Hunter's Instinct

80 Episódio 80 - Jim Jones at Botany Bay


Notas iniciais
BOA NOITE MINHA GENTE LINDA! Como estão todos vocês e todas vocês? Espero que muito bem! Eu tô tendo um curto momento de férias (embora esteja trabalhando ainda), no sentido de que não tenho que me matar de estudar nada por enquanto, então estou de boa ahushushue! Esse capítulo é, já aviso, matador. Vamos conhecer o Santuário pelos olhos da Mavie, que, com certeza, está presa no covil dos inimigo. É todo em POV dela, e tá tenso do início ao fim. Nossa Esquila vai provar que é mais difícil de dobrar do que o Negan imagina, mas também vai tomar certas atitudes impulsivas que vão fazê-la sofrer bastante. Vamos conhecer as esposas do Negan e todo seu paraíso doentio particular. Em determinado momento desse capítulo, a música que o capítulo faz menção aparece, e é fundamental que vocês a leiam para que entendam porque ela tem um peso tão importante para certos acontecimentos na trama. Quem não mandar bem no inglês, não se preocupe, eu coloquei a tradução nas notas finais. Podem ler lá embaixo sem medo! Eu realmente amei esse capítulo, espero que gostem, de coração. Quero dedicá-lo, portanto, a duas leitoras muito especiais. A ótima leitora e também autora Dixon Girl, que fez um comentário-recomendação para H.I. no capítulo 78, e ainda me deu uma recomendação de verdade e fez VÁRIAS das artes desse capítulo. Algumas estão em links, e a que fecha o capítulo está postada lá embaixo. Ela é uma excelente designer, fico de cara com suas habilidades incríveis! Tudo que ela faz é lindo! Link para o perfil dela: https://fanfiction.com.br/u/130343/ A outra para quem eu dedico este capítulo é a leitora Luna, ou "Dama de Vermelho", essa linda que voltou depois de tanto tempo longe, e já voltou recomendando a fanfic! Hunter's Instinct conta com vinte e duas recomendações, gente, é muita alegria pra pouca Menta ahushushuehu! E deem os parabéns pra ela, porque essa colega sagitariana faz aniversário nesse final de semana! Weeeheee! Aliás, meu níver é dia 10/12, então estou super aceitando presentes! Fanarts, recomendações... Estou aberta para receber agrados aqui em H.I. hahahaaha! Agradeço também as leitoras comentaristas: Dixon Girl de novo, Sami, Dama de Vermelho de novo ahushus, Kayle Ammany, Caçadora, Vivi Costa, marcelammota, Kanon, Mirah e Babi Prongs, que comentou por áudio. Preciso do apoio de vocês, não sabem o bem que me fazem e o quanto me empolgam para continuar escrevendo mais e melhor. Recomendo essa versão cover da música, que mais se aproxima da cantada pela Mavie: https://www.youtube.com/watch?v=gqUabMpwexU Dito isso, respirem fundo e... ...Beijos e boa leitura!

O som do vento forte atravessava as paredes da carga do caminhão. Como se incentivados pela lufada intensa, seus batimentos cardíacos disparavam velozes em seu peito, quase dolorosos. Em seus pensamentos, repetia o mesmo mote de resistência, por diversas vezes seguidas.

Resista. Por ele. Por ele.

Mavelle Berry se impedia de ceder a qualquer sensação que pudesse lhe tirar o foco da missão que definira para si. A decisão fora tomada sozinha, e seria levada adiante por si mesma, ainda que ninguém mais além de sua própria consciência a apoiasse.

Horas haviam se passado desde que a irlandesa deixara Alexandria, na manobra, talvez, mais arriscada de toda a sua vida. Percebera que já tinham avançado por muitos quilômetros. Todavia, estava sem visão externa, fechada naquele ambiente claustrofóbico, cercada de Salvadores.

A cada segundo em que sentia seus pensamentos serem invadidos por emoções que pudessem perturbar seu equilíbrio que beirava a obsessão, se obrigava a repisar em sua mente as mesmas frases.

Resista. Por ele. Por ele.

Nada poderia ser mais apavorante do que a ideia de se ver mais uma vez separada de Daryl. Depois de atestar com seus próprios olhos o que quer que Negan fizera contra o arqueiro, capaz de movê-lo pelas ruas de Alexandria como uma verdadeira marionete entregue aos seus caprichos, o horror que Mavie fora obrigada a suportar por dias até saber o que fora feito do caçador se tornara tangível.

Daryl obedecera às cegas a cada comando do líder miliciano. Sem abrir a boca, sem reclamar, sem manter uma mínima postura resistente. Era óbvio, explícito para qualquer um que conhecesse um pouco o arqueiro que aquele não era ele. Mavelle percebera de imediato que, qualquer que tenham sido os meios utilizados pelo homicida, conseguiram fragiliza-lo a um nível inédito. Ele era tão forte, tão duro na queda. E, ao mesmo tempo, o homem mais sensível que a arqueira já conhecera.

Ela não poderia mais permitir aquilo. Esperar, de braços cruzados, por alguma atitude para que pudesse salvar o homem que amava. Não suportaria viver consigo mesma se o deixasse ser levado embora, mais uma vez, inerte. Não se importava com o choque no rosto dos amigos, que deixaram claro sua oposição a ida de Mavelle.

Aquilo era uma questão de sobrevivência. De Daryl, e de si própria.

Mavie Berry tinha as mãos cruzadas perto dos lábios, sentada contra um dos cantos do caminhão diminuto. O veículo tinha diminuído a velocidade, e o motorista bradara algo que não chegara a ser discernível pelos que viajavam na carga. O caminhão parou por alguns segundos, para logo depois acelerar de novo, e manobrar.

Poucos minutos depois, a primeira a se levantar foi a general de Negan, Arat. Com suas feições ríspidas, a mulher abriu a porta traseira e saiu antes. Os Salvadores a seguiram, e Mavelle apenas observou a movimentação, tentando encontrar Daryl por cima dos ombros dos subalternos do mandatário daquela comunidade.

Conforme o último capanga saía, Arat retornou as portas traseiras e alertou:

— Você fica aí. — Deu as costas para a garota de dentes salientes, puxando a faixa da bandoleira de sua metralhadora. Mavelle não ousou desobedecer. Continuava sentada com a mesma postura, seus olhos abertos e atentos para a visão de seu namorado. Podia apenas enxergar um local repleto de veículos parados, dispostos em ordem. Ao fundo reparou em muros altos, sólidos, com uma aparência mais resistente que os de Alexandria. Todos pintados em um tom acinzentado.

A irlandesa passou a ouvir algumas vozes conversando entre si. Arat dava ordens para homens próximos, que retiravam as cargas saqueadas de inúmeros veículos. No caminhão pequeno no qual Mavie fora levada, não havia nada a ser descarregado além de si mesma. Ela reconheceu um homem de cabelos rareados, quase careca, e bigode comprido.

A náusea lhe subiu ao pescoço, enquanto ele andava em sua direção e batia em uma das portas já abertas. Era Simon, o suposto braço direito do líder daquele grupo desprezível.

— Desça daí, garota! O chefe está ansioso pra te mostrar a casa — demandou o sujeito, com um olhar de troça e um sorriso torto. Ainda em silêncio, a jovem irlandesa se ergueu nas duas pernas, caminhando para fora do veículo. Simon lhe estendeu uma mão, mas ela apenas saltou sem dificuldades da parte traseira. Ignorou-o de propósito.

O capanga de bigode soltou uma risada sem som. Fez um gesto com uma das mãos para que o seguisse, e Mavie assim o fez. Deixou seu olhar perscrutar o ambiente. Defronte aos carros, motocicletas, caminhões e veículos de toda sorte havia um edifício amplo, tanto em largura quanto altura. Parecia algo de feitio industrial.

Por todos os lados, os seguidores de Negan caminhavam, apressados em seu trabalho de desalijar todos os bens roubados de Alexandria. A garota morena tentava não olhar muito para aquela tarefa repugnante, para que a revolta que corroía suas entranhas não ficasse ainda mais difícil de suportar.

Logo Simon a dirigiu até onde seu chefe estava parado, agora conversando com sua general, que lhe entregava duas sacolas leves. Não vira sinal de Daryl.

— Foi o melhor do que conseguiram achar. Davey encontrou a maioria — a mulher de cabelos tingidos de loiro disse, estendendo as bolsas. O déspota as pegou de suas mãos e estudou seu conteúdo. Abriu um sorriso aprovador. Mavelle mordeu o próprio maxilar para conter uma súbita sensação fervente de raiva e nojo.

Respirou fundo enquanto o miliciano a fitava. Uma centelha ardilosa se fez brilhante em seus olhos escuros.

— Olha só, Coelhinha, parece que você vai ganhar um presente de boas-vindas! — Negan falou em um tom que devia julgar simpático. A garota irlandesa nada respondeu.

Ainda sorrindo, o tirano fez uma expressão de suposta diversão, colocando uma das mãos dentro da sacola.

— Onde foi que eu tinha visto... Aqui! — O chefe dos Salvadores tirou rápido de uma das sacolas uma corrente prateada. Uma pulseira delicada, com pingentes pequenos. Estendeu o braço na direção de Mavie, para lhe mostrar o que era.

Singelos badulaques em formato de coelhos, banhados em prata.

Mavelle rangeu os dentes. Sentiu vontade de arrancar aquilo das mãos do governante perverso e arrebentar em diversos pedaços. Era uma pulseira que antes pertencera a Enid. Mavie já vira o cordão em seus braços.

— Considere um gesto de apreço pela sua companhia entre nós — o homem de jaqueta escura manteve seu tom de voz em seu despojamento forçado. Abriu um sorriso ainda maior, erguendo a pulseira defronte a garota irlandesa. Ela não se moveu.

— Onde está Daryl? — a alexandrina perguntou, apenas. Sua voz saiu rouca.

— Uma coisa de cada vez. — Negan, ainda sorridente, levantou o braço direito, que segurava seu taco de baseball asqueroso e uma das bolsas de papel. Parou a mão perto do ombro, ajeitando o bastão contra ele. — Acho que você precisava mesmo sair de Alexandria. O convívio com aquele pessoal está te deixando mal-educada. Ainda não ouvi um agradecimento. — Balançou o cordão da pulseira na frente de Mavie, erguendo as sobrancelhas em uma expressão descarada.

A garota morena não soube como não desferiu um chute vigoroso contra a canela daquele homem nojento. Em contrapartida, apenas levantou a mão direita devagar e pegou a pulseira, tomando o cuidado de não tocar nos dedos dele. O líder dos Salvadores tinha uma expressão como se aguardasse que ela experimentasse a jóia.

Piscando os olhos devagar para conter os nervos, a irlandesa colocou a pulseira em seu pulso direito. Infelizmente, servira. Engoliu o próprio orgulho e falou:

— Obrigada. — Nunca antes aquela palavra lhe soara tão amarga nos lábios. — Quero... — Mavelle se corrigiu a tempo, ao passo que Negan olhava para seu pulso adornado. Limpou a garganta. — Posso ver Daryl? — pediu, a voz menos petulante.

— Pode — o chefe miliciano disse em um tom de falsa afabilidade e Mavelle pestanejou, surpresa. Ele indicou a Arat que continuasse supervisionando os outros Salvadores. Simon já saíra de perto, ocupado em outro trabalho.

— Mas! — Negan voltou o rosto para ela com outro sorriso largo. O curto fio de esperança que sentira fora cortado. — Antes disso, você precisa se habituar com a nossa comunidade. Chamamos este lugar de Santuário — o homem de jaqueta de couro abriu os braços ao redor. — Não é o subúrbio estilo “ilha da fantasia” como a comunidade de vocês, mas temos tudo o que qualquer um precisaria para viver. Mais do que sobreviver — realçou com um sorriso curto, erguendo um dedo indicador, os outros fechados em volta das abas da sacola que carregava.

— O que você quer que eu conheça? — a irlandesa questionou, franzindo os lábios.

Ele ergueu a mão esquerda na direção do queixo, como se fingisse refletir a respeito em feições galhofeiras. Depois de alguns segundos, fitou a arqueira novamente.

— Meu quarto — respondeu, a voz outra vez grave. Um sorriso lascivo se desenhou instantaneamente em seu rosto repulsivo. Mavie conteve a respiração, os ombros tremendo. Negan manteve a mesma expressão libidinosa para depois irromper em uma risada alta.

— Ah meu Deus! Não é isso que você está pensando, Coelhinha! — disse, no auge de seu cinismo descarado. — Eu tenho algumas coisas para resolver lá antes de definir qual vai ser sua função aqui. Seu trabalho — esclareceu, movendo uma das mãos enquanto falava, para depois apontar os últimos andares daquela construção cinzenta.

— Quero dizer... — Sua voz ficou mais gutural e baixa. Outro sorriso sugestivo apareceu em suas feições odiosas. — ...É óbvio que eu acharia bem foda se você quisesse algo nesse sentido também — ressaltou. Andou alguns passos para mais perto da garota, que recuou de maneira quase imperceptível, por instinto. — Mas eu nunca forço nenhuma mulher a nada. Eu sei que não significa não — assegurou, movimentando o rosto para a direita, o curvando para olhar melhor Mavelle. Ela não desviou do olhar.

Mavie não dava crédito para nenhuma das palavras falsas daquele sujeito. E tinha a impressão de que nem ele mesmo acreditava em metade do que dizia.

— Eu não quero — a irlandesa garantiu no tom mais ousado de desdém disfarçado que se sentia capaz de usar. O homem a sua frente a mirou por alguns segundos, movendo o rosto agora para o outro lado, o mesmo sorriso predatório ainda presente em seus lábios. Ela preferia nem imaginar o que se passava em sua cabeça.

Depois de intimidar Mavie pelo tempo que julgou suficiente, o algoz fez um gesto com um dos braços para que ela caminhasse a sua frente. Mavelle o fez, de braços cruzados, em um gesto de autoproteção instintiva. Ele a guiou até uma das portas amplas e pesadas do edifício. Passaram por alguns homens que se ajoelharam enquanto seu líder caminhava. Negan nem lhes deu um mísero olhar. A garota engoliu em seco, pensando que tipo de tratamento ele reservava aquelas pessoas.

Assim que entraram, a jovem irlandesa reparou em corredores fechados, também pintados em um tom acinzentado, o mesmo estilo de construção industrial se refletindo do lado de dentro. Enquanto isso, o assassino de Glenn e Tara a guiava até o que pareciam ser escadarias bem ao centro do edifício.

— Como está seu preparo físico? — indagou seu novo chefe, com um sorriso enviesado. Até aquela pergunta parecia conter segundas intenções, pelas feições jocosas em seu rosto. Mavelle lhe deu um olhar breve e passou a contar os andares. Mais de uma dezena.

— Excelente — asseverou, a voz baixa, mas firme. Negan deu uma risada contente, movimentando seu taco grotesco em um breve giro nos dedos.

— Garota confiante. Gosto disso. Vamos em frente, e para cima! — O mandatário tirano a fez caminhar defronte a ele, subindo os múltiplos degraus. A cada andar, ela viu estruturas diferenciadas. Alguns pareciam ser reservados a ambientações dos moradores, que davam olhares humildes e submissos na direção de Negan. Outros, ao que poderiam ser cozinhas industriais, linhas de montagem, e demais atividades internas para manutenção de toda a estrutura da comunidade. Ela não tinha tempo de avaliar com cuidado, pois o líder a forçava a continuar rápido e em frente. Ao chegarem a cobertura, ele finalmente falou:

— Última parada. Por enquanto — disse em um tom brincalhão, abrindo uma porta em um hall. Desta vez, caminhou na frente da garota irlandesa. Antes de pôr as mãos na maçaneta, retornou a mirar o rosto dela. Examinou-a por algum tempo e deu mais uma risada seca.

— Nenhuma gota de suor. Muito bem! Gosto disso. Gosto muito disso — alteou, a expressão antes zombeteira voltando a ter um teor insinuante em seus olhos espertos. Mavelle se forçou a inspirar fundo, devagar.

Resista. Por ele. Por ele.

O homem de jaqueta escura falou para que entrasse e fechasse a porta depois. Sem alternativas, Mavie seguiu as ordens, e passou a andar atrás dele. Passou por um corredor comprido, sinuoso, repleto de quadros, obras de arte, estátuas e até mesmo tapetes de muitos fios, cujas estampas e tecidos davam a impressão de serem de requinte.

Depois de caminharem por alguns segundos, se viram na frente de outra porta. Antes de colocar a mão em cima da maçaneta e girá-la, o homem se voltou para a garota de dentes salientes. Abriu um sorriso amplo. Parecia fingir empolgação.

— Bem-vinda aos portões do paraíso! Para os quais só eu tenho a chave — disse com teatralidade, e abriu a última porta remanescente.

Mavelle o seguiu, e logo sentiu seus pés pisando sobre outro tapete de aparência requintada.

Porém, nada a prepararia para ver o cenário que avistara. Seus olhos piscaram sucessivas vezes, tentando se acostumar com aquela visão no mínimo surreal.

Sofás, poltronas, estantes, móveis e itens de decoração dos mais variados se dispunham em uma sala ampla. O tom cinza da fábrica era inexistente ali. As paredes foram pintadas em uma cor quente, chamativa, e as amplas janelas industriais, cobertas com cortinas de fios delicados. Mavelle percebeu de imediato que tudo do mais caro e de mais qualidade apropriado pelos Salvadores ia parar naquele lugar.

Mas não só a decoração ostensiva, até mesmo megalomaníaca, era o ponto chocante daquele reduto particular criado por uma mente doentia como a de Negan. O mais impactante, revoltante e, sem dúvidas, torpe detalhe não residia nos objetos ali dispostos.

Mas sim nos objetos humanos, ali encontrados à disposição do tirano perverso.

Mavelle primeiro enxergou duas jovens mulheres. Uma sentada de costas para a janela, usando o que parecia ser uma camisola de renda negra, graciosa, o tecido vestindo seu corpo curvilíneo com perfeição. Era uma garota que deveria estar na faixa etária da irlandesa, as mãos segurando cartas de baralho, sentada defronte a uma mesa. Tinha cabelos escuros ondulados e a pele negra. Ao lado dela, uma moça que parecia ser alguns anos mais velha, de olhos azuis amendoados e cabelos castanhos escuros e compridos até suas costelas, vestia um corselete azul escuro e preto, e distribuía algumas cartas em cima da mesa.

Sentada em um sofá no meio da sala, lendo um livro grosso e enrolando seus cabelos de um tom entre o loiro e o ruivo, estava uma mulher que deveria ter trinta e poucos anos, vestindo uma camisola branca singela, também sensual e elegante. Tinha olhos verdes absortos na leitura.

Por fim, uma mulher alguns poucos centímetros mais alta do que Mavelle caminhava pela sala, andando com o que parecia ser um copo de drink colorido e um cigarro nas mãos. Vestia um vestido preto justo, bastante curto, de bolinhas brancas que parecia ser alguma lingerie de grife. Tinha cabelos castanhos e olhos cor de mel.

Assim que os dois entraram, porém, as quatro mulheres pararam tudo o que estavam fazendo. As que jogavam, baixaram as cartas. A leitora, deixou seu livro de lado. E a que bebia e fumava, moveu o rosto na direção do homem que adentrara o recinto. Todas fitaram Negan, ao mesmo tempo.

— Olá, Negan! — As quatro vozes soaram em uníssono, cada uma delas tentando um sorriso acolhedor em seus rostos respectivos.

O queixo de Mavie caiu. Uma onda de pavor perpassou seu corpo sem que pudesse se controlar. Aquela visão fora a mais aterrorizante da tarde. Ao dar por si, percebeu que sua respiração já estava entrecortada, e recuava alguns passos para longe do algoz. Era por muito pouco que não virava as costas e saía correndo dali.

— Olá, minhas meninas! — ele saudou com um sorriso enorme e hediondo no rosto. Os dedos de Mavelle tremiam, e ela se sentiu zonza. As mulheres nem lhe deram um mísero olhar até então, todas ocupadas em dirigir ao miliciano suas íris denotando reverência. — Nós temos presentes! — O sórdido sujeito balançou as duas sacolas em suas mãos, deixando o bastão de baseball em uma poltrona próxima.

Ainda achando difícil suportar aquele atravessamento de realidade pavoroso, Mavie ouviu um som abafado atrás de uma porta a direita. Passos, de alguém que vinha correndo.

A porta logo foi aberta, e, de lá, saiu mais uma garota. Loira, os cabelos na altura dos ombros, vestindo o que parecia ser um baby doll leve, justo, de um tom azul bebê. Seu rosto estava emoldurado em um sorriso imenso, tão grande quanto os que Negan costumava dar. De todas as cinco, era a que mais parecia agradada com a visão daquele homem.

Big Daddy! — a garota gritou quase, e Mavelle pestanejou, tanto pelo som agudo quanto pelo tratamento utilizado. Parecia estar presa em um pesadelo de mau gosto. No segundo seguinte, ela já tinha corrido por toda a sala e se jogado nos braços do alto sujeito perto de Mavie.

Negan deu uma risada, a levantando com os braços ainda carregando as sacolas, e Mavelle desviou o rosto quando trocaram um beijo. Vomitaria, se assistisse aquilo. Podia sentir o afã quase maníaco da garota loira perto dela, que fitava aquele assassino como se fosse um verdadeiro deus.

— Eu morri de saudades. Por que demorou tanto? — a jovem loira indagou, as mãos enroladas na nuca do tirano, que já a afastara um pouco.

— Tínhamos de pegar muitas coisas. Mais do que imaginávamos. A colheita hoje deu um resultado da porra! — Ergueu uma das sacolas perto do rosto dela. Mavelle apenas se esforçava em seu mantra interno para manter sua própria sanidade.

A garota loira pareceu finalmente notar Mavie. As outras, que se levantavam e se aproximavam do homem, não lhe deram muita atenção. Apenas a moça fumante se permitia alguns olhares breves na direção da garota de dentes salientes.

— Quem é essa? — a jovem de cabelos amarelos indagou, dirigindo seus olhos desagradados na direção de Mavelle. Seu sorriso murchara. O chefe dos Salvadores deu mais uma risada sem som, deixando as sacolas em cima da mesma poltrona onde colocara Lucille.

Com um dedo indicador, o déspota tocou a ponta do nariz da moça que reprovava a presença de Mavelle Berry. A garota loira o fitou e no segundo seguinte um sorriso derretido de veneração já nascera em seu rosto bonito, de traços infantis.

— Essa — Negan apontou com a outra mão para Mavelle — É a Mavie. Ela vai morar conosco. — O estômago da irlandesa embrulhou.

A expressão da garota de cabelos loiros pareceu insatisfeita outra vez.

— Você e ela... — ia perguntar, mas o líder miliciano deixou o indicador que tocava a ponta de seu nariz abaixar até seus lábios, a calando. Em seguida, segurou o rosto e o queixo dela, em uma suposta carícia.

— Não, Princesinha. Ela não quer. Vai trabalhar para nós. Ela é só uma convidada — afirmou o chefe dos Salvadores, com um sorriso que se pretendia calmante. Seus dedos acariciavam o rosto da garota que o fitava com adoração. — Mas você precisa aprender a controlar esses seus ciúmes — repreendeu-a em um tom de deboche que deveria julgar afetuoso.

A garota loira apenas deitou o rosto contra a mão dele que a acarinhava, como se fosse uma gatinha ronronando. Fechou os olhos, e Negan continuou a fitando por algum tempo, seu sorriso lúbrico estampado em seu rosto pervertido.

Depois, passou a distribuir os presentes para as moças, enquanto Mavie apenas assistia a tudo, atordoada. Deu primeiro um colar com o que parecia ser uma safira enorme como pingente para a jovem loira, que agradeceu o presente com outro gritinho agudo e mais um beijo que Mavelle virou o rosto para não ver. Em seguida, deu a garota de pele negra um anel dourado que ela colocou em seu dedo mindinho. Entregou para a moça de olhos cor de mel um bracelete prateado, que ela vestiu e disse um “obrigada” em uma voz murmurante. Para a garota de olhos azuis expressivos, reservou outro anel, desta vez em formato de serpente, que parecia ser folheado a ouro branco. Por último, deu a mulher de cabelos entre o ruivo e o loiro dois brincos de pérola.

A irlandesa os reconheceu.

De imediato, seu sangue ferveu. A fúria subiu pelo seu corpo, aquecendo sua temperatura corporal e fazendo com que ela não controlasse seus próprios lábios. Aqueles brincos eram de Annie, sua avó.

— Isso é meu — Mavie clamou, alto, a voz saindo de sua garganta ensandecida pela raiva. Todas as mulheres a olharam ao mesmo tempo. A de cabelos loiros abrindo um enorme sorriso maldoso para ela.

Negan demorou a lhe fitar, e tinha uma expressão particular no rosto. Que Mavelle percebeu, instintivamente, ser perigosa.

Seu coração acelerou enquanto ele caminhou, a passos lentos, até ela. Por cima de seus ombros largos, a irlandesa podia ver a mulher vestida com a camisola branca a fitando com olhos preocupados.

— Eu acho que você já ganhou o seu presente hoje, não é, Coelhinha? — ele fez a pergunta em um falso tom questionador. Sua voz estava baixa, suave, porém irredutível.

Não era uma indagação.

Era uma constatação.

Ergueu com uma das mãos o pulso de Mavelle, e ela sentiu sua pele formigar ao seu toque. Sentira repúdio instantâneo. Todavia, o olhar definitivo que o algoz lhe dera fora o suficiente para que a fizesse engolir em seco.

Mavie piscou e respondeu:

— Sim — aceitou a derrota, humilhada por uma vez incontável.

— Boa menina! — Negan retrucou com um sorriso largo, pondo o indicador contra a ponta do nariz da irlandesa da mesma maneira que fizera com a garota loira. Girou nos calcanhares e entregou os brincos para a mulher de olhos verdes, que os colocou, destinando a Mavelle um olhar discreto, como se lhe pedisse desculpas. A antes moradora de Alexandria sentiu seu estômago dar voltas desagradáveis enquanto se forçava a se rebaixar daquela maneira.

— Então! — O líder dos Salvadores juntou as palmas das mãos em um gesto aprovador, balançando o rosto em concordância. — Depois desse agrado, ainda preciso decidir alguns detalhes com a Mavie — Deu-lhe um olhar breve junto a um sorriso debochado — Antes de poder enfim descansar um pouco. Nós vamos conversar lá dentro. — Apontou com o polegar na direção de uma porta a esquerda.

— Mas... — a garota loira tentou interrompê-lo, franzindo o cenho. O miliciano se aproximou dela, segurando seu rosto com as duas mãos.

— Tenha paciência, Princesinha. Isso não vai demorar muito — assegurou, e a jovem foi pouco a pouco amainando a expressão. Anuiu com o rosto devagar, e ele pareceu satisfeito.

— Bom, vocês todas já conhecem a Mavie. — Negan andou até Lucille, a retirando da poltrona. Usou o bastão nojento para indicar a irlandesa. — Mas ela não conhece vocês — deu a deixa.

— Julie — a moça negra se apresentou, já andando de volta a mesa onde jogava cartas, acompanhada da jovem de olhos azuis, que logo disse: — Tessa.

— Meredith — a mulher que ganhara os brincos de Annie falou, rápida, outra vez depositando em Mavie olhos arrependidos.

— Sherry — a moça com olhos cor de mel se apresentou, tragando o próprio cigarro. Fora a que menos olhara para o abusador, naquela curta interação horrorosa.

— Callie — a garota antipática que parecia nutrir uma adoração doentia por Negan disse, olhando para Mavie de cima a baixo, a avaliando com íris desfavoráveis.

— Ou, como eu gosto de chamar... — o homem de jaqueta escura abriu outro sorriso dúbio. Apontou para cada uma delas com seu taco de baseball. — Bonequinha, porque, bem, é só olhar para a Julie que qualquer um percebe a razão.

Ela era mesmo uma moça muito bonita, de traços físicos que pareciam desenhados por um artista exigente.

Gata, e também acho que não preciso explicar, porra, é só olhar bem pra Tessa! — riu o abusador, coçando a barba. A moça de olhos azuis chamativos tinha uma sensualidade magnética.

Pombinha, que combina com esses olhinhos meigos. Parece um anjinho, não? — Negan disse em um tom enaltecedor, sorrindo para Meredith, que apenas abaixou o rosto. Pareceu forçar um sorriso doce. Já se sentara no sofá e se punha a ler seu livro de novo.

Docinho, porque Sherry me lembra cereja**, e, caralho, ela é uma graça também! — O tirano deixou seus olhos deslizarem pelo rosto e o corpo de Sherry, que apenas expeliu a fumaça do cigarro, encostada em uma das paredes.

— E a minha Princesinha, que nem parece ter esse gênio forte, com esse rostinho delicado, esculpido pelos deuses gregos. — O homem foi de novo em direção a Callie, que o abraçou e deitou o rosto em seu peito, fechando os olhos. Ele desceu de maneira lasciva e possessiva seus dedos pelos cabelos claros dela.

— Deuses gregos? — Mavie não pôde deixar de perguntar, atônita.

— Callie vem de Calliope. Uma das musas das tragédias gregas — o sujeito perverso comentou. — Ela prefere o apelido — adicionou o déspota, dando um riso leve. A moça loira abriu os olhos e mirou o assassino de Glenn e Tara, franzindo as sobrancelhas. Parecia indignada por ele ter revelado aquilo a Mavelle.

O mandatário se afastou da garota que ainda o olhava surpresa, e passou a andar na direção da porta mais à esquerda. A caçadora, sabendo que quase ultrapassara algum limite há pouco tempo, teve de ir atrás.

Foi levada, literalmente, ao quarto do líder dos Salvadores. Ainda mais suntuoso do que a sala anterior, também repleto de itens de decoração que deveriam ter sido roubados de diversas comunidades dominadas por suas mãos de ferro. Quadros, esculturas, móveis sofisticados, tapetes, cortinas, armários, estantes, tudo era tão ostensivo que a fazia se sentir ainda mais oprimida.

Perto de uma cama enorme haviam duas poltronas, uma defronte a outra. Negan indicou que ela se sentasse em uma delas.

Mavie foi obrigada a fazer como foi dito, enquanto o abusador revirava algo dentro da gaveta de uma cômoda.

— Dwight me deu essa merda e eu tinha colocado aqui... — resmungava o tirano, movendo objetos dentro da gaveta de um lado ao outro. — Isso, porra! — comemorou, a voz audível atravessada na garganta. A jovem irlandesa estremeceu.

O portador de Lucille caminhou até a poltrona a frente de Mavelle com algo que parecia ser um livro em mãos, além do bastão de baseball. Se sentou e o abriu, e ela viu a capa. Boquiaberta, deixou escapar uma exclamação de choque.

Era um álbum de fotografias, no qual se lia escrito na capa:

“Jeffrey Gallagher — Fotografias”

O portfólio de seu ex-noivo maldito, repleto de fotos de Mavelle e do finado sujeito, em suas férias na Irlanda.

O homem defronte a ela observava os retratos do álbum, movendo as páginas com um sorriso presunçoso no rosto. Mavie crispou as mãos nos braços da poltrona. Suor desceu de sua testa. Pensou, irracional, se não teria tempo de roubar Lucille dele e esmagar seu crânio odioso em alguns golpes bem dados.

— Isso daqui é realmente muito foda — Negan comentou, suas feições risonhas. — Eu nunca visitei a Irlanda. Acho que me amarraria no lugar. Wow, olha quanta cerveja nessas fotos! — riu o déspota, virando as páginas.

Mavie conhecia o conteúdo do álbum.

Quase todo de fotos dela.

Seu estômago revirou em ondas incômodas, a bile lhe subindo a garganta. Estava outra vez sentindo algo ácido corroer suas entranhas, se retorcendo por tanto desagrado.

— E olha só isso... — Ele virou o álbum de forma que Mavelle pudesse enxerga-lo. Sabia que ele a provocaria com aquilo.

Uma série de fotos mais sensuais de Berry que Gallagher fizera. Não estava nua em nenhuma delas, mas era certamente o tipo de fotografia e trajes que ela odiaria que o sujeito a sua frente a visse usando.

Os olhos de Negan cintilaram, o brilho devasso explícito em seu olhar.

— Você usava até franjinha nessa época. Sugestão do Jeffrey? — perguntou em um tom debochado. A raiva eclodia profusa dentro de Mavie.

— Nunca fiz nada só pra agradar homem nenhum — rebateu a irlandesa, sua voz rascante. Ele apenas anuiu com a cabeça, com um sorriso satisfeito, provavelmente por tê-la tirado do sério. Retornou a olhar as fotos, movendo o rosto em aprovação.

— Sabe, o Jeffrey era um bom soldado. Liderava um esquadrão muito bom. — O líder miliciano a mirou, fechando o álbum e o jogando de qualquer jeito em cima da cômoda. — O que me deixa pensando... Dwight me contou que ele traiu todos para tentar te salvar. Você mexe mesmo com os homens, não é, Coelhinha? — fez a pergunta retórica, e soltou seu largo sorriso de predador. Mavie teve de abaixar o olhar, enojada.

— O que será que aconteceu com esse traidor filho da puta?

A voz do déspota ficou novamente séria, baixa, perigosa. A garota ameaçada o fitou de volta, respirou fundo e respondeu:

— Eu o matei — admitiu, sustentando o olhar fuzilante de Negan.

O líder dos Salvadores passou algum tempo a avaliando. Depois de a fitar por longos segundos angustiantes, ele outra vez caiu na risada, abaixando o rosto e o erguendo de novo.

— Você tem essa cara de novinha, esse ar de “vizinha simpática”, uma gracinha... — ele comentou, sua voz em um tom sacana. — ...Mas você não é nada inofensiva — ratificou, passando uma das mãos pela barba. Com a outra, ajeitou Lucille em seu colo.

— Eu tenho um tesão do caralho em meninas más. Ainda mais as que não parecem ser. — Seus olhos ávidos devoravam Mavie, que tinha de apertar com força o braço da poltrona para se conter. — Mas a Lucille... A Lucille não gosta nada delas. Acha que elas têm que ser obedientes. — O abusador de mulheres crispou a mão que segurava o taco. A irlandesa desviou o olhar até ela.

Ao fitar o algoz, o homem de jaqueta escura a mirava com um olhar claramente ameaçador. Ela tremeu dos pés à cabeça.

— Por isso! — O timbre de Negan denotava divertimento outra vez, fazendo Mavelle pestanejar, se sentindo incapaz de acompanhar sua falsa bipolaridade sádica. — Vamos agradá-la um pouco. Lucille adora música. Eu também. E sei, por essas fotos, que você sabe cantar! — O mandatário apontou para o álbum jogado em cima da cômoda. Tinha fotos de Mavie em seus shows em pubs.

O opressor se levantou rápido, fazendo com que a jovem de dentes salientes retesasse sua coluna, sobressaltada. Todavia, ele apenas caminhou na direção da porta e a abriu.

Bonequinha! — chamou Julie. — Pode pegar seu violão, por favor? — pediu, e foi prontamente atendido. A garota logo passou pela abertura da porta um violão de madeira antiga.

Negan foi até Mavelle e o entregou em suas mãos.

— Pronto! — disse, parecendo entusiasmado, enquanto se sentava defronte a ela. — Cante uma especialidade sua. Música irlandesa — demandou o maníaco.

Mavelle Berry, sem saber exatamente como reagir, passou os dedos pelas cordas do violão. Começou a afiná-lo, tentando imaginar o que deveria fazer.

— Vamos lá, não tenho o dia todo. — O algoz a apressou, movendo seu bastão entre as mãos.

Mavie fitou Negan, com uma ideia súbita em mente.

Era perigosa. Era arriscada.

Mas era também irresistível.

Mavelle conteve um sorriso de triunfo, e começou a dedilhar as notas musicais daquela canção tradicional. O homem sentado defronte a ela passou a movimentar Lucille de um lado ao outro, debochado, como se regesse a música.

— *Listen for a moment lads and hear me tell my tale... How over the sea from Ireland shore I was condemned to sail! — Respirou fundo e continuou. — The jury found me guilty, sir, and said the judge, said he... — Segurou a nota. — "For life, Jim Jones, I sentence you across the stormy sea"! But take my tip before you ship to join the iron gang: don't be too gay in Botany Bay, or else you'll surely hang! "Or else you'll surely hang," says he "And after that, Jim Jones... — Sustentou a nota da mesma forma. — High up upon the gallows tree the crows will pick your bones"... — Os dedos de Mavelle se moviam com agilidade pelas cordas do violão, sua voz clara, límpida, afinada naquela conhecida melodia. Observando-a, Negan ainda movia seu bastão de um lado ao outro no ritmo da música. Ela não lhe dava atenção. Sabia que o deixaria sem reação em segundos.

“You'll have no chance for mischief there, remember what I say! They'll flog the poaching out of you out there in Botany Bay”. The waves were high upon the sea, the wind approached in gales... I'd rather drown in misery than go to New South Wales. — Mavelle levantou os olhos para o algoz, que agora não mais movimentava o bastão tão animado. Parecia começar a perceber o que a música significava.

The waves were high upon the sea when the pirates came along. But the soldiers on our convict ship were full five hundred strong. They opened fire and somehow drove that pirate ship away... — Mais uma vez ela enunciou a nota. — I'd rather join that pirate ship than go to Botany Bay. — Mavie cantava, sem denunciar o deboche evidente da música. O homem defronte a ela, porém, já deixava o sorriso murchar aos poucos.

And one dark night, when everything is quiet in the town... I'll kill you bastards one and all, I'll gun the floggers down! I'll give them a little shot, remember what I say... — No momento de sustentar a nota, não mais ousou olhar para o rosto do déspota. — They'll yet regret they sent Jim Jones in chains to Botany Bay. — Ela aumentou a intensidade com que movia os dedos no violão, soltando sua revolta por aquela música.

Now day and night and the irons clang, and like poor galley slaves... We’ll toil and toil, and when we die we’ll fill dishonored graves. — Mavie se impressionava por conseguir manter sua voz sem falhar. Aquela era sem dúvidas sua ação mais audaciosa de toda aquela tarde. — By and by I'll break my chains and to the bush I'll go... — Segurou a nota e enfim levantou o olhar para Negan.

Ele a fitava completamente sério.

— Termine — exigiu o homem, e ela comprimiu um sorriso quase suicida.

...And you'll be dead behind me, Negan, when I get to Ireland... — Mavelle Berry finalizou a canção de protesto, sobre um homem condenado e levado da Irlanda, que preferia todo e qualquer tormento menos cumprir sua pena na Baía de Botany. Que prometia uma vingança dolorosa, sangrenta e certeira contra aqueles que o prenderam.

A irlandesa fizera questão de mudar o verso final, que concordava “John” com “México”, para “Negan” e “Irlanda”.

Se tivesse dado um murro na cara daquele sujeito odioso, não o teria insultado mais.

Dedilhou os últimos acordes, e sentiu suor frio escorrer de sua testa. O tirano não reagia. Apenas a mirava em silêncio, a mesma expressão grave em seu rosto. Mavelle engoliu em seco, sua garganta travando, sentindo que realmente deveria ter ido longe demais. O arrependimento se misturou ao pavor que fez seu queixo tremer.

De súbito, Negan já estava de pé, largando o taco de baseball no assento atrás de si. Mavie desviou o olhar, comprimindo uma exclamação ofegante, apavorada. Ele andou veloz na direção da garota, e fechou os punhos com tanta força nos braços da poltrona onde a irlandesa sentava que o móvel tremeu todo.

Mavelle sentiu que ele queria ter feito isso em seu pescoço. A garota ainda olhava para baixo, abraçando o violão contra si, aterrorizada.

Podia sentir ele se abaixar cada vez mais, lento, sorvendo o medo dela. Puxou o instrumento musical das mãos da irlandesa, o jogando em cima da cama próxima. Sua voz soou, saindo da garganta, feroz e hostil.

— Foi marrenta pra caralho de cantar essa musiquinha. Agora olha bem pra minha cara — Negan deu a ordem e Mavie obedeceu de pronto.

Seu rosto estava a centímetros do dela, cada traço de suas feições fechado em uma expressão de seriedade perversa, demonstrando o quanto não aprovara em nada o pequeno desafio.

O queixo dela tremelicou outra vez, seus dentes batendo em seu lábio inferior. Ele os fitou, e a expressão de desejo e contrariedade evidente que fez foi tão apavorante que Mavelle não conseguiu nem sentir nojo, apenas terror.

Ele segurou com os dedos o queixo da irlandesa, olhando para seus lábios, e depois abaixou a mão para segurar o braço da poltrona de novo. Mergulhava seus olhos aterrorizantes nos dela. Aproximou-se alguns milímetros.

— Se eu fosse um psicopata filho da puta do caralho, eu poderia simplesmente dar vazão a umas vontades aqui e agora — enunciou aquelas palavras, devagar. — Você me deixou muito puto, Coelhinha. Muito mesmo — ressaltou, severo. — O que também deixou a Lucille furiosa. E eu não sei se eu tenho mais vontade de deixar ela fazer com que você entenda o que significa a porra da palavra respeito, ou de testar até onde vai essa sua marrazinha de merda com as minhas próprias mãos. De outro jeito. Porque, como eu te disse, eu tenho um puta fraco por meninas más — bafejou aquelas últimas palavras em seus ouvidos, a proposta indecente bem clara, fazendo Mavelle sentir calafrios de horror.

— Mas eu não sou um psicopata. Eu sou um homem razoável — afirmou, e se afastou um pouco, pegando Lucille em mãos. Olhou para o taco, acariciando a base de madeira.

— Você queria uma canção irlandesa. Foi o que eu cantei — Mavelle respondeu, a voz trêmula.

Ela atestou que as íris escuras do governante a fuzilaram em um olhar penetrante, que por si só já era violento.

Mavie achou que teria seu fim ali.

— Então vamos parar com essa palhaçada escrota e te botar pra trabalhar! — declarou, abrindo a porta do quarto com um estrondo. Mavelle não reagiu por alguns segundos, e percebeu que ele saía.

Era sua chance de ver Daryl.

Ela se levantou em um pulo, deixando os aposentos. Passou a segui-lo para fora do quarto, enquanto as mulheres na outra sala os olhavam caminhar até as escadas, suas feições curiosas, sem compreender o que se passara.

O homem não disse palavra enquanto seguia escadarias abaixo. Levou Mavie para fora do prédio, caminhando pelo lado externo até o que parecia ser a entrada do Santuário.

Ali, uma imensa obra era construída. Viu tapumes, andaimes, escoras e fundações, especialmente em cima dos portões. Muitos seguidores do mandatário ali trabalhavam, e pelo céu alaranjado o pôr-do-sol estava perto. Mavelle sentiu um sobressalto desagradável ao reconhecer Redmond, vestido com um capacete de engenheiro civil, olhando uma prancheta e dando ordens para Salvadores que caminhavam levando materiais de construção.

— Só para você saber... Essa sua piadinha musical te fez começar a trabalhar com pontos negativos. Ou seja: está me devendo — o algoz sussurrou perto dela, enfim olhando para a irlandesa outra vez. Ela franziu os lábios, nervosa.

— Davey! — bradou ele, e um Salvador de rosto em expressões sarcásticas que tinha algumas plantas de obras em mãos se aproximou.

— Ela vai trabalhar aqui. Se acontecer qualquer problema, quero que me chamem na hora — ordenou, girando Lucille nas mãos, e o subalterno assentiu. Mavie piscou os olhos, e o abusador virou as costas, saindo de perto do terreno em obras.

A irlandesa ainda tentava entender porque ele a levara ali em específico, mas logo o peso da compreensão caiu sobre seus ombros.

Daryl, vestido com seu uniforme maltrapilho de prisioneiro, carregava sozinho uma viga que deveria pesar demais para uma pessoa em suas condições físicas precárias. Mavelle andou até ele imediatamente, sem nem pensar. Segurou na extremidade que ele deixava arrastar no chão, a erguendo.

O prisioneiro, de início, demorou a fita-la de volta. Moveu a cabeça devagar, mas, ao ver de quem se tratava, pestanejou atônito. Os olhos da irlandesa se encheram de lágrimas, ajudando o arqueiro em seu trabalho.

— Está tudo bem. Ele não fez nada comigo. Não vai fazer, eu prometo — Berry sussurrou, rápido, entre lágrimas que embargavam sua voz. Dixon estancou, ainda a fitando, surpreso.

— HEY! Sem conversinha. Só trabalhem! — o Salvador de nome Davey se aproximou, autoritário. Mavelle concordou em silêncio, fechando os lábios. Os arqueiros levaram a viga até o tapume com os construtores que a aguardavam, e logo retornaram para pegar outra. Daryl mal olhava para Mavie, o que a perturbava.

— Você não deveria ter vindo — Daryl murmurou, rouco, sem a fitar. Mavelle quase parou, o olhando em choque. Ele já arrastava uma viga consigo. Ela correu para auxiliá-lo.

— Nunca iria te abandonar — ela salientou em outro murmúrio. O arqueiro não a fitou. As mãos da garota tremeram, sustentando o objeto de construção.

— SILÊNCIO! — o capanga de Negan exigiu, e ela baixou a cabeça.

Ambos trabalharam silentes por algum tempo, até que a irlandesa não mais suportou. Fora empurrada ao seu limite. Ver Daryl assim, destruído por dentro e por fora, reduzido a essa marionete surrada de Negan, a assustava mais do que qualquer castigo que pudessem lhe impor.

Quando Dixon se abaixou para pegar a quinta viga que carregariam, a garota não aguentou mais. Em outro lapso ensandecido, o abraçou contra si, chorando copiosa em seus braços. Daryl tinha um cheiro horrível, que misturava vômito e outras imundícies, mas não a incomodou. Só queria consolá-lo. Só queria protege-lo, de alguma forma.

Não poderia ser tarde demais para ele.

Para eles.

As defesas do arqueiro pareceram cair, por um momento. Ele levantou os braços e a apertou de volta contra si, finalmente deixando o jugo de seu opressor de lado por míseros segundos. Os dois se abraçaram, desolados, devastados, perdidos, amparados um no outro por um tempo que, embora breve, tinha todo o significado que precisavam.

Eu te amo muito — Mavie disse entre lágrimas.

— Eu sei — Daryl falou, a olhando com dor, saudades, afeto... E também amor, evidente em seus olhos machucados.

No segundo seguinte, Davey chegara até eles, e usou um taser no arqueiro, o impingindo um choque elétrico bestial. Mavelle, gritando alarmada, foi puxada pelos braços para trás por um Salvador que a conteve.

O capanga sádico manteve o aparelho contra o corpo de Dixon, que caiu, tremendo dos pés à cabeça contra o chão. Mavie ainda berrava, angustiada, compartilhando da dor do caçador. Daryl estava tão fraco que desmaiou enquanto Davey ainda o torturava. Seu corpo tremia pelo impulso elétrico, mas seu rosto já demonstrava que fora levado pela inconsciência.

As lágrimas manchavam o rosto da garota irlandesa que, desvairada, se debatia enlouquecida nos braços do capanga que a segurava. Dwight e outros subalternos vieram buscar o corpo inerte de Daryl, o levando desmaiado para longe da construção.

O Salvador que a continha a baixara contra o chão de terra, prendendo seus braços para trás. Continuava a chorar, e a humilhação sofrida era a menor de suas dores. Demorou apenas alguns minutos e Negan chegara aquela cena, meneando o rosto em desaprovação.

Já tinha mais um de seus sorrisos sádicos preparados, e Mavelle percebeu que ele a deixara ali de propósito.

Sabia que ela provavelmente reagiria daquele jeito e colocaria tudo a perder.

O opressor se abaixou defronte a ela, quase encostando o taco de baseball em seu rosto.

— E parece que sua lista de dívidas aumentou. E ainda aumentou a do seu namorado, também! — O abusador a fitava com um olhar incrédulo, como se estivesse surpreso por Mavie conseguir tomar tantas atitudes precipitadas em tão pouco tempo.

— Vamos ter que encontrar outro trabalho para você. Eu não gosto de maus investimentos — comentou o tirano, usando de um sorriso cruel e mandando que o Salvador levantasse Mavelle do chão. Mais composta, ela apenas piscava os olhos, fitando o déspota da forma mais indiferente que conseguia.

Ele a encaminhou outra vez de volta ao prédio, e quando se punham a subir as escadas, avisou:

— Vamos lá para cima de novo — fez questão de anunciar, junto a um sorriso sádico. Ela não mais se abalava com as provocações. O que mais a machucara fora, sem dúvidas, a culpa que agora sentia. Daryl fora ferido por sua impulsividade.

Ao chegarem de novo na sala contendo o repulsivo harém de Negan, ele perguntou a Callie se uma mulher chamada Gladys estava por perto. Primeiro, Mavelle pensou que se tratava de outra de suas mulheres, mas depois que a garota loira entrou por um corredor da cobertura para buscá-la, outra vez a irlandesa se viu sobressaltada.

Calliope trouxera uma mulher idosa, vestindo um uniforme de limpeza. Parecia assustada. Negan, por sua vez, estava sentado no sofá, com Julie e Tessa ao seu lado.

— Fiz algo errado, senhor? — a empregada perguntou, humilde.

— Não. Ela fez. — O governante indicou Mavie com o queixo, dando um sorriso curto para a irlandesa. — Você está demitida — avisou, comprimindo um bocejo.

— O quê? — Gladys perguntou, enquanto as moças no recinto olhavam para o mandatário, sem entender.

— Ela vai fazer o seu trabalho agora. Acha que consegue um uniforme do tamanho dela? — indagou o déspota. Era mais uma ordem disfarçada de pergunta.

— E-eu... — A funcionária arqueou as sobrancelhas, temerosa.

— Gladys, vou arranjar outra coisa para você fazer. Não se preocupe. Só faça o que pedi — garantiu o homem, e a senhora idosa se viu obrigada a acatar suas ordens. Abaixou o rosto, concordando, e saiu arrastando os pés. Quando a subalterna deixou a sala, Mavelle reparou que Calliope olhava para si com uma expressão de antecipação sádica.

O governante, por sua vez, levantou e caminhou até Mavie, devagar, os passos calculados para deixa-la ainda mais aflita. Ela podia vislumbrar de esguelha suas “esposas” o fitando também.

— Você não quer fazer parte disso. — Apontou Lucille ao redor, para as outras moças. — Mas você veio para cá porque quis. Fez a escolha de trabalhar. E vai trabalhar — enfatizou. — Você queria ver seu namorado. Já viu. Agora, vai ser útil pra mim. Se quiser continuar aqui. Se quiser que ele continue aqui, vivo — a ameaça era inconfundível.

— Então você vai ser nossa funcionária pessoal. Tudo o que elas te pedirem — indicou as moças com Lucille — Você vai fazer. E se elas tiverem alguma reclamação... — destacou, falando devagar. — São mais dívidas para você. E para o seu namorado. Acho que você gostaria de saber que ele já está fodidamente fodido na porra do vermelho comigo — anunciou, sem traço de humor algum no rosto e na voz utilizada.

— Você entendeu, “Jim Jones”? — debochou o governante, mencionando a música que Mavelle cantara para ultrajá-lo.

— Sim — disse ela, sua voz já desistente. Abaixou o rosto.

Negan abriu um sorriso de falsidade declarada, colocando uma mecha dos cabelos escuros da irlandesa atrás de sua orelha direita.

O resto da noite se passou, para Mavie Berry, com muito esforço físico humilhante. Foi forçada a limpar o quarto inteiro daquele homem, trocar seus lençóis sujos de sexo, lavar nas mãos as roupas das moças sob sua tocaia, e fazer todo tipo de serviço para garantir o luxuoso conforto abusivo dele e de suas mulheres. Vestida, para completar, com um uniforme de empregada doméstica.

Ganhou apenas um pão com manteiga e um copo d’água para jantar, e foi forçada a dormir em um quarto apertado, sem janelas. Ali, tinha apenas um colchão com alguns lençóis furados e um travesseiro fedido. Uma porta próxima levava a um banheiro sujo, no qual uma barata gorda se arrastava pelo chão.

A garota irlandesa se jogou no colchão duro, querendo chorar até dormir, torcendo para que conseguisse ver Daryl no dia seguinte. Com algum descanso, poderia formular alguma saída.

Porém, embaixo do travesseiro, sentiu seus dedos encontrarem algo. Um papel. Bolorento, velho, mofado, manchado.

Mas com tinta recente de caneta escrita às pressas:

“Quinto andar. Escadas. Quatro da manhã”.

Notas finais
~ Como eu disse, ler a letra da música é importante para entender certos acontecimentos do capítulo. Por isso, vai aqui a tradução: *"Escutem por um momento, rapazes, e me ouçam contar minha história... Como além do oceano, da costa da Irlanda, eu fui condenado a navegar. O júri me condenou, senhor, e disse o juiz, ele disse: "Por toda a vida, Jim Jones, eu o condeno a seguir pelo mar tempestuoso. Mas aceite minha dica antes de embarcar para se juntar a gangue de ferro: não seja folgado na Baía de Botany, ou você certamente será enforcado. "Ou você certamente será enforcado", ele disse "E depois disso, Jim Jones... Acima da árvore da forca os corvos pegarão seus ossos"... "Você não terá chance para travessuras lá, lembre-se do que eu digo. Eles vão arrasar com você lá na Baía de Botany". As ondas eram altas no mar, o vento se aproximava forte... Eu preferiria me afogar em miséria do que ir para New South Wales. As ondas eram altas no mar quando os piratas vieram. Mas os soldados no nosso navio condenado eram quinhentos homens fortes. Eles abriram fogo e de alguma maneira mandaram aquele navio pirata para longe... Eu preferiria me juntar aquele navio pirata do que ir para a Baía de Botany. E em uma noite escura, quando tudo estiver calmo na cidade... Eu vou matar todos vocês bastardos, vou atirar esses chicotes longe. Darei a todos uma chance, lembre-se do que eu digo. Eles ainda se arrependerão de mandar Jim Jones acorrentado a Botany Bay. Agora dia e noite as correntes ressoam, e os escravos desse navio trabalham... Nós nos esforçaremos e quando morrermos encheremos túmulos desonrados. Logo, logo, eu quebrarei minhas correntes e fugirei para o mato... ...E você estará morto atrás de mim, Negan, quando eu chegar a Irlanda." **Sherry parece "cherry", que em inglês significa cereja. Por isso o Negan fez o trocadilho péssimo shushuehu! ~ Sim, a Esquila foi MUITO SEM NOÇÃO de cantar uma porra dessas pro Negan ahushushe! Mas também é algo muito Mavie. Ela simplesmente não pôde resistir. ~ Artes LINDAS E PERFEITAS pela Dixon Girl: https://fanfiction.com.br/u/130343/. Tanto as dos links das "esposas" do Negan, quanto essa última maravilhosa com todas elas juntas! ~ E aí, quem acham que mandou o bilhete? ~ Recomendo essa versão cover da música. A Mavie mudou a letra em alguns pedaços, mas essencialmente é a mesma melodia: https://www.youtube.com/watch?v=gqUabMpwexU ~ Aguardo comentários de todos e todas! =D