Hunter's Instinct
85 Episódio 85 - Dyspnea
Notas iniciais
O sol queimava sua cabeça, brilhando acima de seus cabelos castanhos e compridos. A manhã de primavera de céu claro e aberto deixava evidente que não havia sinal de chuva no horizonte, por conta não apenas da ausência de nuvens como também de vento. Ela chegava a sentir calor.
A jovem mulher mexia seu braço direito, o alongando depois de passar horas caminhando portando uma foice alongada, cuja base se afinava até terminar em um formato pontiagudo. Uma arma branca silenciosa, excelente para se livrar dos apodrecidos. Em uma bolsa a tiracolo, guardava um revólver pequeno e cor de prata, ASG Dan Wesson, com poucas balas.
— Eu acho que a manhã está sendo bastante produtiva, né? — Benjamin, um rapaz apenas um ano mais velho do que a garota, comentou ao seu lado, enquanto coçava o pescoço. — Quero dizer, topamos com poucos defuntos, achamos aquela charrete cheia de frutas largadas, e ainda temos essa ponte pra atravessar. — O garoto apontou alguns metros à frente deles, seus cabelos loiros ainda mais claros pela luz do sol. — Dá pra ver um puta caminhão do Walmart parado ali. Acho que saímos com o pé direito, depois dessa noite tensa — continuou, e ela o ofereceu um sorriso largo.
— Ben, relaxa, vai dar tudo certo. É só mais uma coleta e voltamos pra casa. Cumprimos a cota — Delilah Feld falou para o companheiro de missão, ajeitando uma mecha de seus cabelos castanhos atrás da orelha esquerda. Durante a noite passada em missão, Morgan desconfiou de que estavam sendo seguidos. Porém, seu receio se revelou uma paranoia.
— Vocês dois foram muito bem — Morgan Jones os enalteceu, estimulando-os. — Nesse ritmo, acho que já vão poder virar os próximos professores de defesa pessoal do Reino — considerou, dando um olhar caloroso aos dois.
— Sério? — Ben perguntou com um sorriso empolgado, enquanto o trio caminhava para a ponte Larrington, que cruzava um dos maiores rios ao limite do estado da Virginia. — Acho que a Peggy não concordaria com essa afirmação — brincou, dando um olhar debochado para Lilah.
— Pegs é uma querida, mas tem um jeito muito pessimista de ser. — Feld colocou uma das mãos no ombro do rapaz. Haviam se tornado amigos, companheiros frequentes nas aulas de aikidô com Morgan e defesa pessoal e manejo de armas com Billy Ray e Rebecca Gable. — Ela não sabe o quanto você evoluiu, Ben. Do pessoal da nossa idade, é um dos melhores — concordou com o elogio de Jones, virando o rosto para fitar um de seus tutores. Já atravessavam parte dos carros largados abandonados pela ponte, testemunhando alguns mortos-vivos caídos pelo chão.
— Você conseguiu a pontuação máxima no último teste, Lilah — Benjamin foi humilde, abaixando o rosto. — Ainda tenho muito o que aprender — falou, dando de ombros.
— Eu sou uma pessoa que tropeça nos próprios pés. — Delilah fingiu tropeçar, enquanto Ben ergueu as sobrancelhas por um instante, caindo na brincadeira. A jovem riu, e o rapaz a acompanhou depois, movendo o rosto em negativa. — Se eu consegui aprender tanto, qualquer um consegue — assumiu.
— Eu já falei: vocês dois ficaram bons nisso. Não à toa os chamei para vir. Agora parem com a conversinha. — Morgan apontou ao redor com o cajado. — Alguém passou por aqui. Pelos vestígios de sangue seco e os tipos dos ferimentos nos cadáveres, o que acham disso?
Delilah coçou o queixo antes de responder, enquanto Benjamin apenas balbuciava.
— Já mataram os apodrecidos há dias. As feridas estão escuras, e os rastros de sangue também. Completamente secos. — Deu um olhar definitivo ao tutor.
Jones colocou o cajado abaixo do braço e soltou algumas palmas silenciosas.
— Muito bem. O que não significa que não tenham outros por perto. E que o caminhão não seja uma armadilha — ressaltou, sério. Ben deu um olhar nervoso para Delilah, que ainda mantinha a calma o melhor que podia.
— Glenn e Tara costumavam dizer que não há nada que tenha sobrado no mundo que não esteja muito bem escondido — disse, recordando do simpático marido de Maggie e da gentil moça. Suas mortes foram devastadoras para todos, até mesmo para ela, que não vira como acontecera, apenas ficara sabendo.
— Glenn e Tara eram ótimas pessoas. E sábias — Morgan enfatizou, meneando a cabeça de maneira positiva. Lilah notou uma pequena porção de tristeza em seus orbes escuros. — Nós vamos abrir esse caminhão com cuidado. — O homem mais velho parou na frente da traseira fechada, com o símbolo do supermercado famoso. Movimentou sua arma de madeira e avisou aos dois:
— Armas a postos. — Jones bateu com força na traseira, e colocou os ouvidos na portinhola de ferro. Feld parou de respirar para escutar, ela e o garoto loiro posicionados um em cada extremidade dos fundos do caminhão.
Nada aconteceu.
Ben expirou com alívio audível, e Lilah ergueu os ombros, relaxando-os. Baixou a foice, e o homem de cajado a repreendeu.
— Não falei para abaixar.
A garota logo se recompôs, ajeitando a arma estilizada nas duas mãos. Morgan mexeu na trava da traseira com algumas ferramentas. Demorou alguns minutos, enquanto Delilah tentava entender o que ele fazia, e Benjamin continuava olhando ao redor. Estavam a sós naquela bela paisagem, não fossem os cadáveres putrefatos na estrada, também espalhados pela ponte.
— Um, dois, três e... — Ele abriu a traseira do caminhão em um movimento preciso. Delilah viu que estava cheia de garrafas de cerveja, vinhos, energéticos e outras bebidas.
— Bem, não é o ideal, mas... — Morgan comentou, coçando a nuca com a mão livre. Benjamin abriu um sorriso luminoso.
— Eu diria muito pelo contrário! — Entrou no caminhão, animado, oferecendo uma mão para que a menina subisse com ele. — Você é uma garota de vinho ou de cerveja? — brincou, mexendo em um dos engradados, enquanto outra mão estava esticada para que ela subisse.
— Eu não... — Delilah ia começar, mas Morgan segurou seu braço que já se estendia para Benjamin.
— Desça daí agora, Ben — Jones pareceu ter percebido algo que nenhum dos dois notara. Ela lhe deu um olhar preocupado.
— Ben! — Delilah exclamou, assim que o rapaz levantou um dos engradados. Havia algum tipo de dispositivo embaixo que arrepiou os pelos da nuca de Lilah. De olhos esbugalhados, percebeu que tirar o peso que havia em cima daquele dispositivo traria uma reação instantânea.
Explosiva.
Morgan puxou a garota para trás em um salto, a arrastando correndo para longe dali. A detonação se deu no mesmo segundo, os erguendo alguns centímetros acima do asfalto da ponte, os fazendo cair metros longe do caminhão. Delilah acabou rolando por baixo de um carro, seu corpo parando de ser empurrado adiante apenas quando trombou contra um morto-vivo caído sem vida. Estava ensurdecida pelos ruídos da explosão. Parte dela percebeu que não fora apenas um dispositivo, mas muitos detonados ao mesmo tempo.
Ralara a testa, os cotovelos, e deixara a foice cair no chão. Se arrastou até ela, enquanto Morgan, já recomposto, se levantava e perguntava se estava bem, seu rosto desconcertado pela súbita perda de Benjamin.
Os olhos de Lilah umedeceram enquanto ela respondia que sim, e que podia andar. O homem de cajado a levantou puxando uma de suas mãos, enquanto ela guardava a foice em uma espécie de cinto arrumada em sua calça jeans.
— Delilah, armas a... — Morgan já se punha a falar, com a voz embargada, mas mais uma vez foram interrompidos.
Cinco homens saíram das extremidades da mata fechada que rodeava a estrada pela qual pretendiam voltar. Alguns deles usavam as armas que haviam trazido e deixado no veículo que estacionaram escondido alguns quilômetros atrás daquela ponte. Impediam a passagem dos dois.
— Olá! Eu sou o Davey! — um deles, com olhos azuis cruéis dirigidos somente para Delilah, se pôs a falar. Mantinha uma submetralhadora apontada para ela e Morgan. Lambeu os lábios enquanto examinava o corpo todo da garota, com despudor. Parou em seus seios, arregalando um pouco os olhos, balançando a cabeça em uma afirmativa nojenta, enquanto dizia um alto “yeah”. Era obsceno e humilhante.
Morgan abraçou Delilah com uma das mãos, de maneira protetora. O homem de olhar ardiloso gargalhou.
— Sabe, nós, os Salvadores — Delilah sentiu outro calafrio correr-lhe pelo corpo — Geralmente nos apresentamos assim mesmo, matando uma pessoa. — Apontou com o polegar para o caminhão que ainda queimava. — Mas que moleque burro, hein? Sobreviveu nesse fim de mundo há quase três anos e ainda não aprendeu que é feio mexer nas coisas dos outros? — indagou com ar de deboche, enquanto alguns dos outros homens que o acompanhavam riram. Além das armas que tinham apontadas contra os dois, Delilah notou assustadoras reservas de balas e armas de fogo de outros calibres.
— Nós estamos aqui atrás de você, mocinha bonita. Negan nos mandou para salvar a princesinha foragida — Davey continuou, dando outro olhar grotesco para os seios de Lilah, como se pudesse vê-los através da roupa e gostasse disso. — Seu titio está com muitas saudades. Não sente a falta dele? — questionou em um tom dúbio e malicioso. — Ou será que você arranjou outro tio? — Dirigiu seus orbes azuis para Morgan, dando uma piscadela aprovadora. Lilah ouviu mais risadas maldosas. Morgan aumentou o aperto protetor em torno dos ombros dela, enquanto a garota podia imaginar seu rosto denotando raiva.
Fechou os olhos, controlando o nojo, tentando discretamente colocar as mãos em sua foice. Todavia, o Salvador reparou.
— Não, não, não. Nem pense nisso. — Davey negou com o indicador, e se aproximou dos dois. Estava a meros centímetros de distância. — Você vem com a gente. — Destravou a pistola na frente do rosto de Delilah.
Foi mais rápido do que ela imaginaria que seria.
Lilah pretendia se render, mas Morgan moveu o cajado com tanta violência e rapidez contra o braço estendido do homem que certamente lhe causou uma lesão severa. Davey gritou de dor, derrubando a pistola que Delilah mergulhou no chão para pegar. Atirou sem nem olhar para frente, atingindo a coxa do algoz, que caiu no asfalto ainda urrando, agora pelo novo ferimento.
E a troca de tiros já havia começado.
— Vocês são burros pra caralho! — um dos Salvadores gritava, e Lilah pôde notar ao longe que era um homem grandalhão, de queixo quadrado e marcado com um furo. Disparava rajadas de tiros contra Morgan, que já se refugiara atrás de um dos carros, e conseguiu acertar um disparo no joelho do mesmo sujeito, que tropeçou e rolou pelo chão. Tentando ser rápida, Delilah se arrastava pelo pavimento para se refugiar atrás de um veículo, como seu tutor fizera.
Ela sequer vira Jones tirar a arma que tinha de reserva.
Atônita, Lilah apenas fitou Morgan se levantar e acertar outro tiro em um dos homens que tentava atravessar os carros, na altura de sua têmpora direita. Caiu morto na hora. Logo em seguida ele já se escondia outra vez, como numa aterrorizante e real cena de filme de faroeste.
As trocas de tiros não paravam, enquanto as mãos da jovem tremiam, tentando abrir a mochila rápido e tirar dela seu revólver já carregado. Punha-se a destravá-lo, enquanto Morgan matava mais um de seus oponentes. Dessa vez, ele próprio arfava de ódio, tomado pelo êxtase violento.
— DELILAH! — Morgan vociferou, em um tom de alerta, e ela enfim reagiu rápido. Instintivamente, recolheu as pernas, fazendo com que Davey, machucado, apenas conseguisse acertar no asfalto a faca que tentara fincar na coxa da garota. Grunhindo de ódio, ele a puxou pelos pés, se colocando acima dela. Lilah ouviu outro tiro, tentando lutar contra o homem que agora travava suas pernas e lhe dava fortes tapas no rosto.
— Vou te ensinar a se comportar na marra — o abusador dava seguidos tapas no rosto da garota, cuja cabeça quicava contra o asfalto. Lilah estava tonta. Achou que iria desmaiar.
Recobrou parcialmente os sentidos quando uma onda de desgosto subiu pelo seu corpo, assim que Davey parou de estapeá-la para apertar com força seus seios.
— Eu vou me divertir muito com isso daqui... — Tentou fazer uma das mãos entrar pela camisa da garota, subindo por seu abdome, procurando o seio por baixo do sutiã, enquanto a outra tentava desabotoar a própria calça.
Delilah fora tomada por um ódio instantâneo que não sentia há tempos. Lembrou-se de Liam, e de todos os homens da base em que fora escravizada com seu tio. Os olhares. Os toques que jamais permitira. A sensação iminente de que, a qualquer momento, poderia ser estuprada por eles, se não andasse na linha, se não obedecesse a cada miserável comando.
O pior pesadelo que vivera em vida.
Não vou perder minha virgindade estuprada por esse filho da puta.
O pensamento cruzou sua mente no mesmo momento em que reuniu forças de um lugar desconhecido para bater sua testa com brutalidade contra o nariz de Davey. O homem afrouxou o aperto que a mantinha presa, e logo em seguida ela pegou a faca que ele derrubara e a cravou no primeiro lugar que encontrou, a escápula esquerda do estuprador, que gritou furioso.
Lilah se levantou, sangrando, zonza, cambaleante. Viu que Morgan lutava corpo a corpo contra o último Salvador que sobrara, ambos se esmurrando, ao passo que rosnados conhecidos se fizeram ouvir. Alguns apodrecidos avançavam, chamados aquela cena de violência por tantos ruídos e cheiro fresco de sangue.
Um deles, inclusive, pulou ao pescoço de Delilah, que caiu para trás para se defender.
Evitou o ataque, mas ela não sentiu o chão.
Sentiu uma queda livre.
Gritando, exasperada, Lilah pôde apenas pensar:
Não acredito.
A imagem de Redmond veio a sua mente quando tudo a sua volta apagou, e seu corpo mergulhou em águas escuras. Teve a sensação de que era levada por uma correnteza, incapaz de voltar a superfície. Tentou se debater, em vão. Antes de perder os sentidos, lembrou de Redmond a levando para um acampamento de férias quando era adolescente, perto de um rio como aquele em que imaginou que se afogaria.
“Juízo, hein?”, pediu seu tio. “Cuide-se, Lilah”, ele se despediu, lhe dando um abraço apertado e um beijo na testa.
Lilah fechou os olhos, sentindo seu corpo ser arrastado pelas águas do rio Larrington para lugar nenhum.
Desculpa tio. Desculpa por te desapontar sempre.
Lilah só acordou horas depois, sentindo o sol bater a pino acima de seu corpo e rosto. Piscou os olhos, gorgolejando e arfando, jurando por um segundo que estava morta. Vomitou água logo em seguida, expulsando-a de dentro de seu corpo que parecia estar pesado de tanto líquido ingerido. Moveu o rosto para o lado, acostumando sua visão, já alerta pelo local estranho em que estava. Algo a empurrava poucos centímetros para o lado direito, batendo na sua lateral esquerda do corpo.
Ondas.
Delilah franziu as sobrancelhas e percebeu que fora parar em uma praia. Mal teve tempo de fazer aquela constatação, quando uma sombra se ergueu sobre seu corpo. Uma lança de pesca estava apontada para seu rosto, mantida pelas mãos de uma garota que parecia ter no máximo doze anos de idade.
— Cyndie, vem cá ver uma coisa!
A voz estridente e petulante da menininha ameaçando Delilah com a lança cortou o silêncio e os ouvidos da jovem, que vivera tanto em uma manhã só. Sem saber mais o que esperar.
*****
[HORAS ANTES]
Ele acordou com o som de alguém esmurrando a porta de seu trailer, o que o fez soltar um palavrão alto.
— Mas que porra! — Tucker Hayes bradou com a voz rouca pelo sono, abraçando Carol Peletier contra si, apertada consigo em sua cama de solteiro. A mulher lhe deu um olhar apreensivo, já se mostrando mais desperta do que ele. No segundo seguinte, estava se esquivando dos braços do rapaz como uma gata arisca, saindo dos cobertores e se vestindo ligeira.
— O sol está lindo, Hermoso*! — A voz ressonante de Gaspar Sandoval se fez ouvir da porta, enquanto Carol enlaçava seus coturnos, levantando uma sobrancelha na direção do rapaz.
— “Hermoso”? — repetiu ela, o fitando com um olhar duvidoso. Tucker soltou uma exclamação exasperada, passando as mãos pelo rosto, tentando ficar desperto logo. Carol ajeitava os cabelos com os dedos em um movimento que o rapaz achava hipnótico. Só a respondeu quando ela lhe deu um olhar mais incisivo.
— Sei lá, esse cara é maluco! — Ergueu-se do colchão, calçando chinelos, vestindo uma blusa de algodão e uma bermuda qualquer. Sentou-se, em seguida, deixando Gaspar esperar.
— Por te achar “hermoso”? — debochou a mulher que o rapaz amava, com um sorriso enviesado, enquanto ajeitava a blusa justa abaixo da barra de suas calças. Tucker gostava quando ela vestia roupas assim, que evidenciavam sua silhueta mignon e sua cintura fina.
Ele a puxou pela cintura para perto de si, acariciando aquela parte de seu corpo em seguida. Carol o segurou pelos ombros, o fitando com olhos azuis divididos entre o interesse e a repreensão.
— Você que me diz — retrucou com um sorriso sugestivo, a fitando de baixo para cima, já que ainda continuava sentado na cama.
— Sei... — Carol se desvencilhou mais uma vez, enquanto Tucker ergueu as sobrancelhas lhe dando um último olhar pidão que a fez rir. — ...Eu acho bem estranho ele aparecer aqui a essa hora da manhã. Tem algo para me contar? — Peletier indagou com seu típico olhar que parecia ler sua mente. Hayes apenas abriu os lábios, tentando proferir alguma palavra, mas ambos foram interrompidos por mais batidas impacientes de Sandoval.
— Anda, chico! Temos o dia todo, mas se me deixar esperando mais tempo aqui na frente vou começar a cantar! — ameaçou, sua voz potente invadindo o trailer. Tucker e Carol se entreolharam e o rapaz apenas apontou com um dos braços na direção da porta com uma expressão de quem não tinha nada a ver com a excentricidade do mexicano.
A mulher riu e andou rápido até lá.
— Pois não? — questionou com sua melhor voz sonsa, depois de abrir a porta. Tucker teve de segurar o riso. Ergueu-se de cama e a seguiu.
— Ah, mil desculpas, Carol... — tentou o latino, que parecia contrito e constrangido, mas ela apenas ergueu uma mão, franzindo as sobrancelhas.
— Não se preocupe. Imagino que o que quer que tenham para discutir deva ser importante. Mas eu vou ter que deixar uma queixa com as nossas autoridades por essa hostilidade na vizinhança. Essa invasão de privacidade é totalmente desnecessária — falou em um tom calmo e professoral. Gaspar arqueou as sobrancelhas, unindo as mãos. Parecia um moleque que foi pego cometendo uma travessura.
— Ah, se pudermos resolver isso de outro jeito...
— Vou falar com a Maggie, com o Paul... — enunciou o verdadeiro nome do homem que chamavam de Jesus. Hayes mal controlava um sorriso debochado. O sujeito folgado estava caindo.
— Não, não, não há necessidade! — Sandoval pareceu mais ansioso, levantando as mãos como quem suplica. — Escute, me desculpe por isso. Não vai se repetir, prometo — corrigiu-se, e Peletier o fitou com os olhos semicerrados por um tempo. O rapaz que morava naquele trailer estava recostado perto do batente, adorando a cena.
— Ok. Bom saber. Fique com Jesus, querido — Carol disse em um tom ainda sonso, dando um tapinha maternal no ombro de Gaspar enquanto saía do trailer, e, em seguida, acenava para Tucker. Ele a retribuiu com outro aceno.
— Te vejo mais tarde? — perguntou, já torcendo por outra noite como a anterior.
— Provavelmente — ela respondeu, sem se voltar para trás. Hayes lhe deu um último olhar, demorando-se alguns segundos a mais abaixo da linha da cintura de seu corpo.
Achava aquela mulher tão linda.
— Eu não esperava por isso — Gaspar comentou em um sussurro, apontando com discrição de Tucker para Carol.
— Yeah. Eu já ouvi isso antes. E eu não esperava você e o Jesus... — Deu um olhar significativo para o latino.
— Eu já ouvi isso antes — respondeu ele, entendendo e respondendo a indireta com um sorriso enviesado.
— Vamos encontrar com ele? — Hayes interpelou-o, deixando-o entrar. Em seguida, trocou a bermuda por uma calça jeans e vestiu meias e um tênis no pequeno quarto que tinha, enquanto Sandoval esperava na sala e cozinha embutida do trailer. O latino respondeu do outro cômodo, limpando a garganta em um pigarro.
— Não. Te falei, não vamos envolve-lo nisso. É melhor — salientou.
Tucker saiu até a sala, pronto para ir.
— Seu namorado, suas regras — debochou, dando de ombros. Gaspar o olhou com outro sorriso torto.
— Com a dona lá parece que é o contrário. Namorado dela, regras dela — ironizou, mas Tucker não se abalou.
— E eu agradeço todos os dias por isso — brincou de volta, fazendo Gaspar rir.
— Você tem um bom senso de humor, Bonitinho — o homem latino disse, enquanto caminhavam para fora da moradia do rapaz.
— Yeah, e você é totalmente folgado — retorquiu, e o ex-repórter itinerante apenas deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos de sua calça escura.
— É verdade — confirmou, sem se abalar. Tucker apenas meneou o rosto, incrédulo, e seguiu com o latino até as forjas.
— Se não vamos encontrar com o Paul, quem nos espera? — indagou o rapaz, seus grandes olhos azuis mirando Gaspar, com sua curiosidade atiçada.
— Você vai ver. — O mexicano abriu um sorriso empolgado. — Isso vai dar mais certo do que eu imaginava — confidenciou, e logo passou a esmurrar outra porta do mesmo jeito sem tato.
— Pamela, estamos aqui! — vociferou, e logo uma mulher de cabelos curtos brancos, parecendo ter uns sessenta anos, abriu a porta.
— Estamos todos prontos — ela respondeu, em um tom de voz mais baixo, porém animado.
— Quem são to... — Tucker iria perguntar, mas seu queixo caiu.
Mais de trinta cidadãos de Hilltop estavam reunidos na principal casa que usavam como ferraria e forja.
O ex-arquiteto mirou Gaspar sem compreender nada.
O outrora jornalista, ao seu lado, apenas sorriu brevemente e lhe sussurrou aos ouvidos:
— Eis a sua mão de obra para as zarabatanas. O veneno na munição a gente faz depois, e ninguém precisa saber.
Logo cumprimentou outro cidadão. Hayes, inconformado, passou aquela manhã auxiliando na elaboração das armas, trocando olhares revoltados com o cúmplice.
Quando teve um tempo para ficar sozinho com ele, perto de uma das forjas, logo o interrogou.
— Eu não sei o que você pensa que eu...
— Isso vai dar certo. Acredite. Eu conheço Negan. E eu conheço Gregory — assegurou o latino, segurando o braço do rapaz. Ele ainda não se convencera.
— Você não pode simplesmente tentar me manipu... — outra vez foi interrompido, com um olhar sério de Gaspar, como se o dissesse em silêncio para ser mais discreto.
— Gregory vai ser um problema. Em breve. Quando Negan voltar a ser outro, para nós — alertou, severo.
Tucker abriu a boca para responder, ainda mais raivoso, soltando o braço sem se importar que outros notassem o movimento agressivo.
— E o que você pensa que vamos fazer? — questionou, irritado pelos meios escusos do latino.
— Você não quer que Maggie governe? — perguntou o ex-repórter, retórico.
Tucker engoliu em seco e franziu o cenho.
Era claro que queria. Gregory era um filho da puta.
— Para isso, precisamos derrubá-lo. — Deu um último olhar intenso para o rapaz, e logo se voltou para uma mulher que se aproximava, com uma dúvida sobre o feitio de uma das zarabatanas. Sua expressão mudara da água para o vinho, estava novamente com seu ar descontraído e um tanto blasé.
Filho da puta, pensou Tucker, refletindo sobre o que se metera. Gaspar o enganara muito bem.
*****
[NA NOITE ANTERIOR]
Olhou o relógio pendurado em uma das paredes pintadas em um tom rubro chamativo. Quase meia-noite. Continuava de serviço, obrigada a estar de pé, de prontidão para qualquer chamado.
Trocando o peso de perna, pois já sentia seus joelhos doerem por estarem parados por tanto tempo na mesma posição, ela viu que Callie bocejou sem cobrir os lábios, soltando uma lamúria sonora e aguda. A esposa loira de Negan estava sentada no sofá de estofado vinho, enquanto a esposa ruiva, ao seu lado, lia “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.
Julie tinha ido deitar cedo, junto de Tessa. Conversaram por muito tempo, aos cochichos, naquela noite. Sherry olhava pela janela aberta, fumando um cigarro e soprando a fumaça. A jovem mulher em serviço gostaria de lhe pedir um, mas não o faria na frente de Calliope. Era bem provável que a garota loira tentasse coloca-lo na conta da trabalhadora, aumentando suas dívidas com o líder do Santuário.
Mavelle Berry não estava em condições de arranjar mais problemas para si.
— Ai, que saco, isso está um tédio... — Mavie ouviu Callie reclamar, jogando uma almofada para o lado e deitando sua cabeça no espaldar macio do sofá.
— Você pode ir dormir, se está cansada — sugeriu Meredith, os olhos dirigidos para as páginas do livro que tinha erguido em suas mãos.
— Não! Ele está demorando. Estou preocupada, não conseguiria pregar o olho — a garota retrucou em um tom emburrado, colocando os cotovelos nas coxas e apoiando o queixo nas mãos. Mavelle notou que a jovem mimada voltou os olhos para a porta pela qual Negan costumava entrar, a fitando com orbes impacientes.
— Deve ter surgido algum imprevisto. Pegue um livro, vai te distrair. — A mulher ruiva abaixou o seu e apontou para a estante, sua voz soando doce e calma, como de costume.
Mavie a conhecia há poucos dias e já gostava muito dela. De todas as cinco esposas de Negan, era a que mais se aproximara.
— Ai, sua nerd... — Calliope rolou os olhos. — Como eu vou ter cabeça pra ler alguma coisa, se estou nervosa pensando que algo aconteceu com ele? — Mirou Meredith com seus olhos azuis acinzentados lhe dirigindo uma expressão arrogante, como se a esposa ruiva fosse estúpida. Mavelle controlou um ímpeto de raiva que lhe surgiu. Suas emoções estavam a flor da pele nos últimos dias, não sem razão.
— Ficar olhando para a porta não vai mudar seu nervosismo — rebateu a leitora, voltando a atenção para o livro de George Orwell. Calliope apenas bufou, levantando a franja ao soltar o ar, e cruzou as pernas e os braços.
Como se para responder Meredith, ruídos inesperados se fizeram ouvir no mesmo momento. Sherry soltou um grito, e Mavelle correu na direção da janela, enquanto ouvia sons de pneus raspando o asfalto. Logo em seguida, o barulho de uma rajada de tiros cortou o ar, e Mavie puxou a ex-mulher de Dwight para baixo, instintivamente.
As duas se entreolharam, e alguns segundos depois, com a aproximação de Meredith e Calliope, além de Tessa e Julie, que, pelo visto, acordaram com os ruídos surpreendentes, voltaram a fitar o pátio andares abaixo.
A ex-moradora de Alexandria olhou por uma fresta dos vidros abertos, e atestou que um dos caminhões dos Salvadores estava parado perto da entrada principal. Ouvia o burburinho de vozes agitadas falando entre si, alguns palavrões e exclamações masculinas, bem como os grunhidos costumeiros dos mortos-vivos, agora mais audíveis pela bagunça. Algo saíra do controle do mandatário daquela comunidade.
A irlandesa mirou a aliada ruiva com discrição, que a mirou em retorno da mesma maneira e meneou a cabeça em negativa, de forma quase imperceptível. Ela e Redmond não estavam envolvidos naquilo.
O que pode ser, então? Mavie perguntou-se, ansiosa, crispando as mãos em punho. Fechou os olhos e quase orou em pensamento. Por favor, que não tenha a ver com o Daryl. Por favor, que não tenha a ver com o Daryl. Por favor. Repetiu, a ansiedade se alastrando de seu estômago até sua garganta fechada, sua respiração entrecortada.
— Mavelle, você desce e descobre o que está acontecendo — Callie demandou, sua voz arrogante soando cheia de empáfia. A garota morena a fitou quase sem a enxergar, muito preocupada com o namorado para sentir raiva. A mulher ruiva, porém, se pronunciou logo em seguida, negando a ordem da garota loira.
— Não. Pode ser perigoso. Vamos ficar todas aqui até segunda ordem — Meredith determinou, e Tessa assentiu, silenciosa, parada perto da parede, enquanto tinha uma das mãos no ombro de Julie. A garota negra levou duas mãos ao rosto, cobrindo os lábios. Mavelle notou que ela parecia prestes a chorar, seus olhos escuros marejados.
— Meredith, o que você tem na cabeça?! Algo pode ter acontecido com ele! — insistiu a moça loira, fechando a expressão ao mirar a mulher ruiva.
— Callie, ela está certa — Sherry disse, se interpondo entre as duas. — O melhor que podemos fazer é esperar. Ninguém sai daqui. Fiquem atentas — a ex-esposa de Dwight acendeu outro cigarro. Mavelle depositou os olhos no rosto dela, e ela enfim lhe estendeu o maço.
— Quer? — ofereceu, e Mavie quase soltou uma expiração aliviada, aceitando na hora.
— Que nojo — comentou Calliope, olhando a garota irlandesa acender um cigarro. — Voltem pra janela, vão empestear a sala!
Tessa, mais esquentada, aproximou-se de Callie.
— Garota, se toca. Acabamos de ouvir tiros. Ninguém vai ficar perto da janela. Cala essa boca antes que você me obrigue a fazer isso por você — a ex-garota de programa ameaçou, e Calliope apenas lhe deu um olhar presunçoso, erguendo as sobrancelhas como se duvidasse dela.
— Sem brigas, por favor. Apenas se controlem — Meredith pediu com sua voz novamente já calma. Tessa e Callie mantinham olhares ferinos uma para a outra, mas a garota loira pareceu desistir, se jogando no sofá.
— Suas vadias, eu sou a única que realmente liga pra ele aqui! — afirmou. Julie começara a chorar, o que surpreendeu Mavie. Tessa e Sherry estavam ao lado dela, afagando seus braços e ombros.
— O que houve? — Mavelle teve de perguntar, sem entender. Tragou fundo o cigarro, enquanto a esposa mais velha de Negan olhava para Calliope, como se previsse alguma maldade saindo de seus lábios.
Estava certa.
— Jules quebrou as regraaas... — cantarolou Calliope, maldosa. — Está com medo do Big Daddy. Vai levar castigo. Menina má. Muito má — debochou, enquanto Meredith enfim perdia a paciência.
— Cale a boca, Callie! Eu não vou falar duas vezes. — Mavie nunca vira aquele olhar no rosto da mulher alguns anos mais velha. Frio. Como se tivesse mesmo algo para usar contra a garota loira.
A “Princesinha” de Negan apenas mirou a esposa ruiva do chefe dos Salvadores, em silêncio. Ficou quieta e abraçou uma almofada.
— O que ele vai fazer comigo? — sussurrou Julie em uma voz assustada. Mavelle se solidarizou com a angústia dela, enquanto Sherry a respondia.
— Não se preocupe. Vamos distrai-lo quando chegar — a ex-mulher de Dwight garantiu, apertando com carinho o braço da outra esposa. Meredith anuiu com o rosto, e Tessa continuou.
— Se deu algum problema, ele com certeza não vai querer falar disso hoje. Sabe como ele é — tentou dar um tom seguro a sua voz. Mavie outra vez mirou a moça de pele negra, que secou as lágrimas com os dedos.
— Estou com medo... — ela mal teve tempo de falar, quando a porta se abriu. Calliope soltou um gritinho animado, contente, e o queixo de Mavelle caiu.
Não era Negan quem entrava pela porta.
Era Carl Grimes, seguido do mandatário do Santuário.
— Minhas amadas, voltei! — A voz odiosa do assassino de Glenn e Tara reverberou pelos aposentos, mas a arqueira mal a escutou.
— Carl? — Berry teve de indagar, estupefata.
O garoto a olhou, vendo o uniforme fetichista que a garota era forçada a usar. Seu único olho remanescente parecia se dividir entre mostrar uma expressão de surpresa, anseio e revolta. Em seguida, varreu com o olhar a sala, vendo as outras esposas de Negan, todas vestidas com um mesmo vestido preto de tamanhos variados que valorizavam suas curvas.
— Big Daddy, que sufoco! — quase gritou Callie, saltando feliz na direção do ditador e o abraçando e beijando com avidez. A garota irlandesa virou o rosto, mas ainda detinha os olhos em Carl. O menino parecia frágil e confuso.
— Nós temos um convidado ilustre hoje, minhas meninas — avisou o déspota, com um sorriso sarcástico no rosto. Seus orbes escuros cintilavam de expectativa, Mavie reparou. — O filho do xerife está na cidade! Matou o Monty e o Kilmer com uma das metralhadoras que tínhamos guardadas em um dos nossos caminhões, esse pequeno filho da puta desgraçado! — Negan se afastou de Calliope e deu um tapinha nas costas de Carl, que o fitou, alerta. O mandatário o olhava com o mesmo sorriso debochado.
— Esse moleque fodidamente maluco do caralho conseguiu se esconder nos carregamentos e estava se achando o fodão com a metralhadora. Eu teria achado uma cena badass pra cacete, se não tivesse ficado muito puto na hora. Porra, ainda estou muito puto! — Deu outro tapinha supostamente encorajador em Carl, algo dúbio em relação a sua fala. Mavelle tentava respirar fundo para se acalmar. O que ele pretendia com aquele adolescente?
— Mas está tarde pra porra, e é hora de criança dormir. Mavie, minha Coelhinha maravilhosa — Negan disse, misturando os dois apelidos da irlandesa da forma mais repulsiva que poderia, fazendo arrepios de nojo subirem pelo corpo dela.
— Poderia levar o Carl para aquele quarto que você dormiu na primeira noite? — Seu sorriso cretino aumentou, deixando seu rosto com uma expressão sádica, como se tivesse algo terrível preparado. — Por enquanto ele vai dormir, amanhã daremos uma experiência completa de “um dia no Paraíso” para ele! — Fechou a mão que não carregava o taco de baseball com arame farpado, como se comemorasse.
— É claro que em algum momento o paraíso vai se tornar o inferno, pelo que ele fez — o homem de jaqueta escura falou, piscando um dos olhos para Carl, que parecia se esforçar para não demonstrar emoção alguma.
Mavelle apenas anuiu com o rosto, subserviente. O ditador ergueu o braço, dando passagem para ela e o rapaz.
— Nada de bater umazinha sentindo o cheiro dela no travesseiro, hein! — Negan recomendou com sarcasmo, enquanto Mavie fechava os olhos com força, segurando a ojeriza e guiando o garoto corredores adentro.
Levou Carl em silêncio até o quartinho apertado que fora forçada a dormir. Assim que entrou com ele, fechou a porta e o segurou pelos ombros. O menino não precisou sequer ser interpelado.
— O Daryl está ok. Eu o vi quando entramos. Quer dizer... — Carl abaixou o rosto e depois a fitou. — Tão ok quanto você está agora, eu acho — disse, e Mavelle compreendeu perfeitamente a afirmativa.
— Ah, que bom! — a irlandesa soltou a respiração, mais recomposta. — Carl, escuta... — ia começar, mas o menino a interrompeu.
— Ele não fez, nem faz... Nada... Com você, faz?
Os olhos de Mavie brilharam, o choro mal contido lhe subindo a garganta.
— Não — mentiu. Negan não chegou a estupra-la, mas conseguira tomar boa parte da sanidade da irlandesa, e humilhá-la de forma sugestivamente sexual de várias maneiras diferentes. — Não, eu não sou...
— ...Esposa dele — continuou o jovem Grimes por ela, e ela confirmou com a cabeça.
— Não se preocupe comigo. — Ela soltou os ombros do garoto, se pondo a arrumar o colchão para ele. Carl a parou no mesmo instante, dizendo que não precisava fazer aquilo. Os dois se fitaram.
— O que ele fez com você? Com o Daryl? — o menino perguntou, sua expressão parecendo genuinamente preocupada. Mavie soltou um soluço, cobrindo a boca para não chorar. Carl se aproximou rápido, como se fosse ampará-la.
— Não se preocupe com a gente. É sério. Apenas não o desobedeça. Se você sair daqui, desse quarto, essa noite, vai piorar a nossa situação. Mas a gente vai dar um jeito. Confie em mim — a irlandesa quase vomitou aquelas palavras, levantando as mãos para evitar que o menino se aproximasse. Não poderia aceitar um abraço naquela hora, ou desabaria. Aquele garoto também era uma vítima em potencial. Tinha de ajudar a mantê-lo seguro, o melhor que pudesse.
— Mavie! — Carl falou alto, assim que ela saiu fechando a porta.
Mavelle se encostou na porta, deixando algumas lágrimas descerem, seus ombros tremendo convulsivamente. Mordeu a mão para não deixar som algum sair de seus lábios, e com a mão livre buscou um comprimido salvador no bolso. Precisava de mais uma dose de ansiolítico. A crise estava chegando com força total.
Tomou o comprimido sublingual, se forçando a contar até cinquenta, devagar. Respirou e expirou algumas vezes e então voltou para a sala onde antes estivera parada, esperando ser liberada do serviço daquele dia.
Ao voltar, reparou que já era quase uma hora da manhã. Mas outra cena desagradável a aguardava.
Não havia sinal de Callie, nem de Tessa, tampouco de Sherry ou Meredith naqueles aposentos. Mas Negan estava agarrado com Julie, prensando a jovem contra o sofá, suas mãos subindo pela coxa dela, o vestido na altura da cintura da garota. Beijava seu pescoço, enquanto ela tinha os olhos fechados, e mesmo que Mavelle não pudesse ler sua expressão, por intuição a caçadora percebia que a moça negra parecia ausente, como se não estivesse ciente de quem tocava seu próprio corpo.
Mavelle teve o instinto de voltar os olhos e sair dali, mas a imagem de Julie chorando há pouco tempo atrás retornou a sua mente. O medo tangível que sentia daquele homem. Estava claro que ela se punha naquela situação para evitar algo pior.
O estômago da irlandesa embrulhou e ela quase vomitou de verdade. Mas antes que pudesse tomar qualquer atitude, a desprezível voz do líder do Santuário interrompeu aquele pesadelo para começar outro.
— Quer se juntar a nós? — convidou, e Mavie virou o rosto ligeira para encará-lo, os olhos de avelã esverdeado arregalados. Respirava rápido, nervosa, e viu que, enquanto Negan tinha a expressão lasciva e desejosa, Julie a mirava com olhos passivos, letárgicos, dormentes quase. Como se não fosse nada além de um objeto pronto para ser usado pelo déspota como bem preferisse.
— Não. — A voz da irlandesa saiu enfática, apesar de rouca. Sentiu-se tonta mais uma vez, segurando em uma mesinha de parede próxima para recuperar o equilíbrio.
Negan apenas deu uma risada presunçosa, a olhando de cima a baixo. Em seguida, se sentou, enquanto Julie fazia o mesmo, abaixando o vestido. Ela se levantou e o mirou. Ele indicou a porta no quarto em que dormia com o queixo.
— Quer continuar isso lá daqui a pouco, Bonequinha? — sugeriu, e Julie apenas assentiu em silêncio, seguindo até o quarto mencionado.
O homem de jaqueta escura coçou uma sobrancelha, de olhos fechados, enquanto Mavelle se mantinha parada ereta, esperando alguma ordem.
— Eu poderia dizer que isso foi meio cockblock** da sua parte, Coelhinha, mas sei que só estava fazendo seu trabalho, então não posso reclamar — ele falou, movendo os ombros para trás como quem ajeita a postura. Em seguida, abriu um sorriso amplo para a irlandesa.
— Eu tenho duas últimas coisas pra te pedir hoje: vá no segundo quarto ajudar minha Pombinha — mencionava Meredith — Parece que ela rasgou alguma coisa, não sei, confesso que não prestei muita atenção. — Deu de ombros. — E depois volte para cá, quero mais uma sugestão de whiskey da sua parte, porque precisamos ter mais uma conversa antes que eu possa te liberar — avisou, e Mavelle fez sua melhor expressão obediente, cruzando as mãos na frente do corpo.
— “Revolução dos Bichos”? — Negan comentou, olhando o livro largado ao seu lado — Isso é leitura de colegial — desprezou, jogando o volume para o lado, enquanto Mavie seguia para o corredor a direita.
O segundo quarto eram os aposentos nos quais dormiam as esposas do ditador que não fossem passar a noite consigo. No momento, estava ocupado apenas por Meredith.
Pelo visto ele teria uma noite gananciosa.
— Eu já costurei — a mulher ruiva murmurou, às pressas. — Mas segure a linha e a agulha, por via das dúvidas. — Meredith lhe empurrou uma farsa de remendo em seu vestido. A jovem irlandesa reparou que os lábios da moça mais velha estavam com batom um pouco borrado. A sensação de repúdio pelo líder miliciano apenas aumentou.
Mavie se abaixou, fingindo costurar a roupa de Merry, que continuou a falar.
— Vai ser amanhã. Redmond já me avisou. Mas se prepare para algo bem ruim — alertou, fitando Mavelle com um olhar apressado.
— O quê? — indagou, suas mãos ficando trêmulas novamente.
Meredith olhou para a porta e depois para ela.
— Julie traiu Negan. Se eu o conheço, ele vai marcar o rosto do Mark. O ex da Jules. — Merry passou os dedos por seus cabelos, parecendo nervosa.
— Marcar... Você quer d-dizer... — gaguejou Mavie, já entendendo.
— Que nem ele fez com o D — admitiu, e Mavelle abaixou o rosto, fechando os olhos e franzindo as sobrancelhas com força.
— Alguém já morreu nesse tipo de castigo? — a irlandesa teve de perguntar, voltando os olhos para ela, enquanto ondas de ansiedade engolfavam seu corpo e menta, a atormentando em uma espiral infernal de sofrimento. Não sabia como sequer conseguia falar.
— Uma vez. Raramente acontece, é serio — Merry tentou soar reconfortante, mas Mavie começou a menear a cabeça em um tique nervoso.
A mulher ruiva se abaixou, ficando agachada na frente de Mavelle, que também estava parcialmente ajoelhada no chão.
— Escuta, vai ser amanhã. Vocês vão sair daqui, eu prometo — a moça mais velha jurou, seus olhos verdes também lacrimosos.
— Se o Daryl for escolhido... Pra isso... Também... Nós dois vamos conseguir sair? Ele vai conseguir sair? — a agora serviçal de Negan não pôde evitar questionar. A esposa do líder autoritário desviou os olhos por um minuto, e isso já era resposta o suficiente.
— Meredith! — Mavie insistiu, falando alto demais. A mulher ruiva a calou esbugalhando um pouco os olhos.
— Eu não sei — assumiu, dando um olhar compassivo para Mavelle. A garota morena soltou a agulha e a linha no chão, fitando o piso.
— Ele precisa estar na cela dele para dar certo, é isso? Se estiver na ala hospitalar, não vai dar? — indagou a ex-moradora de Alexandria, mesmo sabendo que pedia informações perigosas demais.
Meredith olhou para a porta outra vez e em seguida para Mavelle, querendo segurar em seus ombros. A irlandesa rejeitou o toque, empurrando as mãos dela.
— Sim — a moça ruiva confirmou, e a neta de Annie já tinha se decidido. Levantou-se e deu as costas para ela.
— Mavie, por favor, não tome atitudes precipitadas — a mulher ruiva implorou, mas a garota morena sequer a ouvia. Fechou a porta e seguiu até a sala onde Negan a esperava.
Abriu o bar que havia perto do sofá onde o homem autoritário se sentava, e escolheu outra garrafa de whiskey irlandês, sabendo que o agradaria. Um Paddy Irish Whiskey 15 anos, ainda melhor do que o escolhido na outra oportunidade. Serviu-o no copo, entregou-o ao mandatário e ficou de pé perto dele, como uma serviçal eficiente.
— Pode se sentar, você sabe disso — o homem falou, em uma voz supostamente gentil com um sorriso cortês falso. Mavelle seguiu para uma poltrona ao lado do sofá e se sentou, cruzando as pernas.
O sujeito sádico provou a bebida da mesma forma que fizera na outra noite, outra vez franzindo o cenho em aprovação, quase batendo o copo contra a mesa de centro.
— Puta que pariu, Coelhinha, que bom gosto! É uma pena que ele não se transmita para as suas escolhas para homens — fingiu lamentar, dando mais um gole. Mavie apenas piscou, silenciosa.
— Não está muito falante hoje? — interpelou-a, colocando o copo da bebida com mais cuidado em cima da mesa. — Duvido que os tiros tenham te assustado. Você não é como as outras meninas daqui — afirmou, e Mavelle teve de respirar fundo. O maldito discurso de “você não é como as outras”. Uma das maiores mentiras misóginas que homens como Negan gostavam de perpetuar para enganar mulheres incautas e coloca-las umas contra as outras.
A garota apenas respondeu:
— Disse que queria falar comigo. Estou aguardando o seu ponto — falou, sabendo que a segunda frase chegou perto de soar petulante. Negan coçou a barba na altura do maxilar e lhe deu um olhar astuto, diminuindo o sorriso.
— Certo. Sendo direta. Eu gosto disso! — aprovou, abrindo outro sorriso. — Quer um cigarro? — parecia se divertir torturando-a sem ir direto ao ponto.
— Aceito. Uma dose também. — Apontou para o whiskey, sabendo que o governante seria a favor daquilo.
— Agora estamos começando a conversar! — O homem de jaqueta se levantou e a serviu o whiskey. Em seguida, lhe ofereceu um cigarro de seu próprio maço de Marlboro vermelho. Mavie agradeceu e andou até a janela. O homem fez o mesmo.
Negan acendeu o cigarro dela, e depois seu próprio. Mavelle tragou, olhando com melancolia para os carniceiros dispostos pelo pátio metros e metros abaixo.
— Vocês, meninas, gostam de conversar — começou ele, expelindo a fumaça para fora da janela, alguns centímetros distante de Mavie. — Então você já deve saber que a Bonequinha andou vacilando feio — afirmou, e a garota de olhos entre o verde e o castanho o fitou. Negan sorria seu sorriso perigoso. O mais falso que tinha.
— Soube hoje — foi honesta. Tragou mais uma vez, notando que o tremor em seus dedos voltara.
— Nós temos um procedimento aqui quando isso acontece. E eu acho, conhecendo a Jules, que ela vai escolher esse procedimento. Porque as outras duas opções são — Ergueu o polegar. — Ela voltar a trabalhar por pontos e assumir a imensa lista de dívidas que tem com mais essa, o que eu sei que não vai acontecer — Parou para expelir a fumaça do cigarro, batendo a ponta no cinzeiro que dividiam, e levantou o indicador. — E a outra é sair do Santuário. Sozinha, sem nada. Porque não é justo que os outros paguem por um erro dela — ele enunciou a última frase com seriedade, como se não soasse um completo psicopata com isso.
Mavelle nada disse, apenas o mirava e fumava.
— Você vai marcar o Mark como punição — a irlandesa falou depois de alguns segundos. O homem apenas anuiu, terminando o cigarro e dando um gole no whiskey que tinha na outra mão. Mavie fez o mesmo, mas sua garganta parecia querer se fechar.
— Eles pediram por isso. Tenho de fazer justiça. As regras existem para serem cumpridas — assegurou, sua voz saindo mansa e tranquila, como se aquilo realmente não lhe perturbasse sua paz de espírito.
— E você queria me contar isso por quê? — Mavelle tomou coragem e indagou, embora já soubesse a resposta.
— Porque eu acho que apesar de você ser uma funcionária exemplar, seu namorado não é. E ele precisa aprender a se comportar. — Negan mirou Mavie devagar, apertando o cigarro no cinzeiro, apagando os últimos vestígios de brasas nele.
A irlandesa fechou os olhos, sem mais conseguir conter o choro.
Só havia uma opção. Uma.
Apagou o próprio cigarro, deixando as lágrimas correrem livres. Seus lábios se crisparam e não pôde segurar um soluço angustiado.
— Coelhinha, minha querida, isso é tocante. — Ele tocou o próprio peito com uma das mãos, arqueando as sobrancelhas como se de fato se comovesse com a dor dela. — Mas eu preciso manter a autoridade aqui. Não se preocupe, eles raramente morrem. Um cara durão como o Daryl, então, vai aguentar bem — o doentio sujeito falou, andando até ela e tocando seu rosto, o acariciando como se quisesse consolá-la. Sua voz saía calma, quase reconfortante. Ela queria atirá-lo pela janela, ou atirar-se a si mesma.
Mavie sentiu que os dedos dele eram como brasas do cigarro que poderiam queimá-la, feri-la de uma forma que deixaria cicatrizes dolorosas.
Sentindo que sua própria alma se partia em incontáveis pedaços enquanto fazia isso, fechou os olhos e deitou o rosto na mão de Negan que a acariciava, como se apreciasse o afago. E, em seguida, abriu os olhos.
Um sorriso surgia lento no rosto dele, triunfo se espalhando naqueles orbes que Mavelle odiava profundamente.
— Olha só... — ele murmurou, e sua voz ficou mais baixa e interessada. Berry insistia em fita-lo. Sabia que precisava fazer aquilo.
— Aquela sua proposta ainda está de pé? — Mavie interpelou-o, dando um sorriso enviesado, fingindo seduzi-lo o melhor que podia. Secou as próprias lágrimas com as costas das mãos.
A expressão de Negan se modificou para puro júbilo.
— Pra você? Sempre — respondeu, e seus olhos escureceram, libidinosos.
— Se eu aceitar, Daryl pode ir embora? — tentou negociar.
— Não seja tão ávida, Coelhinha. — Ele tocou a ponta do nariz de Mavie com o indicador, deixando seus olhos percorrerem toda a extensão do corpo dela.
— Se eu aceitar, ele não sofre esse castigo e fica na cela? — foi bem específica, de propósito. Tinha os olhos firmes nos do ditador.
— Isso eu posso concordar — assentiu o homem de jaqueta escura, dando mais um passo na direção de Mavie. Por instinto, ela recuou, suas costas encostando na parede ao lado da janela. Ele se aproximou mais.
— Tem certeza de que é isso que você quer? Se sim, eu dou minha palavra — prometeu Negan.
Mavelle não acreditava no que fazia. Em parte estava ali, fazendo aquele tratado que a marcaria pelo resto da vida, ao mesmo tempo, era como se estivesse esvaziada. Como se não sentisse mais nada. Vazia de sofrimento, de desespero, de dor.
Vazia de tudo.
— Yeah. É o que eu quero — Mavie se comprometeu.
O rosto de Negan estava a centímetros do dela. Em um último sorriso devasso, o homem moveu suas mãos para a cintura dela, e ela se viu forçada a continuar aquela farsa. Levantou os braços até o pescoço dele, e o déspota venceu a distância que ainda havia entre seus corpos e lábios.
Mavelle, em sua parte que ainda conseguia sentir, nunca havia experimentado algo tão aversivo na vida. Era como se cada centímetro de seu corpo quisesse fugir daquilo, de dentro de si mesma.
Sentia a barba dele roçando em seu rosto, e seus lábios se abrindo para dar passagem a sua língua. Tinha de fingir retribuí-lo, e assim o fez, cingindo com ódio seus braços contra o pescoço dele, as unhas se fincando em sua nuca. Pelo visto o homem interpretou aquilo como um sinal de luxúria, pois intensificou o apertou contra ela, deixando uma de suas mãos subir até o rosto dela, o puxando para mais perto ainda, e outra descer até sua coxa direita, subindo por baixo da saia do uniforme, apertando a carne que ali havia. Mavie arfou, não por excitação, mas por repúdio.
Cada músculo de seu corpo enrijecia, contrário aquela ação. Enquanto isso, era obrigada a lutar contra seus próprios instintos, insistinto naquelas carícias indesejadas, forçadas, obrigando seu corpo a corresponder o que ela queria que acabasse o mais rápido possível. Beijava-o de volta desejando morder sua língua fora, enlaçava sua nuca tocando seus cabelos como se quisesse arrancar tufos deles com suas mãos em garra.
Quando ele parou de beijá-la para recuperar o ar, afastou o rosto o suficiente apenas para que seus olhos injetados de desejo pudessem mergulhar nos dela. Ela arquejava, por nojo, por humilhação, por se sentir um resto opaco e sujo da pessoa que um dia fora.
— Eu estou muito cansada — mentiu, pensando que aquele horrível amasso seria o suficiente por aquela noite, ao menos.
— Você é uma mulher e tanto, Mavie — comentou o ditador, deixando suas mãos no rosto dela. — Estou feliz por isso ter terminado assim. — Puxou-a para um último beijo, dessa vez lento e igualmente asqueroso.
Ao fim daquilo, a garota nada respondeu, e ele se afastou.
— Se quiser, pode dormir aqui esta noite — sugeriu, mas se Mavelle fizesse aquilo enlouqueceria. Não tinha estrutura para tanto. O olhar desejoso do déspota ainda não deixara o rosto dela.
— Posso dormir no segundo quarto?
Negan apenas anuiu com o rosto, sorrindo por todo o tempo. Quando ela passou perto dele para se dirigir aos aposentos referidos, o homem a segurou pela mão e falou em seus ouvidos.
— Se o seu beijo foi assim, mal posso esperar pelo resto.
Mavie nada respondeu, e não ousou fita-lo. Apenas caminhou até o segundo quarto, e fechou a porta.
Assim que entrou, Meredith acendeu a luz do abajur ao seu lado. Já estava deitada. Haviam mais camas vazias, mas Mavelle não conseguiu mais andar.
Sentiu que perdeu as forças das pernas. Encostou-se no armário e foi deslizando por ele, caindo até o chão, sentada. Merry correu até ela, silenciosa.
Seu corpo estava em brasas. Queimava, ardia, como se estivesse sendo consumido por dentro.
Mas longe de sentir desejo, ela sentia que toda sua pele queimava de asco. Como se quisesse fugir de si mesma, do corpo que Negan tocou, afagou, beijou, alisou. Usou como quis, como queria desde que pusera os olhos nela.
Desde a noite que esmigalhara o rosto de Glenn e de Tara.
— Está tudo bem agora — a mulher ruiva a amparou, colocando o rosto de Mavie contra seus ombros, que se punha a chorar sem parar. — Amanhã isso vai acabar. Amanhã — ressaltou, e Mavelle sentiu lágrimas caindo dos olhos de Meredith e atingindo seu rosto, mas mal conseguia respirar. Só conseguia chorar, mal sentindo ar entrar por seus pulmões.
Estava dispneica.
Chorou por nojo, pela humilhação, pelo horror que viveu desde a maldita noite em que aquele homem assassinara Glenn e Tara. Deixara Bethalie órfã, e Maggie viúva. Por todas as mulheres que ele abusara, estuprara, e tirara tudo delas. A sanidade. A alegria. A força vital.
Os últimos vestígios de dignidade.

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