Hunter's Instinct

89 Episódio 89 - Hunted by Doubts


Notas iniciais
BOA NOITE MEUS LEITORES E MINHAS LEITORAS AMADOS E AMADAS! Como estão todos vocês? Espero que muito bem, obrigada. Eu me justificaria por ter demorado um pouco mais do que o previsto, afinal, já tem quase um mês desde a última atualização, mas eu vim da última vez com capítulo em dobro, e ainda assim muitos de vocês não comentaram nesse meio tempo. :/ Tô chateada, não vou mentir não. Espero que não esqueçam de mim e comentem assim que puderem, eu sinto falta, sério. Dessa vez a atualização é com um "episódio" só, mas eu gostei muito dele. É mais focado em feels do que ação, mas tem ação no segundo POV. A história continua andando bastante, temos o desenvolvimento de duas tramas ao mesmo tempo em três pontos de vista diferentes, e diálogos MUITO importantes no primeiro e último POVs. Quem gosta dos meus capítulos mais reflexivos e voltados para os sentimentos dos personagens vai se esbaldar nesse. Eu confesso que gostei bastante do resultado! Capítulo está dividido em POVs de três mocinhas elegantes: Maggie, Lilah e Peggy. Espero que gostem! Dedico este capítulo a leitora Dixon Girl [https://fanfiction.com.br/u/130343/], essa linda que inclusive me deu de presente UM TRAILERZÃO DA PORRA DO ARCO DO NEGAN! Se liguem nessa maravilha das maravilhas: https://www.youtube.com/watch?v=RMjxSw__RAk&t=10s Ficou lindo DEMÁS! Essa moça é talentosa demais, tanto pras edições de imagens, para vídeos e também para a escrita! Confiram no perfil dela. Sugestão: confiram a fic Lifeline! https://fanfiction.com.br/historia/715286/Lifeline_Before_the_End/ amooo! Agradeço também aos leitores comentaristas, que não abandonam o barco e seguem essa ficwriter megalomaníaca incansavelmente, sem me deixarem (ao menos não tanto) carente: Vivi Costa, Dixon Girl, Sami, Arrriba, marcelammota, Mirah e Babi Prongs, que sempre comenta por áudio do aparelho telefônico. Muito obrigada por estarem sempre aqui comigo, suas lindas! Sabem o quanto valorizo a opinião de vocês, não posso ficar sem! AMO MUITO! E por enquanto me despeço... Até as notas finais, povo querido! Beijos e boa leitura!

"Our doubts are traitors,

And make us lose the good we oft might win,

By fearing to attempt."

William Shakespeare — Measure by Measure



“— Acho que é hora de apresenta-los ao Rei Ezekiel...”

Ela franzia as sobrancelhas, dobrando algumas mantas e arrumando fraldas descartáveis em uma bolsa a tiracolo, enquanto se lembrava das palavras de Paul Rovia. Guardava tudo com cuidado, auxiliada por Mavie, que lhe entregava a garrafinha de água de sua filha. Do lado de fora da janela do trailer, o sol estava perto de se pôr, a temperatura branda daquele dia de primavera prometendo esfriar mais do que o esperado.

Deitada em uma cadeirinha infantil que poderia ser acoplada aos bancos traseiros de carros, Bethalie dormia seu sono tranquilo. A bebê parecia ter se acostumado à sua nova vida. Cuidada pela mãe, por Carol, Enid e, ocasionalmente, por Tucker, a pequena estava segura e repleta de rostos carinhosos a postos para protege-la.

Em um novo lar.

Todavia, Maggie Rhee se perguntava se ela teria se habituado a pior mudança dos últimos tempos. A ausência do pai. Tinha suas dúvidas. A ligação que sua filha tinha com Glenn era muito poderosa. Desde o dia em que nascera, a filha dos Rhee formara um vínculo imediato com o pai. Reconheciam-se um no outro, eram como almas conexas.

Seus olhos verdes começaram a ficar úmidos. Passando o indicador com discrição no canto das pálpebras, a viúva de Glenn moveu o rosto e fitou Mavelle.

— Rei Ezekiel... Espero que esse cara seja menos arrogante do que o Gregory — tentou dar um tom de humor a sua voz. — Depois desse balde de água fria que levamos dele, se recusando a nos ajudar contra Negan... Espero que esse monarca aí não seja mais uma aposta furada. Ao menos Enid conseguiu juntar o pessoal de Hilltop. Tucker e Gaspar também. Quase toda a população está disposta a lutar — comentou, enchendo a garrafa de água.

Depois da morte de Glenn, para honrar o marido, Maggie se forçara a encarar a vida com mais leveza. Como ele costumava fazer. E isso repercutia até mesmo em seu senso de humor. Muitas vezes se perguntava como Glenn lidaria com uma situação específica, e, conhecendo seu saudoso companheiro, tinha certeza de que nunca deixaria de ser espirituoso.

— É. Tomara — Mavie respondeu, parecendo alheia a companhia da amiga. Não levantou os olhos para a viúva. Continuou guardando alguns itens de Bethalie na bolsa de Maggie.

Maggie coçou a nuca, ajeitando seus cabelos curtos embaixo do boné que usava. Era de Glenn. Fechou os olhos e respirou fundo, imaginando as razões da irlandesa estar tão silenciosa. Ela não era assim. Era piadista e tagarela, como seu marido.

— Sabe... Eu já estive em uma situação parecida. Eu sei como é... Horrível — continuou, franzindo os lábios e mirando a neta de Annie. A garota de dentes salientes finalmente a encarou. Agora era Mavelle quem franzia o cenho, sem parecer compreender.

— Hã?

— Quero dizer que... — Maggie juntou os dedos, dando um passo para mais perto da jovem irlandesa. — ...Uma vez, quando morávamos perto de Atlanta, antes do Oceanário e de conhecermos vocês, nós topamos com um sujeito que era conhecido como “Governador”. Bem o tipo de Jed. Hashimoto. Negan. Escória do fim do mundo — disse, com um sorriso torto. — Era um ditador sanguinário. — Baixou os olhos, rememorando aquele momento difícil de sua vida, e que, ao mesmo tempo, foram tempos de uma alegria improvável. O primeiro ano de seu namoro com Glenn.

Mavelle a mirava, sem dizer nada.

— Eu e Glenn fomos sequestrados por um dos... Capangas dele. — Maggie julgou por bem não mencionar que o tal capanga em questão era o irmão mais velho de Daryl, Merle. — Ele queria saber onde nos escondíamos. Queria tomar nossa comunidade. Nem era uma comunidade na época, era a prisão em que sobrevivíamos. O lugar que, naquela época, transformamos no nosso lar — esclareceu. Mavie conhecia parte daquela história.

— Nós passamos um tempo presos. Ele queria... Extrair informações da gente — mencionou, e Mavelle desviou os olhos por um segundo. Suas íris de avelã esverdeado pareceram tremer.

— Lamento muito — a irlandesa balbuciou, sua voz saindo falha. Deu as costas para a amiga, a ajudando a levar as bolsas até o jipe em que ela, Carol, Daryl, Maggie, Enid e Bethalie usariam para dirigir até o Reino. Tucker e Gaspar continuariam em Hilltop, avaliando os ânimos. Temiam alguma represália de Gregory aos últimos movimentos.

Quando Mavelle estava abrindo as portas do trailer, Maggie segurou em seu braço, acima de seu cotovelo.

— O que eu quero dizer pra você é: eu sei o que você passou. É realmente terrível — garantiu, trocando um olhar de amparo com a irlandesa.

A neta de Annie deixou seu queixo entreabrir, e a amiga viu seus dentes salientes tremerem contra o lábio inferior.

— Maggie, você não sabe. Não tudo. Ainda bem que não sabe tudo — afirmou Mavie, se afastando da viúva. A irlandesa caminhou até o jipe parado perto, enquanto Carol e Daryl arrumavam na mala as provisões que levariam, até como moeda de troca para convencer Ezekiel.

A mãe de Bethalie a seguiu carregando a cadeirinha da filha, e a ajeitou no banco de trás com ajuda de Carol. Depois, voltou a mirar Mavelle, que agora trocava olhares esquivos e entristecidos com o caçador arqueiro do grupo.

Ela acha que não sei, pensou Maggie, respirando fundo. Coçou a sobrancelha direita e andou rápido até a irlandesa, parada atrás do porta-malas que era fechado por Daryl.

— Hey. Deixa eu falar com você um momento — pediu, fitando Mavie com mais intensidade. A arqueira crispou os lábios, e o caçador mirou as duas jovens.

— Acho que Rick precisa que a gente busque mais alguns machados — Carol comentou, dando um olhar incisivo para Daryl. Maggie a agradeceu em pensamento. O arqueiro demorou a pegar a deixa, mas passados alguns segundos, seguiu Carol.

Mavie cruzava os braços, olhando para Maggie com impaciência.

— O que é? — perguntou, mais ríspida. — Eu já disse que você não sabe...

— ...Eu sei. Eu sei, porque eu vi como ele te encarou naquela noite. Quando matou Glenn. Quando matou Tara — falou, sua voz soando mais direta e firme do que imaginara ser possível. Mavelle vacilou. Pestanejou e fitou Maggie, parecendo espantada.

— Eu me lembro de como ele falou com você. Eu me lembro do olhar dele. Eu me lembro, porque eu já passei por algo muito parecido. Quase igual. E eu posso imaginar o que você passou na comunidade dele. Debaixo do teto dele. Deve ter sido como o que eu passei. — Deu mais um passo para perto de Mavelle. A garota irlandesa cruzava ainda mais os braços, como se quisesse abraçar o próprio corpo. Dirigiu o olhar para a grama antes de fitar Maggie de novo, e mais uma vez seu queixo tremeu.

— O Governador me olhava assim também. Falava comigo assim. Ele me fez ficar nua na frente dele, trancada em uma sala com ele. Ele alisou meu corpo inteiro — ressaltou, fechando os olhos de nojo — enquanto queria me obrigar a contar onde ficava a prisão.

Calafrios de asco, vergonha e dor subiram pela pele de Maggie enquanto ela contava aquele pavoroso capítulo de sua história.

— Eu sabia que tinha de deixa-lo fazer isso, porque se não o obedecesse ele puniria Glenn. E depois, ele me jogou, sem roupas, na mesma sala que Glenn. Para nos humilhar ainda mais. Para que Glenn soubesse o que ele fez comigo. — Maggie tocou um dos ombros da amiga, que estremeceu. Ambas tinham lágrimas aos olhos.

— Eu não conseguia falar com o Glenn depois disso. Não conseguia nem vê-lo. Passei dias deitada, sem conseguir comer, sem conseguir dormir. Eu tinha nojo de mim mesma, e ao mesmo tempo tinha tanta raiva que não sabia em quem descontar. Queria poder apagar o que aconteceu, impedir o Governador de me tocar, de me humilhar, de ter visto meu corpo, me expor assim... — Maggie colocou mais firmeza no aperto do ombro da amiga. — ...Eu odiava os olhares de pena que eu recebia. Eu odiava ver o jeito que Glenn me olhava. Como se eu estivesse maculada. Marcada, de algum jeito sem solução. Eu só queria poder voltar atrás e impedir tudo de ter acontecido — sussurrou, uma das lágrimas descendo de seus olhos.

Mavelle enfim reagiu. Moveu-se para frente e se jogou nos braços de Maggie, abraçando a amiga. Poucos segundos depois, estava chorando de soluçar, enquanto as duas se abraçavam com força, cravando os dedos nas costas uma da outra. Mavelle falou contra seus ombros:

— ...Ele... Ele espancou o Daryl na minha frente fecking trocentas vezes. Me forçou a ser a assistente pessoal dele. Me obrigou a vestir uma roupa fetichista de empregada... — Mavie parou para soluçar, puxando o casaco que Maggie vestia com os dedos encrespados. — Eu estava enlouquecendo. Ele queria marcar o rosto de Daryl. Ele iria mata-lo... Eu não tive escolha. Não tive escolha... — Maggie sentia o tecido de seu casaco leve ficar molhado na altura do ombro. Mavelle não parava de chorar.

— Eu sei. Eu sei como é. Mas você é maior do que isso. Você vai passar por isso. — Maggie segurou o rosto da amiga com as duas mãos, desfazendo o abraço. Queria que a irlandesa a encarasse.

— Daryl não sabe. Eu não consigo contar... Não consigo... Fazer ele sofrer mais do que já sofreu. Eu não posso contar para ele que eu... Que eu... Eu disse que seria uma das esposas dele — Mavelle murmurou com a voz rouca, arregalando seus olhos marejados. — Eu disse que seria, e eu o beijei, eu selei uma promessa, porque senão ele mataria Daryl. Você tem ideia do que isso pode fazer com ele? Ele já está em pedaços. Eu beijei... Eu beijei Negan. — Mavelle encolheu os ombros, abraçando a si mesma outra vez, parecendo um animal acuado. Seus olhos desfocados miravam o chão, seus lábios entreabertos tremelicavam sem parar.

— Quando você estiver pronta, você conta. Ele sabe que tem algo de errado com você. E ele te ama. Ele quer saber tudo o que te faz sofrer, para te ajudar a superar — aconselhou-a, acariciando os cabelos da irlandesa. — Não o afaste. Eu fiz isso com Glenn, e não ajudou. Só me fez sofrer mais. Acredite em mim. — Segurou o rosto de Mavie outra vez. — Tudo o que vocês precisam, agora, é estar juntos. Se apoiando um no outro. O amor de vocês é maior do que isso. Maior do que tudo que ele fez com vocês. O amor cura. Faz cicatrizar. O amor dá frutos — Maggie disse, voltando os olhos para o banco de trás do carro, onde sua filha dormia acalentada.

Mavelle seguiu o olhar da amiga, e passou alguns segundos fitando Beth, enquanto a mãe da criança continuava acarinhando as madeixas da caçadora, para acalmá-la.

— Deanna e Rick sempre estiveram certos sobre você, sabia? — A namorada de Daryl comentou, depois de um tempo, secando as próprias lágrimas com as costas da mão.

— É? — indagou Maggie, sorrindo largamente e com candura para a amiga.

— Sim. Você é só uns dois anos mais velha do que eu, e tão mais sábia. Eu espero um dia ser iluminada assim — falou a irlandesa, dando um olhar de admiração para a amiga ao passo que rumava à porta do banco do motorista.

— Estou constantemente aprendendo. Mas eu não era assim. Eu era impetuosa, impulsiva, julgadora — assumiu, colocando as mãos nos bolsos da calça jeans e entrando no carro, se ajeitando ao lado da filha.

Mavelle a olhou pelo espelho retrovisor, como se não acreditasse. Maggie manteve o olhar.

— Meu pai me ensinou bastante. Beth também, minha irmãzinha — comentou, passando os dedos pelos cabelos morenos da filha, ainda adormecida.

— E eu aprendi muito com Glenn. Aprendo todos os dias. Ele ainda está aqui comigo — declarou, e com a mão livre tocou o relógio de bolso de seu saudoso marido, guardado em seu casaco. Enquanto isso, a filha do casal soltava um suspiro satisfeito em meio ao sono.

Maggie riu, mirando deslumbrada aquela pequena criança que era a maior benção de sua vida.

— Está mesmo — Mavie concordou, e Maggie outra vez a fitou pelo reflexo do espelho. Ambas sorriram uma para a outra.

Negan poderia tirar muito delas. Arrasar sua paz, sua felicidade e testar suas esperanças.

Mas jamais destruiria sua capacidade de amar.

****

— E vamos ter que te matar, se não aderir aos nossos termos.

A garota de cabelos castanhos piscou os olhos da mesma cor escura, aturdida. Olhou para sua interlocutora, uma mulher de sessenta anos de idade, sentada do outro lado da mesa de madeira na qual se recostava. Ao longo da cozinha, algumas mulheres se sentavam, tomando sopa de peixe e trocando olhares entre a líder daquela comunidade e a recém-chegada, que acabara de receber a ameaça.

Tomou fôlego, levantando os ombros enquanto aspirava fundo. Eram muitas informações para um dia só.

Fora resgatada por Cyndie, uma jovem mulher poucos anos mais velha do que si, morena, bronzeada e de cabelos ondulados e por Rachel, uma menina de menos de doze anos, de cabelos loiros cacheados, que em verdade quase a matara por tê-la confundido, de início, com um apodrecido.

Delilah Feld, depois do encontro com os Salvadores que mataram Ben e quase a estupraram, teve um acidente que a levou a cair em meio ao rio Larrington. Puxada pela correnteza, desembocara na costa do estado da Virginia, em uma pequena praia. Nessa mesma localidade, uma pequena comunidade praiana chamada Oceanside fora montada há alguns anos por um grupo de sobreviventes.

Atualmente, apenas mulheres viviam no local. Delilah fora levada e apresentada por Cyndie a sua avó, Natania, a líder do lugar. De palavras diretas, cortantes e grosseiras, a idosa fora sucinta: era pegar ou largar. Se quisesse continuar viva, não poderia sair de Oceanside. Não permitiam que outros sobreviventes descobrissem sobre a comunidade, para sua própria segurança. Queriam passar despercebidos no mundo.

Porém, ela gostara de Delilah, a julgou uma sobrevivente apta para ajudar a comunidade. Aprovou a arma que usava, uma foice cujo cano comprido e em formato de lança era também utilizável para a autodefesa. A garota aprendera a fazer a arma com as próprias mãos, e tal habilidade seria útil para Oceanside. Ter ferramentas de defesa a mais nunca era um exagero.

— Vocês não precisam ser tão... Definitivas — Lilah tentou, espalmando as mãos em cima da mesa. Parou de tomar a sopa. Parecia salgada e amarga demais, depois das palavras ameaçadoras de Natania.

— Eu posso levar Kathy e Beatrice — apontou com o rosto para as duas mulheres que jantavam consigo, Cyndie e Rachel na casa de Natania, a avó de Cyndie, além de líder local — comigo para o Reino. Eu tenho certeza de que Ezekiel aprovaria uma união entre as nossas comunidades. Ele é um governante justo, aberto, temos tanto a contribuir! — assegurou, mais empolgada, tentando dar um sorriso acolhedor.

— Eu posso ir também — Cyndie se ofereceu, parecendo favorável a sugestão. Natania a cortou.

— Você não vai a lugar algum — rebateu, séria. A garota pareceu ofendida com a dureza da avó.

— Vamos, vocês têm armas de fogo, e já me desarmaram... Vocês têm a vantagem aqui! — Delilah não desistiu e indicou sua foice, guardada com Kathy — ...Só têm a ganhar se derem essa chance ao Reino. Me manter aqui será muito menos lucrativo do que aumentar as fronteiras da comunidade! — sugeriu, tomando um gole de água de coco. Cyndie a fitou e lhe deu um sorriso animado.

— Reino... Nós conhecemos governantes autoritários, como reis — Natania afirmou, e Delilah percebeu que sua voz estava repleta de sarcasmo — e nós sabemos que eles não negociam. Você não vai nos ludibriar — asseverou, dando outro olhar duro para a garota morena.

— Eu não estou enganando ninguém! E Ezekiel não é autoritário. Ele me deu abrigo quando não tinha nada a oferecer à sua comunidade! Ele é generoso — garantiu, tocando em seu próprio peito.

— Os Salvadores eram generosos também — Beatrice, uma mulher de feições asiáticas, resmungou.

— Yeah. Quando prometeram que iriam nos proteger — Kathy adicionou, austera. Era uma mulher de cabelos curtos e lábios grossos, morena. Sua voz tomou um tom agourento.

Lilah engoliu em seco. Algo muito ruim acontecera ali, envolvendo aquelas mulheres e o grupo de Negan.

— Quem deu a palavra para vocês? — Natania as repreendeu. As duas baixaram o rosto, contritas.

— Eu quase morri nas mãos dos Salvadores. Fui escravizada por eles em uma base. E, quando fui liberta por outro grupo, tempos depois meu tio foi capturado, e Ezekiel me salvou da morte quando eu estava perdida, sem ter para onde ir. Eu fugi e sobrevivi. E não sei o que aconteceu com meu tio. Ele é a única família que me resta no mundo. Eu nunca me aliaria aos Salvadores. Eu quero resgatar meu tio, e quero distância deles — Delilah voltou a falar, determinada.

— Se Ezekiel se assemelhasse um mínimo aquelas pessoas, eu jamais o defenderia como o defendo para vocês, agora. Por favor, acreditem em mim. Vocês podem atestar a verdade com seus próprios olhos — ofereceu a ajuda mais uma vez. — Estou certa de que Ezekiel iria querer contribuir com vocês. Poderíamos trocar mercadorias, comida, suprimentos, armas. Poderíamos melhorar de vida — tentou uma última vez.

— Acha que tem algo de errado com o jeito que vivemos? — Kathy rebateu, irritadiça.

— N-não... — Delilah tomava mais um gole da sopa, e baixou a colher com um estrépito. — Não foi isso que eu quis... — buscou consertar, desajeitada.

— Basta! — Natania elevou a palma de uma mão, e todas se calaram, a mirando. — Entendi sua oferta, garota. Você não fala muito bem, gagueja e tem um jeito tonto — disse, ofensiva, e Delilah apenas arqueou as sobrancelhas, um pouco revoltada. Cyndie fitou a avó como se a censurasse. — Mas, apesar de tudo isso — a idosa ajeitou o coque que usava e deu um suspiro, olhando diretamente para a sobrinha de Redmond, com decisão em seu olhar — acho que vale uma chance. Mas só permitirei que saia daqui na companhia de Kathy e Beatrice. E desarmada — retificou.

— Ok! Eu garanto que não vai se desapontar! — Lilah disse com um sorriso luminoso. Kathy e Beatrice encaravam Natania como se não entendessem aquela determinação. Cyndie também fitava a avó com uma expressão um tanto reticente.

Delilah foi deixada em uma sala com alguns móveis feitos de bambu e palha. Toda a decoração de casa de praia do lugar era bonita e transparecia um ar de relaxamento e calmaria, mas os ânimos das sobreviventes que ali viviam traziam a interpretação oposta. Pareciam exaustas, abaladas, sofridas.

Desconfiadas da própria sombra.

Depois de algumas horas nas quais inclusive cochilou sem perceber, a sobrinha de Redmond foi desperta por um rude “levanta” dito por Beatrice, abrindo a porta da sala. Ela estalou as costas ao se espreguiçar com os braços e seguiu caminho.

Lilah reparou nas cabanas e casebres de madeira montados pelas moradoras. Eram eficientes, bem estruturados, e todas caminhavam portando armas. Estavam bem equipadas, e alimento não fazia falta, pois o oceano lhes permitia ter um suprimento inesgotável de peixes e frutos do mar. Tinham muito a trocar com outras comunidades, e, por isso, a garota não entendia aquele recolhimento exagerado.

Tampouco compreendia a completa ausência de homens ou meninos naquele local.

Ao chegar nas fronteiras da comunidade, perto de um amplo matagal, uma vegetação rasteira que lembrava as que ficavam próximas a manguezais, Cyndie e Natania se despediram da sobrinha de Redmond, que agora seria acompanhada apenas por Kathy e Beatrice. A garota notou uma troca de olhares escusa entre Kathy e Natania.

Cyndie parecia receosa, como se algo pudesse acontecer naquela jornada. Havia seus riscos, é verdade, mas Lilah tentou não pensar muito naquilo. Quando se abraçaram para se despedirem, a neta de Natania sussurrou algo praticamente inaudível aos seus ouvidos.

— Não acredite nelas — murmurou, e um arrepio de temor subiu pela espinha da sobrinha de Redmond.

Delilah franziu as sobrancelhas e soltou a garota, que a olhava com uma expressão diferente, parecendo calma e simpática. Confusa, a ex-estudante de psicologia foi levada por Kathy e Beatrice para fora dos limites de Oceanside, saindo de um dos portões de bambus amarrados.

As mulheres ligaram lanternas, pois a noite já caía alta. Passada meia hora, encontraram alguns poucos apodrecidos no caminho, os quais Beatrice e Kathy deram conta em pouco tempo.

— Vocês têm algum lugar aqui perto para passarmos a madrugada? Acho um pouco arriscado caminharmos ao léu, assim... — Delilah Feld sugeriu, cautelosa, dando um sorriso nervoso para as duas moradoras da comunidade à beira da praia. Ela achou ter percebido uma rápida troca de olhares entre ambas, antes de responderem.

— Deixe-me conferir se o mercadinho aqui perto está seguro — Beatrice falou, e Kathy confirmou com a cabeça. O arrepio que Lilah sentiu quando Cyndie a aconselhou riscou seu corpo outra vez.

Ouviu os passos de Beatrice patinharem na areia da trilha que caminhavam. Iam aos poucos sumindo à distância, e uma coruja piou em uma árvore próxima.

— E agora é que você pretendia me matar? — perguntou Delilah Feld para Kathy. A mulher, que antes mirava a lanterna em suas mãos, encarou a garota, surpresa.

Lilah não esperou mais.

Com todos os movimentos marciais que Morgan lhe ensinara, a garota partiu para o ataque. Jogou-se contra o tórax de Kathy, a derrubando no chão e desligando a lanterna. No escuro, teria vantagem, antes que a mulher reagisse.

— BEATRICE! — Kathy gritou, chamando a amiga.

— Cala a boca! — rosnou Delilah, caída na areia da trilha enquanto tentava desviar de Kathy, que arranhava seus braços tentando tirar a garota de cima de si. Ela apalpava o corpo da mulher, procurando pela arma de fogo que levava consigo, pertencente a própria sobrinha de Redmond.

Depois de desviar de alguns golpes de Kathy, a garota encontrou o revólver ASG Dan Wesson, escondido no cós da calça da moradora de Oceanside. Kathy reagia tentando fincar as unhas e até mesmo morder Lilah, mas ela conseguira travá-la contra o chão, graças as técnicas de luta que Morgan lhe ensinara.

Arrancou o revólver das costas da mulher, o destravou e o apontou para ela. A mulher de cabelos curtos tinha se lançado contra Delilah, tentando sufoca-la com as mãos em seu pescoço. Ao sentir a ponta fina do revólver prensada contra seu abdome, porém, ela recuou, erguendo os braços.

Arfante, a garota se levantou, se arrastando para trás para se erguer. A mira firme em Kathy.

Enquanto recuperava o fôlego, contudo, mais companhias chegaram. Beatrice surgira por trás da grama alta, e levantou a mira de seu rifle em direção a Delilah, assim que sua lanterna permitiu que enxergasse a situação de Kathy.

— Abaixe o rifle ou eu vou atirar — Lilah ameaçou, determinada.

— Você não faria isso — duvidou Beatrice.

Delilah lhe deu um olhar, enquanto mirou a perna de Kathy e disparou. O som ressoante do tiro cortou o silêncio noturno, fazendo a mulher de cabelos curtos gritar e Beatrice esbugalhar os olhos estreitos.

— MATE ESSA GAROTA! — Kathy rugiu, desesperada, no chão. Seus dedos abraçavam a perna esquerda, ferida perto do joelho. Beatrice correu em seu amparo, sem saber o que fazer.

— Eu não me moveria se fosse você. Dessa vez estou mirando na cabeça — Delilah falou, sua voz em um tom sério que ela mesma não conhecia. Nunca falara daquele jeito.

Nunca atirara em outro ser humano vivo.

— Ok. Tudo bem. — Beatrice anuiu com o rosto, largando o rifle no chão. Delilah o recolheu para si, junto de uma lanterna. Com um gesto, demandou que lhe devolvesse sua foice personalizada.

— O que está fazendo?! — cobrou Kathy, indignada ao ver a moradora de Oceanside entregando a arma branca de Lilah. A mulher que fora alvejada por um tiro ainda uivava de dor, largada na areia da trilha.

— Vá. Apenas vá. Deixe-me cuidar dela — a mulher de traços asiáticos pediu, se abaixando para perto da mulher de cabelos curtos que se revoltava.

Delilah Feld não abaixara a arma, somente guardou a foice. Ainda continuava desconfiada. Beatrice, mais nervosa, começou a falar, atarantada:

— Os Salvadores mataram todos! Todos os homens — contou, enquanto Kathy implorava para que ficasse quieta. — Isso aconteceu quando morávamos em um acampamento. Quando não morávamos aqui, ainda — prosseguiu, chorosa.

Lilah segurou a respiração, enquanto ouvia e mantinha a mira apontada.

— Depois de nos forçarem a trabalhar para eles, com metade de tudo o que tínhamos e produzíamos... Eles não acharam suficiente. Nunca era suficiente! — A voz de Beatrice estava embargada. Ela se ajoelhava ao lado de Kathy, que resmungava, pedindo para que parasse de contar.

— Então eles resolveram nos punir. Eles... Enfileiraram todos. Todos os homens. E usaram nossas armas. Nossas balas. Mataram todos! — enunciou, desamparada. — Mataram meu filho de cinco anos! Para passar a mensagem! — Cada palavra parecia sair daquela mulher de maneira dolorosa, como se fosse arrancada à força. O estômago de Delilah deu voltas.

— E vocês fugiram para cá? — a sobrinha de Redmond indagou, enfim entendendo as inúmeras ressalvas de Natania e suas sobreviventes.

Beatrice assentiu. Kathy se calara, apenas tremia pela dor do tiro. Deveria estar ela mesma rememorando memórias horrorosas.

Lilah anuiu com o rosto, dando alguns passos para trás.

— Eu sinto muito pelo que aconteceu. É uma pena — suspirou. — Poderíamos ter nos unido contra eles — disse, enquanto o revólver ainda estava apontado para as duas.

— Não há vitória contra eles. Só podemos nos esconder. Você é tola se acredita em algo diferente — afirmou Beatrice, meneando o rosto.

— Eu sou muitas coisas, mas não sou tola. Uma das coisas que sou, é uma garota com palavra. Cyndie me salvou. Podem dizer para Cyndie que não contarei sobre Oceanside nem para Ezekiel, nem para ninguém. Diferente de vocês, eu sei manter minhas promessas — afirmou a sobrinha de Redmond, e, depois de um último olhar para o rosto das duas, deu as costas para elas em definitivo.

Correndo noite adentro munida de uma lanterna, uma foice e duas armas de fogo potentes, a garota seguia impávida, volta e meia eliminando mortos-vivos que apareciam como ameaças solitárias.

Passou horas variando entre marcha rápida e corrida, resistente depois de todo o árduo treinamento com Morgan Jones, Billy Ray Holloway e Rebecca Gable. Parte de si estava tomada pelo pesar, pela preocupação constante com o tio que tanto amava, e também pela decepção com as moradoras de Oceanside que, fora Cyndie, tentaram lhe enganar.

Mas outra parte, a que a fazia sorrir em meio a escuridão da noite, essa parte estava orgulhosa de si mesma. Depois de anos de sobrevivência, ela se tornara quem queria ser. Uma sobrevivente apta, como até mesmo uma mulher dura como Natania teve de reconhecer.

Uma garota que, enfim, poderia fazer jus ao tio que tinha. Um homem que, mesmo com seus defeitos, era sem dúvidas conhecido por suas habilidades. Um homem capaz.

Devia ser por volta das dez da noite quando Delilah achou por bem parar. Tinha se distanciado muito, e seguira por um caminho diferente do que as moradoras de Oceanside tentaram lhe levar para a morte. Topara com uma cidade-fantasma, cheia de casas saqueadas, vazias, depredadas. Alguns apodrecidos rastejavam a esmo, mas ela conseguiu desviar deles e não chamar a atenção da maioria.

Adentrou uma casa com muros resistentes, aparentemente afastada, sem nenhum morto-vivo. Viu uma fotografia de um casal no único quarto que ali havia, era uma espécie de bangalô para casais sem filhos. Um homem loiro abraçado com uma jovem mulher muito bonita, de cabelos castanhos e olhos cor de mel.

Deitou na cama e tentou evitar o sono, mas foi mais forte do que ela. Adormeceu, e sonhou com seu tio.

“Estou orgulhoso de você, Lilah”,Redmond lhe dizia, em meio a um sorriso caloroso.

E ela sorriu durante o sono.

****

— E então? Gostou? — ele a perguntou, enquanto experimentava um gole do vinho que acabara de ser-lhe servido

O sabor da uva Cabernet Sauvignon do vinho temperava seus lábios e língua, enquanto ela fechava os olhos para saboreá-lo, sentindo seu gosto encorpado. Depois de jantar carne assada com batatas, descansava perto da lareira acesa, aquecendo aquela noite fresca de primavera, de temperaturas um tanto mais baixas do que o comum para a estação.

Aquilo tudo era sem dúvidas novo para ela. Não sabia beber, nem nunca tivera muito interesse no assunto. Ainda assim, meneou o rosto em concordância, em um sinal de aprovação.

Moveu o cálice em seus dedos, vendo a lágrima se formar no copo de vidro, descendo devagar pelo recipiente. Era um vinho de qualidade, um Paul Hobbs de 1998. Sorriu, pensando em como era improvável estar aprendendo sobre aquele gênero de bebida alcóolica depois que o mundo acabara.

Era como se ter aquele pequeno prazer fosse uma pincelada de normalidade em meio ao tumulto total. Tão suave quanto as gotas que ficavam incrustadas na superfície do copo, e escorriam lentamente.

Eu só o via bebendo whiskey... Mas acho que deveria gostar de vinhos, também, como um bom europeu, pensava Peggy Taylor, se lembrando de Moritz Alvintzi. Seu olhar perdido na cor rubra do vinho deve tê-la denunciado, pois Ezekiel logo a questionou:

— Com os pensamentos longe, jovem donzela?

Ela ergueu os olhos para fita-lo. O homem estava sentado em uma poltrona, enquanto ela se deitava relaxada no sofá, as pernas na calça legging preta que vestia esparramadas em cima dos assentos, os pés descalços em meio a algumas almofadas, a blusa bege amassada contra o estofado. Shiva estava deitada no tapete defronte aquela poltrona e ao sofá, que, juntos, faziam um ângulo reto. Cochilava.

— Um pouco — reconheceu, diminuindo o sorriso. O Rei deu mais um gole do vinho e pigarreou, olhando o rótulo da garrafa.

— Em outros tempos, isso daqui custaria talvez o dobro do meu salário como zelador. Nunca poderia sequer pensar em prova-lo. É um vinho excelente — elogiou, colocando a garrafa de volta a mesa de centro. As orelhas de Shiva se moveram com o ruído suave do vidro contra o tampo. Peggy deu mais um sorriso, talvez um pouco embevecida pelo álcool, e acariciou devagar o topo da cabeça da felina.

— É engraçado como as coisas mudam — o governante comentou em um tom sonhador. Peggy o encarou.

— De zelador para Rei, domador de tigres... — brincou a garota morena, bebendo mais um gole do vinho.

— De jovem estudante colegial para jovem donzela independente, filósofa — Ezekiel troçou de volta em um tom gentil.

— Quem me dera. — Ela levantou uma sobrancelha. Terminou o copo de vinho, e o homem de dreads a serviu de mais uma dose.

— Depois de tudo o que passou e superou, Peggy, tem pouca confiança em si mesma. Isso me surpreende. — O Rei e a garota trocaram olhares e ele meneou o rosto em negativa.

— Não é falta de confiança. É ausência de presunção. Na verdade... — Olhou para as chamas da lareira, as lembranças de Moritz ainda lhe doendo o peito. — ...É apenas ausência. — confidenciou, controlando um suspiro.

— Sei como é. No meu caso, o nome dela era Florence — o homem de dreads contou. Peggy ergueu os olhos para ele, surpreendida.

— O quê?

— A mulher de quem eu sinto falta. Florence — O líder colocou as duas mãos na taça de vinho. — Ela morreu antes mesmo de tudo isso. Câncer no esôfago. — O rosto de feições suaves e seguras de Ezekiel pareceu ter um semblante mais esmorecido.

— Eu sinto muito — sussurrou Peggy, bebendo um gole de sua taça.

— Mas a ausência era anterior aquela tragédia. A gente se conheceu no teatro comunitário — O ex-zelador estava sendo tão sincero que falava sem a pompa de costume. — Isso foi há vinte anos, mais ou menos. Ficamos muito amigos. Melhores amigos. — Ele sorria com as recordações. Peggy não pôde evitar sorrir também, comovida.

— Ela era uns três anos mais velha do que eu. Alta, cabelos pintados de todas as cores do arco-íris, muito carismática. Era aquele tipo de pessoa que todo mundo gostava. Bem-humorada, esperta... Chamava a atenção pela personalidade. Era bonita também, mas a personalidade dela parecia apenas acrescentar à beleza que já tinha por fora — complementou, piscando longamente. Peggy anuiu com o rosto. Entendia bem aquilo. Era assim que via Moritz. Um homem de personalidade mesmerizante.

— Eu era louco por ela, e, ao mesmo tempo, amava ter a amizade dela. Foi muito natural. Ficamos amigos na casa dos vinte anos, mas parecia que a gente se conhecia desde sempre — continuava a contar sua história, e Peggy ouvia atenta.

— Mas ela casou com o Gustaf. Um outro amigo nosso, do teatro. Eu até lidei bem com isso, o melhor que pude. Ela nunca tinha me dado bola mesmo, e olha que eu tentei inúmeras vezes — o Rei deu de ombros, melancólico. — Era algo ambivalente e um tanto controverso. Eu ficava feliz por ela, ficava feliz por ser tão amigo dela, e ao mesmo tempo aquilo me partia o coração — o homem de dreads erguia as sobrancelhas contando sua história fracassada de amor.

— Enquanto eu via o Gus ter tudo o que eu sonhava pra mim, eu não me afastei. Fui padrinho do casal. E teria sido padrinho da filha deles, acredite... Ela estava grávida quando o câncer veio. O bebê não resistiu, e logo depois ela se foi. Ela insistiu para que eu não largasse o teatro. Falava que era minha vocação. Falava que eu ainda faria algo grande por causa da atuação. Ela estava certa. — Ezekiel bebeu um longo gole do vinho, e o silêncio reinou por alguns momentos. Apenas se escutava o crepitar da lenha na lareira e o lento ressonar da felina deitada no tapete.

— Ela sabia o que você sentia? — Peggy questionou, engolindo em seco. Mal piscava. Ajeitou-se no sofá, se sentando mais perto dele.

— Sim — respondeu o Rei, assentindo também com a face. — Nós tivemos algumas noites. Antes dela casar. Quando teve uma crise de dúvidas se devia fazer aquilo ou não. — Deu um sorriso enviesado, amargo. A garota franziu o cenho, tocada.

— Eu caí. Achei que poderia ser mais do que pânico temporário. Achei que ela tinha escolhido a mim. Mas eu apenas queria me enganar. — Ergueu uma das mãos e se serviu de mais vinho. — Foram as melhores noites que eu já tive. Eles se casaram na Califórnia, e levaram todos os padrinhos junto com eles, algumas semanas antes da data. — Apontou para o vinho, que era cultivado nos vinhedos californianos. — Queriam casar em São Francisco, como todo bom casal de atores hippies e ricos. As contradições não param, não é? — brincou, em meio a risos secos. A garota não sorriu, apenas baixou o olhar, puxando o canto dos lábios em uma expressão de tristeza compreensiva.

— Eu e ela nos encontrávamos em segredo na beira da praia. Ela foi o amor da minha vida. E eu fui um idiota. — Ezekiel riu de si mesmo.

— Não foi. Você só se apaixonou. Nem todo amor proibido é idiota — contestou-o. Shiva moveu as orelhas durante o sono e espirrou.

O Rei fitou Peggy com uma espécie de triunfo nos olhos. A jovem entendeu. Ele não só percebera que ela tinha um amor mal resolvido, como deduziu que esse sentimento era fruto de uma relação malvista pelos outros.

— Como eu te disse, como seu mestre sempre disse — mencionava Nietzsche, agora em um tom de piada melancólica. — O que nos resta é a contradição. As minhas melhores noites foram com Florence. E as piores também. No hospital. Eu passava mais tempo lá do que Gustaf — confessou, coçando a testa.

— É. As minhas melhores e piores noites foram com ele também — Peggy desabafou, afinal, em sussurros.

— O nome dele é... — corrigiu-se — Era. Moritz. Moritz Alvintzi... — Peggy Taylor respirou fundo. — Eu me aproximei dele por causa da minha melhor amiga. Aiyana. Sinto muitas saudades dela também. — Pensou com muito carinho na garota indígena.

— Ele me ensinou tanto... Ele me ensinou tudo. Era um professor de filosofia, afinal — testificou, e sentiu seu peito ser cortado ao meio ao proferir aquelas palavras. Seus olhos já estavam úmidos de lágrimas. Não chorava há tanto tempo...

— Eu era... Eu estava despedaçada antes dele. Ele me ajudou a juntar os meus próprios fragmentos. Me mostrou que eu poderia ser mais, que tudo que eu poderia ser já estava aqui, dentro de mim. Como uma massa de argila, que basta ser manuseada — afirmou, a garganta ameaçando se fechar pela emoção.

— Uma obra-prima escondida — articulou Ezekiel, mirando a garota com carinho. Peggy negou, mexendo o rosto, algumas lágrimas escorrendo de suas pálpebras.

— Era complicado. Eu tinha acabado de fazer dezessete anos. Ele tinha cinquenta. Ninguém entendeu. Para ser sincera, nem eu mesma — assumiu, limpando as lágrimas com os dedos.

— Está mentindo — o Rei a flagrou.

Peggy o fitou devagar.

— Sim. Eu sempre entendi. Não poderia ser diferente. Era simplesmente... Para ser. Com todos os clichês e controvérsias — declarou, colocando o queixo apoiado em uma das mãos. Ela e o homem trocaram mais alguns olhares demorados.

— Com ele... Eu virei uma mulher. Eu era uma criança, antes de tudo. Uma criança quebrada. Agora eu sou alguém. Eu me encontrei, com a companhia dele. E o que me restou... Foi a ausência. Eu o procuro, em todos os lugares, e dói, dói tanto, me parte a alma saber que não vou mais acha-lo — soluçou ao dizer a última frase, e Ezekiel se levantou. Sentou-se ao lado dela, no sofá, enquanto ela passava as mãos pelas pálpebras fechadas.

Ao abrir os olhos, reparou que Shiva despertou e se espreguiçou, arrastando as patas pelo tapete. Passou a afiar as unhas no tecido felpudo, ronronando alto enquanto fazia o movimento. Peggy teve de rir daquilo, mesmo com o coração partido. Era tão meigo.

Era extraordinário como aquele animal parecia representa-la. Shiva era uma grande felina, uma tigresa cheia de garras afiadas, como a garota. Mas não deixava de ser uma espécie de gata, uma gata muito crescida, e, por vezes, carente.

Por mais que se esforçasse para se conter, as lágrimas continuavam a banhar seu rosto. Contudo, o pranto começava a parar de ser aflitivo, para ser desafogado. Como se ganhasse um novo sopro de vida a cada lágrima derramada.

— Eu sei que você gosta de ironias... — Peggy ajeitou as costas contra o encosto do sofá, dando o último gole em sua taça de vinho. Ezekiel a fitava com olhos escuros concentrados em seu rosto. Ela não conseguiu mirá-lo por muito tempo. Parecia que suas íris traziam uma emoção distinta, inovadora ao olhá-la.

Algum tipo de estima acentuada.

— ...Ele era professor de filosofia, com mestrado e doutorado, e também dono de circo. Ele se apresentava como mestre de cerimônias e como palhaço. O que acha disso como um exemplo de contradição? — interpelou-o, soltando mais um suspiro fundo.

Ezekiel não riu, mas sim se moveu no sofá.

Arrastou o corpo para ficar mais próximo da garota, e a enlaçou pelos ombros. Peggy permitiu. Pelo movimento, Shiva voltou a atenção para os dois. Fitou-os com seus olhos alaranjados, deitando-se no tapete.

A garota aprumou o o rosto e a coluna, aninhando-se contra Ezekiel, deitando o rosto em seus ombros. O Rei passou a acarinhar seus cabelos, em um cafuné gentil. Ela fechou os olhos, achando o gesto bem-vindo. Poder mencionar a perda de Moritz, sem reservas, foi reconfortante. Sentiu-se preenchida, confortada, finalmente compreendida. E agora, de fato amparada.

— Esse cara deveria ser tudo, menos um ilusionista — prosseguiu Ezekiel, se referindo a Moritz. Peggy afastou o rosto o suficiente para fita-lo.

— Acho que eu posso dizer que devo muito a ele. Como um apreciador da arte e da verdadeira beleza, se ele te ajudou a moldar-se a si mesma, posso dizer que fez um trabalho de mestre. Michelangelo teria inveja — enalteceu a garota, que corou. Há muito tempo não ficava ruborizada.

Não depois de Moritz.

Ela pestanejou, e Ezekiel abriu um sorriso caloroso, munido de um olhar veemente. Seus olhos escuros estavam tomados por uma centelha de interesse distinto.

Ele tocou em seu rosto, e, por um momento, Peggy teve um estremecimento prazeroso. Fechou os olhos por um segundo, sorvendo aquele toque, enquanto o Rei sussurrou:

Parla, parla, Peggy— gracejou, com um sorriso sugestivo. Era evidente que estava flertando com ela, mencionando a frase que Michelangelo teria dito, ao terminar a escultura de Moisés, trabalho que considerou o auge da perfeição. O escultor julgou sua obra tão realista que a mandou falar, pois parecia dotada de vida.

Ela não soube o que responder. O rubor em suas faces aumentou, ao passo que ela fez um minúsculo movimento de aproximação. Seus rostos estavam tão próximos que seus narizes quase se tocaram.

Peggy fechou os olhos, sem mais refletir.

Shiva se levantou e rosnou bravia, causando um sobressalto na garota, que quase pulou para trás de susto. Naquele momento, retomou a consciência, e seu coração retumbou em seu peito.

Piscou rápido, nervosa, trocando um olhar breve com o governante do Reino. Ele, porém, não parecia surpreso. Mantinha um olhar afetuoso dirigido para a garota. A felina caminhara para longe deles, e se postava na frente da porta, alerta.

Logo escutaram batidas na entrada da casa da garota. Peggy levava uma das mãos na altura do peito, ajeitando os ombros pelo susto. Pelo visto, não fora o quase beijo que a tigresa desaprovara.

— Shiva, volte — Ezekiel ordenou, e a felina moveu as orelhas para trás, obediente. Foi até o governante e sentou-se em suas próprias patas, ao passo que o ex-zelador ia até a porta. Peggy se ergueu do sofá, e pôs-se a abrir a porta depois de conferir o olho-mágico.

De braços cruzados e prostrado ao lado da garota, o Rei saudou o visitante:

— Boa noite, Jerry. Está tudo bem?

— Mais do que bem, meu senhor — o intendente do Rei respondeu, sorridente.

— O que quer dizer com isso? — indagou Peggy, arqueando as sobrancelhas.

— Temos visitantes. Visitantes bem-intencionados! Paul Rovia trouxe um grupo grande — avisou, extasiado. O coração de Peggy pulou em seu peito, ao passo que ela arregalava os olhos.

— Quem seriam eles? — a voz mansa do governante perguntou.

— Rick? — respondeu e indagou Peggy em simultaneidade, a voz saindo entrecortada pela surpresa.

— Rick Grimes e o povo de Alexandria — Jerry confirmou, e Peggy teve de soltar uma exclamação de alegria, cobrindo os lábios.

Mavie.

Ela tinha de estar lá.

Notas finais
~ GENTEM! Eu mesma fiz essa edição do final. Gostaram? ;_; Espero que sim, tenho tentado melhor nessas manjarias de imagens. Está lá postada no tumblr, junto com várias outras coisinhas que eu fiz/fizeram pra mim, com os devidos créditos: hunters-instinct-fanfic.tumblr.com; ~ Pra quem por acaso não viu nas notas iniciais, vou copiar e colar aqui de novo esse trailer ESPETACULAR: https://www.youtube.com/watch?v=RMjxSw__RAk&t=10s sério, isso precisa ser visto por todo e qualquer leitor ou leitora de H.I., está LINDO POR DEMAIS! ~ Eu tava louca pra escrever uma conversa entre a Maggie e a Mavie que envolvesse a terrível cena de abuso que nossa irladesinha dentuça favorita presenciou. :( A própria Maggie sofreu algo muito parecido, então ninguém melhor do que ela pra compreender o trauma da madrinha de sua Bethalie; ~ O POV da Lilah me deu orgulho dessa garota. Deu pra ver o quanto ela evoluiu. A personalidade docinha e "dorky" dela continua presente, mas ela enfim ganhou o "hunter's instinct" dos sobreviventes mais sagazes. "Não contavam com a minha astúcia" resume essa menina UHSSHUHE! E... ~ Gente, eu não resisto, assumo que amo o Moritz mas já shippo Ezeggy. A Peggy tem MUITO a ver com esse Rei, não dá; ~ Aguardo comentários! Eu ouvi que leitor que comenta rápido ajuda ficwriter a atualização com mais ligeireza, hein... Que tal arriscar? Hehehehhe!