Hunter's Instinct

17 Episódio 17 - Memento


Notas iniciais
Oiê gente! Venho nesta segunda-feira, depois de uma semana certinho, com mais uma atualização. Teremos um POV do Noah e um pouco da dinâmica super fofinha dele com a Peggy. Acho que vocês vão gostar bastante. É um capítulo cheio de ação e cheio de feels, então imagino que vá agradar muito aos leitores. Dedico-o ao leitor maravilhoso Filho de Kivi, que na verdade deve ser filho do Azaghal e do Sr. K tamanho o mito que é! Muito obrigada por recomendar a fic, meu caro, como sabe eu já tive um faniquito a la as baitolices do Jovem Nerd de tanta alegria e êxtase pleno pela recomendação maravilhosa! E eis que Hunter's Instinct já conta com 57 leitores, 28 favoritações e 5 recomendações! OEAAAA, como diria a musiquinha da Copa do Mundo do Brasil haahahahha! E que os números continuem crescendo. Gostaria de agradecer aos leitores Vivi Costa, Aurora, Srta Bitch Grimes, Giovana Catalani, Filho de Kivi, Lux, nataliasilveira e Amélia pelos maravilhosos comentários! o/ Espero que continuem sempre aqui me dando apoio em Hunter's Instinct, e que as dezenas de fantasminhas, quem sabe, se animem a comentar! =D Eu não mordo, eu sou carinhosa, ahahaaha! E já deixo o aviso: SPOILER ALERT para quem NÃO VIU o EPISÓDIO 14 DA QUINTA TEMPORADA DE THE WALKING DEAD! Com caps lock mesmo, porque tem um spoilerzão no capítulo, hahaahha! Mas de resto não tem nada a ver, é um pequeno spoiler só, e fora isso vem tudo de minha mente cheia de mirabolâncias (vulgo maluquices)! O capítulo está menor do que os últimos dois, e o próximo também será menor do que esse. Mas não se preocupem, está cheio de ação do início ao fim, imagino que a leitura irá fluir direitinho. =D Beijos a todos e boa leitura!

A segunda semana do segundo mês de estadia no Oceanário de Atlanta havia começado. Uma manhã clara de sol subia sem interrupções, fosse por possíveis nuvens inexistentes no horizonte, fosse por algum vento mais forte que denunciasse a hipotética chegada de chuva.

O dia estava bonito, o clima ameno, e a vida pareceria boa...

...Não fosse o fato de todo o mundo estar completamente de pernas para o ar, com os mortos perseguindo os vivos para se alimentarem de seu sangue viscoso e carne ainda quente.

Assim, em meio aquele ambiente acolhedor e animador contraditório a tudo o que havia por fora do Aquário da Georgia, Noah acompanhava Peggy em uma das tarefas mais desagradáveis e degradantes que haviam a ser cumpridas: a retirada e queima do lixo produzido na semana anterior.

– Meu Deus, isso fede mais do que as meias do meu irmão quando ele voltava dos treinos de futebol! – comentou o garoto, levando o máximo de sacos de lixo que seu corpo franzino e esguio conseguia suportar. Peggy seguia atrás dele, equilibrando em seus braços finos alguns sacos de lixo, cerca de um terço do que o rapaz carregava.

– Pois é, realmente não dá para acostumar – a garota concordou, rindo de leve da colocação do jovem. Seguiu Noah ao longo dos jardins próximos aos portões norte, buscando a concentração de grama mais distante do edifício onde residiam os moradores do Aquário. Ambos juntaram aos poucos o lixo, amontoando os resíduos dentro dos sacos pretos fechados com esmero, em pilhas e pilhas de detritos ensacados.

– Cara, é muito lixo para pouca gente – o rapaz falou, levantando uma sobrancelha, vendo a quantidade de sacos pretos que quase chegavam à altura do rosto de Peggy. Ela tapava o nariz e a boca com a gola de sua blusa sem mangas amarela, e pareceu segurar uma risada nervosa embaixo de todo aquele tecido.

Fomo fofê afuenta o feiro? – perguntou uma Peggy com voz anasalada e boca comprimida por trás de muito tecido de algodão.

– Quem disse que eu estou respirando? – retrucou Noah, revirando os olhos e fingindo que ia desmaiar por falta de ar. A garota segurou mais uma risada e ele mesmo deu um sorriso contido sem mostrar os dentes.

Peggy era a única vantagem de morar no Aquário da Georgia. Rick Grimes havia decepcionado o garoto, resolvendo se submeter às vontades de um líder no mínimo controverso como Jed, aparentemente sem mostrar objeção ao fato de que ele, seus filhos e seu grupo, de certa forma, viviam em um regime parecido com o do Grady Memorial.

Para Noah, aquilo era muito difícil de engolir. Beth, a garota por quem todos daquele grupo tinham certo apreço, alguns mais e outros menos, se sacrificara para que ele saísse vivo das garras de Dawn, de seu autoritarismo e ditadura escravocrata. E Grimes, pelo visto, enfraquecera depois do que ocorrera com a menina loira. Talvez achasse que valeria a pena baixar a cabeça para um homem de conduta duvidosa como Jed para evitar conflitos, e não confrontá-lo e tirar seu grupo de lá.

Assim, se afastara bastante do policial e daqueles que lhe eram mais próximos. De seu próprio grupo, costumava apenas interagir bastante com Tara e com Glenn e Maggie, que se mostraram mais abertos a ele desde o começo de sua estadia junto aos sobreviventes novatos do Aquário da Georgia.

Mesmo com toda a hospitalidade e simpatia do asiático e de sua esposa, Noah não conseguia se sentir inteiramente à vontade na companhia daquelas pessoas. Eram muito novas em seu cotidiano, e, embora o garoto reconhecesse que era gente de valor e, em maioria, pessoas confiáveis... Não conseguia se sentir realmente amigo de todos eles.

Passara por muitos dias de solidão quando Rick decidira que se assentariam no Aquário. Indignado com a mudança de planos do xerife, e ansioso para reencontrar sua família em Richmond, a comunidade onde viviam, Noah sentiu que sua confiança fora traída pelo antigo líder do grupo. Rick Grimes havia prometido-lhe que iriam para Richmond, porque era o que Beth queria e ele faria questão de honrar sua memória. Não foi bem o que Rick fez, afinal de contas.

Noah compreendia que o policial precisava de um local seguro para criar seus filhos, mas o rapaz também tinha parentes vivos para quem voltar.

Ou que, ao menos, persistia em acreditar que ainda estavam vivos.

Fê se fofê pega o fósfofo e afende. – Peggy ainda escondia seu nariz e boca com força contra o tecido de sua blusa, e Noah deu uma risadinha, riscando um fósforo depois que a jovem garota jogou, à distância, uma boa quantidade de álcool para fazer o lixo queimar rapidamente.

– Não conheço esse novo dialeto, depois vê se me ensina – o rapaz implicou, fazendo uma expressão falsamente curiosa para a menina ao seu lado. Peggy deu um empurrão de brincadeira no ombro dele, enquanto ainda fazia uma careta divertida por conta do extremo mau cheiro.

Logo, apenas vigiaram o fogo que começava a se alastrar rapidamente por todos os sacos de lixo. Haviam cercado o local de pedras e outros instrumentos anti-incêndio, para que as chamas não consumissem nada além dos detritos da semana que havia passado.

Foi aí que foram surpreendidos de imediato.

Subitamente, como se ganhasse vida, um saco de lixo passou a se remexer muito. Peggy e Noah deram alguns passos para trás, o garoto se colocando a frente dela por instinto, evitando que algo pudesse atingi-la.

O saco era pequeno demais para conter um morto-vivo, então não fazia ideia do que poderia haver ali. No máximo caberia o tronco de um, mas sem os braços, então como ele poderia estar se movendo daquela forma?

Sua resposta veio em questão de segundos. Fugindo assustado do fogo que consumia todo o lixo ao seu redor, um guaxinim correu a direita de Noah, circundando Peggy. Por um segundo ele iria rir e soltar um suspiro de alívio, pensando em já perguntar para a menina se ela teria ideia de como aquele bicho teria se enfurnado dentro dos sacos de lixo, mas suas surpresas não terminaram ali.

O guaxinim não parecia estar em condições normais. Salivava muito, e soltava guinchos estranhos, cada vez mais agudos, como se estivesse em alguma espécie de frenesi de agressividade e medo.

Estava contaminado pelo vírus da raiva.

– Peggy, corre daí, não chega perto! – Noah falou, puxando-a pela mão para longe do animal contaminado. Porém, a garota não fora rápida o suficiente. Demorara a perceber que o guaxinim havia corrido para perto do seu lado, e que pulara com tudo em sua batata da perna, mordendo-a fundo e quase lhe arrancando um naco de carne.

A garota de cabelos castanhos ondulados passou a gritar de dor e de exasperação no segundo seguinte. Noah puxou a faca que ela guardava na cintura, e, vingativo e rancoroso pelo ataque do animal, pisou com vigor no pescoço do mamífero, forçando-o a se debater debaixo de seu tênis. Em seguida, cravou a faca em seu crânio, como se matasse um morto-vivo perfurando seu cérebro.

De certa forma, o guaxinim estava mesmo contaminado por um vírus muito parecido.

Assim que aferiu a morte do animal, Noah abaixou-se com destreza, rasgando uma parte de sua camisa xadrez e apertando-a em volta da ferida de Peggy, que sangrava muito. Teve um vislumbre da marca dos dentes do mamífero, que perfuraram fundo a perna da garota.

Nervoso, porém determinado, o rapaz pediu a ela que se segurasse em seus braços. Não havia tempo a perder, aquele machucado fundo poderia infeccionar e piorar se Peggy fizesse esforço com aquela perna.

O rapaz seguiu com a menina no colo naquele horário tão cedo, praguejando contra aquela manhã que parecia ter começado tão bem mas apenas lhe fora um engodo.

Depois de andar o mais rápido que pôde sem prejudicar a pessoa que portava, levando a leve Peggy em seus braços até a ala médica do Oceanário de Atlanta, Noah a ajudou a sentar-se em uma das macas, enquanto desandou a procurar Annie Guinness em todos os cômodos do Oceanário. Pediu à menina que não se mexesse, pois voltaria o mais rápido possível com a ajuda da qual ela necessitava.

Encontrou primeiro Glenn e Maggie, que estavam responsáveis por cozinhar o café da manhã para todos os moradores, e lhe informaram que ainda não haviam encontrado a idosa naquele dia. Ao saber do que acontecera, o asiático decidiu acompanhar Noah em sua busca pela médica, sabendo que era uma questão importante.

Depois de acharem uma sonolenta Mavie junto a um sisudo Abraham, passando juntos mais uma leva de concreto no muro do Aquário que o grupo consertava recentemente, a irlandesa lhes avisou que sua avó ainda não estava acordada, pois seus afazeres naquele dia começariam mais tarde. Falou que, se assim quisessem, poderia subir para acordá-la, mas Noah não lhe deu tempo de concretizar o que dissera.

Fora ele mesmo correndo edifício adentro e rampas acima, determinado em tirar a médica de onde quer que ela estivesse para ajudar Peggy.

Glenn desceu para conter o fogo, depois de Noah terminar de lhe explicar em detalhes como o animal atacara Peggy, enquanto o rapaz bateu angustiado na porta dos aposentos de Annie, aguardando que a idosa se arrumasse rápido. Em alguns minutos, ambos desceram, a médica parecendo controlada, como se aquilo não fosse nenhum tipo de situação excepcional.

Ao adentrarem juntos o compartimento hospitalar do Aquário da Georgia, Annie passou a olhar a ferida de Peggy com cuidado, que já estava acompanhada de Mavie e de sua mãe, naquele momento. Em segundos, olhou para Noah com cautela, sua voz cuidadosamente calma.

– Você falou que o animal que a atacou estava salivando muito, com os pelos eriçados, em uma postura de ataque? – perguntou a idosa, apenas para ter certeza.

– Sim – Peggy confirmou antes de Noah. – Nunca vi nenhum bicho assim – ela acrescentou, seus olhos castanhos tão bonitos muito arregalados de medo. Noah teve vontade de abraçá-la e dizer-lhe que tudo ficaria bem, mas precisava se esforçar para prestar atenção em Annie. Confortar Peggy lhe parecia o mais importante, mas seu lado racional sabia que poderia fazer a diferença para ajudar. Já desconfiava do que precisaria ser feito.

– O guaxinim estava contaminado pelo vírus da raiva – Annie falou, limpando os óculos, seus olhos focando-se no olhar determinado de Noah. – O que significa que ela precisa ser vacinada com urgência. O contato da saliva do animal com o sangue dela incide na transmissão do vírus. Se não receber a vacina antes que os sintomas se manifestem, Peggy ficará doente. E não existe tratamento para a raiva – a idosa foi direta ao ponto, fazendo a menina mordida engolir em seco e conter uma exclamação de pânico.

– Então o que você está esperando?! – perguntou Dakota, segurando os ombros da filha, nervosa.

– Não tenho a vacina aqui – Annie Guinness falou, parecendo conter a própria preocupação. – A raiva é transmitida apenas por mamíferos terrestres, e alados. Não por algum animal marinho, como os que cuidamos aqui. O que significa que alguém terá de buscar – ela disse com pesar.

– Não tem problema. Eu vou – Noah prontamente se ofereceu.

– Noah, não... – Peggy ia começar a falar, sua voz parecendo levemente chorosa.

– Um local que estou certa de conter a vacina é o posto de saúde da vizinhança. Próximo à creche onde vocês duas se esconderam antes de serem resgatadas por Haywood e Billy Ray.

Sequestradas. Pensou Noah, mas aquele não era o momento de adentrar naquele assunto.

– Eu sei onde fica – Dakota respondeu, segurando com força os ombros da filha, parecendo tão angustiada quanto ela. Noah ficou incomodado com aquilo; em sua função de mãe, Dakota deveria fingir calma naquele momento, e não piorar o próprio medo da filha deixando transparecer sua clara preocupação.

– Consigo chegar lá em uma hora no máximo – a mulher elegante foi assertiva, olhando para Noah como se esperasse dele algum reforço.

– Vamos então. Estou pronto. – Noah já ia virando as costas, mas Annie o segurou pelo braço com delicadeza. Ele se voltou com raiva para ela, como se qualquer segundo a partir de então pudesse fazer a diferença.

– Fique calmo – a idosa disse, apertando seu braço com suavidade, para relaxá-lo um pouco. – Os sintomas da raiva demoram dias a se manifestar, mas eu concordo que vocês devem mesmo ir a busca da vacina hoje. Agora é o melhor horário, de manhã, com mais claridade – a idosa acresceu. – Mas levem isso por escrito. – Annie buscou papel e caneta, arrancando a folha de um bloquinho com o logo do Aquário da Georgia, um G azul cujo final da letra era um rabo de peixe.

Entregou a folha de papel primeiro a Dakota, e depois para Noah, que a leu:

“Purified Vero Cell Vaccine – PVCV”.

– Você a encontrará descrita pela sigla, ou pelo nome inteiro acompanhado da sigla, nas prateleiras do posto de saúde. Como é uma vacina básica de saúde pública, todos os postos do país são obrigados a apresentá-la – Annie Guinness esclareceu, dando um leve apertão encorajador no ombro direito de Noah.

– Boa sorte, e tomem muito cuidado. Billy e Mavie já exploraram a região uma vez para me trazerem outras vacinas, e está repleta de carniceiros – a idosa os lembrou mansamente, falando em sussurros para Dakota e Noah sem que Peggy pudesse ouvi-la. A garota os encarava, desconfiada.

Dakota foi se despedir da filha, dando-lhe muitos beijos no rosto e um abraço, garantindo que voltaria logo. Avisou a Noah que alertaria Jed da necessidade da missão, e aprontaria um grupo assim que possível para partirem.

Peggy olhou para a silhueta da mãe fechando a porta e saindo em disparada para longe da janela que havia na porta do repartimento médico, seus grandes olhos não mais arregalados de medo, mas com as pálpebras mais abaixadas, revelando tristeza.

– Eu odeio ser sempre um problema para todo mundo – ela confessou, baixo, enquanto Annie entrava na sala anexa a ala hospitalar, o laboratório, buscando remédios para a dor que a menina sentia, depois de ter limpado sua ferida.

– Você é uma retardada – falou Noah, exasperado. Peggy olhou para ele, espantada com aquela reação agressiva.

– O quê você disse? – ela perguntou, incrédula com o que ouvira.

– Que você é doida. Como você pode achar que é sempre um problema para todo mundo? Você acha que é um problema para mim? – o garoto desacreditou, ele mesmo um pouco indignado e culpado por não ter conseguido evitar que ela fosse atacada.

Peggy abaixou o rosto, refreando o olhar. Noah continuou.

– Você é a única coisa que vale a pena para mim. A única que me faz querer continuar aqui. Do seu lado – o rapaz admitiu, em uma declaração aturdida e destrambelhada.

A garota levantou seus grandes olhos castanhos para encará-lo. Seu rosto estava mais vermelho do que os morangos que a menina adorava comer de sobremesa, e que Noah sempre colhia da horta de Annie assim que ficavam prontos para serem servidos, para agradá-la.

– Vai dizer que não sabia? – o rapaz duvidou, sem jeito, sem saber o que falar.

– Eu... – Peggy engoliu em seco, e levantou uma mão trêmula para alcançar a mão do garoto. Noah segurou a mão dela, acariciando-a levemente com seus dedos.

– ...Eu gosto muito de você – Peggy correspondeu-lhe, falando palavras um tanto balbuciadas e desajeitadas, mas aquilo bastou para o jovem rapaz.

Noah puxou-a pelo rosto e deu-lhe um beijo, algo que queria muito fazer desde suas primeiras semanas de estadia no Aquário.

E, depois de quase dois anos preso em um tormento que parecia eterno... Pôde experimentar mais uma vez uma gloriosa sensação de felicidade.

Peggy retribuíra seu beijo, segurando nos ombros dele, tentando se ajeitar ao seu corpo naquela súbita carícia, porém concomitantemente muito desejada por ambos.

Por muitos segundos, os dois pareceram esquecer o que havia acontecido e o que deveria ser feito dali em diante. Foi apenas quando Annie abriu a porta da sala que havia ao lado da ala hospitalar, reservada ao laboratório médico, que Noah voltou a si, afastando-se de Peggy, outra vez tímido e um tanto sem jeito.

– Eu prometo que volto. Não vou demorar. É sério – o garoto garantiu a ela. Peggy segurou em sua mão mais uma vez, dando-lhe um apertão carinhoso que fez o rapaz sentir uma gostosa sensação calorosa espalhar-se por seu corpo. Em seguida, o garoto tirou sua mochila de seus ombros, e lhe entregou algo que sempre carregara consigo, mas tinha vergonha de admitir aos outros por temer parecer infantil.

– Olhe. É a réplica da Millennium Falcon em miniatura – ele falou, esperando que ela reconhecesse a nave emblemática da saga Star Wars. – Peggy abriu os olhos em um olhar arregalado de reconhecimento, com um sorrisinho de admiração. Como não gostar dela? Além de linda, simpática e doce, ainda por cima era nerd. Noah conteve uma risada com seus pensamentos, e continuou.

– Fique com ela até eu voltar. Nunca me separei dela desde que tudo isso começou, porque era uma lembrança do meu irmão gêmeo. Aquele mesmo de quem eu te falei – o garoto disse, com um sorriso reconfortante para a menina de cabelos ondulados. – Você me devolve quando eu retornar, é uma prova que eu com certeza não vou deixar de voltar. – Ele piscou um dos olhos para ela, de brincadeira, sabendo que nunca teria coragem de pedir que a devolvesse. Era um presente.

Deu um sorriso para a menina, enquanto aguardava a resposta que ela diria.

– Eu vou te esperar – Peggy respondeu, simples, direta, mas dizendo tudo o que era necessário. Ela soltou sua mão da mão de Noah, segurando com as duas mãos a nave em miniatura. O garoto saiu daquela sala, sabendo que lá deixava não apenas seu brinquedo preferido de infância, mas também seu coração.

Algum tempo depois, juntos nos portões a oeste do Oceanário de Atlanta, estavam Mavie, Dakota, Glenn e Noah, todos prontos para sair em missão rumo à vacina da raiva. Jed não liberara Haywood nem Billy Ray, julgando que habitantes com maior qualidade de “infiltração” como as duas mulheres, o coreano e o jovem rapaz, por serem mais esguios e esbeltos do que o caipira do Alabama e o homem de meia idade, poderiam entrar rapidamente no posto de saúde e passar despercebidos com mais facilidade. Quanto maior o grupo, mais chamariam a atenção dos mortos-vivos, por isso era importante partirem em um nicho pequeno.

Pegaram um veículo menor do que os caminhões, um 4x4 blindado e fechado, o mais silencioso dos carros que o Aquário tinha a oferecer. Passaram boa parte do início do percurso em silêncio, Dakota dirigindo, Mavie ao seu lado, o arco e as flechas a postos para eliminar qualquer ameaça que se aproximasse do carro, e Noah e Glenn atrás. Receberam um par de pés de cabras e facões cada um, mas ainda assim Jed não permitira que recebessem armas de fogo. Mavie e Dakota os entregariam as pistolas com silenciador apenas quando chegassem ao posto de saúde.

Depois de um longo tempo em silêncio, Mavelle passou a revirar o porta-luvas do carro e falou, com certo deboche:

– Alguém quer ouvir alguma coisa? Música de estrada, talvez? – ela brincou, tentando desanuviar a tensão. Noah ficou primeiramente irritado e indignado com aquilo, mas logo entendeu que era da personalidade da menina agir assim para arrefecer os ânimos. Daryl era geralmente a maior vítima da personalidade daquela garota, ele já reparara.

Dakota não falou nada por muito tempo, atenta ao volante, mas logo disse:

– Seria uma boa ideia. Estou muito nervosa. Coloque algo no rádio para que eu não acabe batendo esse carro em algum lugar – a mãe de Peggy revelou, ajeitando nervosamente o cabelo escuro e ondulado como o da filha. Eram tão parecidas, Noah sempre reparara naquilo.

– O que você tem aí, Mavie? – perguntou Glenn, enquanto Noah ainda ficava em silêncio. Eles iriam mesmo escutar música quando estavam todos tão tensos? O asiático então voltou o rosto para o lado e falou baixo para o rapaz: “relaxe. Estamos quase lá”.

– Não sei. São todos CDs piratas – ela admitiu, rindo nervosamente. Mavelle era muito risonha, e, reparara Noah, também ria quando estava preocupada, como uma forma de extravasar a tensão por outras vias.

– Neste daqui está escrito “Blink 182" – falou Glenn, olhando para um cd que ela o entregara.

– Peggy adora – Dakota respondeu, enquanto Mavie concordava, sorrindo discretamente agora. – Vivia pedindo para você cantar “I Miss You”, não era? – falou a mãe da menina por quem Noah estava apaixonado.

– Então coloquem – o garoto finalmente declarou, fazendo com que Mavelle Berry e Glenn o encarassem.

– Em cerca de quatro músicas de duração de uns cinco minutos, chegaremos – testificou Dakota, tentando acalmar o garoto. Noah percebia que ela ficava muito feliz ao ver que a filha conquistara a afeição do jovem, percebendo seus esforços para estar sempre a apoiando, ao lado dela.

Assim, Mavie colocou no tocador de discos do carro o CD com a coletânea pirata daquela banda. A primeira música que tocou era muito triste, e Noah reconheceu com um átimo de percepção que era a música que levava o nome de seu irmão gêmeo, Adam. Seu outro irmão gêmeo chamava-se Phillip.

Gostava muito da banda, mas não conseguia ouvir àquela música sem ficar triste, pois se tratava da história da morte de um amigo dos membros da banda, que havia se suicidado. O fato de a música ter uma história tão melancólica, e, ainda por cima, relativa a um rapaz que tinha o mesmo nome de seu irmão, sempre mexia com ele.

– Pula essa, por favor – pediu Noah com gentileza. Mavelle olhou para ele, sorrindo, e fez o que foi solicitado.

Depois de ouvirem algumas faixas que o rapaz não gostava tanto, Mavie já começara a cantarolar para si mesma, baixo, tentando relaxar a todos. Glenn batia os dedos em suas pernas no ritmo das músicas, e até Dakota parecia mais calma, lidando melhor com suas emoções.

Ouvindo aquele cd, todos tinham um pouco de Peggy consigo, em uma lembrança dela permanente dentro daquele pequeno disco de músicas.

Com o fim de uma faixa mais calma, justamente “I Miss You”, os acordes de uma música mais animada, assim como uma percussão rebelde passaram a tocar alto.

“I've been here before a few times, and I'm quite aware we're dying… And your hands they shake with goodbyes, and I'll take you back if you'd have me…”

A primeira estrofe de “Always”, da banda Blink 182 ressoava potente pelas caixas de som do carro. Mavie, olhando de esguelha pelo espelho do veículo para Noah e Glenn que já começavam a cantarolar a música, esperou o refrão para aumentar um pouco:

“Come on let me hold you! Touch you! Feel you! Always!”

Mavelle havia girado o volume do rádio e passado a imitar os trejeitos do vocalista com uma verossimilhança incrível, fazendo tanto Dakota quanto Glenn rirem de imediato. A irlandesa cantava fazendo coro à música, propositadamente agindo daquela forma meio ridícula para desinibir todos eles.

Noah sentiu-se muito grato pelo gesto generoso da garota, sabendo o quanto todos estavam preocupados. Ela queria se esforçar para acalmá-los um pouco, do jeito que conseguia fazer.

Em segundos, já estavam todos cantando, soltando o nervosismo em suas vozes dentro do carro:

“Come on let me hold you, touch you, feel you, always! Kiss you, taste you, all night, always!”

E o refrão se repetia, com Dakota cantando em sua voz mais grave, dirigindo de maneira mais segura e fluida, agora que estava levemente mais calma, Mavelle usando de sua voz afinada e potente, ainda agindo bobamente para fazê-los rir um pouco, e Glenn e Noah desafinando juntos e rindo entre o nervosismo e a patetice.

Assim, finalmente chegaram perto do posto de saúde, estacionando na área ampla onde Dakota decidira deixar o carro. Desligaram o som e Dakota girou a chave, também parando o motor do automóvel.

Saíram os quatro, agora novamente em posição de atenção. Mavie e Dakota lhes deram cada um uma pistola simples com silenciador, e seguiram, todos fazendo a retaguarda um do outro, andando pelo enorme estacionamento do que já fora um grande supermercado, ao lado do posto de saúde, que por sua vez também era vizinho à creche onde Dakota uma vez se escondera durante o surto da doença dos mortos-vivos.

O local era cercado por muros altos, o que poderia ser um bom sinal. Porém não ouviram absolutamente nada por perto, o que era incomum e sempre digno de desconfiança e preocupação.

O posto de saúde era um local comprido e com várias áreas abertas em meio à outras fechadas. Tinha um pátio grande, o que significava que uma horda de errantes poderia ter se escondido lá dentro e ainda não se manifestara.

Assim, os quatro seguiram, vigilantes, andando rápido e sem fazer barulho algum. Mavelle, a patrulheira e caçadora mais experiente deles, os guiou pelos corredores estreitos do local até acharem a sala com as vacinas. Noah procurou com avidez o nome do medicamento, procurando-o como se fosse a sua vida que dependesse daquilo, bem como fazia Dakota. Foi o primeiro a achar a vacina, mas estava em um local alto demais que seus braços não alcançavam.

Glenn não perdeu tempo e logo puxou o frasco com a descrição da vacina, guardando-o junto a alguns com o mesmo nome em sua mochila. Deu outros para Mavie e Dakota, caso alguns deles perdessem a bolsa na volta para o Aquário da Georgia, e o resto dos frascos entregou a Noah.

Quando todos haviam guardado as vacinas com cuidado, decidiram sair por fora, contornando os muros. Repararam que não havia sinal algum de errantes desde o local onde pararam o carro até o posto de saúde, então estavam seguros ao sair pelos muros dos fundos.

Ledo engano.

Onde havia uma espécie de sala enorme, com um letreiro escrito “Emergência” do posto de saúde, duas portas de empurrar começaram a balançar freneticamente.

Eles ouviram os ruídos antes de saber o que eram.

– Horda! – advertiu nervosa Dakota, um pouco alto demais para a própria segurança de todos. No segundo seguinte, cerca de cinco dezenas de mortos-vivos corriam em disparada na direção dos quatro, que já haviam dado meia volta e retornado pelo caminho de onde partiram.

Mavie conseguiu a solução junto a Glenn.

– Vocês viram o alçapão que tinha na sala de vacinas? – Mavelle perguntou, atirando com seu arco e flecha em vários mortos-vivos que ameaçavam chegar muito perto deles. Glenn, um ótimo atirador, também já havia derrubado vários a tiros precisos, mas eram muitos. Dakota, nervosa, errara muitas balas, e já estava sem munição. Noah não tinha muita prática naquilo, então quase tropeçou por conta de sua perna machucada que Annie ainda estava tratando, quando se ferira em fuga junto a seu pai antes de chegar a Richmond. Errou alguns tiros e acertou outros, correndo tropegamente, tentando não se afastar do grupo mais experiente do que ele era.

– Sim! – Glenn respondeu, rápido. – Se eu te lançar até lá, você acha que consegue puxar a portinhola pendente do teto? – ele sugeriu, esbaforido, enquanto Mavie anuía com a cabeça. Ambos retrocederam um pouco, dando cobertura a Noah e Dakota, que estavam claramente com mais dificuldades naquele momento crucial de vida ou morte.

Assim que entraram pela porta que levava a sala de depósito, Noah e Dakota passaram a empurrar todas as prateleiras contra a porta, derrubando tudo que ali havia, conseguindo colocar apenas uma dela, que não estava bem pregada, contra a superfície de madeira. Aquilo não aguentaria muito tempo.

Mavie, rápida como um felino, pulou para os braços de Glenn que a segurou pela cintura e a lançou para cima, na direção da portinhola. O teto era alto, e por muito pouco Mavelle não teria conseguido alcançar o alçapão. Os errantes já estavam na porta, empurrando-a com toda a força do peso de seus corpos deteriorados.

A garota irlandesa forçou seu peso para baixo, suas mãos se fechando firmes na portinhola, abaixando-a com agilidade. Em um segundo, Glenn segurou suas pernas, impulsionando-a mais alto ainda, e Mavie saiu pelo teto. Estava salva.

– Venham, eu ajudo vocês, depois vocês me puxam! – o asiático falou, temeroso, enquanto Dakota quase voava na direção dele, sendo rapidamente levantada por ele, e amparada pelos braços de Mavie Berry, que a puxou para fora do alçapão. Noah soltou um suspiro de alívio, vendo que a mãe de Peggy estava salva.

No mesmo instante, a porta cedeu. Glenn estava debaixo do alçapão, Mavie dependurada para fora, seus braços esperando para que ele saltasse e pudesse puxá-lo.

Tudo aconteceu rápido demais.

Em um segundo, Noah errou um tiro, que explodiu um frasco de uma prateleira longínqua, passando de raspão nos cabelos compridos de um morto-vivo que avançava faminto para si. Teve apenas tempo de voltar-se para Glenn e falar:

– PULA! O QUE VOCÊ ESTÁ ESPERANDO?! – O errante mais próximo cravou a boca na jugular de Noah, suas unhas compridas puxando o rosto do garoto para trás, rasgando sua bochecha.

O jovem rapaz julgou que sua cabeça racharia em duas de tanta dor que sentira. A mordida do errante trazia-lhe uma aflição aguda, nada natural, sentindo aqueles dentes humanos refestelando-se com sua carne, sangue, músculos.

– GLENN! PULA! – Mavie implorou, assim que um errante quase aproveitara a distração do asiático. Muito rapidamente, Glenn se lançou para cima, subindo em cima de uma prateleira revirada para lhe dar mais impulso. A irlandesa puxou-o pelos braços, enquanto o marido de Maggie chutava o rosto de um errante que tentava puxá-lo por uma de suas pernas.

A sala já estava repleta deles. Mordiam os braços, mãos, pernas, tronco, todo o corpo de Noah. A dor era tão intensa, tão exorbitante, que o rapaz mal a sentia, mal ouvia seus próprios gritos de pavor e aflição. Não tinha mais percepção de seus sentidos, não sentia mais o cheiro de podridão de algo que já fora humano, dos errantes, muito pior do que o lixo que queimara junto a Peggy de manhã.

Ao invés de ver os rostos dos errantes, Noah apenas viu o rosto de Glenn, pelo alçapão, e seus ombros sendo puxados para longe por Mavelle. Ele parecia estar chorando, seu rosto em choque pelo destino do garoto.

Noah parara de gritar agora. Não sentia mais nada. Tinha uma leve percepção de que seu corpo estava sendo devorado, mas algo o atingira no pescoço e ele não conseguia mais respirar. Julgou ter visto pelo canto dos olhos as penas de uma flecha.

O garoto fechou os olhos, e naquele mundo não viu mais nada.

Mas sua visão apenas se ampliou.

Para outro lugar.

Viu seu pai, sua mãe, seus irmãos Adam e Phillip, e Richmond, a comunidade próspera para a qual sabia que voltaria um dia. Viu a casa em que moravam, e viu seu quarto. Não sentia mais dor, não queria mais gritar, nem chorar.

Não havia mais sofrimento.

Tudo estava bem.

Sentada em sua cama, ela estava lá. Com seus cabelos ondulados em seus ombros, sua blusa amarela. E sua Millennium Falcon no colo. Com um sorriso lindo no rosto, e seus olhos grandes brilhando de alegria.

– Eu falei que iria voltar – Noah disse, por fim, e foi sorrindo, finalmente feliz, finalmente tranquilo, finalmente em paz... Ficar ao lado de Peggy.

I never conquered, rarely came

16 just held such better days

Days when I still felt alive

We couldn't wait to get outside

The world was wide, too late to try

The tour was over, we'd survived

I couldn't wait till I got home

To pass the time in my room alone

I never thought I'd die alone

Another six months, I'll be unknown

Give all my things to all my friends

You'll never step foot in my room again

You'll close it off, board it up

Remember the time that I spilled the cup

Of apple juice in the hall?

Please, tell mom this is not her fault...

Blink 182 – Adam’s Song

Notas finais
~ No gif: bye bye, Noah. RIP. You'll be missed. :'( Aguardo reviews! =D