de raiva subir-lhe até o rosto, esquentando-o como se estivesse febril. A garota acabara de perder uma pessoa importante no dia anterior, com um funeral improvisado já que sequer tinham o corpo do homem que fora devorado por carniceiros... Mas isso não lhe dava o direito de agir com aquele ar superior. Peggy perdera a mãe, o pai, os irmãos e o padrasto. Quem era Aiyana para lhe olhar daquele jeito?

— Quem disse que eu o estava procurando? — redarguiu a adolescente morena, mencionando Moritz, seguindo a garota de traços indígenas. Engoliu em seco. Não sabia exatamente porque estava se justificando para ela.

— Ah, lindinha, eu não nasci ontem — afirmou Aya, com o deboche evidente.

— Você deve ser apenas um ano mais velha do que eu — Peggy a confrontou.

— Mas tenho certeza de que vivi mais. Se é que entende o que eu quero dizer — troçou Aya.

— Não. Não entendo. — Peggy, tomada de súbito por uma ira crescente, aproximou-se de forma perigosa e ameaçadora da garota uns bons centímetros mais alta do que ela.

— Vai querer me explicar? — Taylor aproximou-se de Aiyana com fúria gelada nos olhos castanhos, os punhos em riste ao longo do corpo, a chamando para briga.

Aya manteve seu olhar de desafio por algum tempo. Depois de alguns segundos, começou a rir de verdade, e seu rosto passou de presunçoso a simpático.

— Você é uma gracinha — a garota indígena elogiou Peggy, que a encarou boquiaberta. Aya virou-lhe as costas, e caminhou até um bosque próximo de Alexandria, perto da casa onde morava.

— Vocês todos são malucos ou o quê? — A adolescente mais jovem a seguiu, indignada com aquele tratamento. Definitivamente, aquele grupo circense não batia bem da cabeça.

— Tão malucos quanto vocês... — retorquiu Aya, esgueirando-se entre algumas árvores e parando em meio a terra remexida. Lá, se sentou, retirou um cobertor de sua mochila, e recostou-se em uma árvore. Enquanto isso, passou a acender uma pequena fogueira ao seu lado, para se aquecer.

— E que merda é essa que você está fazendo?! — Peggy não pôde evitar questionar.

— Vou passar a noite aqui — respondeu Aiyana, como se fosse algo normal.

Peggy passou a mão pela testa, olhando da terra remexida para Aya, da fogueira para a menina indígena outra vez, e depois esfregando o rosto em uma última tentativa de raciocínio lógico.

— Por quê?

— Porque é o meu rito de passagem — esclareceu a menina indígena.

Peggy continuou com a mesma expressão indagadora.

— Eu sou da tribo Arapaho, dos índios de Arapaho do Sul — continuou Aya — vivia em Oklahoma, junto a tribo dos Cheyenne.

A adolescente mais velha fez um sinal indicando para que Peggy se sentasse ao seu lado, caso quisesse. Parecia incrivelmente calma e resoluta. Inegavelmente curiosa, apesar de revoltada, Peggy sentou-se ao seu lado.

— Nós temos a convicção de que, quando uma pessoa querida morre, devemos ajudá-la a fazer a passagem para o mundo superior — a garota de traços indígenas falou.

— Para tanto, escolhemos a semente de uma flor que julgamos representar a pessoa que se foi. Para o Tej, escolhi um girassol. Minha preferida — confidenciou ela, encarando a porção de terra onde havia plantado.

— Então, nós rezamos aos deuses para que os guiem no caminho da luz. Para que se livrem desta existência mundana e que sua alma possa chegar ao plano elevado, seu espírito natural se solte de seu cárcere humano e passe a integrar a existência da forma que os bons espíritos fazem. Como espíritos iluminados, elevados, em paz.

— Temos a garantia de que isso aconteceu quando podemos ver a pequena muda da planta crescendo saída da terra.

Peggy mantinha os olhos naquela terra recém-plantada.

— E por que você vai dormir aqui? — Peggy perguntou.

— Não vou dormir. Farei a vigília da noite. Por ele... Por mim. São alguns dias de reflexão, noites de vigília, mas que trazem descanso a sua alma — explicou a garota da tribo Arapaho.

— Meu espírito se acalma ao saber que o dele está bem. Em comunhão com a terra, com o fogo, com o ar e a água, todos os elementos da natureza, eu posso sentir Tejas próximo, ao mesmo tempo que sei que ele está longe... Mas está em um plano melhor.

— Eu sei que ele já seguiu. Eu sei que sua alma está em paz. Mas a minha fica mais calma... Ao saber que, assim, posso ajudá-lo. Um último ato de amor... De fé... Minha despedida — esclareceu Aya, por fim, enquanto o silêncio se erguia junto ao fogo crepitante em meio ao bosque vazio.

— Você ainda tem sementes? — perguntou Peggy, com os olhos marejados, depois de um bom tempo em quietude. Aya olhou-a devagar, e as duas se encararam enquanto Aiyana lhe passou um punhado de sementes de girassol.

— Tem alguma... Diferente? — insistiu a garota adolescente mais jovem.

Aya assentiu, e lhe deu uma semente de azaléia.

Em seguida, ajudou Peggy a cavar, com as próprias mãos, e plantar cinco sementes de girassol. No bosque de Alexandria, seis flores viriam a crescer, em homenagem a Tejas, Dakota, o pai de Peggy, Haywood e seus dois irmãos.

— Azaléia tem algum significado... Especial? — perguntou Peggy para Aya, depois de aguar um pouco a terra onde plantara os cinco girassóis.

— Significa “alegria de amar”. E perseverança — afirmou Aiyana, enquanto Peggy sorria discretamente, molhando a terra com uma garrafinha de água de Aya.

— Você acabou de plantar uma Azaléia vermelha. Que significa que você ama essa pessoa há muito tempo — disse a menina indígena.

— Não deixa de ser — respondeu Peggy, por sua vez, sorrindo para a futura mudinha de azaléia.

Adeus, Noah. Eu sei que está bem. Pensou Peggy, encarando a terra molhada, enquanto Aya, sentada ao seu lado, ofereceu-se para dividir seu cobertor com a adolescente. Peggy aceitou, e as duas passaram a se recostar no tronco da frondosa árvore, aquecidas pela fogueira ao lado delas... E pelas lembranças das pessoas que amaram, e já haviam partido.

Eu vou insistir.

Vou melhorar.

Vou perseverar.

Por você.

Notas finais
*Campeá: procurar. ~ Gif by me. Dessa vez não ficou com a qualidade tão boa, algumas imagens zoadas e tal... Mas dá pro gasto! ~ Underdog, para quem não sabe, é a pessoa que sempre está em "desvantagem", o pária, o perdedor, o loser... E o título foi escolhido propositalmente para os três POVs do capítulo, que compartilham entre si esse sentimento de desmerecimento! ~ Aguardo reviews!