Hunter's Instinct

22 Episódio 22 - Hide and Seek


Notas iniciais
Oiê meus queridos leitores! o/ Primeiro, quero agradecer MUUUITOOO as leitoras Lunah Miller, nataliasilveira, Lux, Anna L, Sonhadora Dixon, (ao leitor) Filho de Kivi, e novamente as leitoras Rosie Santana, marcelammota, Connie e Vivi Costa! =D Fico muito grata e recompensada pelo retorno de vocês, espero que saibam que cada review que vocês gentilmente me dão fazem a maior diferença pra mim! Fazem com que eu fique mais animada, me botam pra cima, enfim, me empolgam para continuar firme e forte me dedicando a escrita de H.I., para deixar a história cada vez melhor! Eu ameeeei que Hunter's Instinct está recebendo tantos comentários, com novos leitores a cada capítulo postado, e inclusive uma nova recomendação! Por isso, dedico este capítulo para marcelammota, leitora muito fofa que recomendou recentemente a minha humilde história! Espero que eu continue sempre agradando, linda, e MUITO OBRIGADA pelo seu presente maravilhoso! Se há algo que eu mais amo ganhar no nyah, com certeza são recomendações! Funcionam como propaganda da fic, como resenhas literárias positivas, hahahaha! Assim, já adianto que esse capítulo é focado na Mavie, só com POVs dela e uma técnica nova... Um flashback! No meio desse capítulo teremos um flashback dela, porque a maior parte dos leitores se disse muito interessado no passado da Esquila, e sim, eu já tinha ele pensado desde o começo da história, ahahaha! Então, para matar a curiosidade de vocês e desenvolver mais nossa dentucinha... Aqui está! O capítulo ficou grande de novo, não me matem, acho que ainda assim está dinâmico. Teremos um começo emotivo, um flashback da Mavelle, certas "cenas" que se dividirão entre o fofo e o hot (sim, isso é possível) e, por fim... Algo que duvido que vocês vão adivinhar se não lerem o capítulo! Um final no mínimo tenso! Como eu falei, agora são tretas everywhere! E se preparem que o próximo capítulo é o CONFRONTO FINAL entre Aquário x grupo do Rick! Beijos e boa leitura!

Ela tivera sonhos confusos.

Imagens de pastos verdes, amplas colinas em meio ao sol enevoado de um verão úmido e chuvoso, o cheiro de maresia flutuando pela madeira do cais e as paredes das casas coloridas no porto de Galway. Sonhara também com um local fechado, onde a luz era sempre fraca e azulada, e animais divididos entre presas e predadores traziam aos humanos que ali viviam a sensação contemplativa de uma metáfora...

Pois o mundo era também, agora, dividido entre a caça e o caçador. A regra principal: a lei do porrete e das presas, não as pobres almas perseguidas, mas os dentes afiados de fera selvagem.

Lembranças da Irlanda e do Aquário da Georgia se misturaram nos sonhos conturbados de Mavelle, trazendo-lhe uma sensação de angústia e desamparo que só veio a passar quando encontrou, em suas imagens mentais, a face dele e seu olhar que, silencioso, lhe murmurava roucas confissões. Olhando-a sem defesas, sem falsas pretensões, honestamente entregue ao que ela sabia que era vivenciado por ambos.

Mavie acordou assim que seus sonhos foram invadidos por Daryl Dixon.

A irlandesa piscou os olhos, deitada de barriga para baixo na cama que fora palco de um curioso espetáculo na noite anterior. Lembrando-se do tempo que se ocuparam com tais atividades, a jovem caçadora sorriu, marota, em uma sensação dividida entre a exultação de ter conseguido o que queria e a ansiedade pela dúvida da pergunta inevitável: e agora?

Acalmando-se e tentando apenas manter-se tranquila, controlando as perguntas que urgiam dentro de si, ela tentou esvaziar sua mente. Moveu-se para o travesseiro ao lado, agora vazio, assim como o leito que compartilhara na noite passada. De olhos fechados, aspirou devagar, sentindo aquele cheiro singular e masculino. Como era possível apenas o próprio odor daquele homem ser tão atrativo assim?

Com esforço, retirou o rosto dali e moveu os lençóis para longe de seu corpo, ainda nua. Pela iluminação da manhã, podia ver que ainda era relativamente cedo. O sol não estava tão alto, e, pela temperatura do chalé, provavelmente aquele dia seria mais frio do que o anterior.

Mexendo na mochila que recheara com as roupas que encontrara no hotel abandonado, tiritando de frio pelo contato de sua pele quente com o ar frio matutino, a garota de dentes salientes procurou roupas íntimas, uma blusa de algodão, calças jeans e um casaco, vestindo-se com agilidade, calçando suas botas de caça, por último.

Ela já imaginava que Daryl não estaria ali quando acordasse. Provavelmente o testemunharia em um verdadeiro dilema mental que evitaria demonstrar, talvez até mesmo apresentando algum arrependimento. Aquela ideia gerou certa pontada desconfortável em seu peito, mas Mavie não deu sequer um segundo de atenção para a emoção inoportuna.

Sua avó deveria estar preocupada, nunca lidara bem quando a neta ia a missões de caça que tomavam tanto tempo. Agora, o que tinha de fazer era arranjar algo para comer e colocar o pé na estrada.

Sabia que Dixon estaria por ali em algum lugar, já o conhecia o suficiente para ter certeza de que ele não seria o tipo que a abandonaria no hotel e sumiria com o carro de madrugada. Até porque sequer tinham gasolina para isso, e, caso conseguisse sair dali sozinho, sabia que não poderia voltar sozinho. Jed não deixaria barato se ele assim o fizesse, muito menos Annie.

Logo, Mavelle colocou sua mochila em um dos ombros, a aljava de flechas em outro, recolheu seu arco e saiu do chalé. Reparou que, de fato, não havia ali a balestra do arqueiro, tampouco seu colete de Cupido.

Ao sair do casebre, deu um último olhar para os trevos de três folhas que ali havia, crescendo abundantes pela grama dos jardins ao redor dos chalés. Despediu-se deles mentalmente, sorrindo travessa consigo mesma. Vocês realmente me deram sorte ontem. Pensou a garota, brincalhona.

Seguiu, portanto, na direção do casarão principal do hotel. Lembrando que só havia encontrado refeições de frios e salgadinhos que comeram na noite anterior, sequer passou pela cozinha e subiu até o andar onde havia o restaurante. Lá, percebeu que a mesa usada não continha mais nada.

Não acredito. Mavie Berry pensou, contendo uma risada, honestamente surpresa. Levou as mãos ao rosto, e sabia o que aquilo indicava; se, logicamente, Dixon não poderia fugir, ele mesmo recolhera aquelas provisões. Estaria adiantando o trabalho deles, para que pudessem partir logo.

Parece que ele lidou melhor com isso mesmo, mais do que eu imaginava. Ainda surpresa, a irlandesa caminhou para as escadas, mas sua visão se deteve em um quadro que havia no saguão. Em meio a uma parede decorada com algumas plantas mortas, e reportagens de prêmios que o hotel e o chef responsável por aquele restaurante ganharam, um pôster emoldurado que ela já havia visto em sua vida várias vezes estava ali replicado.

“A pint a day keeps the doctor away”, escrito em um copo de cerveja Guinness cheio até a borda. Sobre as benesses de se beber um copo de cerveja por dia, ou um trocadilho bobo com a frase “an apple a day keeps the doctor away”.

A lembrança foi inevitável.

[...]

Tinha apenas 21 anos quando ele apareceu na sua vida, cruzando continentes de distância em uma viagem que selaria o destino de ambos para sempre.

Em uma noite de outono banhada por uma chuva tempestuosa, Mavie se atrasara para seu trabalho, saindo da Universidade Nacional da Irlanda, onde estudava na faculdade de letras-literaturas. Apresentando um trabalho sobre literatura norte-americana em sua última aula daquele dia, seu grupo não administrara bem o tempo que tinham para exibir o que fizeram, demorando demais na oratória.

Naquele instante, entrava pelos fundos apressada, arrastando consigo seu violão que derrubara durante o pequeno trajeto de apenas 1km de distância entre a universidade e o pub em que trabalhava. A capa do instrumento estava encharcada, assim como o casaco comprido azul claro que ela vestia. Seus cabelos, bagunçados pelo vento e pela ação da água plúmbea que caía por toda a cidade de Galway.

– Mavie, você está atrasada! – A garota ouviu a reclamação, audível em meio aos burburinhos e sons de risos abafados do pub já lotado, e a primeira visão que teve foi do conhecido pôster com a piada infame do “um pint por dia”. Em meio aos muitos sofás alojados de forma a rodear mesas, e mesas com cadeiras dispostas por todo o bar, ela se arrastou para o pequeno quartinho onde se improvisava o camarim dos músicos, no Róisín Dubh pub. Em gaélico irlandês, o nome significava, literalmente, “rosa negra”.

Fora seguida por um de seus colegas de banda, Charlie, responsável por tocar o fiddle irlandês, irritado pela demora da vocalista.

– Eu sei, ok? Estava na faculdade. Apresentando um trabalho. Foi mal! – Mavelle Berry respondeu, franzindo as sobrancelhas, enquanto Charlie fechava a porta atrás dela. O baterista da banda, Donal, a esperava de braços cruzados. Nenhum instrumento estava a vista no camarim, o que significava que levaria uma grande bronca do gerente assim que o show fosse terminado.

Era uma noite de quarta-feira, uma dos quatro dias da semana em que trabalhava cantando e tocando violão na banda “The A-BANDoned”, uma péssima piada infame que fora ideia da própria vocalista, quando não haviam decidido um nome para o trio. Há muito tempo Mavie havia desistido de fazer sucesso musicalmente, não tendo nenhum tipo de “quem indica” necessário para se lançar no mundo da música, e sem receber apoio nenhum por parte de seus pais, que poderiam lhe dar o suporte necessário para firmar contrato com uma grande gravadora.

Tocando primordialmente músicas típicas irlandesas, que iam de Whiskey in the Jar até adaptações de músicas da banda Floggin’ Molly, o grupo ganhava seu pequeno reconhecimento tocando naquele pub da região, muito visitado por turistas.

– Seu pai paga sua faculdade – retrucou Charlie, ainda irritado. – Esse meu trabalho, junto a outros dois de meio período, pagam a minha! – insistiu o rapaz, estudante de música, revoltado.

Donal se mantinha em silêncio, apenas julgando silenciosamente a garota de dentes salientes. Mavie, respirando fundo, desculpou-se mais uma vez, com mais humildade, e pediu para que todos fossem logo ao palco.

Enfim juntos, o trio assumiu suas posições, Mavie sentada em um banquinho no palco, no meio dos dois; Donal sentava-se atrás da bateria, um pouco mais afastado da vocalista e do tocador de fiddle, e Charlie, sentado ao lado de Mavie, estava a sua esquerda.

Deram boa noite ao bar, sendo saudados pelas mesas mais próximas, e por pessoas sentadas junto ao balcão extenso do pub. Garçonetes e garçons serviam pints de Guinness e de outras cervejas irlandesas para os clientes, enquanto outros iam e vinham com petiscos dos mais variados em bandejas amplas.

Mavie Berry costumava abrir os shows interagindo um pouco com a plateia. Reparou que a mesa mais próxima do palco estava vazia. Passou os olhos pelos presentes, que ainda não prestavam muita atenção na banda.

Com exceção de uma mesa.

Mais atrás, junto a uma parede, um rapaz de cabelos cacheados escuros e olhos que pareciam castanhos à pouca iluminação do bar, conversava com outros homens que pareciam ter a sua idade ou serem um pouco mais novos, sentados em um sofá que contornava uma das mesas do pub.

Não tirava os olhos de Mavelle, de forma alguma, o que tinha um efeito estranho sobre ela; ele conversava com os que o acompanhavam, mas não parecia olhá-la fixamente de uma forma deselegante ou rude propriamente. Sequer parecia que falavam dela, já que os outros rapazes que acompanhavam o sujeito de cabelos cacheados não lhe deram a menor atenção.

Mas ele não parava de encará-la. Como se tivesse sido hipnotizado, como se a imagem de Mavie fosse mais interessante para seus olhos do que qualquer outro detalhe presente no pub.

Sem entender porque aquilo mexera consigo, já que não costumava ficar tímida diante da atenção da plateia, Mavelle Berry desviou o olhar do rapaz que não conhecia. Olhou para um sujeito careca, circundado por homens da mesma idade, todos idosos, que pareciam mais animados com a banda. Levantavam seus pints de Guinness, pedindo de forma simpática e alegre que começassem logo a tocar.

– Bem, boa noite, Galway! – saudou a irlandesa, mais uma vez, percorrendo as mesas com os olhos, e evitando o olhar do rapaz que sabia, instintivamente, que ainda a encarava. O gerente abaixou ainda mais a iluminação, ligando um pequeno foco de luz no palco, um holofote improvisado.

– Quantos compatriotas temos hoje? – falou ela, dando uma piscadela para o público. Os idosos animados levantaram seus pints, comemorando em um “hooray” bem alto, assim como algumas mesas, menos da metade dos clientes do bar àquela hora.

– E quantos turistas encantados com nossa cidade? – brincou a jovem vocalista. Muitos clientes assobiaram, bateram palmas, espalmaram a madeira de suas mesas. Entre eles, ela reparou em um olhar de esguelha, estava o sujeito que fixara seu olhar nela.

– Vocês vem de onde? – perguntou a garota morena, apontando para uma mesa enquanto ajeitava seu violão, dedilhando algumas notas e afinando-o de última hora. Soou um “uhul” aleatório de algum canto da plateia, enquanto Charlie dava uma risadinha pela ebriedade dos presentes.

– Brasil! – responderam o grupo de turistas mais alegre. Mavie aplaudiu, junto com o resto da banda, assim como boa parte da plateia.

O mesmo se seguiu por algumas mesas, revelando turistas japoneses, franceses e até mesmo ingleses. Por fim, Mavie teve de perguntar à mesa do rapaz misterioso.

– E vocês? – Mavelle questionou.

Uma sucessão de países foi respondida. Índia, China, Itália, Alemanha, todos sendo saudados pela banda e pela plateia em geral... E por fim ele respondeu:

– América – disse o sujeito de cabelos cacheados que não parecia conseguir desviar os olhos de Mavie.

– Muito bom! – Aplaudiu ela, junto aos outros membros da banda e o resto do bar. – “Hooray, América!” – brincou a irlandesa, tentando entender porque aquele homem a instigara tanto. Era natural que, em um bar com apresentações ao vivo, a plateia focasse sua atenção nos músicos. Era normal que a vocalista atraísse os olhares, ainda mais quando era ela que apresentava a banda.

Mas havia algo na forma daquele rapaz a olhar, tal nota de interesse, um detalhe claro no brilho curioso de seus orbes, que ela sabia, percebia em seu âmago... Era muito mais do que a curiosidade pela música que ela apresentaria.

Um pouco tímida, ainda, ela parou de afinar o violão, e enfim puxou o microfone para a última pergunta.

– Amigos! – a irlandesa de Galway chamou a mesa de seus compatriotas idosos. – Devo começar com qual música de nossa querida Ilha Esmeralda? – aguardou ela enquanto muitos irlandeses a aplaudiam.

– “Galway Bay”! – gritou um dos idosos, sorrindo empolgado.

– “Galway Bay” será, então. – Mavelle sorriu, olhou para os membros da banda, que assentiram. Era uma canção folclórica irlandesa típica da cidade, que todos os três, nascidos e criados nela, conheciam desde o berço, praticamente.

– 'Tis far away I am today from scenes I roamed a boy… – Mavie começou cantando docemente, sua voz soando aguda e límpida, enquanto o bar pouco a pouco silenciava para escutá-la. Sempre adorou cantar. Colocar para fora os sentimentos, daquele jeito, era uma das melhores maneiras de se esquecer das dificuldades da vida, das suas agruras... De relaxar, e de extravasar.

Pelo visto, não era mesmo à toa que seu nome era “Mavelle”, que significa “songbird”.

– And long ago the hour I know I first saw Illinois – ela continuou, dedilhando as notas em seu violão, enquanto Charlie tocava primorosamente seu fiddle, e Donal marcava o compasso na bateria.

– But time nor tide nor waters wide can wean my heart away… – a irlandesa continuou a canção, sorrindo para a plateia que começara a assobiar, encantada.

– For ever true it flies to you, my dear old Galway Bay! – Mavie, que estivera por todo o tempo desde que começara a música de olhos fechados, resolvera abri-los, sem saber por qual razão.

De imediato, como se atraídos por algum movimento invisível, olhos de avelã-esverdeado se cruzaram com fascinadas íris castanhas.

E, durante aquela pequena pausa da estrofe, Mavie tinha certeza de que algo extraordinário ainda viria a acontecer.

O show da noite se seguiu até a hora em que o bar fechou, com dança por parte da plateia, risos impetrados tanto pelos músicos quanto pelos ouvintes, e muita diversão e música por horas que pareciam trazer uma alegria sem fim. Tocaram “I’ll Tell Me Ma", "Her Mantle So Green", "Danny Boy" e as mais diversas músicas irlandesas, das animadas as tristes, das românticas às canções de batalha.

O público os acompanhava gritando, dançando, cantando, comemorando de toda forma. Mas ninguém parecera mais fascinado com a banda... Mais atraído pela música de Mavie, e por seus olhos de avelã esverdeado, quanto o rapaz misterioso que veio dos Estados Unidos.

Ao fim do show, Mavelle e os rapazes da banda foram chamados pelo gerente para serem elogiados. A banda fizera um sucesso estrondoso naquela noite, e eles receberam cumprimentos de vários clientes, perguntando quais seriam os dias das próximas apresentações. Com a certeza de um contrato renovado, Charlie e Donal esqueceram do atraso de Mavie, e os três se abraçaram, felizes, assim que o gerente virou as costas.

Já estavam entrando na van antiga que Donal dirigia, portando guarda-chuvas e guardando os instrumentos para voltarem cada qual para sua casa, pegando carona com o baterista, quando Mavie Berry foi interpelada por dedos que tocavam com gentileza contida em um de seus ombros.

Ela voltou-se para trás, surpresa, achando que algum bêbado pudesse tê-la seguido para fins escusos. Seus amigos já haviam entrado no automóvel, enquanto a irlandesa encarou o estranho, imediatamente assumindo uma postura defensiva.

– Calma. Peço perdão pelo susto – O rapaz americano se desculpou, no mesmo instante, passando a língua pelos lábios e contendo um sorriso. Seus olhos cintilaram quando cruzaram o olhar com Mavie, mais uma vez. E ela pôde atestar que eram de fato castanhos. O rapaz segurava um grande guarda-chuva negro, e parecia estar agora sozinho.

– Você poderia ter falado um “boa noite”, antes – ela comentou com ironia gentil, enquanto o americano concordou, rindo.

– Sim, poderia. Sinto muito. Esqueço que vocês europeus são muito mais bem educados do que nós, americanos ignorantes – brincou ele, falando da típica falta de educação que era comum aos turistas de nacionalidade dos EUA.

– Olha, sendo bem sincera, eu acho que nós irlandeses não ficamos muito atrás – ela troçou de volta. – Não sei se reparou, mas aquele velhinho da mesa da frente jogou uns quatro pints para cima só para ver se conseguia fazer malabarismos com os copos – a irlandesa acresceu. – E acho que você viu o que aconteceu – terminou, rindo de leve.

– Pobre garçonete. Se isso é uma quarta-feira típica, como vocês ficam no Saint Patrick’s Day? – perguntou o espirituoso rapaz.

– Ah, você não vai querer saber – disse Mavie, fingindo adotar um tom sombrio, enquanto ambos riam.

– Mavelle, para de dar mole ‘pra um fecking groupie, vamos embora! – gritou Charlie de dentro da van, abrindo o vidro do carro, sentado ao lado de Donal, que estava ao volante.

Mavie se sentiu corar, ridiculamente. Aquilo não era típico dela. Sempre fora uma garota extrovertida.

– Cale a boca Charlie, sua mãe pode esperar alguns minutos para te dar leite com biscoitos antes de dormir! – replicou a irlandesa, debochando do amigo. Mavie Berry pôde ouvir a risada aguda de Donal ao volante, que buzinou alto para apressá-la. Alguns transeuntes xingaram o motorista, assustados pelo súbito som.

– Seu nome é Mavelle, então? Tão lindo quanto sua voz. – O rapaz americano sorriu.

– Sim. Mas todo mundo me chama de Mavie, como me apresentei no bar – ela respondeu, sorrindo de volta. Era muito fácil sorrir para ele.

– Um nome e um apelido adoráveis – sentenciou o rapaz, enquanto ela sentiu suas faces queimarem outra vez. – Eu sou Jeffrey – ele se apresentou. – Jeffrey Gallagher. – E deu mais um sorriso, dessa vez em uma expressão cúmplice. Ela compreendeu de imediato.

– Um camarada compatriota! – ela exclamou. – Então há raízes do Éire em seu sangue – comentou.

– Sim, meu avô era irlandês – o rapaz esclareceu. Ambos ouviram a buzina de Donal soar ainda mais alta e impaciente, enquanto Charlie blasfemava do lado de dentro do carro.

– Bem, eu... – Mavie tentou cortar a conversa, puxando a porta da van para entrar. O rapaz levantou a mão, fazendo menção de tocar em seu braço, e ela o encarou mais uma vez, recuando um pouco. Ele retraiu sua mão, dando um sorriso contrito e abaixando a cabeça.

– Desculpe. Indelicadeza americana de novo. – O rapaz riu. – Então, eu queria saber se você está livre para tomar uma Guinness amanhã, quem sabe? Acabei de chegar em Galway para o meu mestrado, não tem nem três semanas ainda – acrescentou.

– Eu não sei como funcionam as coisas na América – brincou Mavie, fazendo uma fingida cara de ofendida, e dando uma piscadela ao sujeito. – Mas aqui os irlandeses conversam um pouco antes de sair enchendo a cara com desconhecidos – mentiu ela. Na verdade, a tradição irlandesa era beber, não importando com quem.

– Culpado, mais uma vez. – O americano levantou as mãos em uma posição brincalhona de rendição. – Mas e que tal se todos os pints fossem de graça? Por minha conta? Por mais que eu tenha achado sua voz linda cantando, eu adoraria ouvir mais histórias sobre a terra dos meus ancestrais... Sobre você, também – falou o rapaz charmoso.

– De fato essa é uma proposta vantajosa! Mas não tente me comprar, isso é golpe baixo! – Mavie riu, entrando no carro, ao que Charlie gritou “ALELUIA” no banco da frente.

– Isso é um sim ou um não? – o rapaz perguntou, seguindo o carro que arrancava.

– Descubra você mesmo, forasteiro! – brincou Mavelle, dando um adeusinho para fora da van.

Enquanto cruzavam a Lower Dominick Street, virando para Dominick Street Upper, Donal guiava o carro para fazer a primeira parada na casa de Charlie, a que ficava mais perto do pub em que tocavam. Olhando o rio Corrib e a chuva que caía acima de suas águas correntes, Mavie sorriu.

Sabia que aquilo não tinha acabado ali.

No dia seguinte, apresentando-se no pub mais uma vez, Jeffrey estava na plateia. Em uma mesa mais próxima, com alguns dos mesmos amigos, mas não todos. Na sexta-feira, ele fora outra vez, com menos amigos ainda. Por fim, no sábado, o rapaz americano comparecera ao bar, e trouxera um buquê de rosas para dar para Mavie ao fim do espetáculo.

De cara amarrada, Donal e Charlie o saudaram, deixando-o a sós com Mavie Berry quando o show acabou e o bar fechou. Seguindo a Lower Dominick Street, foram até a Dominick Street Upper a pé, na noite que não chovia, conversando e rindo muito. Jeffrey era muito engraçado, e o senso de humor dele e da irlandesa eram bastante parecidos. Desinibido, charmoso, inteligente e gentil, Mavie compreendia o turista como um sujeito cada vez mais encantador.

Entraram no bar Monroe’s com música e dança até altas horas da noite, e Mavie prometeu:

– Só um pint. Preciso acordar cedo amanhã, vou caçar com meu pai – a garota avisou.

– Caçar?! – Jeffrey parecia surpreso. – Com armas e tudo? – O sujeito parecia incrédulo.

– Sim. Meu pai gosta de armas de fogo, já eu uso arco e flecha – contou, enquanto o queixo do americano caiu de forma cômica. Mavie gargalhou enquanto os dois se sentavam no balcão, pedindo um pint de Murphy’s Red Ale.

– Quer dizer que por trás da voz delicada e mansa se esconde uma guerreira celta? – brincou o rapaz de cabelos cacheados.

– Isso tudo e muito mais – ela retrucou de forma sedutora. – É melhor não aprontar, Jeffie – debochou a irlandesa, apelidando o americano de imediato.

– Eu jamais aprontaria com você – o americano falou, de cara limpa, levantando as mãos como se jurasse. – E “Jeffie”? É para quê, para fazer coro a Mavie? – ele brincou.

– Não tinha reparado na sonoridade – ela riu amplamente. – Que coincidência.

– De fato. Que coincidência – Jeffrey respondeu, olhando-a da mesma forma intensa que a olhou na primeira noite em que a viu. Mavie corou, abaixando os olhos para a cerveja, dando um gole enorme.

O tal “one pint” virou quase vinte. Passaram a noite conversando, Mavie falando um pouco sobre seus hobbies, caçar e cantar, duas atividades supostamente antagônicas, e Jeffrey falando dos seus, pescar e fotografar, o que inclusive era o tema de seu mestrado, já que o rapaz se formaria em fotografia. Conseguira passar para uma vaga em um concorrido mestrado na Universidade Nacional da Irlanda, em Galway, e apresentaria o trabalho moldado na ideia de fotografia temática. Para tanto, escolhera a Irlanda como cenário e protagonista.

Conversaram sobre literatura, cinema, sobre assuntos dos mais diversos, sobre a avó de Mavie, Annie, e sobre o avô de Jeffrey, Reilly, um fazendeiro irlandês que veio tentar a sorte nos Estados Unidos e lá ficara, nos arredores de Atlanta, Georgia. Com o tempo, a família se mudou para a capital do estado, onde Jeff nascera. Descobrira também que o rapaz parecia ser mais novo, mas estava perto de completar 30 anos. Fotografia era a segunda faculdade que tentara, depois de ser mal sucedido ao tentar cursar artes cênicas.

Quando Jeffrey estava deixando Mavie em casa, parou-a na frente do portão, segurando-a pela mão. Ela queria fazer charme, desvencilhando-se, mas estava um tanto bêbada para fazê-lo.

– Você aceitaria fazer parte da minha tese de mestrado? Aparecer nas fotos? – ele pediu, com um olhar encantador e pidão.

– Tipo a sua musa? – ela retrucou, ainda mais extrovertida por conta do álcool. Jeff abaixou o rosto, sorrindo, e levantou o olhar outra vez.

– Exatamente – o rapaz admitiu.

– Eu precisaria tirar nus artísticos? – provocou a irlandesa, dando ao rapaz um olhar travesso, que o fez levantar a sobrancelha e dar-lhe um sorriso entre o divertido e o seduzido.

– À sua escolha, senhorita – replicou o rapaz, aproximando-se mais. Mavie segurou-o pelo rosto, sem mais defesas, sorrindo muito para ele.

– Jeffie – falou ela, baixinho, obrigando-o a chegar mais perto. As mãos dele estavam em sua cintura, enquanto ela baixou suas mãos para enlaçá-lo pela nuca.

– Mavie – o americano respondeu, sorrindo brincalhão e interessado.

– Céad mille fáilte! – saudou ela, e o rapaz levantou as sobrancelhas mais uma vez, em uma expressão caricata.

– Espero que não tenha me xingado – brincou o fotógrafo.

– Eu falei em gaélico: “seja cem mil vezes bem-vindo” – esclareceu a irlandesa, dando ao rapaz seu melhor sorriso e olhar sedutores.

– Não precisava nem ter dito. Essa noite já me fez me sentir assim. – Ele a puxou pela cintura para perto de si.

Com afã inegável, se beijaram, e Mavelle esqueceu até que estava na frente de sua casa, onde a qualquer momento qualquer um de seus pais ou sua avó poderiam testemunhar aquela cena pela janela.

Em um daqueles raros instantes que parecem durar uma eternidade, Mavie tivera outra certeza motivada pela influência de Jeff: não sairia daquilo sem se apaixonar perdidamente.

[...]

Silenciosa e melancólica, querendo evitar as lembranças que não mais a perturbavam há dois anos, Mavie descera até as cozinhas, em busca de mais suprimentos para levar junto ao caipira da Georgia em sua viagem de volta ao Aquário.

Olhando para o chão, sem prestar muita atenção no trajeto que fazia, Mavie Berry não reparou na visão que teve ao abrir as portas daquele recinto.

Foi apenas quando ouviu um sonoro pigarro rouco, quase um rosnado canino contido, que voltou aos seus sentidos.

– Hm-mm. Sentado na mesa que ali havia, Daryl Dixon juntara os sacos de salgadinhos remanescentes, conseguira embalar os restos de salame com algum tipo de papel que encontrara pelo hotel e mais; pelo visto acordara bem cedo e se ocupara desde tal hora, pois a superfície estava repleta de frutas das mais variadas: laranjas, peras, maçãs verdes e pêssegos estavam dispostos em tamanha quantidade que mais pareciam vir de uma barraca de um feirante.

That’s class*! – exclamou Mavie, agudo, sem nem perceber que soltara aquela expressão típica de seu país com tamanho afã.

Daryl não respondeu nada. Parecia que usaria a tática de fingir que nada acontecera para lidar com ela no dia seguinte. Agindo como se não se importasse, a irlandesa se aproximou da mesa, deixou seu arco em cima da superfície, mochilas e aljava em outra cadeira, e pegou uma maçã de aspecto sadio e apetitoso.

– Eu adoro maçã verde – Mavie continuou, forçando animação. – Como adivinhou? – Deu uma dentada forte na fruta, sorvendo deliciada o caldo doce e ácido, enquanto sentava na cadeira ao lado de Dixon. Ele descascava uma laranja, e deu a ela um olhar curto e incisivo.

– Tentei achar nozes e castanhas, essas coisas que a sua espécie come – debochou dos dentes dela novamente. – Mas não vi nada assim por aqui. – Ele mesmo passou a consumir sua fruta, sua voz soando séria como se Mavelle fosse mesmo uma Esquila.

– Muito obrigada pela gentileza de procurar. Posso me virar com isso – ela troçou em resposta. Mavie percebia o que aquilo significava; nas entrelinhas, por mais que provavelmente estivesse tão desconfortável quanto ela naquela situação a posteriori, Dixon não queria agir... Bem, não queria agir como um babaca.

– Acho que se sairmos daqui em uns quinze minutos, chegaremos lá antes das onze – refletiu Mavie, comentando suas expectativas de viagem para o caçador. Mastigava audivelmente a maçã, fazia muito tempo que não comia uma fruta tão fresca e deliciosa. Ele meneou a cabeça afirmativamente, olhando para as janelas como se avaliasse as condições climáticas.

Em seguida, voltou-se para a irlandesa.

– Cuidado para não engasgar – o caipira debochou. – Esses seus dentões te fazem mastigar mais do que pode engolir.

Suscitada pela fala com fácil duplo sentido, ela deu ao arqueiro um olhar completamente sugestivo. Dixon só faltou rolar os olhos, impaciente pelo besteirol da irlandesa que já previa.

– Achei que essas minhas capacidades tivessem sido muito bem provadas ontem – brincou vulgarmente a jovem mulher.

Daryl não reagiu. Apenas a encarou. Aquilo surpreendeu um pouco Mavie. Sua estratégia para se sentir confortável em situações do gênero, era sempre forçar alguma desinibição, levar tudo na brincadeira, querendo ela ou não fazê-lo. Era assim que sabia reagir.

Mas não previa aquele tipo de reação da parte dele. Reação... Honesta.

– Por que você acha que não colhi só frutas? – falou o caipira, agora ele próprio parecendo soar debochado. Tinha uma expressão divertida ao rosto, apesar de, como sempre, não sorrir.

Mavie não entendera. Ele apontou com os dedos para a mochila que ele próprio levava, também em cima da mesa. Mavelle levantou-se um pouco para olhar o que ali havia, e sem pedir licença abriu o zíper. Inúmeras cenouras, sobreviventes de alguma antiga plantação, ocupavam um grande espaço.

– Hum? – Mavie Berry perguntou, dessa vez ela mesma tomando o lugar de Daryl, que geralmente era o confrontado com os enigmas debochados da irlandesa. Sentou-se ao lado dele, levantando uma sobrancelha.

– Não só Esquilas são dentuças – troçou o homem, encarando a caçadora. – Coelhinhas também – o arqueiro fez a piada que na verdade não deixava de ser uma espécie de elogio carinhoso (e também libidinoso, dada a intensa atividade sexual daqueles animais).

Mavie sentiu seu rosto ficar instantaneamente quente, fervente quase. Sabia que ruborescera, provavelmente de uma forma ridícula, e sequer desviou os olhos. Ficou olhando para Dixon com uma expressão totalmente abobalhada, ao passo que ele quase formou um sorriso em seu rosto, fazendo apenas um leve esgar de lábios.

– Sua maçã está caindo no chão. – Apontou o caipira, comendo os restos de sua laranja e limpando as mãos na própria camisa. Provavelmente falara aquilo para deixar a irlandesa ainda mais desconfortável, divertindo-se às custas dela. Mavie levantou a maçã do piso, soprando-a, e deu mais uma mordida, subitamente tímida. Estava se sentindo ridícula, se deixando afetar por uma cantada boba daquelas, e que provavelmente fora mais uma piada do que qualquer coisa.

Assim que terminou a maçã, entretanto, Mavelle decidiu não deixar barato. Fora dobrada agora, mas sairia por cima. Jogou os restos para o lado, enquanto Dixon fazia menção de se levantar e reunir as frutas que ali haviam para irem embora.

Rápida, Mavie praticamente quicou de sua cadeira para o colo do caçador, que não teve outra escolha a não ser voltar a sentar novamente os poucos milímetros que levantara. Parecendo um pouco surpreso e desajeitado, até mesmo incomodado pela súbita proximidade de Mavie, ela o enlaçou pelos ombros e pescoço, mantendo-se firme acima de suas pernas fortes.

– Não estou assim com tanta pressa de sair da toca – brincou Mavie, lasciva e sugestivamente se aconchegando no colo de Daryl, enquanto seus braços se aninhavam nele cada vez mais. Um olhar escurecido e fulgurante do caçador foi suficiente para fazê-la sorrir do mesmo jeito travesso que a noite anterior. Sentiu as mãos dele inevitavelmente subindo pela cintura dela, explorando com avidez seu abdome.

E eis que aquela mesa em questão passou a servir, momentos depois, como algo a mais além do simples armazenamento de provisões.

*****

Temporariamente saciados em alguns sentidos, puderam enfim sair dos limites do hotel algum tempo depois. Dixon havia encontrado um mapa local no edifício central do hotel, o qual tinha legendas para indicar os inúmeros postos de gasolina da região.

Tiveram de tentar poucas vezes até encontrar um posto desabitado, e que ainda tivesse algum combustível a oferecer. Os arqueiros repararam que, dentro da loja de conveniência, alguém prendera uma horda consideravelmente perigosa de Frankies, em razão de seu número elevado. Uma corrente de ferro enrolava-se nas portas de empurrar com um cadeado a segurando, e não tardou até que os mortos-vivos percebessem a presença dos caçadores.

Era preciso ser rápido se não quisessem passar de predadores para presas. Com um número daqueles, provavelmente centenas de carniceiros, aqueles seres fétidos logo conseguiriam quebrar as portas de vidro e se esgueirar para fora, em busca de carne viva.

Assim, Mavelle e Daryl abasteceram o 4x4 o mais rápido que conseguiram, e, quando enfim tiravam a mangueira de gasolina do veículo, fechando o dispositivo, ouviram o som de pneus cantando perto dali.

A irlandesa e o caipira da Georgia muniram-se rapidamente de suas armas, aprontando tanto o arco e flecha quanto a balestra para alguma ocasião inesperada. Quando punham-se a entrar no carro para uma possível fuga, ambos perceberam de quem se tratava.

Correndo a toda velocidade, ameaçando bater contra os invólucros de gasolina, Billy Ray freara o carro de qualquer jeito, perigosamente perto da loja de conveniência, atrapalhando a saída de Daryl e Mavie do posto.

Mavelle já ia fazer menção de segurar o caipira ao seu lado, mas Dixon era mais rápido e mais forte do que ela. Havia aberto a porta no segundo em que ela pensara em detê-lo, e já saíra ao lado de fora, assim como Billy.

Um apontava uma balestra, o outro uma espingarda, e Haywood, desesperado, descia do volante junto com Mavie.

– PARA ONDE VOCÊ IA LEVÁ-LA? VOCÊ ACHA QUE IA CONSEGUIR SUMIR COM ELA, SEU FILHO DA PUTA? – gritou Billy, a arma tremendo em suas mãos.

– Abaixe a porra dessa arma, seu doente filho da puta! – falou Dixon, cortante, sua voz também elevada, porém não enlouquecida como a de Billy Ray. – Abaixe, ou eu não vou mais segurar minha vontade de te matar, seu pedaço de merda – ameaçou Daryl, certeiro e perigoso.

– Billy, você perdeu todo o juízo?! – Aproximou-se Haywood, tentando puxar o amigo, cujas mãos, pernas e corpo todo tremiam. Parecia de fato ensandecido, em algum tipo de surto psicótico. Seus olhos arregalados tinham pálpebras trêmulas, seus dentes rangiam tanto que pareciam que iam estourar em sua boca. – Abaixe a porra dessa arma, eles estão vivos, é isso o que importa! Se você atirar vai explodir todos nós, o ar daqui está carregado de gasolina! Enquanto o engenheiro, preocupadíssimo, tentava conter o sulista do Alabama, enlouquecido, as paredes de vidro da loja de conveniência começaram a rachar.

Mavie, que já gritara e tentara se interpor entre os dois caipiras, pôs logo o arco em punho e ameaçou o antes amigo, colocando com ligeireza uma flecha no cordel. Lacrimejando, porém não menos firme por isso, a irlandesa mirou no rosto de Billy, a segunda vez que o ameaçava em tão pouco tempo.

– Billy. Eu juro que se mover seu dedo um milímetro, atiro na hora. Eu juro – repetiu a jovem caçadora, com um olhar implacável apesar do choro.

Aquilo pareceu agir como a humilhação final para Billy Ray. Desorientado, furioso, enlouquecido, o homem passou uma das mãos no rosto repetidas vezes, a mão que segurava a espingarda perigosamente ainda no gatilho.

Por segundos de tensão completa, arqueiros contra o homem de espingarda, os quatro apenas trocaram olhares, enquanto Haywood ainda tentava puxar o amigo pelos ombros.

E foi aí que tudo aconteceu.

Pelos segundos que desperdiçaram, as portas largas da loja anexa ao posto explodiram em vários estilhaços de vidro, rachando ao contato impávido de inúmeros corpos putrefatos que se moviam sedentos por vísceras humanas.

– CORRAM! – Haywood gritou, agora apavorado, enquanto Billy quase atirou. O engenheiro deu um soco no amigo, fazendo-o derrubar a espingarda, ao passo que Mavie o desarmou de prontidão e correu diretamente para o 4x4, junto a Daryl, que lhe dava cobertura.

– Venham depressa! – Mavelle gritava, seus olhos arregalados já buscando a chave do carro em seu bolso.

Haywood arrastou Billy Ray pelo braço, que, um tanto confuso, demorara a reagir depois do soco. Engalfinhados por conta da loucura do sulista do Alabama, perderam um tempo precioso. Billy só foi voltar a si quando os mortos-vivos já haviam contornado seu próprio veículo, impossibilitando tanto ele quanto Haywood de voltar para lá.

Sem escolhas, com uma multidão faminta de carniceiros em seu encalço, ambos correram até o carro de Mavelle Berry.

Porém, sem olhar com cuidado, em desespero, Haywood tropeçou na mangueira de gasolina que Mavie e Daryl deixaram cair, surpreendidos com a chegada do novo veículo.

Billy tinha acabado de entrar no 4x4, e, aterrorizado, olhou o que tivera uma grande parcela de responsabilidade em gerar, enfim acontecer. Os mortos-vivos se abaixaram para o engenheiro, para o companheiro de caçadas, para o amigo que tinham há mais de um ano, e passaram a comer sua pele, seus músculos, devorando seu corpo sem misericórdia.

Mavie voltou-se para o caipira do Alabama, dando-lhe a mais feroz coronhada que a base da espingarda lhe permitiu em meio à testa dele, fazendo-o desmaiar de imediato. Já aos soluços, pôs a chave na ignição, acelerando para fora do posto de gasolina, enquanto alguns errantes chegavam perto do carro.

Logo depois, viu de esguelha Daryl, ao seu lado, acertar uma flecha certeira na têmpora direita de Haywood, fechando o vidro em seguida, evitando que os mortos-vivos se aproximassem de si.

E assim, por um deslize, por um surto de Billy Ray, se fora para sempre um de seus grandes amigos.

Peggy perderia o padrasto. Dakota perderia o companheiro.

Enquanto focava seu olhar na estrada, o silêncio lúgubre do carro se arrastava não apenas pelo ambiente do veículo, como também para dentro de seus ocupantes, consumindo suas almas atormentadas. Os olhos de Mavelle Berry mais uma vez se encheram de lágrimas, e ela pensou em quantas pessoas mais teria de perder até conseguir um pouco de paz.

Fosse para a morte, fosse para a loucura.

Notas finais
~ No gif, goodbye Haywood. Sua perda será sentida, especialmente pela Dakota. :( *That's class: that's awesome, that's great. Ou seja, isso é foda, muito legal, etc. Aguardo reviews! o/