Hunter's Instinct
13 Episódio 13 - Not Too Late
Notas iniciais
Todos aguardaram enquanto Tyreese caminhava ansioso até a porta de ferro. Passou o cartão na leitura magnética, e, aos poucos a porta foi se abrindo.
Ao enfim abrir completamente, os sobreviventes não podiam ver nada além de uma profunda escuridão. E o som inconfundível de passos arrastados.
E grunhidos aterrorizantes.
– Puta que pariu, feche essa merda logo! – exigiu Orlando, sério. – Como que se fecha isso? – Fincava outra vez com muita força a arma na testa de Annie.
– Ele tem que passar o cartão outra vez! – respondeu Mavie, também nervosa. Vamos Tyreese, é só fechar logo, vamos, vamos. Ela sabia o que estava para acontecer.
Mas, infelizmente, o homem não fora rápido o suficiente.
Enquanto tentava passar o cartão nervosamente no leitor, um dos mortos-vivos pôs seu tronco para fora da escuridão e puxou o braço de Tyreese, mordendo-o com força, retirando um naco enorme de carne daquela parte de seu corpo. Estava esfomeado.
O homem negro fez um esforço grande para não urrar de dor, socando o morto para longe, enquanto a porta de ferro se fechava em cima do carniceiro que conseguira se adiantar para fora da abertura e atacara Tyreese.
A porta acabou por dividi-lo em dois, suas pernas caídas para dentro do repartimento que havia por trás dela. Mavie sabia que aquela abertura levava ao subsolo. E, consequentemente, ia até o estacionamento. Logo, Mavelle temera abri-la por saber que lá, um local aberto, sem muros ou grades diversas em volta, era recheado de mortos-vivos.
Tyreese caiu para trás, encostando-se na porta e apertando seu braço que começava a sangrar em profusão. Perdera muita carne, o ataque do morto-vivo perfurara quase até seus ossos, e era um milagre que aquele homem não estivesse gritando de dor. O carniceiro, agora apenas tronco, braços e cabeça, mal se arrastava pelo chão, indo na direção do homem mordido em busca de mais carne.
Tyreese apenas não gritava para proteger da morte outras duas outras pessoas que poderiam estar a um fio do fim. Se berrasse, os homens que mantinham refém Carl e Annie os matariam, por chamar a atenção.
Mavie, sentindo-se emocionada pelo gesto altruísta do homem, não conseguiu conter seu queixo que tremia, e lágrimas que ameaçavam se formar. Billy. Haywood. Jed. Dakota. Pelo amor de Deus, alguém, alguém nos ajude. Pensou ela, implorando em sua mente para que alguém intercedesse e os salvassem.
– Você. – Elliot apontou com o queixo Mavie, ele mesmo nervoso pela mudança nos planos e pelo morto-vivo que se arrastava com dificuldade pelo chão. – Dá um pisão na cara dele logo, puta que o pariu – ordenou o homem cabeludo.
Mavelle, munida de todo o seu ódio, fincou uma de suas botas na testa do carniceiro, esmagando seu cérebro em vários pedaços semi-decompostos de carne pútrida. Pisou seguidas vezes, dando vazão ao medo, raiva e tristeza que já sentia. Tyreese, próximo daquela cena, a encarava com dificuldade em meio a dor da mordida que levara.
– Menina, jogue a chave dos portões para a gente, e daquele carro que vocês mantém parado ali. – Orlando apontou para um 4x4 blindado que ali havia. — Vamos meter o pé o mais rápido possível daqui, Elliot. Se nos pegarem, isso vai dar uma merda sem tamanho – o homem falou, ansioso.
Mavie, apenas querendo se livrar logo daqueles dois homens, fez o que foi ordenado com rapidez. Jogou as duas chaves nos pés de Orlando, olhando junto a Rick, Daryl, Carl e Annie para Tyreese, que parecia cada vez mais carente de cuidados médicos. Cada um dos indivíduos tinha uma expressão diferente, demonstrando ódio, rancor, raiva, surpresa e medo, tudo ao mesmo tempo.
Se não cortarmos logo o braço dele, ele vai se transformar. Pensava Mavelle Berry, ansiosa e aflita.
– Só um segundo, Orlando – Elliot falou, e parecia enlouquecido.
– Não inventa cara, vai dar merda, vai dar merda – o outro sujeito garantiu, nervoso.
– É rápido. Se depender da boa vontade dela, é bem rapidinho. – Os olhos cobiçosos do homem se focavam nas curvas de Mavie.
Ela sentiu o pânico alastrar-se como uma droga injetada em seu corpo. Tyreese estava morrendo, e Elliot conseguia pensar em abusar sexualmente dela ainda assim.
Daryl fez menção de se aproximar de Mavie, mas Rick o puxou novamente. Os dois se encararam em silêncio, o arqueiro parecendo incomodado com a frieza do pai de Carl, em um embate silencioso. Rick deu um olhar de esguelha que durou um milésimo de segundo para o alto do prédio do Aquário, e Mavie seguiu a direção de seus olhos azuis brilhantes. Conseguiu enxergar, disfarçado em meio ao teto da construção, um brilho cinzento característico que só poderia significar uma coisa.
Alguém subira com um rifle sniper.
Alguém sabia o que estava acontecendo ali.
O arqueiro, demorando a mesma fração de segundo para entender, abaixou o braço que Rick segurava. Mavelle se esforçou o máximo que pôde para fingir que não vira que era apenas uma questão de tempo para que tanto Elliot quanto Orlando estivessem mortos.
Finalmente. Pensou ela, vingativa.
– Gostosinha, tire a blusa. E depois o sutiã. Deixe-me ver um par de peitos bonitos antes de voltar para esse mundo cão – brincou ele, passando a língua dos lábios e nos dentes, sorrindo com sadismo para ela. A faca no pescoço de Carl já estava manchada com o sangue do pequeno ferimento que fizera no garoto, escorrendo até sua blusa.
Mavie, entrando no jogo do homem de mente doentia, tirou a blusa com rapidez, fingindo estar em pânico. O arqueiro, ao lado de Rick, parecia muito incomodado com aquilo, encarando Elliot com um olhar que era um juramento de morte.
Nenhum dos homens do grupo olhara para Mavelle, provavelmente em um gesto de solidariedade, enquanto o olhar de Elliot fuzilava seu corpo, como se estivesse se deliciando com aquilo. Orlando a encarava, também, mas não deixava de passar os olhos ao redor, temendo que alguém os encontrasse.
Enquanto fingia que iria retirar o top que usava por baixo da blusa, Mavie ouviu apenas o som surdo de uma bala perfurando um crânio.
Orlando caíra no chão, desfalecendo de imediato. Elliot mal teve tempo de encarar o corpo que tombara ao chão, morto subitamente, quando dois tiros certeiros, mais altos, dessa vez, atingiam sua mão esquerda e sua mão direita. Ele gritou de dor, a faca caindo de suas mãos, abaixando os braços por um segundo, enquanto Carl corria para longe, para perto de seu pai.
A avó de Mavie, rápida para a idade longeva que tinha, abaixou-se o mais ligeira que pôde e guardou consigo as armas que Orlando roubara de si. Enquanto isso, tanto Daryl quanto Rick andaram rapidamente na direção de Elliot.
Daryl Dixon puxou-o pelo colarinho, desferindo-lhe socos fortes no rosto até quebrar alguns de seus dentes, fazendo o homem gritar ainda mais, enquanto Rick Grimes pegava a faca afiada que o sujeito derrubara ao tomar os dois tiros. Mavelle vestiu sua blusa outra vez, em seguida alcançando seu arco, botando a aljava com as flechas em suas costas, tentando entender rápido o que Rick pretendia.
Grimes empurrou Daryl para o lado, puxando o homem barbudo remanescente para perto de si.
– Vamos ver para onde você vai fugir? – Rick Grimes debochou, sua voz gélida e amedrontadora trazendo um calafrio de medo até mesmo para Mavie.
– Não, por favor, me desculpe, me desculpe... – Elliot pediu, suplicando, seus olhos enchendo-se de lágrimas.
– Por que não está sorrindo agora? – perguntou Rick, na mesma voz cínica, abrindo um corte enorme na boca do homem, perfurando a carne de sua bochecha, desfigurando seu rosto para sempre.
O pai de Carl levantou a faca e enfiou-a pelo braço direito de Elliot, cortando-o profunda e imediatamente e fazendo-o soltar gritos de desespero e dor agonizante. Puxou a faca, esfaqueando em seguida o braço esquerdo do homem, que não parava de berrar em pleno horror e sofrimento.
Rick pretendia torturá-lo até a morte, e não matá-lo rapidamente.
Mavelle desviou o olhar, e correu na direção da avó, abraçando-a com força. Daryl havia ido até Tyreese, tentando ajudá-lo a levantar, e Annie e Mavie foram também acudi-lo, em seguida. Carl encarava o pai, seu rosto mostrando uma expressão de medo ao reconhecer na figura paterna uma capacidade para a crueldade que parecia assustá-lo.
– Ajudem-me a levá-lo até o compartimento médico – a avó de Mavelle solicitou, alarmada. – Talvez ainda dê tempo – ela falou, tentando soar esperançosa, mas Mavie já não acreditava muito que haveria alguma chance de salvá-lo.
Jed subitamente surgiu, caminhando rápido, sua arma em punho apontando para Elliot. Atrás dele caminhavam Billy Ray, Haywood e Buck, todos parecendo muito alarmados e preocupados. O idoso ordenou a todos que separassem Rick de Elliot, o que foi feito à duras penas.
Billy, porém, assim que conseguiu fazer Grimes se desvencilhar do homem que ameaçara seu filho, foi até Mavie e a puxou para um abraço forte, tudo tão rápido e ríspido que ela literalmente caiu nos braços dele. Ela o abraçou de volta, um pouco constrangida e com bem menos intensidade, seu rosto encaixado no ombro do sulista do Alabama.
– Que medo eu tive de te perder, menina – sussurrou Billy Ray aos ouvidos de Mavie, apertando-a com força naquele abraço, sua voz tão sincera que a deixou sem palavras.
– Eu estou bem – a irlandesa falou, tentando se esquivar do aperto. Não era hora para aquilo, Tyreese estava morrendo ao lado deles.
Billy Ray a soltou, um pouco a contragosto, dando um olhar rápido de desprezo para Daryl, e depois ajudando Haywood a carregar Elliot, desmaiado, para dentro do Aquário. Rick já seguira para o edifício junto a Jed e Carl, e agora Buck auxiliava Daryl Dixon a carregar Tyreese para levá-lo à ala médica.
Daryl dera um olhar arisco para Billy, enquanto ele abraçara Mavelle daquele jeito. Um olhar que não durara nada além de um milissegundo, mas que ela percebera, ainda assim.
Não era hora de pensar naquilo tudo, pois tinham coisas muito mais urgentes para resolver. Assim, Annie, Mavie, Daryl e Buck carregaram Tyreese até o setor médico do Aquário, onde a médica lhes disse para deixá-la sozinha com o biólogo marinho, que tentariam o melhor possível para remediar a situação.
Daryl se despediu de Tyreese dizendo-lhe que tivesse forças, e o homem apenas anuiu com a cabeça. Parecia estar em outra realidade, como se as pessoas ao seu lado não estivessem ali. Como se ele enxergasse outro lugar ao seu redor, e outras companhias junto consigo.
Mavie, por sua vez, foi até ele e segurou em sua mão ensanguentada.
– Desculpe-me. Desculpe-me, de verdade – a garota morena suplicou, seus olhos marejados de lágrimas.
– Não se preocupe – Tyreese respondeu. – Eu sei que você tinha que fazer isso – o homem garantiu. – Vai ficar tudo bem, Beth. – o irmão de Sasha falou, e desmaiou em cima da maca.
Beth? Mavie piscou os olhos algumas vezes, e Annie a puxou para longe com discrição. A idosa fez um gesto com os olhos para Daryl, enquanto ela e Buck estudavam o braço de Tyreese, vendo como fariam para retirá-lo rápido e salvá-lo da morte.
O arqueiro colocou os dedos em volta do ombro de Mavie, tocando-a de forma leve, porém firme.
Mavelle voltou-se para ele, seus olhos de avelã esverdeado olhando de Tyreese para o caçador, marejados ainda. Querendo entender. Querendo saber se ele ouvira também.
Querendo saber se ele também achava que ela era Beth, ou algo do gênero.
– Vamos. – Daryl puxou-a pelo ombro para fora da sala médica.
Confusa e atordoada, Mavie seguiu junto ao homem na direção que ele a levava. Encarava o chão, sua testa franzida. Tudo aquilo que acontecera era informação demais para digerir.
No meio do corredor, foram parados por Jed, que os levou até uma sala do segundo andar onde Mavie sabia o que os esperava. O resto do grupo estava parado no primeiro andar, a não ser por Haywood e Rick Grimes, que os aguardavam dentro do cômodo do andar de cima.
E também Elliot, sentado em uma cadeira, amarrado dos pés à cabeça. Ainda desmaiado.
A um sinal de Jed, Haywood jogou uma garrafa de água no rosto de Elliot, que acordou assustado, gritando entre a mordaça que havia em sua boca, forçando seu maxilar.
– Você foi alertado, Elliot – Jed falou calmamente, no mesmo tom de voz que usava habitualmente. – Nós o avisamos, desde o começo, que éramos um grupo pacífico. Se você colaborasse conosco – o idoso ressaltou com voz plácida, quase gentil.
Elliot o encarava temeroso, seu olhar implorando por perdão. Mavie, mesmo sabendo que o que sentia era cruel e horrível, estava um pouco feliz por saber qual seria o hediondo destino daquele homem.
– Você quer ter as honras, Rick? – o idoso sardento perguntou, como se oferecesse uma xícara de chá para o pai de Carl.
– Será um prazer – retrucou no mesmo tom cínico Grimes, girando a manivela conhecida por Mavie. Daryl encarava aquilo com um olhar sorumbático, já entendendo o que aconteceria. Um buraco de em torno de um metro e meio de área se abriu no centro daquele repartimento, e todos ali presentes puderam ver a superfície da água levemente movimentada.
E todos agora sabiam porque os outros estavam no primeiro andar, literalmente abaixo daquela sala.
Na frente do tanque principal de tubarões.
– Você tentou estuprar uma das nossas. Matar uma criança. E assassinar uma idosa. E, por sua culpa, um dos nossos também foi mordido – Jed falou, enquanto tirava com brusquidão a mordaça em volta dos lábios cortados de Elliot, que gritava entre a dor e o desespero.
– Eu peço desculpas, eu imploro, por favor, eu imploro, me perdoem, por favor, me ajudem, por favor, eu imploro... – O homem implorava, chorando, sua barba e cabelos machados pelo seu próprio sangue.
– O que você fez vai além de qualquer perdão, infelizmente – rebateu o idoso. – Pelo bem do nosso grupo que você ameaçou e atacou, teremos de matá-lo – Jed usou da mesma frieza de Rick antes de torturar Elliot.
– Mas sinta-se bem por uma razão: sua morte será útil, ao menos. Vai alimentar nossos animais. E, com nossos animais alimentados, nós também teremos comida garantida. Talvez você possa perdoar a si mesmo ao saber disso. – Jed lhe deu um sorriso dissimulado que fez Mavie engolir em seco.
– NÃO! POR FAVOR, NÃO! TUDO MENOS ISSO... – Elliot gritava por clemência, mas foi tarde demais. Haywood e Rick desamarravam os nós que o prendiam na cadeira, e o pai de Carl, por sua vez, empurrou o homem ensanguentado para sua terrível morte.
Haywood girou a manivela de volta, fechando o buraco que eles haviam aberto, enquanto ouviam o barulho agonizante de Elliot caindo dentro d’água, tentando nadar para escapar do que não havia como fugir.
Rick Grimes já havia saído da sala, sendo seguido por Daryl, Jed, Haywood e Mavie. Pelo visto, o pai de Carl queria logo testemunhar o fim daquele homem que ameaçara seu filho de morte.
E parecia se divertir com o destino terrível dele.
Desceram rapidamente a rampa que levava alguns metros abaixo, e, por fim, viram todos os membros do Oceanário, novatos ou não, com a exceção de Annie, Buck, Tyreese e Sasha, parados na frente daquele tanque, encarando o que ali se passava.
Sem escolha, Elliot batia com os punhos cerrados no vidro do Aquário, enquanto, abaixo dele, as criaturas marinhas que ali habitavam o cercavam, pouco a pouco. Não pareciam apressadas em matá-lo, deliciando-se antes com o estudo de sua presa que ali estava, tão inofensiva, tão pronta para ser devorada viva.
Cerca de quatro tubarões nadavam em volta de Elliot, circundando-o, enquanto ele desesperadamente batia seu corpo contra o vidro do tanque, afogando-se na água.
Um tubarão branco nadou sinuosamente em volta de seus braços, aspirando com suas brânquias o sangue que manchava a água. Em segundos deu a primeira mordida, arrancando com força seu braço direito. Um tubarão galha-preta nadou até seu braço esquerdo, puxando-o para fora do corpo com seus dentes fortes, enquanto um tubarão tigre se aproximava da perna esquerda do homem. Desmembrou-o, também, ao passo que um tubarão cabeça-chata dilacerou sua perna direita, sacudindo-a de um lado a outro, mastigando a carne como se fosse tão macia quanto algodão.
O resto humano que virara Elliot fora dilacerado por cerca de dez tubarões que nadavam naquele Aquário, que pareciam ainda mais vorazes ao comer uma carne tão fresca, tão diferente da carne podre dos mortos-vivos com os quais eram costumeiramente alimentados.
Alguns peixes menores nadavam naquele tanque, perdendo-se em meio ao frenesi alimentício dos tubarões e da água vermelha manchada pelo sangue do corpo do homem que morrera devorado. Mavelle, por mais que ficasse horrorizada com cenas do gênero, não desviou o olhar por um segundo sequer. Até não restar mais nada além da água rubra, dando pouco a pouco lugar para o azul profundo.
Os sobreviventes foram paulatinamente saindo da frente daquele espetáculo macabro, alguns com o rosto em choque, outros, com expressões de repulsa ou medo. Maggie não conseguira ver a cena, escondendo o rosto. Michonne vira aquilo com um olhar incrédulo, parando de assistir antes do homem ser completamente comido vivo. Padre Gabriel vomitara no momento em que uma perna fora arrancada, e Eugene tivera de virar de costas e sentar-se, parecendo tonto. Peggy chorava nos braços da mãe, que também continha as lágrimas, de olhos fechados. Haywood abraçava as duas, sem olhar para o Aquário. Noah olhava os três, sua testa franzida, sem conseguir olhar para o ataque dos tubarões.
Tara desviou o olhar no momento em que o primeiro tubarão atacara o corpo do homem, assim como Rosita. Carl tentara olhar tudo, mas não suportara, movendo os olhos para baixo quando Elliot fora reduzido a apenas um toco de gente, e o garoto foi para longe do tanque com a irmã bebê em seus braços. Até mesmo Billy não conseguira olhar aquela cena por completo, escorando-se em uma parede e respirando fundo.
Carol encarara todos os acontecimentos, uma de suas mãos em seus lábios, andando para perto de Daryl, provavelmente aliviada ao ver que ele estava bem depois das ameaças dos dois homens.
Jed, Abraham, Rick, Daryl, Glenn, Carol e Mavie foram os únicos capazes de assistir a cada detalhe. Detalhes que jamais sairiam de seu inconsciente, e que serviriam como um lembrete de como o mundo era, naquela nova realidade.
– Ou você é a presa, ou você é o caçador – disse Jed, solenemente, encarando a água vermelha, enquanto a maior parte do grupo se dispersava. Rick o olhava com afinco, como se percebesse um duplo sentido naquelas palavras.
Como se elas não deixassem de ser, por si só, uma espécie de ameaça.
O idoso inspirou pesadamente, suspirando triste. – Nós tentamos. Tentamos fazê-los entender... Mas eles não quiseram – Jed falou, parecendo frustrado.
– Isso é o que acontece quando nos julgam por fracos – o líder do Oceanário alertou, olhando de soslaio para Rick Grimes. Mavie engoliu em seco, entendendo a mensagem velada apresentada.
Ambos os líderes de seus respectivos grupos se encararam por algum tempo, até que Jed foi o primeiro a desviar o olhar.
– Acho que é melhor voltarmos às nossas tarefas – decidiu o líder do Oceanário de Atlanta, e todos perceberam que não havia mais nada a fazer.
Mais tarde, naquele dia, o corpo de Orlando foi jogado para outro tanque de tubarões do Aquário da Georgia por Billy Ray e Haywood, e Maggie, Glenn, Mavie e Tara preparavam nos jardins uma cova para enterrar mais um corpo.
Tyreese não sobrevivera.
Durante o enterro, Padre Gabriel fizera um bonito sermão sobre o que realmente importa ser insivível aos olhos. Aquilo fizera Mavie refletir um pouco, enquanto todos do grupo prestavam homenagens ao recém falecido, cada um jogando um pouco de terra em cima de seu corpo.
Muito além da mera aparência, o que realmente importa não é tão facilmente perceptível.
Pode estar em um olhar significativo, como o grupo de Daryl reconhecendo a figura de Beth Greene, a irmã de Maggie, nela.
Pode estar nas atitudes impensáveis que um homem toma para salvar aqueles que ama, como Rick Grimes com seu filho Carl.
Ou pode estar em uma constante proteção, que não precisa de palavras, ou de gestos, ou de qualquer movimento para ser percebida. Para ser sentida.
Como a forma com que Billy Ray ficara aliviado ao ver que estava tudo bem com Mavie.
Ou como Daryl tentara ao máximo evitar que Elliot abusasse dela. E o quanto aquilo o incomodava.
A forma como ele parecia, inegavelmente, cada vez mais se importar com ela. Como se fosse de seu próprio grupo.
Como se fosse uma dos seus.
Ao fim do enterro, todos, muito emocionados e abalados, foram pouco a pouco se retirando. Alguns para descansar, outros para se ocupar e evitar pensar nas recentes perdas. Mavie, silenciosa, evitou a companhia de Billy que parecia ainda muito aliviado por ver que a garota irlandesa estava bem, e tentou discretamente descobrir onde Daryl se metera.
Precisava falar com ele. Sentia aquilo forte em seu íntimo, como uma certeza irreparável.
E, como os acontecimentos daquele dia lhe lembraram... Não tinham tempo a perder. A vida era algo frágil.
E breve demais para ser desperdiçada.
Depois de revirar o Oceanário de Atlanta inteiro, ela foi encontrá-lo sozinho próximo ao tanque das belugas, onde a garota irlandesa gostava de nadar de vez em quando. Se não estivesse tão triste, teria sorrido consigo mesma, graças à lembrança.
Fora depois daquilo que o Cupido lhe pedira sua flecha de volta.
– Estou a fim de ficar sozinho – Daryl Dixon se adiantou, rechaçando a presença de Mavie antes que ela sequer falasse. Ficou surpresa ao ver que ele já tinha reparado que ela havia chegado, quando julgava estar à espreita muito bem.
– Já vou lhe deixar sozinho. – Ela reparou que o homem fumava, olhando para a água e para a grama que havia por ali. Seu olhar estava perdido em algum lugar muito longe dali. Sentiu muita vontade de saber o que ele pensava, mas não seria inconveniente de perguntar.
– Que inferno você quer? – perguntou ele, sua voz rouca, soltando a fumaça do cigarro.
– Agradecer. E pedir desculpas. – Mavelle andou devagar até o caçador. O rosto da garota estava sério, suas feições cabisbaixas.
– Pelo quê? – Daryl retrucou, desinteressado.
– Agradecer pelo que você fez hoje. E pedir desculpas pelo que eu fiz... Por ter deixado ele abrir a porta. – Mavie se aproximou dele, devagar. Dixon não se moveu, apenas a encarou.
– Eu não fiz absolutamente nada – revidou o homem, e parecia falar aquilo com uma sinceridade que lhe doía. Talvez Daryl pensasse que poderia ter evitado tudo o que acontecera, de alguma forma. — E você não tem culpa. Eles te obrigaram. Você tinha de proteger a sua avó — o homem arqueiro respondeu com a mesma honestidade em sua voz rouca.
– Você fez muito. – Mavelle sabia que ele entendia o que ela queria dizer. Que ela percebera que tentara defendê-la ao máximo que podia dos avanços de Elliot, e como buscara ajudar Tyreese a não sucumbir à sua morte iminente.
Antes que ele pudesse responder ou se mover, Mavie o abraçou da mesma forma que Billy a havia abraçado quando vira que ela estava inteira, sã e salva. Ela escondeu seu rosto no peito do caçador arqueiro, e sentiu uma curiosa sensação de calma ao aspirar o aroma natural do corpo dele. Como se aquilo a deixasse mais reconfortada depois de tantos momentos horríveis.
Por alguns segundos, Daryl Dixon não se moveu. Entretanto, depois de algum tempo, Mavie sentiu uma de suas mãos fechar-se com suavidade, porém fixamente, em um dos braços dela que o enlaçavam. A outra mão do homem passeava por sua cabeça, passando-a delicadamente por seus cabelos morenos.
Ela aproveitou aquilo por algum tempo, sentindo seu coração batendo forte, acelerando-se de uma forma gostosa. Só havia sentido aquilo uma vez, há muito tempo, em outra vida, quase.
Daryl realmente a atraía muito, e bem mais do que ela podia imaginar.
Mavelle soltou-se devagar, olhando para o rosto do caçador, que também afastou as mãos, parecendo sem jeito. Se não estivesse entristecida por tudo o que acontecera, teria sorrido do embaraçamento dele. Não condizia com aquela imagem de durão que ele gostava de passar.
– Muito obrigada. De verdade – a garota irlandesa agradeceu e se afastou dele, deixando-o a sós com seus pensamentos.
– Hey – o caçador chamou baixo, quando ela já se afastava. Mavie girou nos calcanhares, um pequeno sorriso querendo se formar em seu rosto, mesmo em meio a tamanho sofrimento vivenciado.
– É bom ver que você está bem, Esquila – disse Daryl, seus olhos azuis olhando-a significativamente.
– E é bom ver que você está bem, Cupido – retrucou ela, com um sorriso discreto no rosto, sentindo-se entre a tristeza e algo que ela ainda não sabia explicar o que era realmente.
Mavie andou para longe, indo cumprir as atividades que lhe restavam do dia. Todos temos trabalhos a fazer. Ela pensava, se impulsionando para seguir em frente, mesmo depois de tudo.
Padre Gabriel e seu sermão estavam certos.
O essencial era mesmo invisível aos olhos.

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