Hunter's Instinct
25 Episódio 25 - No Direction Home
Notas iniciais
Angustiada, Mavie percebia que seus instintos de caçadora e de sobrevivente lhe diziam urgentemente para que saísse dali. Aquilo tudo lhe afirmava claramente que, quanto mais tempo passassem naquele cemitério improvisado, menos teriam oportunidade de escapar do que lhes esperava.
Aqueles que fizeram tamanha destruição voltariam. No mínimo, para conferir os resultados. E Mavie não queria estar lá para ver. E não se permitiria deixar Peggy e Annie verem também.
– Peggy. Levanta. Vamos embora agora – Mavie ordenou.
Não houve resposta de parte da garota, ainda encolhida e fechada em si mesma.
– Peggy, se você não levantar por si mesma, vou te arrastar pelo chão – garantiu a jovem irlandesa, mais uma vez retesando o maxilar, agora a ansiedade passando a se tornar raiva, a mesma agressividade contida que explodira dentro de si depois que passara mais tempo agindo com sua animalidade do que com sua racionalidade.
Annie colocou uma das mãos no ombro da neta. Mavelle olhou para a avó, mantendo a mesma expressão agressiva. Ela, sem se abalar, apenas meneou o rosto, seus olhos de um castanho muito escuro mostrando pleno desconsolo.
– Ela dormiu. – A avó de Mavie apontou para Peggy com o rosto. A jovem irlandesa desceu o corpo de forma a conferir, e moveu sem muito tato o rosto da adolescente para trás. De olhos fechados, depois de ter deixado cair grossas lágrimas do oceano de pesar que tinha dentro de si, apenas aumentado dia após dia com sua constante coleção de infortúnios... A garota adormecera.
Estavam todas muito, muito exaustas.
– Não bebemos água há quase dois dias, 'vó – Mavie falou, ela mesma deixando as poucas lágrimas que conseguia produzir descerem de seu rosto. – Se pararmos aqui, vamos morrer. Eles devem voltar. – Ela indicou com o rosto o cadáver coberto do irmão de Noah, cujo cheiro empesteava o quarto, mas, acostumadas como estavam com a morte e suas características, as três quase não mais se incomodavam com aquilo.
– Não vamos parar. Só precisamos descansar. Você precisa. – Annie apertou o ombro da neta com mais força.
– Não podemos... Não posso... Não consigo... – Mavelle falou, esfregando as mãos no rosto e afastando-se bruscamente da avó. – Não dá mais, eu só quero sair daqui, só quero... – a avó a interrompeu.
– Esquecer – ela completou, fechando os olhos em uma expressão de profundo pesar.
Mavie olhou para trás, encarando a idosa irlandesa, que abriu os olhos devagar para ela, levantando os braços.
Como se fosse uma criança, Mavelle Berry quase correu na direção de sua avó, abraçando-a em meio a um choro convulsivo.
Annie foi aos poucos sentando-se ao chão, puxando sua neta consigo. Tentou forçar Mavie a deitar no seu colo, mas a garota irlandesa se recusou, afastando-se mais uma vez da avó, porém mantendo-se sentada ao seu lado.
– Deveríamos empurrar as estantes para a porta – Mavelle comentou, sem expressar emoção.
Annie concordou com a cabeça, segurando em sua mão. Sua única preocupação parecia ser, naquele momento, que a neta pudesse descansar e expressar sua dor.
– Já vamos fazer isso. Estamos sozinhas aqui – emendou a idosa. – Descanse, filhinha – a avó de Mavie usou o apelido carinhoso que chamava Mavelle quando ela era apenas uma pequena criança.
Muitos minutos se passaram, e apenas a respiração pesada de Peggy era audível para as outras duas mulheres em meio ao silêncio sepulcral daquela casa e daquela comunidade desamparada. Abandonada, como todas as três.
– Vovó... Eu nunca sei... Eu nunca sei em quem devo confiar – falou Mavelle em um tom de confissão infantil. Seus soluços morriam em sua garganta, mas sabia que suas lágrimas ameaçavam crescer no canto de seus olhos de avelã esverdeado.
– Podemos confiar uma na outra. Agora durma. Quando acordar, vamos achar água... E um novo lugar para morar – disse a idosa irlandesa, tentando munir sua voz de toda a confiança que poderia passar.
Mas sabia que aquilo eram apenas palavras, palavras vazias como o sopro do vento que enchera o quarto, e dançara nas fotografias de Noah com sua família.
Mavelle olhou pela janela antes de adormecer, e temeu que não fosse mais acordar. Desnutrida, ferida, fraca, exaurida pela fome e pela sede, completamente fatigada... Aquele poderia ser seu fim.
Como fora o fim da vida de seu filho, do filho que poderia ter tido, em uma tarde de muito vento e pouco sol, há quase dois anos atrás, em Atlanta.
[...]
– Hey, onde está minha irish cream? – A voz sempre alegre e simpática de Jeffie soou alta e entusiasmada pelo corredor anexo ao seu quarto no alojamento da universidade Nacional da Irlanda, em Galway. Lá dentro, Mavie ajeitou as próprias mangas de sua blusa, coçando a bochecha.
O semestre mal recomeçara, e havia muito mais preocupações em sua vida do que a mera rotina universitária.
Como vou conseguir falar isso pra ele?
Saindo há menos de quatro meses, a irlandesa e o americano já haviam viajado pela Irlanda em meio às férias de verão, em uma viagem bucólica e romântica que ela jamais iria imaginar desejar, tampouco concretizar. Acamparam nos parques nacionais, visitaram alojamentos, pensões e até mesmo hotéis caros, conhecendo de norte a sul e de leste a oeste toda a terra natal de Mavelle e dos antepassados de Jeffrey. Foram aos Cliffs of Moher, ao Trinity College em Dublin, as ruínas celtas de Glendalough, no condado de Wicklow, à toda a beleza das penínsulas do condado de Kerry, ao castelo de Desmond em Cork, a estação central de trem em Limerick, e navegaram pelo rio Shannon.
Conheceram todos os pontos turísticos principais da “Ilha Esmeralda” em uma aventura passageira e idílica; agora, os frutos da fuga da realidade batiam à porta, e vinham cobrar seu preço.
– Mavie! – Jeff falou, abrindo a porta de seu leito e já puxando sua nova namorada para um beijo apaixonado. – Não tem ideia de como meu orientador adorou nossas fotos. Acho que minha tese... – o homem, empolgado, falava com animação, enquanto gesticulava bastante. Foi apenas quando viu a expressão preocupada no rosto da garota irlandesa que ficou quieto.
– ...O que aconteceu? – Jeffrey questionou, aproximando-se da garota morena e sentando-se ao seu lado. Olhando-o com gravidade, Mavelle Berry passou-lhe os resultados de seu exame de sangue.
Era incontestável.
– Estou grávida – Mavie avisou, sabendo que não havia meias palavras para contar aquela verdade.
A reação de Jeffrey fora completamente inesperada. O homem baixou os olhos para o exame, coçando o queixo enquanto o lia. Demorou algum tempo encarando o papel, como se estivesse muito interessado em alguma listagem ali presente, enquanto mexia a cabeça para cima e para baixo, em uma confirmação silenciosa.
Continuou coçando o queixo nervosamente, até que Mavelle começou a rir, constrangida. E, finalmente, o americano falou:
– Então vamos ser pais – ele disse, olhando devagar para a garota irlandesa.
– ...Sim? – Mavie fez a pergunta retórica.
– Eu vou ser pai! – Jeffie falou, outra vez animado, puxando a namorada para um beijo e um abraço.
– O quê... – Mavie Berry ia começar a perguntar, consternada com aquela reação inesperada.
– Eu pensava que era muito cedo... Mas não... – Jeff falou para si mesmo, olhando para os cobertores de sua cama, e depois levantando os olhos devagar para encarar os olhos entre o castanho e o verde, de Mavelle.
– ...Agora eu posso dizer que amo você. Sem medo! – falou o fotógrafo. – Eu te amo – repetiu ele, e isso era confirmação o suficiente para o que Mavie já havia decidido. Seria mãe, e teria uma família.
A irlandesa começou a rir, gargalhando entre o alívio e a diversão pela reação completamente desinibida e “sem noção” de Jeffrey, que, ao mesmo tempo, era condizente demais com sua personalidade.
– Essa era a parte que você respondia – ele cobrou agora um pouco mais contido.
– Eu também te amo, seu idiota! – a garota confirmou, rindo e o abraçando, os dois compartilhando aquele momento novo e definitivo com uma leveza que ela jamais imaginaria ser possível. Tudo ao lado de Jeff era fácil, divertido...
...Bom demais para parecer verdade.
[...]
– Filha minha não dá a luz a uma cria bastarda! – O prefeito de Galway, senhor Berry, pai de Mavie, levantava-se da cabeceira da mesa de jantar, veias pulando em seu pescoço vermelho pela fúria.
– Controle-se, querido! – A mãe da garota irlandesa tentava segurar as mãos do marido, que as repelia com violência para o lado. Os olhos de avelã esverdeado de seu pai, olhos tão iguais aos dela, encaravam a filha com tamanho repúdio que Mavie poderia julgar que ele não mais a considerava parte de sua família.
Controlando o choro, a garota sequer sabia como reagir. Sabia que seu pai julgaria mal o que acontecera, mas não daquela forma descontrolada e brutal.
– Estou cansado de torrar meu dinheiro com uma inútil patética como você! Só soube me dar desgosto, a vida inteira! – o homem continuava, furioso, apontando o dedo no rosto de Mavie, que, estarrecida, sequer se movia de sua cadeira ao lado do pai.
– Tentei criá-la como faria a um primogênito, o filho que eu sempre esperei, mas você nunca foi grata! Em decepção atrás de decepção, se transformou nessa... Nessa... Vadia estúpida que engravida de um turista cretino! Eu não vou suportar mais essa vergonha! Você vai parar de manchar o nome da minha família, e será agora! – o pai de Mavelle ordenou. – Ou você aborta essa desonra, ou considere-se deserdada! Sob meu teto, na minha cidade, você não viverá mais! — O patriarca da família Berry puxou a filha pelo braço, que tentou se desvencilhar, recebendo como resposta um tapa forte no rosto.
– Respeito! Eu exijo respeito! – gritava o senhor Berry, quando foi surpreendido com um forte empurrão para o lado, jogando-o para cima da mesa, derrubando pratos e talheres, levando sua esposa a gritar em meio a crescente confusão.
– Não toque nunca mais nessa menina – Annie Guinness intercedeu na loucura do prefeito de Galway, colocando-se à frente de Mavie. – E não ouse se aproximar de mim. Ou os jornais da oposição amanhã vão saber que o prefeito da cidade espancou a velha médica do Galway Regional Hospital. – Com uma faca quase sem fio na mão que tremia, na cena entre o ridículo e o trágico, a idosa ameaçava seu genro, seu olhar em chamas, implacável sustentando a promessa de ataque.
– Leve esse estorvo para bem longe de mim. – O pai de Mavie deu um último olhar para a filha, que o encarava incrédula, o rosto lavado de lágrimas.
– Você nunca a mereceu. Sempre foi muito melhor do que o merdinha que você é – Annie xingou o genro com propriedade. – E você. – Encarou sua filha. – Você, sim, foi um desapontamento. Sempre lhe ensinei a ser uma mulher independente. A pensar por si mesma. E cresceu para ser um fantoche fútil de seu marido ainda mais frívolo.
– Ela merece um lar decente. E eu providenciarei isso para minha neta. Saiam de nosso caminho. – Annie puxou Mavelle pelo braço, que, sem escolha, humilhada em sua própria casa, apenas seguiu a avó.
[...]
– Então esta é a nossa casa? – Mavie perguntou, olhando deslumbrada para a linda casa com cercas brancas e um jardim amplo em um subúrbio da Georgia. Parecia as casas das antigas cidades do sul americano, repletas de verde e de um ar bucólico contagiante.
– Sim. A nossa casa – confirmou Jeffie, abraçando a namorada pelos ombros. – E em breve teremos uma caixa de correio com o nome dos “Gallagher” escrita. Certo, futura senhora Gallagher? – Jeffrey falou enquanto apertava com carinho o nariz de Mavelle.
– Isso é tão machista! – brincou ela. – Mas eu aceito ter seu sobrenome. É menos feio que seu primeiro nome – debochou a jovem irlandesa.
– Eu espero não atrapalhar – Annie falou sem jeito, atrás do casal. Mantinha certa distância de Jeff, o que deixava Mavie um tanto curiosa e ressabiada.
– É claro que não, dona Annie! – disse animado o futuro marido de Mavelle Berry. – Pelo menos você não é minha sogra! – brincou o americano, sempre desinibido e metido a piadista.
[...]
– E por que preparou esse jantar especial, Jeff? – Mavie sorriu para o namorado. Era muito grata ao dia em que ele surgira em sua vida. Fora Jeffrey quem a fizera dar uma guinada em seu destino, mudando-o radicalmente. Fora ele que lhe trouxera seu filho, que lhe fizera enfim enfrentar seu pai e escolher uma vida completamente nova. Uma vida que enfim a agradava.
– Terminamos de pintar o quarto do bebê! Achei uma boa sacada a pintura verde, branca e laranja – falou o americano, levantando um copo de cerveja irlandesa e brindando com a avó de Mavie e sua futura esposa, à mesa, esta impedida de beber por conta da gravidez.
– Assim ele sempre terá um pedaço de nossa terra por aqui – comentou Annie, sorrindo polida e honestamente para os dois.
– Eu mal posso esperar para vê-lo. E olha que nem o senti chutar. Não tenho nem um mês de gravidez ainda, mas... – Mavie começou a se sentir sonolenta. Olhou para o lado, bocejando despreocupada, e viu a cabeça de sua avó despencar para trás.
– 'Vó?! – gritou Mavelle, assustada. – 'VÓ?! – ela insistiu, enquanto a cabeça de Annie pendia desacordada.
– Vai ficar tudo bem, Mavie – falou Jeffrey, a voz estranhamente controlada, sentado ao lado de Mavelle. Instintivamente, ela retirou a mão dele da sua, que a segurava.
– O quê está... – a garota de dentes grandes iria perguntar, franzindo as sobrancelhas, mas sua visão escureceu e ela também desmaiou.
Sentindo que o tempo praticamente não havia passado, a jovem irlandesa tivera visões nebulosas e confusas de sujeitos de máscara hospitalar, de alguns instrumentos, e de ser levada para um quarto vazio daquela casa. Vira de relance uma cama das do gênero utilizado em hospitais ali disposta, assim como equipamentos médicos de ponta.
Até que enfim acordou novamente, com seu corpo completamente entorpecido por algum tipo de substância que ainda fazia efeito em seu sangue.
Meu arco... Onde estão meu arco e minhas flechas... Pensou, instintivamente, a caçadora.
Sentiu um vento forte passar pelas frestas de uma janela entreaberta a seu lado esquerdo. O sol da tarde banhava o cômodo em uma iluminação fragilizada como seu corpo drogado, e iluminava a cama de hospital, ainda manchada com sangue.
Havia sangue nos lençóis abaixo de Mavelle, que os retirou de imediato de perto de suas pernas e colo. Sangue no avental de paciente que ela usava. Sangue em uma bandeja hospitalar prateada. Sangue em um bisturi.
Fazendo um esforço sobre-humano, Mavelle Berry se levantou, seus pés tortos, mal obedecendo ao comando de seu corpo para caminhar. Esgueirou-se pela sala, seus olhos entreabertos, esforçando-se o máximo que poderiam para estar atentos em meio à ação daquela droga em seu corpo.
Ela desceu pelas escadas, se arrastando pelo corrimão, sem fazer ruído algum. A casa parecia vazia.
Abandonada.
Ao chegar à porta de entrada, ela viu seu futuro marido de costas, mexendo no que parecia ser uma bolsa muito grande de pano.
– Jeffrey – Mavelle falou, sua voz grogue, sua língua enroscada na boca.
O homem voltou-se em seus calcanhares, seu rosto revelando a confirmação final que ela precisava.
Com uma expressão de plena culpa, choque e terror no rosto, Jeffrey entregara-se a si mesmo como o culpado por aquilo.
– Não era para você ter acordado tão rápido – ele comentou, passando a mão nos cabelos cacheados, muito receoso, seus olhos piscando em um tique nervoso, parecendo atormentado.
– O que tem... Aí. Nessa bolsa? – Mavie perguntou, as lágrimas querendo se formar no canto de seus olhos, pouco a pouco compreendendo a horrível dimensão daquilo tudo.
– Não é nada. Nada, nada mesmo, nada, nada – falou, assustado.
Mavelle não esperou.
Se jogou no chão, puxando a bolsa para si, com a pouca força que lhe restava. Jeff, de imediato, arrastou a bolsa para seu lado, e os dois forçaram tanto o pano cada qual para um lado oposto que a bolsa se rompeu, e de lá exibiu seu conteúdo já imaginado:
Centenas, milhares, talvez até mesmo milhões de dólares.
– É isso o que eu valho para você?! – perguntou Mavelle, se levantando e arrancando um abajur da tomada, jogando-o contra Jeff, que se abaixou. A expressão culpada no rosto do homem apenas se solidificou ainda mais.
– Eu não tive escolha! – Jeffrey tentou se defender, puxando os dólares para si, mas Mavie os jogava para longe, os rasgava, ela mesma ensandecida, agora. As lágrimas banhavam seu rosto lívido de fúria, seu peito dilacerado de dor, seu coração despedaçado por aquela traição hedionda.
– Você é um covarde! – retrucou Mavie, jogando o dinheiro no rosto do homem. – É isso o que quer? ERA ISSO O QUE VOCÊ QUERIA?! – ela gritava, enlouquecida pela dor emocional.
– N-não... – ele gaguejou, mostrando-se fraco, o patético mesquinho que era. Mas Mavie se sentia mais patética ainda, por ter acredito naquele conto de fadas barato e ensaiado.
– Desde quando você planejou isso? DESDE QUANDO?! – Mavelle exigiu, pegando um dos cacos do abajur e ameaçando Jeffrey, apontando-o em seu pescoço, que, menos rápido e menos hábil em situações como aquela, não podia prever a reação quase animal da garota irlandesa.
– Eu não planejei. Eu achei que íamos ficar juntos... Eu queria isso. – Mavie apertou o caco no pescoço do homem, que fechou os olhos em desespero. – Mas a gravidez foi demais para mim. Eu não estava preparado para isso. Fui até seu pai contar a verdade, não sabia o que fazer. E ele...Ele falou que ia me matar. Falou que ia dar um jeito de sumir comigo por causa disso. A não ser que eu aceitasse a proposta dele.
– COMO VOCÊ PÔDE ME ILUDIR DESSE JEITO?! – Mavie falou, sua voz saindo do fundo de seu âmago, sentindo como se tivesse apanhado, como se tivesse sido torturada. – MENTIR TANTO? POR DINHEIRO?! – A moça não acreditava, não queria acreditar, mas não podia negar para si mesma.
Jeffrey não poderia responder o que não havia resposta. Era um covarde. Um fraco. Não valia nada. O pai de Mavelle o subornara para que a levasse para longe. Para longe da imprensa irlandesa. Onde não descobririam sobre os relacionamentos familiares conturbados do prefeito de Galway, membro de um partido conservador, tampouco sobre sua filha desvirtuada que engravidara de um turista que mal conhecia.
Onde não descobririam que seu futuro noivo fora comprado para fingir dar-lhe uma nova vida, e forçá-la sem que soubesse a abortar o filho dos dois.
– VOCÊ MATOU MEU FILHO POR DINHEIRO! – a irlandesa gritou e fincou o caco no pescoço do homem, que enfim reagiu, empurrando-a para longe. Mavelle, fraca pela operação clandestina, caiu ao chão, torcendo o punho que tentou segurar o peso de seu corpo.
Jeffrey, ele mesmo com lágrimas nos olhos, puxou a bolsa de dinheiro, fechando o rombo com as próprias mãos. Deixou para trás algumas centenas de dólares caídos, bem como o corpo da garota que um dia julgara que era amada por ele, arrastando-se no chão para a porta escancarada.
Mavie ouviu o som do vento soprando ululante e choroso pela casa adentro, enquanto o carro de Jeff acelerava para fora do jardim, sumindo pela rua e além. O som rouco dos lamentos em pranto da irlandesa abafavam qualquer som à sua volta, expressando a dor que a fazia definhar por dentro, impedindo-a sequer de se erguer do piso de mandeira da casa, manchado com suas lágrimas dolorosas.
Nada se ouvia além do tormento de Mavie além de, ao fundo, a televisão ligada no mais relevante canal de notícias da Georgia, apressada em um aviso pelo plantão noticiário especial:
– Boa tarde, Atlanta. O vírus recente que assola algumas regiões do país e do mundo segue sendo estudado...
...França, Holanda e Alemanha já declararam estado de quarentena...
...Todos os voos foram cancelados. Evitem locais fechados e muito populosos. Estejam seguros, estejam saudáveis.
[...]
– Transmissão 3 5 14 17. Transmissão 3 5 14 17. Alguém está ouvindo? Câmbio. – Uma voz anasalada, de algum sotaque do sul dos Estados Unidos consideravelmente forte, se fez ouvir pelo rádio ligado do carro de Mavelle e sua avó.
Cerca de um mês havia se passado desde o início da infecção, um mês de loucura e de caos completo. Munidas de arco e flecha e das armas que Mavie comprara para usar em caçadas que faria com Jeffrey quando se mudara aos Estados Unidos, avó e neta sobreviviam como podiam, na estrada, fugindo daquele pesadelo tornado realidade que era viver em meio aos mortos-vivos.
– Você ouviu também? – perguntou a jovem irlandesa para a idosa, sentada ao seu lado, no banco do carona. Annie concordou movendo rápido a cabeça, e aumentou o som do rádio ao máximo.
– Transmissão 3 5 14 17. Transmissão 3 5 14 17. Escutem. Se você está vivo e ouvindo isso, siga para o Aquário da Georgia. O Oceanário de Atlanta. 225 Baker St NW, Atlanta. Repetindo o endereço: 225 Baker St NW, Atlanta. Venha para cá e terá um novo lar. Temos muros, comida, água e abrigo. 225 Baker St NW, Atlanta. 225 Baker St NW, Atlanta. – Annie anotava nas próprias mãos com uma caneta do tipo pilot encontrada no porta-luvas. Mavelle sabia que aquilo era quase inacreditável, mas não tinham escolha, tinham de ir para lá.
Ao enfim chegarem ao imponente Aquário da Georgia, com seu grande logo de um G azul, fim da letra na qual se formava um rabo de peixe, Mavelle buzinou com gosto, olhando pelo retrovisor, apavorada com a enorme horda de cadáveres famintos que seguia o som do carro.
Munida de seu arco e flecha, já se preparava para sair, escalar os muros junto a sua avó e matar os poucos carniceiros que conseguissem se aproximar delas. Quando enfim os portões se abriram a sua frente, e ela acelerou com tudo.
Saíram do carro assim que os portões se fecharam por algum mecanismo eletrônico. O local, pelo visto, funcionava até mesmo com base em um gerador de energia elétrica.
Mavelle Berry logo viu um idoso, negro, de cabelos grisalhos e sardas no rosto, aproximar-se com um sorriso amplo e acolhedor. Quase quis correr aos braços dele, abraçá-lo como se fosse um parente seu, aliviada.
– Meu nome é Jed. Meus dois filhos, Patrick e Sawyer. Meu neto Roger. Este é Billy Ray. Haywood, e sua esposa, Jennifer. Buck. Violet. E o jovem rapaz, Bubba.
Mavie e Annie cumprimentaram os moradores do Aquário da Georgia, enquanto Jed lhes pedia, com uma ordem em fingido tom de gentileza, para que deixassem as armas na guarda dos antigos habitantes do Aquário. Sem escolha, um pouco desconfiadas, elas assim o fizeram.
E, mais uma vez, uma nova vida para Mavelle começou.
Tinha trabalhos a fazer, e se provara uma excelente caçadora, atiradora e patrulheira para o grupo. Aos poucos, formava amizades, especialmente com Billy Ray, Haywood e Violet, a idosa que virara uma espécie de amiga confidente de sua avó. Porém, Violet era muito doente, padecia de um severo câncer terminal. Pelo menos tivera a sorte de terminar os seus dias longe das gargantas dos mortos-vivos.
Em uma noite, ainda acostumando-se à rotina, em uma nova mini-sociedade, um novo mundo onde poderia dormir sem recear não acordar no dia seguinte, onde podia relaxar, onde podia ter amigos e pessoas que poderia confiar... Mavelle começava a enfim baixar as defesas, e retornava a ser quem era. A menina animada, confiante, extrovertida e divertida que Jeffrey e aquela nova dura realidade destruíram.
– Você sabe, eu acho que devíamos chamá-los de Frankies – disse ela, atirando em cheio uma bala na têmpora direita de um morto-vivo que ameaçava um dos muros do Aquário. Fazia uma ronda junto ao caipira do Alabama. A voz do homem do sul dos EUA fora a voz que escutara no rádio e que levara ela e sua avó até o Oceanário de Atlanta.
– Frankies?! – Billy Ray falou, dando uma risada curta, atirando com sua espingarda quase que “de estimação” em outro cadáver que se arrastava. – De onde você tirou essa, menina?! – perguntou ele, já com alguma intimidade com a irlandesa.
– Não me chame de menina. Sou no máximo 18 anos mais nova do que você – Mavelle falou como se aquilo não fosse nada, dando um sorriso sardônico para o companheiro de vigia, ao passo que recarregava a arma que portava, em estilo sniper. – Frankie, de Frankenstein. O livro de Mary Shelley! Sobre o morto que volta à vida nas mãos do cientista maluco... – ela ia esclarecer, mas Billy gargalhou e cortou suas palavras.
– Aaaah sim! Eu conheço essa história. Quem não conhece... – ele ainda ria. — Você é muito engraçada, menina! – falou o homem, enquanto lhe lançava um olhar terno. – É bom saber disso. É bom te ver à vontade.
– Eu acho que posso me acostumar com a vida aqui – disse Mavie, com um sorriso honesto.
– Pode sim. Nem todas as pessoas que prestam morreram. Ainda há pelo que viver e lutar – Billy respondeu, mantendo o olhar fraternal.
– Minha avó diz a mesma coisa. Ela fala: “não acredito em desistir das coisas” – comentou a jovem irlandesa, sorrindo.
– Ela tem razão. Você pode confiar na gente. Vocês duas podem – Billy Ray assegurou. – Aqui é um lugar para recomeçar. Vocês têm uma nova vida agora. Todos nós temos.
[…]
Mavie acordou, com a boca seca, a sede matando-a aos poucos. Mal conseguia se mover. Sua avó, ao seu lado, ainda estava adormecida, de mãos dadas com a neta. Mavelle se certificou de que ela respirava, mas percebia que muito fracamente.
Não bebiam água há dias. Mal comiam. Mal dormiam.
Mas ela não podia desistir. Não conseguiria. Não se perdoaria. Com um esforço além de suas próprias capacidades, Mavelle se arrastou até Peggy. A garota estava largada no chão, sua testa ardendo de febre, ainda desacordada. Pegara algum tipo de doença, embora não tivesse sido mordida por algum morto-vivo.
– Vamos. Acordem. Acordem. – Mavie embalou Peggy, movendo seus ombros para acordá-la. A garota continuou inerte, seu sono pesado, sua respiração tão ou mais fragilizada quanto a da idosa.
Não podemos morrer assim. Ela pensou, mas a fadiga era mais forte que o desespero. Tentou se arrastar até sua avó, mas ela mesma quedou inerte no meio do caminho.
Com o rosto caído no chão, Mavie apenas escutou uma voz, antes de desmaiar, achando que não iria mais acordar:
– Achei! Elas estão aqui.

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