Hunter's Instinct

77 Episódio 77 - For Better, For Worse


Notas iniciais
Boa tarde minhas lindas, e boa tarde, meus lindos! Como estão todos vocês? Eu estou num momento um tanto corrido da vida, muita coisa para estudar, provas chegando e tudo o mais, e muito a planejar e organizar. Mas depois de um dia TERRÍVEL para a humanidade como ontem, é aquilo: se nada nos salva da morte, que a ficção nos ajude a nos salvar dessa realidade ahusuhshu! Não que na fanfic e na série as coisas estejam boas pros nossos personagens, mas ao menos nisso temos algum controle hahaahah! Já sobre esse misógino-abusador-fascistóide (incrível, não, não é o Negan), que foi eleito presidente dos EUA... Infelizmente só podemos esperar que os tricksters do partido republicano segurem a onda desse oligofrênico. Temos um capítulo CHEIO de feels, totalmente inspirado no episódio 7x03, mas com bastante coisa da minha cabecinha mirabolante de hortelã. Digamos que esse "episódio" — e falo isso com toda a humildade possível — complementa o "The Cell" ahahahaah! POR ISSO, PRA QUEM NÃO VIU AINDA, CUIDADO! O capítulo é dark e repleto de spoilers uhahsuhuss! POVs Daryl e Dwight, esse loiro perturbado, coitado, estreia um POV de destaque aqui em Hunter's Instinct! No próximo, teremos POV da Peggy certamente, e penso em encaixar um da Carol e da Mavie. Tudo vai depender do tamanho. O da Peggy era para ter entrado nesse, mas queridos, sem brincadeira, ia dar mais do que 10.000 palavras hUAUHSUH e eu não sou torturadora como o Negan para forçar vocês a lerem tanto de uma vez. Dedico este capítulo aos leitores Lady Circe, Vivi Costa, Mirah, Caçadora, marcelammota, Leonardo18anime, Sami e Babi Prongs, que comentou por áudio. Vocês que nunca abandonam o barco e seguem comentando são os que me ajudam a seguir em frente, sempre, muito empolgada com essa fanfic que só faz crescer. Já temos mais de 100 favoritos e mais de 1000 comentários, gente =) isso é lindo demais! Fico muito, muito, muito, muuuuuuuuuuuito feliz pelo reconhecimento! Espero que gostem do "episódio"! Obs: amei ter adivinhado muitas coisas do epi 7x01, aliás, na minha adaptação dele antes do episódio ser lançado AUHSUHSH! Beijos e boa leitura!

O sangue pulsava rápido em suas veias, seguindo veloz seu fluxo inesgotável. Sentia seu coração saltando em sua garganta, mas fazia todos os esforços possíveis para evitar que o homem que o fitava sem piscar pudesse sequer desconfiar do tormento que lhe causava.

À sua frente, seu carrasco estava estático. Seus olhos de um tom de castanho escuro focados nos dele, um leve teor rútilo junto ao seu enorme sorriso passando a impressão de que toda aquela situação o divertia muito.

Negan passou Lucille de um ombro a outro, a aconchegando no tecido de sua jaqueta negra de couro. Desviou os olhos do rosto de Daryl por alguns segundos, vislumbrando o pouco espaço da cela fechada e sem janelas em que o arqueiro fora trancafiado.

— Sabe... Eu pretendia conversar. Mas acho que você simplesmente ainda não está pronto — enunciou as últimas três palavras enquanto curvava o rosto de lado, fitando Daryl com fingida comiseração. — Mas logo, logo... Vai estar — soltou, em uma risada seca. — Ah, se vai. — Seu sorriso de torturador se ampliou em sua face.

DWIGHTY BOY! — bradou o homicida em um tom de voz retumbante. Dixon pestanejou poucas vezes, tentando evitar demonstrar seu próprio nervosismo.

Depois de poucos segundos, o homem loiro de rosto marcado abriu a porta da jaula humana reservada ao caçador arqueiro.

— Yeah — respondeu o capanga.

— O Daryl aqui disse que queria que “fizéssemos o nosso melhor” — repetiu o miliciano, em deboche declarado. Fitou Dwight, e depois o sulista da Geórgia. — Sabe então como proceder — deu a ordem implícita, deixando o subordinado a sós com o outrora morador de Alexandria. Fechou a porta com um estrondo, saindo da cela enquanto assobiava em falsa despretensão.

Mais confiante, Dixon fitava o sujeito loiro a centímetros de distância dele, se mantendo em uma postura defensiva. Ele deveria ser apenas mais um pau mandado do ditador sanguinário, não tão temível quanto seu chefe.

Dwight esquivou os olhos para a parede por breves segundos e soltou um “tsc” audível. Em seguida, retornou a olhar para Daryl.

— Me dê a porra desse colete — demandou.

O arqueiro não se moveu. Continuou na mesma postura quase desafiadora.

Dwight retirou uma pistola do bolso e a destravou. Seu olhar se modificou, passando de desagradado para indiferente. Como se perdesse um pouco da vivacidade agressiva que antes tinha.

Sem alternativas, se viu obrigado a colaborar. Despiu o colete e o entregou para o capanga, que logo depois lhe mandou que tirasse a jaqueta.

Memórias escondidas no âmago dos pesadelos de Daryl Dixon vinham à tona, lentamente. Monstros revelados das trevas do inconsciente.

Lembrou-se de seu pai, das violências que sofrera por sua causa, as mesmas destinadas a Merle. Recordou-se da imagem de sua mãe, nua, caída no chão em quatro apoios, enquanto seu pai se forçava para dentro dela depois de ter surrado ambos até a exaustão naquele mesmo dia. Julgara que Daryl estava desmaiado, provavelmente, mas ele vira tudo com seus olhos de criança.

Não tinha nem cinco anos de idade.

— Não — sussurrou o mais firme que pôde, temendo qual ideia bestial poderia vir daquele grupo de inédito sadismo.

O homem loiro nada disse. Apenas abriu a porta da cela, mantendo a arma apontada para o arqueiro. Dixon o enxergou chamar algumas pessoas no corredor escuro reservado ao calabouço da base de Negan.

Poucos momentos depois, quatro homens altos e truculentos entravam no pequeno espaço da cela.

— Você escolheu isso — declarou Dwight, depois que um dos capangas forçara Daryl a tirar sua própria jaqueta e a jogava nas mãos do homem de rosto deformado. Os outros quatro passaram a esmurra-lo.

Seu corpo já repleto de hematomas e fissuras não tinha resistência física para suportar. Depois de receber chutes e murros no rosto, ombros e pernas, forçaram-no ao chão.

Ele não se lembrava de sentir aquele pavor há anos. Desde quando fugira de casa com Merle, para nunca mais voltar.

Os algozes o forçaram, como castigo pela desobediência, a ficar completamente nu. Retiraram cada uma de suas peças de roupa, rindo de sua humilhação. Os sorrisos de escárnio em seus rostos lhe lembravam, agonizante, da conhecida expressão de prazer nas faces de seu pai, toda vez que o agredia bêbado, embevecido pelo álcool e pelo sadismo.

Todo aquele abuso lhe era, no fundo, dolorosamente familiar.

Com sangue escorrendo de cortes ao longo de seu corpo, a pele manchada pelos hematomas ainda mais fundos, Daryl foi deixado a sós, sentado encolhido em um dos cantos da cela. Abraçou os próprios joelhos, tentando manter a mente sã, longe da sensação angustiante que toda aquela situação lhe trazia. Mas era inútil. O peso do sofrimento era árduo demais para aguentar. Não apenas revia em sua cabeça as mortes excruciantes de Glenn e Tara.

Sentia-se visitado por um velho fantasma do passado, surgido da escuridão daquela cela e do tormento planejado por Negan para lhe assombrar. Ele conhecia abusadores. Torturadores. Aliciadores. Seu próprio pai fora o primeiro deles.

O pior terror de todos era, portanto, o de saber que seria incapaz de fugir de suas trevas também mentais.

Daryl escondeu o rosto nos joelhos, sentindo o queixo roxo pelos golpes doer agudo junto ao movimento. Fechou os olhos já acostumados a escuridão da cela, que fora deixada apagada, mas, naquele momento, não pensou no pai, nem em Negan, nem em seu destino que lhe parecia em definitivo desafortunado.

“Eu te amo, Daryl”

Inadvertida, imprevista, outra imagem se formou em seus pensamentos conturbados. Mavie, caindo inconsciente em seus braços, naquela madrugada em que quase enlouquecera de medo tentando se assegurar de que nada acontecera com ela.

Sua garota. Tão corajosa, tão forte, tão durona, tão melhor do que ele. Fizera questão de lutar contra a exaustão e deixa-lo consciente da dimensão do quanto era importante para ela.

E o arqueiro, estúpido como sempre, não tivera a chance de fazer o mesmo.

Aguente. Você tem que aguentar.

Rememorou o rosto de Merle.

“Não me desaponte, Darlena. Ou agora você vai ser a vadia dele?”

Eu não sou a vadia de ninguém, respondeu, em pensamento.

“Você vai ser o último homem de pé.”

Viu vividamente a imagem de Beth lhe dizendo aquelas palavras, na cabana que queimaram.

“Você vai cuidar dela.”

A voz de Annie, tão fraca em seu leito de morte, se fez ouvir nítida em suas memórias. Daryl lhe fizera aquela promessa. Tinha de cumpri-la. Apertou mais os joelhos.

Logo em seguida, lembrou da pequena criança órfã da qual agora era padrinho. Bethalie. Que perdera o pai daquele modo tão violento e abrupto. Ele tinha muitas responsabilidades. Memórias as quais honrar.

Pensou no rosto de Tara, não esmigalhado em frangalhos, mas como era antes de seu assassinato bestial. A jovem mulher sorridente e generosa, que tanto ajudara seu grupo e se afeiçoara a sua namorada. Eram muito amigas. Em seguida, o semblante sempre gentil de Glenn, um rapaz que considerava quase como um irmão mais novo que nunca teve, parecia lhe recordar do porquê deveria resistir. Tinha muitas razões.

Não era mais a criança encolhida e subjugada por um pai abusivo. O que uma vez fora feito consigo jamais se repetiria. Não enquanto ele tivesse pessoas a proteger. Carol. Maggie. Bethalie.

Mavie.

Muito tempo se passara enquanto se perdera em seus labirintos mentais. O suficiente para que o carcereiro de rosto marcado abrisse a porta e jogasse um sanduíche em sua direção. Dixon percebeu que estava com fome, e comeu, voraz. Era algo empapado, misturado e pasteurizado. Ração de algum tipo.

Para quem já se alimentara de vermes, carne de cachorro, esquilos e ratos, aquilo era um manjar mais do que tolerável.

Vão precisar tentar mais, seus filhos da puta, pensou Daryl, resiliente.

Assim que terminou de comer, sentiu-se embalado por uma bem-vinda sonolência. Estava a ponto de adormecer, fatigado, quanto um som estrepitante cortou seus ouvidos. Palmas, e em seguida uma voz feminina empolgada:

We're on easy street

And it feels so sweet

Cause the world is but a treat

When you're on easy street!

Seu estômago passou a dar voltas, retorcendo-se.

Aquela voz parecia uma mistura perturbadora e irônica do timbre de Mavelle e Beth, nas ocasiões em que as escutara cantando. Sentiu como se derrubassem algo pesado em seu peito, dificultando sua respiração. Tentou tapar os ouvidos, mas de nada adiantou. A música infernal reverberava dentro das quatro paredes em que fora confinado, repetitiva, aguda, violando seus ouvidos e o impedindo de adormecer.

Ela repetiu em um loop por incontáveis vezes. Dixon perdera a noção do tempo, mas sabia que não conseguia entrar em um estado de sono profundo e revigorante, acordando no que deviam ser minutos e minutos por conta do som ensurdecedor insistente.

Toda vez que era levado pelo suposto consolo adormecido, sonhava com a imagem dos crânios despedaçados de Glenn e Tara. Podia sentir o cheiro metálico, como o arame farpado que os despedaçara, vindo do sangue esparramado de seus dois amigos. Acordava agoniado, os mesmos versos repercutindo dentro de sua cabeça.

Teve de suportar dias nessa rotina. Não tinha noção das horas, ou do tempo que passara, trancado não apenas naquela cela física, mas em seus próprios pensamentos perturbadores. As imagens de seu pai violento se misturavam com as do assassino de Glenn e de Tara, e, por vezes, sonhou com a cabeça de Mavelle partida, destroçada da mesma forma que os outros. Só tinha um breve contato com o mundo exterior quando Dwight abria a cela e lhe atirava um sanduíche de ração de cachorro, duas vezes ao dia.

Negan pretendia enlouquecê-lo, e Dixon já desconfiava de que ele conseguiria seu intento, quando uma das duas visitas diárias do homem de rosto marcado lhe trouxe algo além de comida. O sujeito largou trapos velhos, em uma cor mofada, no chão sujo de sangue, dejetos e suor.

Compreendeu que deveria se vestir. Seria levado a algum lugar.

O arqueiro o fez o melhor que pôde, sentindo que cada músculo de seu corpo respondia mal ao patético esforço de colocar aquelas roupas. Momentos depois, Dwight abriu novamente a porta, e Dixon atestou que usava seu colete com asas de anjo, portando sua própria balestra.

Sem dizer palavra, o capanga o arrastou pelo corredor. O sulista piscou, se acostumando com a luz fraca daquele local estreito. Dois homens limpavam o chão com panos úmidos, e deram passagem ao subalterno de Negan assim que carcereiro e prisioneiro se aproximaram.

Dixon pareceu reconhecer uma centelha de temor nos olhos dos faxineiros.

Posteriormente, subiram alguns lances de escada, e o homem loiro o forçou a caminhar por mais um corredor. Em determinado momento, avistou uma sala com uma cama, estantes, até mesmo uma televisão. Dwight o obrigou a olhar adiante.

Pouco tempo depois, Daryl se viu em uma sala de atendimento médico. Uma jovem mulher atraente, que parecia ter por volta dos trinta anos, era atendida por um homem de jaleco alvo. O arqueiro reparou que ela usava jóias, um vestido curto e justo. Aparentava estar maquiada e bem vestida. Não compreendeu aquilo, por um momento.

— Carson — disse em voz baixa o sujeito deformado.

— Estávamos terminando — o médico logo respondeu, mas Dixon deteve seu olhar na expressão que a moça desconhecida fizera. Pestanejava, fitando o torturador de Daryl.

— Vai rápido — exigiu o capanga. O sulista, discretamente, passou a mirar tanto a jovem mulher quanto Dwight. Eles tinham alguma intimidade.

— Oi D... — falou ela, em um tom comedido.

— Hey Sherry. — Dixon notou que a voz do sujeito loiro pareceu mais calma. Ao fitar a moça novamente, ela o olhava de volta.

— Você é o... Novo. Daryl, não é?

— Não! — Dwight interrompeu a breve tentativa de diálogo. Dixon o fitou, começando a compreender. — Não fale com ele — ordenou o homem loiro, em um tom mais brando.

O tal Dr. Carson começou a examinar o arqueiro. Daryl o sentiu levantar o moletom que usava, estudando os ferimentos. Porém, tinha sua atenção nas duas pessoas conversando paradas perto de uma das mesas. Dixon reconheceu um pequeno objeto rosa e branco, que lembrava um termômetro, em uma das bandejas.

— Deu negativo... — disse Sherry, usando de um timbre que pareceu ao arqueiro como envergonhado.

— Quem sabe da próxima vez.

O arqueiro entendeu. Eram um casal. Mas por que o sujeito de rosto marcado falava daquela forma distante e rígida com ela? Parecia soar irônico, até.

O médico, atrás de Daryl, balbuciou algumas palavras que o caçador não prestou atenção. Mirava com discrição o capanga de Negan guardando alguns remédios consigo.

— Seja lá o que eles falarem, obedeça — recomendou a mulher íntima de Dwight para Dixon, se aproximando do arqueiro. Aparentou piedade, e ele sentiu raiva.

— Mandei não falar com ele — ressaltou o homem de face marcada. Sherry e o sujeito que vestia o colete de Daryl se encararam por segundos, até que ela os deixou, sem mais dizer palavra.

Ao saírem do atendimento, depois do doutor garantir a Daryl com palavras dúbias que ele ficaria bem se assim permitisse, ambos passaram pelos mesmos varredores. Enquanto ainda se habituava a caminhar de novo, Dwight puxou Dixon para o chão, sem aviso. Ele tropeçou e se arrastou pela parede.

— Ah, Dwighty boy! — A voz sonora e sardônica de Negan se fez ouvir, e Daryl sentiu um misto fervente de ódio, medo e angústia queimarem sua pele. Fitou o líder daquele covil, que, para variar, abria um sorriso amplo aos seus seguidores, brandindo aquele maldito taco de baseball. Um homem gordo estava parado atrás do miliciano. O líder dos Salvadores disse aos faxineiros que os deixassem para que pudesse falar com seu sócio, e mandou o sujeito obeso ficar parado mais atrás.

Dwight o arrastou para onde o outro subalterno estava, forçando Dixon até uma cadeira vermelha.

— Senta — rosnou, como se desse ordens a um cão desobediente.

Estava parado defronte ao quarto que olhara anteriormente. Passava a analisa-lo melhor, quando logo o Salvador loiro retornou e o levou para fora daqueles corredores úmidos, saindo a luz do dia.

Daryl sentiu uma brisa fresca bater em seu rosto, e pestanejou mais enquanto seus olhos se habituavam. Dwight o levou até um local protegido por cercas metálicas altas. Dixon, pouco a pouco fitando aquele pátio de terrores, viu outros vestidos como ele tentando empurrar errantes de um lado ao outro, os movimentando por aquela arena dos infernos. Por pouco não eram mordidos.

No segundo seguinte, o sujeito loiro perto dele liberou uma flecha de sua balestra e a fez atingir com primazia a testa de um morto-vivo.

— Sou bom nisso também — ironizou o homem de rosto queimado, dando um olhar sarcástico para o arqueiro. Ele se manteve em silêncio.

Ao vê-lo inerte, Dwight se irritou. Empurrou-o contra a grade, fincando nela o rosto inchado e ferido de Daryl, que sentiu uma aflição cortante, mas não a manifestou.

— Aquele ali é você, seu merda. É a sua escolha — ratificou o torturador. Indicava um prisioneiro como Dixon, já transformado em errante, atravessado por um poste de madeira.

— Você pode ser como eles. Ou como eu. Ou como eles — reiterou, explicativo. O outro arqueiro, todavia, se manteve estático. Dwight rangeu os dentes, e o levou ao seu cárcere.

— Facilite as coisas — aconselhou-o, ao estar prestes a fechá-lo de volta em sua cela fétida.

— Nunca vou ajoelhar — garantiu Daryl, firme. Era uma certeza.

O homem de semblante deformado soltou uma risada seca, descrente.

— Yeah, eu também disse isso.

— Eu sei — retrucou Dixon, se permitindo o mínimo de atrevimento. Dwight o mirou, e quase pareceu expressar misericórdia em seus olhos escuros.

— Essa é a parada, cara. Você não sabe. Mas vai saber — assegurou-o, e o trancou sozinho. Pouco tempo depois, a maldita canção de sua tortura por audição começou.

Mais desperto por conta do contato com outras pessoas e novas descobertas, o arqueiro tentou o melhor que pôde para encontrar alguma brecha, algum vão na prisão pelo qual pudesse traçar uma saída. Mas logo a porta foi aberta outra vez.

O homem gordo que vira naquele mesmo dia lhe jogou outro sanduíche, e saiu.

Todavia, não trancou a porta. Apenas a fechou.

Sem nem pensar duas vezes, o caçador puxou a maçaneta pesada e se arrastou para fora da cela. Seu corpo todo doía e se revoltava pela movimentação excessiva, mas insistiu. Subiu as escadas, ultrapassou a cadeira vermelha, e, subitamente, sentiu um puxão no moletom surrado que usava.

Virou, o coração aos saltos, e testemunhou o rosto de Sherry lhe fitando com um olhar urgente.

— Volte enquanto você pode. Seja lá o que ele fez com você... Tem mais. Sempre tem mais — ela disse em tom de quem jura. — Não dá pra fugir. E se você voltar, vai ser pior. Sempre é — enfatizou, angustiada.

Daryl nada disse. Mas ela não havia terminado.

— Pode sobrar para ela também — alertou, agourenta. O coração de Dixon afundou em seu peito. Era óbvio que mencionava Mavie. Como a desconhecida sabia disso?

Furioso, o arqueiro lhe virou as costas e correu para fora do corredor, saindo no que parecia ser um estacionamento. Quase aliviado, se deparou com inúmeras motocicletas, quando sua ínfima esperança foi retirada dele, sem dó.

Diversos homens o cercavam de todos os lados. Incluindo o obeso, portando um revólver apontado para sua cabeça.

Pressentiu o que iria acontecer, antes mesmo de escutar o assobio odioso de Negan chegando aos seus ouvidos.

Dixon voltou o rosto para trás, e viu o algoz chegando ao círculo.

— Já está mijando nas calças? — fez uma referência doentia ao que disse na noite em que Glenn e Tara foram mortos.

Aquilo era terrível, preocupante em vários sentidos. Se já o punira por não colaborar antes, agora certamente sua tentativa de fuga não sairia barato. O assassino de seus amigos apenas o olhava, parecendo divertido, entusiasmado por alguma perversão. Deu uma risada curta.

— Quem é você? — perguntou, indicando com o ominoso taco de madeira o homem gordo que alvejava Daryl, parado atrás de seu líder.

— Negan — respondeu ele, simples e imediato.

O miliciano manteve o mesmo olhar de contentamento doentio.

— Quem é você? — repetiu, apontando outro dos homens as suas costas.

— Negan — afirmou um sujeito cabeludo.

— Quem são vocês?! — indagou, abrindo os braços.

— Negan — disseram em uníssono. Um arrepio aterrorizado se ergueu pela espinha de Dixon.

— ‘Tá vendo? Eu estou em todos os lugares — ressaltou o maníaco, ampliando seu sorriso predatório.

— E essa foi a sua chance de provar pra mim que estava entendendo a porra desse fato, e você falhou. O que é uma merda, porque a sua vida ia melhorar tanto. — Negan fingiu lamentar, mordiscando a própria bochecha.

— Não estou certo? — ironizou, e o sujeito gordo concordou. Satisfeito com aquela manifestação de lavagem cerebral, o algoz andou até Dixon, abaixando o taco e cutucando o chão perto de seus pés descalços, em inegável provocação. Daryl desviou, tentando se manter calmo e controlado, sabendo que falhava um pouco.

O líder perverso riu, e logo retornou a falar.

— Dwight te deu algumas opções. Mas acho que você não entendeu. — Franziu as sobrancelhas. — Então vou explicar bem claro pra você. Você tem três escolhas: um — levantou o dedo indicador — você vai pro espeto e trabalha como um homem morto pra mim. Dois! — Pendeu a cabeça para a esquerda, parecendo animado. — Você sai da cela, trabalha por pontos, mas vai desejar estar morto. — Deu um sorriso enviesado, condescendente, erguendo o cenho.

— Ou três. — Negan moveu um dos ombros ao apontar o terrível taco de baseball para o caçador. — Você trabalhará pra mim, ganhará um belo par de sapatos novos e vai viver como um rei! — clamou, tentando dar um ar falsamente empolgado as suas palavras. Dixon não se movia, sua postura parada, alerta, pronta para reagir ao que quer que fosse acontecer.

— A escolha parece bem óbvia. E você deveria saber: não existe porta número quatro... — A voz do líder cruel se abaixou aos poucos, se tornando gutural. — É só isso — testificou, em uma expressão de deboche piedoso. — Esse é o único jeito. — Retornou a voz mais baixa, obviamente sádica, abrindo um grande sorriso.

Daryl apenas pestanejou. Algo brilhou nos orbes escuros do miliciano, e ele soltou uma risada silenciosa.

— Foda-se.

O tirano prensou os dedos no taco. Quase pulou em cima de Daryl, pronto para esmigalhar seu rosto em um golpe fatal. Dixon, todavia, estava alerta. Mal tremeu.

O homicida reagiu rápido. Seu rosto parecia misturar regozijo pela resistência do arqueiro, e também frustração.

— Wow! Você não se assusta fácil. — Parecia impressionado, boquiaberto. — Eu amo isso — ressaltou. — Mas a Lucille... — A voz dele tomou um volume mais baixo, que Dixon reconhecia como sendo mais perigoso.

— ...Isso meio que a irrita. Ela acha que é desrespeitoso. — Negan ergueu as sobrancelhas oura vez. — Sorte sua que ela não está com muita sede... Hoje. Mas eu estou — alertou. Seu rosto se fechou. Não mais portava a expressão debochada de antes. Revelava apenas desagrado, em uma ameaça nada disfarçada. Caminhou para muito perto do caçador, seu rosto a centímetros do dele. Dixon tinha de fazer o seu melhor para não se mover. Queria arrancar a cabeça daquele sujeito do pescoço, ao mesmo tempo que mal se continha para virar e correr na direção contrária da que ele estivesse parado.

— Então...

Daryl sentiu seu coração quase sair pela boca. Mas tentava ao máximo se manter apático.

— Vou pegar uma bebida para mim!

No segundo seguinte, as feições hostis e ferozes do miliciano retornaram ao seu mesmo sorriso aberto. Dixon apenas pôde vê-lo rir, saindo assobiando de perto do círculo que o acuava. Enquanto Negan se afastava, seus homens espancavam Daryl até que ele quase perdeu a consciência.

Estava tão fraco que nem reparou quando foi levado para seu cárcere outra vez. A mesma música torturante foi repetida por diversas vezes, mas até mesmo seus ouvidos estavam feridos. Mal conseguia escutar.

Horas depois, porém, foi surpreendido com outra voz feminina. Que não cantava. Vinha do lado de fora da pesada porta.

— Daryl?

Ele demorou alguns instantes para reconhecer o timbre de Sherry.

— Tem várias coisas que eu não queria ter descoberto. Queria não ter tentado... — A voz dela pareceu falhar.

— ...Eu perdi minha irmã, Tina, enquanto fugíamos... Dwight achou melhor voltar porque eles não paravam de nos caçar. Perseguiram a gente até não termos o que comer, nem o que beber. Não tínhamos escolha. Não deveríamos nunca ter saído daqui — disse, com voz de choro.

— Colabore. Por você. Por ela. Fica muito pior, eu juro — prometeu, agoniada.

— O que ele fez com você? — Daryl sussurrou por um vão da porta. Já imaginava a resposta.

Dixon pôde ouvi-la segurar um lamento abafado.

— O que ele quer fazer com a sua namorada. Não deixe. Se ajude, para ajudar ela também — Sherry aconselhou, e ele a escutou se levantar e andar para longe.

O arqueiro voltou a abraçar os próprios joelhos. Não tardou, e a música terrível começou a tocar outra vez. Aquilo já não importava. Negan poderia tortura-lo o quanto quisesse. Virá-lo do avesso. Não iria quebrar.

Aquele demônio não colocaria as mãos também em Mavie, nem que Dixon passasse o resto da vida naquele tormento sem fim.

Ele não vai. Não vai.

Não...

Daryl não percebeu que adormeceu.

A canção “Easy Street” ecoava no pátio repleto de mortos-vivos presos em estacas. Seus braços debilmente flutuavam no ar, tentando sem sucesso se soltar daquela prisão eterna.

Mas tal música hedionda junto aos rosnados famintos dos errantes não era o único ruído reverberando por aquele lugar esquecido por Deus. Outro som rascante era o mais audível de todos, saindo esganiçado da garganta de Daryl Dixon.

Ele mesmo rosnava, a saliva escorrendo de seus lábios arreganhados.

O outrora caçador baixou o rosto, e viu seus próprios braços erguidos. Pútridos. Marcados pelos espancamentos, e pela pele que já apodrecia.

Daryl tentou se empurrar para a frente, mas deslizou pela estaca na qual estava preso. Atravessada em seu peito, de baixo para cima. Sequer a sentia.

Não sentia dor. Nem medo. Apenas... Fome. Uma fome infinita, infindável como sua sobre-existência deplorável.

Junto aos versos da canção repetida em loop no pátio, outro som musical foi ouvido. Um assobio contínuo, alegre... Irônico e mordaz.

Negan, muito sorridente, abria a porta que separava sua base das enormes cercas metálicas. Tinha Lucille em sua mão direita, e, em sua mão esquerda, segurava o que parecia ser o puxador de uma coleira. Fez um gesto com esta mesma mão, como se puxasse o que quer que levava. E logo o caçador atestou de quem se tratava.

Viu Mavelle Berry, sua Mavie, sua Esquila, vestida da mesma forma que Sherry. Um vestido curto, justo, decotado. Os cabelos bem cuidados, o rosto maquiado, brincos em suas orelhas. A garganta enrolada por uma enorme coleira dourada, puxada por correntes pela mão de Negan.

“It's our moment in the sun”

Daryl finalmente sentiu dor. Não física, mas emocional. Seu coração já frio batia dentro dele, em descompasso, seu peito parecendo finalmente sentir a estaca que o atravessava.

“And it's only just begun”, a cantora da música insistia em ensurdecê-lo como a trilha sonora daquele horror.

“NÃO”, gritou em pensamento, mas o que saiu de seus lábios podres foram débeis rosnados. Seus braços se moveram na direção de Mavelle, que levantou suas duas mãos para o peito, chorando, seu corpo todo tremendo. Não tirava os olhos dele, transformado em errante, preso aquele destino cruel.

Dixon reparou em seus dentes salientes tremelicando junto ao seu queixo, enquanto ela chorava de soluçar. Só queria abraçá-la. Ampará-la. Prometer que tudo ficaria bem.

— Shhh... — Negan se aproximou dela, acariciando seus cabelos. Passou a falar aos ouvidos da garota que Daryl tanto amava. — O que foi que eu disse? Ele escolheu isso. — O abusador moveu o taco na direção de Dixon, usando de feições de falsa misericórdia para fitar Mavelle. Ela não reagia. Apenas chorava sem parar.

“It's time to have a little fun”

— Você é de quem agora? — o sujeito asqueroso murmurou aos ouvidos de Mavie, mal controlando um sorriso sádico. Ferindo o coração de Daryl, ela se movimentou na direção do algoz, escondendo seu rosto em seu peito, enquanto ainda se perdia em seu pranto desconsolado. O arqueiro grunhiu mais alto, patético.

“We're inviting you to come and see, why you should be...”

“Mavie, NÃO”, queria implorar, mas apenas mais sons guturais de fome saíam de seus lábios.

— De Negan — Mavelle cedeu em um fio de voz, frágil, derrotada, ao passo que o odioso homem lambeu os lábios e sorriu ainda mais satisfeito. Ele acarinhou o rosto dela, ainda mantendo os dedos no puxador da coleira, enquanto a irlandesa chorava com as faces escondidas em sua jaqueta escura.

— Boa menina, Coelhinha — ironizou o tirano. Mavie soluçou alto, e Daryl sentiu como se seu coração se partisse em incontáveis pedaços. Tinha um buraco em seu peito, não apenas gerado pela estaca que o perfurava.

“...On easy street!”

— Boa menina — repetiu Negan, enlaçando Mavie, e fitando Daryl Dixon nos olhos.

Ele acordou, apavorado. A música já começava novamente, mas Daryl mal tinha percepção disso. Sequer notava seu próprio corpo espancado e violado de diversas formas.

Forçou-se a ficar desperto. Nada seria mais assustador do que aquele pesadelo.

Somente sua concretização.

****

[HORAS ANTES]

Ele o pedira para encontra-lo nas escadas.

Apoiava-se no corrimão, olhando metros abaixo. Não enxergava, porém, os degraus cinzentos. Seu olhar estava perdido internamente, nas imagens que acompanhara naqueles últimos dias.

Rememorou a garota e o rapaz, tão jovens, que seu chefe matara há tão pouco tempo. Sua primeira vítima era pai. Negan inclusive vira o bebê nas mãos da mãe, também nova, mas não hesitara em escolher o rapaz como um dos mártires. Ele desconfiava, na verdade, que o fizera de propósito. Para chocar.

Lembrou do sujeito que ficou encarregado de torturar, nos últimos dias. Sabia que se fosse bem sucedido, se o quebrasse, talvez tivesse chance de ter sua dívida perdoada.

Dwight fechou os olhos, esfregando as pálpebras. Sentiu a parte de seu rosto carbonizada em contato com os dedos, as horrendas cicatrizes prensadas para sempre em sua pele. Não podia deixar aquilo que ele percebia crescer dentro dele o dominar.

Você fez certo. Você está vivo.

A imagem de Daryl torturado e humilhado as últimas consequências se fez presente em seus pensamentos outra vez.

Você nem conhece esse imbecil.

O homem loiro estava prestes a chutar o corrimão para se desviar de seus pensamentos aflitivos. Contudo, foi interrompido antes por uma risada perversa.

— Ele tá ficando doidão! — Negan se aproximava, tirando Lucille de um de seus ombros, a girando no ar. Seu subalterno concordou em um cumprimento curto.

— E você? Você está progredindo. Está funcionando, devagar, mas... Hey, cara, é que alguns são mais difíceis de quebrar do que outros — o líder usou de um tom compreensivo, do qual Dwight não podia deixar de desconfiar.

— É, mas ele vai se dobrar.

— Yeah, yeah, vai — assentiu o miliciano, movendo o rosto em um gesto afirmativo. Deu mais um passo para perto do homem loiro.

— E já que você está fazendo um trabalho tão foda... Não quer ter um "remember" com você-sabe-quem? — Deu um sorriso sugestivo.

Dwight pestanejou. Certamente era mais um dos inúmeros testes tão aprazíveis ao líder do Santuário. Negan riu, depois de segundos de tensão.

— Estou brincando, cara. Relaxa. Escolhe quem você quiser, contanto que ela diga sim — enfatizou. O chefe dos Salvadores vedava o estupro, mas mantinha um harém de mulheres, algumas delas praticamente impelidas a estarem lá.

Esta era apenas uma das muitas contradições daquele sujeito.

O subalterno não soube o que responder, portanto, desviou o olhar.

— Ah, que merda — Negan soltou um som sibilante, e o homem de rosto marcado o mirou. Parecia fita-lo com pena. — Tá tudo ok aí embaixo? — Apontou para as calças de Dwight, sem pudor algum. — Com seu pênis — ressaltou, por mais que ele já tivesse entendido. O deboche era óbvio, disfarçado por feições condoídas.

O líder ergueu o indicador e assobiou, imitando um pênis flácido e impotente com o dedo. — Não sobe mais? — Encarava Dwight com as mesmas feições de dó irônicas.

O Salvador se esforçou para conter a onda de irritação que lhe subiu à cabeça. Depois de respirar fundo com discrição, negou com o rosto.

— Não, estou bem. Mas vou passar a oferta. Cara, estou de boa — acentuou, tentando dar um tom tranquilo as suas palavras.

— Está de boa mesmo, Dwight? — seu líder enunciou, duvidoso. Sua voz antes marota se tornou mais comedida. Honesta. E por isso, mais temível. — Quero dizer, eu acabei de te oferecer um happy hour no bar das bocetas e Dwight come de graça — abriu uma das mãos, em um gesto de incredulidade — e você está recusando? Isso é estar bem? — Suas feições novamente se misturaram entre a ironia e a suspeita.

— Eu ainda não terminei o trabalho. Não mereço ainda. Certo? — Mencionava o fato de que Daryl não cedera aos apelos do líder do Santuário, que queria subjuga-lo como um dos seus.

O rosto do chefe se fechou ainda mais.

— Mas de que merda você está falando agora? Você merece o que você pega — salientou o líder dos Salvadores, contrariado. Dwight já pensava no que responder, temendo aquela reação, quando ouviu a voz de Arat, uma companheira de vigia, soar do walkie-talkie que tinha consigo:

— Nós temos um alerta laranja.

— Me dá isso — Negan arrancou dos bolsos de seu subalterno o rádio de comunicação. O homem loiro apenas testemunhou seu mandatário comentar com Arat sobre a fuga de um dos Salvadores, que teria fugido perto do caminho do Anjo, uma estátua próxima do Santuário.

— Bom — grunhiu o líder, dando o comunicador nas mãos do ex-esposo de Sherry.

— É o D. Te encontro no portão — Dwight avisou Arat, e desligou a chamada.

O líder dos Salvadores o fitou com um de seus conhecidos olhares sarcásticos.

— Quero dizer, eu quero que você pague minhas merdas de volta, mas isso é trabalho de peão — referia-se a missão de ir atrás do fugitivo da vez. — Por que você não manda o Joey Gordo fazer isso? Deus sabe que ele precisa do exercício. Mas você? Você não precisa fazer isso, Dwight — disse o governante do Santuário, em sua melhor pretensa misericórdia.

— Eu gostaria de fazer — insistiu no que julgava ser a resposta mais segura.

Um pouco aliviado, reparou que Negan riu. O chefe segurou em sua nuca, e encostou suas testas em um cumprimento, o soltando depois. Dwight sentiu uma mistura de satisfação por tê-lo agradado com humilhação pelo gesto de falsa afeição.

— Bom garoto — o governante o elogiou, lhe dando dois tapinhas nas costas.

Ao ser deixado a sós, ele sabia que era hora de cumprir a tarefa. Ao encontrar com Arat, ela lhe disse que deveria perseguir Gordon. Um amigo próximo, um dos poucos que fizera no Santuário.

Aquilo lhe trouxe um nó na garganta, desagradado.

Você fez a escolha certa.

Você está vivo.

Todavia, seu mantra não parecia mais convencê-lo tanto quanto antes.

****

[NAQUELA TARDE]

Dwight retornou da missão bem sucedida. Negan ficou exultante, enquanto os prisioneiros remanejavam o novo morto caminhante em uma das estacas.

Ele sentia sua bochecha queimada tremer, assim como o canto de seus lábios, em um tique nervoso.

Não era seguro ter dúvidas. Não era seguro se sentir culpado. Ele estava fazendo a coisa certa. Precisava perseverar. Não poderia haver resistência contra Negan, apesar do que dissera Gordon. Era inútil. Ninguém vencia.

Perto do anoitecer, ao subir as escadas do quarto andar da fábrica, topou com outra figura que o fez parar.

Sherry fumava sozinha, recostada em uma das paredes. Viu a expressão da mulher que tanto amara um dia. Conhecia cada traço de seu rosto. Parecia melancólica, soprando a fumaça para longe. Olhava sonhadoramente para a bruma do cigarro, como se a invejasse, como se quisesse por si só voar para longe dali.

Ela ainda não o notara. Andou alguns passos para cima, e parou defronte a sua ex-companheira.

— Posso pegar um? — interpelou, tentando soar indiferente. Queria estar.

Sua ex-esposa lhe estendeu um cigarro. Fumaram juntos, quietos. Conteve um suspiro, e passou a olhar as próprias mãos, pois encará-la ainda doía.

— Ele te trata bem? — teve de perguntar.

Sherry levantou os olhos, pestanejando. A resposta estava contida em seu rosto.

— Sim. A mim e as outras — replicou, insegura.

— Que bom — retorquiu, tentando se manter o mais frio possível.

— Você está feliz? — foi a vez dela indagar.

— Yeah — afirmou, dando de ombros.

— Isso é bom — ela tentou, incerta.

— Eu fiz a coisa certa, sabe. É bem melhor do que morrer.

Sua própria voz impositiva já não lhe parecia tão convincente.

— Sim... — Sherry concordou, acabrunhada.

Dwight apagou o cigarro na parede e se punha a subir as escadas, quando uma porta um andar acima foi aberta, e dela desceu uma garota de cabelos loiros compridos até os ombros. Ela parou com uma das mãos no corrimão, mirando o outrora casal. O homem percebeu que ela pareceu desconfiada por um momento sutil, antes de descer até eles.

— Sherry, não vai voltar lá pra cobertura? — a jovem de vinte e poucos anos indagou.

— Logo, logo, Callie — sua ex-mulher respondeu.

— D, você está de parabéns! Ele anda tão feliz ultimamente. — Calliope, a esposa mais jovem de Negan, era toda sorrisos também. — Não é, Sherry?

Dwight sentiu suas entranhas se contorcerem.

— Yeah... — ela anuiu em voz baixa.

— Bem, eu vou subir. Já está anoitecendo — disse a jovem de uma maneira sugestiva. O nó no estômago do arqueiro apenas se intensificou.

— Vou com você — afirmou sua ex-esposa, e Calliope deu a outra mulher um sorriso não tão sincero. Dwight sabia sobre a obsessão daquela menina por Negan.

— Tchau, D! — Callie o saudou animada, subindo rápido os degraus. Sherry lhe deu um olhar em despedida, silencioso, e a seguiu.

Parado ali, sentia seu peito se dilacerar enquanto ela se afastava. Era Dwight, na verdade, quem a abandonava ali, frágil, submissa.

Sua culpa, apenas sua.

Cumprindo mais uma de suas obrigações, o homem de rosto marcado pela humilhação seguiu até o cárcere de Daryl. Ele não comera o sanduíche do dia. O ex-marido de Sherry não poderia permitir aquilo. Se ele morresse por má alimentação, Negan ficaria furioso.

— Come — ordenou Dwight ao prisioneiro, que fez que não com a cabeça.

— Seus amigos morreram por sua causa! Por causa do seu chefe! — falou, ríspido e impaciente. Aquele idiota só dificultava as coisas. Não havia outra escolha a não ser ceder. Ele sabia disso.

Tinha de acreditar nisso.

— Minha cunhada morreu por minha causa também. Não se faz de vítima — desprezou-o, e Daryl finalmente reagiu. O arqueiro trancafiado pegou o sanduíche do chão, o atirando no rosto do outro.

— Você deveria estar morto, seu imbecil! — rugiu Dwight, furioso. — Você e ela também! — O Salvador lembrava do rosto daquela garota, a namorada do homem que fora encarregado de atormentar. Era mais nova do que Sherry. E ele sabia, teria o mesmo destino que sua esposa. Quando Negan queria algo, sempre seria dele.

— Mas Negan gostou de você. Da sua garota. Você tem sorte. Não se esqueça disso. — Soltando suas frustrações, tirou do bolso as fotos dos crânios do rapaz de traços asiáticos e da jovem morena, as colando do lado do caipira espancado.

Bon appétit! — debochou, fechando a porta com fúria.

Decidiu por outra música para atormentar Daryl. Logo a música de Roy Orbison ressoou pelos corredores vazios e abandonados, como os dois homens desgraçados.

I was all right for a while,

I could smile for a while,

But I saw you last night,

You held my hand so tight

As you stopped to say "Hello"

Dwight tentava o seu melhor para se manter ausente de sentimentos. Ele era outro homem agora. Mas a imagem de Sherry não lhe saía da cabeça.

“Aw you wished me well, you couldn't tell

That I'd been crying over you

...It's hard to understand

But the touch of your hand

Can start me crying...

Desde que tiveram de se adaptar ao regime de Negan, suas vidas pioraram vertiginosamente. Mas ainda tinham um ao outro. Hoje em dia, nem esse consolo lhe restava.

“I thought that I was over you

But it's true, so true

I love you even more than I did before

But darling what can I do?”

A letra da música falava fundo a Dwight, ao passo que ele coçava os cabelos, a cabeça baixa fitando o vão da cela. Achou que se sentiria vingado ao ouvir o choro abafado do prisioneiro.

Apenas se sentiu mais culpado.

Socando uma das paredes pelas emoções indevidas, o Salvador se afastou, retornando horas mais tarde.

Abriu a cela, e constatou que Daryl não comera nada e ainda vomitara no chão. Rangendo os dentes, arrastou aquele trapo humano até o quarto alguns corredores acima. Negan já estava lá, sentado na poltrona. Ergueu-se, animado, fitando o prisioneiro com sadismo descarado.

— Jeeesus... Você está feio pra caralho mesmo. — riu. — Olha, com certeza a Coelhinha não gostou de você pela sua cara. Você já parece um mendigo, assim então... — Ergueu uma sobrancelha, fingindo uma expressão piedosa.

— Não se preocupa, Carson vai te ajudar a melhorar. ‘Tá com sede? — Dwight viu o líder oferecer ao prisioneiro um copo d’água. — Pega.

Daryl não o bebeu.

— Porra, esqueci que a sua boca está tão inchada quanto a bunda de um babuíno. Precisa de um canudo? — Negan fingia comiseração. — D, pega um canudo pro cara, qual é o seu problema? — ironizou, e o ex-marido de Sherry seguiu as ordens, largando o canudo sem o menor tato nas mãos do prisioneiro.

— Está vendo esse cara? — O líder o apontou com o queixo. — Ele é combativo, eu gosto disso. Mas, acredite ou não, as coisas nem sempre foram tranquilas entre nós. — O mandatário abriu um sorriso sarcástico.

Dwight tentou se controlar. Sabia o que viria.

Daryl se mantinha silencioso, como um animal paralisado esperando uma escapatória. O governante do Santuário passou a mão em sua barba.

— O D trabalhava por pontos. Ele, a esposa super gostosa dele — Dwight desviou os olhos, enfurecido, ao ouvir aquilo. Descontou em Daryl, arrancando o copo intocado de suas mãos. O líder dos Salvadores continuava. — E a irmã super gostosa dela. Mas a irmãzinha precisava de remédios, e essas merdas são difíceis de achar, então custam mais. A irmã ficou devendo pontos, então eu a pedi em casamento. Para ser uma das minhas garotas, entende? — articulou em uma voz plácida, como se falasse de algo totalmente comum.

— Disse que cuidaria dela na saúde e na doença e todo o blábláblá, porque eu sou um cara correto. Aí ela diz que vai pensar a respeito, e do nada, logo depois, tenho que lidar com um alerta laranja. O Dwighty Boy aqui achou uma ideia brilhante roubar todos os remédios, e fugiu com a sua esposa super gostosa e com a minha possível noiva super gostosa! Aí eu precisei mandar uma galera atrás dele, porque não posso aceitar uma porra dessas. Existem regras. — O ex-esposo de Sherry o viu apontar Lucille para Daryl, que recuou o rosto.

— Me custou caro pra caralho ir atrás deles. E, se quer saber, o Dwighty boy... — O mandatário lambeu os lábios e riu uma risada sufocada, fitando seu subalterno — Ele ainda assim conseguiu se safar.

Dwight mirou Negan.

— Mas essa que é a parada! O D viu a luz! — o líder parecia contar sobre um milagre. — Ele virou macho, ele voltou, ele pediu pelo meu perdão — elencou, a expressão em seu rosto ficando gradualmente mais maldosa. — Eu gosto disso — disse em uma voz mais grave, assentindo. — Me fez levar os pedidos dele em conta — comentou, gesticulando.

Novamente o governante moveu o taco perto do prisioneiro, que esquivou com discrição.

— Mas a Lucille... Bem... Você sabe como ela é. — Negan usava de uma expressão de falsa comiseração ao fitar o homem que torturava no momento.

— Ela tem um puta tesão nas regras — debochou fazendo uso de um de seus largos sorrisos, aproximando-se do refém.

— Então o Dwight! — Afastou-se, se divertindo em testar o controle de Daryl. O subalterno não deixava de encarar o chefe. — Ele me implorooou pra não matar a Sherry — enunciou em um tom dramático. Dwight sentiu a raiva subir grossa por sua corrente sanguínea.

— O que eu achei que foi até fofo, porque eu só queria matar ele mesmo — admitiu, brincalhão. Umedeceu os lábios, e olhou para Daryl depois de apontar seu fiel seguidor.

Dwight notou uma sugestão perversa nos orbes escuros do chefe.

— Mas aí a Sherry diz que casaria comigo, se eu deixasse o Dwight viver. — Negan apontou para si e depois para o Salvador. O subalterno teve de olhar para cima para segurar o ódio que queria soltar de dentro de si.

— O que se você parar pra pensar é um acordo bem fodido mesmo, porque eu ia traçar a irmã dela que acabou caindo morta! — Soltou uma risada, violando a memória de Tina. Dwight crispou os punhos.

— Mas a Sherry realmente é super gostosa.

Negan fitou com cinismo seu seguidor. Ele não soube como conseguiu se impedir de esmurrar seu próprio chefe. Satisfeito com a inércia de Dwight, o governante retornou a mirar Daryl, tendo um olhar condescendente no rosto.

— Enfim, já era um começo. — O sádico lambeu os lábios e se aproximou do refém. — Mas não era o suficiente. — Sua voz tornara-se soturna.

— Então o Dwight. — Seu chefe o indicou com um dos ombros. — Tomou o ferro! E então eu casei com a esposa super gostosa dele — riu, olhando o Salvador, humilhado em tantos níveis. Dwight se forçou a fita-lo.

Ex-esposa — devagar, enunciou as sílabas, sorrindo por todo o tempo. — E depois disso tudo ele ainda me seguiu. Agora olha pra ele. WOW! — o líder dos Salvadores quase rugiu. — Um dos meus melhores homens — disse, com admiração fingida. — E nós estamos totalmente de boa — afirmou, enquanto Dwight mirava o chão.

— O que eu quero dizer é que eu acho que você pode ser esse cara! — disse o mandatário para Daryl, com um sorriso contido. — Eu acho que você está pronto para ser esse cara. Olhe tudo isso! — girou Lucille pelo quarto. — Isso... Isso tuuudo pode ser seu. Tudo o que você precisa fazer — levantou uma das mãos e indicou o caipira — É responder a porra de uma pergunta simples — garantiu, teatral.

— Quem é você? — Dwight viu Negan abrir uma das mãos. Reparou que Daryl olhava para baixo, tremendo um pouco.

— O quê, o gato comeu sua língua, ou você está maravilhado com a fodicidade de tudo isso? — o líder dos Salvadores zombou. Abaixou o rosto bem perto do refém, alguns centímetros mais baixo do que ele. Seus olhos hostis estavam fixos no prisioneiro.

— Eu vou perguntar mais uma vez. — O governante andou devagar, predatório, até seu refém. Estava claramente desagradado. Colocou o taco de baseball a milímetros do rosto do homem espancado. Daryl piscou, mas não deixou de encará-lo. Negan fez a pergunta sem traço algum de humor.

— Quem é você?

Dwight se percebeu obrigado a esquivar o olhar daquele rebaixamento. Podia se ver no lugar do caipira.

— Daryl.

O estúpido refém respondeu, sem titubear.

O ex-marido de Sherry moveu o rosto na hora, boquiaberto.

— Esse é o único...

Ia aconselhar, mas seu chefe o calou, movendo Lucille.

— Tá tranquilo, D — o líder riu em silêncio. — Ele fez a escolha dele. Não é meu problema se foi uma escolha burra pra caralho — assegurou, próximo do homem que queria subjugar. Tinha um sorriso enviesado e impiedoso em seu rosto.

Negan não parava de olhar para Daryl. Aqueles segundos de tensão pura demoraram muito a passar.

— Acho que a Coelhinha é menos burra do que você. Vamos descobrir isso logo, logo — sugeriu o mandatário com um imenso sorriso zombeteiro, e o subalterno sentiu o corpo todo tremer.

Depois das últimas ordens, Dwight teve de levar o refém de volta a sua jaula humana. Estava descontrolado. Se pôs a gritar:

— VOCÊ VAI ACABAR NAQUELE QUARTO OU NA PORRA DA CERCA! — vociferou, sem mais segurar toda a dor e emoções controversas que tentava conter. Daryl já estava sentado acuado.

Como o prisioneiro não reagiu, seu carcereiro se punha a fechar a porta.

— Eu saquei porque você fez isso — o homem confessou.

O outrora braço direito de Negan parou o movimento de trancá-lo sozinho.

— Porque aceitou — continuou Daryl, dando a Dwight um olhar significativo. Encararam-se.

— Você estava pensando na sua mulher.

Dwight engoliu em seco. Queria e não queria torturar aquele imbecil, fadado ao mesmo destino que ele.

Sem poder se conter, pensou em Sherry sujeita aos desejos de Negan. Seu corpo todo foi tomado de um ódio animalesco.

— É por isso mesmo que eu não posso ceder — o caipira continuava firme em suas convicções, achando que poderia proteger sua namorada.

Dwight não suportou. Empurrou a porta com força, caminhando até sair da fábrica, não sem antes pegar uma cerveja. Beberia até conseguir relaxar.

Acabou andando até achar o pátio dos apodrecidos. Furioso, jogou a cerveja contra o muro, partindo a garrafa em inúmeros pedaços. Vislumbrou, sem querer, Gordon amarrado, os outros prisioneiros retirando um balde que cobria seu rosto.

Sua cabeça zuniu, ficando tonto.

Gordon e Daryl. Dois idiotas que foram mais homens do que ele.

Ele quebrara. Fraquejara. E agora sua esposa era uma refém, pagando os pecados que ele cometeu. Um brinquedo sexual nas mãos do homem que Dwight odiava, ao contrário do que todos os dias tentava se convencer.

Ele não passava de uma marionete subserviente ao monstro que destruiu sua vida, e a de sua cunhada. Que diariamente fazia em pedaços o que restou da mulher que ele mais amara na vida.

E, agora, se via forçado a garantir o mesmo destino que sofrera a outro homem. Para que, assim, pudesse ao menos nutrir alguma esperança de que um dia ele poderia ser livre.

De que Sherry poderia ser libertada.

Dwight sabia que era mais manipulado, controlado e destroçado por dentro e por fora... Do que qualquer morto-vivo.

Notas finais
~ Gif: DARYL NÃO É TUAS NEGANs, bicho ruim! ~ O título do capítulo é uma menção a votos de casamento. "For better, for worse", é a parte do "na alegria e na tristeza" dos votos de casamento ocidentais. Considero bem representativo tanto da situação que o Dwight vive, em que ele se culpa por ter fraquejado e não ter conseguido proteger a esposa, quanto do Daryl, que se mantém firme e forte não só por causa das memórias de Glenn e Tara, pela filha do amigo e pela esposa viúva dele, mas principalmente pela Mavie. Vamos combinar, nosso arqueiro ama a Esquila de todo o coração. ~ Gente, eu estou simplesmente extasiada com a sétima temporada. SÓ TEVE EPISÓDIO BOM! Amei o 7x01, amei o 7x02, amei o 7x03 (foi TÃO LOST, aliás, pqp, foda demais! Quem assistiu a série certamente vai concordar xD); ~ O Jeffrey Dean Morgan é maravilhoso, mas o Negan é grotesco. Só consigo sentir raiva e nojo desse abusador (em tantos níveis); ~ Quem não entendeu que o Negan da série é um estuprador depois desse episódio precisa, honestamente, rever. Não existe consentimento quando você se oferece pra transar com um sujeito para que ele poupe a vida do seu marido. Isso se chama consentimento sob coação, e adivinhem, é tipificado como estupro no nosso código penal auhsuhsuhs; ~ Para quem possivelmente estiver se perguntando, é assim que eu imagino a Callie: http://static.squarespace.com/static/5126c06fe4b0c404ec2d369a/5175fe01e4b04d586e9ed72f/5175fe03e4b04d586e9ed9d2/1335304026000/THP-FM-GG-0027.jpg?format=original. Ela só fez uma ponta por enquanto, mas será uma personagem de destaque. Saberão muito do Negan pelos olhos dela. Aguardem e vão ler! ~ Nota especial para a leitora Babi Prongs, que me deu várias sugestões sobre a Calliope "Callie", que foi brevemente introduzida neste capítulo, e aparecerá bem mais. Obrigada, sua linda! ♥ ~ Sofri muito assistindo o 7x03, mas na minha humilde opinião foi um dos melhores episódios da série em termos de desenvolver personagens. Senti pena de todo mundo ali e mais raiva ainda do Negan ahusuhshu; e ~ Aguardo comentários!