Hunter's Instinct
31 Episódio 31 - Spicks and Specks
Notas iniciais
Where is the sun
That shone on my head?
The sun in my life
It is dead, it is dead…
Bee Gees – Spicks and Specks
[NAQUELA TARDE]
– Muito obrigada pela receita! – disse ela, afastando-se das mulheres com quem conversava e juntando-se ao seu velho conhecido.
Carol Peletier caminhava junto a Rick Grimes pelas calçadas da comunidade, acabando de se despedir de suas novas “amigas” que fizera em Alexandria. Antigas donas de casa que, em outra vida, tinham como única preocupação cuidar dos filhos e da família... A mesma vida que já vivera um dia.
Mas há muito Carol deixara de ser a pessoa que fora.
Abandonara a mulher antes submissa, reprimida, incapaz. A mulher que permitira que sua filha sofresse nas mãos do lixo de pai que tinha, a mulher que não conseguira protegê-la da morte e do caos da infecção dos errantes.
A mulher que chorava, e precisava ser protegida. O peso que os outros carregavam.
Aquela mulher não era mais quem era.
Nunca mais seria.
– Acho que consigo me esgueirar para o arsenal na festa de Deanna hoje à noite – falou Carol para Rick, enquanto dava um adeusinho simpático para outro vizinho que passava.
– Eu vou com você – Rick se ofereceu de pronto.
– Não acho uma boa ideia. Eles sabem que você é nosso líder, e o policial da comunidade. O pai de Carl e Judith. Podem perguntar onde você se meteu – aconselhou.
– Mesmo que Daryl tenha decidido não participar, acho que ajudaria nisso – comentou Rick. – O problema é que não podemos usar Daryl. Estão vigiando cada um dos movimentos dele – acresceu o policial.
– Tudo bem – Carol disse, assertiva. – Sabe o que é o melhor deste lugar? Eu posso ser invisível outra vez – afirmou Carol Peletier, sorrindo para Jessie que passava por Rick e ela, sorridente, acompanhada de Sam.
Pararam rapidamente para uma conversa rápida, e Carol percebeu a mudança no olhar de Rick. O policial, antes sério e compenetrado, passou para disfarçadamente desejoso, quando deitou os olhos na esposa de Pete.
– Preparados para a festa hoje à noite? – perguntou a mulher do médico.
– Mal podemos esperar! – Carol falou, sorridente e animada para a festa... Por outras razões. Jessie deu uma risadinha e seguiu caminho com o filho. A mulher de cabelos grisalhos voltou-se para o menino que ainda a encarava, como se quisesse lhe pedir algo, e falou:
– Vou fazer uma fornada de cookies especialmente para você, Sam! – ofereceu Peletier, com doçura planejada.
O garoto deu-lhe um sorriso agradecido, e sua mãe logo falou, de longe:
– Como é que se diz, Sam? – lembrou Jessie.
– Muito obrigado! – agradeceu o menino, sorrindo luminoso para Carol.
Ela manteve o sorriso controlado, e voltou para a casa que dividia com Rick, Michonne, Daryl, Carl e Judith. Grimes continuava sua ronda lá fora, enquanto Carol decidira se preparar para aquela noite. Olhou-se no espelho de seu quarto, respirando fundo.
Aquele lugar tinha muitas crianças.
Crianças doces, inocentes, frágeis... Como sua Sophia. Se tivessem chegado lá antes, anos antes, será que... Sua filha não estaria viva ainda?
Carol permitiu-se pensar naquilo, tendo um momento de fragilidade secreta, e lágrimas subiram imediatamente aos seus olhos. Continuou a encarar seu próprio reflexo no espelho, vendo seus olhos azuis cintilantes brilharem ainda mais por conta das lágrimas, que desceram sem obstáculos por seu rosto alvo.
Já chega. Você tem trabalho a fazer.
Carol limpou os próprios olhos e sua face, indo para o banheiro anexo ao seu quarto para se arrumar.
Há muito deixara de ser a mulher que chorava. A mulher indefesa. A mulher que precisava ser salva.
Sabia que atuava muito bem. Sabia que poderia enganar quem quer que fosse para proteger as pessoas que amava. Sophia se fora, e deixara um vazio no coração de Carol que jamais seria reparado. Aquela criança fora a alegria de seu viver.
Hoje em dia, Carol era responsável pela segurança dos outros. Todos contavam com ela. Com sua força. Com sua astúcia. Com sua inteligência ímpar.
Carol sabia que era tão boa atriz, e tão boa mentirosa que fazia todos acreditarem que não mais sofria.
A verdade era mesmo bem diferente.
*****
[NAQUELA NOITE]
Assim que Mavie tocara a campainha da casa de Deanna, a porta foi aberta quase que imediatamente. Peggy e Annie, ao seu lado, encararam juntas com alguma surpresa aquela cena inesperada.
Um sujeito moreno e alto portava um sorriso largo e quase ridículo em seu rosto. Era mesmo estranho como todas aquelas pessoas de Alexandria pareciam tão felizes, tão escandalosamente felizes.
Como se não conhecessem a realidade do mundo lá fora.
– Oi! – o homem falou, rapidamente, estendendo a mão para Mavelle, que o cumprimentou meio sem jeito, controlando-se para não levantar uma sobrancelha. – Eu sou Spencer, o outro filho de Deanna – brincou ele, como se Aiden levasse todos as atenções e ele ficasse em segundo plano. Em seguida, cumprimentou Peggy e Annie, que entraram em seguida.
A jovem irlandesa já seguia da antesala de Deanna para a sala de jantar onde se realizava a reunião, pelo que indicavam os ruídos de conversas e vozes empolgadas, quando Spencer segurou em seu ombro.
– Vou te dar uma dica: acho melhor passar um tempo comigo. Se ficar de bobeira, a senhora Neudermyer pode aparecer e encher os seus ouvidos. Ela consegue passar horas falando sobre o quanto quer uma máquina de fazer macarrão. Não é uma conversa que você gostaria de ter – sugeriu o homem, dando uma piscadela supostamente solícita.
Pelo visto, a inconveniência é mal de família. Pensou a irlandesa, comparando o comportamento sem noção de Aiden com a carência de Spencer.
– Obrigada. Talvez não tenha percebido, mas eu sei reconhecer o valor da companhia de idosos. Podem ser bem mais divertidos que pessoas... Da nossa faixa etária. – Indicou com o rosto sua avó, que já cumprimentava um casal de idosos com quem fizera amizade, Raymond e Mildred.
Spencer, sem saber o que responder, apenas engoliu a frase que possivelmente formulara. Parecia ter levado um tapa na cara.
Logo, Mavelle, ainda acompanhada de Peggy, que parecia se esforçar para controlar o próprio nervosismo evidente, decidiu guiar a adolescente para a mesa de comes e bebes que ali havia.
– Hey – falou baixinho para Peggy, lhe passando um copo de suco de laranja e misturando rapidamente com um pouco de vodka, disfarçadamente. Cumprimentou alguns conhecidos, sorrindo com naturalidade. – Não conte para a minha avó que eu te dei isso, ok? – disse a irlandesa, cúmplice, para a garota ao seu lado.
Peggy assentiu, movendo o rosto para cima e para baixo rapidamente, e passou a beber o conteúdo como se fosse um suco inocente.
– Vai te ajudar a se acalmar. – Mavie indicou o copo, sussurrando. – Mas bebe devagar – aconselhou.
Passaram algum tempo deslocadas junto a mesa, vendo Michonne e Abraham conversarem, enquanto o ruivo se servia de muitos copos de cerveja. Esse é duro na queda. Pensou Mavelle, sem se surpreender, afinal de contas o soldado era um sujeito bem grande. Seria vergonhoso se não resistisse a bebida.
Rick chegara antes, e travava uma conversa com Jessie, a mãe de dois garotos, Ron e Sam. Judith era amparada por Carol, que conversava com Deanna e Aiden, de quem Mavie desviou o olhar rapidamente. Não gostava daquele sujeito.
Além deles, a jovem morena logo viu Padre Gabriel conversando com uma mulher negra que Mavelle ainda não sabia o nome, e Eugene logo surgiu animado junto a Tara, saindo de um corredor. Quis falar com sua amiga, mas a irlandesa decidiu não atrapalhar a conversa.
Depois de algum tempo, Mavie percebeu: Daryl não estava lá.
Não era surpreendente... Berry imaginara que ele não viria. Mas não podia negar que não vê-lo ali fora um pouco... Frustrante.
Além dela e de Peggy, Dixon parecia até mesmo pior do que as duas para se adaptar a Alexandria. E aquilo era ainda mais evidenciado olhando para aquela cena. Todo o grupo de Rick Grimes ali estava, em peso, faltando apenas Sasha e o arqueiro, todos parecendo integrados, tendo com quem conversar e sobre o que conversar.
Falando sobre amenidades, sobre a vida surreal que aqueles habitantes de Alexandria viviam... Como se aquilo não fosse uma falcatrua, uma mentira que se convenciam dia a dia ser real, mas nada além de uma fantasia infantil...
Enquanto Mavelle se servia de alguns sanduíches pequenos, olhou para uma janela que permitia a visão de uma das ruas de Alexandria. Julgou ver algo se movendo atrás de uma árvore, mas foi surpreendida pela aproximação de outras pessoas.
Ao passo que Carl tentava puxar conversa com Peggy, que apenas conseguia responder-lhe monossilabicamente, a irlandesa foi agraciada com a presença de Maggie e Glenn. O casal viera sorridente lhe cumprimentar com entusiasmo.
– Que bom que vocês vieram! – disse Maggie Greene, feliz, dando um abraço sincero em Mavie. Aquilo deu um aperto na garganta da irlandesa, que, estranhamente, sentiu vontade de chorar. Fazia tempo que não se sentia assim... Amparada e querida por alguém que confiasse.
– Grand, está crescendo bem, hein! – falou Mavie, um pouco desmedida, olhando para a barriga de Maggie que já evidenciava a gravidez.
– Ainda bem. Pelo menos só engordo na barriga, né?! – respondeu Greene, brincando. Mavie sorriu com honestidade. – Estou dormindo de barriga para baixo enquanto ainda posso – confidenciou a mulher de Glenn, divertida.
– Ela está muito bem. Mal posso esperar para ver o brotinho chutando – comentou Glenn, abraçando a mulher, seus olhos puxados brilhando de animação.
– Já falei para parar de chamar nosso filho disso! Ele não é um legume! – reclamou Maggie, dando um empurrão carinhoso em Glenn com uma das mãos.
– Será que não é? Outro dia ela me acordou no meio da noite falando que estava com desejo de brócolis. Cru. Gelado. E eu fiz o que tinha de fazer, né? – o asiático falou, levantando os ombros. – Trouxe para ela num tupperware. E Maggie comeu. Sem nem um azeite – contou o marido da Greene, fazendo uma careta de nojo.
– É melhor respeitar mesmo os desejos da sua esposa, Glenn – falou Mavie, fingindo seriedade, enquanto o casal a olhou, curioso. – Ou seu filho pode nascer com uma batata no lugar do cérebro. Que nem uns retardados que a gente conhece – Mavelle murmurou indicando com o queixo Aiden, que se gabava de algo para um constrangido Padre Gabriel.
Maggie, Glenn e a irlandesa imediatamente desataram a rir. Risadas sinceras, honestas, saindo de si como se soltasse um fardo. Isso fez Mavelle até mesmo se abaixar um pouco para soltá-las, segurando rapidamente e de forma amigável no braço do descendente de coreanos, e afastando-se em seguida.
Havia perdido a conta de quando fora o último dia que rira assim. Piscou os olhos, novamente alerta, surpresa por finalmente estar se sentindo mais a vontade no ambiente preocupantemente inocente que era Alexandria.
Naquele momento, Reg, o marido de Deanna, fechara as cortinas, impedindo-a de ver as ruas lá fora. Berry tivera a impressão de vislumbrar algum movimento na mesma árvore anteriormente a tal gesto, mas ignorou aquilo.
Glenn e Maggie, agora, conversavam com Peggy, que tentara lhes passar uma conversa e voltar para casa enquanto Mavelle ainda estava distraída. A irlandesa aproximou-se dos três, sentindo-se grata quando ouviu o asiático incentivando a garota a tentar mais:
– Hey, não, nada de dar desculpas para sair daqui. Estamos todos juntos nessa. – Glenn segurou o ombro de Peggy, com gentileza. – Você está com sua família – disse o coreano. Peggy olhou da mão que tocava seu ombro para o rosto do asiático, parecendo decidir o que fazer.
Respirou fundo, e fez que sim com a cabeça, esperando que ele e Maggie se afastassem. Assim que o casal foi embora, Mavie já havia previsto o que Peggy diria. Entendera que os dois tinham a melhor das intenções, mas as palavras de Glenn foram como um gatilho para Peggy.
– Mavie, por favor, vamos embora – Peggy pediu, e Mavelle pôde ver que as mãos da garota tremiam, segurando seu copo.
– Ok. Você fez a sua parte hoje – incentivou a irlandesa, sorrindo para Peggy, tentando deixá-la mais calma. – Deixe-me só chamar a vovó, e sairemos.
Mavelle seguiu para outro canto da sala, onde agora Sasha conversava com a moça negra chamada Denise:
– Sasha, qual é sua comida preferida? Adoraria cozinhar para você. – Mavie ouviu Denise falar, enquanto avisava a avó, que acabara de conversar com Deanna, para irem embora.
– Faço isso para todo mundo que chega aqui – Denise insistiu, e Mavelle olhou a reação de Sasha de esguelha.
– Não sei – Sasha respondeu, claramente desconfortável.
– Claro que sabe! Todos têm uma comida preferida. Pode falar o que quer que seja – a mulher insistiu, sorridente. – Só fico preocupada, sabe, de cozinhar algo que você odeie... – comentou. Mavelle segurou a respiração, pois vira o olhar que Sasha lançara a sua interlocutora.
– Você fica preocupada? É COM ISSO QUE VOCÊ SE PREOCUPA?! – gritou Sasha, sem se conter. Um silêncio constrangedor se fez presente, enquanto a irmã de Tyreese, sem reação, saiu quase correndo da festa. Levou algum tempo até que todos voltassem a conversar e fingissem esquecer o ocorrido.
– Já passou mesmo da hora – falou Annie de forma discreta para sua neta, olhando preocupada para Peggy. A adolescente parecia prestes a reagir da mesma forma que Sasha.
*****
Por mais que detestasse tudo aquilo, Daryl Dixon se predispusera a tentar.
Lá estava ele, parado atrás de uma árvore, sentindo-se mais idiota do que nunca. Como algo tão simples poderia ser tão complicado?
Bastava apenas alguns passos, entrar naquela festa e falar e ouvir merda por algum tempo com pessoas desconhecidas, ou conhecidas. Não era realmente difícil... Ou não deveria ser.
Sem coragem para agir e se julgando patético por isso, Daryl apenas aguardou um momento oportuno, espreitando atrás de uma árvore grande nos jardins de Deanna.
Passou um bom tempo analisando a festa, a postura das pessoas e a forma como se portavam naquele ambiente, estando ali, do lado de fora. Pareciam aquilo que ele já imaginava: apenas riquinhos metidos, aquela gente desacostumada com a vida real, que não sabia o que era sofrer, que não sabia o que era levar a vida que ele havia levado.
Por que deveria se dar ao trabalho de conviver com gente fraca assim? Gente estúpida assim?
Então, com tais reflexões duras em mente, seu olhar foi surpreendido por algo que chamou sua atenção dentro da festa. Arrumada com um vestido branco, com seu cabelo moreno reluzindo em contraste com a luz da sala de jantar de Deanna, Mavie entrara no local, acompanhada de Peggy e sua avó.
Daryl teve o movimento instintivo de disfarçar ainda mais sua presença ali. A última coisa que queria era que a Esquila o visse naquela posição ridícula, escondido em meio às árvores, indisposto a entrar em uma sala com um bando de pessoas inofensivas.
Com os olhos focados em cada ação da garota dentuça, Dixon escondia sua silhueta naquele local, vendo como ela também parecia deslocada. Não falava com ninguém, apenas com Peggy. Passou um bom tempo assim, aparentando ela mesma querer escapar dali.
Internamente, o arqueiro se sentiu contemplado. Por mais que aquilo fosse um tanto egoísta, Daryl ficava um pouco aliviado ao ver que não era o único que não se acostumava com a loucura de Alexandria. E o alívio era ainda mais reconfortante por ver que justamente quem não se adaptava era logo a Esquila.
Dixon, por fim, decidiu entrar na festa. Já sabia o que faria.
Mas seus planos foram por água abaixo quando viu Glenn e Maggie se aproximarem da morena dentuça. Em alguns minutos, a irlandesa já agia como aparentava ser no Aquário... Despojada, extrovertida, alegre... Risonha. Daryl viu Mavie Berry rir com alegria sincera ao lado de Glenn e Maggie, e sentiu emoções controversas.
Era bom vê-la bem.
Porém, aquilo não deixava de ser mais uma evidência de que Dixon não faria a menor diferença para ajudá-la a se sentir melhor.
Conformado e sorumbático, Daryl decidiu desistir, enfim, da maldita festa. Caminhou a esmo pelas ruas da comunidade, completamente vazias já que todos aparentemente estavam na ridícula reunião, quando viu a luz de uma varanda se acender, ao seu lado direito.
– Daryl! – Reconhecera aquela voz. – Hey! – chamou Aaron, saudando-o da entrada de sua casa.
– Pensei que estava naquela festa lá. – Apontou Dixon para a residência de Deanna, sentindo-se revoltado por dentro. Será que esse viadinho quis tirar uma com a minha cara?
– Ah, não. Eu não iria de qualquer jeito por causa do tornozelo do Eric... Graças a Deus – respondeu Aaron, parecendo aliviado por ter uma desculpa para não comparecer à reunião.
– Então por que me disse 'preu' ir nessa porra? – retrucou o arqueiro, irritado.
– Falei para tentar ir. O que você fez, e foi muito bom. Aquela coisa de que o que vale é a intenção – disse Aaron, com afabilidade.
O caçador não soube o que responder, avaliando o namorado de Eric por alguns segundos. Decidira ignorar aquilo, e seguir caminho.
– Beleza – falou Dixon com simplicidade, se afastando.
– Hey! – Aaron o chamou outra vez. – Pode entrar. Venha jantar com a gente – convidou-o.
Daryl, reticente, continuou parado na rua.
– Vamos lá cara, temos um espaguete dos bons – insistiu o tagarela, fazendo um gesto para que Daryl subisse as escadas da varanda.
Sem saber muito bem como reagir, o arqueiro por fim decidiu entrar lá. Demoraria um bom tempo para que Rick e os outros voltassem, então seria bom matar o tempo ao invés de ficar se torturando sozinho mais uma vez.
Assim que chegou na sala de jantar, Eric o cumprimentou com gentileza, agradecendo-o mais uma vez por todo o suporte que dera a ele, junto ao seu grupo, quando quase morrera na missão de recrutamento em que buscara seu pessoal.
Sentaram-se a mesa, e Eric os serviu com o espaguete que preparara além de um vinho, e o arqueiro teve de reconhecer que aquilo estava realmente bom. Bem que Merle dizia que essa história de cozinhar era coisa de viado. Pensou Daryl, ainda incapaz de se livrar de seu próprio preconceito, enquanto comia entre a gratidão e a desconfiança o prato que lhe agraciaram.
– Obrigado – agradeceu o caçador, sem jeito, um pouco desconfortável naquela situação, mas um tanto grato por não ter mais de passar outra noite a sós com seus pensamentos e conflitos internos.
Nisso, a campainha da casa soou, e Aaron pediu licença para atender.
Quem diria, o tagarela é o macho da relação. Refletiu Daryl, de forma cruel. Era mesmo muito estranho estar ali sozinho na companhia de dois almofadinhas, duas “bichas”, ainda por cima... O que Merle diria sobre aquilo poderia encher os ouvidos de Dixon por dias.
Sabia que seu irmão era um boçal, um sujeito limitado, até mesmo inescrupuloso... Sabia que lhe ensinara coisas importantes, mas também coisas erradas, como o preconceito que agora enfrentava. De qualquer jeito, sentia sua falta.
Entretanto, Daryl fora desperto de seus pensamentos julgadores rapidamente. Aaron voltou para a sala de jantar acompanhado, e com um sorriso no rosto.
– Temos mais gente que veio para o jantar, Eric! – avisou com alegria, dando espaço para que Mavie se aproximasse. Daryl, surpreso, deixou boa parte do macarrão que comia escorrer pelo queixo e pela boca, sentindo-se um imbecil logo depois.
A garota irlandesa não mais vestia a roupa elegante que trajava na festa, mas sim um casaco azul claro simples do tipo que usava para as caçadas que costumava ir junto a Daryl na época do Aquário. Também vestia calças jeans, e uma blusa simples, além de um rabo de cavalo.
Nada muito elaborado ou chamativo, nada muito patricinha mimada... A Mavie que conhecera.
O coração de Daryl acelerou um pouco ao constatar aquela imagem, mas disfarçou sua reação tomando mais um gole de vinho.
– Hm-hm – saudou-a com um pigarro, quando Mavie sentou na cadeira ao lado da de Aaron, que se encontrava na frente de Eric e Dixon.
– Aaron, realmente não precisa... – Mavelle agradeceu, constrangida, enquanto o sujeito a servia com um prato de espaguete e uma taça de vinho. – Eu só vim devolver... – ela tentou, mas o tagarela a cortou:
– Sem cerimônia. Já sentou à mesa, vai ter que comer! – sentenciou Aaron, brincando de forma simpática. Sem escolha, Mavelle pegou seu garfo e faca e começou a comer a massa.
A conversa que fluía com menos dificuldade antes agora pareceu morrer dada aquela súbita conjuntura de fatores. Aaron olhou com cuidado e discrição para Daryl e Mavie, como se avaliasse algo.
Eric, alheio aos humores constrangidos, decidiu ser o tagarela da vez, enquanto Daryl se refestelava no macarrão, sem nem olhar para os ocupantes da mesa:
– Quando estiver lá fora, caso entre em uma loja ou algo assim, a senhora Neudermyer quer muito uma máquina de macarrão – falou Eric, olhando para Dixon.
– E todos queremos que ela pare de falar nisso. Digo, temos caixas de massas aqui, mas ela mesma quer fazer o próprio macarrão dela, a mão. No fim, deve ser só uma forma de arranjar assunto, mas... – Eric deu de ombros, parando para respirar e continuando:
– Enfim, se achar uma máquina dessas em uma de suas viagens, você como coletora... – Olhou para Mavelle – ...E você como... – Eric voltou-se para Daryl, ao seu lado, enquanto Aaron encarava o próprio namorado com um olhar que quase lhe gritava para que fizesse silêncio. O “passivo da relação”, aparentemente compreendendo, parou de falar e depois disse:
– Pensei que já tinha falado com ele... Ainda não perguntou? – Eric olhou para o companheiro com um olhar contrito, por ter falado demais. Aaron, em seguida, meneou a cabeça, dando a resposta negativa.
– Perguntou o quê? – Daryl questionou ambos, enquanto tentava evitar olhar muito para Mavelle.
– Podem me dar licença um instante? – Aaron pediu, e solicitou a Daryl que o acompanhasse. Mavie fez menção de levantar e falar que estava grata pelo jantar mas iria embora, ao passo que Eric a segurou pelo braço, de forma quase cômica.
– Não, não! Não comemos nem a sobremesa ainda. – O namorado de Aaron manteve a Esquila sem escolha, enquanto Daryl quase soltou um riso seco, vendo o olhar pasmo que ela deu a Eric. Que merda que esses caras querem?
Assim, Aaron guiou Daryl alguns lances de escada para baixo, seguindo pelo porão da casa, e indo até a garagem que tinham. O arqueiro ficou de fato boquiaberto com o que vira.
Aquele cômodo estava repleto de diversas peças mecânicas dos mais variados tipos, em prateleiras, mesas e estantes recheadas de itens de motocicletas. Parecia praticamente uma oficina mecânica, e das boas.
– Quando cheguei aqui, já tinha a estrutura, as peças e equipamentos. O morador anterior que construiu isto – esclareceu o falastrão.
– É muito peça para uma moto só – Daryl falou, admirado, percorrendo a garagem toda como um cão farejando um novo território.
– Eu encontrei várias peças lá fora e trouxe para cá – ratificou Aaron. — Nem sabia que precisaria delas. Sempre pensei que aprenderia a mexer nisso, mas acho que você já sabe o que fazer com elas – comentou o recrutador, observando Daryl avaliar as peças.
– E o lance é que... Bem, você vai precisar de uma moto – sancionou Aaron.
– Por quê? – Daryl indagou.
– Eu pedi a Deanna para não te dar um trabalho... Porque acho que tenho um para você – admitiu Aaron. – Quero que seja o novo recrutador de Alexandria. Não quero mais o Eric arriscando a vida dele.
– Quer que eu arrisque a minha no lugar – concluiu Daryl, sem surpresas.
– Sim, mas porque você sabe o que faz. Você é bom lá fora – Aaron o elogiou, sincero. – Mas não pertence aquele mundo – o recrutador asseverou.
– Sei que é difícil... É difícil se acostumar com pessoas se acostumando com você – Aaron falou, tocando em cheio em um dos maiores pontos fracos de Dixon, o que mais o atormentava em Alexandria.
– E eu entendo que às vezes você precisa de... Ar fresco. Eu também preciso sair para respirar um pouco, e não ser julgado continuamente – relatou.
– Mas o motivo pelo qual quero que me ajude a recrutar é porque você sabe diferenciar um cara bom de um cara mau – disse Aaron, com certeza rematada.
Daryl encarou o sujeito.
Finalmente pôde vê-lo com seus olhos, sem mais ter de enxergá-lo pelas sombras dos olhos de Merle, ainda tão influente dentro de si. A marca que sua criação deixara nele era muito forte. Dixon sabia o quanto era limitado, pois o mundo em que crescera era mesmo limitado. O mundo de hoje também era tão pequeno quanto, talvez até menor... Mas ainda havia gente decente nele. Gente que realmente o compreendia.
– Não tenho nada para fazer mesmo – Daryl aceitou, concordando com aquelas palavras.
– Obrigado – terminou o arqueiro, sua expressão mais leve e receptiva. — Vou trazer uns coelhos para você – Daryl ofereceu, subindo de volta as escadas para a sala de jantar.
Aaron riu, parecendo surpreso com aquela reação.
– Ótimo! – agradeceu, parecendo genuinamente agradado.
Os dois subiram de volta a sala de jantar, onde Eric parecia bombardear Mavelle com perguntas sobre a Irlanda. A tagarelice era mesmo uma marca do casal, aparentemente. Era divertido ver Mavie encontrar alguém que conseguia falar mais do que ela, sendo a Esquila uma pessoa habilidosa na arte de falar abobrinhas.
Os quatro comeram a sobremesa, um pudim de morango feito por Eric, e, ao fim do jantar Aaron sugeriu que Daryl ajudasse Mavelle no problema doméstico que enfrentava.
– Mavie me pediu uma chave de fenda para consertar o chuveiro elétrico do banheiro que divide com suas colegas de quarto – falou Aaron, brincalhão. – Mas disse não ter conseguido. Você sabe mexer nessas coisas? Eu e Eric somos um fracasso nisso – disse o recrutador, enquanto seu namorado concordava.
– Costuma ser fácil – Dixon admitiu com simplicidade, como lhe era de costume, encarando Mavelle. – A chave encaixou certo? – perguntou para ela. Aquela frase tinha um duplo sentido ridículo. Mavie piscou rapidamente, e logo respondeu:
– Bem... Sim, direitinho – comentou ela, sem jeito.
Aaron e Eric se entreolharam, querendo rir. Porra, vão se foder, parecem uns moleques.
– Então vá lá ajudá-la. Eu e Eric temos muita louça para lavar. – Aaron quase enxotou os dois de dentro de sua casa, embora Dixon não tivesse a menor ideia de como Mavelle iria reagir aquilo.
Saíram da casa dos dois sujeitos, andando rumo a residência em que Mavie vivia com sua avó, Peggy e Tara. Era uma casa mais afastada, em uma das ruas mais desabitadas de Alexandria. No meio do caminho, como ambos estavam em silêncio, algo raro na companhia de alguém falante como a Esquila... Daryl limpou a garganta.
– Olha, eu posso ir embora – falou ele, com a chave de fenda nas mãos, já sem a menor paciência para a estranha situação na qual ambos se encontravam.
Mavie parou de andar, e o encarou. Apenas franziu as sobrancelhas, sem falar nada. Seu rosto parecia revelar sua confusão interna, como se não soubesse o que queria, nem como lidar com aquilo.
Já sei a resposta. Daryl virou as costas, antes jogando a chave de fenda nas mãos da Esquila, que, com seus reflexos rápidos, segurou-a sem problemas.
– Você... – Mavie tentou, finalmente, quando Dixon já estava passos à distância. – Você quer me ajudar? – perguntou ela. Era estranho como aquela frase abria margem para múltiplas interpretações.
– Minha agenda está livre esta noite – retrucou Daryl, debochado, e tirando a chave de fenda das mãos de Mavelle. Viu a irlandesa sorrir com seu gesto e palavras, e aquilo também quase o fez sorrir.
– Eu acho que você me entende – Berry comentou, ajeitando uma mecha de seus cabelos escuros atrás de sua orelha esquerda. Daryl continuou quieto, olhando a expressão agora mais aberta do rosto delicado e levemente infantil da Esquila.
– Eu meio que... Sabe... Eu detesto esse lugar – confessou Mavelle, soltando um riso nervoso, enquanto Dixon ainda a escutava. – Tudo me parece tão... Irreal. É diferente do Aquário. Jed era um doente, mas passava mais segurança do que Deanna... Ele entendia a merda que a gente vivia. Antes de saber o quão filho da puta ele era, eu podia me sentir à vontade no Aquário, porque todo mundo lá entendia o que era a vida hoje em dia – continuou a irlandesa.
– Eu era parecida com esses camaradas. Sorridente. Falando baboseiras. Mas só porque eu vivia em um lugar em que eu achava estar segura. Não me sinto assim aqui – falou, respirando fundo.
– Não sei... Depois dessa festa estranha... Tudo como se fossem as mil maravilhas, desperdiçando comida, desperdiçando bebida, sem estocar direito, gastando energia, bens... Sem organização, sem disciplina, tudo muito a la caralho – Mavie soou grosseira, fazendo Daryl soltar uma risada seca, concordando.
– Essas pessoas me passam a ideia de que não sabem com o que estão lidando, nem como agir – confidenciou a menina dentuça, suspirando preocupada.
– Você ficou assim porque finalmente viveu na estrada. Eu sei como é – Daryl intercedeu.
– Mas nós sabemos com o que lidamos. Rick sabe – assegurou o arqueiro, enquanto a caçadora o olhava, parecendo ainda desconfiada da liderança de Grimes. – Eles tiraram a sorte grande por nos ter aqui. E até que a sua mira não é tão ruim assim, quando precisarem que você cace para manter o estoque deve conseguir uma coisa ou outra – brincou Dixon, provocando a garota morena, que pareceu relaxar mais depois disso, sorrindo um pouco.
Enfim seguiram até a casa da Esquila, onde ela o orientou a não fazer muito barulho pois Peggy e Annie já estavam dormindo. Tara ainda não tinha voltado. Mavelle o guiou até um banheiro que ficava no primeiro andar, e indicou o objeto quebrado em questão. A casa dela era parecida com a de Dixon e dos outros, o mesmo projeto de subúrbio de ricos comum em Alexandria.
Passaram alguns minutos em silêncio, enquanto Daryl desencaixava o chuveiro e consertava a fiação da resistência. Havia queimado por besteira.
– O problema foi que alguém demorou muito no banho. Chuveiro elétrico não costuma ter muita resistência, por isso banhos longos fodem com a fiação – esclareceu de forma simples. Mavie concordou, analisando os fios.
– Não fazia a menor ideia de como mexer nisso – admitiu ela. – Como você aprendeu tantas coisas? – a dentuça comentou, parecendo um pouco admirada.
– Já te falei: eu tive de me virar sozinho minha vida toda – falou Dixon, com sinceridade, relembrando o que dissera a Mavie quando a ajudara a remendar sua calça.
– Eu imagino como deve ter sido difícil... Realmente lamento por isso. – Mavelle olhava para o chuveiro, mas não parecia analisar o objeto. Daryl mexia nos fios, segurando a chave de fenda entre os dentes.
– ...Mas você segurando essa chave na boca parece um cachorro mordendo um osso. Vê se não vai babar e se emporcalhar todo, que nem fez com o molho do espaguete! – gracejou ela, petulante, finalmente voltando a ser a Esquila que Daryl conhecera, na sua frente.
– Ah, é? – Daryl respondeu, retirando a chave de fenda dos dentes e encaixando o chuveiro de volta, depois de juntar a fiação. Voltou a olhar para ela, que o encarava com seu típico olhar divertido que Dixon percebeu, naquele momento, ter sentido muitas saudades.
– Ainda assim deve ser melhor do que parecer uma Esquila com esses dentões aí. – Indicou. – É mesmo um mistério como não roeu sua própria boca até hoje – debochou da arqueira.
Naquele momento, Dixon terminara aquela tarefa, e devolvera a chave de fenda para Mavie. Aquele banheiro era pequeno, um pouco apertado, então ao se aproximar para entregar-lhe o objeto, ambos ficaram centímetros perto um do outro.
Mavelle moveu as mãos para retirar a chave de fenda da mão direita de Daryl, e quando tocou em sua palma o óbvio ocorreu. Os dois se encararam, e finalmente aconteceu.
A Esquila jogou a chave de fenda no chão, que retiniu caindo no piso de azulejo. O caçador viu a expressão simultaneamente confusa e determinada nos olhos entre o verde e o castanho da irlandesa, ao passo que ela apenas levantou o rosto e se aproximou mais.
Perto demais.
No segundo seguinte, já não mais raciocinando, Daryl a beijara. Não podia medir, sequer poderia imaginar o quanto sentira falta disso. Ter Mavie Berry em seus braços de novo fora como uma explosão sem proporções interna no seu corpo e em sua mente, transformando-o, fazendo-o incapaz de pensar, apenas reagir.
As mãos do arqueiro logo envolveram o corpo de Mavie pela cintura, levantando-a um pouco do chão pela intensidade do aperto, enquanto ela o enlaçava pelo pescoço, puxando seu rosto e seus lábios para se prensarem ainda mais aos dela.
Aquilo não fazia sentido. Não era algo racional. Nem planejado.
Mas não deveria mesmo ser. Era apenas... Inevitável.
Contudo, ambos foram obrigados a se soltar quando ouviram o barulho de vozes abafadas vindas de fora da janela do banheiro. Algo ocorrera nas ruas de Alexandria, mesmo àquela hora tardia.
Mavelle, se recuperando mais rápido, retirou a chave de fenda do chão, colocando-a em cima da pia, e abrindo a porta do banheiro para se dirigir à rua. Aguardou que Daryl voltasse aos seus sentidos normais e a seguisse, e correram para fora da casa. Peggy e Annie, aparentemente, não haviam acordado.
Andaram até a rua principal de Alexandria, onde havia os amplos portões. Defronte a entrada, parados e sendo avaliados por Aaron, Deanna, Rick e outros, estavam pessoas que Daryl nunca vira antes.
– Boa noite a todos. Sinto muito pelo “timing” impreciso – saudou-os um homem grisalho, fazendo uma reverência um pouco teatral. – Eu sou Moritz, e estes são Tejas e Aiyana. É um prazer conhecê-los.

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