Hunter's Instinct
26 Episódio 26 - Hope Dies Last
Notas iniciais
We must accept finite disappointment, but never lose infinite hope.
~ Martin Luther King
– Eu me lembro de Noah nos orientar a pararmos perto dos muros – Michonne recordou Rick Grimes que, insistente, os compelira a estacionar o 4x4 antes pertencente aos veteranos do Aquário da Georgia um tanto longe da localidade da comunidade em que a família de Noah aludidamente vivia, em Richmond, Virginia.
– Todo cuidado é pouco. Já decidimos isso – o xerife retrucou, severamente, sentado no banco do carona ao lado do motorista, que apenas testemunhava as discussões entre a samurai e o policial. Silencioso por quase toda a extenuante viagem de carro, o rapaz que dirigia o veículo mal usara suas cordas vocais para expressar palavra.
Estava tão quieto quanto Daryl Dixon, que sentava-se no banco de trás do carro, ao lado de Michonne.
Glenn Rhee dirigia o automóvel escuro em estilo “jipe” com toda a habilidade e aptidão que já demonstrara ter com carros dos mais variados tipos. Depois de vinte e um dias seguindo quase em círculos pelas rodovias principais do Estado da Georgia, o grupo de sobreviventes finalmente achara vias alternativas menos populosas de errantes, capacitando uma viagem menos fatigante e mais segura.
Se é que ainda havia segurança, nos dias em que viviam.
– Afinal de contas, paramos ou seguimos? – perguntou o asiático, ríspido, algo que não costumava ser de seu feitio. Quando estava em seu estado normal, algo que não reconhecia dentro de si desde o colapso do Oceanário de Atlanta.
– Paramos – Rick asseverou, dando um olhar curto e austero para Michonne, que mantinha a expressão impassível.
Bem, eles sabem o que acho disso. Pensou o descendente de coreanos. Depois dos acontecimentos no Grady Memorial e, posteriormente, no Aquário da Georgia, Glenn sofria dificuldades em tentar encontrar um rumo a seguir.
Tinha apenas uma prioridade, e uma certeza: Maggie. Maggie e a criança que em alguns meses nasceria.
Era inevitável lembrar do fantasma da morte de Lori, algo que o atormentava dia e noite em seus pensamentos, em seus sonhos, em cada expiração e inspiração. Rhee testemunhara de perto a gravidez da antiga esposa de Rick Grimes, inclusive fora ele que soubera da notícia primeiro, trazendo a ela, na época em que moravam na fazenda de Maggie, Hershel e Beth, os testes de gravidez que ela encomendara do coreano, em suas constantes visitas com a Greene mais velha à cidade próxima daquele refúgio campestre.
Testemunhara o início... E o fim da gravidez.
Os dias difíceis que tiveram na estrada, quando a fazenda de Hershel fora invadida por uma horda imensa de errantes. Fora somente às vésperas do nascimento de Judith que o grupo encontrara uma zona de relativa segurança, a prisão no interior da Georgia, onde sacrificaram muitos dos seus para proteger o espaço, que, por meio do sangue derramado para fazê-la habitável por humanos, trazia uma irônica promessa de paz.
Glenn ainda se lembrava da cena fatídica.
Maggie, sua Maggie, suja pelo sangue de Lori, carregando Judith em seus braços, seguida de Carl, saindo de algum dos corredores da prisão para um dos pátios desalentados. A forma como Rick lidara com aquilo. Como caíra, como quedara, literalmente, no chão, sem conseguir se sustentar, sem conseguir sustentar o horror e toda a dor daquilo.
Rick enlouquecera depois daquele evento, mas conseguira retornar à sanidade. Glenn se lembrava de tudo aquilo, de todos os detalhes, e a cada dia certicava-se internamente, mais e mais...
...Ele não suportaria se aquilo acontecesse consigo.
Ela não vai morrer. Nem ela, nem o bebê. Glenn prometia para si mesmo, fechando os olhos e repetindo as mesmas palavras, como um mantra, como uma oração.
Não importa o que eu tiver de fazer. Ela não vai morrer. Maggie não morre.
Meu filho não vai morrer.
Glenn subitamente pisou no freio com brusquidão desnecessária. Jogados para a frente, Daryl e Michonne se ampararam nos bancos que haviam mais adiante deles, empurrando um pouco o corpo de Rhee e de Grimes, ambos protegidos pelo cinto de segurança.
Sem esperar mais, o asiático abriu as travas ao mesmo tempo em que abria a porta ao seu lado, sequer dando um olhar para seus amigos.
Ele se recusava a acreditar que havia algo lá. Pois Glenn sabia... Sabia, que se acreditasse, o baque seria muito pior.
E com uma esposa e um filho para proteger, o rapaz não poderia se dar ao luxo de se frustrar. De sofrer. Ele não tinha mais direito de fraquejar.
Na realidade que encarava, sua própria segurança e bem-estar haviam deixado de ser prioridade há muito tempo. O quanto isso era correto, o quanto isso era saudável, eram questões que ele não se permitia pensar.
Glenn se esforçava para tornar-se uma pessoa cínica, alguém cético, pois julgava que aquilo iria fortalecê-lo. Esperar demais nunca dava resultados... Apenas resultados negativos.
Maggie não vai morrer. Seu filho não vai morrer. Rhee repetiu as mesmas palavras em pensamento, quase em uma prece desesperada, mais uma vez.
– Glenn – Rick Grimes sussurrou baixo para o amigo, em um tom discreto de reprimenda, alcançando Rhee que já andara quilômetros para longe do carro. Embrenharam-se mata afora, encontrando os contornos dos muros da comunidade em Richmond. – Não foi assim que combinamos – ralhou com sutileza.
– O que você espera ver aqui, Rick? – Glenn voltou-se para o líder do grupo, impaciente. – É melhor que concorde comigo. É melhor esperar que não haja mais nada nesse lugar. Pois o que vamos fazer se tivermos de lidar com um Governador... – o asiático falou mais baixo, com a voz ferina: — ...Com mais um Jed, por aqui? – disse com raiva, porém em voz discreta.
– Precisamos olhar antes para saber. Você sabe porque estamos aqui – Rick falou mais baixo ainda, dando um olhar ligeiro e sutil para Daryl, que seguia ao lado de Michonne, mais atrás, fazendo a retaguarda.
– Eu entendo o que você prometeu para Noah. O que prometeu para Beth. – Glenn deu um olhar curto para Daryl, em seguida. – Eu imagino o que ele espera. Entendo tudo isso. Mas de que adianta nutrir esperanças tão improváveis? – Rhee emendou, mostrando o quanto os últimos eventos ameaçavam tornar-lhe um cético, algo tão distante de sua personalidade.
– Porque ainda existem. Porque precisamos alimentá-las. Pois é o que nos resta – Grimes revidou, ainda mais sério. – O que quer que eu diga para eles no lugar disso? – perguntou Rick, rude. – Quer que eu os deixe completamente desamparados? Eles contam comigo para isso. Conosco. Precisam saber que podemos sobreviver... Juntos. Todos nós podemos sobreviver – Grimes insistiu, colocando uma mão em um dos ombros do amigo asiático. Glenn entendeu a menção implícita a seu filho que iria nascer na fala de Rick.
Encarou o policial por algum tempo. Em seguida, afastou-se do contato com a mão de Grimes.
– O tempo das mentiras já passou, Rick – afirmou o ainda incrédulo Glenn. – Achei que já tínhamos aprendido isso no Aquário da Georgia – falou o asiático, mordaz e categórico.
Rick passou um tempo em silêncio encarando o rapaz. Parecia que não discutiria mais. Glenn, mais satisfeito com o silêncio, aproximou-se dos portões da comunidade, enquanto Daryl Dixon tentava abrir os portões do local, fechados com um cadeado.
– Eu falei – Glenn ratificou, agourento, deixando subentendido que aquilo era mais um sinal de que ali não havia absolutamente nada para eles.
– Carol, está ouvindo? – Rick Grimes puxou o walkie talkie, parado na frente do portão ao lado de Daryl que, movido pelo emocional desgastado, tentava rudemente empurrar as portas, em uma ação totalmente sem sentido. O policial com alguns gestos convenceu o arqueiro a desistir daquela tarefa irracional, acalmando-o rapidamente.
– Sim? – A voz de Carol Peletier se fez ouvir pelo receptor de som do comunicador que usavam, um tanto abafada pela interferência constante.
– Já paramos aqui. Aguarde um pouco – Grimes falou no walkie talkie e deu um olhar para Glenn, esperando que o asiático, o mais furtivo dentre eles, escalasse com rapidez os muros perto do portão. Enquanto isso, Dixon, distraído, afastava-se dos três amigos. Vira algo na grama perto do portão de entrada, e os comunicara:
– São pegadas – o caçador disse, concentrado em decifrá-las. Fez um gesto para Michonne, que decidiu dar-lhe cobertura, enquanto seguiam as pegadas que se afastavam da entrada do portão, indo mais adiante, para a estrada.
– Glenn! – chamou Rick, a voz no volume mais alto que ousava soltar. – Vamos ver o que eles acharam, antes. – Rhee já havia subido boa parte do muro, e, ainda mais ansioso, franziu os lábios em uma linha reta antes de pular de volta à grama.
Com as armas em punho, Grimes avisou a Carol no walkie talkie que aguardasse o sinal deles de que o ambiente estava seguro. Desligou a chamada, e seguiu Michonne e Daryl.
Passando alguns arbustos e poucas árvores, o caçador guiando-os pelo rastro que achara, segundo ele, pegadas de três pessoas diferentes, ainda vivas, por conta dos movimentos precisos e retilíneos... Enfim viram algo que fez a incredulidade de Glenn Rhee ser posta à prova.
– É o carro... Delas? – perguntou retoricamente o asiático, encarando o 4x4 negro que Mavelle dirigira para fugir do Aquário da Georgia quando este fora posto pelos ares, naquele acidente de enormes proporções, o último infortúnio recente que vivenciaram.
Daryl Dixon estudou o veículo em completo silêncio. Circundou-o, examinando mais as pegadas do que o automóvel em si, e voltou pelo mesmo caminho que fizera, agora quase correndo.
Glenn, que havia parado a meio caminho de distância do automóvel, girou nos calcanhares e correu até poder subir outra vez os muros, escalando-os com mais agilidade e vontade do que da primeira vez. Dixon, ao seu lado, estava quase lançando-se acima da murada, mas Rhee era mais rápido nesse tipo de tarefa.
Assim que se pôs acima do muramento, a pouca vibração esperançosa que surgira sem aviso se apagara com a mesma rapidez como viera.
Como Glenn Rhee imaginara, como se convencera desde quando abandonaram os restos que haviam sobrado no Oceanário de Atlanta... A comunidade de Noah fora completamente devastada.
Árvores cortadas, casas carbonizadas e destroçadas, cadáveres e mais cadáveres caídos sem vida pelo chão, fossem de errantes ou de pessoas que faleceram sem virar aqueles monstros posteriormente... Provavam que, mais uma vez, a maior probabilidade vencera.
Esperar algo de bom, esperar que as coisas corressem bem, naquele mundo, correspondia à se iludir completamente.
Enquanto encarava aquela paisagem desolada, sentado em cima do muro, Dixon havia acabado de escalar a murada, e tinha seu momento de choque, por sua vez. Glenn não encarou o amigo. Sabia o quanto aquilo também era difícil para o arqueiro, de uma forma talvez até mesmo... Especialmente aflitiva.
Glenn Rhee não era o líder do grupo, ou o mais sagaz, ou até mesmo o mais sensato... Mas compreendia algumas coisas. Compreendera porque Daryl sumira em meio ao caos do Oceanário de Atlanta, e porque voltara ainda mais sisudo, calado e ensimesmado do que já era.
Mais uma vez, Dixon havia perdido alguém querido em circunstâncias hediondas que não puderam controlar.
Daryl jamais dissera algo sobre isso para Glenn, mas o asiático sabia. Era perceptível, ao menos para o rapaz. Ele podia compreender a dor do amigo.
Provavelmente fora algo parecido com o que ele sentira, quando acordou sozinho na prisão. Sem ter a menor ideia de onde Maggie fora parar.
Temendo que ela tivesse partido, e talvez partido para sempre.
– Acho que é melhor voltarmos – falou Glenn, desesperançado, ao lado do arqueiro. Deu um olhar de consolo para o caçador, que mal o encarou em retorno.
– Não – Daryl respondeu, resoluto. Franzindo os lábios outra vez, Rhee respirou fundo, sabendo que o grupo, de qualquer forma, não desistiria até que vissem por seus próprios olhos.
Ele entendia. Fora o mesmo que fizera com Maggie, quando se separaram depois do ataque do Governador.
Mas já sabia aonde aquilo iria parar. Ao contrário de sua jornada antes de Terminus, o coreano tinha certeza... Aquela não teria um final feliz.
Dixon pulara o muro, sendo seguido por Rick e Michonne, que já haviam escalado o muramento. Glenn seguiu-os, por fim, coçando a cabeça, pensando em como deveria agir para consolá-los depois que percebessem que não havia nada ali para ser encontrado...
...Nada além de mais dor.
– As pegadas continuam aqui. – Dixon indicou com o queixo, sua voz grave e rouca sussurrada com pressa. Portava a balestra pronta para atirar, depois da paisagem nada incentivadora que viram.
Daryl os levou em silêncio até uma árvore próxima dos portões. Dessa vez foi a vez de Michonne observar:
– Alguém parou por aqui. – A samurai indicou com a mão para o chão, onde a grama úmida de lama estava afofada na marca de dois pés.
– E por aqui. – Rick apontou para a relva próxima de Glenn.
Depois disso, o arqueiro guiou os três amigos por rastros contínuos de três pés, que, pelo desenho das pegadas, pareciam se fechar em algum círculo de proteção.
– Elas foram por ali, protegendo uma a outra – Michonne falou, sua voz demonstrando um pouco menos de pesar.
– Esses rastros são recentes – Rick Grimes assegurou. Parecia ser um bom sinal. Mas Glenn já não acreditava mais em sorte.
– Mas esta era a casa de Noah. Pela forma como ele me contou que era – Glenn Rhee comentou, admitindo agora nutrir uma mísera pontada de esperança. A casa de Noah, também parecendo ter sido saqueada, mantinha a pintura e a arquitetura que o jovem rapaz um dia havia descrito ao asiático.
Aquilo tudo fazia sentido. Pelo que sabiam, Mavie, Annie e Peggy haviam conseguido escapar do colapso do Oceanário. A adolescente chegara a se envolver com Noah, o membro do grupo de Rick que mais se aproximou da menina mais nova do Aquário da Georgia. Era natural que fosse procurar o que restara da família do garoto, se não tinha mais para onde ir.
– Prestem atenção. – Rick os deixou de sobreaviso, indicando os vultos ao longe, na periferia da comunidade, próximos a uma clareira que dava origem a uma extensa floresta. Errantes estavam perto.
– Vamos sem fazer ruídos – o policial os orientou, enquanto ainda seguiam Daryl, que se guiava pelos rastros estudados.
Abriram a porta da casa de Noah, e, deliberadamente chamando a atenção de possíveis errantes batendo em locais estratégicos e fazendo sons calculados, não encontraram com morto-vivo algum. Apenas com o cadáver da mulher que provavelmente fora a mãe de Noah, cortado, depredado, com um rombo grotesco em sua cabeça.
Michonne, apiedada com aquela visão, retirou um pano que cobria partes do sofá e cobriu o corpo assassinado brutalmente a sua frente. Em seguida, os quatro em silêncio fizeram a ronda pelo primeiro andar da casa, não encontrando nada nem ninguém.
Seguiram para o segundo andar, e cada um foi responsável em procurar por alguma pista nos diferentes recintos daquele nível da habitação. Michonne acabou entrando em um quarto com uma larga cama de casal, Rick em um escritório e Daryl em um quarto decorado com uma decoração infantil masculina. O cadáver de um rapaz idêntico a Noah estava caído ao chão do corredor perto da escada, exalando seu cheiro podre de carniça. Fora transformado em errante, e morto novamente.
Glenn abriu a porta do último quarto que restava examinar. Seu olhar perscrutou a colcha que cobria o que poderia ser um corpo morto, pelo cheiro intenso de carniça, as cortinas abertas com um vento que soprava frio e forte, um quadro de cortiça repleto de fotos de Noah e sua família...
...E Mavie, Annie e Peggy, junto ao chão.
Não pôde se controlar. Era inacreditável.
– Achei elas! Estão aqui – avisou ao resto do grupo Glenn, sua voz soando surpresa e genuinamente comovida.
Foi então que percebeu que os corpos, estirados no chão, pareciam desacordados, os olhos de cada uma delas cerrados profundamente... Parecendo revelar em seu abandono pessoas mortas.
Prendendo a respiração, Glenn tentou dar um passo para perto das três mulheres, mas foi empurrado para o lado por Daryl, que entrou naqueles aposentos em uma corrida desabalada. Rhee testemunhou a expressão febril de Dixon, cujos olhos semicerrados demonstravam sentir algo com tamanha intensidade como Glenn jamais havia visto no rosto do amigo.
O caçador se abaixou ao lado de Mavelle Berry, e colocou alguns dedos no pescoço dela, na curva que havia abaixo de seu maxilar e seu pescoço, pressionando aquela área. Em segundos, Rick e Michonne adentraram o recinto, e Glenn, o policial e a samurai apenas encararam Dixon em silêncio, que revelava uma agonia incalculável na forma com que olhava o rosto desacordado da garota irlandesa.
Quando Rick fez menção de falar algo, Daryl levantou os dedos da outra mão para perto dos lábios entreabertos da jovem caçadora, seus dentes salientes marcantes fazendo-se ver pela pequena abertura de sua boca.
O som da expiração súbita de Dixon, combinado com a completa modificação de sua expressão fora o suficiente para que os três entendessem. Os olhos azuis de Daryl, quase fechados, revelaram o que percebera naqueles poucos, porém lentíssimos segundos. Todo o seu rosto, antes indicando uma tensão mortal, passara a expressar o mais pleno... Alívio.
Os músculos da face do caçador, retesados, tornaram-se evidentemente relaxados, bem como sua postura antes hirta, passou a mais amena. Dixon parecia estar quase sorrindo, olhando para o rosto de Mavelle com uma ternura evidente que nem se quisesse conseguiria esconder.
Contra todas as chances, contra todas as probabilidades... Mavie estava viva.
Glenn jamais imaginara que viria a se sentir tão bem, um dia, por estar totalmente errado.
Ainda havia esperança, afinal.
*****
Daryl não entendia o que era aquilo. Na verdade, sequer queria entender.
“Pare de pensar”. A voz de Mavie ecoou em suas lembranças internalizadas em sua mente, enquanto o caçador apenas ouvia a voz de Rick soando muito longínqua, como se viesse de léguas e léguas longe daquele quarto. Na realidade, Grimes estava apenas alguns poucos metros de distância do arqueiro, mas Daryl tinha seus sentidos vidrados e entorpecidos por apenas um foco.
Ela está viva. Daryl pensou, sorrindo internamente, embora seu rosto mal demonstrasse o imenso e inenarrável alívio que sentia. Porra, Esquila, você é mesmo durona. Refletiu o caçador de forma quase tola, olhando para o rosto de Mavelle, ainda absorta de seus sentidos, presa em algum tipo de sono gerado por um cansaço extenuante.
Subitamente, a mesma culpa penosa que carregava consigo como um fardo debilitante quase sumira de seus ombros. Não acontecera de novo. Não daquela vez.
Daryl falhara em proteger Sophia.
Falhara em proteger Merle.
Falhara em proteger seus amigos do Governador, quanto este atacou a prisão.
Falhara em proteger e salvar Beth, que, por si só, o havia salvado das trevas da descrença e apatia que aos poucos iriam consumí-lo, não fosse a presença luminosa da garota durante aqueles dias de aprendizado, para ambos, que haviam passado juntos.
E, finalmente, quando julgara não mais suportar outro erro, supondo que aquilo o destruiria por dentro, o quebraria internamente... Achou que falhara com Mavie, definitivamente.
As esperanças eram mínimas. E tê-la encontrado ainda não significava que estava salva. Não saberia como ela iria reagir ao novo encontro.
Mas ela não morrera.
E isso era suficiente para Daryl sentir que ainda havia alguma boa providência no mundo.
Ela estava viva, e respirava, e seu coração ainda batia. Pulsante. Fraco, mas ali estava, ritmado em suas lentas pulsações.
Mavie estava viva, e talvez ele não tivesse chegado tarde demais para protegê-la e reparar seus erros.
Aos poucos, Daryl moveu com o máximo de delicadeza que conseguia – algo difícil para o arqueiro, em geral muito naturalmente bruto –, suas mãos de forma a levantar o corpo da garota irlandesa do chão, enquanto ao fundo, Rick Grimes terminava de deliberar com Carol a próxima jornada pelo walkie talkie.
– Então nossa primeira parada será nos arredores de Chamberlayne, seguindo pela rota 95. Ok, está certo. – Rick desligou o aparelho de comunicação e voltou seus olhos para os amigos. Glenn já se movera de forma a carregar Peggy no colo, que, não muito alta e de constituição física esguia, não aparentava nenhum desafio nesse sentido.
Michonne tentava levantar com suavidade o corpo de Annie no chão, mas Rick a tocou com gentileza em seu braço, indicando que ele a levaria. Alertou os outros três de que Carol dissera que demoraria menos de vinte minutos a chegar, estavam muito perto de Shirewilt Estates.
Os quatro desceram as escadas, três deles carregando as talvez novas futuras membras do grupo de Rick Grimes, que ainda se mantinham desacordadas. Dixon mal podia esperar para que Carol Peletier chegasse logo para buscá-los.
Era perigoso que, carregando três novas integrantes desacordadas, os quatro fossem em busca do veículo que deixaram parado. Precisariam de uma carona no caminhão até onde estacionaram, para evitar o confronto com possíveis errantes que já aferiram sondar a região.
Daryl sentia algo curioso. Passara todos os vinte e um dias desde o colapso do Aquário, que, indiretamente, contribuíra para causar, sentindo que carregava uma tonelada de culpa consigo, e a frustração imensa e pesar do fracasso. O luto antecipado.
De nada adiantavam as lógicas constatações de Carol que afirmara a ele que Richmond era o melhor local para encontrar as sobreviventes do Oceanário – apesar do caçador sempre se sentir constrangido quando ela tocava naquele assunto, afinal de contas, jamais a procurara nem a ninguém para conversar a respeito –, pois, mediante a análise óbvia de que quase todos os seus esforços nunca deram frutos, apenas mais tristezas e mais perdas... Era quase impossível que eles saíssem daquela empreitada com êxito.
Agora, que de fato levava o peso de Mavie nos braços, depois de dias levado apenas pela esperança cega, que julgava uma completa idiotice, algo que jamais se concretizaria... Ele finalmente se sentia mais leve. Desafogado de todo aquele mar de amargura.
Dixon encarou o rosto da Esquila, que parecia apenas dormir a sono solto. Daryl quase sorriu reparando mais uma vez em como ela era dentuça, a característica mais marcante de seu rosto, e que, para ele, apenas a embelezava. Como uma marca própria.
Algo que era muito dela.
Seus lábios entreabertos mostravam um ressonar fraco demais para tranquilizar a todos por completo, mas ela era forte, ela se recuperaria, Daryl tinha certeza. Não temia que Mavelle fosse morrer.
O que temia, agora, é como ela lidaria com aquele resgate.
Os minutos se passaram, conforme Michonne protegia o grupo, fazendo rondas na frente do portão no qual os agora sete sobreviventes estavam parados aguardando. O caminhão se fez visível à distância, e a samurai sinalizou pelo walkie talkie, indicando que estavam bem e prontos para ir.
Seguiram todos dentro do grande veículo até o automóvel que haviam estacionado, no qual Glenn Rhee tomou mais uma vez a direção, levando consigo Rick, Maggie e Michonne. Daryl, dessa vez, ficara na caçamba do caminhão, junto das três novas integrantes do grupo.
Tinha interesses lá a serem resguardados.
A viagem seguiu relativamente tranquila até a altura da cidade em que combinaram a primeira parada, mas novamente, como tudo jamais daria efetivamente certo, o grupo comprovou que não havia mais gasolina para o caminhão e para o 4x4, que usava menos combustível, mas aguentou apenas pouquíssimos quilômetros a mais.
Forçados a deixar os veículos, o grupo se viu parando em terras abandonadas no meio da estrada, grandes comprimentos de relvas verdes, em meio a um relevo plano e manso que se estendia até o horizonte. Não havia nada ali, nada além de poucas árvores, arbustos e poucos errantes andando à esmo, longínquos.
As três ainda não haviam acordado, e um tempo considerável já tinha passado. O grupo, agora um pouco mais preocupado com a saúde e condições físicas das três, deitou as três em meio a relva, com Carol, Maggie e Rosita, mais experientes naquele tipo de ação, ajudando-as a respirarem melhor, afrouxando os botões apertados de suas camisas ou retirando seus casacos, pois a ventilação as ajudaria a recuperar à consciência.
Daryl viu Carol levantar com delicadeza as pernas de Peggy, fazendo um ângulo de 125 graus entre as pernas da menina e seu corpo tombado, para facilitar a circulação do sangue. Rosita e Maggie se prontificaram a realizar o mesmo com as outras duas sobreviventes, e, em poucos segundos, todas as veteranas do Aquário abriram seus olhos, piscando em meio à luz do dia que já subia alta, próxima ao pôr do sol.
Quando viu os olhos de avelã esverdeado de Mavelle piscarem, a mesma sensação de alívio inundou o corpo de Daryl como se fosse uma onda gratificante de relaxamento.
A Esquila foi a primeira a reagir. Como se fosse um animal acuado, Mavie se ajeitou em seus cotovelos, levantando rápido, o que a fez tombar novamente contra o chão, pela fadiga em que se encontrava. Daryl quis avançar para ajudar, mas Glenn, ao seu lado, colocou o braço discretamente para impedi-lo. Maggie estava tomando conta da situação muito bem.
Annie levantou com lentidão propositada, aparentemente, enquanto encarava todo o grupo de Grimes, seus olhos cintilando na mais firme desconfiança.
Peggy, também reagindo de forma arisca, tentou se arrastar para trás, mas mal conseguiu se mover alguns centímetros. Estavam realmente muito fracas, e precisavam de cuidados urgentes.
Daryl voltou a encarar Mavie. Não sabia o que fazer, nem o que dizer. A segunda parte não era uma grande novidade, considerando que se expressar jamais fora o seu forte, sempre muito retraído e introspectivo.
A jovem irlandesa demorou a encará-lo de volta, e desviou o olhar muitas vezes, parecendo confusa. Dixon não a julgava por isso. Ele mesmo não se sentia muito a par de seus sentidos regulares, já há algum tempo.
– Bem – Rick começou, recebendo de Michonne o arco de Mavelle Berry e sua alvaja com as flechas, em seguida colocando-o perto dos pés dela, a uma distância respeitosa. – É bom saber que vocês três estão bem. Todos nós sabemos o que aconteceu recentemente, e cada um de nós carrega o peso por isso de diferentes maneiras. E é por isso que fomos buscá-las, para ter certeza de que estariam bem – Grimes esclareceu, em um tom conciliador.
– As suas armas estão com vocês – Carol acrescentou, também se dirigindo as três mulheres. – Guardamos o arco e as flechas para que não fossem perdidos – assegurou.
– Nós imaginamos como devem estar se sentindo – Rick continuou, olhando para cada uma das três. – Mas como eu disse a vocês antes de ir, nós não somos como Jed. O que aconteceu em Atlanta vai ficar em Atlanta, e não poderá ser consertado. Não pediremos falsas desculpas pelo que planejamos contra o seu líder. Nós jamais confiamos nele, que nos sequestrou e tentou nos desunir, como vocês testemunharam. Foram também vítimas de seus engodos – o policial afirmou. – Nós apenas nos desculpamos pelo caos imprevisto que se instaurou naquele lugar, há vinte e um dias atrás. Não queríamos matar, nem destruir, nem pôr nenhuma de vocês em risco. Nós queríamos segurança tanto quanto vocês. Queríamos sobreviver. Queríamos estar juntos – Rick Grimes discursou com propriedade, enquanto todos escutavam atentos à veracidade inegável em suas palavras.
– Logo, é uma escolha nossa como agir de agora em diante. Nós escolhemos ajudá-las, se vocês quiserem a nossa ajuda. Salvamos vocês em Richmond para provar isso. Queremos que se juntem a nós, e que façam parte do grupo – Grimes foi direto, oferecendo a proposta, agindo justamente de forma oposta ao que faria um líder como Jed Freeman. – Mas porque querem, e não porque não têm outra escolha, pois vocês têm – falou o policial.
– Vocês estão livres para ir embora, se quiserem. A escolha é de vocês. Mas, se ficarem, queremos passar por cima do que aconteceu. Todos aqui sofreram muito. Todos perdemos pessoas amadas, desde que todo esse horror começou. Mas estamos todos dispostos a superar. E gostaríamos de fazer isso... Junto com vocês – Rick Grimes ofereceu a escolha a Mavie, Annie e Peggy, que ainda se mantinham em silêncio.
Em seguida, Rick voltou-se para Daryl e pediu para que ele, junto a Glenn, Abraham, Rosita e Sasha, fossem conferir o perímetro. Dixon ficou reticente de início, entretanto a um olhar incisivo Rick o fez compreender o que pretendia. Precisavam estar certos de que estava tudo bem ali, para que, antes de mais nada, Mavelle, sua avó e a adolescente pudessem receber alguns mínimos cuidados médicos, alimentação e hidratação antes de serem obrigados a continuar na estrada para Washington D.C.... Caminhando.
Enquanto desciam uma pequena encosta em direção a onde os veículos estavam estacionados, Glenn e Daryl foram para uma direção, enquanto Abraham, Rosita e Sasha foram para a oposta. De longe, Dixon julgou ter escutado a voz de Annie, audível apesar do cansaço e fraqueza física:
– Vamos ficar com vocês – decidiu a idosa irlandesa.
Mais uma vez uma sensação inédita e indescritível em intensidade de alívio transcorreu o caçador por inteiro. As coisas haviam acabado bem. Era inacreditável.
Dixon e Rhee caminharam ao longo de alguns quilômetros, ambos silenciosos, mas ambos com expressões muito mais atenuadas, assim como a postura atenta de seus corpos para aferir se havia algum tipo de perigo ou risco à espreita de seus amigos...
Quando viram, deixadas na estrada adiante, como se esperassem por eles... Garrafas e garrafas de água, e um papel em meio a elas.
Glenn fez menção de correr na direção dos líquidos, talvez para estudá-los, talvez em algum impulso impensado para beber o conteúdo das garrafas pet, mas Daryl apertou o passo e ultrapassou-o, ele mesmo lendo o papel antes do asiático.
“De um amigo”, estava escrito.
Daryl julgara antes que tudo havia acabado bem, contra todas as chances. Mas, dessa vez, ele se enganara.
Não havia acabado ainda.

Fale com o autor