Hunter's Instinct
33 Episódio 33 - Red River Valley
Notas iniciais
Peggy segurou com as duas mãos a xícara de chá, fazendo um esforço enorme para não levantá-la e jogá-la com força na direção do rosto de Moritz.
Ambos sentavam-se a mesa, na cozinha da casa que agora pertencia ao grupo circense. O pôr do sol estava próximo, a garota adolescente podia antevê-lo à distância, pelo lume baixo e apagado que se dispunha através das janelas altas e estreitas daquele cômodo.
Nada em Alexandria fazia sentido. Nada daquilo era real, fossem os amplos muros, os sorrisos cordiais de seus vizinhos, a ridícula escola na garagem... Absolutamente nada. Tudo não passava de uma fantasia lapidada em um material frágil, que seria quebrado a qualquer momento.
Que já estava quebrado, dentro de Peggy.
Como ela própria.
Mas, em compensação, ela ainda não havia visto nada tão estranho quanto aquele grupo.
Aqueles três indivíduos soturnos, furtivos, quietos e simpáticos demais para serem reais. Diferentemente de Jed, que tinha uma exímia postura carismática e esbanjava autoridade, os três não agiam de forma a fazerem-se notar, não se impunham acima dos outros. Mas, também, diferentemente do povo comum de Alexandria, não se encaixavam naquela padronização patética de inofensivo morador de subúrbio.
Moritz era o pior deles. O mais solícito, o mais agradável, o que parecia menos afetado pelo fato de estar completamente destoante do ambiente que agora queria fazer parte.
O mais enigmático de todos, sem sombra de dúvidas.
— Você vai ficar aí quieto sem me perguntar nada? — Peggy franziu o cenho, incrédula. Encarou o circense por todo o tempo, como se quisesse com isso finalmente entender quem era aquele homem.
Moritz bebeu um gole educado de seu chá, sentado defronte a adolescente, do outro lado da mesa.
— Quer que eu pergunte algo? — respondeu ele de forma retórica.
Peggy franziu ainda mais as sobrancelhas, soltando a xícara que ainda não havia bebido. Por um momento, sentira-se quase grata pela interrupção do homem de meia idade de seu momento de descontrole, no qual havia atacado a lareira da casa dele. Agora, por outro lado, sentia as emoções doentias que a corroíam internamente voltando pouco a pouco. Aquela conversa parecia ainda mais sem sentido do que seu chilique anterior.
— Qual é o seu joguinho? — a garota perguntou, diretamente. A adolescente era tímida, reservada, não gostava de falar muito. Mas, nesse momento, fez o máximo de esforço que pôde para exibir uma postura desafiadora, e não demonstrar a fragilidade de suas emoções conturbadas.
Moritz deu uma risada. Uma risada lenta, sincera, parecendo um típico pai de família ouvindo uma piada divertida contada no almoço de domingo.
— Falei algo engraçado? — Peggy insistia em cortar o silêncio. Paulatinamente, sua ansiedade ia transformando-se em raiva. Não sabia exatamente por qual razão, mas o cinismo daquele sujeito a irritava de forma desmedida.
— Muito. Muito engraçado — o ex-palhaço de circo confirmou, meneando a cabeça de forma afirmativa, tomando mais um gole.
O silêncio continuou.
Peggy não aguentou mais. Levantou-se de sua cadeira, empurrando-a para trás com tamanha agressividade que o móvel quase tombou no chão.
— Para mim já chega. Já basta a loucura que é lá fora — resmungou ela, deixando o chá intacto.
— Quer dizer que acha esse lugar maluco? — Moritz finalmente falou, encarando-a com um olhar plácido.
A adolescente parou de caminhar e o olhou de volta.
— Totalmente — retrucou — e você também é.
O ex-palhaço deu mais uma risada legítima, baixando a xícara de chá com delicadeza. Ironicamente, apesar de excêntrico e estranho, o sujeito tinha uma postura refinada. Parecia alguém que fora rico em outra vida.
Peggy torceu o nariz, sem saber como reagir aquilo.
— E não somos todos, Alice? — redarguiu Moritz, dando um sorriso genuíno e afável para a menina.
— Não me chame assim. — A adolescente cruzou os braços, suas feições fechadas.
— Tudo bem, perdoe-me. Como quer que eu te chame? — brincou o sujeito.
Quero que vá se foder. Pensou Peggy, surpreendendo-se com a própria raiva. De fato era melhor se sentir irritada do que lidar com as emoções destrutivas dentro dela, mas aquilo tudo era muito, muito esquisito.
— Sabe meu nome — retorquiu a menina morena.
— Peggy, então, por gentileza — começou Moritz, com educação — se quiser se sentar à mesa novamente, acho que Aiyana assou uns biscoitos de gengibre muito bons ontem. Sinta-se a vontade para servir-se, se estiver com fome. O ex-palhaço deu mais um sorriso discreto, oferecendo-a o lugar a sua frente com a mão esquerda. Ele se levantou, e foi até um dos armários da cozinha.
A menina hesitou. Ainda tinha de matar algum tempo até poder voltar para casa sem despertar qualquer tipo de pergunta indesejável, e, não vendo outra saída, resolveu continuar ali. Por mais bizarro que aquele sujeito fosse, despertava sua curiosidade.
Assim, Peggy andou até a cadeira e se sentou. Não se ofereceu para ajudá-lo enquanto ele dispunha um pote de biscoitos na mesa, ao lado do bule de chá.
— Estão deliciosos — falou com gentileza, como seu pai falaria em outros tempos. Aquela lembrança trouxe-lhe uma pontada firme de dor ao peito, e ela apertou os dedos, fechando os punhos em cima da calça jeans que vestia.
Moritz entregou-lhe um prato pequeno, e abriu o pote para que ela pudesse pegar a comida. Peggy serviu-se de poucos biscoitos, mordiscando-os de forma discreta. Não estava com fome alguma.
— Você acha que nenhum de nós bate bem da cabeça? — Peggy perguntou, com a mão na frente da boca enquanto mastigava. O sujeito próximo dela bebericou mais um gole do chá.
— Eu não acho. Eu tenho certeza — garantiu Moritz, sem se abalar.
A adolescente ficou em silêncio, analisando aquelas palavras. Pareciam honestas. Mas o que ele queria dizer com isso?
— Eu tenho alguns anos de vida a mais do que você — continuou o sujeito, com delicadeza.
— O que significa que, ainda que imagine o quanto você já não viu durante o tempo que esteve por aqui — o ex-palhaço abriu os braços, querendo não indicar Alexandria, mas o próprio mundo em que viviam — eu posso dizer com um pouco mais de propriedade que não existe um só ser humano são. Ainda mais em uma realidade como a nossa — concluiu ele, baixando a xícara de chá.
— E você simplesmente aceita isso? — a menina questionou.
— A nossa mera existência não faz sentido, querida — falou ele com afabilidade, mas Peggy ficou reticente quanto aquele tratamento.
— Nós somos uma combinação de instinto e de racionalidade... Uma combinação que Aristóteles defendia como sendo um pouco dos “deuses” e dos animais... O humano, o intermediário entre o divino e o terreno. Preso a terra, mas tão perto do céu — comentou, enigmaticamente, o ex-palhaço de circo.
— A nossa bestialidade confunde-se com a nossa razão, e vice-versa. Para tanto, para fundar algum tipo de ordem razoável em meio ao caos da nossa própria consciência, convivemos em sociedade. E ainda assim, volta e meia damos vazão ao animal... — atestou Moritz, comendo um biscoito.
— Você consegue pensar em metafísica em uma situação dessas? — Peggy, incrédula, apontou para a janela, mencionando os carniceiros além dos muros da comunidade.
O ex-palhaço ajeitou-se na cadeira, empertigando-se para mais perto da mesa.
— A metafísica nunca foi tão relevante quanto agora — disse ele de forma dramática.
— Vivemos em um mundo onde temos os nossos limites testados dia após dia. Em que cada segundo pode ser a diferença entre a vida e a morte. Esta comunidade tenta disfarçar esta verdade, mas nem seus altos muros pode negar que, saindo daqui, tudo é incerto. E isto é algo pelo qual eu sou muito grato — o homem admitiu.
— Então você também concorda que este lugar é falso? — a menina sentiu certo alívio, imaginando que não era a única a não conseguir aceitar Alexandria.
— Não é falso. Este lugar é real. Ele é feito das vontades e das pulsões de indivíduos que não querem coadunar com o mundo lá fora. É apenas... Uma tentativa de realidade alternativa — Moritz opinou.
— Como uma comunidade hippie? — questionou Peggy, franzindo o cenho.
Moritz deu mais uma risada simpática.
— Quase. Mas o que eu quero dizer é que este lugar pode ou não durar. Aposto na segunda opção. Estamos sujeitos aos fatores externos — analisou o ex-palhaço.
Peggy continuou quieta, com uma expressão curiosa.
— É provável que não sejamos os únicos sobreviventes – Moritz deduziu — e as condições de vida lá fora são um pouco... Diferentes. — Ele parou e respirou fundo.
— É possível que chegue um dia em que as nossas normas... As nossas condutas e códigos como eram antigamente, já não valham mais nada. Em que tenhamos de aceitar o caos como nossa nova ordem, e a partir dessa realidade conduzir o que será a nova lei. — Moritz passou os dedos pela xícara, encarando a cerâmica do objeto, refletindo.
— Acha que esta é uma sociedade ultrapassada? — Peggy perguntou retoricamente, já tendo compreendido.
— É exatamente o que eu acho — confirmou ele.
A menina mordeu o lábio inferior, levando as mãos para cima da mesa, espalmando-as na toalha.
— De que tipo de nova conduta você está falando? — a garota indagou, olhando para o homem como se subitamente percebesse algum sentido oculto naquele discurso.
O ex-palhaço de circo piscou lentamente e deu a menina um olhar ardiloso. Nunca havia parecido mais comum, mais normal quanto agora.
E jamais parecera tão ameaçador.
De súbito, a porta da frente da casa passou a bater ritmadamente. Moritz tinha visitas, e ele logo se levantou para recepcionar quem quer que fosse.
A adolescente também ergueu-se da cadeira, de forma mais polida, e dirigiu-se até a porta da frente. Já fora demais para um dia só.
Despediu-se do ex-palhaço com gentileza forçada, dando-lhe um tchauzinho e agradecendo pelos biscoitos. Já havia passado cerca de quinze minutos desde o fim do horário letivo.
Na porta, encontrara Rick Grimes, que dissera a Moritz, de forma séria porém educada, que tinha três perguntas a lhe fazer. Ignorando a curiosidade que aquilo lhe despertou, Peggy seguiu em frente, saindo daquela casa sem olhar para trás.
Peggy ajeitou os cabelos atrás da orelha, respirando fundo. Sentira como se tivesse acabado de acordar de um torpor.
Aquela conversa fora de fato controversa... Simultaneamente tão misteriosa quanto reveladora.
*****
[NO DIA SEGUINTE]
Aquele dia começara cedo para Glenn Rhee.
O asiático fora acordado, depois de uma noite bem aproveitada com sua esposa, que dormia a sono solto em seus braços... Pela desagradável presença de Aiden Monroe em sua porta de entrada.
Falara que tinham de passar a organizar tudo para a missão daquela manhã desde muito cedo, pois precisariam consertar certo problema urgente: a rede de energia elétrica de Alexandria parara de funcionar.
Assim, Aiden o aconselhou — na verdade, ordenou, com seu jeito desagradável — que Rhee fosse, de preferência acompanhado, para além dos terrenos de Alexandria, buscar litros extras de gasolina em uma oficina abandonada, dentro do perímetro que ele e Nicholas já haviam limpado consideravelmente da presença de errantes.
Sem escolha, Glenn se despediu rapidamente de Maggie, que resmungou, sonolenta. Em seguida, foi em busca de Tara e Mavelle em sua respectiva casa.
Como Chambler não havia acordado e fora Mavie quem abrira a porta, acabaram por irem os dois sozinhos.
Glenn sentiu-se parcialmente culpado. Não sabia quanto tempo aquilo ia demorar, e pôde ver uma hesitação de segundos nos olhos da irlandesa.
Ela não seria a única a ir a uma missão externa naquele dia, e provavelmente queria se despedir de alguém.
Alguém que também fora incumbido de uma nova tarefa, que poderia despender dias, talvez semanas, na execução da mesma. Alguém que era o novo recrutador, junto a Aaron.
Daryl Dixon também sairia muito cedo naquele dia, sem hora, nem garantia de retorno.
Glenn não era nenhum gênio ou nenhum dos membros com mais autoridade dentro do grupo de Rick Grimes, mas era perceptivo o suficiente para entender o que se passava com aqueles dois.
Ele vira a forma como Dixon reagira ao encontrar Mavelle desfalecida, caída no chão do quarto de Noah, na comunidade dos parentes dele. Ele conhecia seu amigo, e pouco a pouco passava a conhecer também a garota irlandesa.
Sentia-se um pouco mal por ser o arauto daquela notícia, mas não havia outra escolha. No mundo em que eles viviam, certos sacrifícios eram necessários. Pensou até em dizer para Mavie que poderia esperar Tara acordar, mas, durante os segundos que levara para aferir a hesitação dela e dar essa sugestão, a garota de dentes salientes já havia afirmado que o acompanharia.
Assim, os dois foram e retornaram com sucesso. No caminho de volta até a frente da casa de Deanna, onde Aiden, Nicholas, Tejas, Maggie, Tara, Eugene e Reginald aguardavam, organizando os pertences necessários para serem levados naquela missão de coleta, Rhee reparou que Mavelle dera um olhar de esguelha para a casa de Aaron.
A moto que Daryl consertava, que montava, na verdade, dentro da garagem aberta do namorado de Eric, não estava mais lá.
Berry não falou palavra, apenas engoliu em seco. Glenn não seria sem noção a ponto de puxar aquele assunto, então, fingiu que não fazia ideia do que se passava.
Enquanto Rhee cumprimentava sua esposa mais uma vez, Mavie, atrás dele, fez-se ouvir, entregando uma pistola nas mãos de Eugene, com estrépito.
— Pegue — falou a irlandesa. Sua voz soou um pouco seca, algo incomum.
— Não, obrigado — Eugene agradeceu, e tentou devolver-lhe a pistola.
— Você precisa de proteger! — Glenn viu Mavelle insistir, parecendo mais impaciente do que de costume.
— Não se eu não for — retrucou o homem acima do peso. Glenn já estava pronto para tentar convencê-lo do contrário com gentileza, mas Aiden saiu de perto da companhia de seus pais, metendo-se entre os três.
— Não vamos até lá para voltar com a merda errada — disse Aiden, grosseiramente. Parecia julgar a covardia de Eugene.
— É uma dúzia disso — falou o homem medroso, mostrando o aparelho — têm a mesma aparência — garantiu Eugene, nervoso.
— A merda está certa. Eu vou instalar a tal merda — tentou o homem de mullets — assim a rede voltará a operação total. — Coçou a cabeça, mostrando ansiedade.
Eugene tentou devolver a pistola mais uma vez para Mavie, que revirou os olhos, virando-lhe as costas, e recebeu a mochila que Tara lhe entregara.
Glenn deu um tapinha no ombro de Eugene como se para incentivá-lo.
— Pegou tudo? — Rhee ouviu Deanna perguntar para Aiden, ao seu lado.
— Kits de primeiros socorros, páginas amarelas. Glenn fez uma lista — o asiático ouviu o filho de Deanna falar seu nome, e comprimiu uma careta de desgosto.
— Estamos bem, juro — Aiden garantiu a mãe e ao pai.
— Eu sei. Só estou preocupado. Afinal, foi por isso que criamos esse muro aqui em volta — Reginald finalmente falou.
Em seguida, Glenn observou Aiden dar um beijo de despedida em sua mãe, que disse-lhe que o amava.
— Cuide-se, pai! — disse um animado e pomposo Aiden Monroe.
— Eu que deveria dizer isso a você — contestou Reg, com delicadeza.
Ao enfim ver Aiden encaminhando-se para a porta do furgão que dirigiria, Glenn foi mais uma vez despedir-se da esposa. Teve o cuidado de não olhar para sua barriga grávida, para não demonstrar preocupação, mantendo uma postura firme e inabalável. Queria deixá-la tranquila, assegurar-lhe que voltaria.
— Isso é tudo? — Maggie perguntou.
— Sim, está tudo certo — assegurou Rhee.
— Já vai então? — sua esposa indagou mais uma vez, ao passo que o descendente de coreanos balançou a cabeça afirmativamente.
— Você consegue — Maggie falou para ele, como se quisesse ser assertiva mais para si mesma do que para ele.
— Você sempre consegue. — Ela respirou fundo, buscando forças para esperar.
— Sempre. — Glenn puxou-a com delicadeza, e se beijaram em despedida. Sabia que tinha um dever a cumprir, acima de todos. Teria de ir, e teria de voltar.
Jamais se permitiria aquilo, jamais se perdoaria se deixasse a mulher que ele tanto amava sozinha.
De muito longe, Glenn passou a ouvir a voz de Reginald.
— A rede elétrica era um protótipo. Fico surpreso que tenha demorado tanto a dar problema... — confessou o marido de Deanna Monroe.
— Não se preocupe, a gente conserta. — Glenn cumprimentou ambos em despedida.
— O sol está queimando, vamos! — Abrindo a porta do lado do motorista, Aiden cobrou que Rhee se juntasse a Mavelle, Tejas, Tara e Eugene no compartimento de carga do furgão. Nick ia ao seu lado, no banco do carona.
Mais uma vez Deanna se aproximou de Glenn, e disse, em despedida:
— Sei que já falei antes... Mas obrigada. — Deanna Monroe deu-lhe um olhar significativo. Glenn compreendeu que ela mencionava a “lição” que ele dera em seu filho.
— Claro. — Ele baixou a cabeça, confirmando sem jeito.
Glenn andou rapidamente até o furgão, dando um último adeus para Maggie, de longe. Doía fundo em seu peito deixá-la ali, esperando por ele, mas sabia que faria de tudo para voltar o mais rápido possível.
Mavelle, parecendo tentar disfarçar a frustração que Rhee sabia que ela sentia, conversava de forma forçadamente animada com Tara, que parecia estranhar um pouco aquela súbita alegria.
Tejas, com sua expressão reflexiva, continuava em silêncio por todo o tempo. Glenn olhou para as mãos do indiano, vendo o amplo chicote que ele carregava. De fato aquele sujeito era mesmo uma boa adição.
Quando já haviam se afastado de Alexandria, dirigindo em meio a estrada, Aiden, no banco do motorista, mudou a trilha sonora dentro do carro. Substituiu uma agradável canção country para colocar algum tipo de música techno, enfadonha e aguda demais, alguns de seus mixes estranhos.
— Puta merda — Tara falou, tolhendo o riso. — Outro mix!
— Ao menos ajuda a afastá-los... — comentou Glenn, mencionando os errantes.
Nick, do banco da frente, passou a esclarecer que dentro de uma hora, mais ou menos, chegariam a um depósito de produtos eletrônicos que ficava anexo a um pequeno shopping da região. Atentos a qualquer imprevisto, o grupo seguiu viagem, com Tej incrivelmente calado por todo o tempo.
Rhee não fazia a menor ideia do que se passava na cabeça daquele sujeito.
Ao enfim chegaram nas proximidades do shopping center e do depósito, Aiden parou o carro em um estacionamento anexo. Desceram do furgão, e Tara Chambler perguntou se era ali mesmo.
— É o armazém. Aquela porta ali é a entrada e a saída mais próxima. O salão de entrada do prédio administrativo do shopping — esclareceu o líder da equipe de batedores.
— Devemos verificar todas as saídas possíveis primeiro — sugeriu Glenn.
— Yeah, assim temos um plano B — Mavie completou.
— Já temos um plano B. Chama-se: “sair pela frente”. — Nick deu uma risada desagradável, que Aiden acompanhou, debochando dos dois.
Glenn respirou fundo, já preparado para contestar aquela ridícula situação. Pelo visto, Aiden sentia que o asiático queria tomar sua posição de “alfa” do grupo. Rhee não tinha culpa se o filho de Deanna era um total incompetente.
— Mavie, à frente! — Tara sobreavisou, alerta.
Glenn voltou os olhos na direção do aviso, vendo um errante que se aproximara deles, silencioso e sorrateiro. Mavelle deu cabo dele em um segundo, com uma flecha incrivelmente certeira.
Estava inspirada pela raiva, pelo visto.
— Boa mira — Aiden elogiou Mavie, com um olhar inconveniente. A irlandesa o encarou com uma amostra tão particular de desprezo que até Glenn se sentiu constrangido por ele.
Eugene, que mantinha aquela espécie de gerador para o funcionamento da energia elétrica da comunidade em mãos, enfim limpou a garganta e disse alguma coisa.
— Olha, eu acho que Glenn e Mavie estão certos. Temos de checar o perímetro, conhecer as saídas... — Eugene calou-se, percebendo que Nick e Aiden o haviam ignorado de tal forma que nem sequer pararam para escutá-lo. Glenn viu Tara dar um aperto de leve no ombro do sujeito covarde, como se o incentivasse.
O grupo passou algum tempo limpando o local de errantes. Dividiram-se em três grupos para tanto: Tara e Eugene foram por um caminho, Tejas, Nicholas e Aiden por outro, Glenn e Mavelle por outro.
Enquanto já matavam os últimos mortos-vivos que sondavam aquela região, Glenn decidiu desanuviar a tensão, percebendo que a amiga irlandesa começara a ficar novamente tensa.
— Bela flechada aquela. Melhor do que de costume, até — elogiou-a.
— Né? Acho que foi porque eu imaginei que o carniceiro era o Aiden. Quase pratiquei tiro ao alvo nele, na semana passada — debochou a garota de dentes grandes. Glenn deu uma risadinha, compreendendo o que ela sentia.
— Vou te falar que eu também — confessou o asiático, ao passo que os dois se aproximavam da entrada do prédio administrativo do shopping center.
— Feck — sussurrou Mavelle, em uma expressão idiomática de seu país.
— Sem condições de sair pela frente — asseverou Rhee, atestando como aquela parte do terreno estava infestada de mortos-vivos.
Voltando para o caminho onde fora decidido que entrariam, Glenn e Mavie se uniram aos outros, que já os aguardavam, para entrar no armazém.
Logo depois, Rhee abriu a porta, sendo seguido por Aiden e Nicholas.
— Dêem mais um segundo. Esse lugar é grande, pode ter gente dentro — aconselhou.
— Digamos que tenha? — Aiden falou, em tom de dúvida.
— Então vamos devagar. — Glenn o encarou com austeridade, e Monroe concordou a contragosto.
O grupo, silencioso e impassível, até mesmo com Eugene na retaguarda, passou por prateleiras e prateleiras do depósito, vendo os mais variados produtos eletrônicos, desde ventiladores e aparelhos de ar condicionado até computadores de última geração.
Eugene lhes fez um sinal, mantendo-se quieto, indicando que provavelmente o objeto estaria nas últimas prateleiras, perto de outros dispositivos que ele reconheceu como ligados ao funcionamento de redes elétricas.
— Certo, vamos — Mavelle falou entre dentes, ao lado de Glenn. Ela mantinha o arco levantando, uma flecha já posicionada no cordel.
— Tara, tudo certo? — indagou o asiático. Ele ouviu a confirmação a distância.
— Tej? — o descendente de coreanos perguntou, e o indiano assegurou que tudo estava bem, piscando sua lanterna à distância. O local parecia livre de errantes, mas estava escuro demais para terem certeza.
Seguiram em grupos divididos ao longo dos corredores, caso o palpite de Eugene estivesse errado. Aiden, Glenn e Mavelle chegaram próximos a uma espécie de portão cercado, fechado com grades.
E, finalmente, o cheiro e os grunhidos característicos deixando claro... Perceberam que tinham companhia.
— Estava bom demais para ser verdade — comentou a irlandesa, preocupada.
— Estão presos ali atrás. Talvez consigam quebrar a cerca, agora que estão sentindo o nosso cheiro e nos vendo — Glenn avisou, nervoso.
— Como sabe? — Aiden perguntou, mostrando sua inexperiência.
— Não sei. Mas tomem cuidado — alertou o resto do grupo. — Fiquem atentos, por favor — repetiu.
Assim, Tejas, Mavelle, Glenn, Tara e Eugene passaram a conferir todos os corredores, por via das dúvidas. Ao passo que percebiam que de fato não haviam errantes por perto, falavam com um tom de voz comedido “limpo” para que o grupo soubesse que o caminho estava livre.
— Vocês são bons nisso — Aiden reconheceu, estupefato.
— Ficamos muito tempo lá fora. Até demais. — Tara coçou a cabeça com o cano da arma, uma imagem um tanto irônica de se ver. — Vamos ao trabalho logo. Sua vez! — apontou para Eugene, mostrando certa consternação.
Glenn pediu a Mavelle que os seguisse e lhes desse cobertura, já que Eugene errara o corredor correto algumas vezes. Ela assim o fez, enquanto Rhee ficava na retaguarda com Aiden, Nick e Tejas.
— Acharam! — Mavelle avisou a todos, enquanto parecia observar Tara e Eugene.
De imediato, o alívio súbito envolveu os coletores, mas não por muito tempo. Um dos errantes conseguira derrubar parte da cerca, e se aproximava. Um soldado, com algum tipo de máscara de batalhão especial, e uniforme do exército.
— Ele tem uma armadura, deixe que se aproxime. NÃO atire nele, pode ser que ele esteja carregando... — deu a sugestão para Aiden, que parecia assustado. O errante ia direto para ele. Mas Monroe o interrompera.
— Deixa comigo. — Aiden atirou no errante, inconsequente.
— AIDEN, PARA! — Glenn gritou, mas era tarde demais.
O pior acontecera.
O morto-vivo explodiu dentro do depósito escuro, iluminando aquele repartimento com uma luz intensa por alguns segundos. O som potente da explosão deixou os ouvidos de todos zumbindo, reverberando por todo o depósito e atiçando ainda mais os mortos que passavam a sair da parte do portão que cedera.
Rhee, que fora jogado para trás tamanha a força daquela detonação, levantou-se, limpando a poeira dos braços e resgatando a lanterna que caíra perto de si. Foi em busca dos outros.
— Ele está morto... Merda. Meeerda — Glenn murmurou para si mesmo, vendo o corpo de Aiden Monroe preso em ferrolhos junto as prateleiras, como se fosse um estranho e mórbido item em exposição. Rhee, atormentado, andou para o outro lado, e quase trombou com Mavelle, que piscava os olhos sensíveis pela luz forte anterior. Nicholas estava atrás dela, apavorado.
Os três seguiram nervosamente em busca dos outros, adaptando sua visão e seus ouvidos a nova escuridão e ao fim do estrondo da explosão.
— Tara, Eugene, Tejas? — Glenn os procurava em todos os cantos. Demorou alguns segundos e enfim achou Tej, que já brandia o seu chicote contra alguns errantes, eliminando-os com incrível facilidade.
— Você está bem? — o asiático perguntou.
— Sim, mas o portão está abrindo. Precisamos fugir! — A voz de Tejas, sempre tão séria, parecia agora alarmada. Aquilo deixou os nervos de todos ainda mais à flor da pele.
— Eugene! — Foi a vez de Mavelle mover-se para mais perto das prateleiras onde Tara e Eugene haviam parado antes.
— Não dá para ver se ela está ferida... — Tej constatou, vendo por entre as prateleiras que Tara estava caída ao chão, com muito sangue em volta de sua cabeça.
— Decomposto! — Indicou Tejas, movendo seu chicote de forma a destruir o crânio do morto-vivo. Alguns outros errantes o seguiam, famintos por carne humana. Um deles desviou-se até Eugene.
— Eugene, esse é seu, acaba com ele! — Glenn falou, repleto de adrenalina.
Mavelle, o asiático, Nicholas e Tejas se moveram na direção do homem covarde, enquanto eliminavam os corpos podres do caminho. Ao chegarem lá, o morto havia conseguido cair em cima de Eugene, que errara vários tiros e estava prestes a ter seu nariz abocanhado.
Tejas brandiu o chicote de forma eficiente, puxando o errante para longe, pelo pescoço. Ele caiu aos pés de Mavelle, que pisou em seu crânio, acabando com a ameaça.
Angustiado, Eugene levantou Tara pelas costas e nuca.
— Ela sofreu um traumatismo... — Eugene falou, assustado. — Precisamos levá-la para a van! — disse ele, atônito.
Então, um calafrio de horror perpassou a espinha de todos.
— Socorro! — A voz de Aiden, enrolada e gutural, se fez ouvir a alguns metros de distância. Parecia se engasgar com algo... Provavelmente o próprio sangue.
Todos se entreolharam, sem saber como agir.
— Entrem naquele escritório enquanto eu pego a Tara, vão, vão, vão! — Apontou o asiático, levantando a mulher.
— Ai caramba, ele ‘tá vivo? — Mavie franziu as sobrancelhas, também atrapalhada, olhando pelas janelas de vidro do escritório que haviam acabado de entrar. O corpo dependurado de Aiden movia-se trêmulo, semimorto.
— Eu verifiquei, ele... — Nick ia falar, mas Glenn entrou a toda no escritório, depositando Tara em cima de uma escrivaninha. Eugene avaliou os sinais vitais dela e o ferimento, junto a Tejas.
— Precisamos pegá-lo. Para tanto, será preciso três de nós. — Glenn já ia se locomovendo para a porta, mas Tej e Nicholas pareciam um pouco reticentes.
— Temos esse tempo? — Tejas perguntou, descrente.
— Tirar ele de lá pode matá-lo. — Nicholas não se moveu.
Alguns segundos tensos se passaram, e Eugene quase gritou.
— Vão! Ele faria isso! Eu sei. Ficarei com a Tara e a protegerei, prometo. — Eugene olhou para Glenn e Mavie, que enfim assentiram e correram na direção de Aiden. Sem escolha, os outros os seguiram.
Os quatro usaram o sinalizador para desviar a atenção dos errantes, enquanto enfrentavam alguns mortos no mano a mano. Depois de atacar e se livrar de cerca de vinte mortos-vivos, puderam se aproximar de Monroe.
Mavelle garantiu a retaguarda, mirando flechas nos errantes retardatários.
— Vai dar tudo certo, vamos tirar você daqui. Vai ficar tudo bem. Preciso que fique quieto, pode fazer isso? — Glenn pediu a Aiden, que confirmou com a cabeça trêmula.
Contaram até três, enquanto Rhee, Tejas e Nick tentavam retirar Aiden dos ferros que atravessaram seu corpo e o mantinham preso daquela forma cruel. O homem gritou, sem conseguir se segurar, atraindo mais e mais errantes.
— O sinalizador está apagando! — Mavelle avisou, angustiada.
— Vamos de novo. — Glenn continuava firme.
— Não vai dar. — Nick deu para trás.
— Vai dar sim. Mas eu preciso da sua ajuda — Glenn olhou fulminante em seus olhos — você consegue!
— Nick, não me abandone! — implorou Aiden.
Nicholas engoliu em seco e insistiu mais uma vez. Nem com seus maiores esforços os três conseguiram retirá-lo de lá.
O rosto de Nick tornara-se lívido. Glenn, pasmo, viu-o e ouviu-o falar algo horrendo aos ouvidos de Aiden.
— Você os abandonou. Nós dois abandonamos. É o que somos. Sinto muito! — O homem correu para longe do amigo, covardemente.
— Sinto muito! — Continuou a correr, abandonando o grupo à própria sorte. Parecia se direcionar a entrada administrativa do shopping ao lado do depósito.
— Não vai dar para segurar! São muitos! — Mavie alertou a todos, seus olhos arregalados.
Aiden, em um último esforço, tocou no braço de Glenn. Mal parecia conseguir respirar.
— Fomos nós. Os outros não entraram em pânico. Fomos nós — confessou o filho de Deanna Monroe.
— Não, não... — Aiden lamentou-se, vendo a quantidade de errantes que se aproximava. Tej tentava conter alguns, mas não conseguiriam se livrar daquela massa assombrosa.
Mavelle, com o rosto repleto de ansiedade, puxou Glenn Rhee para longe, que engoliu em seco, ainda encarando Aiden. De longe, fugindo daquele lugar, testemunharam aquela cena grotesca... Aiden, pendurado como uma carne em um açougue, sendo devorado enquanto chorava desamparado como uma criança.
Sem escolha, Rhee, Berry e Tej correram desesperados no encalço de Nicholas. Encontraram-no na sala de entrada do prédio administrativo, tentando abrir o que era uma porta de elevador.
Nick engoliu em seco e olhou para eles, seu rosto deformado pelo medo.
— Escutem! Este é um elevador panorâmico. A parte de dentro é de vidro, e está parado aqui. Ajudem-me a abrir essa porra e poderemos escapar! A porta giratória ali está tomada, não tem como fugirmos! — Nicholas empurrava, com um pé de cabra, a porta de metal do elevador.
Tejas correu para ajudá-lo, de imediato. Glenn e Mavie davam-lhes cobertura, mas algo surpreendente aconteceu.
Tej resvalou em uma enorme estante ao lado do balcão da recepção, derrubando-a em cima de si. Mavelle correu para ajudá-lo, mas o objeto era pesado e estava repleto de itens de arte e decorativos, que se quebraram na queda em cima do indiano.
Subitamente, ouviram um barulho estridente do lado de fora. O mix de Aiden.
— Boa, Eugene! — Glenn falou um pouco mais esperançoso, vendo ao longe, pelas vidraças da porta giratória a qual inúmeros errantes já começavam a abrir, o homem dirigindo o furgão e atraindo alguns dos mortos.
— Não estou conseguindo! — Nick quase chorava, enquanto Mavelle se esforçava sofregamente para puxar Tej debaixo da estante, o rosto dele sangrento e machucado pelos objetos que se partiram em cima de si.
— Hey! — Glenn chamou a atenção de todos, matando os errantes que chegavam pelo corredor por onde entraram, uma passagem que vinha do depósito. A porta giratória enfim cedera, e mais mortos-vivos passaram a entrar.
Os três o encararam, e ele falou:
— Nick, você e Mavelle abrem o elevador e quebram o vidro. Eu puxo o Tej. Depois vocês voltam para nos dar cobertura e saímos todos juntos. Vai dar tempo, mas a gente tem que fazer tudo em conjunto, ok? — Glenn liderou-os e todos assentiram.
Entretanto, assim que Nick e Mavelle, que usou um pedaço quebrado de uma escultura para ajudar Nicholas a abrir a porta entreaberta do elevador, foram bem sucedidos em sua tarefa...
...Nicholas saiu correndo na frente da irlandesa, colidindo ombro a ombro e entrando no elevador. Mavelle, sem opção, ficou entre a porta que se esmagava pesada em seu corpo, enquanto Nick quebrava o vidro e fugia para longe.
— Não, não, não, não! — Glenn falou, mordendo o maxilar, e tentando puxar a porta de forma a libertar Mavelle. Podia quase sentir os errantes bafejando em seu pescoço.
Assim que ele conseguiu empurrar um pouco da porta, Mavie caiu para o lado de dentro do elevador quebrado, gritando pela dor da porta que a esmagara contra a parede.
Sem poder ajudar, Glenn pulou para dentro do elevador, enquanto Tej lhe estendeu uma mão, berrando em completo terror. Ele e Mavelle tentaram mover a porta para ajudar o indiano, mas quando o fizeram, mãos e mãos de errantes se movimentaram para dentro, como garras de predadores famintos.
Pelas frestas entre os inúmeros braços que tentaram destroçá-los, os dois puderam ver aquela cena horrenda. Com apenas o peito, pescoço e rosto para fora da enorme estante, os errantes se aglomeraram em volta de Tejas, comendo sua face, seu tronco e seu pescoço com voracidade.
Ambos soltaram a porta de enorme peso, que, como uma guilhotina, cortou fora os membros decrépitos de vários errantes, caindo em cima e ao redor deles.
Glenn, letárgico e paralisado, encolheu-se em si mesmo, seu rosto distorcido em uma expressão de profunda dor, enquanto Mavelle desatava a chorar ao seu lado.
Os gritos do indiano cessaram muito rápido.
Depois de minutos infernais que pareceram dias, Rhee achou forças para se levantar, e puxou Mavie pela mão, que ainda mantinha o mesmo choro convulsivo.
Seguiram caminho até o furgão, passando pela abertura no vidro que Nicholas fizera, e enfim Mavelle secou seu rosto. Viram Eugene caído no chão, e, no mesmo instante, Glenn sentiu seu lado bestial tomar-lhe por inteiro.
Puxou Nick do banco do motorista com todas as suas forças, fazendo aquele maldito se estatelar no chão. Mavie, indiferente a covardia que agora os dois praticavam, passou a ajudá-lo a espancar o homem caído, esmurrando-o e chutando-o tanto que ele desmaiara.
Se não fosse por Eugene, que afastou Rhee, que, por sua vez, segurou Mavie... Talvez tivessem assassinado o covarde ali mesmo.
— Ajudem-me a carregá-lo. — Glenn Rhee pediu aos dois, seus olhos agora repletos de lágrimas.
— Onde está Tej? — Eugene perguntou a ambos, e a resposta de Mavie e Glenn estava explícita em seus olhares desolados.
*****
[NAQUELA NOITE, EM ALEXANDRIA]
Mavelle já havia chegado à comunidade fazia algumas horas.
Seu estado catatônico, assim como o de Glenn e Eugene, e o corpo de Tara, desacordado, sangrando muito... Fora resposta completa o suficiente para os outros habitantes entenderem o que acontecera.
Ela não conseguia tirar da cabeça a imagem de Deanna e de Reg quando souberam que seu filho morrera. Tampouco as faces de Moritz e de Aiyana reagindo à perda de Tejas. Ao encarar a morte, as pessoas de fato se viam como iguais.
Alexandria estava silenciosa àquela noite. As ruas, vazias, demonstravam o luto pela perda de dois habitantes... Um veterano e um novato, dois opostos um do outro... Mas que morreram de forma pavorosamente parecida.
Sentindo-se desalentada, Mavelle não conseguiu ficar na companhia de sua avó e de Peggy, mesmo que as duas tenham sido bastante solícitas e tenham sofrido também, especialmente, pela preocupação com o estado de saúde de Tara.
Atormentada com o que vivera, com mais um lembrete do que era a realidade de todos naquele mundo, angustiada pelo fato de que sua amiga ainda não despertara... Mavie ainda tinha outra preocupação gritante em mente.
Retumbando dentro de seu peito.
Ela andou na direção da casa de Rick Grimes, olhando desconsolada para aquela varanda vazia. Faltava alguém lá.
Em seguida, dirigiu-se até a garagem de Aaron, ainda aberta. Furtivamente caminhou para dentro dela, olhando as prateleiras com itens de motocicletas, muitas peças de ferro e aço espalhadas... Sem a moto que se acostumara a ver ali, de longe.
Sem a pessoa que costumava ali ficar.
Mavelle Berry passou as mãos pelo rosto, apreensiva, fechando os olhos. Não. Não vai acontecer nada. Você tem que ser forte. Você...
— Mavie! — Uma voz infantil aguda falou alto atrás dela.
Seu coração quase parou, pelo susto intenso. Atarantada, Mavelle voltou-se na direção dele.
— Sam, isso é jeito de falar com as pessoas? — ela reclamou, sua voz soando mais repressora do que ela pretendia.
O garoto deu um passo atrás, olhando contrito para a irlandesa.
— Desculpa. É que está todo mundo muito triste hoje... Eu também. Daí quis te procurar — o menino desculpou-se.
— Não, está tudo bem. — Ela balançou a mão, dizendo que não foi nada. — O que você quer? — perguntou com mais delicadeza.
— Eu sei que não deve ser a melhor hora, mas... Será que a gente não pode ter a aula de música que você não pôde me dar essa tarde? Desculpa se eu estiver pedindo demais... — o garoto falou, parecendo já esperar ouvir um não.
Berry olhou para trás, na direção da moto ausente.
— Não. É uma boa hora sim. Vamos lá. — Mavie agradeceu internamente aquilo. Tudo o que mais precisava era de uma boa distração.
*****
— Lembra de que você me pediu para ver o que eu conseguiria tocar sozinho da lista de partituras? — Sam comentou, sentado em uma cadeira na frente dela, na biblioteca vazia de Alexandria.
Mavie concordou com a cabeça.
— Eu achei uma canção. A mais fácil que tinha aqui. Olha só, acho que ficou bom — o garoto falou com um sorriso luminoso que fez a alma desgastada da irlandesa sentir-se mais leve.
— Pode começar. — Mavelle sorriu para o menino, sentindo-se um pouco mais consolada.
Sam tomou fôlego e ajeitou as mãozinhas no violão.
Mas ela não estava preparada para o que viria.
— From this valley they say you are going — o menino cantou com sua voz inocente e límpida, as cordas do instrumento dedilhando uma canção aguda, tocada de forma amadora.
— We will miss your bright eyes and sweet smile — continuou docemente o garoto, sua voz aguda de pequeno tenor preenchendo aqueles aposentos e os ouvidos de Mavelle.
— For they say you are taking the sunshine… — Sam tomou fôlego, e Mavie passou a respirar rápido.
— …Which has brightened our pathways a while. — O garoto fez mais uma pausa, olhando a partitura para se lembrar.
— Come and sit by my side, if you love me; do not hasten to bid me adieu... — o menino cantarolou graciosamente, enquanto Berry passou a mão em uma das bochechas, franzindo as sobrancelhas pela emoção que passou a consumi-la.
— …Just remember the Red River Valley… — a canção havia chegado em seu ápice, e Sam encarou Mavelle que mal conseguia conter as lágrimas.
— …And the cowboy that loved you so true. — terminou ele.
Mavie levantou-se de um salto.
— Mavelle? Está tudo bem? — o garotinho perguntou, surpreso.
— Está! — Mavie disse com a voz embargada, abrindo a porta da biblioteca. — Eu já volto, ok? — garantiu ela, fechando a porta em seguida.
Mavelle correu direto para as árvores que haviam nos limites daqueles muros de Alexandria. Escondeu-se atrás de uma delas, e desabou.
Aquela melodia falou fundo dentro de sua alma. Aguda, melancólica e sofrida, era uma canção de despedida... Uma canção de partida.
“Red River Valley” ou “The Cowboy Love Song”.
Chorou todo o pranto contido que tinha dentro dela, colocando para fora todo o horror daquele dia. Todo o medo que sentira, todo o sofrimento que vivera, relembrando o que era a sua realidade, o que eram as verdadeiras perspectivas.
Há muito tempo não se sentia tão agoniada.
Não por ter medo de morrer.
Mas por ter medo de perder alguém.
O coração de Mavie batia tão acelerado em seu peito que ela mal conseguia senti-lo direito. Apenas a dor lancinante que atacava aquela área de seu corpo.
Estava apavorada. Desamparada.
Daryl fora embora em uma missão talvez mais perigosa do que a dela, e ela não tivera sequer a chance de lhe dizer adeus.
Por favor... Por favor não me deixe. Eu não vou aguentar.
Por favor, você tem que voltar.
O choro de Mavie continuava perene, enquanto ela se permitia aquele momento de fraqueza. Seu corpo foi caindo para o chão, deslizando pela árvore atrás de si, enquanto a última estrofe cantada por Sam ressoava em seus ouvidos como se ele estivesse ao seu lado cantarolando outra vez.
“Just remember the Red River Valley...
…And the cowboy that loved you so true.”

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