Hunter's Instinct
15 Episódio 15 - Ghosts That We Knew
Notas iniciais
You saw my pain washed out in the rain
Broken glass, saw the blood run from my veins
But you saw no fault, no cracks in my heart
And you knelt beside my hope torn apart
But the ghosts that we knew will flicker from view
And we'll live a long life
So give me hope in the darkness that I will see the light
'Cause oh that gave me such a fright
But I will hold as long as you like
Just promise me we'll be alright
So lead me back, turn south from that place
And close my eyes to my recent disgrace
'Cause you know my call
And we'll share my all
And our children come and they will hear me roar
So give me hope in the darkness that I will see the light
'Cause oh that gave me such a fright
But I will hold as long as you like
Just promise me we'll be alright
But hold me still, bury my heart on the coals
But hold me still, bury my heart on the coals
So give me hope in the darkness that I will see the light
'Cause oh that gave me such a fright
But I will hold on as long as you like
Just promise me we'll be alright
But the ghosts that we knew made us black and all blue
But we'll live a long life
And the ghosts that we knew will flicker from view
And we'll live a long life
Mumfords and Sons — Ghosts That We Knew
“Você precisa botar para fora.”
Daryl Dixon trincou os dentes, fazendo um leve muxoxo de desdém com os lábios, em razão do pensamento que teve.
Enquanto se dirigia ao caminhão de médio porte estacionado nos portões ao norte do Aquário da Georgia, as palavras de Carol insistiam em se repetir na sua mente.
Como sempre, sua amiga usara mais uma vez de sua exímia capacidade perceptiva de julgamento das emoções alheias. A mulher de cabelos grisalhos, uma excelente julgadora de caráter e perspicaz além do que Daryl julgaria aceitável, fizera questão de segui-lo mais cedo naquele dia, e lhe dar conselhos que ele, como sempre, não havia pedido.
A forma fraternal com que ela dissera aquelas palavras, e o gesto de beijá-lo na testa... Tudo aquilo, ainda que de certa forma bem-vindo, o irritava muito, também. Dixon não precisava de alguém para cuidar dele, se virava muito bem sozinho, e geralmente tendia a rejeitar interferências externas. Ele permitia que algumas pessoas próximas, por quem realmente nutria muita afeição, como Carol e Rick, tivessem esse tipo de demonstração de afeto consigo. Mas não significava que realmente se sentisse à vontade com aquilo.
Daryl era bastante avesso a toques, o tipo de comportamento que ele considerava “grudento”. Não se sentia confortável nunca em uma situação como aquela.
Como que movido por um impulso, retirou a faca que havia guardado consigo, em sua jaqueta de couro, escondida em um bolso interno. Desembalou-a do pano que estava guardada, e a encarou devagar. Seus olhos externamente não demonstravam nada, semicerrados em sua expressão turrona costumeira, mas, dentro de si... Apenas olhar para aquela lâmina doía.
O homem engoliu em seco, olhando para os muros do Aquário. Se quisesse, conseguiria jogá-la bem longe, muito acima da construção cercada que ali se dispunha. Daryl Dixon levantou o braço, segurando com firmeza a faca, movido entre a raiva que sentia de si mesmo e o ímpeto de eliminar aquele objeto, aquela faca simples, quase sem fio já, mas que, ainda assim... Tinha um significado que mexia muito consigo.
Pretendia jogá-la para onde não conseguisse mais alcança-la, levado por esse impulso de raiva, mas parou no meio do movimento. Seu braço tombou ao lado de seu corpo, a mão ainda firme segurando o cabo da lâmina.
“Você é uma piada. É isso que você é.” A lembrança do dia em que delirara com a imagem e voz de Merle se fez soar clara e límpida em seus ouvidos.
Eu sou, Merle.
Eu sei.
Daryl respondeu em pensamento, mais uma vez escondendo a faca consigo, no bolso interno da jaqueta. Para descontar a frustração de não ter nem sequer podido eliminar aquela lembrança, ou até mesmo pela ideia de jogá-la ao longe ter, por fim, o perturbado tanto assim... Isso levou o arqueiro a chutar com força uma lixeira da parte externa do Oceanário de Atlanta, fazendo-a rolar pela grama por alguns bons segundos.
Enfim seguiu pelas extremidades ao leste do terreno do Aquário, andando debaixo de um sol já um pouco tardio para o que o grupo de caçadores pretendia. Já passara da manhã, e dificilmente conseguiriam retornar daquela caçada antes da noite. O que, naturalmente, apenas significava mais riscos aos membros do Aquário que participariam daquela empreitada.
Assim que fez-se visível no início dos jardins ao lado dos portões ao Norte do Oceanário de Atlanta, viu distintamente as figuras de Billy Ray, de pé, afiando um facão comprido e Haywood, recarregando de balas uma espingarda. Ambos tinham feições sérias, provavelmente preocupados com o perigo de sair para a caça tão tardiamente.
Por último, Dixon a viu. Sentada na borda do caminhão, seus pés balançavam displicentemente, as botas de trilha movendo-se para frente e para trás, para frente e para trás. Seu rosto alvo estava protegido por uma de suas mãos também muito brancas do sol inclemente, com seus dentes salientes se destacando entre seus lábios, ao passo que seus olhos de avelã esverdeado brilhavam em uma cor indistinta entre o verde e o marrom das árvores, quando banhados pela luz vespertina... Assim, lá estava Mavie. Parecendo tranquila, jovial, cheia de vida... Como sempre.
Ela foi a primeira a baixar os olhos e enxerga-lo à distância.
– Cupido! – chamou ela, da forma como já o havia chamado por vezes incontáveis, seu sorriso largo desenhando-se em seu rosto e quase abrandando o quanto era dentuça. Por algum motivo, aquela visão pareceu relaxar um pouco os ânimos atormentados do arqueiro, o que o fez sentir-se apenas ainda mais revoltado internamente, depois.
Em um meneio de cabeça, Daryl aproximou-se e saudou silenciosamente os três, já tendo reparado desde o início que Mavelle Berry era quem estava com sua balestra e suas flechas.
– Ok. Então já que finalmente estamos todos juntos – disse Billy Ray, apresentando uma nota de irritação sugerindo que Daryl se atrasara –, porque pelo visto alguém aqui tinha algo melhor a fazer do que se adiantar, podemos ir... – o caipira do Alabama não calava a boca mas Dixon o interrompeu, já completamente sem paciência para a arrogância daquele babaca.
– Não comece a inventar merda – o arqueiro foi direto, sua voz rouca e fria. – Cheguei aqui na hora marcada. Se quer arranjar motivo pra cair na porrada comigo, seja macho e fale logo que quer brigar – continuou Daryl Dixon, não se contendo enfim. Sabia que se Carol ou Rick o escutassem falando algo do tipo e hostilizando um membro do Aquário, o reprimiriam veementemente depois. Mas já não conseguia mais aturar o tratamento que aquele imbecil lhe dava.
Mavie olhou para os dois e levantou-se rápida como uma lebre, de um pulo só. Interpôs-se entre os dois homens, encarando mais Billy do que Daryl. Pelo visto, imaginava que o primeiro movimento partiria do sujeito de bigode comprido.
– Vamos com calma, que tal? – a garota irlandesa deu a sugestão, finalmente encarando Daryl, depois de olhar para Billy Ray por longos segundos. – Eu sei que ninguém estava a fim de sair para caçar tão tarde, mas não temos outra escolha se quisermos comer na semana que vem. Nosso estoque está no fim, vocês sabem – lembrou ela. – Então vamos fazer um esforço para fingir que somos civilizados por só algumas horas, pode ser ou está difícil? – aconselhou a garota de dentes grandes, debochada, ao passo que Haywood se aproximava, concordando, puxando Billy Ray discretamente pelo ombro.
Daryl e aquele sujeito definitivamente não se bicavam, e aquilo traria com certeza problemas futuros.
– Você vai no banco da frente – Billy falou para Mavelle, indicando com os dedos da mão direita que a garota deveria subir ao lado do motorista do caminhão.
– Não. Eu vou na “caçamba” – respondeu ela.
– Você está maluca?! – perguntou Billy Ray, olhando da garota para Daryl, que mantinha-se em silêncio, avaliando a situação.
– Billy... – Haywood falou ao lado dele. – Deixe-a. Ela vai onde ela quiser – retrucou, por sua vez, irritado pelo comportamento irascível do caipira. – Vamos parar de perder tempo com bobagens e pegar a estrada. Hoje eu dirijo. – O homem de meia idade subiu pela porta do motorista, sentando-se em seu banco respectivo. Billy, sem escolha, abriu a porta ao lado do banco de descanso da frente, encarando Daryl e Mavie com um olhar muito contrariado.
– É melhor entrar e fechar essa joça logo – sugeriu Billy Ray, subindo ao seu banco ao lado do motorista, e fechando com força desnecessária a porta do veículo.
Mavie, sem olhar para Daryl, subiu pelo caminhão sem dificuldades, no mesmo passo lépido com o qual interrompera o início de briga entre o caipira da Georgia e o caipira do Alabama.
O homem a seguiu, sentando-se ao canto da “caçamba” que preferia. Ajeitou a jaqueta, tendo certeza de que a faca estava bem escondida lá dentro. Se desconfiassem que ele portava uma arma consigo sem a permissão dos veteranos do Aquário, se por algum motivo resolvessem revista-lo... Aquilo poderia trazer consequências bem graves para si. E talvez até mesmo descontassem em seu grupo.
Mavelle Berry abaixou a porta que fechava o compartimento da traseira do caminhão, e andou até sentar-se defronte a Daryl Dixon. Haywood já dera a partida, engatara a primeira, e o caminhão seguia já provavelmente bem adiante dos portões ao norte do Oceanário de Atlanta.
Passaram bastante tempo sem trocar palavra alguma. Mavie, que já aparentava confiar no caçador, deixou a balestra e as flechas do arqueiro entre ela e ele. Se Daryl assim o quisesse, poderia tomar a arma e mata-la em um único movimento preciso.
Por fim, depois do que Daryl calculava ser cerca de uma hora de estrada, Mavelle enfim falou. Andava muito quieta, recentemente, e parecia ter deixado o caçador em paz por algum tempo. De certa forma, o arqueiro agradecia internamente não ter de lidar com a presença esfuziante da garota, sorrindo e falando merda para lá e para cá, mas, por outro lado... O ambiente do Aquário da Georgia definitivamente ficava mais triste sem a animação costumeira dela.
O Oceanário tornava-se ainda mais insuportável do que já era, pois, para o bem ou para o mal, o temperamento de Mavelle e suas interações com Dixon não deixavam de ser uma distração para o 'Cupido'. Mas isso seria algo que jamais admitiria para ninguém além de si mesmo.
– Você sabe, eu imaginava que caipiras fossem mais pacíficos. Sabe como é, aquela ideia de um povo do campo, bucólico, essas coisas – troçou a Esquila, em seu típico discurso provocador e debochado.
– Yeah – retrucou Daryl, depois de alguns segundos, encarando-a em silêncio. – Pelo visto você também deve ter ficado surpresa quando descobriu que nem todo cowboy fumava Marlboro Vermelho – debochou Dixon, por sua vez, referindo-se ao comercial estereotipado da marca de cigarros que mostrava sempre cowboys fumando o mesmo cigarro. A colocação de Mavie tinha sido condizente com a típica caracterização preconceituosa de pessoas vindas do interior dos EUA feita pela televisão de massa.
Mavelle soltou uma risada honesta, fechando os olhos e encostando a cabeça junto a parede do compartimento de carga. Era curioso como praticamente nenhuma das provocações que Daryl lhe fazia chegava a ofendê-la. Pelo contrário, ela costumava levar quase tudo no bom humor.
– Pois nós, irlandeses, também sofremos desse mal – motejou ela, em resposta. Seus olhos estavam semicerrados em uma faceta humorística, seu sorriso enviesado mostrando troça. – Vocês americanos acham que todo irlandês é bêbado, desonesto, brigão e que só imigramos para Boston – brincou a garota morena, rindo de leve enquanto falava. Daryl soltou o ar pelas narinas, sem sorrir.
Alguns segundos se passaram, até ela começar a conversar de novo.
– É, mas eu realmente não esperava tanta teimosia de vocês. Nem tanta agressividade – comentou a garota morena, em uma leve crítica, uma de suas sobrancelhas levantadas enquanto buscava o próprio maço de cigarro em seus bolsos de sua calça cargo.
Dixon quis responder-lhe que não dava a mínima para o que ela esperava ou deixava de esperar, mas foi mais polido.
– Reclame com esse seu amigo – redarguiu ele, dando de ombros. – Está querendo arranjar um motivo para perder os dentes já há muito tempo – disse Daryl, com sinceridade.
– Billy tem a cabeça quente e é, no fundo, muito intrometido. – Quase bufou Mavie, enquanto jogava o maço de cigarros para o arqueiro, caso ele também quisesse fumar. Acendeu seu cigarro, e Daryl percebeu que, ironicamente, era um maço de Marlboro vermelho.
– Estou pouco me fodendo – rebateu o caçador, com grosseria e honestidade. – Contanto que não me encha a porra do saco. – Pegou seu cigarro e acendeu-o com o isqueiro que Mavelle Berry já havia lhe atirado.
– Pois é, e ele tem o irritante costume de fazer isso comigo – relatou a garota, mantendo a mesma linha de sinceridade anterior. Ela realmente parecia se sentir à vontade na presença de Daryl. A extroversão e despojamento daquela garota irlandesa eram realmente notáveis. O arqueiro jamais esperaria isso do sórdido e costumeiramente falso grupo do Aquário da Georgia.
– Ele se importa com você – respondeu Daryl Dixon, sem saber porque realmente dava trela para a conversa mole da dentuça.
Mavelle não modificou sua expressão, apenas encarou o arqueiro devagar, como se estudar seu rosto pudesse fazê-la ler seus pensamentos. O caçador quase quis rir da pretensão da menina.
– Billy é apenas meu amigo – afirmou ela, tragando fundo o cigarro, e ainda encarando Daryl com olhos fuzilantes. – Deveria aprender seu lugar como tal. Não é meu pai para querer decidir o que eu devo fazer – certificou a jovem mulher, soltando o ar e fumaça do cigarro.
– Diga isso para ele – falou Daryl sem meias palavras. Como viemos parar nessa merda de assunto? Pensou o caçador, meio irritado e meio surpreso.
– Yep – soltou ela, simplesmente. – Acho que vou colocar um cartaz no Oceanário com isso escrito, porque só falar não anda adiantando muito. – A jovem irlandesa deu uma risadinha debochada, e terminou seu cigarro, pisando em cima do resto e guimbas.
– Então... – ela puxou outro assunto. – Quer dizer que Forrest Gump, O Príncipe das Marés e Doce Lar são filmes estereotipados? – perguntou a garota, parecendo genuinamente interessada, mas Daryl percebeu uma leve nota de deboche. Aparentava querer desanuviar a tensão entre eles e voltar a um tópico mais leve de conversa.
– Doce Lar é um lixo de filme – desdenhou o caçador, fazendo um som de desprezo com os lábios.
A Esquila ria, e abrira a boca para retrucar algo, quando ambos foram surpreendidos por uma parada ríspida do caminhão. Daryl e ela foram levemente jogados para o lado, os dois apoiando-se com agilidade cada qual com seu respectivo braço fazendo pressão contra o chão do compartimento de carga.
Segundos se passaram, e a faceta escrota de Billy Ray se fez ver assim que o mesmo abriu pelo lado de fora a abertura da “caçamba”.
– É o seguinte. Acabamos de catar no pulo uma baita multidão de carniceiros. Pelo que deu para ver do binóculo do Haywood – na verdade, reconhecia Dixon que era um binóculo roubado de Abraham quando este fora desarmado — é bicho morto atrás de bicho morto a dar com pau. Cerca de trezentos, por aí, vindos da rodovia principal – esclareceu o caipira do Alabama.
– O quê? – Mavie parecia confusa, franzindo o cenho.
– Vamos ter que desviar da rota de sempre – passou a explicar Daryl, que compreendia o linguajar interiorano de Billy Ray. – A estrada está cheia de errantes – o caipira da Georgia finalizou.
– Sem condições de eliminar todos – continuou Billy como se não tivesse sido interrompido, ignorando Dixon o melhor que podia. – Vamos fazer um desvio e ir para a Floresta Nacional de Oconee – relatou Billy, que aparentemente já decidira tudo com Haywood sem consultar Mavelle ou Daryl.
– Você perdeu o fecking juízo? – perguntou Mavie Berry, indignada. – Você se lembra da última vez que fomos explorar a região? – ela insistiu, parecendo assustada com a ideia.
– Não vai ser assim agora. E estamos em um número maior – falou o caipira do Alabama, decidido, enquanto fechava sem aguardar resposta o compartimento de carga.
– What the feck?! – a garota irlandesa xingou, levantando-se ofendida, e socando a portinhola da “caçamba”. – Seu retardado, eu estava falando com você! – Já propriamente furiosa, Mavie deu um chute na porta, percebendo que seus esforços seriam inúteis. Ridiculamente, assim que ela ia se movimentar para voltar a sentar, o caminhão deu a partida outra vez, fazendo-a quase se desequilibrar e cair no chão. Daryl Dixon reconheceu-a xingando em silêncio um “filho da puta” bem dito por seus lábios.
*****
Depois de cerca de uma hora e meia no que Daryl compreendeu, pelo movimento do caminhão, ter sido uma súbita virada ao extremo leste, quase sem rumar ao sul, o grupo de caçadores do Aquário finalmente alcançou seu destino.
Saíram todos do caminhão, parando já após avançarem muito mato adiante. Mavie, parecendo muito irritada, mal falou palavra. Seus dentes salientes ocupavam-se em morder seu lábio inferior, como se, naquele gesto infantil, se impedisse de falar.
Daryl não estava no melhor de seus humores depois das perdas recentes, e lidava com toda aquela situação infernal e degradante da melhor maneira que podia: fechando-se em si mesmo. Não importava as bobagens que Carol Peletier lhe aconselhasse, ele ficaria bem sozinho, se ninguém o importunasse.
– Bem – começou Haywood, tirando uma bússola de seu casaco longo e cheio de bolsos, em estilo militar. – Acho uma boa ideia seguir ao sul. Não teremos tempo para subir essas montanhas ao norte – o homem de meia idade apontou para as formações elevadas bem longínquas a eles – então nossa melhor chance é tentar a sorte em um terreno mais baixo. Onde é até mais fácil fugir, se precisarmos fazer isso – aconselhou.
– Ok. Será isso o que faremos – decidiu Billy Ray, sem consultar os dois arqueiros do grupo.
– Eu não falei que topava, falei? – retrucou Mavie, parecendo ainda mais irritada com aquele tratamento rancoroso da parte do caipira do Alabama.
Billy a ignorou e passou a seguir ao lado de Haywood, ambos marchando rumo ao sul. Mavie parecia prestes a bater o pé no chão e puxar seus cabelos de ódio, mas se comportou de forma mais contida e adulta. Apenas mordeu o lábio inferior com ainda mais força, seus dentes grandes quase ameaçando fazê-lo sangrar.
Vai com calma, Esquila. Pensou Daryl, levemente divertido por aquele momento de “racha” entre o grupo de veteranos do Oceanário de Atlanta. Era bom vê-los estressados, para variar, no lugar de seu próprio grupo.
Mas, pensar assim, por alguma razão... Trouxe-lhe certa indesejada sensação de culpa.
Irritado por essas sensações conflitantes, Daryl decidiu continuar em silêncio e seguir o plano de Haywood, que, de fato, era o mais apropriado naquelas condições. Poderiam encontrar um curso d’água, e, se o fizessem, certamente achariam comida junto ao mesmo.
Caminharam por algum tempo, Billy esperando Daryl e Mavie passarem para fechar a retaguarda. Dixon sabia que o caipira do Alabama apenas fazia isso para que pudesse vigiá-lo melhor, mas já estava levemente recompensado pela aporrinhação de Billy. Era bom vê-lo irritado e puto da vida, e perceber que o ciúme evidente que sentia por aquela garota era algo unilateral. Pois, pelo visto, a Esquila não parecia querer nada com ele.
Tal pensamento trouxe certa alegria e alívio indesejados ao caçador, fazendo-o se sentir ainda mais idiota por essas emoções que não eram apreciadas por ele.
Depois de muito andar, Mavelle e Billy entraram em um embate repleto de xingamentos (por parte da irlandesa) e patadas (por parte de ambos), enquanto dois impacientes e enfastiados Haywood e Daryl tentavam decidir com racionalidade o que fazer. Mavie julgava que achariam algo naquela floresta aparentemente morta indo a oeste, e Billy a leste.
– Está bem! – exclamou Mavelle, quase falando alto, mas não o suficiente para afugentar animais ou atrair seres indesejados como errantes. – Eu vi um rastro pesado por ali. – Apontou ela. – Acho que devem ser ursos. Eu trouxe minha bobcat, e é melhor levar carne de urso para casa do que nada! – sentenciou a irlandesa, séria.
– E se formos por ali, eu acho que vamos achar um rio. A vegetação está diferente – repetiu Billy Ray pela terceira vez, mostrando o caminho para o leste.
– A vegetação está igual, porra! – falou a garota, já sem paciência alguma.
Billy levantou os olhos, passando uma das mãos pela boca, parecendo se controlar com dificuldade. – Se está tão certa assim, então eu estou pouco me fodendo! – retrucou Billy, puto da vida. – Vai atrás do teu urso imaginário e que o diabo a carregue – disse o homem, dando-lhe as costas e ajeitando a carabina em seus ombros. Em alguns passos, sumiu em meio a mata fechada.
Haywood olhou para ele, depois para os dois. Mavie parecia soltar fogo pelas ventas, de tão revoltada, e Daryl apenas observava a tudo, quieto.
– O que você acha? – perguntou o homem de meia idade a Daryl Dixon.
– Ela está certa. Não há sinal algum de rio por ali. – Apontou ele com o indicador na direção que Billy seguira. – Mas aquilo parecem mesmo pegadas de urso. Provavelmente um urso pardo, pelo peso – falou o caçador arqueiro.
– Então eu vou atrás dele e ver se consigo acalmá-lo um pouco. Você também podia dar um desconto – Haywood falou para os dois, dirigindo a última frase apenas para Mavie, com suas sobrancelhas levantadas. Ela levantou as dela, meneando a cabeça como se não acreditasse no que ouvia.
– Não tenho culpa se ele acordou de TPM. – Mavelle girou nos calcanhares, rangendo os dentes, e passou a seguir o rastro do urso.
Dixon foi atrás dela, em seu encalço. Caminharam por cerca de trinta minutos, não flagrando animais além de insetos e uma cobra solitária, porém não venenosa. Mataram-na, e Mavelle Berry guardou seu cadáver em sua mochila a tiracolo.
Depois disso, Mavie achou justo dar uma pausa. Assim que ambos sentaram, seus ouvidos atentos para captar algum som da vinda de Billy ou de Haywood, ou até mesmo de outros indíviduos que poderiam surpreender-lhes, Mavelle se levantou subitamente. Daryl a olhou com olhos questionadores, sem entender o que despertara aquela reação da parte dela.
– Eu percebi que você não está a fim de companhia tem um tempo – disse a irlandesa, sincera. – Vou te dar um tempo sozinho. Mas pelo amor de Deus nunca conte que eu fiz isso para o Haywood ou para o Billy! – Ela fez uma leve careta à menção do nome do caipira do Alabama.
Dixon não respondeu nada. Mavie esperou alguns momentos, encarando o rosto do arqueiro como se, por algum segundo idiota, esperasse que ele fosse contradizê-la de alguma forma. Assim, visto que não foi bem sucedida nesse sentido, a garota deu-lhe as costas, seguindo mais a oeste. Portava seu arco e flecha a postos para qualquer imprevisto.
Daryl precisava mesmo daquilo. Desde que Tyreese falecera, tornara-se ainda mais ensimesmado do que de costume. Sempre lidara mal com a perda dos membros de seu grupo, mesmo os que não tinha muita intimidade. E, depois de tudo o que acontecera no hospital, mal tivera tempo de digerir os acontecimentos... Parar para refletir.
"Você é uma bichinha mesmo, Darlena." A voz de Merle se fez ouvir em um canto recôndito de sua memória.
"Meu irmãozinho, sempre o sensível." Dizia um debochado Merle Dixon do passado, se referindo a seu irmão caçula.
Merle o conhecia muito bem. Sabia prever seus intuitos, suas vontades e até mesmo suas emoções. Provavelmente estaria envergonhado do comportamento do arqueiro agora, quase tentado a demonstrar a fragilidade que se esforçava dia e noite para esconder à sete chaves.
A verdade é que sentia muito a sua falta. E, se Merle soubesse disso, também o condenaria. Mas não apenas a dele. Lamentava por outras perdas, pois Daryl havia falhado em tudo o que tentara até então.
O caçador buscou um cigarro de seu próprio maço, dessa vez, e acendeu-o, sem perder a atenção do ambiente que o rodeava. Após o feito, voltou a refletir.
Tentara salvar Sophia e leva-la de volta até sua mãe, para descobrir que todos os seus esforços foram em vão, naquele dia fatídico no celeiro de Hershel. Tentara buscar e reaver seu irmão de suas ideias doentias quando este fugira com Michonne, para supostamente devolvê-la ao Governador. Descobrira depois que o homem desistira, e que na verdade ele a deixara voltar ao grupo. Mas, no fim, apenas encontrou-se com o que restara de seu irmão... Um resto morto, faminto por carne humana, que tentara devorá-lo vivo até que enfim foi obrigado a mata-lo.
Tentara salvar seu grupo da investida do Governador contra a prisão, passando por dias torturantes no qual se sentia culpado por tudo aquilo, pois fora ele que convencera Michonne a desistir de sua busca pelo paradeiro daquele homem maldito. Tentara proteger Beth quando estivera sozinha com ele, por saber que aquela garota não era apta a sobreviver naquele mundo... Era inocente demais para viver entre eles.
Boa demais para eles.
E, mais uma vez, falhara... Procurara Beth exaustivamente, depois de não conseguir fazer nada para evitar que fosse sequestrada... Somente para vê-la uma última vez. Sendo assassinada na sua frente, sem que, novamente, ele fizesse nada para evitar.
“Você é uma piada, é isso o que você é.” Merle dizia em sua mente, mais uma vez, falando nada mais do que a verdade.
Dixon abriu sua jaqueta, procurando a faca mais uma vez. Desembrulhou-a e a colocou em cima de seu colo. O caçador passou os dedos pela lâmina e pelo cabo da arma, enquanto quase terminava de fumar o cigarro com a outra mão.
Daryl apagou o resto de seu cigarro na carne de sua mão, próxima a seu polegar. Seus ouvidos, repletos de atenção, não captavam nenhum som ambiente além do canto de um pequeno pássaro perto de si. Afinado, potente, agudo... Como uma voz que já ouvira há algum tempo, e nunca mais voltaria a escutar outra vez.
“...Você vai sentir tanto a minha falta quando eu partir, Daryl Dixon.”
O caçador arqueiro, motivado também pela dor física, finalmente deu vazão ao intenso fardo emocional que carregava dentro de si, como uma mancha negra de sujeira que se espalha por uma superfície antes perfeitamente limpa... Como a última gota que enfim faz um recipiente transbordar o líquido que tentava aguentar.
Daryl, sozinho, testemunhado apenas pelas árvores da Floresta Nacional de Oconee... Finalmente chorou.
*****
Passou algum tempo seguindo os rastros de Mavelle, até finalmente encontrá-la. Dentro de si, Daryl sentiu-se um pouco culpado. Permitira-se um momento egoísta, mas isso significava deixar a garota sozinha e mais exposta ao perigo. Porém, não pretendia dar uma de caipira do Alabama, e sabia que ela era forte e capaz de se virar sozinha contra os riscos que aquele lugar poderia apresentar.
Mavie notou sua presença antes de reconhece-lo, apontando uma flecha preparada no cordel na direção de sua testa. Assim que reparou que era o arqueiro, ela abaixou lentamente a arma, fazendo uma expressão de alívio tão honesta que quase o deixava constrangido.
– Fiquei com medo que você tivesse fugido – comentou ela, baixo, com sinceridade quase infantil.
– Hoje você deu sorte – respondeu o caçador arqueiro, debochado, sua voz rouca em poucas palavras.
Mavelle Berry deu um sorriso contido, o que apenas aumentou a culpa em Daryl por tê-la deixado sozinha. Não era justo expô-la desse jeito, por mais corajosa e competente que ela fosse como caçadora.
De imediato, o sangue de ambos os caçadores gelou. Seus rostos moveram-se na direção certa, percebendo e reconhecendo no mesmo momento o perigo que se aproximava.
Ruídos guturais, repulsivos, roufenhos... Passos arrastados, com dificuldade de mover o peso que carregavam.
Errantes. Muitos deles. Chegando de todas as direções.
– Vamos – sussurrou Daryl com urgência, puxando-a na direção contrária pelo braço, voltando a clareira onde ela, Dixon, Haywood e Billy Ray haviam se separado. Fugiram daquele local antes que os próprios errantes pudessem tê-los localizado, mas eles certamente conseguiriam encontra-los se não fossem embora um quanto antes.
Foi quando ouviram barulhos de tiros antes de alcançarem a clareira.
Ao chegarem ao ponto de separação do grupo, correndo esbaforidos o mais silenciosos que podiam, tiveram outra surpresa ainda pior.
Vindos do leste, Haywood e Billy Ray avançavam desesperados mata adentro, na direção de onde Mavie e Daryl haviam parado. Os dois homens moviam-se rápido, voltando-se para trás para atirar nos errantes que estavam em seu encalço, próximos o suficiente para arranharem seus rostos e puxarem seus corpos.
– Ah não – resmungou Mavelle, também muito preocupada, arrumando uma flecha no cordel e atirando-a em cheio no olho direito de um errante que quase mordia o ombro de Haywood. Daryl, também de prontidão, atirava contra o cérebro dos errantes que cercavam os outros membros do grupo.
Mavie olhou para trás, e percebeu que os errantes que vinham da direção oeste foram atraídos mais rapidamente pelos ruídos dos tiros. Billy e Haywood travavam uma luta heroica com os mortos-vivos próximos deles, quando Daryl puxou a garota irlandesa pelo braço, tomando uma decisão por si só. Era a única chance de saírem vivos daquilo.
– Vamos atraí-los para lá. – Apontou o arqueiro para o norte, arrastando a garota consigo. Atirou o mais rápido que pôde nos errantes que vinham do oeste, enquanto Mavelle queria se desvencilhar com todas as forças.
– O que você está fazendo?! – perguntou ela, em desespero, olhando para Haywood e Billy Ray que supostamente foram deixados para trás.
– Salvando o seu rabo. E os deles também – revidou o caçador com balestra, entre dentes. Atirou algumas flechas em cheio em mais errantes que quase cercavam Billy e Haywood, e, enfim, a tática deu frutos. Os errantes que vinham pelo lado oeste da floresta decidiram seguir ele e Mavie, que, ainda revoltada, só tentava fugir do aperto do braço de Daryl para ajudar seus amigos, indo de encontro a eles.
– Preste atenção! – exigiu Daryl, rangendo os dentes. – Nós demos mais chances a eles. – O caçador apontou com o queixo o grupo de errantes que seguia os dois, tendo desistido de Haywood e Billy Ray. – Nós lidamos com esses, e eles com o resto – Dixon justificou, atingindo mais um errante em cheio com sua balestra.
Mavie, percebendo que Daryl Dixon não deixaria que ela fugisse de encontro aos outros, encrespou os lábios e ajeitou o arco para dar retaguarda ao caçador. Juntos, atraíam os mortos-vivos cada vez mais para longe, flechada atrás de flechada, até restar apenas uma trilha de cadáveres finalmente falecidos ao longo da floresta.
Os dois, arfantes, olharam para trás, vendo que haviam chegado ao caminhão.
– Vamos voltar – Mavie disse, e fez menção de correr na direção dos amigos. Parecia muito amedrontada com a ideia de perder os dois.
– Depois – Daryl manteve-se firme. – Não está ouvindo os tiros? Eles estão vindo para cá. É melhor cercarmos o perímetro para ter certeza de que eles vão conseguir escapar por aqui – disse o caçador, com inteligência.
Mavelle o encarou devagar, sem acreditar. Parecia estar subitamente muito revoltada com o arqueiro.
– Eu vou voltar – ela rebateu também com firmeza, sem raciocinar direito. Daryl a puxou pelo braço, com mais força do que antes dessa vez.
Mavie tentou se desvencilhar como uma criança mimada tenta fugir de palmadas. Retorcia seu corpo para os lados, mesmo sabendo que era muito mais fraca do que o caçador. Parecia realmente tentada a arrancar uma flecha da aljava e cravá-la na garganta de Dixon.
– Largue esse arco e respire um pouco. Você sabe que não é essa a solução – Daryl falou com urgência, querendo que ela pensasse.
Mavelle jogou o arco no chão como se fosse um saco de lixo. Parecia totalmente furiosa.
– Qual é o seu problema? – perguntou ela pela segunda vez ao caçador. A primeira fora no dia em que lhe devolvera sua flecha. A garota irlandesa, fazendo um último esforço para se soltar do braço que a agarrava, abaixou seu braço amparado também com violência.
– Estou tentando impedir você de se matar! – reclamou Daryl audivelmente.
– Como se você realmente desse a mínima para mim – a garota dentuça protestou com a mesma honestidade de antes, soltando aquelas palavras como se fossem um veneno brutal.
Daryl apenas franziu o cenho enquanto ela continuava, um pouco descontrolada.
– Qual é a sua, camarada? – teimou ela séria, se aproximando um passo, enquanto Dixon ainda segurava o braço dela. – Hein? – Seus olhos de avelã esverdeado flamejavam de raiva. – Você primeiro age como se não me suportasse, me dando patada atrás de patada como se eu estivesse interessada em fazer uma coleção delas. – A irlandesa deu mais um passo para perto dele, enquanto tiros cada vez mais próximos eram escutados à distância.
– Depois, tem a cara de pau de cuidar da minha mão ferida, me ajuda a costurar minha calça que você rasgou quando quase me matou e quer pagar de herói, tentando me defender daqueles dois merdinhas – a garota mencionava Elliot e Orlando. – Finge que aceita meu abraço, para depois ficar me evitando como se eu fosse doente, alguma coisa nojenta que você não aguenta nem olhar duas vezes. – Ela deu mais um curto passo à frente. – E agora, vai entrar no mesmo círculo vicioso? Me tratar como uma merda qualquer para depois agir como se realmente se importasse? – ela questionou, seu rosto apresentando feições furiosas.
– Do que você está falando, garota? – perguntou Daryl, fechado e aturdido por aquela reação intensa. E também pela proximidade dela.
– Não se finja de idiota. Deixe isso para o meu grupo – falou ela, debochada. – Você acha que eu não sei? Que eu não percebo? – ela insistiu, quase rosnando.
– Você não sabe de porra nenhuma – retrucou Daryl, já também irritado com a maluquice daquela menina.
– Eu sei. Eu sei que você me olha e vê essa garota. Essa Beth! – Mavie falou certeira, e Daryl sentiu uma pontada em seu peito. Não havia como mentir sobre aquilo, não quando confrontado tão diretamente. – Eu vejo o mesmo olhar de pesar nos seus amigos, como se vissem através de mim, como se não me vissem... Como se vissem um fantasma, uma lembrança que assombra vocês todos. – Agora Mavelle não parecia mais tão irritada, mas muito magoada.
– Eu preferiria que você me detestasse. Me odiasse. Desprezasse. Tudo isso, do que achasse que eu sou outra pessoa. Alguém que vocês inventaram, que você inventou para se consolar – ela falava mais controlada, e deu mais um passo a frente. Lágrimas se formavam no canto dos olhos da garota irlandesa.
– Eu não sei o que essa garota significava para você. Eu não sei o quanto a perda dela te dói. Eu não sei de nada disso, e eu mal te conheço – disse a garota, mais calma, porém cada vez mais decidida.
– Mas eu não sou ela, Daryl. Eu não sou um fantasma do seu passado. Então não tente fingir isso. Pode me odiar, ter repulsa a mim por quem eu sou. Mas não me confunda. Isso não é justo comigo... – ela afirmou com razão, tão próxima que Daryl quase podia sentir a umidade de suas lágrimas. Ele simplesmente não conseguia desviar o olhar de seus olhos entre o verde e o avelã, fitando-o tão intensamente que ele sequer sabia como reagir.
– ...Isso não é justo com você. – A garota abaixou o rosto. A culpa que Daryl Dixon sentia em seu peito apenas aumentou, e, em um gesto que jamais imaginara que pudesse fazer, ele moveu sua mão livre para levantar o queixo dela.
Mavie não esperava por aquilo. Seus olhos claros, ainda com um vislumbre de raiva, mas tomados mais por um pesar que ela tentara esconder, olhavam fundo nos de Daryl. E aquilo dissera mais do que qualquer palavra trocada entre os dois.
– Eu sei de mais uma coisa – Mavelle Berry falou baixinho, seus lábios mal se movendo, deixando antever seus dentes salientes pelos quais Daryl passava a ter um carinho que pretendia negar para si mesmo o máximo que conseguisse.
– Pare – O caçador tentou retrucar, sério, ainda segurando o braço da garota morena com firmeza. Os ruídos de tiro ao longe voltaram a ressoar, mais uma vez mais perto.
– Eu sei que, em um aspecto... Você me vê do mesmo jeito que eu vejo você – Mavie terminou a frase, e fez o que mais surpreendera Daryl durante todo aquele dia.
A garota irlandesa moveu-se mais um passo a frente, seu corpo encostando-se no do caçador arqueiro. Moveu-se de forma a levantar um pouco a ponta dos pés, seu braço livre puxando Daryl pela nuca.
Em segundos, Dixon apenas viu os olhos fechados da garota cada vez mais próximos, assim como seu rosto.
Mavelle o beijara, seus lábios fechados em uma carícia que ele não sentia há muito tempo. E nunca em uma ocasião como aquela... Daquela forma. Com tamanha decisão.
Pois ele também queria aquilo, em seu íntimo.
Movido por tantos anos em grande parte apenas por seus próprios instintos, aquele gesto tão simples, tão animalesco e ao mesmo tempo tão significativo despertou dentro dele algo que ele sequer sabia dormir dentro de si.
Sem raciocinar, sem pensar no que fazia, sem sequer antever seus próprios movimentos, Daryl puxou Mavie pelo braço que já agarrava há tempos ainda mais para perto de si, enquanto sua mão livre se fixava na nuca da garota, apertando seus músculos naquela região.
Mavelle Berry soltou uma exclamação baixa, arfante, abrindo seus lábios grudados aos dele, o que apenas motivou o instinto selvagem dentro do caçador a continuar livremente em seu afã tardio. O arqueiro intensificou o beijo entre ambos, movendo sua língua para dentro dos lábios da irlandesa que tinha em seus braços, ao passo que movimentou sua mão que apertava a nuca de Mavie por seus cabelos escuros, como se as ondas dos fios da garota fossem filetes de água escorrendo suavemente entre seus dedos, que continuavam vagando em descida pelo corpo dela. Sua mão caminhou pelas costas da jovem caçadora, até se firmar com voracidade em sua cintura, apertando a carne macia que ali havia, invadindo-a por dentro da borda da camiseta que ela usava.
Mavelle parecia controlar gemidos de prazer, soando em pequenas exclamações contidas e agudas, o que apenas provocava ainda mais o animal despertado dentro de si. Assim, a garota pareceu forçar-se para ainda mais perto dele, uma das mãos da irlandesa já enlaçando-o pelo pescoço, tendo descido com suas unhas firmes por cabelo e carne para alcançar aquele local. Daryl teria continuado, dominando com avidez o corpo delicioso dela, sem pensar no que fazia, se, depois de esfregar-se contra si em mais um último impulso contra o corpo dele, Mavie não tivesse subitamente se afastado.
Por um milissegundo, Daryl Dixon diminuiu o aperto no braço dela e em sua cintura. Foi o suficiente.
Com um sorriso travesso, Mavie conseguiu enfim se soltar de suas mãos, abaixando-se em uma velocidade surpreendente e recuperando o arco que lançara perto dos pés do caçador arqueiro.
Correra, no segundo seguinte, na direção das árvores de onde provavelmente Billy Ray e Haywood surgiriam a qualquer momento.
Piscando devagar para recuperar os sentidos, sua cabeça e cada poro de seu corpo fervendo por tudo o que acabara de experimentar, Daryl Dixon teve de fazer força para segui-la e tentar evitar, mais uma vez, que se expusesse a riscos desnecessários.
Já não havia mais volta, ele sabia.
Aquela garota iria enlouquece-lo.

Fale com o autor