Hunter's Instinct

2 Episódio 2 - Mr. Tambourine Man


Notas iniciais
Oiê, gente! Primeiramente gostaria de agradecer muito as leitoras Babi e Renata, suas lindas, que comentaram no primeiro capítulo! s2 E também quero dizer um muito obrigada aos três que já marcaram para acompanhar a fic, e as três favoritações! =) Faz muita diferença já receber algum retorno nesse início de fic, então, peço que quem estiver lendo comente, por favor! ^^ Retribuirei os comentários com toda a atenção! Neste capítulo, teremos POV do Rick, na primeira parte, e do Daryl, na segunda. Descobriremos um pouco mais sobre esse pessoal do Aquário da Georgia... Uma introdução dos novos personagens e da nova realidade do trio Carol, Daryl e Rosita. E, claro, Rick sendo bem badass na primeira parte do capítulo. Por enquanto é isso, para não me alongar mais e não dar spoilers! Espero que gostem! Beijos e boa leitura! =D

“...Though I know that evenin’s empire has returned into sand
Vanished from my hand
Left me blindly here to stand but still not sleeping
My weariness amazes me, I’m branded on my feet
I have no one to meet
And the ancient empty street’s too dead for dreaming

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you.”

Bob Dylan – Mr. Tambourine Man



Rick Grimes já esperava o pior.

A madrugada erguia-se ao seu redor em uma fraca iluminação cinzenta e apática. Muitas horas já haviam se passado desde que o grupo se separara em Greenville. Tudo isso por uma escolha que ele acatara, porém não concordara intimamente.

O policial levantou uma de suas mãos e a passou pela testa, em um de seus gestos característicos. Olhou para cima, sabendo que em breve teria mais uma difícil decisão a tomar.

O céu erguia-se cheio de nuvens, modorrento como a ressaca da tempestade impiedosa que desabara por toda a tarde e noite anterior. Paulatinamente, uma fraca luz fazia-se ver por entre as brumas, como um presságio de uma manhã desesperançosa.

– Eles estão demorando muito – Carl comentou baixo, de forma que somente o pai pudesse ouvir. Estava sentado em cima do capô de um velho automóvel, ao lado do pai. O garoto amparava Judith nos braços. A bebê dormia a sono solto, enquanto o grupo composto por Rick, Michonne, as duas crianças, Padre Gabriel, Glenn, Maggie, Noah e Tara encontravam-se em um modesto condomínio de casas em Greenville, em frente aos portões que ligavam o local a uma das vias principais da cidade. Não acharam quase nenhuma comida ou suprimentos naquele local, mas ao menos aferiram que era bem cercado. Protegido contra a possibilidade de serem surpreendidos por errantes.

Há algumas horas, depois de um bem sucedido saque a um antigo mercado daquele município, dirigiram-se para este lugar. Anteriormente, haviam acordado com Daryl, Carol, Rosita, Abraham, Eugene, Tyreese e Sasha que seria o ponto de encontro após a divisão do grupo.

Enquanto o núcleo que fora pilhar o mercado limpava o condomínio dos possíveis errantes que lá habitavam, os restantes se encarregariam de ir até a Floresta Nacional de Nantahala, reserva ambiental mais próxima onde teriam certeza de encontrar comida.

Rick Grimes preferia suportar mais alguns dias de fome do que expôr os sobreviventes a uma separação que, mesmo temporária, os colocaria em uma posição na qual ele não poderia ajudar. Devia isso àquelas pessoas. Devia a eles segurança. Proteção.

Se mais alguém morresse ou fosse deixado para trás, seria por culpa dele. E ele não aguentaria mais lidar com aquilo.

Não depois de tudo o que já acontecera.

Não depois do hospital.

– Temos de aguardar mais um pouco – Rick sussurrou baixo para o filho, encarando gravemente a entrada do condomínio. Vamos. Apareçam. Pensou, internamente preocupado. O líder do grupo de sobreviventes levou a mão à testa novamente em um gesto automático, disfarçando ao máximo sua consternação. Tentava aguçar os próprios ouvidos, estreitava os olhos focados na via principal de Greenville, além dos portões de ferro que os protegiam dos poucos errantes que expunham seus braços para dentro daquele terreno, buscando em vão alcança-los.

Por mais que se esforçasse, tudo o que ouvia eram os sons roucos além das barras de ferro. Ruídos ásperos e hediondos daquilo que uma vez foram seres humanos, famintos pela carne quente e sangue pulsante dos sobreviventes.

Cadê vocês?

Com o olhar fixo nos portões do condomínio, o policial permaneceu em silêncio por alguns minutos, absorto nas poucas esperanças que lhe restavam. Mas algo lhe dizia, ele já sabia, a certeza era evidente... Algo inesperado acontecera.

Depois de algum tempo de observação e espera, Rick Grimes ouviu passos característicos aproximando-se dele. Leves, rápidos, furtivos.

– Devemos ir busca-los? – Michonne perguntou ao seu lado, sua voz determinada em um tom quase inaudível, para que nenhum dos outros sobreviventes próximos os escutassem.

– O prazo ainda está contando – Rick respondeu fingindo assertividade.

– O sol está nascendo – ela acrescentou, seus olhos sérios gravemente fixos no rosto do policial.

– Ainda não nasceu. – Rick Grimes voltou-se para ela, impondo autoridade. Michonne não vacilou.

– Rick... – ela começou, mas, de súbito, todos ouviram o claro barulho de pneu cantando ruas adentro daquela cidade fantasma, completamente abandonada de vida. O homem sentiu como se tivesse retirado um peso de toneladas de cima de seu peito.

Após alguns segundos, um jipe conhecido corria em alta velocidade ao longe, na esquina de onde se localizava o condomínio. Maggie e Glenn se abraçaram, parecendo aliviados, Tara soltou uma breve exclamação de alegria, comemorando com um tímido Noah, enquanto Michonne tocava um ombro de Rick, mais descansada. Carl sorria o melhor sorriso que conseguia dar atualmente, o que afrouxou ainda mais a angústia dentro de Rick Grimes.

Ver seu filho feliz, ou o mais próximo do alegre que pudesse ser, era um bálsamo para sua alma. Até mesmo Padre Gabriel, ainda recluso e afastado, pareceu um tanto mais esperançoso com a visão do jipe.

Assim, Michonne, Rick, Glenn e Maggie dirigiram-se aos portões. Rapidamente abriram-os com uma chave que Tara encontrara dentro do que antes era a cabine do segurança do condomínio. Logo, permitiram que apenas o carro entrasse, fechando as portas novamente antes que algum errante pudesse aproveitar a brecha e se esgueirar para dentro do local.

Quase sorridentes, o grupo andou até as portas do jipe.

Entretanto, assim que o veículo entrou e olharam para a caçamba que havia na parte de trás do automóvel, Rick percebeu que seus instintos não haviam falhado.

Não estavam todos ali.

A passos decididos, Rick Grimes andou até a porta ao lado do motorista do jipe. O que antes eram apenas coros de alegria tornou-se um silêncio desagradável, do tipo que precede as piores notícias.

Abraham saiu do carro, e falou antes que Rick pudesse formular uma frase:

– Eles levaram Rosita. – O soldado, parecendo conter a própria fúria, encarava o líder. Rick sabia que o homem estava usando de todo o seu auto-controle para seguir o que fora combinado. Era louvável perceber que, mesmo sem a companheira, fora fiel ao resto do grupo. Pouco a pouco, Sasha, Tyreese e Eugene saíram do automóvel.

– E Carol? E Daryl? – Rick falou, e ainda não cruzara o olhar com nenhum dos outros sobreviventes.

– Nenhum sinal deles – Tyreese respondeu, abalado.

– Na verdade, haviam sim. Alguns sinais – Sasha retrucou, nervosa. Rick a encarou, reparando nos olhares ansiosos dos outros.

– Quem os levou? Que sinais? – Michonne interrompeu, sua postura dura, as mãos cruzadas na frente do peito.

– Temos razões para acreditar que eles estão no Aquário da Georgia. O Oceanário de Atlanta. Passamos a madrugada procurando pelos três – Eugene explicou, falando rápido, como lhe era típico. Parecia assustado.

Abraham, enquanto isso, abria uma pequena mochila, e jogou o conteúdo do que havia ali dentro no chão.

Rick baixou os olhos para o local onde o soldado jogara o que havia na mochila. Viu um boné bege, característico, caído em meio a grama do condomínio de casas. Pertencia a Rosita. Dentro dele, havia a bandana azul que Daryl usava de vez em quando, bem como um dardo com uma agulha muito fina.

– Achamos algumas coisas deles, e um rastro de caminhão em uma trilha muito ao norte da floresta. Justo onde encontramos esses pertences – Abraham disse, rangendo os dentes de fúria.

– O que é isso? – Carl perguntou, pasmo. Aproximou-se do boné e seu conteúdo, mas seu pai abaixou-se e levantou o dardo, retirando-o do chão mais rápido.

– Não é uma “arma” qualquer. Achamos elas na floresta, depois do que conseguimos rastrear dos outros três. Estavam bem ao norte, e um grupo considerável de errantes já vagava pelo local – Sasha retrucou – Mas eles não estavam entre os... Transformados.

– Leia. Leia o que está escrito no dardo – Eugene insistiu, convicto.

Rick aproximou o dardo de seus olhos. Estreitou-os e viu, inconfundivelmente, um “G” azul cuja curvatura dava lugar a um rabo de peixe. Abaixo dele, lia-se, prensado em letras de fôrma:

“GEORGIA AQUARIUM”

– Mas isso fica em Atlanta – Glenn falou, exasperado, já muito perto de Rick – A cidade está inabitável. Lembram-se dos arredores do Grady Memorial? – O marido de Maggie olhou para a esposa rapidamente, que pareceu engolir em seco quase imperceptivelmente.

– Pelo visto, não é apenas o meu antigo grupo que vive por lá – Noah respondeu, parecendo se solidarizar com a preocupação dos sobreviventes.

– Nós já fomos nesse Aquário – Carl comentou, ansioso, olhando para o pai – Você já me levou lá. Você e a mamãe. – O garoto aproximou-se do dardo nas mãos de Rick, querendo estuda-lo melhor.

– Faz sentido ter gente vivendo lá. É um lugar seguro para se esconder, se continua como era antes – O menino acrescentou.

– Vocês estão esquecendo um detalhe mais importante – Rick falou alto, para calar todos. Sua voz soou séria e agourenta. Assim, o grupo fez silêncio por alguns segundos, e ele continuou:

– Se existem sobreviventes neste lugar, e se foram eles que levaram os três, então sobreviveram há tanto tempo quanto nós. Isso significa que provavelmente estão tão ou mais fortes do que estamos – Rick Grimes falou secamente – E se fizeram isso, não seriam estúpidos a ponto de ter deixado essas pistas por acaso – o policial completou.

– Você acha que... – Tara falou, compreendendo, parecendo ainda mais nervosa.

– Eles querem nos levar até eles – Rick sentenciou.

– E nós obviamente vamos – Abraham interrompeu, andando para mais perto de Rick.

– Preciso lhe dizer algo muito sério: a única razão que me fez voltar aqui e não ter seguido esses viados foi que preciso do número de vocês para matar todos esses filhos da puta. – Os olhos do soldado fuzilavam os do policial, o desafiando. – Se você e o seu grupo se acovardarem agora, é melhor não cruzarem o meu caminho novamente. – O homem parecia fora de si.

– Quem aqui se acovardou? Quem foi que passou um dia inteiro calado na beira da estrada porque acreditou na mentira de um retardado? – Maggie o respondeu de volta, audaciosa, ofendendo Abraham e Eugene ao mesmo tempo.

– Vocês salvaram esse moleque – apontou para Noah com o cano da arma que carregava na bandoleira – e deixaram aquela loirinha para a morte, e além de tudo acobertam o merda de um padre inútil que não sabe nem sequer segurar uma pistola! – Abraham gritava, quase.

– Aquela “loirinha” era a minha irmã, seu merda! – A esposa de Glenn, também parecendo perder o juízo, baixava a mão para a própria arma. Seu marido tentava segurá-la, mas ela se desvencilhou.

– CALEM A BOCA! – Rick ordenou, sério, levantando a voz em um tom impositivo.

– Abraham, ninguém vai abandonar ninguém – O policial falou assertivo – Mas você precisa se controlar, ou será você o único a ser deixado para trás. – O líder levantou as mãos de forma a solicitar que o soldado abaixasse as armas.

– Já cometemos um erro em Terminus – Rick Grimes disse – Não vamos cometê-lo de novo – garantiu.

– E o que sugere, então? – Eugene finalmente voltou a falar, olhando para Maggie com certo desagrado.

– Se esses outros querem tanto nos encontrar, vamos até eles – Rick decidiu.

– E traremos Daryl, Carol e Rosita de volta – O policial complementou.

– Provavelmente é uma armadilha. Já devem estar mortos – Eugene falou, sensato.

– Não temos outra escolha. Não podemos deixá-los – Glenn insistiu.

– Se estiverem mortos... Quem quer que os matou descobrirá que cometeu o maior erro de sua vida. Porque o funeral não será dos nossos três amigos* – Rick Grimes assegurou sombriamente.

– Mas sim de qualquer um que estiver no Aquário da Georgia – falou cruel.

Carl levantou os olhos para o pai. Ambos se encararam.

Seu filho há muito já não sorria.

****

– ...Acorde. – Um sotaque extravagante falou em inglês aos ouvidos de Daryl Dixon. Reagindo em um impulso, ele moveu rápido seu pescoço na direção de onde ouvira a voz, tentando mexer seus braços em uma reação de defesa. Ao mesmo instante em que o fez, teve uma péssima sensação de debilidade; seus braços estavam amarrados firmemente nas costas de uma cadeira, assim como seus pés, impossibilitando-o de se movimentar um mísero milímetro.

Ele piscou os olhos, tentando ao menos recuperar a visão, ainda muito turva. Foi acometido por uma angustiante sensação de esquecimento, como se não soubesse em que lugar estava, e o que fazia ali. Depois de algumas tentativas, conseguiu focar a visão.

Uma menina morena, que parecia estar na casa dos vinte anos de idade, o encarava com um sorriso arteiro no rosto. Tinha os dentes da frente ligeiramente salientes, e olhos de uma tonalidade entre o verde oliva e avelã.

A dentuça. Daryl pensou, e se lembrou de que a garota o amparara no momento em que tentou se levantar da maca quando acordara tempos atrás. Rapidamente, foi recordando de tudo o que acontecera. Mas quantas horas haviam se passado desde então? Onde estava Carol? Rosita?

– ...Carol? – ele perguntou, tentando formular a frase “onde está Carol”. Buscou usar um tom agressivo, mas sua voz soou grogue, quase como se estivesse bêbado. Malditos. O efeito da droga que administraram em seu corpo ainda não havia passado completamente, mesmo desperto.

A garota com o sotaque esquisito não respondeu nada, apenas deu um passo para o lado. À sua direita, Daryl pôde ver Carol e Rosita sentadas, ambas amarradas em cadeiras semelhantes à dele, imobilizadas do mesmo jeito.

– Aqui – a mulher de cabelos grisalhos respondeu, tentando lhe dar um olhar reconfortante. Daryl sentiu a raiva dentro de si explodir quente como a erupção de um vulcão. Carol novamente estava em perigo, e ele não tinha ideia de onde era o lugar onde estava.

Outra lembrança o acometeu. “Bem-vindo ao Oceanário de Atlanta.” A menina de dentes grandes falou antes que ele adormecesse, da última vez que fora desacordado.

Essa cidade infernal de novo. Dixon pensou, sombrio.

Baixou seus olhos para a perna de Carol. Estava envolvida por um curativo enorme. Ao levantá-los para ver o rosto da amiga, o arqueiro percebeu que ela tinha o olhar vago, como se estivesse fazendo um esforço tremendo para se concentrar. Morfina? Pensou ele. Com o ferimento horrível que tinha na perna, precisaria tomar doses cavalares de derivados da droga para aguentar as dores.

Olhou ao redor. Parecia uma espécie de escritório, com uma grande escrivaninha ao centro, estantes de livros, computadores e outros apetrechos do gênero.

– O Jed já está chegando para conversar com vocês – a garota de cabelos escuros comentou, como se sequer ligasse para a atmosfera tensa que pairava entre as quatro pessoas naqueles aposentos.

– Espero que não se incomodem se eu tocar meu violão um pouco. – A jovem mulher caminhou até um canto da sala onde havia um violão antigo e sentou-se no chão. Passou a dedilhar alguns acordes, e a cantar baixinho, murmurando para si mesma, ignorando completamente a presença dos outros três estranhos.

Daryl sentiu vontade de quebrar aquele instrumento. Julgou que aquilo poderia ser algum tipo de provocação daquele grupo que os sequestrara. Do que eles poderiam ser capazes?

Olhou novamente para Carol, tentando se comunicar silenciosamente com ela. Rosita encarava os dois, incrédula com tudo o que acontecia. Carol se mantinha resistente, sua postura obstinada. Deu ao arqueiro um olhar fraternal que lhe era típico.

– Quem é Jed? – Rosita perguntou azeda, encarando a garota com o violão.

– Ele é o “Mr. Tambourine Man” – a garota respondeu, dando-lhe um sorriso cínico. Era algum tipo de código do grupo, pelo que Daryl podia aferir. Ou talvez fosse uma mera provocação insana da menina contra os três que se encontravam em uma posição de fragilidade.

– Ele é o chefe – Carol falou assertiva, e não em um tom de pergunta. Olhava para a garota com indiferença.

– Você é esperta, Carol – A garota respondeu, em um tom travesso. Dixon a encarou com fúria no olhar. A postura petulante daquela menina tirava Daryl do sério. Se conseguisse se soltar...

– E você quem é? – A mulher de cabelos curtos parecia ter entrado no jogo da menina. Falava com o mesmo tom de cordialidade que a garota usava.

– Mavie. Mavelle, na verdade, mas todo mundo me chama de Mavie – a garota morena dedilhou mais alguns acordes no violão – E você? – a menina de dentes proeminentes perguntou, encarando agora a companheira de Abraham.

– Não costumo dizer meu nome quando sou sequestrada – Rosita retrucou, entre dentes.

A menina chamada Mavie riu, para a surpresa do grupo. Além de tudo é maluca. O arqueiro pensou.

– Sequestrados?! Vocês foram resgatados. – Mavelle ainda sorria.

– E que tipo de resgate mantém alguém preso como um prisioneiro? – a namorada de Abraham revidou, falando com desdém.

Os olhos de Mavie cintilaram, ao passo que ela se aquietava como se não tivesse permissão para responder àquilo. Finalmente. Daryl pensou, suas feições mal-encaradas desafiando a garota. Ela sequer parecia se importar com aquilo, olhando-o com o que parecia ser uma curiosidade quase infantil.

Aquele jeito de olhar lhe era familiar, lembrava alguém, e era a última pessoa que ele desejava lembrar naquele momento.

De súbito, todos ouviram o ruído da porta se abrindo em um ranger agudo. Mavelle se levantou, aprumando-se rápida, deixando o violão no mesmo canto em que o achara.

Um homem velho, negro, com muitas sardas no rosto adentrou o recinto. Parecia bastante sadio e disposto para a idade, com um porte altivo e seguro. Aproximou-se da garota e encostou em seu ombro esquerdo com uma de suas mãos, em um gesto amistoso de carinho. Após isso, sentou-se na escrivaninha, em uma cadeira defronte a todos os prisioneiros.

Mavelle andou até a mesa referida, parando ao lado do idoso. Ambos encaravam o trio com cordialidade, como se fossem anfitriões e eles, hóspedes.

Daryl Dixon fechou ainda mais a cara. Para pessoas que se camuflaram tão bem na floresta e os enganaram, todos os que encontrara estavam parecendo muito inofensivos. Idiotas, até.

Sonsos. Sonsos até a porra da unha do dedão do pé. O arqueiro conjecturou, certo de que não eram tão frágeis quanto aparentavam ser.

– Por que não termina com esse “circo” de merda e diz o que quer de nós? – Daryl Dixon enfim falou, encarando com firmeza os olhos escuros do homem idoso. Sua voz voltou a soar regular, apenas levemente enrolada, lançando o desafio no ar.

– O “Cupido” sabe falar, então! – Mavie comentou, debochada, no outro canto da sala. Sorriu para Daryl, mas o homem de idade a encarou, quieto, mal modificando suas feições. Ela levantou as sobrancelhas em uma expressão como se pedisse desculpas, e voltou a se calar. Dixon reparou que no cinto da calça da garota havia uma comprida faca, mantida em um compartimento para tanto.

– Esse “circo” são apenas precauções, meu caro – o homem sardento respondeu, sorrindo sem mostrar os dentes.

– É bom ver que estão plenamente recuperados. Foi uma viagem estafante, eu presumo – ele acrescentou.

– Você é Jed – Carol disse, quase com apatia.

– E você é Carol – Jed respondeu, mantendo o mesmo sorriso. Mexeu no que parecia ser uma das gavetas da escrivaninha e retirou de lá um tamborim. Passou a tocá-lo levemente, movendo os guizos do instrumento, e a impressão de anormalidade daquele grupo parecia cada vez mais irrefutável.

– Seu amigo estava bastante preocupado com você. Isso é bom – o homem idoso disse.

– Nós lidamos melhor com pessoas que se importam – Jed completou.

– Que porra você está querendo dizer? – Daryl perguntou, ficando cansado daquela enrolação toda.

– Que nós precisamos conhecer um pouco mais vocês – O idoso respondeu – Pois farão parte do nosso grupo – ele falou, como se comentasse sobre algo sem importância.

– Vocês são loucos! – Rosita falou alto, praguejando.

– Vocês nos caçaram na floresta e nos sequestraram para integrar seu grupo?! – Ela quase gritou, descrente.

– Queridinha, eu não gastaria uma armadilha de ursos com vocês – Mavie retrucou imediatamente, debochada. Daryl lhe lançou outro olhar ameaçador, mas ela sequer piscou.

– Nosso encontro foi acidental – a garota parecia falar mais sério agora.

– A questão é simples: nós vivemos em um ambiente livre de carniceiros – Jed falou, e Daryl assimilou o nome diferente que davam aos errantes.

– Para tanto, temos muitas armas. – O homem moveu a capa que usava, levantando-se, de forma que os três pudessem ver as diversas armas que guardava consigo – E muita munição – sorriu cordial, o que não condizia com seu discurso.

– Temos comida, água, abrigo, até mesmo energia elétrica. Dispomos do essencial para sobreviver, e economizamos. Sabemos a hora de poupar e a hora de gastar. E sabemos quem chamar para a nossa equipe. – O olhar antes convidativo do homem de idade passou a uma expressão de fina astúcia.

– O Aquário da Georgia, incluindo o terreno externo e o estacionamento, compreende uma área total de 5 hectares, ou seja, 50.000 metros quadrados. A maior parte dessa vasta extensão está completamente livre de carniceiros, pelo excelente trabalho que fazemos. Atualmente somos poucos, mas muito, muito bons em nossos serviços. – Jed encarou Mavelle, ambos sorrindo cúmplices. O ar simpático falso já retornara, na forma como tratavam o trio.

– Se são tão bons assim, por que precisariam de mais pessoas? – foi a vez de Carol falar.

– É uma boa pergunta – O idoso respondeu – Apesar do pessoal qualificado, como agora já sabem, nosso terreno é muito grande. Dentro do aquário, estamos certamente garantidos. Portas hermeticamente fechadas, que nenhuma horda de carniceiros conseguiria derrubar – ele falou calmamente.

– Mas precisamos de mais gente que saiba se adaptar ao meio externo. Não poderemos depender do que o oceanário nos supre para sempre, afinal de contas. – Jed finalizou.

– É melhor que nos deixem ir – Daryl insistiu, ameaçador. Jed e Mavie o olharam, mantendo os sorrisos cordiais em seus rostos. Merdinhas.

– Vocês não têm lugar melhor para ir – o homem idoso insistiu, abrindo um sorriso maior. Daryl sentia um forte desejo de quebrar alguns dentes do velho atrevido.

– E por que não vão nos deixar decidir se vamos ou ficamos? – Carol sugeriu, esperta. Dar conversa para o velho, respondendo e perguntando evasivamente, era mesmo a melhor estratégia a ser usada. Daryl Dixon sabia que a amiga não poderia entregar aos estranhos o fato de virem de um grupo maior, tampouco onde eles poderiam ser encontrados.

– Porque poderemos usar a ajuda de vocês – Jed respondeu placidamente, encarando-a com delicadeza. – Em troca, lhe daremos comida, abrigo, enfim, tudo o que precisarem para viver em paz. Mas sempre propomos um prazo aos novatos – o idoso adiantou.

– Se ao fim de três meses não houver a adaptação, vocês estão livres para ir – Jed falou com assertividade.

– Imagino que não ganharemos nossas armas de volta ao sairmos desta sala – Carol Peletier disse.

– Imaginou certo. – O idoso sorriu com falsa doçura, baixando enfim o tamborim que movimentava outra vez de um lado a outro. Aquele “teatrinho” e o som irritante do instrumento já estavam deixando Daryl fora do sério. – Rogo-lhe que busque compreender, Carol. É apenas precaução – o homem fingiu se desculpar.

– Acho que já conversamos bastante por hoje. – Jed fez um gesto para Mavie, algo aparentemente codificado. Ela assentiu e saiu da sala.

– Quais são os nomes de vocês dois? – o idoso perguntou, encarando Rosita e depois Dixon.

Ambos mantiveram-se silenciosos. Carol respirou fundo, e levantou o rosto:

– Daryl. E Rosita – respondeu por ambos. O arqueiro encarou a amiga, perplexo, sem compreender.

– É muito bom conhecê-los. Aproveitem a estadia no aquário. Recomendo os tanques com tubarões – o idoso sugeriu, uma faísca maliciosa brincando em seus olhos escuros.

Passaram-se alguns segundos, e logo Mavelle voltou, empurrando uma cadeira de rodas. Atrás dela, surgiram um homem de meia idade, uma mulher morena, bonita e de olhos amendoados, seguida de uma garota muito nova e parecida com ela.

Depois, entrou o homem negro que Daryl vira cuidando da perna de Carol, e a idosa de cabelos brancos que antes usava um jaleco, vestida agora com uma blusa e calça comuns. Por último, surgiu um homem de cabelos castanhos escuros, barba e bigode, usando roupas de caça.

– Se apresentem, por favor – Jed pediu.

– Sou Buck – o homem negro que participara dos cuidados médicos de Carol falou.

Haywood – o homem de meia idade se apresentou, um tanto mais severo que os outros.

Peggy – disse a menina que parecia adolescente.

Dakota – respondeu a mulher muito parecida com ela, provavelmente sua mãe.

– Annie – a idosa de cabelos alvos como a neve se apresentou.

– Billy Ray – falou o homem que aparentava ser um caçador. Seus olhos se estreitaram ao olhar para o rosto de Daryl, como se algo no arqueiro muito o desagradasse. Dixon quase se sentiu bem ao ver que alguém naquele grupo demonstrava alguma emoção menos ensaiada.

– Já que a chamada foi feita, amigos, peço que acompanhem nossos novos companheiros – Jed requereu, e levantou uma das armas que carregava do coldre preso em seu cinto. Apontou direto para o rosto de Carol, mantendo o sorriso firme por todo o tempo. Tente só, filho da puta. Tente apertar o gatilho para ver o que te acontece. Daryl ameaçou-o em pensamento.

Pelo visto, julgara a mulher a mais perigosa dentre os três.

Burro não é. Como eu já imaginava. Refletiu o arqueiro.

Peggy se movimentou até as costas da cadeira de Carol Peletier, desatando os nós em suas mãos e pés. A mulher estava enfim solta, o que permitiu Dixon sentir certo alívio. A adolescente ajudou Carol a caminhar até a cadeira de rodas que Mavie trouxera, para depois tirar a amiga de Daryl do recinto.

Por todo o tempo, Jed as seguiu, empunhando a arma com mira precisa. Buck lhe dava cobertura, também apontando para Carol a pistola que tinha consigo.

Dakota aproximou-se de Rosita, tirando os nós de suas cordas. A mulher de cabelos presos em uma maria chiquinha parecia revoltada com tudo aquilo, mas agiu bem docilmente sob a mira da arma de Haywood, que já a mantinha apontada para ela com destreza. Dakota e ele a levaram para fora, também sob a mira de duas armas diferentes.

Por fim, foi a vez do arqueiro ser libertado. Como não podia ser diferente, dera mais azar do que os três: ficara sob a tutela da pentelha dentuça.

Annie e Billy Ray retiraram suas armas, já as preparando para mirá-las em Dixon. Mavelle, por sua vez, andou lepidamente até o arqueiro, desatando com agilidade os nós que o prendiam. Foi por muito pouco que não pôs tudo a perder, ao se ver livre para caminhar novamente. Sua vontade era de atacar todos os três, mata-los se necessário, e desatar em uma fuga desesperada para salvar Carol e Rosita.

– Não se preocupe com a gente, não mordemos – a garota fez a piada de humor negro, fazendo menção aos errantes. É irônico ela não morder, com esses dentões. Daryl pensou, maldoso.

– Se vocês não fizerem nada estúpido, não têm razão para se preocupar. – Ela deu uma piscadela matreira, e levou Daryl Dixon para fora do escritório do chefão de seu grupo.

Os três foram encaminhados por vários corredores, passando por inúmeros tanques repletos de peixes, porém a maior parte deles era suja de fuligem, lodo, com um aspecto lamacento e nada convidativo. Com um oceanário daquele porte, seria realmente impossível – e completamente idiota – gastar recursos para mantê-lo funcionado.

Depois de algum tempo, Annie levou Carol para trocar o curativo, sendo acobertada por Buck. Daryl e Rosita ainda eram vigiados, ficando em silêncio pelo que foram horas seguidas. Decorrido esse período, a mulher declarou estar com sono, desistindo enfim, e foi levada por Peggy e Dakota para algum aposento onde poderia repousar sob a vigilância das duas.

Jed e Haywood haviam se retirado já há algum tempo, restando Mavie e Billy Ray a fazer companhia para Dixon. O arqueiro claramente dispensava aquilo, mas sabia que não teria vontade própria naquele local ainda por muito tempo.

Talvez nunca terei. Pensou, fatalista.

Parou para pensar nas opções de fuga que tinha. Não acreditou em quase nenhuma palavra do que aquele velho filho da puta havia dito, sabendo que, se quisesse sair dali, teria de ser por meio da força ou estratégia.

Eles realmente pareciam bem armados, tinham a vantagem de conhecer o terreno, e, pior, pareciam tão unidos entre si quanto o grupo de Daryl o era. Dixon, Rosita e Carol estavam em clara minoria e fragilizados, fora o fato de Rick e os outros não fazerem ideia de onde estavam.

Se havia alguma chance de escapatória que não dependesse de uma improvável falta de atenção do grupo do aquário, esta seria graças a interferência externa de seus outros amigos.

Rick. Cadê você?

Notas finais
E aí, povo? Aguardo reviews! =D Obs: a expressão que o Rick usou é uma tradução adaptada de "your funeral", gíria americana que se usa para dizer "azar o seu". Achei que dava um trocadilho foda. Em inglês ficaria ainda melhor.