Hunter's Instinct
1 Episódio 1 - A Country Folk Can Survive
Notas iniciais
The preacher man says it's the end of time
And the Mississippi River she's a goin' dry
The interest is up and the Stock Markets down
And you only get mugged if you go down town
Because you can't starve us out
And you can't makes us run
'Cause one-of-'em old boys raised on shotgun
And we say grace and we say Ma'am
And if you ain't into that we don't give a damn
We came from the West Virginia coalmines
And the Rocky Mountains and the western skies
And we can skin a buck; we can run a trot line
And a country boy can survive
Country folks can survive
Hank Williams Jr. — Country Boys Can Survive
— Este lugar é uma desolação – Carol Peletier sussurrou para Daryl, que movia-se à sua frente. A mulher o seguia em seus passos ágeis e lépidos, dando cobertura ao homem que caminhava com sua besta erguida firmemente, inúmeras flechas preparadas e posicionadas para lidar com qualquer imprevisto.
A folhagem da floresta temperada se erguia ao redor deles e o pouco sol vespertino já caía tardio, iluminando sem muita generosidade o ambiente. O vento frio e cortante junto ao silêncio incomum daquela mata apontava que uma tempestade se erguia na direção sudoeste. Tudo em volta trazia ao grupo de pessoas que ali se reunia a indesejada sensação de infortúnio fatal.
— Que lugar não é, hoje em dia – Daryl Dixon retrucou com poucas, porém, precisas palavras. Nunca fora de falar muito. Dizia muito pouco durante uma caçada.
E falava ainda menos depois de tudo o que acontecera no hospital.
Ao redor deles, não havia sequer ruídos guturais dos errantes esgueirando-se há muitas milhas desde quando haviam começado a adentrar aquele terreno. Nenhum sinal de animais, nenhum sinal de pessoas, nenhum sinal de vida. A floresta parecia extinta de seres vivos, parecia transpirar, parecia respirar a ideia sufocante de... Morte.
— Sempre radiante, não é, pookie? – a grande amiga lhe respondeu, com um sorriso rápido desaparecendo de seu rosto tão ligeiramente quanto surgiu. Daryl manteve-se em silêncio, suas feições inexpressivas buscando concentrar-se no ato de caçar.
— Acho que não vamos encontrar nada por aqui... Talvez devêssemos buscar um curso d’água para pescar? – Rosita, uma das novas membras do grupo de sobreviventes, companheira de Abraham, aproximou-se dos dois. Seguia por último, fechando o trio que procurava por caça para levar ao resto do grupo. Mantinha sua arma pendurada firme pela bandoleira, seus olhos atentos para qualquer movimentação estranha.
Rick Grimes, Michonne, Carl e todos os outros encarregavam-se de saquear um antigo mercado em Greenville, cidade dentro de South Carolina, estado vizinho à Georgia. Daryl, sendo o melhor caçador e rastreador do grupo, achou melhor reunir apenas um par de sobreviventes mais leves e furtivos para lhe acompanhar em outra tarefa.
Assim, levava consigo Carol, por ser indiscutivelmente muito próxima de si e provavelmente a sobrevivente mais apta do grupo. Rosita ia com ambos por suas habilidades no campo aberto. Abraham, Eugene, Tyreese e Sasha, armados de rifles de longa distância, faziam a segurança do grupo de caçadores patrulhando as fronteiras a leste da floresta, onde haviam estacionado um enorme jipe que os levara até lá.
Naquele momento, Daryl, Carol e Rosita encontravam-se quilômetros adentro da Floresta Nacional de Nantahala. Haviam combinado com os outros sobreviventes de se encontrarem em Pickens, cidade que equivaleria a metade do caminho entre Greenville e a extensão de terra onde caçavam. Estabeleceram o prazo para o encontro até o raiar da manhã do dia seguinte.
A última vez em que estivera em um local assim fora há algum tempo. Com uma solitária companhia feminina, uma criança, quase, que crescera rápido demais. Falante demais, burra demais, irritante demais... Boa demais. Vibrante de vida, ingênua em seu temperamento inquebravelmente esperançoso. Alguém incapaz de perceber que manter-se assim, continuar sendo a pessoa bondosa que era, em uma realidade como a que eles viviam... Apenas atrairia a morte mais rápido. Um anjo em um mundo de demônios, com asas frágeis, fadadas a serem dilaceradas sem dó. Um anjo que sabia que iria cair, e que quando caísse não mais se levantaria. E tola como era, insistia em voar. Até o último suspiro.
Desolação. Daryl Dixon pensou, levantando os olhos para galhos altos e menos grossos das árvores de troncos finos em cadência quase infinita ao longo da floresta. Era um bom nome para descrever o que todos eles sentiam. Era aflitivo, e doía fundo, e o passar do tempo parecia apenas solidificar o sofrimento.
Lembrar do sorriso daquela menina o afligia de uma forma quase insuportável.
— Será o caso de acamparmos? Já está escurecendo – Rosita sugeriu novamente, parecendo um pouco incomodada pelo silêncio dos outros dois. Interrompeu os pensamentos do arqueiro, mas não, mas nunca... Nunca a ausência que se consolidara dentro de si.
Sophia. Lori. Andrea. Dale. T-Dog. Um por um todos iam, era apenas uma questão de tempo. Tempo que parecia eterno na premissa de morte, envolvendo-os como as sombras daquelas árvores fúnebres ao redor dos três.
Merle. Uma pontada de dor em seu peito desviou a atenção de Daryl por um milissegundo.
Beth.
— Não – Daryl respondeu rápido e ríspido.
— Sem acampamentos. – Ele adiantou-se ainda mais, buscando em cada vestígio de terra, grama e musgo algum tipo de pegada ou trilha deixada por uma possível movimentação animal.
Podia sentir os olhos azuis e cintilantes de Carol queimando sua nuca em um olhar fuzilante. Ela percebia o que se passava com ele, com todo o grupo, e, ora, com ela mesma. Era a mais inteligente, a mais capaz de todos eles, afinal.
Fazia algum tempo que a mulher parecia bastante preocupada com o amigo. Há alguns dias atrás, ela tentara conversar com ele. Uma conversa esquisita e um tanto pretensiosa sobre “tentar mais”. Durante tal ocasião, o arqueiro ignorou-a, como fazia quando não queria ouvir sermões da parte dela. Mas não é um problema meu. Dixon pensou, carrancudo. Ela também mudou bastante.
Todos mudamos.
Com seus reflexos experientes pelos anos de caçada, Daryl percebeu uma leve mudança no ar morto da floresta. O cheiro quase imperceptivelmente mais úmido indicava a presença de um novo elemento até então tênue demais para ser aferido.
— Por ali deve ter um córrego. – Apontou em uma direção à sua direita, voltando o rosto para encarar as duas que lhe acompanhavam na caçada. – Nada muito extenso ou fundo pelo ruído. Vamos por aqui. – Caminhando à frente delas, ia assim indicando a direção que deveriam seguir.
A maldita floresta mantinha-se silenciosa demais para que Dixon se sentisse plenamente seguro. Nenhum coaxar de sapos, nenhum som de insetos audível, nenhum cheiro de carniça ou de pelo animal próximo. Havia algo de estranho naquele ambiente, ele sabia, e não conseguir assimilar o que realmente era o perturbava cada vez mais.
Ao enfim alcançarem o pequeno riacho que descia floresta abaixo, os três tiveram uma visão um pouco mais ampla do terreno florestal. Estavam onde o arqueiro já percebia ser um dos cumes da floresta, e era melhor que ali permanecessem, para evitar os animais mais selvagens do vale abaixo e caçar as presas que ali se escondiam, favorecidas pela elevação do relevo.
Logo, Rosita e Carol aproximaram-se do riacho, e passaram a encher alguns galões de água. Daryl Dixon observou por trezentos e sessenta graus os arredores, a besta empunhada por todo o tempo de estudo do ambiente.
De súbito, ouviu o som que temia. Um tremor característico, inconfundível, em um galho de uma árvore grossa, metros e metros acima de si, denunciou o que ele mais receava encontrar.
Não fora produzido por um pássaro, ou alguma espécie de símio. O galho se movera por conta de algo mais pesado.
Não estamos sozinhos.
Tentando agir com o máximo de discrição que podia, Dixon caminhou em direção a Carol. A cada passo, mantinha consigo a certeza de protegê-la dura e firme em sua mente. Seus ouvidos estavam atentos para o sinal de qualquer movimentação humana, mas estava certo de ter percebido apenas uma pessoa presente naquele ambiente, além dos três caçadores.
Logo que se aproximou dela, Carol Peletier levantou seus olhos azuis luminosos para o amigo. Bastou um olhar trocado entre eles para que ela compreendesse: Daryl viu de relance que ela movera devagar os dedos para o coldre que levava a arma.
Em uma fração de segundo, Daryl apontou a besta na direção certeira de onde ouvira o som singular. Carol levantou a pistola e estava pronta para atirar antes mesmo que ele soltasse a flecha, e movimentou-se alguns metros ao lado do amigo.
E esse foi seu grande erro.
Carol gritou, e Daryl foi acometido por um horrendo sobressalto. Voltou-se de imediato para o lado onde a amiga estava, e viu que, escondido em meio a terra úmida do rio, muito abaixo da lama para que reparassem, alguém escondera uma enorme, afiada e perigosa armadilha para ursos. Rosita correra para acudir, mas seu olhar mostrou ainda mais terror ao ver o que inspirara o grito da mulher próxima a ela.
A armadilha dentada se fincara em cheio na canela direita de Carol.
Tomado pela certeza gélida do medo e do ódio que já o acometiam, Daryl arrancou de um dos bolsos uma bandana azul e a colocou entre os dentes da amiga, permitindo que ela mordesse o pano para não desmaiar de dor e não mais gritar.
A mulher de olhos azuis sofria dores horríveis em sua perna, já caindo pelos braços de Daryl que a tentava manter de pé. Ele logo puxou Rosita pelo braço, seus olhos fuzilando o rosto da mulher morena para que esta ajudasse Carol enquanto ele finalizava o que tinha de ser feito.
Você está morto, seu filho da puta. Um ódio mortal fervia pelo peito do arqueiro, sabendo que ele não aceitaria, ele não permitiria que perdesse também Carol. Não perderia mais ninguém.
Mirando com precisão, Dixon soltou a flecha da besta, um desejo cruel de morte o assaltando por dentro.
— Ai! – Uma exclamação de aflição aguda e surda se fez ouvir. Quem produzira o som tentara disfarçar, mas a dor de ser perfurado por uma flecha é um tanto difícil de se esconder. Curiosamente, não era o timbre que esperava. Daryl escutara um lamento feminino, e, ao que parecia... De alguém jovem.
Em seguida, ele apenas ouviu um zumbido passar zunindo por seus ouvidos, e sentiu uma pequena pontada em seu pescoço. Quase como se uma vespa tentasse picar sua orelha e errasse o alvo.
Subitamente, ele sentiu uma tontura muito forte. A besta quase caiu de suas mãos, mas ele insistiu em mais uma flechada. Errou. A flecha perfurou baixo o tronco da árvore, e não a pessoa que se escondia galhos acima e sobrevivera a sua primeira tentativa de ataque.
Segundos depois, ele se viu caindo ao chão. A grama roçava em seu rosto e braços desnudos, mas ele insistiu em se arrastar na direção de Carol. Ela e Rosita estavam estiradas na grama, os braços caídos de qualquer jeito, de olhos fechados, inertes lado a lado. O sangue se espalhava pela calça de Carol, manchando tanto a metálica armadilha fechada em volta de sua carne quanto a grama verde de uma coloração rubra agourenta.
Não. Daryl gritou em pensamento. NÃO. A Carol não. Não.
Ele levantou o braço na direção de sua amiga, querendo ajudá-la, mas seus músculos não o obedeceram. Seu queixo caiu com força no chão e ele sentiu seus dentes trincarem. Logo depois, ouviu mais um zumbido muito próximo de seu ouvido direito, seguido da mesma sensação de ferroada, então na nuca. Abrir os olhos era um esforço tão grande quanto seria o de levantar um urso pardo com a força dos braços.
Daryl ouviu o som de dois pares de pés caminhando decididos para perto dele e enfim fechou os olhos.
****
— Mavie, não acho que o dia esteja muito bom para a caça hoje. Esta é a última chance de voltar. – Billy Ray, um homem alto, esguio e forte dirigia um pequeno caminhão branco, conversando com a garota sentada no banco ao seu lado. Alertou-a sobre seus receios uma última vez. Passavam por uma das rodovias desertas da Georgia, com alguns mortos-vivos se arrastando aqui e ali, mas nenhum sinal de uma horda por perto.
— Billy, qual é ‘camarada’? Vai ficar covarde agora? Não é como se estivéssemos fazendo isso pela primeira vez. – A menina morena, de olhos verdes vibrantes, entre o oliva e o âmbar, o encarava em desafio. Seus dentes da frente, levemente proeminentes, pouco a pouco se erguiam em um sorriso matreiro. Seu sotaque estava evidenciado, um leve sinal de nervosismo pela tempestade que se formava no céu diante deles.
‘Mavie’ Berry, apelido de Mavelle, seu nome de nascimento, era uma jovem irlandesa da capital do condado de Galway. Viera aos EUA em razão de circunstâncias pessoais, acompanhada de um único parente que a apoiou nessa decisão. Enquanto decorria sua estadia no país, o imprevisível aconteceu. E assim, tempos depois, ela sobrevivera como pôde.
Graças ao que aprendera.
— ‘Tome tento’, menina – o sulista respondeu, brincando. Seu forte sotaque do Alabama e gírias típicas da região eram marcas claras de sua personalidade.
— Aprenda a respeitar os mais velhos – o homem que dirigia retrucou.
— Bem, eu já tenho vinte e três anos. – A garota rolou os olhos, impaciente. Mexeu em seu rabo de cavalo, em seguida, ajeitando-o mais alto.
— E eu sei caçar tão bem quanto você. – Encarou o homem novamente, um olhar petulante faiscando em seus orbes verdes.
— No dia em que um arco e flecha vencer uma boa e velha espingarda, aí você pode tentar chegar aos meus pés. – O homem levantou uma das mãos do volante e deu um leve empurrão carinhoso no ombro esquerdo da garota, sorrindo divertido e provocando-a de volta.
— Te enfio uma flecha mais rápido do que você corre ‘encagaçado’ pelos ursos – ela respondeu, abusada, rindo alto.
— Você é muito atrevida para uma leprechaun*, sua fedelha! – O sulista moreno deu um beliscão de brincadeira no ombro da jovem, que reagiu dando-lhe um tapa na mão e se encolhendo contra a porta ao seu lado. Ele riu, e continuou a falar, voltando as duas mãos ao volante:
— Está precisando tomar uns tiros de sal para aprender o seu lugar – Billy debochou.
— Vamos ver se você continua ‘cheio de banca’ lá na floresta, caipira caduco! – Mavie respondeu insistindo na brincadeira, mas logo ambos tiveram de se calar, ao avistarem um grupo maior de mortos-vivos após uma curva na rodovia. Saíram do caminhão e mataram por volta de uma dúzia, Mavelle usando seu arco e flecha com esmero, limpando as flechas assim que acertavam em cheio a área sensorial do cérebro daquelas criaturas grotescas.
Após algum tempo de “limpeza” e viagem, os dois chegaram aos limites da floresta de Nantahala, terreno já muito conhecido para ambos. Antes de todo aquele horror, essa floresta era uma enorme reserva natural, repleta de espécies ameaçadas de extinção, fornecendo um ecossistema rico, balanceado e variado.
O paraíso dos caçadores.
Assim, subiram com o caminhão muito ao norte da mata para a trilha de sempre, escondendo-o próximo a uma encosta. Caminharam por alguns minutos, Mavelle carregando uma grande mochila de escalada para guardar a caça menor, além da aljava de flechas atravessada em suas costas.
Deram sorte naquele dia. Os raios longínquos da tempestade formada mais para perto do sudoeste rugiam inclementes, atraindo para aquela direção os possíveis mortos-vivos que podiam habitar aquelas terras.
Passaram horas cercando uns pequenos córregos onde muitos cervos, alces, coelhos, javalis e até mesmo ursos se dirigiam para beber água e pescar. Ali a garantia de caça era maior, fora a também melhor visibilidade, com menos árvores ao redor. Entretanto, naquele dia, os animais demoraram a se aproximar. Rechearam o local com armadilhas e arapucas, mas ainda assim ficaram um bom tempo sem aferir nenhum sinal de vida.
Mavie, com seus ouvidos mais aguçados e visão atinente, caçou primeiro. Acertou uma gorda lebre bem em seu olho direito, a ponta da flecha cravando-se em sua cabeça matando-a de uma vez.
— Eu falei que eu era melhor – debochou a garota morena para o homem que a acompanhava na caçada.
Ao voltar seus olhos para o rosto de Billy Ray, porém, a jovem mulher engoliu em seco. As feições do homem estavam sérias, suas íris castanhas fixas nos olhos de avelã esverdeado de Mavie. Ele levantou um dedo indicador, erguido na frente de seus lábios, indicando claramente para que fizesse silêncio. Ela compreendera o que aquilo significava.
Pelo visto, tinham companhia.
Os dois se apressaram em apagar qualquer vestígio de seus próprios rastros, e seguiram ainda mais ao norte, chegando ao ponto que era o terreno mais elevado da floresta. Andando o mais levemente possível para não deixar trilhas perceptíveis, cada um subiu em uma árvore grossa, estabelecendo-se muito acima do chão, nos galhos mais altos que poderiam aguentá-los. Aquela estratégia de camuflagem fora até então infalível, tanto para evitar os mortos-vivos quanto pessoas... Indesejáveis.
Mavie escondeu-se o melhor que podia atrás das folhagens grossas de um carvalho escarlate, que se mimetizou bem com seu casaco vermelho. Billy Ray subira em outro carvalho ao seu lado, alguns bons centímetros acima do tronco em que ela se escondera.
Seguiram-se alguns minutos de silêncio, e Mavelle passou a ouvir claramente passos humanos... De humanos realmente vivos, se aproximando. Engoliu em seco mais uma vez, rangendo em silêncio seus dentes. Temia muito mais as pessoas racionais do que aquelas criaturas monstruosas. A capacidade humana para o mal é ainda pior quando se é capaz de raciocinar, e não se está meramente repleto de um instinto devorador.
Mavie moveu seu corpo um pouco mais para baixo, pendurando-se de leve para fora do galho, arriscando-se o máximo que podia por trás das folhagens vermelhas que a acobertavam. O grupo que se aproximara muito abaixo do tronco em que ela estava era composto de três pessoas.
Uma mulher de cabelos grisalhos e bastante curtos, magra e esbelta. O sol vespertino brilhou acima dela, e a irlandesa viu que a mulher de cabelos curtos portava uma arma em um coldre mantido em seu cinto, parte do cabo resplandecendo prateada pelo reflexo vislumbrado. Além dela, havia uma mulher mais nova, de pele bronzeada, cabelos bastante escuros e longos, levando consigo uma espécie de rifle.
Por último, havia um homem. Alto, com cabelos escuros e levemente compridos, de braços fortes e desnudos emoldurados por um colete de couro, com uma estampa de asas angelicais em suas costas. Levava consigo uma besta, e, por sua expressão, parecia o mais perigoso entre os três.
Mavelle Berry levantou rápido o olhar para o rosto de Billy Ray, escondido na outra árvore. Ele moveu lentamente o rosto em um meneio de cabeça afirmativo, como se lhe dissesse silenciosamente que estava tudo sob controle.
Mavie, por sua vez, aquiesceu também quieta. Por alguns instantes, ouviram apenas o som das duas mulheres enchendo alguns galões de água, e o homem que lhes dava cobertura rondava os arredores, parecendo alheio a presença dos dois empoleirados em galhos de árvores.
A garota irlandesa moveu-se um pouco para a direita, para ter uma visão melhor do grupo. Por alguma razão, achara muito divertida a figura daquele homem. Tão sério, sorumbático, lúgubre quase... Usando um colete com estampa de asas angelicais. Era quase engraçado o risível contraste.
Deixou seus olhos atentos estudando ao longe a figura do estranho arqueiro. Porém, ainda assim, mantinha seu arco e flecha prontos, uma flecha firme no cordel caso tivesse de atirar. Por enquanto, se ocupava com a figura curiosa do homem metros abaixo, e, nesse pequeno segundo de distração, foi surpreendida ao fazer o tronco em que se escondia tremer um pouco mais do que deveria.
O homem, em uma rapidez surpreendente, talvez mais rápido do que ela quando tentava caçar, mirou a besta na direção do galho onde estava. Se Mavie se arrastasse rápido demais para trás, corria o risco de cair.
Com o coração aos saltos, ela apenas pôde recuar alguns míseros centímetros enquanto ouvia, sobressaltada, gritos vindos do trio de estranhos. Femininos. Deu uma olhadela furtiva, e reparou que a mulher de cabelos grisalhos moveu-se justamente para onde havia uma das armadilhas para os ursos, e a teve cravada em cheio em sua canela direita.
Aproveitando a oportunidade, Billy Ray retirou a arma com os dardos tranquilizantes da mochila que carregava consigo com ligeireza. Enquanto ele já se preparava para mirar e desacordar o trio, entretanto, o homem de colete angelical aproximou-se da árvore onde Mavie estava com uma postura decidida.
O desconhecido atirou uma flecha certeira de sua besta antes que Mavelle pudesse sequer piscar. Sua mira fora infalível. A flecha cortou de raspão a coxa direita da garota, perfurando um pouco da calça grossa que a irlandesa vestia.
Vinda de baixo para cima, a flecha não chegou a se fincar na sua carne, perfurando apenas o tecido da calça da garota. Mesmo tendo apenas parte da coxa cortada pela lateral laminada da flecha, Mavie não pôde se controlar por conta da dor aguda, e soltou um gemido aflitivo. Diante disso, voltou seus olhos culpados para Billy, que a encarava exasperado.
Ela retirou a flecha sem grandes dificuldades, mordendo o lábio inferior com seus dentes salientes para não denunciar ainda mais sua posição. Mavelle realmente temeu que tudo pudesse acabar ali, tão rápido, por um estúpido erro de sua parte.
No fim, tudo aconteceu muito rápido.
Nos segundos seguintes, Billy Ray se adiantou e atirou em todos os três. As duas mulheres desfaleceram mais rapidamente, entregues à forte droga pesada que havia sido injetada em sua corrente sanguínea após os tiros certeiros de Billy.
Todavia, com o homem que vestia o colete de asas não fora tão fácil assim. Mesmo após ser atingido por uma forte dose direto no pescoço, ele ainda insistira e atirara uma flecha no tronco da árvore onde Mavie estava.
Esse gouger** filho da puta é durão mesmo. Ela pensou levemente irritada pela dor do ferimento, ainda que um tanto superficial, feito pela flecha do “anjo” em sua coxa.
Billy Ray mirou mais uma vez a arma com os tranquilizantes, e acertou a nuca do homem. Ele enfim caiu na grama, soltando a besta que antes portava. Enquanto Mavelle e Billy desciam das árvores em que se esconderam, o homem do colete com asas de anjo se arrastou um pouco mais, tentando mover o braço na direção das mulheres que, pelo visto, queria proteger.
Os dois aproximaram-se cautelosamente dele, que acabara de deixar o queixo tombar junto a grama. Mavie aferiu que os olhos do estranho afinal se fecharam, e ele parou de se debater.
— E agora? – ela perguntou, ansiosa. Tanto sangue saindo da perna da mulher que fora atingida pela armadilha atrairia outros animais, ou algo pior do que eles.
— Acho que é um caso para sua avó cuidar. Especialmente da perna dessa “joãozinho” aí – Billy respondeu, coçando a cabeça, e guardando a arma dos tranquilizantes na mochila que levava em seus ombros.
— De jeito nenhum! – Mavelle respondeu, ressabiada, deixando o queixo pender levemente ante a sugestão absurda de Billy Ray. Sua coxa já não doía tanto, apenas sentia esparsas pontadas pelo ferimento superficial da flecha.
— Não conhecemos essas pessoas. Não sabemos do que eles são capazes... Não sabemos se vêm de algum grupo perigoso... – Ela passou a gesticular, nervosa, rondando os três corpos desmaiados.
— Mavie. – Billy lançou-lhe um olhar de autoridade, e ela sabia que eles não tinham escolha, de toda forma.
— Você sabe qual é o protocolo. Estamos bem precisando de uma mãozinha extra. Vamos levá-los, no aquário cabem todos os crocodilos do Mississipi e mais ainda. Com as últimas perdas, estamos em um número muito pequeno – o sulista do Alabama falou, enquanto revirava o corpo do homem de colete, retirando uma faca afiada de um dos bolsos, desarmando-o.
— Fora que o Jed vai querer dar uma olhada neles – disse, concluindo, enquanto passava a desarmar as mulheres.
— Eu acho um tanto arriscado, mas... – a irlandesa tentou insistir uma última vez, mas Billy Ray a cortou:
— ...Mas não é a gente que decide. Então corre ‘pro’ caminhão e vem dirigindo até o fim da trilha, que eu não vou ficar arrastando esses três pelo ‘raio que o parta’ – Billy falou, e Mavie sabia que não tinha outra escolha.
*****
Tudo estava escuro. Escuro demais. Uma sensação gélida percorria seu corpo, e ele sabia que precisava se aquecer. Sentia todos os seus músculos moles, enfermiços, como se não tivesse mais qualquer vontade própria. Era difícil, muito difícil, se mexer.
Depois de muito tentar, Daryl Dixon piscou os olhos. Sua primeira visão foi uma luz azulada, metros e metros acima de sua cabeça, em um teto metálico, lembrando uma espécie de fábrica, depósito... Um compartimento moderno de armazenamento.
Tentou mover os músculos da boca, buscando lembrar o que acontecera. Não conseguia se recordar de nada das últimas horas. Nem sequer lembrava porque estava dormindo.
Que lugar era aquele? Onde estavam os outros? Rick, Michonne, Carol...
Carol. Dixon pensou, e a imagem de Carol Peletier gritando de dor ao ter uma armadilha de urso fechando-se em sua perna direita desenhou-se instantaneamente em sua mente. CAROL! O homem gritou em pensamento. Tentou mais uma vez mover seus lábios, mas mal conseguiu afastar os dentes.
Depois de minutos aflitivos, Daryl Dixon conseguiu enfim movimentar seu pescoço para a esquerda. A visão que teve quase o fez ter certeza de que ainda estava sonhando.
Uma idosa de cabelos brancos como os que eram de Hershel, vestida com um jaleco também alvíssimo, parecia tratar a ferida de Carol, junto a um grupo de duas mulheres jovens e um homem negro. Apenas ela vestia jaleco, mas os outros lhe passavam instrumentos médicos, mexiam em algo como um soro que fora injetado no fluxo sanguíneo de Carol, ou apertavam um saco do que parecia sangue transmitido para as veias de sua amiga. As mulheres que andavam para lá e para cá ao longo da maca estavam de costas para ele, e a idosa e o homem de frente.
Após alguns instantes tentando entender o que acontecia, Daryl se esforçou para se levantar. Ninguém machucaria Carol enquanto ele estivesse vivo, e eles já haviam feito isso. Enquanto a mulher mais baixa se moveu para a esquerda, Daryl vislumbrou o rosto de Rosita desacordado, na maca ao lado da de Carol Peletier. Subitamente, lembrou-se de que também estava na companhia dela quando sua amiga fora atacada.
Mais além, podia ver paredes cinzas, hermeticamente fechadas, e inúmeros animais aquáticos nadando em aquários altos, que subiam até o teto. Sentia-se preso em uma espécie de jaula muito vasta, exposto, de certa forma. Em volta dele haviam estantes e estantes de medicamentos e instrumentos que ele não conhecia, e um forte cheiro de peixe e maresia ao redor.
Rick. Rick não sabe. O desespero crescia continuamente dentro dele, percebendo que o grupo mais uma vez se separara, e ele não conseguira proteger aqueles que lhe eram caros. Sabia que precisava agir, fugir com as duas mulheres para bem longe, mas seu corpo não lhe obedecia.
Em um esforço sobre-humano para se levantar, Daryl escorregou parte de sua perna e braços para fora da maca. Fraco como estava, temeu cair e quebrar o pescoço, uma vez que seus músculos não mais se moviam direito.
A moça mais alta, de cabelos morenos presos em um rabo de cavalo, girou nos calcanhares como se tivesse percebido sua movimentação. Correu na direção dele, e puxou seu corpo para cima da maca, fazendo aparentemente muito esforço por conta do peso. Enquanto ela o ajudava a voltar para a maca, o homem negro e a idosa se aproximaram. Daryl tentou agarrar os braços da garota morena, reparando que ela tinha os dentes da frente um pouco proeminentes.
Ao mover sua mão esquerda para tentar segurar o punho direito da garota levemente dentuça, Daryl fechou sua mão com uma delicadeza ridícula na mão dela, errando rudemente o movimento que pretendia.
— É bom te conhecer também, Cupido*** – a garota debochou, falando com um sotaque forte que ele não conhecia. Daryl Dixon encarou os olhos dela enquanto a idosa se aproximava do pescoço dele com uma seringa. Eram olhos entre o verde e o castanho, ele não tinha certeza. Sua mão que não o obedecia ainda segurava a mão da garota morena, que não repeliu o contato.
— Suas amigas estão bem, não se preocupe – a mulher de idade falou, pressionando a agulha no pescoço de Dixon.
Enquanto isso, a moça que segurava sua mão sorriu. Seus dentes ficavam menos esquisitos assim. Com mais uma incômoda sensação de pontada, Daryl tentou se mover, mas foi um esforço à toa. Adormeceu outra vez, sua mão escorregando da mão da jovem mulher para cair acima de sua barriga. Antes de cair em sono induzido, ouviu a voz da garota dizer:
— Bem-vindo ao Oceanário de Atlanta.
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