Hunter's Instinct
3 Episódio 3 - Going Deeper
Notas iniciais
– Mavie, está na hora – falou o caipira do Alabama chamado Billy Ray.
Fazia algum tempo que Daryl Dixon continuava em silêncio, sentado em um banco cinzento em um corredor do Aquário cercado por tanques de peixes diversos. Fingia deixar seu olhar vagar entre os animais marinhos nadando de um lado a outro, passeando por águas de imundície barrenta. Mas, na verdade, toda a sua atenção estava focada nas poucas palavras que aqueles dois estranhos do grupo que os sequestrara diziam de quando em quando.
Billy Ray e Mavelle estavam de pé, encostados junto ao vidro grosso de um dos tanques de animais aquáticos. Já não mais apontavam suas armas para Daryl, percebendo que o arqueiro já entendera a mensagem: qualquer movimento em falso, e ele poderia sofrer uma represália fatal.
– 'Beleza, camarada'. Pode deixar comigo – a garota morena disse com seu sotaque e expressões estranhas, ultrapassadas. Por alguma razão, aquela forma de falar não parecia americana.
– Eu não pedi para você ir – Billy retrucou, levantando uma sobrancelha e se movimentando para uma porta ao fim do corredor, seguindo rumo à esquerda.
– 'Endoideceu' de vez, menina? Do jeito que você é 'atiçada', vai querer matar os carniceiros todos, se eu te deixar lá sozinha. Só precisamos de alguns – o homem disse, sério.
– E eu fico aqui sem fazer nada? Feck*! – a menina revidou, não aceitando bem a reprimenda, aparentemente.
– Arranje uma utilidade 'presse' abestalhado daí, então. – Billy Ray apontou com o cano da espingarda que carregava a tiracolo para Dixon. – Não sei, garota, usa essa sua criatividade, não inventa de dar cabo a machado**! – o caipira falou, impaciente. Moveu uma alavanca junto a uma parede, empurrando-a para baixo. Em seguida, a porta na qual ele parava em frente se abriu, como uma porta de elevador. O homem saiu, e a porta se fechou automaticamente em seguida, deixando Mavie soltando um muxoxo de contrariedade.
– Acho que somos só nós dois então, Cupido – Mavelle Berry comentou, dando a Daryl outro de seus sorrisos peraltas.
Para o meu azar. Pensou, de imediato. Não a respondeu, mantendo a mesma postura taciturna que lhe era típica.
– É, vai ser bem divertido – ela ironizou, atrevida, revirando os olhos. – Venha, me siga – orientou o arqueiro, que sabia não ter outra escolha.
A menina de dentes grandes o guiou por alguns corredores, descendo por muitas rampas. Chegaram ao que era provavelmente o nível térreo do local. Daryl reparava aos poucos como o lugar era todo feito em uma arquitetura muito parecida, quase um labirinto. Provavelmente agora andavam pelas áreas não voltadas à visitação do público, tendo em vista que há muito não via nenhum aquário por perto.
Após atravessarem um corredor e virarem à direita, Daryl Dixon viu um local fechado por duas portas muito extensas. Mavelle empurrou uma delas para a frente, e o homem a seguiu. Estavam agora em uma espécie de cozinha industrial, enorme, com diversos fogões, bancadas escuras e equipamentos modernos de culinária.
– Esta é a cozinha do Oceanário – Mavie contou sem que ele perguntasse – aqui eram preparadas as comidas tanto da cantina dos funcionários, quanto do restaurante aberto ao público e também a ração dos peixes. — Ela voltou-se em seus calcanhares, movimentando-se de forma a ficar de frente para o arqueiro. Abriu os braços em seguida, para mostrar a amplidão do local.
– Aqui é gostoso de ficar, tem mais espaço. De vez em quando eu acho os corredores do Aquário meio claustrofóbicos – ela disse em meio ao seu sotaque esquisito.
– Você quer que eu te ajude a cozinhar? – Dixon perguntou, levemente indignado. Não esperava que o sequestrassem para ser usado como uma espécie de escravo doméstico do grupo.
– O que será que te deu essa ideia? – a menina respondeu com sarcasmo irritante, sorrindo matreira para ele. Continue provocando, dentuça, para depois ver o que é bom. O arqueiro conjecturou, mais irritado.
– Mas sim, vou me aproveitar de você para isso – ela falou, petulante, seus olhos de avelã esverdeado cintilando travessos. – Hoje era o dia do Billy e da Dakota, mas ele quis fugir da tarefa, e ela está ocupada com sua amiga de maria chiquinha. – A garota parecia irritada.
– É impressionante como reféns podem dar trabalho – Daryl retrucou, também irônico. A garota riu, parecendo achar seu comentário genuinamente divertido. Moveu-se para abrir um armário alto, ficando nas pontas dos pés e retirando de lá algumas panelas.
– Você ainda acha que foi sequestrado – Mavelle disse, aparentando incredulidade. A garota colocou as panelas em cima de uma bancada. – Se isso fosse verdade, se tivéssemos o hábito de sequestrar pessoas, acha mesmo que estaríamos em um número tão pequeno? – a menina dentuça perguntou espertamente, enquanto se movia para os fundos da cozinha, onde havia uma pesada porta cinza. Daryl a seguiu, e respondeu:
– Vocês poderiam fingir ter um número pequeno. E, na verdade, esconderem vários outros. – analisou o arqueiro, também astuto. Mavie estreitou os olhos por um milissegundo, e voltou a sorrir enquanto abria a porta a sua frente.
– Você também é esperto, Daryl, que nem a sua amiga – A jovem mulher o chamou pelo nome pela primeira vez.
– Mas não é o caso. Vai descobrir com o tempo. – Mavelle e ele haviam entrado em uma espécie de frigorífico, mais um dos locais que o grupo do Oceanário mantinha funcionando com energia elétrica. Inúmeras carnes de caça estavam ali depositadas, em uma espécie de açougue improvisado.
Mavie retirou de lá uma lebre, a qual disse ter caçado naquele dia. “Carne fresca”, disse ela, com um sorriso jovial.
Ocuparam-se nos minutos seguintes com o ato de estripar o animal já sem pele, limpando-o para que os pedaços comestíveis fossem utilizados. Mavelle encarregou Daryl dessa tarefa mais desagradável.
– Você realmente caça. – acresceu Mavie, com reconhecimento no olhar, observando ele retirar as tripas do animal sem dificuldade alguma. – Esta é a única parte que eu não gosto. Já me acostumei a fazê-la, e é isso o que realmente me incomoda – Mavelle pareceu confessar.
– Tem coisas bem piores para se acostumar – Dixon redarguiu, mal-encarado.
– Tem – a garota concordou, e o encarou longamente. Daryl manteve o olhar, e ela cortou o contato. Seu rosto se fechou em uma expressão mais séria. O clima daquele diálogo enervante passou de irritante para soturno, verdadeiramente incômodo.
Alguns minutos de silêncio se passaram, e Mavelle passou a cozinhar um macarrão, usando o que parecia ser o único fogão daquele local que ainda funcionava. Ela pegou a carne utilizável da lebre e a colocou em uma tábua de madeira, amassando-a com as próprias mãos. Pediu a Dixon que se limpasse, e, depois, cortasse cebola e amassasse alguns dentes de alho. Enquanto o tempo corria, ambos se ocuparam de suas tarefas, quietos.
Ao fim de tudo, Mavie havia assado a lebre no fogão elétrico, temperada com as cebolas que Dixon cortara, bem como preparado o macarrão ao alho e óleo, com os dentes do tempero que ele amassara.
Ouviram o som das portas de empurrar da cozinha serem abertas. Voltaram-se para trás, e Daryl logo reconheceu a figura de Billy Ray, parecendo exausto. Seus olhos castanhos escuros se depositaram no rosto e na figura de Dixon com desgosto evidente. Não fazia esforço algum para disfarçar que não aprovava a presença do arqueiro junto ao grupo.
– Bem-vindo de volta, capiau! A coleta foi boa? – a menina debochou, sorrindo para o homem que parecia ser seu amigo próximo. Billy Ray caminhou até eles, parecendo desagradado.
– Deixa que eu assumo agora – o caipira do Alabama disse, falando rispidamente – o almoço de hoje era por minha conta – ele insistiu.
– Então era você que deveria ter ficado aqui. – A garota parecia um pouco confusa. – Para que tanta indecisão, homem? – A menina dentuça sorriu, dando um soquinho de leve no ombro do amigo.
– Esquece – Billy respondeu, seus olhos movendo-se do rosto da menina para Daryl. O pouco que suas expressões abrandaram ao encará-la já havia sumido. Ele novamente fechara a cara para o arqueiro.
Mas que porra. Daryl pensou, impaciente. Pelo visto, é algo pessoal.
– Pode deixar que eu termino esse 'trem'. Aviso o pessoal quando o almoço ficar pronto – Billy falou em um tom impositivo.
– Você conseguiu os “Frankies”? – Mavie perguntou, sua voz indiferente. Parecia se referir aos errantes, pelo que Daryl Dixon entendera.
– Frankie? – Dixon não resistiu, teve de perguntar. Aquele grupo era bizarro demais para não deixá-lo um tanto confuso.
– De Frankenstein – Mavie respondeu, seu rosto mostrando de novo seu ar arteiro. Parecia prestes a contar uma boa piada. – O livro de Mary Shelley. – Daryl encarava a menina, sua expressão entre a irritação e o desprezo. – Sabe, aquela história do cientista que traz um morto de volta a vida... – ela ia explicar, mas o arqueiro a cortou:
– Eu já entendi. – Sua voz a interrompeu, usando o limite de grosseria aceitável naquela situação.
– Mavie, não se preocupe, pode ir fazer algo melhor agora – o caipira do Alabama falou, próximo de Daryl. Sorria com amabilidade para a garota. Ela assentiu, dando aos dois um sorriso curto, e saiu pelas portas da cozinha. Realmente o caçador parecia se importar muito com ela, e os instintos de Daryl Dixon lhe diziam que aquilo não daria em boa coisa.
Depois de alguns minutos em que o homem o ignorou, mas Dixon não se moveu sabendo que provavelmente seria parado, Billy Ray voltou a se manifestar:
– Mavie é uma boa garota. Tem um senso de humor meio estranho, é verdade, mas é uma das melhores sobreviventes desse Oceanário – o caipira falava em um tom soturno, e o arqueiro já começava a entender a que ponto o outro caçador queria chegar.
– Ela é nova, e confiante, mas não é nenhuma idiota. Não deixe essa carinha bonitinha dela e as 'besteiradas' que ela fala te enganarem. – Billy Ray parecia conversar com o outro homem em tom de ameaça.
– Vá direto ao ponto – Daryl exigiu, sem se sentir nem um pouco intimidado.
– Meu ponto é, compadre – falou com ironia, andando devagar para ainda mais perto do arqueiro – que eu prefiro que não se aproxime dela. Se é que você me entende – Billy falou, deixando suas intenções evidentes. Suas mãos desceram para o cano da espingarda que ele levava à tiracolo, onde ele tamborilou seus dedos, devagar.
Daryl quase soltou um sopro de desdém com a boca.
– Não se preocupe com isso – ele retrucou, mantendo a postura desafiadora em resposta ao homem que o ameaçava. Não tinha intenção nenhuma de aumentar a proximidade entre ele e a dentuça irritante além do que seria obrigado.
Billy Ray e ele mantiveram o contato de olhares por algum tempo. A tensão era tão abundante entre ambos que poderia ser cortada por uma lâmina. Depois de alguns segundos, Billy pareceu relaxar os músculos faciais um pouco, e desviou seus olhos para a comida já preparada.
– Melhor para você – o sulista do Alabama revidou, com aspereza.
*****
– Como vamos fazer isso, Rick? É impossível. – Michonne estava incrédula ao lado do policial.
De volta a Atlanta, o grupo de Rick Grimes passara por estafantes quatro dias de sondagem e reconhecimento do terreno imenso no qual se encontrava o Aquário da Georgia.
Cercado por diversos locais onde os errantes se locomoviam em massa em busca de carne fresca, o Oceanário parecia impossível de ser invadido. Perscrutaram cada espaço externo aos seus incontáveis metros quadrados de extensão, reparando que grande parte do que era o meio fora de seus muros, como o estacionamento, estava completamente abarrotado de errantes.
Até mesmo a estratégia de infiltração no meio dos mortos-vivos seria arriscado demais. Eram hordas imensas, que não pareciam se separar mesmo com o extenuante trabalho de “limpeza” que o grupo fazia, dia após dia. Se matassem cem, duzentos até, no dia seguinte mais cem teriam atulhado o terreno próximo ao prédio do Aquário. Haviam sobreviventes lá dentro, isso era certeza, e que provavelmente saíam à luz do dia com alguma frequência, caso contrário não chamariam a atenção dos errantes.
Próximos assim, o grupo de Grimes arriscava-se até mesmo de chamar a atenção dos sobreviventes do Oceanário.
Naquela noite, Rick e os outros remanescentes estudavam o prédio que pertencia ao Aquário da Georgia na cobertura de uma construção baixa, um armazém que limparam de errantes no primeiro dia em que foram ao resgate de Daryl, Carol e Rosita. Abraham lhes emprestara os binóculos de visão noturna e outros materiais de ponta do exército para que estudassem o lugar à uma distância segura, mas o grupo não conseguia chegar de forma alguma a uma solução possível.
Não a uma solução segura, ao menos.
– Acho que teremos de tentar a sorte – Rick respondeu baixo, sabendo que desistir não era uma opção. Ele devia aquilo aos amigos, principalmente à Carol, que os salvara de Terminus quando julgaram que não havia mais saída para todos.
– Sugiro nos disfarçarmos – Michonne comentou, sussurrando. Rick assentiu, balançando a cabeça. Mais atrás, os outros sobreviventes jantavam com latas e compotas, pois a hora já era tardia.
– Mas você não vai – o policial falou em tom de ordem. A mulher samurai abriu a boca para argumentar contra, mas o líder do grupo levantou a mão para interrompê-la, sério. – Se algo der errado... Eu confio em você. – Deu um olhar rápido na direção de Carl, que conversava com Tara alguns metros mais atrás, compartilhando uma lata de frutas em calda com ela. Judith dormia tranquila ao lado do irmão, em um berço improvisado.
– Era você que não deveria ir. Justamente por causa deles – ela insistiu, falando baixo e com urgência.
– Eu não posso deixar de ir. Eu devo isso a eles três. Eu devo isso ao grupo – Grimes sentenciou, sua voz soando em um tom de assunto encerrado. Passou a mão pela testa, preocupado, e Michonne apenas o encarou, silenciosa. Parecia discordar, mas não insistiria na discussão, talvez sabendo que o policial seria teimoso demais para ser convencido do contrário.
– Eu espero que já tenha chegado a uma decisão, cowboy. – Abraham se aproximou de Rick, falando em um tom de cobrança e jogando para longe a lata de conservas que comera sozinho. A cada dia que passava, parecia mais e mais furioso com o sequestro de Rosita.
– Sim. Vamos nos misturar – Rick falou alto, de forma que todos os sobreviventes pudessem ouvi-lo. – Levarei comigo no máximo mais um, além de Abraham – o policial falou em tom de ordem.
– Isso é uma péssima ideia – Eugene retrucou, incrédulo, mas ninguém lhe deu atenção.
– Eu vou – Carl falou, resoluto.
– Sem condições – Rick respondeu, entre dentes, e seu filho o encarou com raiva. Não discutiria agora, mas sabia que acabara de magoar o garoto.
O policial passou os olhos pelos rostos dos sobreviventes. Restando apenas mais uma opção, não tinha coragem de separar Glenn e Maggie, Noah era muito jovem e talvez não tivesse força suficiente para o que Rick tinha em mente, Michonne ficaria para cuidar de seus filhos caso ele não voltasse, Eugene era fraco, Padre Gabriel, um covarde, Tyreese, imprevisível demais, e Sasha... Bem, ela tinha seu irmão ainda. Não tinha outra escolha.
Rick Grimes não seria mais responsável pela dor alheia. Pelas perdas dos outros. Não de quem pudesse evitar.
– Tara, você vem conosco – Grimes exigiu, e a mulher que sentava-se ao lado de Carl se levantou, seu rosto movendo-se um meneio ansioso de concordância, indo para perto do policial de maneira um pouco desajeitada.
– Peço que aguardem mais três dias. Aqui vocês estão seguros e acobertados. Se ao fim desse prazo nós não estivermos de volta, podem seguir viagem – Rick falou com segurança, e os sobreviventes expressaram consternação, alguns levando as mãos ao rosto, preocupados, outros soltando protestos em contrário.
Rick Grimes olhou para Michonne, sua expressão solene, quase. A mulher apenas assentiu com o rosto. Trocaram um último olhar cúmplice, e ele sabia que poderia confiar nela.
Rick andou até Carl, que o encarava como se não acreditasse no que o pai decidira. Abaixou-se para o berço improvisado no qual Judith dormia, e a beijou na testa, sem acordá-la. Carl, próximo aos dois, parecia furioso, mas não demonstrava abertamente. Enquanto isso, Tara se despedia de Glenn e Maggie, os sobreviventes com quem tinha mais intimidade, e Abraham apenas dava um olhar seco para Eugene, que parecia assustado.
– Eu prometo que vou voltar. Não vou demorar muito – Rick disse ao seu filho, que meneou a cabeça em negativa. Carl parecia conter suas emoções com dificuldade.
– Você não pode me prometer isso. Deveria me deixar ir com você – o garoto insistiu, indignado.
– Desta vez eu posso prometer. – Rick Grimes segurou os ombros de seu filho com suas duas mãos. – Eu vou voltar – disse, com tamanha segurança que sabia que ninguém o pararia.
Não daquela vez.
*****
Passaram-se quatro dias desde que Daryl, Carol e Rosita haviam entrado na rotina do grupo do Oceanário de Atlanta.
Mesmo desconfiados, os três tinham de admitir que o grupo não era realmente o que esperavam. Davam-lhes liberdades e mimos pouco usuais para o que seria esperado de sequestradores.
Assim, os três eram levados a fazer todas as refeições do dia com o grupo do Aquário e eram chamados a participar das decisões acerca da rotina de limpeza, segurança e manutenção do espaço em que viviam. Podiam até mesmo andar pelo lugar com toda a liberdade que dispunham e inclusive receberam chaves para seus próprios quartos, separados dos aposentos do resto do grupo.
Podiam interagir entre si sempre que quisessem, e, depois dos primeiros dias, ganharam bastante privacidade. Em troca, bastava ajudarem nas tarefas rotineiras, como todos os próprios membros do grupo do Oceanário o faziam.
É claro, ainda não haviam recebido suas armas de volta, tampouco chaves ou ferramentas para dirigir os veículos que o grupo de sobreviventes do Aquário dispunha, ou até mesmo para abrir os portões e portas que levassem para caminhos para fora do Oceanário.
– Pode ser Síndrome de Estocolmo – Carol fez a piada sarcástica em uma noite em que ela e Daryl passaram algum tempo analisando sua situação e refletindo sobre como fariam para achar Rick e os outros, se saíssem de lá.
Daryl a encarou em silêncio, seu olhar mostrando que não entendera o que ela dissera.
– Essa síndrome ocorre quando alguém como um refém, por exemplo, passa um tempo prolongado nessa situação, e acaba por confundir as coisas. Sentir algum sentimento de afeição, amizade, até amor, para com seu agressor – a amiga lhe orientou.
– Não gosto de ninguém aqui – Dixon respondeu com desdém.
– Isso não é verdade – a mulher de cabelos grisalhos respondeu, dando-lhe um sorriso esperto.
– Posso estar errada, mas atrevo-me a dizer que Annie pode ser uma pessoa íntegra. Dentro do possível, hoje em dia – ela se referiu à médica idosa, avó de Mavie. Havia tratado de Carol com tamanho zelo e esmero que parecia realmente se importar com a mulher. Daryl era muito grato à idosa por isso, mas jamais admitiria.
– Ela é só uma escrava do Jed – o arqueiro respondeu, dando de ombros. Carol o fuzilava com aquele maldito olhar que usava quando parecia ler a mente dele.
– Não sinto que eles estejam aqui por obrigação. Sabe, é realmente um ambiente muito diferente do hospital... Você sabe. Eles querem estar aqui, ficaram porque querem. Não há hierarquia maior nesse grupo do que a que há no nosso – ela falou, parecendo estudar com atenção a reação de Daryl à menção daquele assunto.
Não me fale na merda daquele hospital. Dixon pensou, sorumbático.
– Isso pode ser apenas o que eles querem que a gente ache – Daryl insistiu, descrente – uma farsa para nos pegar desprevenidos – insistiu.
– Se fosse para nos matar, Daryl, por que não teriam feito isso antes? Quantas chances já não tiveram? – Carol respondeu, inteligente como sempre era.
– Eu não entendo porque nos receberam tão bem, e talvez o buraco seja mais embaixo mesmo... Mas estão nos tratando muito bem. Parece que realmente querem que façamos parte do grupo – ela falou, levantando as sobrancelhas.
– Eu não compro essa merda. Detesto esse lugar maluco, e todos que moram aqui – Dixon respondeu, determinado.
Sua amiga manteve os olhos firmes nos dele. Em seguida, pareceu falar com cuidado quando voltou a tomar a palavra:
– A neta de Annie também parece ser alguém decente – referia-se à Mavie. – E ela lembra um pouco... – Ela respirou, e pareceu conter um suspiro. – É alguns anos mais velha, mas tem a doçura dela. É bem diferente, na verdade, mas de certa forma realmente lembra a... – Carol falou, e Daryl entendeu aonde ela chegaria com aquilo.
– Não. Não tem nada a ver – Dixon a cortou – essa garota é irritante, presunçosa e cheia de si. Me tira do sério – Daryl retrucou, grosseiro.
Mavelle tentara se aproximar do trio ao longo daqueles dias, enchendo os ouvidos de Daryl, Carol e Rosita em momentos distintos. De fato era ela dentre o resto dos sobreviventes que mais parecia aberta aos novatos, e que os tratava com mais naturalidade. Mas Dixon a achava insuportável. Falante, petulante, convencida, metida a engraçada, intrometida... A lista era grande.
– Estou vendo – Carol Peletier comentou com ironia.
– Acho que vou dar uma volta pelo corredor. Estou sem sono – Daryl cortou o assunto, querendo encerrar aquela conversa. Carol estava entrando novamente em seu modo “mediúnico”, quase, quando parecia ler os pensamentos do amigo.
– Boa noite, pookie. Acalme-se. Vamos dar um jeito – ela comentou, levando-o até a porta sentada em sua cadeira de rodas e dando-lhe um sorriso fraternal. Tocou em seus braços de forma reconfortante, e ele a deu um aceno de cabeça em despedida.
Preciso tirá-la logo daqui. Está enlouquecendo. Pensou Daryl, enervado. Sua amiga estava realmente em um estado preocupante após aquela comparação.
A dentuça não tem nada a ver com Beth. Pensou, irritado, sem realmente compreender porque aquilo o incomodara tanto. Por mais que quisesse suprimir a impressão, dentro de si, sabia que já havia feito aquela comparação antes.
E que infelizmente concordara, em seu íntimo.
Como se por pura provocação, bastou Daryl caminhar por alguns corredores e subir por algumas rampas, que logo encontrou a garota de dentes grandes, vendo-a dentro de um cômodo com uma porta escancarada. Mavie parecia ocupada com uma enorme manivela, depositada em uma parede no final daquela sala em que ela estava. De imediato, Dixon tentou dar meia volta, mas a garota o avistou antes que pudesse escapar.
– Hey, Cupido! Venha me dar uma mão aqui, por gentileza – Mavelle pediu, seu rosto presunçoso parecendo grato pela sua presença.
Como se eu tivesse escolha. Sabendo que a garota morena iria insistir até que a ajudasse afinal, Daryl foi até ela para terminar logo com o que quer que ela quisesse.
– Essa é provavelmente a tarefa mais nojenta que eu já fiz. – Ela levantou uma sobrancelha, parecendo desagradada. Daryl e ela puxaram juntos a manivela, um tanto emperrada. Aos poucos, um buraco de em torno de um metro e meio de comprimento e largura se abriu, no centro do chão daquela sala. Abaixo dele, via-se a água pertencente a um dos tanques do Oceanário.
Daryl encarou aquilo, levemente surpreso. De súbito, uma barbatana inconfundível passou nadando, alguns centímetros abaixo do buraco, dando ao homem um curto e incômodo arrepio.
Era um dos tanques com tubarões.
– Mas que porra... — Dixon começou a falar, sobressaltado, mas Mavie, ao seu lado, abrira uma outra porta, antes fechada, dentro daquele cômodo. Saltou para o lado, rápida, e da porta caíram um par de corpos. Mortos. As cabeças estouradas por flechadas.
O cheiro de carne podre inconfundível.
– São errantes?! O que estão fazendo aqui? – o caçador perguntou com aversão.
– Ideia do Jed. Na verdade eu a tinha sugerido de piada, e ele levou a sério – Mavelle Berry admitiu, fazendo uma careta suave de repulsa. Puxou os cadáveres semi decompostos pelos braços, arrastando-os devagar para que a carne e músculos podres não desmontassem pelo chão daquela sala.
– Mas que merda é essa?! – Daryl Dixon indagou, incerto.
– O que você acha? – Mavelle respondeu com outra pergunta, irônica, enquanto empurrava com os pés os restos mortais de um errante para dentro do tanque.
– A coisa mais louca que essa epidemia trouxe – falou, aparentando sinceridade – mas prefiro que seja eu a fazê-lo do que a Peggy ou Dakota. Elas ficam muito mal depois – confidenciou a jovem mulher.
– Pode trazer o... Restante, por favor? – ela pediu a Daryl, apontando o corpo putrefato de um errante do sexo masculino.
Dixon manteve-se parado. Apenas encarava a menina com desconfiança.
– Ok então, eu mesma empurro. – Rolou os olhos, olhando para Daryl com irritação. Em seguida, puxou o resto de errante da mesma forma que fez com o outro, jogando-o para os tubarões.
– Eu odeio ver isso depois, mas me obrigo. Para não esquecer de como é horrível – a garota de dentes salientes falou, agindo como se estivesse muito incomodada. Sua postura obstinada parecia uma forma dela tentar esconder o quanto aquilo mexia com ela.
– Vocês fazem isso com qualquer um? – o arqueiro perguntou, com suspeitas.
– É claro que não! – Mavie o encarou assombrada.
– Caramba, que tipo de gente acha que somos? — A jovem mulher cruzou os braços, ofendida.
– O tipo que alimenta tubarões com carne humana – Daryl retrucou, corajoso. Mavie o encarou em silêncio por alguns segundos, não parecendo se abalar com a resposta agressiva.
– Nós temos de alimentá-los. Senão eles comem os peixes. E os peixes podem ser nossa comida, se um dia eu não estiver mais aqui para caçar, ou o Billy, ou o Haywood. Se não pudermos sair – ela revidou, séria – quem quer peixe molha o rabo, já dizia o ditado – fez a piada de humor negro, dando ao caçador um sorriso enviesado.
Daryl apenas a encarava, seu olhar de julgamento profundo.
– Não me olhe desse jeito. Não seja hipócrita. Se você durou tanto tempo, já deve ter feito algo do nível – ela falou, sua voz soando assertiva. Não estava de todo errada – e eles não são mais humanos – Mavelle acrescentou, olhando para a água que aos poucos tornava-se vermelha pelo sangue dos restos dos errantes, dilacerados pelos tubarões.
– Não fazemos isso com um dos nossos – ela falou, depois de alguns segundos encarando aquela cena hedionda.
Daryl Dixon a olhou de novo. Ela manteve o olhar, certeiro.
– Eu não faria isso com vocês – garantiu, e voltou para a manivela. Tentou puxá-la sozinha, mas apesar de bastante forte para o tamanho e físico que tinha, fechou o buraco apenas até a metade. Pela forma como ela falava e agia, Dixon não pôde negar que realmente passara a impressão de dizer a verdade.
– Deixe isso, Esquila – Daryl respondeu, apelidando-a por seus dentões. Mavie voltou-se para ele, indignada pelo apelido ofensivo. Dixon aproximou-se da manivela, e moveu-a para fechar o buraco sem grandes dificuldades.
Ambos se encararam por algum tempo. A forma revoltada com que ela o encarava, pasma, realmente o lembrava de alguém que ele não queria lembrar.
– Sabe, para um caipira hell's angels, você está se saindo metido demais para o meu gosto – falou a menina, indignada, em seu sotaque característico. Porém, agora já parecia levemente divertida, como se tivesse gostado da postura mais desinibida do arqueiro.
Logo depois, foram interrompidos pelo som de passos. Mavie subitamente mudou a expressão para feições quase graves, reconhecendo o dono daquela forma de andar.
Jed irrompera pelo corredor, e encarou os dois:
– Acho que temos visitas – o idoso sagaz avisou, e Mavie pôs as mãos na haste da pistola bobcat que carregava em seus bolsos. Andou rápido até Jed, dando a Daryl um olhar atento.
– Imagino que Rick Grimes seja-lhe um nome muito familiar – falou para Daryl Dixon o chefe do grupo do Aquário da Georgia.

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