Hunter's Instinct
32 Episódio 32 - The Broken Windows Theory
Notas iniciais
— Becky… — Billy Ray voltou-se para trás, olhando preocupado para a mulher loira que o acompanhava. Rebecca, parecendo exaltada e até mesmo um tanto desorientada, encarava exatamente o que Billy acabara de ver. Seus olhos castanhos escuros estavam arregalados, suas mãos seguravam firmes seu taco de baseball, pronta para atacar o que lá havia.
Mas o que lá havia...
...Era absolutamente nada.
— Becky, o que está acontecendo? — perguntou Billy, levantando as mãos em uma postura mediadora, como se quisesse acalmá-la um pouco com esse gesto.
— BILLY, VOCÊ ENLOUQUECEU?! — a jovem fez a irônica pergunta com sinceridade. — ELE VAI TE MORDER AGORA! SAIA DAÍ! — Rebecca, fora de seus sentidos, pulou no ar em um arco ágil na direção do suposto inimigo que atacaria Billy. Passou a golpear o ar em volta do sulista do Alabama, talhando o que fosse que ela via ali.
Billy, ele mesmo angustiado com aquela cena inusitada, tirou seu chapéu do chão arenoso e cobriu sua cabeça com o mesmo.
Realmente, Becky era mesmo maluca.
Sem saber como reagir, Billy Ray encarou a luta imaginária de Rebecca com o ar a sua volta, espancando uma rocha seca que ali havia como se esmagasse a cabeça de um carniceiro. Depois de alguns segundos nos quais a mulher loira parecia completamente absorta naquela tarefa, seus olhos quase saindo do rosto tamanho o esforço que fazia, Billy a puxou pelos ombros falando com a voz mais calma que conseguiu pronunciar:
— Pronto, você já o matou. Já passou agora. Já passou — disse Billy Ray aos ouvidos de Rebecca.
A jovem loira voltou-se nos calcanhares, ainda mantendo o taco de baseball empunhado. Por pouco não golpeara o homem.
— Becky, fique calma. Sou eu. Billy Ray. — Billy apontou para si mesmo, falando bem devagar.
— Por que você está me tratando desse jeito estranho? — A mulher loira o encarou, desconfiada. O taco ainda estava a postos.
Billy engoliu em seco.
— Não estou fazendo nada estranho. Não acha melhor dormir agora? Está bem tarde... Eu faço a vigia da noite — aconselhou o sulista.
— Você pirou, é? — Becky insistiu. — Se um rastejante conseguiu subir aqui, quem garante que outros não? Temos de ir embora, eles podem estar por toda a parte! — A mulher loira olhou para os lados, angustiada, tão alerta e paranoica que parecia que poderia enfartar a qualquer instante. Sua voz estava instável, entre o agudo e o rouco, sua respiração arfante, entrecortada, e Billy podia imaginar que seu coração deveria estar palpitando em meio à tamanha tensão que seu comportamento deixava evidente.
Estava certamente em surto.
— Não, esse carniceiro foi um caso isolado. Eles não vão conseguir subir aqui — Billy falou, mas Rebecca não parecia convencida. — Escute, hey, menina, olhe pra mim — Billy Ray insistiu, vendo como ela estava dispersa e perturbada. Rebecca olhou para Billy, encarando-o com um olhar distante, entorpecido.
— Estamos em um lugar bem alto. Se algum bicharoco subir, eu vou conseguir ver de longe. Aí eu te desperto e picamos a mula. De acordo? — Billy sugeriu, tentando manter o tom de voz tranquilo, como se não estranhasse em nada o comportamento completamente enlouquecido da jovem loira.
— Ok, então — Rebecca pensou, ainda trêmula e angustiada. — Só jogue a carne morta desse rastejante que matei fora. Esse fedor é insuportável — disse ela, olhando para a rocha como se ali estivesse um cadáver de morto-vivo.
— Sim, pode deixar. Só durma antes, que eu cuido de tudo — Billy garantiu, e Becky passou por ele, ainda um pouco desconfiada.
Deitou-se onde fizeram acampamento, cobrindo-se com um saco de dormir naquele terreno arenoso. Billy sentou ao lado dela, enquanto Becky, de olhos fechados, parecia imersa em uma conversa consigo mesma. Sua fala não tinha nexo, com frases sem conexão umas com as outras, falando algo sobre um empresário de esportes e uma ciclista.
Onde eu fui amarrar meu bode... Pensou Billy Ray, encarando Becky que parara de falar. Parecia adormecida, finalmente. Falara até a exaustão, dormindo e assim saindo do surto.
Billy não era nenhum psicólogo ou psiquiatra, mas dados os últimos dias de convivência com aquela garota, já tinha percebido que tinha algo de... Esquisito, com a estabilidade mental dela. Depois do que vira, tudo enfim ficara ainda mais claro. Becky tinha alucinações, ouvia e via coisas.
Se isso já era algo complicado de se lidar no mundo em que viviam antes, Billy sequer podia imaginar o enorme empecilho que aquilo deveria ser em um mundo caótico e hostil como o que sobreviviam atualmente. A infecção dos carniceiros era ameaçadora para qualquer um na posse de seus plenos sentidos, imagine então para uma pessoa que ocasionalmente vivia fora da realidade...
O que devo fazer, meu bom Deus?
Billy Ray passou o resto da noite vigilante, não conseguindo dormir ou sequer sentindo qualquer tipo de sonolência. Sentia dentro de si um misto de saudades e culpa que o acompanhava desde que saíra do Oceanário de Atlanta, mas agora tais emoções se misturavam com um forte sentimento de compaixão e angústia quando vira Becky assim, tão fora de si, tão instável, tão fragilizada.
Aquilo, de certa forma, era um espelho de si mesmo... De tudo o que fizera, quando ele mesmo chegara perto de enlouquecer e se perder totalmente.
No dia seguinte, Becky despertou quase concomitantemente a alvorada. A mulher loira se espreguiçou, coçando os olhos, e sorrindo de forma simpática para Billy. Não parecia lembrar da noite anterior, ou, se podia se lembrar, aquilo não parecia ter lhe ferido de alguma forma.
Talvez seja aquele ditado... O verdadeiro maluco é aquele que se julga são. Refletiu Billy Ray, vendo a garota loira se levantar e se arrumar sem dificuldades.
— Vamos descer, então? — Becky falou, decidida, arrumando seus pertences em sua grande mochila de trilheira. — Precisamos arranjar um café da manhã para chegarmos a West Virginia — comentou, guardando o fogareiro.
— Rebecca — Billy falou, limpando a garganta. — Por acaso você lembra do que aconteceu ontem à noite?
— Sim — Becky disse, respirando fundo. — Um rastejante filho da puta conseguiu de algum jeito subir aqui. Dei um trato nele, e pelo visto você o jogou fora, como eu pedi — falou, como se tudo o que tivesse alucinado fosse realmente verdade.
— Não foi bem assim não — Billy respondeu, tentando soar calmo. Rebecca franziu as sobrancelhas, estranhando aquela fala. O sulista do Alabama, assim, se levantou.
— Vem aqui. Tem algo que você precisa ver — Billy Ray comentou, e guiou a jovem loira até a pedra onde ela teria golpeado o rastejante.
— Você está vendo alguma marca de sangue, vísceras, ou qualquer rastro e pegada que o carniceiro teria deixado? — Billy Ray perguntou, sério.
A mulher olhou o entorno, encarando a pedra como se não acreditasse. Abaixou-se, espalmou a mão na areia, espalhando o que ali havia entre os dedos, e por fim tocando a rocha fria. Voltou-se para Billy, com os olhos repletos de lágrimas.
— Você não limpou tudo para me atormentar, não é? — questionou ela, seu lábio tremendo, seus grandes olhos começando a se arregalar.
— Não... Becky, por favor, estou falando a verdade — Billy falou, mantendo o tom sério e severo. — Só quero que me responda na mesma moeda. Você vê alguma coisa aqui? — foi sua vez de questioná-la a respeito.
Rebecca baixou a cabeça enquanto soltou um urro agudo, imediatamente fechando as mãos em punho e socando com força o chão. Billy engoliu em seco, pensando se teria agido corretamente ou não naquele caso.
Antes que pudesse tentar acalmá-la, Rebecca já havia se levantado e caminhado decidida até a mochila, suas mãos ainda retesadas.
— O que você está... — Billy perguntou, mas Becky retrucou, ríspida:
— Cale a porra da boca, caipira — retorquiu a mulher loira, procurando algo no bolso externo da mochila azul que carregava.
Becky abriu um zíper e achou um frasco que parecia medicinal. Abriu-o, puxando uma garrafa pequena de água, e tomou um comprimido junto ao líquido.
Billy leu o que ali estava escrito:
Clozapina.
— É isso mesmo que você está pensando. Não era à toa que eu fui uma das atrações principais do circo. Sendo uma verdadeira aberração — debochou Becky, sua expressão fechada, olhando para Billy com hostilidade. Parecia se defender previamente de algo que ele poderia fazer.
— E o que é que eu estou pensando? — perguntou Billy Ray, um pouco confuso.
— Que você se fodeu, perdido nesse mundo também perdido. Acompanhado de uma maluca — Rebecca zombou de si mesma com escárnio. — Uma maluca com diagnóstico e prescrição médica, desde adolescente. — Becky sacudiu o frasco de remédios na frente do rosto de Billy, dando uma gargalhada sem alegria.
— Eu sou esquizofrênica paranóica. Vejo coisas. Ouço coisas. Tenho uma imaginação privilegiada que muitos escritores invejariam — disse a mulher loira com ironia, se auto-desprezando. — Se eu esquecer de tomar um desses todo dia... Fico descontrolada — admitiu ela, guardando o remédio com raiva na mochila. — E foi isso que aconteceu ontem, pelo visto. Tinha tempo que eu não tomava essa merda que escraviza minha cabeça... — Ela respirou fundo.
Billy não falou nada. Apenas aguardou que ela ajeitasse a mochila nas costas, enquanto ele mesmo colocava mais munição na pistola que Moritz lhe havia deixado.
— Não ouse sentir pena de mim — Becky alertou, decidida, dando um olhar desafiador para Billy Ray.
Aquilo surpreendeu o sulista.
Aquela garota deve ter passado por inúmeras dificuldades na vida independentemente do que o mundo virara. Em uma vida normal, ela também sofreria muito, por conta do mal que a afligia. E, ainda assim, aquilo não a fez desistir. Não se abateu. Ela decidiu continuar, continuar viva, tentando, sobrevivendo. Tomou a escolha correta de não abandoná-lo para a morte, se mostrando mais “sã” do que os seus amigos companheiros do circo. Poderia sofrer para distinguir o que era realidade do que seriam alucinações que a atormentavam, mas, ainda assim, ali estava. Diante dele. De pé. Desafiando-o.
Rebecca poderia ser esquizofrênica, mas era mais forte que a maioria dos indivíduos sãos que Billy Ray conhecera.
— Vai ter que tentar muito mais para que eu tenha dó de você, menina — Billy redarguiu, dando um sorrisinho enviesado. Becky não esperava por aquilo, soltando uma risada surpreendida enquanto encaixava o taco de baseball em seu ombro esquerdo.
Juntos, desceram a montanha.
*****
[NA MANHÃ SEGUINTE, EM ALEXANDRIA]
— Imagino que compreendam o que estão fazendo aqui — Rick Grimes falou, de pé, segurando com as duas mãos o espaldar alto da poltrona daquela casa. Encarava seus interlocutores, os três sentados em um extenso sofá na sala, enquanto Deanna, também de pé, avaliava seu desempenho de forma discreta. Maggie, calma e atenta, sentava-se em uma confortável cadeira de balanço, sua barriga grávida parcialmente escondida em uma bata solta.
— Seu uniforme não nos deixa dúvidas, eu diria. Posso ver seu mandado? — Moritz disse, brincalhão, enquanto coçou o canto de seu maxilar, onde havia uma espessa barba. O sujeito irreverente aparentava ter entre quarenta e muitos anos ou cerca de cinquenta.
Rick parou para analisá-lo mais uma vez, assim como passou os olhos em Tejas e Aiyana.
O estranho trio havia aparecido de forma súbita e aleatória nos portões da comunidade liderada por Deanna Monroe. Durante o final da festa, enquanto poucos moradores ainda conversavam e travavam interações sociais na residência da mandante local, Aaron surgiu apressado e chamou Deanna para uma conversa urgente.
Grimes observou de longe, compreendendo pelas expressões e a forma premente sussurrada utilizada por Aaron, bem como pelas reações da mulher que algo de inusitado havia ocorrido.
No mesmo momento, os olhares do policial e da líder se cruzaram. Deanna chamou Grimes com discrição que, por sua vez, não tardou um segundo a se aproximar. Ela lhe reproduziu o que o homem lhe contara, dizendo surpresa que Aaron avistara três estranhos nos portões, parados com uma minivan de aspecto maltrapilho diante da entrada.
Sem mais tardar, Rick, Deanna e Aaron guiaram-se para a entrada, não sem antes passar no arsenal, munindo-se de três pistolas e munição, caso fosse necessário.
Naquele momento, Rick Grimes ficou muitíssimo grato pela iniciativa de Carol, e sua sagacidade sempre precisa. Fora por causa dela que, naquela noite, os dois puderam "resgatar" seu próprio armamento do arsenal.
Em pouco tempo, com a ruptura abrupta das festividades, as notícias já haviam se espalhado rapidamente por toda Alexandria. Uma multidão de pessoas atrás de Deanna, Rick e Aaron aguardava para enfim ver quem eram os visitantes inesperados.
Muito maleáveis, polidos e compreensivos, Rick desconfiou desde o início de cada um dos três. Até mesmo da garota de aspecto adolescente. Havia algo entre eles, o tipo de conexão e compreensão mútua que só é criada depois de um tempo contínuo e considerável de convivência.
Se aquilo seria um desafio ou um impasse para a segurança de Alexandria... Ainda era cedo para dizer. Mas Rick sempre fora um homem astuto, e jamais se deixara julgar pelas aparências.
Por mais dóceis, teatrais e excêntricos que aqueles três fossem... Tinham algo a esconder. O policial podia pressentir aquilo, como se pudesse lê-lo em seus olhos. Era uma questão de tempo até descobrir o que, ou porquê.
Finalmente, Grimes respondeu:
— Parece-me um sujeito bem humorado — ironizou o policial. — E perspicaz — continuou. Deanna encarou Rick, medindo as palavras e a postura do xerife.
— Não posso dizer que é muito sorridente, oficial Grimes, mas decerto também é dotado de astúcia — o homem de meia idade respondeu com um sorriso descaradamente amplo.
— O humor sempre fez muita parte de minha vida. Sou um palhaço aposentado — Moritz contou, dando a Rick um aceno de cabeça em mesura.
Na verdade, continua em atividade. Pensou o xerife, com ironia.
— Moritz relatou-me um pouco sobre a vida deles no circo. Está tudo filmado, caso queira assistir, Rick — assegurou Deanna, desta vez sorrindo para os três novatos. Grimes manteve-se impassível.
— Eu gostaria de conversar sobre outros assuntos, se ninguém se importar — Rick foi sucinto. — Refiro-me a pergunta mais importante: como e por que chegaram aqui? — questionou.
— Aliás, vocês dois podem se sentir livres para falar, se quiserem. Isso não é um interrogatório. — Desta vez, foi o momento do policial fazer uma piada debochada, enquanto encarava a jovem indígena e o homem que portava um chicote.
— Isto é uma pergunta pertinente — confirmou Deanna, agora sentando-se defronte aos três, e convidando Rick a sentar em uma cadeira ao seu lado. O policial seguiu a instrução.
— Quero dizer, esta é a primeira vez que isso acontece. Sobreviventes que chegam em Alexandria pelas próprias mãos. Geralmente é Aaron, nosso recrutador principal e sua equipe, que encontram novos moradores dispostos a fazer parte da comunidade — esclareceu a líder. Maggie Greene observava tudo em silêncio.
— Como conseguiram encontrar este lugar? — Rick insistiu, atento a qualquer movimento em falso, a qualquer tipo de expressão, feição ou vacilo que pudesse indicar uma mentira, uma hesitação, ou algum temor. Estava preparado para tudo.
— Nós estávamos em fuga — afirmou Aiyana, encarando o xerife sem medo algum em seus orbes escuros, enquanto jogava os cabelos negros de forma surpreendentemente feminina e sensual para o lado esquerdo, deixando-os pendendo entre seu ombro e suas costas.
A voz grave, o olhar confiante indicando um equilíbrio que não combinava com sua idade jovem, revelava que talvez fosse mais madura do que seus anos de vida indicariam. Grimes sentiu-se um pouco mal por ter-se sentido atraído por alguns segundos.
— Desde que perdemos a lona e o trem que era nossa casa, nos arredores de Clarksville, no Tennessee... Nós descemos ao sul, querendo chegar ao litoral. Tínhamos planos de encontrar um barco, pois Tej sabe conduzi-los. — A garota de traços indígenas indicou o homem ao seu lado com o rosto.
— Nossa ideia era navegar até a ilha mais próxima, imaginando que estaríamos seguros em um local menos populoso e cercado pelo mar — Moritz esclareceu, esfregando as mãos.
— Assim, passamos esses quase dois anos rodando pelo estado, fugindo de uma horda de decompostos para outra — declarou Aya.
— O Tennessee é um estado muito populoso, passamos por poucas e boas para durar o que duramos. A maior parte da nossa trupe morreu. Éramos um grupo grande, quase cinquenta pessoas, no começo. — A garota indígena tinha um resquício de tristeza em sua voz feminina e rouca. Pela maneira de falar, parecia que aquelas memórias já lhe eram muito distantes, como se tivesse de se esforçar para lembrá-las.
— Perdi minha esposa durante o curso dessa praga — confessou Moritz, parando de sorrir. — Perdemos nosso circo... Perdemos a vida que conhecíamos, assim como aconteceu com todos vocês. — Ele fez uma pausa.
— Ou não. Vejam só este lugar! — falou o palhaço, abrindo discretamente os braços para indicar sua empolgação cortês.
— Se estiverem dispostos a colaborar, são muito bem-vindos a Alexandria. Vocês três devem ter passado por muitas dificuldades. — As palavras de Maggie repercutiram solícitas, à medida que ela abriu um sorriso com gentileza.
— Aqui pode ser seu novo lar, seu porto seguro. Caso queiram fazer parte do que é este lugar — acresceu Deanna, cortês.
— Consigo compreender o que querem dizer. Passaram esse tempo fugindo de errantes, como eu mesmo e alguns amigos fizemos até dias atrás. — confirmou Rick, se esforçando para não cortar de forma desagradável a líder da comunidade.
— Mas ainda não responderam parte da pergunta: o que os levou até aqui? Pura coincidência? — perguntou o policial, sem acreditar.
— Quando estávamos fora de Nashville, recentemente, fomos seguidos por uma multidão especialmente incansável de decompostos. Tivemos a sorte de encontrar um automóvel com gasolina o suficiente para despistá-los — finalmente Tejas falou, o que trouxe a Rick um ligeiro sobressalto, acostumado com o silêncio de sua parte. Sua voz era firme e potente, barítono.
— E qual caminho fizeram? — Rick manteve-se incrédulo.
— Como eles nos cercaram pelo sul, fomos obrigados a subir pela estrada. Seguimos para o nordeste, e rodamos quase mil e quinhentos quilômetros em quatro dias, parando apenas para abastecer em postos de gasolina que encontramos — Moritz se adiantou. — Revezamo-nos ao volante, e não paramos de dirigir em nenhum momento, mudando de rodovias e estradas, conforme a quantidade de hordas para enfim chegarmos ao litoral leste do país — acrescentou.
— Daqui até Nashville seriam por volta de seiscentos quilômetros ou mais um pouco — Grimes refletiu, austero.
— Eles dirigiram cerca de quinze quilômetros por hora. É um número plausível — ponderou Deanna, observadora.
— E, sucintamente... É esta a nossa história — finalizou Moritz, sorrindo de um jeito também afável.
Deanna olhou para Rick. Pelo olhar da mulher, pôde perceber que ela considerou aquela “investigação” por encerrada.
— Por enquanto acho que é só — disse Rick, depois de mais algum tempo de análise dos três novos integrantes da comunidade. — Caso tenham algum problema, ou alguma dúvida quanto às regras de conduta, podem me procurar — dispôs-se, apenas para agradar Deanna. Era importante manter Monroe tranquila, evitando que pudesse criar suspeitas sobre sua pretensão de destituí-la do governo da comunidade.
Grimes moveu-se para a porta da sala, saindo para as ruas de Alexandria, enquanto entreouvia mais uma conversa entre Deanna, Maggie e os novatos, que agora decidiam quais seriam os melhores trabalhos para efetuarem.
Ainda insatisfeito com aquelas respostas, Rick caminhou com as mãos no bolso, em direção à sua casa. De fato, era uma possibilidade que por muita sorte e pura coincidência do destino aqueles três tivessem aparecido nos portões de Alexandria. Estavam vivos, com um veículo grande, resistente e abastecido. A história fazia sentido, apesar de improvável.
Até então, não tinha provas contra os três. Inocentes até que se prove o contrário... Pensou o policial, descrente.
Atravessando uma das ruas principais da comunidade, Rick tinha tais pensamentos inquietos em sua cabeça, enquanto já sentia-se estafado pela falta de ocupação que sofriam todos naquele lugar, inclusive ele próprio. Seu dia de trabalho já teria acabado ali, caso nada mais... Estranho acontecesse.
Talvez um conflito não fosse uma ideia tão ruim. Uma chance de desestabilizar Deanna, e provar para todos que ela não era apta para governar no mundo em que viviam.
Rick sabia. Sabia que era apenas uma questão de tempo até que os muros, internos e externos, ruíssem. Aquela vida pacata e inocente não condizia com a realidade, e era uma questão de tempo até que ela se abatesse sobre tudo e todos. Grimes estava preparado para quando ela chegasse.
Entretanto, será que Alexandria, por si só, estava pronta para o baque?
Inconformado e sorumbático, Rick Grimes caminhou passando por uma casa cuja garagem atraiu a atenção de seus olhos. A porta estava levantada, deixando os olhos dos passantes anteverem quem se encontrava lá dentro.
Jessie, sozinha em meio a uma pilha de tralhas, objetos carcomidos, bicicletas, prateleiras e grande quantidade de entulhos sem função, tentava reparar ela mesma um objeto quebrado. Parecia uma espécie de estátua de madeira, algo de montar, ainda não pintada.
— Olá — Rick cumprimentou-a, aproximando-se com polidez.
— Oi! — respondeu Jessie, sorrindo, sua voz congruente com a expressão de seu rosto, que passara de preocupada para receptiva.
Grimes não pôde evitar sorrir de volta.
— O que houve? — quis saber o policial, estranhando a estátua quebrada.
— Não sei — a mãe de Ron e Sam falou, com sinceridade. — Talvez alguém não goste de corujas... — tentou fazer graça, mas Grimes percebeu certa inquietude em sua voz.
— Alguém veio aqui e fez isso? — Grimes indagou, abaixando-se e analisando com as próprias mãos o que era uma coruja de madeira, quebrada em vários pedaços.
Jessie soltou um suspiro, apreensiva e frustrada.
— Coisas assim nunca aconteceram antes, aqui — comentou ela, franzindo as sobrancelhas e cruzando os braços. Por alguma razão, vê-la naquela postura receosa fez Rick sentir-se na necessidade de deixá-la mais confortável.
— Você tem algum inimigo? — Grimes perguntou, em tom de brincadeira.
Jessie o encarou, rindo com sinceridade, e Rick a acompanhou. O policial sentiu-se mais aliviado. Perdera completamente o rumo de seus pensamentos recentes, o que o deixou relaxado de forma impremeditada.
— Sabe de alguém que odeia corujas? — Jessie entrou na piada.
— Uma pena não termos alguém para cuidar disso — debochou Rick de forma divertida.
— Não se preocupe, perguntarei por aí — troçou a mulher em retribuição.
— Não, não precisa. Deixa comigo — predispôs-se o policial, agora mais sério. — É o meu trabalho — disse ele, querendo dizer que aquilo não era nenhum favor. Na verdade, de fato não o era. Não se sentia enfastiado ou desagradado em desempenhar uma tarefa que fosse beneficiá-la.
— Eu sei. — Jessie sorriu com doçura para o policial. Rick sentiu um ímpeto súbito de se aproximar mais, mas era melhor evitar.
Lembrava-se do que quase tinha feito naquela festa, e não podia sequer culpar a bebida. Mesmo com Pete presente na festa, mesmo sabendo que Jessie era casada, por um segundo tentara beijá-la, o que só não ocorreu porque, surpresa, a mulher desviou levemente o rosto, o que fez Rick tocar sua bochecha, próxima aos lábios, mas não sua boca.
Rick Grimes bebia socialmente desde antes da maioridade, e costumeiramente com Shane, especialmente nos últimos anos em que seu casamento enfrentava uma crise. Era um homem resistente ao álcool.
Mas talvez não a outros fatores.
— Certo... — Jessie voltou a falar, com as mãos na cintura e encarando a coruja depredada. Rick teve de se esforçar para desviar os olhos das formas sinuosas do corpo dela, sua cintura fina e curvas voluptuosas, visíveis mesmo naquela roupa típica de mãe dona de casa.
— Você então acha quem fez isso, e aí...? — perguntou ela, encarando Rick, que desviou o olhar quando percebeu que ela o olhava nos olhos.
— ...E depois aplico algum tipo de consequência — o policial esclareceu. — Por falar nisso, será que já ouviu falar sobre a teoria das janelas quebradas? — Rick comentou de forma simpática, tentando manter a conversa de um jeito despretensioso.
— É um conceito de teoria do crime. Um modelo de política de segurança pública que sustenta a ideia de que a desordem, o vandalismo e similares são um fator muito relevante para aumentar a criminalidade. Assim, se não forem punidos, os pequenos delitos levariam a condutas criminosas piores, por conta do descaso de deixar de condenar um crime leve e assim abrir precedentes para outros. Resumindo, é basicamente: temos de manter as janelas intactas, para assim manter a sociedade intacta — Rick praticamente lecionou. Jessie parecia impressionada, e aquilo deu ao policial certo orgulho tolo.
— Era só uma coruja, Rick — falou ela, tentando minimizar uma potencial gravidade do assunto. — Mas obrigada pela aula de direito penal, foi interessante — acresceu ela, não aparentando deboche.
— Claro, claro, foi só um comentário... Não há de quê. — Rick parou por um momento, e depois lembrou-se de acrescentar:
— Eu que agradeço por me dar algo para fazer hoje. — mostrou gratidão de forma simpática, exibindo o tédio que sentia em Alexandria.
— Espero não estar criando nenhum incômodo — Jessie falou, com um sorriso constrangido, porém ainda assim atraente.
— Não. Certamente não — Rick enfatizou assertivo.
Por alguns segundos, os dois se encararam. Aquilo era perigoso. Muito perigoso... Mas Rick sempre se divertira em flertar com o perigo.
Era um policial, afinal de contas.
Inesperadamente, Sam surgiu correndo pela garagem, olhando de soslaio para a coruja quebrada e chamando a mãe. Jessie abraçou a criança, que parecia particularmente carinhosa naquele dia.
— Acabou sua aula, meu lindo? — falou a mãe do garoto para ele. — Diga oi para o Rick.
— Oi. — Sam o cumprimentou um pouco indiferente, mal olhando o policial. — E sim. Agora só o Ron tem mais alguns tempos de aula de tarde até o anoitecer — garantiu o menino. — Mãe. Posso tocar o violão da vovó? — pediu o garoto, olhando para Rick, desconfiado.
— Pode, filho, mas tome cuidado para não quebrar, por favor. — Jessie acariciou os cabelos do menino.
— E você me ensina a tocar alguma música? Só sei tocar o que o Ron me mostrou — suplicou Sam, com olhos lacrimosos.
— Eu já te falei, Sam, não sei tocar nada — reiterou Jessie para o filho. — Por que não espera o seu irmão terminar a aula, e, depois do jantar, ele te ajuda de novo? — sugeriu.
— Mas ele nunca quer fazer isso! Só quando você manda — falou Sam, frustrado.
— Você quer aprender a tocar violão? — Rick se meteu na conversa, com uma ideia em mente.
O garoto fez que sim com a cabeça, enquanto a mãe o segurava pelos ombros.
— Eu conheço uma boa cantora. Acho que ela talvez gostaria de te dar umas aulas. Procure a Mavelle, que veio com a gente. Lembra dela? — perguntou o policial.
O menino novamente acenou em confirmação.
— Acho que ela gostaria de te ajudar — falou Rick, enquanto se despedia de Jessie e seu filho. Sabendo que teria uma possível professora de música, os olhos de Sam brilharam em expectativa.
*****
Mavie caminhava pelos terrenos de Alexandria, de volta de um dia de trabalho e treinamento dos novatos, com Aiden, Nicholas, Tejas e Aiyana, agora acompanhada somente de Tara e Glenn.
Haviam deixado as mercadorias que encontraram com os destinatários devidos, e agora cada um rumava para a própria casa. Tara e a irlandesa, para a delas, e Glenn, para a casa que dividia com Maggie, Abraham, Rosita, Eugene e Padre Gabriel.
— Esse pessoal é... — começou a irlandesa.
— ...Muito... — Tara complementou.
— ...Estranho — finalizou Glenn, de forma quase cênica.
O sol do fim da tarde já caía para além dos muros de Alexandria, e o dia com névoa e vento frio não era muito indicado a tarefas perigosas como o trabalho dos agora sete batedores.
Com a função de sair em missões específicas para a busca de itens, vasculhar locais e recolher suprimentos, entre outras tarefas do gênero, os batedores — ou coletores — eram os membros de Alexandria mais dotados de furtividade, velocidade e conhecimento de campo para infiltração, resgate e coleta do que fosse necessário para a comunidade.
Com a exceção de Aiden e Nick que, ironicamente, pareciam os menos aptos aquele trabalho. Impulsivos, exageradamente confiantes, descuidados e precipitados, os dois sujeitos, metidos a líderes daquela equipe, na verdade, não faziam jus aos outros membros.
Mavie era ótima com seu arco e flecha. Glenn corria como ninguém, e também tinha uma mira precisa. Tara, era bastante habilidosa com armas de fogo por sua formação como estudante na academia de polícia.
E, surpreendentemente, Aiyana e Tejas eram sujeitos com habilidades ímpares.
Tej, o indiano, com forte sotaque de seu país de origem, era um homem rápido, silencioso e comedido. Sua personalidade combinava com sua aptidão para a arma de sua preferência, um chicote que brandia, enrolava e atacava qualquer coisa que quisesse a alguns metros de distância.
Embasbacados, naquele dia todos os coletores testemunharam a incrível capacidade de Tejas de matar três Frankies ao mesmo tempo com um único golpe certeiro do chicote, estourando seus crânios de uma só vez.
Aiyana, apesar de jovem, não ficava muito atrás. Devia ser um ano mais velha do que Peggy, que se revelou uma também talentosa combatente de carniceiros, mas a jovem veterana do Aquário não se comparava a menina de traços indígenas.
Aya, com sua ampla coleção de facas, adagas e punhais, conseguia brandir e atirar lâminas a distâncias impressionantes, com uma mira de excelência. Matou cerca de cinco Frankies naquele treino da tarde, do qual voltaram com novas baterias, pilhas e também materiais de construção que Reg e Tobin lhes encomendara.
Os dois circenses, pelo visto, não viviam apenas de teatralidade. O espetáculo a parte que deram naquele dia provara a olhos nus a que vieram.
— Eu devo dizer que acho isso muito legal — admitiu Mavelle, dando um sorriso matreiro para seus amigos.
— Eu devo dizer que a gente teve a mesma reação quando te conheceu, não é, Glenn? Esquisita pra caramba — Tara provocou a irlandesa, debochada, dando uma cotovelada brincalhona no braço do asiático. Glenn sorriu, fingindo confirmar.
— Com certeza — o descendente de coreanos brincou.
— Ah, como se vocês fossem suuuper normais! — retrucou Mavie, enfatizando a sílaba da palavra e sorrindo também.
— Glenn principalmente! Por qual razão você achava estiloso usar aquele poncho mexicano, cara? Sinceramente, se eu te visse na rua hoje em dia com um rifle na mão e aquele troço nos ombros acho que eu virava as costas e ia embora com medo! O que era aquilo, camarada?! Parecia tipo o líder da máfia Yakuza-Tequila do apocalipse dos Frankies! — inventou Mavie Berry, fazendo Chambler e Rhee gargalharem.
— Yakuza é a máfia do Japão, não da Coréia! — retorquiu Glenn, ainda rindo. — E aquele poncho não era meu. Era do Daryl, mas ele o deu para Maggie um dia, quando não encontramos casaco para ela, e nós dois acabamos dividindo. E parem, ficava maneiro sim! — insistiu ele, enquanto Tara ainda ria, mas Mavie parou à menção do arqueiro.
— No Daryl sim é que deve ter ficado assustador! Ele já tem cara de poucos amigos normalmente, imagina com aquilo! — falou Tara, enquanto Glenn se despedia das duas e rumava até sua casa, já muito próxima.
Mavelle continuou em silêncio, e teve de controlar seu impulso de levar as mãos aos seus lábios. Desde que acordara, fora em missão com o grupo de coletores, e pudera não pensar no que acontecera no banheiro de sua casa, no dia anterior.
— Hey — chamou-a Tara. — Está tudo ok? — perguntou a amiga de Berry.
Mavie Berry a ignorou sem querer. Estava imersa nas lembranças do dia anterior. Ainda não sabia o que achar daquilo. Na verdade, sequer sabia como lidar com aquilo.
O que fora aquilo, afinal de contas? Depois de tantas emoções controversas, misturando desapontamento, raiva, rancor, desejo, frustração, atração, empatia e identificação, Mavie sentia sua cabeça zunir turbulenta quando pensava naquele assunto.
O que estava acontecendo entre eles, e...
...O que estava acontecendo dentro dela?
— Hey! “Ground control to Major Tom!” — repetiu Tara, sacudindo um braço na frente do rosto de Mavie, que, sem querer chocou sua boca contra parte do braço da amiga, sentindo seus dentes salientes baterem na pele dela.
— Ai, não precisa me morder! — debochou Chambler, olhando para Mavie, incrédula por sua distração surpreendente.
— Desculpa... Sei lá, acho que eu preciso descansar. — Mavelle sorriu sem jeito, de volta, enquanto Tara lhe dava um olhar ainda não convencido.
— Olha... — a amiga de Mavie ia começar a falar, com o tom de quem vai dar um conselho, mas as duas, enquanto cruzavam uma esquina, encontraram outra companhia.
— Oi! Mavie, o Rick me falou para eu te procurar! — Um garotinho espevitado e decidido aproximou-se de Mavelle com um sorriso adorável no rosto.
Sam era mesmo uma graça.
— O Rick? — perguntou a irlandesa, sem compreender.
— Eu estava conversando com a minha mãe. Estou tentando aprender a tocar violão, que nem meu irmão mais velho que toca guitarra. Mas ele nunca quer me ensinar, não tem paciência comigo — falou o menino com muita veemência. Parecia desconsolado.
— Daí o Rick falou que você toca violão bem. E que sabe cantar. Será que você me ensinaria? — pediu o garoto. — Por favor! — Continuava entusiasmado.
Mavelle olhou de Sam para Tara, que a encarava com uma expressão de dó como se recusar aquele pedido fosse algo desumano.
— Eu... — Mavelle Berry começou, e Sam tirou a mochila dos ombros, retirando dela um caderno específico que Mavie reconheceu na hora.
— Olha, tem todas essas partituras. Por favor, me ensina?! — teimou o garoto com ainda mais intensidade.
— Onde você achou isso? — perguntou ela, enquanto olhava o caderno.
— Fui te procurar em vários lugares, perguntei para todo mundo algumas vezes se você já tinha chegado. Minha mãe até me deu bronca por ser chato — disse o menino, com sinceridade infantil.
— Então quando perguntei para o senhor Daryl se ele tinha te visto e ele disse não, ele perguntou por que eu perguntei, com uma cara preocupada — acrescentou o inocente garoto. — Eu contei que era para te pedir para me dar aulas de música. Aí ele me levou na biblioteca e me entregou isso, e saiu sem falar mais nada — terminou, indicando o caderno.
Mavie sentiu seu coração acelerar. Daryl lembrara até mesmo do caderno de música que ela havia estudado na biblioteca, no dia em que discutiram.
— Ela vai sim, Sam. Não se preocupe — respondeu Tara no lugar de Mavie, que a olhou, abrindo a boca, surpresa pela audácia. Chambler lhe deu uma piscadela e a sacudiu de forma amigável pelos ombros, desinibida.
— Vai se divertir um pouco. Você merece — comentou Tara, dando um adeusinho para os dois e tomando o rumo de casa.
Mavie, sozinha na rua com um animado Sam, não tinha outra escolha.
— Tudo bem. Vamos para sua primeira aula — falou Mavie, sorrindo. Não apenas pela animação do garoto, ou pela solidariedade de Tara.
Havia ali um motivo mais especial.
*****
— Mark Twain foi um dos maiores escritores de nosso país. Com obras como As Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn... — a professora Mildred, de literatura, falava com sua voz enrolada e entediante, fazendo Peggy querer pular da mesa naquela sala de aula improvisada em uma larga garagem de uma das casas comunitárias de Alexandria.
A adolescente olhou seu relógio de pulso, e verificou que faltava ainda um bom tempo para as dezesseis horas.
Mais um dia. Você aguenta mais um dia. Falta pouco. Tente se concentrar. Pensou Peggy, fechando os olhos e esfregando as mãos em seu rosto e pálpebras fechadas.
Assim que fechou as olhos, as imagens que tanto a perturbavam, sempre presentes em seu pensamento, se fizeram ainda mais visíveis.
Lembrou-se da ala hospitalar do Aquário depois da explosão, com carniceiros invadindo-a enquanto pegava fogo. A cabeça transformada de seu pai, atirada por Rick aos pés do traidor Jed. A forma como sua mãe desabara após a notícia da morte de Haywood.
Noah se despedindo dela, prometendo que voltaria.
Peggy abriu os olhos, completamente desatenta ao mundo à sua volta, presa em seus próprios pensamentos angustiados. Sabia que havia pessoas ali, uma imitação barata e patética de escola com alunos da idade dela aprendendo com um projeto de professora. Em um projeto de comunidade.
Em um projeto de vida.
Sem mais aguentar, Peggy Taylor se levantou, guardou o material e disse para a professora que estava se sentindo mal e precisava procurar Annie. Sentiu-se ainda pior assim que saiu da “sala de aula”, pois se julgou fraca. Tão fraca, tão indefesa e tão quebradiça quanto todos que ali viviam.
Estava contaminada. Podia não ser pela doença que transformava pessoas em monstros em decomposição, mas por outra enfermidade. Algo que a atacava de dentro para fora. Que a impedia de dormir. Que deixava, dia após dia, seu coração em pedaços palpitantes, como se fosse ter uma parada cardíaca. Que a impedia de respirar.
Que a fazia pensar se ainda existia algo pelo qual valia a pena viver.
Peggy, transtornada por toda aquela sensação que a deixava impotente, paralisada de medo, angústia, horrorizada por tudo o que acontecera e pelo que veio a ser sua realidade, não conseguia lutar contra o pior monstro de todos. Algo que crescera em si mesma, contra si mesma, e que ela não sabia evitar.
Assim que saiu da escola, pensou em achar algum lugar para matar o tempo que faltava antes de voltar para casa. Faltava uma hora para o fim do dia letivo, e não queria trazer mais preocupação para Annie, Mavie ou Tara. Estava cansada de receber os olhares de comiseração delas, como se a julgassem incapaz, mas disfarçassem para não ofendê-la.
Pensou em ir para algum lugar público, mas ali poderia topar com outros moradores, que poderiam fazer alguma fofoca. Então, decidira entrar em uma casa. A única que imaginaria vazia àquela hora.
A casa dos malucos circenses.
Peggy pulou pela janela da cozinha, entrando pelos fundos, com cuidado. Era bom sentir aquela adrenalina. Aquela transgressão a fazia esquecer dos temores que escondia dentro de si, obrigando-a a focar no presente. Era bom, mesmo que por alguns segundos, não se perder dentro dos horrores que viviam em si mesma.
A adolescente morena seguiu até a sala, onde havia uma lareira enorme. Olhou para aquele móvel com admiração, passando as mãos pelos tijolos, atenta a qualquer ruído surpreendente.
Aquilo a lembrou de imediato da casa em que morava com seus pais e seus dois irmãos. Em épocas natalinas e no inverno em geral, a lareira estava sempre acesa. Peggy era fascinada pelo fogo. Tão atraente, embora tão perigoso.
E, naquele momento, lembrou que sua mãe morrera queimada, incinerada em uma explosão impiedosa.
De imediato, sentiu seus olhos marejarem. Piscou, e as lágrimas caíram por suas bochechas, enquanto ela tentava ao máximo lutar contra todas as emoções danosas que a atormentavam. Com as mãos fechadas em punho, passou a socar com toda a sua força os tijolos da lareira, sentindo sua pele queimar também, pela dor intensa.
— Boa tarde! — cumprimentou-a uma voz cordial à distância.
Peggy voltou-se imediatamente na direção do som, sentindo-se prontamente envergonhada. Alguém a flagrara ali.
— Não sei o que a minha lareira te fez, mas caso ela tenha te ofendido sinta-se à vontade para revidar — brincou de forma afável. — Estou preparando um pouco de chá. Sinta-se convidada a tomar uma xícara, se quiser. — O sujeito que um dia fora um palhaço de circo a olhava com um pratinho e uma xícara na mão, encostado no batente da porta da sala.
Era um homem bastante furtivo, apesar da fala mansa. Peggy não percebera nenhum sinal de sua presença até que finalmente falou.
— Sinto muito — disse Peggy, sem veracidade.
— Não seja por isso. Mas decida-se logo, Alice. A Lebre de Março não vem, e você é a única convidada. E este Chapeleiro Louco sempre respeita a hora do chá. — Moritz sorriu, fazendo referências ao livro de Lewis Carrol: Alice no País das Maravilhas.
Bem... O que eu tenho a perder?

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