Hunter's Instinct
7 Episódio 7 - Cupid's Demanding Back His Arrow
Notas iniciais
Cerca de um mês já havia se passado desde que Daryl Dixon entrara para a rotina do Oceanário de Atlanta.
Desde que o restante do grupo de Rick fora levado para lá, Daryl soubera que o amigo contara o plano que pretendia somente para Michonne, Glenn e Maggie, pessoas que confiava que guardariam o segredo.
Os três, que, assim como o resto de seus amigos, pareciam reticentes em aceitar a decisão de Rick de viver sob a custódia do Oceanário, finalmente compreenderam o que pretendia, e aceitaram participar da estratégia formulada por Carol. Sabiam dos riscos de serem descobertos, e se comprometeram a guardar aquele segredo como a própria vida.
O arqueiro percebia como levar aquilo adiante estava sendo difícil para o policial. Não por haver um claro “racha” dentro do grupo, mas pela forma como seu filho estava lidando com aquilo. Carl tratava o pai da pior forma possível; evitava-o, passava o tempo ensimesmado, cuidando de Judith ou sozinho com Michonne ou Tara. Daryl sabia que elas tentavam convencer o menino de que o pai queria apenas o melhor para todos e que tudo iria melhorar, mas ele estava decidido a desprezá-lo. Achara que o pai se deixara intimidar e se acovardara.
Eugene era provavelmente o sobrevivente mais feliz com a mudança dos termos. Medroso como era, incapaz de lidar com armas, a mudança de rotina para um local de estudos científicos, hermeticamente fechado, com segurança, alimentação e abrigo garantidos, era provavelmente sua ideia de paraíso dentro daquele mundo caótico. Parecera inclusive ter feito uma espécie de amizade com Buck, ajudando-o em todas as tarefas técnicas do Oceanário de Atlanta.
Noah parecia talvez o mais desapontado com Rick, perdendo apenas para Carl, por ter se sentido ludibriado; julgara que o policial os levaria para Virginia, em busca de sua família, como Grimes antes prometera. E não podia deixar de comparar sua situação no Aquário com o tempo que passara no hospital. Não confiava que um dia Jed os deixaria ir embora, imaginava que tudo aquilo não passava de mentiras para convencê-los a achar que não eram reféns.
Padre Gabriel parecia um pouco aliviado em estar em um local de maior segurança, e interagia bem com os membros do Oceanário, descobrindo que Dakota era inclusive católica. Fazia leituras da Bíblia com ela e sua filha, Peggy, simulando uma espécie de missa.
Tyreese e Sasha, bem como Rosita e Abraham, ficavam em um nicho alheio ao grupo. Tyreese parecera compreender a decisão de Rick, julgando que de fato era o melhor que ele poderia fazer na situação em que se colocara, mas Sasha não parecia aceitar aquilo.
De qualquer forma, a situação não era fácil para Daryl também. Ele ficava constantemente admirado com a habilidade de dissimulação de Carol, que era provavelmente a membra mais querida do grupo de Rick pelas pessoas do Oceanário. Era quase chocante o quanto ela levava com maestria todo o fingimento de simpatia e afeição pelo pessoal que a “acolhera”.
E assim, os dias se passavam. Daryl tentava se ocupar com as tarefas cotidianas, evitando ficar na companhia do grupo do Aquário, sendo de quando em quando repreendido por Rick, que precisava de sua ajuda para ganhar a confiança daquelas pessoas. Ele se esforçava ao máximo em aturá-las, algumas melhor do que outras.
Lidava bem com Annie, a médica, que era por si só mais fechada e focada em seu próprio trabalho, o qual era o de cuidar da saúde do grupo. Tinha uma relação neutra com Haywood, Dakota, Buck e Peggy, a menina adolescente, e mal suportava Jed e Billy Ray. Jed, por ser o maldito que os colocara naquela situação, e Billy Ray por ser o filho da puta que seguira suas ordens de sequestrá-los em primeiro lugar. Fora isso, o caipira do Alabama ainda parecia nutrir uma espécie de repúdio especial por Daryl, não perdendo a chance de provocá-lo e ameaçá-lo quando podia, longe dos olhares do resto do grupo. Era por muito pouco que Dixon conseguia se controlar e não quebrá-lo de porrada para que nunca mais abrisse sua maldita boca.
Mas, sem dúvidas, a mais insuportável de todas era a garota dentuça, a Esquila.
Talvez tivesse sido um erro gritante ter salvado a vida da menina, ainda que aquilo fizesse com que o grupo do Oceanário confiasse mais no caçador arqueiro. Depois de salvá-la, Mavelle Berry não perdia a chance de perturbá-lo, muitas vezes usando de suas piadas ácidas para tanto. Quanto pior a tratava, mais a garota insistia em importuná-lo.
Para piorar, a jovem mulher exercia a mesma função de Daryl no Oceanário; era responsável principalmente pela caça, então muitas vezes tinham de ir a missões externas juntos, e não eram poucas as vezes em que se encontravam sozinhos, cozinhando para o grupo, estripando animais, limpando as flechas, verificando o estado do frigorífico, “limpando” os arredores de errantes, e outros afazeres.
Sua paciência era testada ao limite quando estava na companhia dela. Carol, por sua vez, parecia se divertir um pouco com aquilo, o que deixava Daryl ainda mais irritado. Ela lhe dizia para ignorar as provocações da garota, que era apenas uma menina, que ele exagerava ao reagir daquela forma. Lembrava-lhe que ela tinha suas qualidades, e de vez em quando a comparava com Beth, o que fazia o caçador ficar ainda mais contrariado.
Quanto mais tempo passava com a garota morena, mais ele percebia essas malditas semelhanças. Mas, ao mesmo tempo, as duas eram muito diferentes, especialmente na visão que o grupo tinha dela; Mavie era peralta, gostava de ostentar sua independência, e realmente era muito boa com um arco e flecha. Era piadista, um pouco arrogante e convencida. Tomava a frente de muitas atividades difíceis e extenuantes do Aquário, mostrando uma resistência admirável para a jovem idade e físico pouco avantajado que tinha. As pessoas do Oceanário a respeitavam muito, e tinham confiança nas habilidades dela como uma das responsáveis pela segurança e proteção do local.
Mas, ao mesmo tempo, era apenas uma menina de vinte e poucos anos. Era de sua personalidade ser mais aberta, sociável e agradável que muitas das pessoas mais velhas do Aquário. Quando tentava ser simpática, não parecia fingir, como a maioria dos membros do Oceanário. Ela gostava de recebê-los, aparentemente, e ficava feliz em ter companhia.
O que mais importunava Daryl era quando ela o olhava com aqueles abomináveis olhos de avelã esverdeado, passando uma ideia de curiosidade juvenil. Ela fazia a expressão exata de Beth quando o avaliava, quando queria entender o que se passava em sua cabeça.
Isso deve ser algum tipo de castigo. Pensava Daryl Dixon, ironicamente. Mas aos poucos acreditava cada vez mais nisso.
Fora em uma noite específica, ao fim do primeiro mês de estadia no Oceanário de Atlanta, que aquilo acontecera. Algum tempo antes, fizera uma ronda extenuante com Haywood, Tyreese, Buck e Billy Ray, matando cerca de cinquenta errantes, depois do jantar. Ameaçavam derrubar os portões do sul do Aquário da Georgia, atraídos por algum gambá ou animal que se esgueirara para comer algo na horta que Annie mantinha em um dos jardins do local.
Estava muito cansado. Queria apenas pegar uma garrafa de alguma bebida qualquer do estoque do Aquário, beber e ter um sono sem sonhos. Aquele plano estava começando a demorar muito a ser efetuado, e Dixon temia que sua paciência se esgotasse. Poderia tomar alguma atitude arriscada e colocar tudo a perder.
Foi até a cozinha, que ficava no nível térreo, e buscou uma garrafa qualquer de conhaque vagabundo. Em seguida, andou até um dos jardins onde havia um tanque abandonado, das belugas, animais que Buck e Eugene uma vez contaram não sobreviver a não ser em temperaturas muito frias. O sistema de resfriamento do Oceanário funcionava em razão de um gerador de energia elétrica, que eles não desperdiçariam naqueles animais marinhos. Já haviam virado comida das pessoas do Aquário havia muito.
A noite estava escura, não muito fria, com um vento leve soprando no ambiente. Sentou-se no chão, perto do tanque, as costas apoiadas em um dos muros altíssimos do Aquário, observando a água muito escura. Parecia se movimentar um pouco, o que o caçador arqueiro julgou ser devido a brisa que soprava.
Já estava na metade da garrafa de conhaque, que tomara enquanto andava até lá, quando foi surpreendido. Inegavelmente, tomara um susto.
Mavie surgira do meio da água, suavemente, de olhos fechados, apoiando-se com os braços na borda do tanque, que parecia uma espécie de piscina escura. Aquilo acabou por lembrá-lo ridiculamente das histórias de sereia que Merle contava a ele quando pequeno, para brincar de assustá-lo quando queria nadar nos lagos das montanhas da Georgia, perto de sua casa.
Histórias de criaturas metade mulher e metade peixe, que viviam dentro d’água para seduzir os incautos com sua boa aparência, e depois levá-los para o fundo e devorá-los vivos. Descobrira depois que o irmão fazia aquilo para que não fosse nadar sozinho e se afogasse. Depois que Dixon aprendera a nadar bem o suficiente para Merle, ele o chamava de “viadinho” caso ficasse com medo de ir ao lago sozinho.
“Você afinal de contas tem bolas ou não, Darlena? Não me envergonhe, sua bichinha.” Podia ouvir claramente a voz do irmão, falando-lhe aquelas palavras.
Daryl Dixon tentou se levantar e sair ligeiro para que a garota não o flagrasse ali, mas foi em vão.
– Boa noite, Cupido! – Ouviu a voz irritante da garota de dentes grandes saudar-lhe, à distância. Voltou o rosto por cima dos ombros, andando um pouco mais devagar, e viu que ela já tinha saído do tanque. Naquele momento, estava a secar os cabelos, torcendo-os, deixando a água acumulada cair no chão. Logo depois, ela pegou um roupão que havia escondido dentro de um dos armários de ventilação ao lado do tanque que antes era das belugas, para se vestir.
Contra a própria vontade racional, Daryl olhara para ela um pouco mais do que gostaria, afinal de contas era a primeira vez em muito tempo que via um corpo feminino atraente com tão pouca roupa. Mavie não tinha um corpo voluptuoso, mas era de um estilo mignon, com a cintura fina e algumas curvas bem marcadas, em formato de ampulheta. Assim que se percebeu observando a garota daquela forma, Daryl se xingou em pensamento. Seu idiota.
– O que está fazendo aqui? Veio me espionar de biquíni? – ela brincou, dando-lhe uma piscadela marota, com as mãos na cintura e sorrindo um dos seus sorrisos travessos. Era um pouco mais difícil conseguir lidar bem com aquilo quando a garota estava com aquelas roupas, se é que se podiam chamar de roupas, sozinha, bem na sua frente.
Daryl respondeu com um som de sopro de desdém com a boca, como se aquilo fosse uma ideia risível. Mavie continuou.
– Eu sabia que você não me odiava – a garota falou com seu sotaque esquisito, em tom de brincadeira.
Aquilo estava ficando um pouco preocupante. Daryl Dixon queria sair de perto dela logo, não apenas por Mavie ser quem era, mas também pois não gostara nada de se perceber olhando para ela daquela forma. A última coisa que queria era vê-la como mulher.
Voltou-lhe as costas, ignorando-a. Ela já vestira o roupão, mas parecera decidida a segui-lo. Atitudes bruscas teriam de ser tomadas.
Assim que Mavelle o alcançou, fez menção de tocar em seu braço esquerdo. No momento em que sentiu os dedos dela o tocando, aquilo teve um efeito tão controversamente convidativo dentro de si que o caçador se irritou e reagiu instintivamente, como um animal acuado.
– Cai fora, garota! Se toca! – Daryl falou com sua voz rouca, desviando-se dela com brusquidão, puxando o braço para longe com força descontrolada. Mavie, surpreendida pela agressividade daquele gesto, voltou-se para trás rapidamente, desviando dele, como se por um instante seus instintos lhe dissessem que ele poderia machucá-la.
Ao ir para trás, a garota escorregou em uma poça d’água formada por ela mesma, seus pés nus deslizando sem controle. Por ter boas habilidades físicas, a jovem mulher não caiu para trás, mas sim para o lado, se forçando a se equilibrar. Uma de suas mãos alcançou a parede, e a outra caiu em cheio em um refletor de luz voltado para o tanque das belugas.
Feito de vidro.
A mão esquerda de Mavie, segurando o peso do corpo naquela semi-queda, quebrou com força o vidro daquele objeto de iluminação, atravessando-o. Daryl a viu levantando a mão ferida, rapidamente, fazendo uma careta de dor, parecendo querer controlar a própria agonia que sentia.
O material delicado se estilhaçara na mão dela, cortando a palma e os dedos, fazendo-a sangrar em múltiplos cortes. Provavelmente partes daquele vidro poderiam ter entrado dentro da pele, e seria difícil retirá-las.
– Qual é o seu problema, seu babaca?! – Mavie gritou para ele, saindo correndo de suas vistas para fora do jardim, indo até a porta que Daryl Dixon usara para chegar lá. O arqueiro julgou ter visto um princípio de lágrimas nos olhos dela.
Sou mesmo um idiota. Confirmou para si mesmo Daryl, por estar sentindo-se levemente culpado. A garota era insuportável, e agora se sentia mal por tê-la ferido acidentalmente, e prejudicado o plano de seu grupo. Se Jed soubesse daquilo, se ela contasse o acontecimento para ele de forma distorcida, poderia atrasar ainda mais o plano de Rick.
Engolindo em seco, Dixon esperou passar cerca de uma meia hora, e foi para onde julgou que a acharia, não sem antes estourar a maldita garrafa de conhaque na parede, quebrando-a em mil pedacinhos de vidro. Precisava soltar a raiva.
Em alguns minutos, estava na pequena sala hospitalar que havia no Oceanário de Atlanta. Dito e feito; Mavelle estava lá, sozinha, já vestida com calça e camiseta, usando uma lanterna acesa ao lado de uma maca onde se sentava, e uma pinça para retirar os inúmeros cacos de vidro que havia em sua mão. Seus cabelos estavam molhados. Dixon esperava que já estivesse um pouco mais calma.
– E agora, veio aqui para quê, me dar um soco? – ela disse, com ironia evidente. Sua voz não estava mais enérgica, apenas baixa e fria.
– Para me desculpar – Daryl respondeu, engolindo o próprio orgulho, contrariado – bebi um pouco, não estou nos meus melhores dias.
– Você nunca está nos seus bons dias. Não comigo. Insiste em me tratar como se eu fosse lixo – a garota dentuça respondeu, seu sotaque diferente ainda mais evidente pela raiva que sentia. Ele reparou que o queixo dela tremeu levemente.
O arqueiro não respondeu aquilo. Era verdade, e ele já estava “queimado” demais com a garota morena.
– Vamos, deixa que eu te ajudo – Daryl falou, sua voz grave – sozinha você não vai conseguir tirar tudo isso.
– Você vai é arrancar minha mão fora – Mavie retrucou, olhando-o com desconfiança.
– Não seja criança – Dixon revidou, sua voz um pouco mais irritada. Mavelle o olhou com raiva, e ele manteve o olhar, tentando aparentar neutralidade.
Daryl Dixon foi até uma mesa onde já vira Annie, a médica, achar alguns curativos. Procurou por uma agulha esterelizada de uma seringa ainda não aberta, bandagens e gaze. Separou-os, e depois reparou que na pia Mavie já se lavara, os rastros de sangue evidentes no ralo, assim como o cheiro no ambiente. Havia ali sabonete antibactericida, e, do lado da maca, vira o isqueiro que a garota usava para fumar. Esterilizara a pinça antes de começar a retirar o vidro, cujos restos depositara em uma lata de lixo também em cima da maca.
– Me dá a sua mão – ordenou o arqueiro.
– Por favor – respondeu Mavelle, com sarcasmo claro. De qualquer forma, estendeu o braço para o caçador arqueiro.
– Só segure a lanterna. Eu faço o resto – ele disse, em poucas palavras, como lhe era de costume.
Daryl passou a retirar os cacos da mão da garota, com cuidado. Ela se controlava para não demonstrar a dor, seus olhos marejados de lágrimas que ela não permitia soltar, mas Dixon já se machucara daquela forma. Cacos de vidro mais soltos são fáceis de retirar e não doem tanto, mesmo os que fazem cortes profundos como os da mão de Mavie. O problema eram os debaixo da pele. Incomodavam como farpas debaixo da unha, era uma agonia aguda de se lidar.
Precisava abrir espaço para retirá-los, procurando-os com uma agulha.
Aquela cena já começara a incomodá-lo bastante, tendo em vista que a última vez que vivera algo parecido, fora, ironicamente, quando Beth machucara o tornozelo. Realmente a sensação era como se uma força maior debochasse de seu destino, embora ele não acreditasse nessas coisas.
– Isso vai doer um pouco – o caçador arqueiro avisou. Passou a tocar delicadamente a palma ferida de Mavie, procurando os cacos debaixo da pele com os dedos das duas mãos. A cena era ridícula; se não estivesse machucada, alguém julgaria que ele massageava a mão dela.
– Ai! – a garota dentuça reclamou, mordendo o lábio inferior com seus dentes salientes.
– Você sente algum caco aqui? – perguntou Dixon. Ela fez que sim com a cabeça.
Passou o resto do tempo abrindo a pele onde os estilhaços de vidro penetraram, guiado pela dor de Mavelle, usando a agulha da seringa e retirando-os com a pinça. Mavie se portara bem, fazia um esforço tremendo para suportar a dor, e evitava falar para não demonstrar com a voz como aquilo a afligia.
Por fim, tocou novamente a pele dela, com delicadeza, e ela confirmou não haver mais nada ali. Ela moveu-se para fazer o curativo sozinha, mas Daryl precisava ganhar pontos de confiança novamente, e a impediu. Pediu que ela lavasse as mãos para retirar o sangue acumulado, avaliando o procedimento, e depois cobriu os ferimentos dela com gaze, amarrada com esparadrapos.
Mavie encarou a própria mão parecendo mais calma e aliviada.
– Não vou poder caçar por uma semana, seu filho da puta – ela reclamou, entre um tom de irritação e de brincadeira.
– Foi mal por isso, Esquila – Daryl se desculpou, apesar de uma parte maldosa de si se sentir aliviado de não ter de lidar com a presença dela por algum tempo.
Ele já ia se retirar, perguntando mais uma vez se ela estava bem, enquanto a garota morena confirmou silenciosamente. Antes de sair da sala hospitalar, outrossim, Mavelle chamou sua atenção.
– Sabe, essa não foi a primeira vez que você me machucou – a garota comentou, e parecia levemente travessa.
– Eu sei. Mas eu estava me defendendo – o arqueiro disse, sem se desculpar, sabendo que ela se referia a flechada que deu nela quando foram sequestrados pelo grupo do Aquário.
– Não precisa se justificar. Só aviso que você estragou uma calça minha com isso, e me causou um corte na coxa. Minha avó te odiava quando você chegou aqui por causa disso – Mavie falou com um tom de riso na voz.
Daryl continuou em silêncio, olhando-a de longe.
– E o que você fez com a flecha? – perguntou, em um tom comedido de cobrança. Sabia que era cara-de-pau exigir aquilo, mas já fora muito gentil com a garota irritante naquela noite.
– Aí está o ponto que eu queria chegar – a menina morena falou, sua voz soando triunfante, como se tivesse manipulado Daryl a chegar naquele assunto. Ela se levantou e andou até um armário baixo de utensílios hospitalares, abaixando-se para procurar algo lá dentro.
– Você gosta de agir como se não se importasse com nada nem ninguém, mas quem convive com você tempo o suficiente sabe que não é bem assim. Você cuida do seu grupo. Zela por eles. Tem um instinto forte de proteção. E, mesmo me tratando desse jeito, você salvou minha vida. – Mavie levantou-se, fechando a porta do armário.
Ela caminhou até o arqueiro, que estava parado na frente da porta, e lhe entregou uma flecha. Limpa, bem cuidada, como se fosse nova.
– Pessoas como eu e como você, Daryl, não conseguem deixar de se importar. – Ela lhe deu um sorriso sincero e lhe entregou a flecha que uma vez a atingira. Que o arqueiro atirara nela para matá-la. Aquilo era sem dúvidas um gesto extremamente significativo. A garota dentuça estava séria, não mais falava em tom de brincadeira.
Daryl Dixon estava realmente surpreso. Não sabia o que dizer. Jamais esperara tamanha consideração e compreensão daquela garota.
Ela o olhou por alguns momentos, e, sem que ele esperasse por aquilo, deu-lhe um beijo na bochecha e saiu da sala. Ainda absorto pela devolução da flecha, o caçador arqueiro ficou encarando a arma em suas mãos, atônito. Sem contar o gesto de carinho aleatório.
Mas que porra foi essa?

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