Hunter's Instinct
14 Episódio 14 - Titanium
Notas iniciais
...I'm bulletproof, nothing to lose
Fire away, fire away
Ricochets, you take your aim
Fire away, fire away
You shoot me down, but I won't fall
I am titanium
You shoot me down, but I won't fall
I am titanium...
David Guetta (Feat. Sia) – Titanium
– Mamãe. – Ela ouviu os sussurros de sua filha baixos em seus ouvidos. – Mamãe, está perto do Natal – a garota insistia. – Vamos sair e colher nozes-pecãs! – A voz aguda e fina de sua filha parecia animada, mal se contendo de alegria pelo dia que já planejara ao lado de sua mãe.
– Mamãe está com sono. Deite aqui, espere só mais um pouquinho – ela respondeu, piscando os olhos e vendo o rosto doce de sua filha encarando-a com empolgação.
– Mas você prometeu, mãe. Você prometeeeu – a garota repisou, sua voz doce convencendo-a a se levantar. A filha abraçou a mãe, escondendo o rosto abaixo de seu pescoço. Era impossível dizer não para tanto dengo e carinho.
A mulher fez menção de se levantar, acariciando os cabelos da filha, abraçando-a de volta e dando uma risadinha. Vou acabar deixando-a muito mimada, desse jeito.
– Vamos, Sophia. – Carol Peletier ergueu de leve o corpo. – E quero ver você comer todas as nozes que colhermos hoje, hein? Nada de ficar enjoada – a mãe alertou à filha.
Ela se levantou, sentando-se na cama, e a menina também.
Subitamente, a companhia que estava em seu leito havia mudado. Não era mais apenas sua filha que estava sentada consigo, olhando-a com amor.
À frente de Carol Peletier, além de Sophia... Lizzie e Mika a olhavam, piscando seus meigos olhos infantis, esperando alguma reação da mulher de cabelos grisalhos, uma de cada lado de sua filha.
– Você prometeu – as duas meninas disseram com doçura, em uníssono com Sophia.
Carol acordou em sobressalto, soltando uma exclamação de angústia.
Puxou o ar, enchendo seus pulmões de oxigênio, arfando. A mulher de cabelos grisalhos, arregalando os olhos, olhou ao redor, por demais abalada emocionalmente para conseguir raciocinar por longos segundos.
As imagens claras de sua filha, Mika e Lizzie não pareciam querer sair de sua mente. Figuras impressas, incapazes de serem apagadas... Incapazes de não serem recordadas.
Aos poucos, Carol repetiu para si mesma que estava no Oceanário de Atlanta, que aqueles eram seus novos aposentos e não sua antiga casa onde morava com sua filha, e que tudo não passara de um sonho.
Apenas um sonho.
Pois Sophia se fora deste mundo, para nunca mais voltar. Não havia outra maneira de revê-la, além de suas lembranças, tão dolorosas que subjugavam toda e qualquer forma de sofrimento que a vida poderia lhe incutir dali em diante.
Carol não tinha medo de nada.
Pois já não tinha nada a perder.
Logo, depois de desanuviar seus pensamentos aflitivos, a mulher de cabelos grisalhos levantou-se de sua cama do Aquário da Georgia. Foi rapidamente despindo-se das roupas que usara para dormir e vestindo-se outra vez com roupas adequadas ao dia que começaria.
“Você prometeu.”
As vozes de Sophia, Lizzie e Mika ressoaram em seus ouvidos, como um sopro de vento que invade um quarto sem aviso.
Carol engoliu em seco, passou a mão por seu pescoço, e abriu a porta de seus aposentos.
Olhando em um relógio que havia no corredor do alojamento daquele andar, com quartos reservados aos novatos, a mulher reparou que ainda estava muito cedo. Cerca de quatro horas da manhã.
Mas não ousaria voltar a adormecer.
Não. Ela pensou consigo mesma. Não ceda a isso. Carol se fortaleceu internamente, respirando devagar e fechando os olhos. Os rostos das três meninas, assim que fechou as pálpebras, surgiram-lhe a mente tão vívidos como se estivessem paradas defronte a ela em realidade.
A mulher de cabelos curtos insistiu na tentativa de se acalmar, controlando a respiração, sem abrir os olhos por algum tempo.
Eu sei que prometi.
Eu sei.
Carol abriu os olhos devagar, parada recostada em uma das paredes do corredor do Aquário.
Julgou ter escutado um barulho diferente, mas por ter sido um ruído baixo e indistinto, não dera atenção.
Foi aí que se surpreendeu com a visão de Jed, parado metros ao lado dela.
– Ah meu Deus! – a mulher exclamou baixo, cobrindo a boca com as mãos em seguida.
Jed sorriu, parecendo contrito. – Desculpe-me se a assustei – o homem rapidamente disse.
– É só que está muito cedo – o idoso continuou. – Não esperaria encontrar companhia antes mesmo de o dia começar – ele falou daquela forma simpática ensaiada que Carol já estava até acostumada.
Afinal de contas, era ela, dentre todos os membros do grupo de Rick, que lidava melhor com aquela falsidade toda. Tinha sangue-frio e astúcia o suficiente, qualidades moldadas ao longo do tempo e das experiências diversas que vivenciara.
A vida a ensinara a ser assim.
Como ele me encontrou tão rápido? Demorei apenas alguns segundos fora do meu quarto. Isso não faz muito sentido. Refletiu ela, com argúcia. Mas obviamente não revelaria tais pensamentos ao líder dos habitantes do Oceanário de Atlanta.
– Tive problemas para dormir – comentou ela, de forma casual, dando-lhe um sorriso polido em resposta.
– Se estiver com algum problema acerca do assunto, procure Annie. Ela pode lhe receitar algo. Uma das vantagens de vivermos neste local é que o que não falta aqui certamente são remédios – Jed mencionou a ampla gama de derivados hospitalares e medicinais que o Oceanário dispunha, a maioria compostos usados para servir aos verdadeiros antigos habitantes do Aquário da Georgia: os animais que ali viviam.
– Acho que ela tem boas doses de clonazepam e derivados – reiterou o idoso sardento, abrindo um sorriso ainda mais amplo para Carol. Ela manteve seu sorriso educado, de lábios fechados.
– E você está acordado tão cedo por quê? – perguntou ela, com gentileza.
– Há ônus e bônus em ser o líder de um local deste tamanho. Não posso dormir muito... Minha vigilância constante evita que as coisas saiam de seus devidos lugares. Evita bagunça. Caos – brincou Jed, como se não falasse sério, mas Carol percebia astutamente que havia mais verdade naquelas palavras do que ele gostaria de mostrar de fato.
– Bem, certamente não há maiores ameaças a essa hora do dia... Talvez, no máximo, algum peixe que enfartou antes do tempo – retrucou Carol Peletier no mesmo tom de brincadeira.
– Detesto quando isso acontece. Se demorar demais para percebermos, outros predadores mais espertos do que nós acabam por comer o que poderia ser nossa fritada do almoço – o idoso falou jocoso.
– É realmente algo lamentável – Carol revidou, solícita.
– De qualquer forma, eu lhe recomendaria que tentasse descansar mais. Amanhã nosso caçadores sairão em mais uma missão em busca de suprimentos, por conta do... Número elevado, digamos, dos últimos dias. Imagino que perceba que tivemos mais gastos com a alimentação do que nunca – falou com formalidade Jed. Referia-se aos dias que Elliot e Orlando, os infiltrados, passaram com o grupo do Aquário. Julgados indignos de confiança e finalmente mostrando ao que vieram, ambos receberam castigos terríveis pelo mal que fizeram.
Mas mal sabia o idoso que Carol, também, era provavelmente a membra mais traiçoeira a viver debaixo daquele teto. Não para com seu grupo, aqueles que já salvara várias vezes e quase dera sua vida pela vida deles... Mas para os desconhecidos que a sequestraram e subjugaram seus amigos.
Jed era um exímio farsante.
Mas Carol era também.
– Eu compreendo – ela respondeu, afirmando com a cabeça.
– Logo, Carol, querida... – disse ele com carinho fingido, mas tão bem simulado que alguém mais inocente do que ela poderia se deixar enganar.
– ...Eu lhe sugeriria tentar dormir mais um pouco. Annie está adormecida agora, outrossim lhe daria o conselho de procurá-la para conseguir meios que a permitam dormir melhor. Contudo é melhor tentar descansar, ainda que não durma, pois o dia será cheio amanhã. Com falta de todos os membros presentes, teremos que dividir outra vez as tarefas antes planejadas – o homem idoso recomendou, e deu-lhe as costas com um sorriso de despedida e um aceno amigável com as mãos.
Fazia cerca de uma semana desde o horrível incidente em que Tyreese morrera, Mavelle Berry fora abusada sexualmente e sofrera tentativa de estupro, e Carl e Annie tiveram suas vidas penduradas por um fio. Se não fosse a interferência fria, racional e irreparável de Jed e seus aliados do Oceanário, provavelmente todos os quatro mencionados estariam mortos, além de Elliot e Orlando.
E talvez até mesmo Daryl e Rick tivessem sofrido destinos parecidos.
Após a morte do homem que, apesar de tudo o que fizera contra ele, virara amigo de Carol, o grupo da mulher de cabelos grisalhos reagira da forma como ela imaginara. As coisas já estavam muito ruins desde que todos perderam Beth no hospital Grady Memorial.
Mas tudo piorara consideravelmente com a morte de Tyreese.
As duas últimas baixas do grupo foram justamente de pessoas bondosas, honestas, amorosas, e, infelizmente, limitadas e ingênuas demais para sobreviver no mundo anárquico e selvagem que era a realidade de todos após a infecção dos errantes.
Sem regras, sem leis, com a morte à espreita em cada esquina, escondendo-se tanto na figura pútrida dos mortos-vivos que vagavam pelo mundo, quanto no verdadeiro e mais letal perigo... A capacidade cruel provida pela mente humana, pessoas de essência tão boa quanto Beth e Tyreese estavam fadas a morrer, mais cedo ou mais tarde.
Tendendo sempre ao “mais cedo”.
Assim, após a perda do irmão de Sasha, o grupo parecia ainda mais desestabilizado, somado ao luto recente da perda de Beth Greene. Até mesmo indivíduos mais distantes do grupo formado de início, como Rosita, Abraham, Eugene, Padre Gabriel, Tara e Noah estavam reagindo com tristeza e melancolia.
Os seis, um tanto mais afastados do grupo original, se recolhiam aos seus próprios nichos, em maioria. Tara parecia agora mais próxima de Rosita, além de Glenn, de Maggie e de Mavelle, enquanto Padre Gabriel, fechado em sua religião, com o apoio de Dakota e sua filha, sentia-se mais a vontade de se aproximar do grupo de Grimes. Tentara interagir com Maggie, sugerindo que, se precisasse conversar sobre a perda de Beth, falasse com ele, e foi rechaçado em poucas e cortantes palavras.
Abraham, ensimesmado, não costumava dizer palavra ao grupo de Rick, passando mais tempo sozinho bebendo ou ao lado de Rosita, quando não estava ocupado com as atividades propostas pelos membros no comando, os habitantes iniciais do Aquário da Georgia.
Eugene, próximo de Buck, o biólogo do Oceanário de Atlanta, parecia evitar lidar com as perdas recentes, fechando-se com o novo amigo em seus estudos científicos, ocupando-se totalmente com as tarefas ligadas ao conhecimento de física, química e biologia no Aquário. Provavelmente tinha medo demais de lidar com o que viviam, e com a total falta de rumo que permeava o grupo de Carol Peletier por inteiro.
Noah pouco a pouco ficava amigo da garota adolescente do Oceanário, o que Carol considerava conveniente, tendo em vista que eram, junto a Carl, os mais jovens daquele grupo, sem contar com a filha bebê de Rick Grimes. O filho de Rick, por sua vez, continuava um tanto reservado, ainda mais depois das últimas demonstrações de crueldade por parte de seu pai.
Ele vai se adaptar. Ele é filho do pai dele. Pensava Carol Peletier, assertiva.
Mas as duas pessoas que de fato preocupavam Carol não eram o garoto filho de Rick Grimes. Mas sim Maggie e Sasha, que não pareciam sequer de fato reagir aos últimos acontecimentos. Apenas responder, cada uma de sua forma desordenada.
Sasha, pela perda muito recente de Tyreese, parecia estar com raiva de tudo e todos. Presa em sua própria mente e pesar, o Oceanário de Atlanta teve de evitar que ela desempenhasse funções que antes era excelente, como a patrulha do perímetro, pois tentava descontar sua frustração e agonia pela morte do irmão nos errantes, arriscando-se muito mais do que deveria, e, por vezes, ameaçando também a vida de quem estivesse junto a ela. Isso apenas pareceu acrescentar ainda mais ódio e ira ao seu sofrimento, fazendo-a se fechar por completo e evitar a companhia de qualquer um.
Apenas Maggie parecia conseguir se aproximar dela, por razões claras... Ambas sofreram perdas muito parecidas.
Há quase dois meses de luto pela morte de sua irmã mais nova, Maggie Greene desde então adotara um comportamento fechado, recluso, letárgico quase. Apenas seu marido era capaz de fazê-la tentar superar e encarregar-se de algo para ser útil tanto ao grupo quanto a si mesma. Glenn, e também Mavelle, que, Carol tinha certeza, lembrava muito a Greene de sua irmãzinha.
Em um dia bom, semanas atrás, a jovem irlandesa neta de Annie Guinness convencera alguns dos habitantes do Aquário da Georgia, novatos e veteranos misturando-se em meio a atividade que propusera, a sentarem em uma roda de violão. Celebrar o momento era algo importante, Carol sabia, e poderia elevar os ânimos de quem precisasse desse tipo de incentivo.
Para a surpresa da mulher de cabelos curtos, até mesmo Daryl Dixon, seu grande amigo, se unira a eles. Aquilo era no mínimo avesso à personalidade quieta e arisca do caçador arqueiro, o que fizera Carol sentir-se muito divertida, e, por um lado, aliviada.
Daryl, assim como Maggie e Sasha, estava na lista dos membros de seu grupo que estavam mais abalados com os últimos acontecimentos de completa tristeza.
Carol sabia o quanto o arqueiro era sensível, apesar do exterior inabalável que ele se esforçava para manter, com suas feições sempre sérias e intransigentes. Dixon fingia-se duro como uma rocha, inabalável, porém em verdade era um dos membros mais bondosos e amorosos daquele grupo. Mas com as habilidades necessárias para sobreviver.
Apesar de maltratado pela vida e de toda a força que tinha – tanto psíquica quanto física –, Daryl Dixon tinha o emocional frágil, era afetivo, uma das pessoas de melhor coração que Carol Peletier veio a conhecer em vida.
E era por isso que vê-lo assim, tão triste, embora fingisse que não estivesse... Machucava-a por dentro também.
O resto do grupo de Carol também parecia afetado, mas nada em comparação a Sasha, Maggie e Daryl. Ela aproveitaria aquele dia para cumprir uma promessa que não conseguira cumprir.
Se não pudera proteger Sophia, nem Lizzie, nem Mika... Ela faria o seu melhor para ajudar seu amigo.
Assim, o dia se passou sem grandes ocorrências. Cada qual cumpriu suas específicas tarefas escolhidas por Jed, o líder do Aquário, e repassadas pelos veteranos que lá moravam, e Carol esperou o momento propício para conversar com seu amigo, antes que ele fosse enviado junto aos restantes caçadores em missão externa ao terreno do Oceanário.
Quando Dixon estava em um intervalo entre a finalização do conserto do muro do Aquário da Geórgia, tarefa que Carol o ajudara e demandara uma grande dose de trabalho, e a limpeza de um filtro de um tanque de peixes do terceiro andar, a mulher se aproximou dele, assim que ele lhe permitiu ter a oportunidade de fazê-lo.
– Vou procurar um pouco d’água – disse o caçador, saindo dos jardins externos que cresciam ao longo daquela parte do muro, e indo em direção ao edifício do Aquário.
– Vou com você – Carol comunicou, despojada.
– Não precisa – o arqueiro retrucou, em poucas palavras. Estava mais arredio do que nunca depois de tudo.
– E por acaso eu pedi permissão? – a mulher de cabelos grisalhos brincou de volta, e seguiu-o.
Ao enfim alcançarem as cozinhas do Aquário, se viram sozinhos, e ela se sentiu a vontade para falar com sinceridade, vendo-o com as defesas um pouco mais baixas.
– Sabe... Eu acho que ela me salvou – começou a mulher, mencionando Beth Greene. Sabia que Daryl entenderia. A um olhar significativo que ele lhe deu, a amiga percebeu o quanto aquilo ainda o machucava profundamente.
– E acho que ela salvou você também – ela acrescentou, com sensibilidade. Carol aproximou-se alguns passos de Daryl, e buscou algo que escondia dentro de seu casaco.
– Isso era dela. – A mulher de cabelos curtos estendeu a faca que antes era de Beth, embalada em seu dispositivo para guardá-la. – Annie me devolveu a lâmina tem alguns dias. Já confia em mim, aparentemente – ela falou baixo.
Daryl Dixon encarou a mão de Carol que portava a faca por algum tempo, e, devagar, moveu a sua para retirar a lâmina das mãos dela. Guardou-a consigo, escondendo-a dentro da jaqueta que usava naquele dia. Fazia frio.
– Eu conheço você – Carol Peletier continuou, levantando as sobrancelhas, empática ao sofrimento do amigo. – Eu te conheço. Eu sou diferente, eu não... – Carol lembrou-se do sonho que tivera, as imagens de Sophia, Lizzie e Mika lhe encarando com amor, esperando por ela.
– ...Eu não posso me deixar sentir – a amiga do caçador assumiu, séria, sabendo que ele compreenderia o que ela queria dizer. – Mas você sim. Você precisa. – A mulher se aproximou dele, segurando seu rosto com delicadeza. A expressão de Daryl lhe despertava compaixão profunda, e ela levantou-se um pouco para beijar-lhe a testa.
Nunca fizera um gesto tão íntimo e fraternal para seu amigo, mas sabia que ele precisava muito de todo aquele apoio. Estava destruído por dentro, e ela não permitiria que ele sofresse sozinho.
– Você precisa botar para fora – Carol Peletier aconselhou o amigo, segurando um de seus braços com carinho, e, por fim, dando-lhe as costas.
Com o incentivo que lhe dera, ela esperava, Daryl Dixon recobraria suas forças. Saberia que sempre poderia contar com ela, e que não estava sozinho, mesmo tendo perdido tantas pessoas que amava.
Ainda haviam, vivos, pessoas que amavam-no também.
Ela lembrou-se do olhar divertido que dera a ele quando o percebera indo para a rodinha de violão que Mavelle Berry promovera naquele dia, o último dia alegre que todos tiveram para celebrar.
Daryl encarara Carol de volta com o olhar quase como o de uma criança, de um garoto emburrado que percebe que não estava enganando ninguém.
Carol sorriu com a lembrança. Ele sabia porque ela debochara dele, naquele dia.
Talvez o arqueiro encontrasse consolo e apoio não apenas em Carol, ou em Rick, ou Maggie, ou Michonne...
...Talvez fosse Mavie quem mais fosse confortá-lo de agora em diante.
*****
Naquela tarde, percebendo os ânimos desanimados de todos, Rick achou justo chamar o que poderia ser considerado como uma “reunião de cúpula”.
Como na época da prisão havia o “conselho” do grupo, que consistia especialmente nas opiniões de Carol, Rick, Daryl e do saudoso e querido Hershel, agora, no Aquário da Georgia, os membros que estavam de fato a par dos planos e movimentos do grupo de Carol Peletier eram, além dela: Rick, Daryl, Maggie, Glenn e Michonne.
Os seis, sentados em uma sala do último andar do Aquário, após cada um conseguir um horário vago dentro de suas tarefas, reuniram-se para uma conversa sobre a última ameaça de Jed – quando sugerira implicitamente que Rick e os outros poderiam ter seu fim aos tubarões, assim como Elliot, caso não andassem na linha -, e relembrar e formular os próximos movimentos.
Maggie, de luto e abalada, parecia ainda mais desolada do que de costume. Mantivera-se silenciosa por muito tempo, sem falar e dar sugestões mesmo que Glenn insistisse para tanto. Por fim, seu marido disse, sem mais conseguir se conter:
– Maggie, se você não vai falar para eles, eu vou ter de falar – o asiático articulou, sério, segurando as mãos de sua mulher.
A Greene não respondeu, apenas fez um meneio de cabeça, como se lhe desse licença para tanto.
Glenn suspirou, e limpou a garganta:
– Maggie está grávida.
Os seis se entreolharam, de imediato. Rick, austero, encarou a Greene devagar, como se ponderasse algo secreto em sua mente. Glenn passou os olhos pelo rosto de todos, enquanto Daryl apenas olhava para o asiático com seus olhos estreitos levemente surpresos. Michonne, entre uma sensação de incredulidade e confusão, parecia não saber como reagir.
– Meus parabéns – Carol teve de ser a primeira a dizer, dando um leve tapinha nos ombros de Glenn e segurando com doçura o braço de Maggie. Ela apenas deu um sorriso forçado, e seu companheiro agradeceu.
– Vocês têm certeza? – perguntou Michonne, para depois continuar. – E, sim, parabéns – ela acrescentou. Pareceu sentir-se na necessidade de dizer isso. Carol já reparara que ela não parecia reagir muito bem quando o assunto eram bebês.
– Nós... Hã... – disse Glenn, tentando encontrar as palavras. – Nós não sabemos o quanto isso pode afetar vocês ou não. Ninguém além de nós dois e da médica sabe. Mas não podemos ter certeza se ela mentiu para nós ou não, quando prometeu que não contaria a Jed nem a ninguém até que Maggie desse permissão. Não queremos contar para o resto do grupo ainda – esclareceu o rapaz de descendência asiática.
– Nós vamos contornar isso – respondeu Rick, com assertividade. – Não se preocupem – ele garantiu, encarando Maggie com cuidado. – Acho que talvez fosse melhor adiarmos essa conversa. Com essa nova notícia e Daryl tendo de sair daqui a pouco, acho que não conseguiremos chegar a conclusão nenhuma – o homem falou com razão.
– Contornar? – perguntou Maggie, agora incrédula. Finalmente reagira, e parecia estar com raiva. – Contornar como, como fizemos com Beth? Tyreese?
– Com Lori? – ela retrucou, sabendo que aquilo afetaria o líder de seu antigo grupo, e Rick piscou os olhos devagar. Carol ficou um pouco aflita. Aquilo poderia trazer problemas ao grupo.
E ao plano.
– Não foi isso que eu quis dizer. Você vai estar segura, Maggie – o homem testificou. Daryl encarava ambos e o resto do grupo, atento a qualquer movimento em falso. Brigar agora seria a pior coisa que poderiam fazer.
– Vamos cuidar de todos nós. Cada um de nós cuidará do outro. Seu bebê estará seguro. Você estará segura, assim como Glenn – declarou o policial.
– Como você pode ousar dizer isso? – Maggie revidou, incrédula. – Nós nunca estamos seguros. Meu pai nunca esteve seguro. Minha irmã nunca esteve segura. Meu filho não está seguro nem dentro da minha barriga! – Ela aumentou o tom de voz, e Glenn a segurou e pediu que falasse baixo.
Daryl e Carol encararam a porta. O arqueiro se levantou e foi até ela para verificar se realmente não havia ninguém por perto. Algum indesejado ouvindo aquilo seria um problema e tanto para se lidar.
O caçador voltou, avisando a todos com um gesto de cabeça que não havia ninguém por perto. Maggie, mais controlada, passou a ouvir o que Rick tinha a dizer.
– Sabem... No começo de tudo isso, eu costumava ter pena das crianças que vão crescer nesse mundo agora. E ter de lidar com tudo isso. Eu teria, em outros tempos, muita pena de seu bebê. Da minha filha. De Carl – Grimes iniciou a conversa.
– Isso não é o mundo – disse Michonne, que ultimamente se recusava a acreditar que a infecção fosse algo inescapável.
– Pode ser que seja – Glenn recalcitrou, sério. Ambos se encararam, e Rick Grimes continuou.
– Entretanto, eu realmente acho que para eles é mais fácil. Eles se acostumam mais rápido do que nós. É muito mais difícil para nós, que sabemos como tudo já foi... Antes – o policial retornou a fala, olhando fixamente para Maggie, que o escutava ainda descrente.
– Quando eu era pequeno, costumava perguntar ao meu avô, que lutara pelo nosso país na Segunda Guerra Mundial, se ele matara alemães. Ele desconversava, dizendo que isso não era conversa apropriada para crianças. Depois, eu resolvi mudar de tática: perguntei se os alemães já tinham tentado matá-lo – Rick falou, muito sério. Todos o escutavam com atenção.
– Meu avô continuava silencioso, e não respondia. Até um dia que ele respondeu. E me disse que, todos os dias que acordava, durante a guerra, ele sentia como se já estivesse morto. Ele falava para si mesmo: “descanse em paz. E agora levante, e vá lutar” – Rick Grimes disse, e apenas sua voz baixa era escutada naquele recinto.
– Ele dizia isso para si mesmo até o dia que a guerra acabou, e ele voltou para os EUA. E então ele voltou a viver – Rick finalizou a lembrança, mas continuou a falar. – E é assim que nós nos sentimos. Como se não vivêssemos. Como se estivéssemos mortos. Mas nós vamos fazer o que temos de fazer, e sobreviveremos para lutar mais um dia – o policial definiu com severidade, e Carol sentiu um arrepio pela profundidade do significado daquelas palavras.
– Pois é assim que nós sobrevivemos – Rick pareceu finalizar. – Nós vamos agir como precisarmos agir e fazer tudo o que tiver de ser feito, para, depois, vivermos. – O homem deu uma pausa, e enfim de fato finalizou.
– Porque nós somos os mortos errantes – Rick Grimes concluiu, e ninguém falou nada por muito tempo. A precisão daquela analogia, e a verdade contida em cada uma daquelas palavras era algo que se aplicava provavelmente a todos eles.
Ao lado de Carol Peletier, subitamente, Daryl Dixon se levantou. O arqueiro encarou o amigo que acabara seu discurso, piscou os olhos, e falou.
– Tenho de ir. Já está na hora da caçada. – Daryl deu as costas para o grupo, abrindo a porta e a fechando. Ele não dissera nada, mas Carol reparara, e Rick provavelmente também, que ele parecia discordar das palavras do amigo.
Não havia mais nada a ser dito depois daquilo. Pouco a pouco, Glenn e Maggie se levantaram, e Michonne também os deixou. Rick, ainda sentado, ensimesmado, parecia concatenar algo em seus pensamentos. Carol iria embora, mas aferiu que talvez fosse melhor fazer-lhe companhia.
– Belas palavras – Carol elogiou Rick, que continuou em silêncio. – Não se preocupe. Eles vão atender ao que planejar – a mulher de cabelos curtos deu segurança ao amigo.
– Agora teremos de ser ainda mais cuidadosos... – refletiu o policial, sério.
– Nada que seja impossível – ela manteve a certeza.
Rick a encarou por algum tempo, ambos sentados lado a lado.
– Você é a mais forte de todos nós – o homem não perguntou, falou em um tom de sentença.
– Eu preferiria não ser – respondeu ela, com tristeza na voz. De Rick, não precisava esconder sua dor. Ele estava lidando bem com tudo aquilo. Carol passou as mãos nos joelhos, em sua calça jeans, desviando o olhar.
– O que você sofreu... – começou ele, querendo mostrar apoio.
– Não precisa – a mulher o cortou, antes que ele iniciasse uma fala de consolação. Rick calou-se, aguardando se ela diria algo.
– Eu só consigo fazer o que faço... Lidar com o que lido, e enfrentar tudo o que enfrento, dessa forma... Porque eu já não tenho mais nada a perder. Eu perdi tudo o que me importava, Rick. Tudo o que realmente me importava. – Lembrou-se mais uma vez dos rostos de suas meninas, e algumas lágrimas quiseram se formar no canto de seus olhos.
– Você não perdeu, Carol – tentou consolá-la Rick, mas ela lhe fez um meneio de cabeça. Ambos se encaravam profundamente.
– Você sabe o que eu quero dizer. Graças a Deus, Rick... Graças a Deus você não sabe o que é a dor de perder um filho. – Carol segurou levemente o braço do amigo. – Depois desse sofrimento, eu sei que não haverá nada que me atingirá mais do que isso – ela sabia que não falava nada além da mais pura verdade, algo que já não fazia há um bom tempo.
– Eu realmente sinto muito – seu amigo respondeu, segurando uma de suas mãos. Carol colocou sua outra mão acima da dele, e a apertou. Conseguira controlar o choro.
– Tudo me lembra dela. Isso que eu sofri é algo que não se esquece. Jamais. Sophia morreu, mas não me deixou. – Carol encostou a cabeça na parede, levantando os olhos para o teto.
– O vazio da falta de sua presença ao meu lado, a angústia de saber que ela nunca vai crescer e a agonia de lidar com o fato de que eu não pude, ninguém pôde, nem poderia, fazer nada para evitar o que aconteceu com ela... – Carol controlou as lágrimas, deixando escapar algumas poucas. – Eu acordo, durmo e acordo de novo e ela nunca, jamais, nem por um milésimo de segundo, sai dos meus pensamentos – a mãe de Sophia se permitiu extravasar um pouco da dor que sabia que carregaria consigo até o dia de sua morte.
– Se eu consegui sobreviver a isso... Se eu consigo viver isso diariamente, e sobreviver... Todo o resto fica pequeno – Carol elucidou, enquanto Rick lhe dava um abraço.
Passaram longos segundos assim, até que ele finalmente disse aos ouvidos da amiga.
– Apenas lembre-se de que você não está sozinha – disse Rick. – Não mais – o policial foi categórico.
Ela aquiesceu com a cabeça, soltando-se do enlace fraternal, e dando ao amigo um sorriso curto. Ambos se levantaram, e Rick Grimes perguntou qual seria a próxima tarefa do dia para ela. Parecia preocupado com a amiga, o que era algo muito raro de acontecer.
Geralmente era Carol quem se preocupava com os outros ao seu redor, e não o motivo de compaixão.
– Annie me ajudaria na fisioterapia – lembrou-se Carol Peletier. – Já não preciso mais das muletas, mas, ainda assim, minha perna está em “desuso” há muito tempo. Ainda não terminei essas sessões – contou para o policial.
– Vou com você até a ala de cuidados médicos – falou solícito Rick.
– Não precisa – discordou, fazendo-lhe uma careta como se ele tivesse lhe dito uma bobagem.
– Não me lembro de ter pedido sua permissão – debochou o policial de volta, que ouvira o que ela dissera a Daryl quando o seguira mais cedo naquele dia.
Assim, os dois desceram até o primeiro andar, seguindo até a sala hospitalar. Não havia ninguém naquele corredor, o que parecia muito estranho. Geralmente o primeiro andar era o local do Oceanário com mais pessoas envoltas em suas atividades rotineiras.
Carol abriu a porta, e percebeu na hora que cometera um grande erro.
Annie e Peggy cuidavam de um garotinho negro, que parecia ter cerca de três anos de idade. Estavam em meio a exames médicos, e a médica idosa parecia ter acabado de lhe aplicar uma injeção.
A criança chorava e Peggy segurava sua mão, acariciando suas costas, falando para que fosse forte.
As duas, tanto a idosa irlandesa quanto a adolescente, encararam Rick e Carol parados na frente da porta da ala médica.
– Vocês não deveriam ter visto isso – falou Annie.
Carol olhou para Rick.
Pela primeira vez desde o dia em que fora sequestrada, ela não sabia o que fazer.

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