Hunter's Instinct
23 Episódio 23 - May The Living Be Dead
Notas iniciais
– Já que estamos todos aqui enfim reunidos – começou Rick Grimes – é hora de iniciarmos o julgamento de Billy Ray Holloway – o policial falou, sua voz soturna reverberando por todos os cantos do salão de festas do Aquário da Georgia.
Localizado no segundo andar do Oceanário de Atlanta, o espaço amplo repleto de mesas e um pequeno palco onde se realizavam shows e outros tipos de apresentação quando o mundo ainda não fora tomado completamente pelo caos dos errantes servira muito bem para o propósito do “Tribunal do Júri” improvisado.
De pé no pequeno palco, Rick tinha as mãos as costas, caminhando lentamente de um lado a outro, enquanto o sulista do Alabama sentava-se defronte ao policial.
Espalhados entre a direita e a esquerda do réu, muitas cadeiras do salão de festas foram dispostas de forma a improvisar uma plateia, ocupadas por todos os moradores do Oceanário, veteranos e novatos. Ou melhor, quase todos.
Quando Daryl Dixon, Mavelle Berry e Billy Ray foram os únicos a retornar da exasperante caçada que demorara dois dias, Dakota Taylor rendera-se aos prantos desesperados de imediato.
Sendo amparada por sua filha, que também recentemente enfrentara perdas muito difíceis – a hedionda morte de Noah –, as duas se embalaram mutuamente em um abraço sofrido e infeliz, como se uma segurasse o corpo da outra para não desabarem as duas no chão. Entretanto, o choro de Dakota fora rapidamente substituído por uma fúria gélida assim que descobrira que fora Billy Ray o responsável indireto pelo que ocorrera.
Antes mesmo do julgamento oficial, Daryl e Mavie trouxeram o caipira do Alabama amarrado, afirmando que ele estivera fora de seus sentidos e tentara matar Dixon em um rompante de loucura.
Levemente aliviado por não ter sido Daryl quem falecera, pois Grimes temera que o amigo fora vítima de algum tipo de armadilha de Jed que não conseguira prever, o policial fez o possível para tentar, junto aos membros mais conciliadores do Aquário: Carol, Maggie, Glenn, Annie e Jed (estranhamente, Mavelle não parecia disposta a ajuda-los a abaixar os ânimos gerais, quando era algo que costumeiramente fazia muito bem), controlar o emocional do grupo para que tudo pudesse ser decidido, enfim, da forma mais civilizada.
Afinal de contas, Rick tinha uma carta na manga. E aquele era o momento de usá-la.
Assim, o policial passou os olhos pela plateia ali presente.
Sentada mais à esquerda, em uma ponta ao lado da parede, estava Mavie Berry, acompanhada a seu lado esquerdo por sua avó, Annie Guiness. Ao lado das duas, sentava-se Dakota, seu olhar mostrando centelhas vingativas e rancorosas dirigidas com veemência na direção de Billy Ray.
Seus dedos tremiam, enquanto ela cruzava os braços com impaciência. Rick e os outros haviam tido muita dificuldade de controlar a mulher e fazê-la se acalmar, e ele percebia que Jed, Buck e até mesmo Annie estavam de prontidão para conter a bela mulher caso ela tomasse algum tipo de atitude... Descabida.
Ao lado de Dakota, sentava-se sua filha, e no fim daquela fileira, Buck.
Do outro lado do pequeno púlpito improvisado, Carol, Daryl, Michonne, Glenn e Maggie se sentavam, nessa ordem. Atrás deles, Carl com Judith em seu colo, Tara ao seu lado, Eugene, Sasha, Rosita, Abraham e Padre Gabriel.
Era gritante a diferença entre os humores do grupo de Rick Grimes e dos veteranos do Oceanário de Atlanta. Não que os amigos de Grimes não tivessem se chocado ou se indignado com o comportamento lunático e perigoso de Billy Ray, mas aquela era uma perda que, finalmente, atingia o lado deles. Mais do que o lado do policial.
Haywood era o companheiro de Dakota, que tornara-se parceiro dela após o falecimento de seu marido. O antigo companheiro da arquiteta inclusive fora um morador do Aquário, antes de ser mordido acidentalmente em uma missão externa em busca de peças mecânicas necessárias para o conserto dos dutos de ventilação do Oceanário de Atlanta.
Apesar de Peggy não tê-lo aceitado muito bem, por ter considerada súbita a nova união da mãe, podia-se ver que a menina sentia muito a perda, talvez até por conta da reação visceral de Dakota. De todo modo, o engenheiro era muito bem quisto no Aquário da Georgia, considerado confiável por todos, e era bastante respeitado até mesmo por Jed.
Uma perda severa daquelas, abalando todo o emocional dos veteranos do Oceanário, deixando-os sugestionáveis, depauperados, era o que Grimes precisava para conseguir, finalmente, atacar o idoso líder do Aquário sem que ele tivesse chance de escapar.
Um único bote, um único ataque, como um tubarão branco que espreita nas profundezas escuras do mar pela criatura marinha que nada incauta próxima à superfície... E, subindo da escuridão do azul profundo em um átimo, fecha seu impiedoso maxilar em sua carne em um rompante apenas, dilacerando-o sem esperanças de sobrevivência.
Aquele seria o momento em que Jed descobriria quem eram os verdadeiros peixes grandes daquele Aquário.
– Bem... Eu imagino que saibam como isso funciona. – O policial limpou a garganta, colocando uma mão fechada em punho na frente dos lábios, caminhando para mais perto da plateia dos moradores antigos do Oceanário.
– Vamos apresentar os fatos, e eu darei uma sugestão de sentença, que já formulei. Porém, deixarei que vocês votem – falou Rick, encarando Jed com o rosto límpido de inocência, como se tivesse decidido se mostrar supostamente ainda mais submisso as vontades do líder do Aquário.
Votar era dar o poder para o idoso sardento deliberar como preferisse, e manipular os seus, e até mesmo os membros do grupo de Rick, a votarem conforme gostaria.
Parado ao lado de Rick, na mesma posição “elevada” em relação à plateia, Jed mostrava implicitamente que ainda não desistira de demonstrar autoridade, mesmo que de forma subentendida.
Portanto, à sugestão de Grimes, ambos os grupos responderam em sons afirmativos, alguns em palavras, outros apenas meneando os rostos afirmativamente. Alguns sequer se manifestaram, como Mavie, que mantinha os olhos fixos no piso da tribuna inventada que Grimes caminhava.
O policial reparara no maxilar retesado da jovem irlandesa, como se algo ali a incomodasse profundamente. Billy Ray era um amigo bastante próximo dela, pelo que sabia Rick, mas ele compreendera pela parca e desconexa defesa que Billy tentara formular algo curioso...
Dissera que fizera tudo o que fizera para protege-la de Dixon, que era na verdade o real culpado, que supostamente tentara sequestra-la ou induzi-la a alguma espécie de sequestro.
Sem contar a verdadeira ironia que era algum membro veterano do Aquário da Georgia criticar propósitos como sequestro, tendo em vista que eles próprios exerceram a mesma prática com todo o grupo de Rick, disfarçando-a em uma falsa hospitalidade imediata, aquilo indicara que o pouco vínculo que Grimes pudera perceber entre o amigo e a garota de dentes salientes talvez tivesse se tornado algo bem maior do que ele supusera. Rick aferia que Dixon volta e meia desviava o olhar para o rosto de Mavelle, como se não quisesse fazê-lo mas o fizesse ainda assim.
Mas aquele era assunto para outra hora. Rick apenas esperava que não atrapalhasse, definitivamente, o rumo do plano inicialmente formulado por ele, Carol e Daryl.
– Diante dos fatos, acho que não podemos mais considerar Billy Ray um membro capaz de manter a convivência sadia há muito. Episódios de ataques gratuitos, brigas incitadas do nada, comportamento irascível e descontrolado que acabou, por fim, incidindo na morte de um dos nossos... – Rick deu ênfase à palavra.
– Eu decido pela ordem de banimento. Sugiro que lhe deem um carro, algumas armas, munição e suprimentos para que consiga se virar por alguns dias. Como um caçador hábil e sobrevivente apto, poderá conseguir refúgio e abrigo em algum lugar seguro – disse o policial.
Alguns moradores hesitaram. Exclamações de choque e murmúrios em negativa foram escutados tanto do lado dos veteranos quanto dos novatos. Rick esperava por aquilo.
– Mas isso pode ser condená-lo à morte – Buck adicionou sem elevar o tom de voz, como se falasse de algo desimportante. O biólogo coçou os olhos e ajeitou os óculos, parecendo preocupado.
– Não. Executá-lo e jogá-lo aos tubarões é condená-lo a morte – Annie retrucou, fria. Billy Ray perdera todo o tipo de consideração da idosa no momento em que arriscara a vida de sua neta naquele posto de gasolina, conforme a história que souberam.
– Não é uma medida um pouco radical? – Tara perguntou, parecendo nervosa.
– E faríamos o quê? Prendê-lo? Não tem nenhum hospício funcionando hoje em dia – revidou Abraham, em um sarcasmo inconveniente.
Inúmeros membros, tanto veteranos quanto novatos, passaram a se pronunciar a respeito da sentença. Com as mãos levantadas e auxiliado por Jed, Rick calou a todos com rapidez.
– E como sugeriria que poderíamos substitui-lo? – perguntou o líder do Oceanário, sorrindo falsamente para Rick com sua inegável habilidade teatral.
– Votação. A ser feita posteriormente ao banimento. Sugerirei alguns nomes, e todos podem se sentir livres para dar outras sugestões. Quem receber mais votos, será treinado para caçar, patrulhar, e todas as tarefas que Billy Ray antes desempenhava – Rick esclareceu, e o grupo passou alguns segundos considerando a proposta. Parecia ter sido bem aceita. – Ao fim destas formalidades, poderemos nos sentir livres para... Fazer um funeral em homenagem a Haywood – Grimes afirmou.
Billy Ray sequer teve coragem de pedir para estar presente no funeral do amigo. Julgado como um pária, um indesejado, um estorvo para o Aquário dados os últimos acontecimentos, o homem mantinha sua cabeça baixa, os lábios levemente separados, em uma expressão entre a debilidade e o entorpecimento. Rick imaginava a dor que ele poderia estar sentindo, pois uma vez já fora visto por seu grupo de forma semelhante... Já fora considerado um louco.
Entretanto, jamais quiseram desistir dele.
Talvez houvessem acontecimentos ainda piores de responsabilidade de Billy Ray, recentemente, que o grupo antigo do Aquário pudesse estar escondendo.
– ...É assim então? – O réu falou pela primeira vez, levantando o rosto para olhar Grimes com escárnio. Depois disso, moveu seu rosto para os antigos moradores do Oceanário, como se os novatos sequer importassem, detendo seu olhar por um longo tempo nos olhos de Mavelle Berry.
– Assim como? – Rick retrucou, encarando-o.
– ...Ingratos. Todos vocês – disse o caipira do Alabama, grunhindo. – Mas eu não deveria esperar diferente – o réu falou, e baixou a cabeça outra vez.
– Tem algo a dizer em sua defesa? – Grimes questionou, ignorando as palavras anteriores do sulista do Alabama.
Billy apenas moveu a cabeça em negativa, seus ombros tremendo como se estivesse contendo alguma gargalhada histérica.
– Alguém tem algo a acrescentar? – perguntou Rick para o público, enfim. Considerando a negativa de todos, Grimes começou a votação. Apenas Padre Gabriel, Tara, Rosita, Carol (a título de engodo, sabia Grimes, pois assim haviam combinado anteriormente) e Maggie votaram contra o banimento.
Com a sentença desfavorável deferida por uma maioria inegável, Billy Ray apenas olhou entre o incrédulo e o rancoroso para todos os membros veteranos do Oceanário, especialmente para Mavie. Um esgar em seus lábios parecia uma espécie de sorriso truncado, como uma careta de dor, entre o riso nervoso e uma aflição lancinante.
– Eu não fico aqui mais nem um minuto. – Billy Ray fez menção de levantar, os punhos presos em algemas, mas foi contido rapidamente por Abraham e o próprio Rick, descendo rápido do púlpito.
Baixando a cabeça mais uma vez, balançando-a com violência de um lado a outro, o caipira do Alabama falou, dirigindo seu olhar entre Rick, o grupo de Rick sentado à direita, Jed, e, por fim, seu próprio grupo, deixando um último olhar suplicante no rosto de Mavie:
– Isso aqui vai afundar. E não vai sobrar ninguém para contar história. – Moveu seus olhos para Jed. – Eu falei. Eu sempre falei que eles não prestavam. Gente podre, todos eles, podres por dentro, pior que os carniceiros. Você errou. E vai errar de novo. Até não ter mais como remediar – predisse com certeza agourenta o sulista do Alabama.
– E vocês... – Olhou para seu grupo, o desprezo evidente em suas íris escuras de castanho. – Vocês são uma decepção. Todos. Um bando de ingratos... Ingratidão... – Encarou Mavie, e seu olhar se modificou para uma expressão de pura dor. – É só o que eu recebi – concluiu.
A garota irlandesa não o olhara nenhuma vez sequer. Não parara de encarar o mesmo ponto do púlpito. Porém, ao fim das últimas palavras de Billy, pareceu ter os olhos marejados de lágrimas.
Depois de demonstrar estar enfim silencioso e resoluto, calmo enfim, Abraham, Rick, Buck e Jed escoltaram Billy para fora do Aquário, que não se despediu de nenhum membro sequer, embora Tara quisesse lhe falar algumas últimas palavras. Ele não queria conversa com ninguém.
Na verdade, desconfiava Rick que ele queria conversa com apenas uma pessoa, que se recusara a olhá-lo nos olhos mesmo sabendo que provavelmente jamais o veria outra vez.
Liberto, munido de uma sacola de armas colocada em seu porta-malas, alguns alimentos, galões de gasolina, kits de primeiros-socorros, cobertores e utensílios necessários do gênero, Jed entregou a Billy Ray a chave de um dos 4x4, ironicamente o qual ele fora levado de volta ao Aquário da Georgia por Daryl e Mavelle.
O caipira do Alabama não agradeceu, apenas encarou o idoso.
– Boa sorte – disse simplesmente Jed, dando a Billy um sorriso polido extremamente descarado. Aquilo sim era impróprio, e, pior, cruel.
O sulista virou as costas a todos, entrou no carro e acelerou para fora dos muros do Aquário da Georgia. Enquanto o grupo de quatro homens fechavam o portão e voltavam ao segundo andar para continuar a votação remanescente, Rick deu um último olhar à rua desolada que Billy Ray deixou, com alguns errantes seguindo o encalço do automóvel. O veículo virou em uma esquina longínqua, e os poucos errantes que ali haviam voltaram sua atenção para os presentes dentro daquelas grades do Oceanário de Atlanta.
Boa sorte.
E boa sorte para nós também. Refletiu Rick, pensando em seu grupo.
Aquele seria o momento definitivo, e nada poderia sair fora do planejado. O instante mais delicado de todos se aproximava, e ele sabia que não podia falhar.
Ou tudo iria pelos ares.
*****
Ao retornarem para o “tribunal do Júri” improvisado, no salão de festas, Dakota havia se retirado e desistido de participar da votação seguinte. Quando Billy Ray enfim saíra do Oceanário, o desamparo por mais uma vez ter a certeza de que aquilo acontecera, de que Billy fora punido por seus crimes, e que, dentre eles, havia a responsabilidade indireta pela morte de Haywood... Fizera a arquiteta perceber mais uma vez que seu companheiro jamais voltaria, e redimensionar mais uma vez a amplidão angustiante de sua perda.
Jed perguntara aonde ela teria ido, e foi busca-la, encontrando-a no quarto que dividia com Haywood antes de sua morte. Rick o acompanhara, e ajudara Jed a levar a mulher para a ala médica do Oceanário de Atlanta, onde Annie lhe deu um ansiolítico e sugeriu que ela ali ficasse, tomando conta de Roger que estivera adoentado, com febre. Sugeriu que tirasse a febre do neto de Jed, e se mantivesse ocupada cuidando dele, longe do que se delineava no segundo andar do Aquário.
Logo depois, a médica, o líder do Oceanário e o policial voltaram a sala de festas. Novamente o idoso e Grimes subiram ao púlpito, incitando a votação para quem poderia ocupar o lugar de Billy Ray Holloway, em suas funções, e portar suas armas.
Isso indicaria a elevação de um dos membros novatos ao mesmo grau dos membros do Aquário. Praticamente já findo o prazo de três meses que Jed lhes dera, era uma questão de tempo até todos ganharem suas armas de novo, caso ele cumprisse sua palavra, o que Grimes já imaginara que o idoso daria um jeito de não fazer, quando chegasse a hora. Mas, tendo em vista que Rick apenas trabalhara aquela decisão dentro das delimitações do próprio idoso sardento, ele não poderia fazer objeções. Não naquele momento.
Jed parecia introspectivo, e menos sorridente do que de costume. Pessoas mais ingênuas poderiam dizer que em razão da perda de Haywood. Mas não, Rick sabia. Ele estava começando a perceber o jogo do policial.
– Então, para finalmente acabarmos com isso – acrescentou Rick Grimes. – Vamos as minhas sugestões: Glenn, Abraham, Maggie e Carol – disse Grimes, sabendo aonde aquilo ia parar. Ninguém se manifestou com novos nomes. Talvez nenhum dos que não soubessem do plano de Rick se sentissem realmente à vontade para cooperar tão ativamente com o Aquário, devido aos últimos acontecimentos.
– Carol – votou Annie, junto a Mavie, que concordou meneando a cabeça afirmativamente. Finalmente ela passara a encarar os presentes naquele recinto.
– Carol – Buck gaguejou, por falta de opção.
– Carol – escolheu Peggy, sua voz tímida quase inaudível.
– Maggie – votou Padre Gabriel. Glenn, Maggie, Michonne e Carl votaram em Carol, Daryl e Tara em Glenn, Sasha em Maggie, Rosita e Eugene em Abraham e o soldado ruivo nele mesmo. Rick votou em Carol, enquanto a mulher fingia completa surpresa pela aprovação de todos, tendo votado em Glenn.
Já era de se esperar. Como Carol Peletier se esforçara a tornar-se a “amiga da vizinhança”, era provável que os antigos moradores do Oceanário fossem se sentir mais à vontade com a “promoção” dela do que a de qualquer outro.
Além do fato de, é claro, a mulher de cabelos grisalhos agir como se fosse inofensiva, incapaz de lidar com armas... Incapaz de ameaçar alguém.
– Daryl e Mavie poderão ajudá-la a aprender a caçar. A rastrear, e tudo o mais – Rick comentou. – O que mais precisar de ajuda, Carol, tenho certeza que todos estarão bem dispostos a auxiliá-la – afirmou o policial, com uma afirmativa falsamente simpática da parte de Jed, que votara, curiosamente, em Glenn.
Ele desconfiava das capacidades da amiga de Rick havia muito.
– Acham que será necessário uma votação para substituir... Haywood? – sugeriu Grimes. Como o silêncio lúgubre pairou sobre todos, o policial percebeu que realmente não era o momento de tocar naquele assunto.
Assim, Jed pegou uma das pistolas que portava em seu casaco, e entregou-a a Carol, que fingiu falta de familiaridade com a arma no momento que a recebeu, sorrindo com polidez fingida por todo o tempo.
– Farei o meu melhor – falou ela, sorrindo tão falsamente quanto Jed.
Enquanto todos se levantavam para sair do salão de festas, Padre Gabriel ajeitando suas vestes de padre, inclusive, sabendo que presidiria uma missa em seguida, a outra parte do plano deu-se início.
– Ainda não acabou – protestou Rick, enquanto todos se levantavam e paravam subitamente.
Jed encarou o policial com lentidão. Talvez já tivesse compreendido o próximo movimento.
– O que “não acabou”, Rick? – o idoso redarguiu, mantendo a mesma cordialidade falsa. Porém, dessa vez, seus olhos não acompanhavam o movimento de seus lábios.
– A nossa conversa – o policial retrucou. – A conversa de todos nós – disse Grimes, descendo do púlpito, e deixando Jed ali sozinho.
– Hoje nós culpamos Billy Ray pelos erros que cometeu. Mas ainda há um réu a ser julgado, o réu maior, pelo qual vocês fecham os olhos e pelo qual todos os crimes têm início. Em seu nome – afirmou Rick, sério.
Um silêncio agonizante tomou conta de todo o salão. A tensão no ar era tamanha que poderia ser cortada com uma navalha. Sem saber o que Rick queria dizer, o grupo dos veteranos do Aquário da Georgia encaravam seu líder e o policial, confusos. Alguns membros do grupo de Rick, que não conheciam o plano de Carol, Rick e Daryl, olhavam para Grimes com as mesmas expressões.
– Rick... – Jed começou, levantando uma mão, olhando-o com compaixão como se o policial agora tivesse enlouquecido.
– Jed. É esse o nome. O líder de vocês, por quem vocês condenam, sequestram, atacam, matam e executam! – Rick falou, imperiosamente.
– Será que vocês sabem que seu chefe me impeliu a proferir sentença contra “crimes” de Billy Ray desde a época em que acidentalmente descobri que Jed tinha um neto? – Rick acresceu.
– Um homem que quer punição para mentiras, logros e falcatruas que ele mesmo promove! – Grimes passou a jogar as verdades para quem quisesse ouvir.
– Realmente vamos lavar roupa suja, Grimes? Terei que mostrar as filmagens que comprovam o golpe que você, Carol e Daryl – disso o idoso sardento, olhando para Mavie, que encarou Dixon naquele instante, chocada – e outros, planejaram? Como iriam me depôr? Roubar nossas armas, e tirar meu poder, submeter os outros membros do Aquário à sua vontade? — O idoso, calmamente, por sua vez, resolveu descer da tribuna. Parecia ter algum tipo de certeza que conseguiria dobrar Rick.
– Ou talvez nem precisarei delas? – comentou o idoso sardento, sorrindo ainda.
Jed tirou de seu bolso o gravador, e deixou tocar a parte em que Rick, Michonne, Daryl, Glenn, Maggie e Carol conversavam sobre o plano, inclusive comentando de como Maggie estava grávida e isso poderia dificultar o andamento dos engodos.
Mavie e Annie encararam cada um dos seis relativos àquela gravação, Mavelle mostrando uma expressão de profunda dor ao olhar para Dixon, seus olhos de um tom entre o castanho e o verde ainda mais marejados de lágrimas. Peggy estava confusa, parecia não saber o que pensar sobre aquilo. Buck não parecia chocado, mas aparentara um tanto de temor ao olhar nos olhos de Rick.
Mas Grimes estava preparado.
– Vocês sabem o que é isso? – Rick aproximou-se de uma mochila que estava jogada em um canto do salão de festas. Abriu-a, e de lá, jogou no chão uma cabeça de errante, cortada, que tentava morder o ar.
– PAPAI?! – gritou Peggy, incrédula, olhando para a cabeça do errante, seus olhos arregalados em desespero. Mavie e Annie olharam para a cabeça decepada com a mesma expressão chocada.
Rick achara ouro. Não imaginara que aquilo poderia ter dado tão certo.
Jed agora estava pálido, e encarava Buck com uma expressão de ira profunda. O covarde cientista apenas o encarava de volta, de olhos arregalados, como se não acreditasse naquilo.
– Eu encontrei esse errante em uma sala que costumava estar sempre trancada no laboratório. Somente Buck e Jed ali entravam. No dia em que Jed tentou me matar – os grupos soltaram exclamações de assombro e choque àquelas palavras – eu entrei lá com algumas ferramentas e consegui abrir a fechadura. Nada impossível para um policial. Não sabiam disso também? – Grimes retirou da mochila os restos da bomba que ele desativara e desconstruíra. O timer ainda estava lá, visível.
Com o rosto lívido de fúria, Jed se aproximava de seu grupo, enquanto Abraham, Rosita, Sasha, Michonne, Daryl, Glenn e Maggie adotavam posições de combate, caso fosse necessário.
Ainda que armados, Jed e seu grupo estavam em uma inegável minoria, e até mesmo o grupo de Jed parecia reticente em ajudar seu líder. Não após mais uma revelação, daquele porte.
– Vocês disseram que ele tinha morrido fora do Aquário! – a garota esperneou, ela mesmo fazendo menção de pegar a própria arma. Annie segurou as mãos dela, controlando a menina, encarando Jed como se não o reconhecesse.
– Vocês esconderam meu pai?! O QUE VOCÊS FIZERAM COM MEU PAI?! – A garota era segurada por Mavie, agora, debatendo-se em mais um momento de dor e choque intensos.
– Seu pai estava em um compartimento pequeno, com algumas amostras de sangue e fluidos de laboratório – falou Rick, e jogou os vidros no chão, que se quebraram, depois de tirá-los da mochila.
– Seu pai era uma cobaia nas mãos de seu líder e de Buck. Talvez em busca de uma cura para a infecção – Rick acrescentou enquanto a garota chorava em desespero, e Jed retirava sua arma do casaco e a apontava diretamente para Rick.
Abraham, Daryl, Michonne, Glenn e Maggie já cercavam o idoso. Ele sabia que se puxasse o gatilho teria de enfrentar cinco de uma vez.
– Parem com essa loucura, pelo amor de Deus! – gritou Annie, finalmente fora do sério, assustada. Ela mantinha a mão no bolso do jaleco, reticente em retirar a própria arma e defender Jed. Mavie tentava conter Peggy, que, alucinada, chutava o ar, querendo pôr as mãos em Jed.
A cabeça de seu pai ainda mordia o ar, caída ao chão.
Buck, assustado, percebendo a minoria do grupo do Aquário, apenas recuava cada vez mais.
– Seu líder apenas sabe fazer uma coisa: mentir. Ele mente, engana, manipula, e faz vocês pensarem que estão seguros com ele, a salvo, que ele os deixa escolher seu caminho, que têm liberdade, que é seu amigo! Ele os obriga a alimentar tubarões com corpos humanos, a matar, atacar, sequestrar e força vocês sem que percebam a agir conforme ele quer! Ele faz vocês pensarem que no mundo lá fora reside o perigo, e que se trancando aqui no meio destes tanques estão seguros, se aceitarem a liderança e proteção dele! Ele faz com que acreditem que quem bate à porta de vocês, quem vive nos arredores, é quem é o perigo! Mas o perigo não está lá fora!
– O perigo está aqui dentro! O PERIGO É JED! – Rick apontou para Jed, aproximando-se do idoso, que ainda não estava decidido a atirar.
E foi então que o piso e as paredes tremeram.
*****
Dakota havia descido até o primeiro andar, para cuidar de Roger, tentando controlar suas próprias emoções que agora, lhe infligiam um tormento que parecia sem fim.
Billy Ray enlouquecera, e fora responsável pela morte de seu companheiro... Haywood. Que cuidara tanto dela e de sua família, que sempre zelara por si e Peggy. Sempre estivera ao seu lado, mesmo quando sequer eram parceiros, e apenas amigos.
O homem de melhor coração que conhecera, solícito, amigável, generoso, zeloso, paciente... Mais bondoso até mesmo que seu falecido marido.
Estava sozinha no mundo, naquele mundo que lhe parecia mais um inferno, repleto de morte, assassinato, loucura e mentiras por todos os lados. Um mundo onde pessoas mortas tentavam se alimentar do sangue e carne dos vivos, e onde os vivos muitas vezes não eram sequer dignos de confiança. O perigo espreitava de todos os lados, e ela perdera dois de seus filhos, restando consigo apenas Peggy, sua doce Peggy, tão inocente, tão ingênua, tão frágil... Como poderia protegê-la sozinha?
Em meio ao turbilhão de sentimentos contraditórios e aflitivos que tentavam se sobrepôr a qualquer indício de racionalidade e sanidade que pudesse restar em sua mente, a arquiteta se esforçou para, na ala médica do Aquário da Georgia, tirar a temperatura do neto de Jed Freeman, e dar-lhe alguns dos remédios receitados por Annie.
A criança era bastante inquieta, mesmo doente, e a forçou a conversar consigo por muito tempo, e inclusive a darem uma olhada no laboratório anexo, local pelo qual sempre tivera grande curiosidade.
Uma porta que costumava estar sempre trancada, pesada, feita de algum metal mais rígido, estava destrancada. De lá, um odor distante de carniça saía, mas Dakota não deu atenção aquilo. Confirmou em uma rápida olhada que a sala estava vazia, e voltou a atenção para o menino, que já correra para uma bancada.
– 'Qué' – falou o pequeno Roger, apontando um objeto enorme que parecia uma grande massa de algodão. Ao lado de tal objeto, havia um pote enorme de vidro no qual uma etiqueta informava: Ácido Clorossulfônico. Estava aberto.
O garoto impavidamente se levantou, meio tonto pela febre, e pôs suas perninhas curtas até subir em um banco e puxar o pote para si. Pretendia levantá-lo para beber o líquido, mas Dakota tirou-o rapidamente de suas mãos, ralhando de leve com a criança, dizendo que não poderia brincar com aquilo.
Com a voz chorosa, Roger se desculpou, mesmo tendo molhado toda a bancada com aquele ácido. Dakota temeu que aquilo fosse corrosivo, mas não houve reação com o metal. O garoto, assim, movimentou-se até uma mesa central do laboratório, e juntou um material que pareciam vários chumaços de algodão.
– Com algodão pode brincar – disse Dakota, forçando um sorriso. – Mas não pode comer também – explicou. – Está com fome? Eu te levo pra cozinha – Dakota sugeriu. O garoto negou com a cabeça, mexendo os chumaços de um lado a outro na mesa, sentado em outro banquinho. Riu o típico riso inocente de uma criança entretida, e aquilo aliviou de leve o peso no peito de Dakota.
Quando juntou aqueles objetos que pareciam algodão o suficiente para encher a mesa do meio do laboratório, Roger mexeu na gaveta que havia embaixo do tampo.
– O que você quer agora? – perguntou a mãe de Peggy, aflita.
Roger puxara um objeto preto, com um pequeno cilindro em sua ponta, e ela reconheceu aquilo de imediato.
– Não! Isqueiro não é brinquedo – falou ela, severa. Roger fez a mesma cara de choro.
– 'Quéééé'! – insistiu o menino, quase em prantos.
– Não pode – a mulher sentenciou. – Mas se você quer tanto ver, olha, eu acendo... Na minha mão tá? – Dakota moveu os dedos de forma a acender a chama do isqueiro.
E foi então que, tarde demais, ela percebeu que o algodão ali não era propriamente algodão. E sim algum condutor explosivo. Assim como o ácido que evaporara e agora permeava todo o ar em volta.
Não tivera sequer tempo de pensar em Peggy, que agora ficaria realmente sozinha.
A última coisa que Dakota e Roger viram em vida foi o ar ao redor deles tornando-se fogo, consumindo a tudo e a todos, fulminando-os de imediato.
*****
Recuperando-se do brusco tremor das estruturas do edifício, alguns levantando-se do chão em meio ao salão de festas no segundo andar do Aquário da Georgia, outros que haviam se segurado em cadeiras, mesas ou paredes, voltando-se firmes, Michonne perguntou, nervosa:
– O que foi isso?!
Jed andou até a porta, duas pistolas em punho, atirando para o teto e para a frente, como um louco. Os desarmados se jogaram no chão, enquanto Buck, Annie e Mavie buscavam as próprias armas, a irlandesa preparando o arco e flecha de imediato.
O idoso sardento abriu as portas duplas em uma velocidade e força espantosas, movendo-se com vigor para fora, prostrando-se no corrimão acima da descida de uma rampa que levava ao primeiro andar, próxima a ala médica. Seus olhos aterrorizados comprovaram o pior.
Rick, seguindo-o de longe, pudera ver pela abertura da porta, muito abaixo, a fumaça subindo e a temperatura elevada. Algum incêndio começara.
E, pelo ruído e tremor... Algo explodira.
Muito ao longe, ruídos de errantes se faziam ouvir em meio à destruição flamejante.
– Você... – Jed caminhou resoluto até Buck, as duas pistolas em punho. – O QUE VOCÊ FEZ COM MEU NETO?! – gritou Jed, seus olhos negros arregalados, suas feições retorcidas em um esgar de fúria completa.
Nisso, Peggy, Mavie e Annie correram para fora do salão. A menina, enlouquecida com o peso de tamanha dor simultaneamente, quase se jogara de cima do corrimão da rampa, tentando atingir a ala médica, onde sua mãe fatalmente falecera junto a explosão de grandes proporções.
Mavelle se jogou para trás, agarrando a menina com todas as suas forças, que se debatia como um animal apavorado, sem conseguir proferir nada além de “mamãe” guinchando em desespero.
– Eu n-não... Eu tinha deixado nitrato de celulose, aquilo que parece algodão comum, em cima da mesa... Mas como eu ia imaginar que eles iriam mexer naquilo?! Ou acender?! Eu só tinha separado os agentes explosivos para fazer outra... – Buck se defendeu, sua voz soando aguda, ele mesmo tentando buscar a arma.
– EU DEVERIA TER ME LIVRADO DE VOCÊ HÁ MUITO TEMPO! – Jed urrou, atirando com violência em todo o corpo de Buck, antes que o cientista pudesse sequer ousar mirar no idoso sardento. Disparou cerca de oito tiros, fazendo com que o biólogo morresse na hora, caindo para trás, manchando uma parede branca com seu sangue rubro.
O idoso movera-se para Rick, que já correra para proteger Carl e Judith. Jed fora tão rápido que pareceria impossível movimentar-se assim para a idade avançada que tinha. Com a mesma feição de fúria enlouquecida, moveu as duas armas para o policial, gritando:
– VOCÊ FEZ TUDO ISSO! VOCÊ! – Jed berrou, parecendo tão atormentado que Billy Ray no auge de seu surto psicótico aparentaria ser alguém são ao seu lado. Era inacreditável ver o idoso fora de si assim, antes tão controlado e calmo, agora como uma fera enlouquecida pelo ódio e pela dor.
– Jed... – Carol falou, saindo de trás de Michonne e Tara, a arma que ganhara já em punhos, e ele moveu as duas pistolas para ela no mesmo instante.
– ...Já basta. – Carol Peletier mirou em cheio no crânio do idoso, estourando sua testa em um tiro próximo, antes que ele pudesse mover seu dedo no gatilho. Sequer piscou ao assassinar a sangue frio o antes líder do Oceanário.
Com partes de seu cérebro saindo pelo seu crânio pela proximidade do tiro, Jed morreu encarando Carol. Sem mais nenhum sorriso falso presente em seus rostos.
– TEMOS QUE SAIR DAQUI! AGORA! – Rick Grimes gritou, depois de todos suportarem mais um tremor. Correu, junto a Maggie, Glenn e Michonne, até o corpo de Jed, e dele retiraram todas as chaves para as portas do Oceanário, assim como as inúmeras armas que ele portava em seu casaco. Distribuíram rapidamente entre o grupo, enquanto Tara e Rosita tiravam as duas armas de Buck e suas lâminas.
– A explosão comprometeu a estrutura toda! O prédio vai desabar! Devemos ter no máximo mais dez minutos! – avisou Abraham, ajudando todos a saírem do salão de festas. Não havia mais sinal de Mavie, Annie ou Peggy.
Daryl sumira também.
Michonne, em um ato de misericórdia, esmagou a cabeça do pai de Peggy, livrando o errante daquela existência sofrida. Depois, correu rápido até Rick, que ajudou Abraham a evacuar o grupo.
– ESCUTEM! A ala médica ficava anexa a uma das paredes sem maiores proteções. Pode ser que errantes tenham entrado! Tomem muito cuidado! – falou ele. – Corram para o caminhão maior! Vamos partir agora! – o líder do grupo avisou.
– E os outros? – Tara perguntou, angustiada.
– Se quiserem vir... – Rick Grimes duvidava daquilo. Naquele momento, ficou um pouco preocupado refletindo outra vez onde Daryl fora se meter no meio da confusão. – ...Tudo bem. Mas se levantarem armas para vocês... – Rick disse, e o resto ficou implícito.
Grimes e Carol foram até o depósito, guiando um ao outro no meio da extensa fumaça e do fogo que já se alastrara pelo primeiro andar, usando a gola de suas camisas para se proteger da fumaça tóxica.
Por fim, alcançaram o armário de armamentos, e, depois de aberto, retiraram de lá o máximo de munição e armas que puderam carregar. Correndo para fora do Aquário, tiveram de matar alguns errantes que, em chamas, rastejavam para dentro do Aquário, buscando carne fresca.
Michonne, Carl, Glenn e Maggie ficaram encarregados de buscar nas cozinhas o máximo de suprimentos que conseguissem.
Enfim do lado de fora do Aquário, descendo aos portões sul, Rick encontrara o grupo todo, a maioria já tendo entrado no compartimento de carga do extenso caminhão, todos prontos para partir. Glenn decidira levar mais um veículo, por via das dúvidas, e nele estava presente ele, Maggie, Tara e Eugene. O resto do grupo todo estava no caminhão.
Carol reparou naquilo no mesmo instante que Rick, mas se manifestou antes:
– Onde está ele? – falou a mulher de cabelos grisalhos, referindo-se a Daryl Dixon.
– Espere aqui – Grimes avisou, austero e determinado. – Eu acho que sei onde encontrá-lo – Rick garantiu, e saiu correndo.
Atravessou os jardins, tentando ser o mais furtivo que podia, arrastando-se pelos arbustos e esgueirando-se pelas paredes e objetos nos quais poderia se esconder. Ao alcançar os portões a oeste, ele viu a cena que imaginara.
Peggy estava trancada dentro de um dos 4x4 do Aquário da Georgia, o que Mavie tinha preferência por dirigir. A garota adolescente ainda chorava convulsivamente, mas parara de se debater, fechada no banco de trás do carro.
Annie mirava um revólver na direção do rosto de Daryl.
Mavie, por sua vez, tinha seu arco e flecha em posição, uma flecha no cordel apontada para o peito do arqueiro.
Daryl deixara a balestra no chão, e encarava a garota irlandesa, parecendo resoluto a não dar um passo para trás, porém sem proferir palavra.
– Eu juro – Mavie falou, e Rick viu o quanto o rosto da garota morena estava coberto de lágrimas. – Se você der mais um passo, eu juro que eu solto a flecha – a irlandesa ameaçou, e Grimes percebeu que ela falava a verdade.
Daryl também, pela expressão de profundo pesar que fizera. Seus olhos semicerrados pareceram se fechar ainda mais, mas ele não se moveu.
– Hey! – Rick falou, levantando as mãos na mesma hora. Annie e Mavie moveram suas respectivas armas para o policial. – Hey. – Grimes levantou ainda mais as mãos, rendido. – Não precisam fazer nada. Ele vem com a gente – Grimes garantiu, fazendo um sinal com a mão para apontar Daryl. O caçador não se movimentou, ainda encarando Mavie.
A irlandesa moveu-se de forma a apontar o arco e flecha preparado para Dixon, outra vez. Ela fazia o máximo de esforço para manter firmeza, Rick percebia, mas suas mãos tremelicavam invariavelmente.
O queixo da garota tremeu, soltando um soluço, e Rick mais uma vez intercedeu:
– Por favor. Venham conosco. Vamos conseguir sobreviver – Grimes assegurou.
Mavie voltou-se para Rick mais uma vez, com o arco e flecha apontados. Soltou uma flecha propositadamente entre os pés do policial, como se para ameaçá-lo ainda mais.
– VOCÊS DESTRUÍRAM TUDO! MENTIRAM! ENGANARAM! DEIXARAM A GENTE PARA A MORTE! – Mavie gritou também, o arco e flecha completamente trêmulos em suas mãos. Daryl quis se aproximar, mas ela apontou-os outra vez para ele.
– Jed mentiu. Jed enganou. Tivemos de nos defender, pois cedo ou tarde ele nos mataria a todos, inclusive mataria vocês – Rick tentou acalmá-la. – Não somos como ele – Grimes disse, assertivo.
– Vocês são iguais a ele! – Mavelle retrucou, e, de certa forma, estava certa. Também haviam enganado, manipulado, e mentido para todos eles, por um longo tempo.
– Mavie... – Daryl tentou começar.
– Nunca mais se aproxime de mim. Se eu te ver outra vez, vou me certificar de que será a última – Mavie, com seu rosto lavado de lágrimas, falou a promessa enraivecida e passional, sua voz soando aguda e abafada, apertada em um soluço doloroso, enquanto deu um último olhar para Daryl.
Em seguida, girando nos calcanhares, entrou ligeira pela porta do motorista do carro. Era perceptível o quanto aquela garota fora machucada pelos recentes eventos.
Annie entrou ao seu lado, e Mavie deu a partida, avançando pelo portão oeste, já aberto, atropelando alguns errantes quando se puseram na estrada. Os sons dos pneus cortando o asfalto em uma velocidade cada vez mais crescente se fizeram ouvir até ficarem cada vez mais longínquos, e, por fim...
...Desaparecerem por completo.
Daryl retirou sua balestra do chão, e seguiu Rick até o caminhão. Quando lá chegou, o compartimento estava quase fechado, e Carol tentou tocar no ombro do caçador, para consolá-lo de alguma forma.
O arqueiro se esquivou com brusquidão, enquanto a amiga apenas o encarou, compreensiva, e foi se juntar aos outros no compartimento de carga. Inúmeros errantes chamuscados estavam mortos pelo chão. Deveriam ter se aproximado dali enquanto Rick e Daryl ainda não tinham voltado.
Enquanto ouviam o barulho da porta da caçamba se fechando, Rick confirmou com Glenn que estavam prontos. O asiático já saíra na frente, munido de um walkie talkie que fazia par com o que Grimes pegara.
Rick Grimes girou a chave que tirara de Jed na ignição, e deu a partida. Daryl Dixon, sentado ao seu lado, no banco do carona, olhava para a frente, tentando parecer impassível.
Rick podia ver nos olhos do amigo um brilho ainda mais dolorido do que quando haviam perdido Beth Greene, naquele fatídico dia no Grady Memorial.
Atrás deles, Grimes podia ouvir os últimos sons de tremores reverberando. Pelo retrovisor, o policial viu o antes imponente edifício do Aquário da Georgia, em toda a sua amplidão azul, ser envolvido por chamas, caindo em meio aos destroços, e uma multidão de errantes que se guiava até aquela catástrofe, parecendo seguir infinita até o horizonte.
Dirigiu para longe, enquanto pelo retrovisor via seu antigo lar, antes repleto de água, ironicamente destruído pelo fogo, que agora se transformava em ruínas e cinzas.
Um tanto culpado, Rick engoliu em seco, e pôs-se a falar, enquanto dirigia:
– Não era para isso, bem, essa parte... Ter acontecido – Grimes tentou se explicar. – Mas eu tenho certeza de que... – Rick tentara garantir que tudo se ajeitaria e daria certo, mas Daryl Dixon o interrompeu, e sua voz roufenha, como se comprimisse o choro, deu a entender a Grimes que não deveria falar mais nada.
– Nem mesmo comece. Nem tente – Dixon falou, sério, e ambos se renderam ao silêncio e ao luto.
Mais mortes.
Mais uma vez na estrada, e mais uma vez sem rumo.
Atormentados pelas novas perdas, mais uma vez temerosos pela completa falta de norte, outra vez apavorados pela certeza de que cada novo segundo poderia ser o fim, aterrorizados pela falta de segurança, de confiança, de sanidade...
...Rick e seu grupo, mais do que nunca, realmente eram os mortos errantes.
But the summer sun is melting now
With the leaves I`ll soon be gone
Will you have the strength when the emptiness
shadows fall
Or will your aching heart be ripped apart
By the beating from the storm
Or will howling gales like yesterdays be gone
Yeah be gone... be gone
Was she sent down to me from the heavens above
Her breath pure as whiskey my heart fell in love
Now the devil is courtin' a different tune
And I laugh as the tears was the rain
Tell me why no one`s listenin'
Is there nothing at all left to say
In a world so unforgiving
You mean more to me each every day
So may the living be dead in our Wake
Flogging Molly — May The Living Be Dead (In Our Wake)

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