Hunter's Instinct
27 Episódio 27 - Dead Leaves and The Dirty Ground
Notas iniciais
If you can hear a piano fall
You can hear me coming down the hall
If I could just hear your pretty voice
I don't think I need to see at all (don't think I need to see at all)...
The White Stripes — Dead Leaves And The Dirty Ground
— Bem, isso é mesmo um problema. – A jovem mulher de cabelos negros e lisos ouviu Rosita falar ao longe, enquanto caminhava aproximando-se dos companheiros incumbidos da ronda, e aferia o que havia sido deixado "de presente" para o grupo. Ouvia suas vozes cada vez mais claramente, agora que descia a encosta e seguia para perto deles.
Alguém antecipara a vinda dos sobreviventes liderados por Rick Grimes. De propósito, deixara visíveis, bem em meio à estrada, uma quantidade considerável de garrafas pet repletas do que parecia ser água potável. A quantidade de garrafas era praticamente o triplo dos integrantes do grupo, que, de fato, não era composto de poucas pessoas.
— Deveríamos ir embora. Agora – falou Sasha, suas sobrancelhas levantadas em sinal de alerta, olhando nervosa para todos, enquanto segurava com tensão evidente sua arma sniper, envolvida pela bandoleira em seus ombros. Desde a morte de Tyreese, a mulher jamais havia aparentado relaxar novamente. Em um estado sempre inquieto e ansioso, a irmã de Tyreese parecia sempre ansiar pelo pior.
— Embora como? – perguntou Abraham. – O trio de "meninas superpoderosas" está mais para lá do que pra cá. Vão precisar ser carregadas, e isso vai nos atrasar – debochou o soldado, enquanto Rosita lhe lançava um olhar de censura com uma sobrancelha levantada.
— Abraham tem um ponto – disse Glenn Rhee, olhando para as garrafas e tentando idealizar um plano. – De qualquer jeito, vamos levar isso para o grupo e decidiremos juntos – concluiu o asiático, enquanto Daryl Dixon, ao seu lado, anuía, balançando a cabeça em concordância.
— Pelo visto eu desci para ver se estava tudo bem aqui à toa – brincou a mulher de cabelos negros delicados, enquanto o grupo a encarava. Ninguém falou nada. Até mesmo Abraham estava sério e preocupado, dadas as novidades suspeitas.
Ela se aproximou do soldado ruivo e de sua companheira, enquanto voltavam pelo mesmo caminho que ela fizera para encontrá-los e certificar-se de que estava tudo bem.
— Meninas superpoderosas? – gracejou Tara, rindo levemente. – Não esperava essa de um grandalhão como você – falou de forma simpática.
— Eu tinha filhos. Antes de tudo isso começar. Uma menina e um menino. – confidenciou o sujeito, sem parecer se abalar, apenas olhando em frente na direção do restante do grupo.
— Ah... Foi mal – retratou-se com simplicidade Tara Chambler, com seu jeito mais despojado. – Eu também... Eu tinha uma sobrinha, na verdade – relatou ao soldado, que concordou com a cabeça, absorto nos novos problemas, e não nas tristes memórias do passado trágico de ambos.
A pergunta verdadeira é: quem é que, hoje em dia, não tem um passado devastador? Refletiu Tara, ainda um pouco constrangida pela tentativa falha de diminuir a tensão do grupo.
Assim, os seis sobreviventes se aproximaram do grupo de Rick, que agora terminara a pausa para um pequeno lanche com os restos de suprimentos e a pouca água que ainda tinham, preocupantemente escassa, prestes a acabar.
— Rick – Daryl foi o primeiro a chamá-lo, indo direto de encontro ao amigo. Tara observou-os ao longe, conversando com rapidez e em um tom propositadamente baixo, para que ninguém os escutasse.
Em seguida, deu uma olhada rápida para as três novas integrantes do grupo. As veteranas do Aquário ainda pareciam estar em um estado de fragilidade considerável, o que muito a consternava.
Tara Chambler se identificava muito com elas. Sabia ela, que mais do que qualquer outro membro do grupo de Rick. Tinha razões claras e lógicas para tanto.
Decidiu, por consideração e empatia, aproximar-se de Peggy, que bebia ávida as poucas gotas restantes de um cantil que lhe fora emprestado por Carl, parado ao seu lado, parecendo sem jeito. O estado da garota era mesmo lastimável. Seus cabelos estavam sujos de lama e de terra, poeira por todas as suas roupas, enquanto usava uma blusa sem mangas que provavelmente a deixava com frio.
— Hey. Se quiser, eu tenho uns três goles na minha garrafa. – Ofereceu a adolescente sua garrafa squeeze colorida, enquanto Peggy apenas a encarou em silêncio. Pareceu considerar a sugestão. A menina engoliu em seco, e anuiu discretamente com a cabeça, pegando a garrafa com delicadeza das mãos de Tara. Quando terminou de beber, agradeceu-a em um sussurrado "obrigada".
— Vocês precisam mais disso do que eu – comentou Chambler, dando um sorriso solícito para as três mulheres. Annie, já de pé, organizava a pequena mochila que carregava consigo, enquanto Mavie estudava um mapa que carregava. As mãos da irlandesa jovem tremiam, parecia mesmo em condições físicas deploráveis.
— Não se preocupe. Estamos todas bem, obrigada – respondeu Annie, de forma quase fria. Tara percebeu que não era bem-vinda, por nenhuma das três, e podia compreendê-las bem. Se tudo o que veio a acontecer acabou por ser uma surpresa para o grupo de Grimes, ora essa, até mesmo para o próprio Rick Grimes, imaginava Chambler como não fora surpreendente e devastador para aquelas três sobreviventes.
— Ok. Se precisarem de algo, vou estar logo aqui atrás. – Por fim, Tara decidira caminhar mais ao fim do grupo, caminhando na retaguarda, sendo seguida apenas por Daryl Dixon que de fato fechava os caminhantes, dando-lhes cobertura.
Seguiram todos em direção as garrafas d'água, onde Eugene, desesperado e incauto, se oferecera para ser o testador da qualidade e da inocência daqueles líquidos. Abraham, já irritado por tudo, deu-lhe um enorme tapa nas mãos, fazendo com que a água caísse toda no chão e fosse desperdiçada.
Enquanto Rick e os outros ainda tentavam decidir o que fazer, já que aquele suprimento de água era realmente muito útil, porém ao mesmo tempo um indicativo de aspectos a recear... Tara olhou para o céu, julgando ter sentido algo úmido cair em seu rosto.
Michonne, perto dela, logo passou a gargalhar, abrindo os braços e sentindo as gotas caírem por sua pele de ébano. Chambler foi até Rosita, uma de suas amigas mais próximas do grupo, e se abraçaram, comemorando a chuva. A ironia sutil daquela coincidência foi um sopro inenarravelmente benéfico de esperança para todo o grupo de sobreviventes. Rosita e Tara deitaram ao chão, de tão exultantes que se sentiram pela literal benção dos céus.
Enquanto todos comemoravam, cada qual a sua forma, alguns mais ruidosos e outros menos espalhafatosos, Tara viu pelo canto dos olhos as três veteranas do Aquário, ainda impassíveis, porém apenas um pouco mais aliviadas pela água plúmbea. Retiraram de suas mochilas cantis e garrafas vazias, e passaram a enchê-los, silenciosas.
Rick dera ordens ao grupo para que pegassem todos os frascos e objetos que poderiam conter aquela água e os enchessem o melhor que podiam, ao passo que Dixon avisou a todos que buscaria abrigo para ficarem enquanto durasse o temporal. A chuva apertava cada vez mais e, assim que Dixon fez menção de se afastar, atraiu algo que havia ali perto.
Dentro da mata.
Um bando de cachorros, cerca de dezenas deles, se aproximava do grupo, parecendo hostis, seus pelos molhados e eriçados pela agressividade e pelo frio que deveriam estar sentindo por conta da chuva. Subitamente, todos se juntaram, enquanto os cães os cercavam, irritados pelo temporal e pela presença humana em seu caminho. Tara reparou que alguns inclusive tinham coleiras. Serão das pessoas que nos deixaram essas águas? Refletiu, enquanto puxava Rosita do chão, que já recebera a cobertura de Abraham, aproximando-se preocupado da parceira.
Daryl, agindo rápido como um cão de guarda, aproximou-se das três veteranas, que estavam mais expostas a presença dos animais ferozes. Alguns que pareciam dobermans seguiram com as presas de fora, arreganhadas, ameaçando Mavelle, sua avó e a adolescente Peggy, mas Dixon se interpôs entre eles.
O arqueiro abaixou-se na frente das veteranas, protegendo-as do ataque dos cachorros com seu próprio corpo, e com uma das mãos levantadas indicou para que elas se abaixassem aos poucos, enquanto se mantinha de frente para os cachorros. Tara percebeu que aquilo seria uma forma de mostrar aos cães que não queriam conflito, evitar que atacassem, talvez fingir submissão para atacá-los depois, menos alertas.
No mesmo segundo em que os cães pareciam abaixar a guarda, todos foram mais uma vez surpreendidos por ruídos de tiros, disparados sem a menor precaução e aviso. Os cachorros tinham sido eliminados no segundo seguinte, sem restar nenhum de pé.
Todos se voltaram na direção dos disparos.
No final do grupo, Sasha respirava arfante, suas sobrancelhas arqueadas em sua expressão de nervosismo típico. Agora não havia mais o que fazer, além de esperar que os tiros não denunciassem sua posição para quem quer que os seguisse, fossem apenas os humanos, fossem errantes.
Tara e o resto do grupo de Rick Grimes se entreolharam, parecendo relativamente preocupados. Sasha não disse palavra. Daryl, por sua vez, pegou o corpo do cão mais próximo e passou a retirar sua pele. Mavelle, depois de algum tempo, fez o mesmo, sendo ela própria uma exímia caçadora.
Buscando abrigo em meio a algumas árvores, o grupo passou a se alimentar com a carne dos cães, fazendo uma fogueira improvisada que ameaçou se apagar por conta dos pingos de chuva que atravessavam a folhagem. Daryl havia saído, junto a Glenn e Abraham, para examinar o local em busca de qualquer construção que servisse para protegê-los da chuva.
Pouco a pouco, mesmo que tensos pela proximidade do estranho que lhes dera aquelas garrafas d'água sabe-se lá com qual intenção, Tara percebia o quanto o grupo de Rick parecia mais a vontade. Naquele momento, o policial e Michonne ajudavam Carl a cobrir Judith da chuva, segurando em cima da bebê, amparada por Carl, a jaqueta do líder do grupo.
Carol e Maggie conversavam, enquanto comiam pedaços da carne do cachorro, tentando acalmar Sasha, ainda instável. Rosita, Eugene e Padre Gabriel compartilhavam aquela refeição, pontuando um diálogo curto com palavras precisas aqui e ali, todos integrados à sua forma, nenhum deles de fato... Deslocado.
Com exceção das três novas membras do grupo.
Tara caminhou até elas, saindo de perto da companhia de Rosita por um tempo. As três comiam juntas a sua porção de carne, e não conversavam. Por mais que parecessem frágeis, não permitiam que sua postura defensiva baixasse, como se ainda não pudessem confiar no grupo de Rick Grimes.
— Eles não vão demorar nada, sabem. São bons nessas missões. — Falou em forma de consolo a mulher, sentando-se perto de Peggy. A adolescente apenas deu-lhe um olhar curto, sem dizer palavra. Annie e Mavelle continuaram em silêncio, se alimentando.
— Eu realmente sei o que vocês estão sentindo – Chambler foi direto ao ponto, enquanto olhava para cada uma das três com gentileza.
— É mesmo? – Mavelle finalmente falou, e sua voz que costumava ser doce saiu rouca pela falta de uso. E, claro, com uma tonalidade completamente debochada. – Quer dizer que eles — apontou com o queixo para o resto do grupo –, por acaso explodiram o lugar onde você morava? – disse sarcástica.
— Não – Tara respondeu. — Na verdade, eu explodi o deles – retrucou com sinceridade.
Houve uma pausa de silêncio e claras expressões atônitas nas faces das três veteranas. Nenhuma delas esperava por isso, aparentemente.
— Essas pessoas são boas pessoas – Tara Chambler esclareceu. – Eu sei que pode parecer difícil que vejam isso agora, mas é verdade – continuou. – Michonne não confiava neles de início, e agora é uma membra da "família" – exemplificou. – Padre Gabriel também não. E cada um deles, aos poucos, perceberam o quanto são todos dignos de confiança. E de afeição – complementou.
— Como assim, você explodiu a casa deles? – perguntou Peggy, sem se conter.
Tara suspirou, levando as duas mãos para trás da cabeça.
— Eu também já tive um "Jed" na minha vida. O nome dele era Brian. Segundo eles – apontou para o grupo restante –, na verdade, era Phillip. E também se auto-denominava o "Governador". Era um louco – disse em tom de confissão. – Ele foi um sujeito que namorou minha irmã e cuidou da filha dela. Inclusive ajudou nosso pai doente a ter uma morte digna... – Chambler deu um pequeno suspiro, de novo. Aquelas eram memórias dolorosas.
— Antes de encontrar Rick e os outros, eu e o que restou da minha família vivíamos sozinhos em um apartamento em uma cidade abandonada. Ficamos um bom tempo assim, e era eu quem saía em busca de suprimentos e o que fosse necessário – falou Tara. – Brian apareceu por lá, ele mesmo em busca de um local seguro. Aos poucos, ganhou nossa confiança, e minha irmã veio a se apaixonar por ele. Acabamos deixando o apartamento, com a morte de nosso pai, e fomos a procura de outro local para viver.
— Ficamos um tempinho na estrada, foi complicado, mas sobrevivemos. E então encontramos um acampamento. E, nesse acampamento, Brian, ou Phillip, ou o fodido Governador – Tara disse com amargura – mostrou a que veio. Conseguiu nos convencer a todos de que Rick e os outros eram um grupo temível, que tínhamos de tomar o lugar onde viviam, uma prisão no interior da Georgia, alegando que na verdade era o local de onde ele viera, e que tinha sido expulso de lá por eles – a mulher continuou, taciturna.
— Mas na verdade era tudo mentira. O Governador atacou Michonne, matou uma das amigas deles, chamada Andrea, quase estuprou Maggie, mandou espancar e torturar Glenn, era um completo psicopata... E nós não desconfiamos de nada. Acreditamos em cada uma das palavras dele. Como vocês acreditaram em Jed – disse ela, direta.
— Ele matou o pai de Maggie na frente dela, e da irmã dela. Com a espada da Michonne. Cortou a cabeça dele – confidenciou. – Foi nesse momento que eu soube no que tinha me metido. O erro que cometi. O quanto eu me equivoquei em julgar os "vilões" da história... Que, na verdade, eram as vítimas... – As três veteranas do Aquário encaravam Tara, muito sérias, parecendo de fato surpresas com aquelas confidências.
— Por esse erro, eu perdi minha namorada – admitiu Tara. – Ela morreu no conflito na prisão. E eu sobrevivi, apenas eu, do grupo que antes estava junto a Brian. Mas encontrei Glenn, e ele me acolheu. Fomos juntos em busca de Maggie. E todos eles me perdoaram pelo que fiz. Pelo que ajudei a causar. – A mulher olhou com gratidão para cada um dos rostos do grupo de Rick Grimes.
— Eu confio minha vida a eles, e sei que, com o tempo, vocês vão se sentir a vontade para fazer isso também. – Voltou a olhar para as veteranas. – Eu passei um tempo me sentindo muito deslocada dentro desse grupo, como uma estranha no ninho, como se não pertencesse a eles, como se eu sequer merecesse pertencer. Mas a verdade é que esse mundo de hoje é cruel, louco e, ao mesmo tempo que desperta o pior em algumas pessoas, como Brian... Desperta o melhor em outras. – Apontou de novo para o grupo de Rick Grimes.
Refletindo, as veteranas do Oceanário de Atlanta encararam a todos os outros, unidos em seus pequenos momentos cotidianos do que era a rotina daquela vida instável na estrada, preocupados, tensos... Mas juntos. Firmes em sua união inquebrável.
— Ninguém aqui quis machucar vocês ou destruir aquele lugar que foi uma espécie de lar para todos nós. Mas Rick, Carol, Daryl, Michonne, Glenn e Maggie, todos eles, estavam apenas se protegendo de Jed. Não confiavam nele, e vocês viram que tinham razão em fazê-lo. – Peggy olhou para Tara, e Chambler viu em seus olhos chamas de ódio pelo que Jed fizera à sua família. A adolescente era tão nova, tinha apenas dezesseis anos, e por culpa da maldade dos homens perdera seu pai, seu padrasto e sua mãe. Toda a família que conhecera.
— Eu realmente espero que possam perdoá-los pelos imprevistos, e que queiram mesmo estar conosco. Achar algo assim, algo tão bom assim, de verdade, no mundo de hoje... É muito raro. Todo mundo aqui é ferrado do seu jeito, todo mundo aqui teve agruras e sofrimentos para suportar, e todos aqui erraram também... O fato de estarmos vivos, aqui e agora, e podermos contar um com o outro... É algo que deveríamos valorizar, a cada segundo. – Tara deu uma piscadela para as três mulheres, se afastando delas e voltando para a companhia de Rosita e seus outros amigos.
*****
Mavie estava exausta.
Assim que terminaram de ouvir as considerações de Tara Chambler, passados apenas cerca de meia hora desde que a jovem mulher se afastara, Daryl, Glenn e Abraham retornaram em meio a mata densa, avisando que haviam encontrado um celeiro. Fracos e desnutridos, os sobreviventes seguiram o rumo dos três homens, enquanto Mavelle, Annie e Peggy se encontravam nos piores estados.
Tara, muito solícita para com elas, logo veio em auxílio de Peggy, que mal conseguia caminhar. A febre da adolescente voltara a atacá-la, e Tara despiu a própria blusa que usava por cima de sua camisa simples para agasalhar melhor a menina e protegê-la da chuva. Passados alguns quilômetros, a adolescente tropeçou e caiu no chão, sem condições de continuar caminhando, e, sem dizer palavra, Tara a levou nas costas, de "cavalinho".
Naquele momento, Mavie deu-lhe um agradecimento sincero. Por mais que estivesse desconfiada daquele grupo e ainda muito abalada pelos recentes eventos no Aquário da Georgia, Mavelle passou a sentir que podia contar ao menos com aquela mulher. Realmente não parecia diferente da jovem divertida e pró-ativa que conhecera no Oceanário de Atlanta, mostrando mesmo que era de boa índole até mesmo em condições adversas como as que enfrentavam.
Quando enfim chegaram ao celeiro, a noite já caía, e Mavie, Annie e Peggy foram se recolher em um canto mais afastado do resto do grupo. Não queria admitir, ainda, para sua avó nem para a adolescente, mas a jovem irlandesa gostaria de poder voltar a confiar naquelas pessoas. Mas era muito cedo, e as feridas ainda estavam abertas.
E ela tinha a obrigação de proteger as outras duas, custasse o que fosse custar.
Mavelle colocou Peggy para dormir em cima de um pouco de feno macio, dando-lhe o único cobertor que tinha dentro de sua grande mochila de viagem. Em pouco tempo, já seca, a garota adormeceu. A febre baixara de novo, o que aliviou Mavie. Temia que aquela doença fosse evoluir.
Sua avó, ao seu lado, tomava um caldo que Carol Peletier e Padre Gabriel haviam preparado para todos, uma sopa com os restos de comida que haviam achado e o pouco que sobrara da carne dos cães, e Mavelle pegou sua pequena tigela e passou a beber também. Assim, aninhadas em um local quente, protegido do vento e da chuva, com fogueiras acesas e com suas barrigas alimentadas e a sede saciada, era impossível não sentir sono, mais uma vez.
Iriam se recuperar, aos poucos. Quem sabe, poderiam ficar fortes o suficiente para seguir outro caminho, se Annie e Peggy não quisessem mais estar em companhia daquele grupo.
Aquilo gerava sentimentos controversos dentro de Mavelle Berry. De certa forma, queria estar ali, mas ainda não se sentia a vontade com eles. Por mais que soubesse que Jed estava errado, e que grande parte dos atos de Grimes e dos outros se justificassem, ela não conseguia deixar de se sentir enganada. Ludibriada.
Aquilo tudo tivera uma importância maior para ela do que jamais poderia imaginar. A verdade é que olhar para o rosto de Daryl doía fundo nela, mais do que ela se sentia capaz de suportar. Ela ainda não sabia o que compreender, o que apreender daquilo, e pensar no assunto a deixava confusa, assustada e machucada.
Algum tempo se passou, e Mavelle decidira dormir também. Annie envolveu-a com seu xale, por mais que Mavie insistisse para que a avó continuasse usando, que ela precisava mais daquilo do que a jovem irlandesa, mas a idosa não cedeu. Desistindo, então, Mavelle decidira que fingiria dormir até a avó adormecer, e então voltaria a cobrir a idosa irlandesa com seu xale.
De olhos fechados, fingindo dormir, Mavie apenas escutou uma aproximação de passos para perto delas, e de um corpo se abaixando próximo da avó, movendo o feno em volta. Seu coração se acelerou um pouco, sentindo uma emoção hesitante dentro dela, pensando se seria o arqueiro ou não.
— Se quiser, sobrou um pouco mais do caldo. – A voz límpida e supostamente calorosa de Carol Peletier se fez ouvir, e Berry se sentiu simultaneamente aliviada e frustrada.
Mavelle esperou a resposta da avó, ainda de olhos fechados. Mas ela não veio tão cedo.
— Entenda – Annie falou, sua voz soando baixa, controlada, porém fria como uma nevasca. – Estamos junto com vocês, e vamos colaborar. Mas você pode parar com o seu teatrinho agora. Não há necessidade disso – a avó de Mavie proferiu aquelas palavras curtas e efetivas com o efeito de um golpe verbal, praticamente.
— Você acha que estou armando algo? – comentou Carol, sua voz tão tranquila quanto a de Annie, como se suas palavras não tivessem a abalado em nada.
— Eu não faço a menor ideia do que você pretende – retrucou Annie, agora quase grosseira, porém com o mesmo tom de voz impávido. – Mas nós três não nos meteremos com vocês, enquanto não se meterem conosco – alertou a idosa. Mavie sabia o quanto a avó estava decepcionada com Carol. Julgou-a totalmente digna de confiança, alheia à todas aquelas tramas, e na verdade era parte central de tudo.
— No momento, meus maiores estratagemas são oferecer mais comida a vocês. Para que possam melhorar e seguir junto ao grupo em boas condições. Quanto mais fortes estiverem, melhor será para todos nós – falou Carol Peletier, em um tom entre o deboche e a sinceridade.
— Eu sei bem o que é melhor para a minha neta e para Peggy – revidou Annie.
— Sem dúvidas – Carol continuou. – Longe de mim contestar. Foi você que fez a escolha mais sábia, afinal de contas – disse.
— O que quer dizer com isso? – perguntou a idosa irlandesa.
— Você decidiu que seguiriam conosco. Confio no seu discernimento, Annie. Acho que você vai saber diferenciar quem são os verdadeiros amigos — falou Carol, fazendo uma clara alusão ao papel no qual aqueles que os seguiram haviam escrito "de um amigo" – e quem é o inimigo em comum de todos – completou, se levantando e se afastando.
Mavie piscou os olhos rapidamente, olhando pela fresta que havia entre uma madeira do celeiro, vendo relances do rosto da avó. A idosa encarava Carol com uma frieza controlada, que já dera as costas para as três e ia se sentar próxima de Rick, Daryl e Glenn. Em uma coincidência esquisita, o caipira movera os olhos da mulher de cabelos grisalhos para a direção onde estavam as três veteranas do Aquário. Mavie Berry fez contato visual com os olhos de Daryl à distância, por um milissegundo.
Ainda doía.
Enfim o começo da noite se passou, e Mavie adormeceu em determinado momento. Quando acordou, já era de madrugada, e ruídos de carniceiros, trovoadas e passos apressados soaram altos pelo ambiente.
Levantando-se de um salto, Mavelle viu sua avó adormecida ao seu lado, e cobriu-a o mais rápido que pôde com o xale. Peggy continuava dormindo a sono solto. Ambas estavam exaustas. Mas Mavie iria conferir o que acontecera.
Todo o grupo de Rick Grimes se encontrava parado junto as portas, com exceção de Judith, que fora deixada envolvida em seus cobertores em uma porção macia de feno. Mavelle passou rápido pela neném, e seguiu até as portas para compreender o que fora que acontecera.
Aparentemente, corpos em decomposição forçavam passagem para dentro do celeiro, enquanto todo o grupo de Grimes segurava as portas com a força de seu próprio peso. Aquela visão emocionou Mavie instantaneamente, por mais que ainda tivesse emoções contraditórias a respeito daquela gente.
De fato, não importava quem fossem. Não importava que Tara viesse de um grupo inimigo, ou que Padre Gabriel e Michonne não tivessem confiado no grupo de início, ou tudo o que Rick, Carol, Daryl, Michonne, Glenn, Maggie e os outros algum dia poderiam ter feito. Eles estavam juntos agora. Naquele momento. Trabalhando uns com os outros, se protegendo mutuamente.
Ombro a ombro, unindo forças para sobreviver.
Juntos.
Mavie correu até o espaço que havia na porta, perto de Carl. O garoto olhou para ela com um meio sorriso de surpresa, grato pela ajuda. Mavie lhe deu uma piscadela discreta, enquanto ela mesma forçava todo o seu peso e seus braços contra a porta, aguentando cada tranco dado pelos carniceiros. Podia vê-los pelas falhas na madeira das portas que tentavam destruir.
Aquilo era quase uma metáfora viva. Os cadáveres que andavam eram as agruras que enfrentavam, as dificuldades, os percalços complexos da estrada... Seus sofrimentos, que insistiam em tentar derrubá-los, em fazê-los cair e não mais levantar. Se tentassem enfrentá-los sozinhos, não poderiam aguentar, sucumbiriam rapidamente. Mas, juntos, sustentando-se lado a lado... Tinham forças para aguentar. Para superar.
Mavie decidira.
Ficariam juntos com o grupo de Rick Grimes. Era sua escolha definitiva.
A uma pequena distância, Daryl segurava as portas, bem onde ficava o meio de abertura delas. Mavie, encostando-se com esforço contra as portas depois de um tranco bastante agressivo dos carniceiros, fechou os olhos pelo baque desconfortável, e depois abriu os olhos, encontrando os orbes azulados do caçador arqueiro.
Caçadora e caçador se encararam.
Mavie esboçou um meio sorriso, e continuou a tarefa, desviando o olhar.
Depois de muitos esforços, os mortos-vivos finalmente desistiram de adentrar o celeiro, muitos mudando seu rumo e outros inclusive se ferindo e tendo seus corpos em decomposição desconjuntados pelo temporal. Era quase de manhã quando Mavie voltou a dormir, mas Dixon se aproximou dela, tentando tocar em seu braço para chamar sua atenção, seguindo-a sem que ela o visse.
Mavie Berry voltou-se para trás, um pouco surpresa e novamente alerta, e ele recuou um pouco, parecendo temer ter invadido algum espaço pessoal dela. Mavelle, em silêncio, apenas aguardou o que ele queria.
— Obrigado – foi a primeira palavra que ele dissera para ela desde que a irlandesa o ameaçara de morte no Aquário da Georgia.
De nada, Cupido. Mavelle pensou, mas não conseguiu dizer.
Apenas concordou com a cabeça, se afastando dele e voltando para a companhia de sua avó e de Peggy.
Mais tarde, depois que o sol havia aparecido um pouco, Mavelle decidiu sair do celeiro para caminhar pelos arredores, vendo os estragos da chuva naquela manhã que se abria sem nuvens. Sua avó e a adolescente ainda dormiam calmamente, e Mavie agradeceu por isso internamente ao grupo de Grimes. Mereciam mesmo um descanso, um momento em que pudessem dormir sem medo.
Mavie Berry andou um pouco, e viu Sasha e Maggie sentadas em um tronco de árvore caído, derrubado pelo temporal da noite passada. Pareciam conversar sobre tristes considerações, inclusive lembrando de Noah.
Mavelle as saudou com discrição, e elas responderam com gentileza. Mavie sentou-se um pouco separada, na borda do tronco, enquanto Maggie Greene lhe passou uma caixinha diferente.
— O que é isso? – Quis saber a moça irlandesa.
— Abra – comentou Maggie, com um sorriso discreto sem mostrar os lábios.
Mavie Berry abriu a caixinha, e viu uma boneca, uma bailarina loira em meio a um dispositivo das típicas caixinhas de música que conhecia.
— Que gracinha – admitiu. – Você que achou isso? – Mavelle perguntou, dando corda devagar na caixa.
— Carl – Maggie falou. – Mas Daryl consertou para mim, antes uma pedra havia enganchado nas engrenagens, e não funcionava. Nem precisei pedir – a Greene acrescentou, enquanto a pulsação de Mavie acelerava.
— Isso é a cara dele mesmo – afirmou Sasha, mencionando a atitude gentil e inesperada de Dixon.
Mavelle engoliu em seco, enquanto suas mãos tremeram um pouco ao segurar a caixa. A sensação de confusão voltara outra vez.
— Acho que ele, ou ela, que está aqui dentro – apontou para a própria barriga saliente pela gravidez – vai gostar de ouvir uma música assim – disse Maggie, sorrindo para seu próprio ventre.
— Por que parou de dar corda? Dá para dar mais voltas – incentivou Sasha, e Mavie, subitamente desatenta pelas palavras de Maggie, voltou a dar corda. Entretanto, quando soltou o mecanismo, o dispositivo não girou. Nenhuma música tocou.
Maggie, Sasha e Mavie se entreolharam. Foi inevitável cair no riso. A ironia de sempre... Nada, naquela realidade, poderia dar sempre certo.
Foi aí que ouviram os ruídos de alguém se mexendo entre as folhagens.
Mavie retirou o arco que havia deixado ao lado do tronco no chão, e uma flecha da aljava às suas costas, pronta para atirar. Sasha já apontara a arma na direção do barulho, assim como Maggie.
Um homem saiu em meio aos arbustos, com as mãos levantadas, e com uma expressão sorridente e agradável. Parecia realmente simpático, não aparentando a simpatia falsa e polida de Jed.
— Olá. Meu nome é Aaron! – se apresentou, animado. Mavie, Sasha e Maggie apenas mantiveram as armas apontadas.
— O que quer? O que faz aqui? – perguntaram Sasha e a Greene.
— Conversar com vocês. E com seu líder, Rick Grimes.
E, subitamente, a caixinha de música passou a tocar. Enfim souberam quem os vinha seguindo por todo esse tempo.
*****
Vinte e dois dias já haviam se passado.
Vinte e dois dias de sobrevivência na estrada, nas florestas adentro, em todo e qualquer ambiente devastado que caminhou e percorreu. Vinte e dois dias de luta. Vinte e dois dias de batalha pela própria vida.
Vinte e dois dias... De completa solidão.
Billy Ray Holloway, com a barba ainda maior do que já tinha, caminhava, munido das armas que haviam lhe restado, uma garrafa de dois litros de água já quase vazia, um pacote de biscoitos de chocolate recheados, e um cobertor e casaco que guardava em sua mochila. Era tudo o que lhe sobrara.
Isso, e todas as suas memórias, mais dolorosas que os ferimentos, o cansaço, e a dureza da vida na estrada.
O caipira do Alabama havia seguido em direção ao seu estado, mas, sem o carro, que perdera emboscado por uma multidão insustentável de errantes no dia anterior, errara de direção e fora parar, por suas contas e pelo mapa que levava consigo, no Tennessee, estado de nascimento de Haywood.
Caminhava em meio a mata dos terrenos abandonados perto da rodovia 171, depois de La Vergne, nos arredores periféricos de Nashville, cidade natal do amigo que morrera por sua culpa. Andar por aquela localidade o lembrava diariamente de tudo o que fizera, e de tudo o que veio a perder... Por si próprio.
Billy estava cansado de culpar os outros. Os outros não existiam mais. Os outros eram os carniceiros. Naquele mundo devastado, ele estava sozinho... E seu maior castigo eram as lembranças de quando ainda tinha companhia.
Quando ainda tinha alguém que o amasse.
E aí, Caipira! As lembranças da voz vivaz de Mavie ainda continuavam firmes em sua memória. Havia se esquecido um pouco do rosto de Jed, de Annie, de Buck, de Dakota, Roger ou Peggy, céus, até mesmo de Haywood... Mas o diacho daquela menina irlandesa não saía de sua cabeça.
Uma lembrança da culpa que carregava consigo, que pesava cada vez mais a cada dia.
Mary Ann...
Mavie...
O sulista do Alabama, meio preso às suas imagens mentais, meio preso à realidade, sequer percebeu que um animal selvagem se movimentava perto de si. Foi surpreendido quando viu presas brancas e refulgentes avançarem contra si, em fúria, soltando seu portador um guincho agressivo mortal.
Os instintos de caçador de Billy foram despertos no mesmo momento, fazendo-o esquecer parcialmente de suas lembranças de sofrimento. O homem buscou sua espingarda, mirando efetivamente no javali que tentava atacá-lo, cada vez mais próximo.
Quando uma faca afiada, atirada de uma direção não tão longe do sulista, fincou-se em cheio no pescoço do animal, que caiu morto de pronto.
Billy olhou para os lados, subitamente assustado. Podia lidar com a caça, nenhum animal jamais o faria sua presa.
Mas não sabia que poderia estar sendo seguido... Por outras pessoas.
Apontando sua espingarda para os lados, temendo o que poderia surgir em meio às árvores e a espessa vegetação, Billy girava em seus próprios calcanhares, buscando ouvir qualquer ruído, por menor que fosse.
Não escutou nada, além do som de um chicote que se enrolou em seus braços, inclusive no que segurava o gatilho da espingarda, forçando-os para baixo.
Billy atirou contra a grama, a bala espalhando-se pela relva, enquanto soltava um urro de dor pelo contato abrasivo e doloroso do chicote contra sua pele. Seus braços foram amarrados e ele não podia se soltar.
Finalmente, dois saindo de trás de algumas árvores, e outros dois pulando, com a agilidade de primatas, de galhos altos de uma árvore, Billy encontrou quatro desconhecidos.
Uma menina de traços indígenas norte-americanos, que acabara de retirar do pescoço do javali a faca. Provavelmente fora ela que a atirara.
Um sujeito com traços indianos, que segurava o chicote que o impedira de atirar em qualquer um deles.
Um homem de cabelos brancos e grande barba também alva, porém de aparência distinta para a idade, bem conservado, vestindo um colete por cima de uma camisa bem ajambrada.
E uma jovem mulher provavelmente apenas alguns anos mais velha do que Mavie, loira, usando marias chiquinhas, e lhe dando um enorme sorriso debochado.
Ela foi a primeira a falar.
— Bem-vindo ao nosso circo dos horrores!

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