Hunter's Instinct
68 Episódio 68 - All too Human
Notas iniciais
A fogueira montada bem ao centro daquela praça de Alexandria crepitava em meio à penumbra noturna. As brasas estalicavam, as únicas com coragem o suficiente para quebrar aquele rompante de silêncio. As fagulhas, voando na direção do céu daquele inverno escuro, davam um simbolismo oportuno para o que vivenciavam: o resplandecente crescimento de Peggy Taylor.
Por trás da luz formada pelo fogo, ele via com distinção os rostos de cada um: Rick. Maggie. Glenn. Michonne. Padre Gabriel. Mavelle. Todos voltados para ela, sem exceção.
A garota respirou fundo, seus olhos impávidos focados no líder da comunidade, aguardando sua reação.
Moritz Alvintzi sentiu um misto de emoções que o assolaram por dentro, como uma queimadura súbita. Orgulho, admiração e carinho arraigados por aquela pequena jovem mulher. Simultaneamente, tristeza, arrependimento e amargura.
Confundira tudo. Absolutamente tudo. E agora finalmente enxergava aquilo com clareza, em meio aquelas chamas reveladoras.
— Rick... — Michonne foi a primeira a se manifestar. Alvintzi reparou que Grimes piscou algumas vezes antes de encará-la. O restante também foi pouco a pouco fitando a espadachim.
— Talvez realmente isso não seja assim tão necessário. Ela não é mais uma criança. Explodiu um grupo de pessoas do Exército de Wyoming County em uma manobra planejada por ela, pelo que me contaram Tara e Rosita — sugeriu a mulher de dreads, sua voz séria, seus olhos fixos no rosto do mandatário. Rick começou a menear a cabeça devagar, mas Maggie também passou a falar.
— Começamos tudo isso por conta de uma situação passada, afinal, a proposta dessa conversa — ela enfatizou a palavra, como se não estivesse satisfeita com os rumos tomados — Era resolver um desentendimento. Pela escolha que Moritz fez, ao decidir que eu deveria morrer no lugar de Peggy, quando ameaçado pelo Exército de Hashimoto — a mãe de Bethalie acresceu. Rhee fitou sua mulher, franzindo as sobrancelhas, como se não compreendesse aonde ela queria chegar.
— Precisamos discutir apenas se Moritz é confiável ou não, certo? — recordou a jovem mãe. — E não vejo forma melhor de fazer isso do que permitindo que fique conosco. Ele foi útil para Alexandria, acrescentou bastante nas reuniões do Conselho. Peggy também foi fundamental para a derrota de Hashimoto, ela salvou a mim e a Glenn durante a última invasão do Exército de Wyoming County — pontuou Maggie Greene, mirando agora a adolescente.
O ex-palhaço sentiu as emoções ambivalentes duelando ainda mais intensamente dentro de si.
— Eu não confio nele — Mavelle Berry falou em alto e bom som. Encarava Moritz sem nenhum traço de piedade. Pelo visto, o considerava algum tipo de molestador manipulador.
— Isso significa que você não confia em mim também — retrucou Peggy, fitando a irlandesa sem dó. A mágoa estava evidente em seu rosto. Alvintzi notou que Mavie não olhou de volta para a adolescente.
Em seguida, o professor reparou que Maggie fitou seu marido e o padre. Gabriel apenas balançou o rosto, como se não pudesse opinar a respeito. Glenn, ainda desagradado, parecia tentar formular alguma frase.
— Por que nós não abrimos para uma votação? Os que são a favor do banimento e os que não são? — Michonne insistia em ser a voz a razão.
— Alguém tem alguma coisa a acrescentar? Glenn? — urgiu Rick, parecendo estafado. Moritz percebeu que seu semblante aparentava demonstrar exaspero. Como se subitamente chegasse a conclusão de que aquele tribunal do júri improvisado não tinha muita relevância.
— Eu sempre serei parcial. Sei que ele não decidiu aquilo pensando em agir contra Maggie, mas não... Não vou poder fingir que está tudo bem. É instintivo. Mas também não me sentiria bem pensando em banir Peggy junto com ele — admitiu o pai da pequena Beth, sua filha dormindo em seus braços.
— Algo mais? — Rick passou uma das mãos ao rosto, cansado. Moritz aguardou maiores deliberações, mas ninguém parecia impulsionado para tanto.
— Então... Os que são a favor da estadia de Moritz, levantem as mãos — Grimes disse com simplicidade.
Assim que terminou de falar, Michonne, Maggie, Padre Gabriel e Peggy levantaram as mãos. Mavie voltou os olhos para a adolescente, enfim. As duas se fitaram, sem piscar. Moritz viu, nervoso, que a irlandesa lambeu os lábios, mordendo o maxilar, contrariada. Ergueu um braço, em seguida, vagarosamente. Como se o gesto lhe custasse muito.
— Está certo. — Rick concordou com a cabeça, soltando uma expiração longa. Parecia cada vez mais enfastiado com tudo aquilo. — Então está resolvido. Moritz continua em Alexandria, caso encerrado — garantiu o policial, em seu estilo imperioso de falar.
— Estão liberados para voltar para suas casas e seus trabalhos — assegurou o pai de Carl, descendo de um pequeno púlpito e andando para fora da praça. Michonne seguiu na direção contrária, provavelmente encarregada de alguma tarefa. Glenn, Maggie e sua filha bebê no colo do pai seguiram para a própria residência, dando as costas ao antes réu. Greene lhe deu um boa noite polido, que Alvintzi respondeu no mesmo tom educado. Padre Gabriel caminhou até a capela, passando por Moritz. Segurou em seu ombro, lhe dando um sorriso sem graça, se afastando depois. Apenas Mavelle e Peggy ainda continuavam ali, fitando as chamas da fogueira.
— Boa noite — saudou Peggy, sem fitar Mavie. Deu um olhar distante para seu ex-namorado, que respondeu para suas costas, já que ela logo se virou e seguiu na direção do jardim onde ela e Aya gostavam de passar tempo.
A irlandesa mantinha os olhos na fogueira flamejante. Moritz então fez menção de se levantar e sair, mas Mavelle cortou o silêncio erguendo sua voz musical.
— Eu não esqueci isso. Eles podem querer passar uma borracha por cima de tudo, mas não confio em você. — Seus olhos entre o verde e o castanho quase queimavam ao mirar Moritz.
— É uma pena — respondeu melancólico. Mavie se levantou e deu alguns passos até o professor de filosofia.
— Você deveria se envergonhar. Ela chegou aqui frágil, quebradiça, um fiapo de gente. Não sabe o quanto eu e minha avó nos preocupávamos com ela — Mavelle quase rosnou para o homem, dando mais um passo defronte ao professor. — Eu reconheço o quanto ela cresceu. Fico feliz com isso, aliviada, todos os dias — frisou, seus olhos brilhando furiosos.
— Mas eu sei que isso tudo entre vocês começou antes dela estar tão firme assim. Sei que, no fundo, você tirou vantagem disso. Um homem anos mais velho. Uma figura paterna postiça. Eu não sei que tipo de gente você é — Mavie o olhou dos pés à cabeça, a repulsa clara em seu olhar — Não sei como convive consigo mesmo sabendo que usou essa menina para o seu próprio prazer. Graças a Deus isso não teve um desfecho trágico! Mas poderia — ressaltou. — E você sabe que poderia. E ainda assim não freou esse seu fetiche egoísta — a irlandesa jogou aquela dura verdade diretamente.
— Não ouse achar que você é a vítima. Você não tem esse direito. E eu nunca vou te desculpar por ter se aproveitado da inocência dela. — Mavelle apontou seu dedo indicador na direção do rosto de Moritz, que não soube como redarguir. Nunca teve problemas de oratória, mas o rancor daquela moça era justificado. Ele sabia disso. Ele também se culpava por aquilo. Não poderia se defender quando não se achava defensável.
Berry pareceu ter terminado de lhe falar o que pretendia. Girou nos calcanhares, caminhando pela escuridão da noite gélida.
Sozinho, Moritz Alvintzi também tomou seu rumo. Voltou até sua casa, a casa onde morara com seus amigos circenses. Foi impossível não refletir, novamente, sobre tudo aquilo. Seu pensamento era incansável, sempre fora, mas ultimamente revisitava as mesmas elucubrações repetidas.
Na sala de leitura, a sós com seu fluxo mental, o ex-palhaço lembrou-se de tudo o que viveu com Tejas, Aiyana, Rebecca. Com Micaella, sua esposa falecida. Permitiu que sua aparência sempre cortês e simpática mostrasse o que escondia por trás. Sentou em sua poltrona favorita de leitura, levando os dedos as pálpebras fechadas. O choro já preso em sua garganta.
Ele era patético. Um triste palhaço mambembe. Tejas se fora. Aya se fora. Rebecca cortara todo e qualquer laço de proximidade com ele, e aquilo era realmente sua culpa. Micaella morrera. Se suicidara, e ele falhara em prever aquilo.
Falhara em prever que estragara tudo entre ele e Peggy. Vira tanto de sua esposa naquela garota, e não enxergara o quão diferentes eram, na realidade. Preso em suas próprias projeções pessoais, achou que era seu dever proteger Peggy a todo custo, temendo que ela pudesse ter o mesmo destino de Mimi.
Em seu maior momento de fragilidade, Micaella se vira sozinha, sem apoio, e decidiu deixar Moritz e também o horror daquele mundo. Peggy, ao contrário, crescera, recolheu os pedaços e os colou novamente, erguida mais madura e mais forte. O que não a matou a fortaleceu, como diria o filósofo que, pelo visto, era o preferido daquela menina encantadora.
Peggy seguira adiante, depois de tudo. Todos seguiram. Pertenciam a Alexandria, e ali fincaram raízes, definindo seus destinos.
E agora, ao ex-palhaço, sobrara um circo vazio. Uma lona abandonada. Milhares de livros guardados em estantes que iam do chão ao teto, e nenhuma companhia para debatê-los. Dúvidas, questionamentos e reflexões constantes, presos à sua solidão.
Ele pedira por aquilo. Merecia aquilo. E deveria pagar.
O show, invariavelmente, teria de continuar.
Moritz conteve um suspiro doloroso. Algumas lágrimas desceram lentas por seus lacrimais, ao passo que ele enfim se decidia. Limpou o rosto, e se preparou para entrar em seu personagem outra vez.
Saiu novamente para a noite de inverno. Andou até a casa onde Jesus, Gaspar, Redmond e Delilah se alojavam temporariamente. Tocou a campainha, sendo recebido por Paul Rovia. Desculpou-se pela hora tardia, mantendo seu sorriso ensaiado, e lhe fez um pedido sucinto.
— Gostaria de ir morar com vocês em Hilltop, quando decidirem retornar.
****
— “Da da*” — balbuciou a pequena Judith no colo de Rick Grimes, erguendo os braços para o rosto dele. O pai sorriu, brincando de cavalinho com a pequena criança em seu joelho. Ela riu alto, apesar de já serem quase nove horas da noite.
— Ela está falante para caramba ultimamente — Carl disse ao lado do pai, sentado no mesmo sofá. Comia a ceia que Carol havia preparado para eles, deixada na mesa de centro onde gostavam de se reunir e conversar esporadicamente. — Fala “Cal” e “mano”, além de “dada” e “Miuchon”. É engraçado, até — contou o garoto, dando um riso enviesado.
— É normal nessa idade. Ela me chama de “Cawol” — relatou Peletier, fazendo Rick sorrir e Carl dar mais uma risadinha curta. Estava sentada em outro sofá, tomando um gole de chá. — Um ano e alguns meses. Sophia era uma matraquinha nessa época — comentou, e imediatamente o clima da sala ficou pesado. Carol Peletier baixou os olhos para a mesa de centro. Não doía menos. A perda dela doía igualmente, mesmo que quase dois anos já tivessem se passado.
Ela apenas se acostumara com a dor. Com o buraco que jamais seria preenchido dentro de si.
— Carl, não tome todo o chocolate quente. Michonne vai descer e querer um pouco antes de sairmos para a vigia — lembrou Rick, repreendendo o filho.
— Posso fazer mais, se quiserem — Carol se ofereceu, mas Grimes negou, levantando uma das mãos.
— Por falar em pessoas falantes... A tal Sally Adams parece que está ajudando Enid. Ela voltou a comer — afirmou o filho de Rick, enquanto o pai o olhava interessado. — Ela é analista e tal. Acho isso de terapia uma bobagem sem tamanho, mas é bom que todo mundo arranje uma utilidade, né... — O garoto deu de ombros.
— Doenças mentais são sérias, Carl — asseverou Rick, em tom de sermão.
Carol Peletier percebeu que o garoto queria revirar os olhos. Era bem claro que para o filho do policial isso não passava de frescura. Nisso, Michonne entrou pela sala, dando um sorriso suave para todos.
— Sobrou um pouco pra mim? — perguntou em tom de troça, já mirando o chocolate quente. Carol sorriu, estendendo uma xícara para ela se servir.
— Esta última missão saiu melhor do que imaginávamos — declarou o policial, levantando as sobrancelhas. — Com a quantidade de comida que Hilltop nos entregou, não precisaremos pensar em provisões alimentícias por ao menos alguns meses. Fora as armas que conseguimos na cutelaria dos reféns de Negan. Ouso dizer que bons tempos nos esperam! — O líder de Alexandria parecia animado, enquanto Judith dava um suspiro sonolento em seu colo.
— Um brinde ao futuro! — Michonne levantou a xícara, bebendo o líquido.
— Acho que não pude te agradecer, Carol. Obrigado por ter participado do plano. O pessoal que veio conosco de Hilltop parece ter gostado bastante de você — assegurou o amigo de Peletier. Ela abanou uma das mãos, torcendo os lábios como se não fosse nada.
Em verdade, não fora nada fácil decidir participar daquilo. Foi convencida por outras razões, alheias às tentativas de todas as pessoas que ali estavam. Seu coração acelerou com a lembrança.
Judith começou a chorar, provavelmente querendo seu berço. Rick se levantou com a filha, a acalentando e subindo as escadas. Garantiu que assim que descesse poderiam sair para seu turno de ronda. Michonne ergueu-se do sofá, agradecendo a Carol pela comida. Despediu-se da mulher e de Carl, dizendo que esperaria por Grimes na varanda de entrada da residência. O policial logo retornou e saiu, indo cumprir suas tarefas.
Carl bocejava preguiçosamente, cerca de um minuto depois, quando a campainha tocou. Carol pensou que poderia ser alguma brincadeira boba dos dois, que, ultimamente, andavam cada vez mais alegres e cúmplices.
Abriu a porta esperando algum gracejo tolo, mas se deparou com conhecidos olhos azuis brilhantes.
Seu coração descompassou, enquanto imediatamente se repreendeu em pensamento. Você não tem idade para isso.
— Hey — Tucker Hayes a saudou, abrindo um sorriso largo devagar. Tentou se aproximar dela, mas a mulher abriu a porta amplamente, deixando claro que Carl estava na sala. Hayes se conteve, vendo o menino que terminava de bocejar.
O filho de Rick mudou de expressão instantaneamente. Parecia constrangido, temeroso e confuso, ao mesmo tempo.
— E aí? — Tucker cumprimentou o garoto, ao longe, ainda sorrindo. Carl levantou a mão, sem jeito, e logo deixou o sofá e a sala, evitando olhar para os dois. Hayes levantou os ombros para ela, mantendo o mesmo sorriso, como se dissesse “não estou nem aí se ele acha estranho”. Carol não pôde evitar uma risada nervosa, fechando a porta para que o rapaz entrasse.
— Trouxe o que você disse que precisava! — Hayes ergueu uma pequena cesta em suas mãos. Estava cheia de amoras.
— Você realmente não sabe cozinhar nada, não é? — brincou Carol, sorrindo para ele, andando até a cozinha anexa. Tucker a seguiu e deixou a cesta em cima de uma bancada livre.
— Não é um dos meus talentos — troçou em um tom brincalhão e sugestivo. Ela apenas deu um sorriso enviesado, revirando os olhos. Dava para ver o quão feliz ele estava apenas por tê-la visto. Carol não conseguia se acostumar com aquilo.
— É uma receita muito fácil — comentou, colocando as medidas de farinha, sal, água e outros ingredientes para fazer a torta de amora. — São duas xícaras de farinha de trigo peneirada... — Ele a interrompeu.
— Só o garoto e a bebê estão aqui? — indagou Hayes, colocando um braço em cima da bancada, fingindo despretensão. Carol levantou o olhar para ele outra vez. Reparou que vestia uma jaqueta jeans e roupas menos chamativas do que as de antes. Deixara até a barba crescer um pouco, talvez querendo compensar as feições juvenis que tinha.
— ...Sim. Mas se eu bem me lembro, você não disse que queria uma torta de amora? — Ela manteve o mesmo sorriso torcido.
— Só estava querendo saber, dona Peletier. — O rapaz passou os dedos pelo braço direito dela, em um carinho gentil, baixando os olhos para sua silhueta e depois para seu rosto, fingindo inocência. Carol não conseguia se habituar ao quão atraída se sentia por ele.
Ela lhe deu um falso olhar censor, enquanto continuava as medidas.
— Dois terços de xícaras de manteiga... — ia continuar, mas o rapaz se aproximou, a abraçando pelas costas. Rodeou sua cintura com seus braços e beijou seu pescoço, fazendo uma corrente elétrica deleitosa se espalhar por seu corpo. Carol se moveu rápido, encostando suas costas contra o balcão, defronte para ele. Tucker ainda sorria, convencido, e pôs-se a beijá-la assim que ela encostou suas mãos perto dos ombros dele, inicialmente para pará-lo.
Depois de se permitir um doce esquecimento nos braços do rapaz, ela se separou do amasso, tomando uma distância prudente.
— Assim não vai dar para fazer a torta tão cedo — comentou, sem saber se sorria ou não. Tucker abaixou a cabeça, rindo, e voltou a mirá-la com o mesmo olhar fuzilante.
— Não estou com pressa, e você?
— Se controla, garoto — zombou ela, levantando uma espátula que usaria para cozinhar e quase a encostando no rosto dele. — Estamos em uma cozinha dividida com outras pessoas.
— É difícil. Você fica uma gracinha cozinhando. Ainda mais agora que passou a usar essas roupas mais justas — elogiou o rapaz com um sorriso sacana, deixando os olhos percorrerem toda a silhueta dela. Carol se sentiu pateticamente tímida.
— E você nunca vai perder a cara de garoto, mesmo com a barba. Quem sabe daqui a uns dez anos — debochou ela, sorridente. — Mas eu gostei. — Indicou com a espátula os pelos no rosto do rapaz. Tucker abriu um sorriso satisfeito, fazendo ela rir novamente, ao passo que ele passou os dedos pela barba por fazer.
— Não elogie tanto se não quiser que eu me anime de novo — brincou, e a mulher soltou um riso seco. Voltou a ensiná-lo a receita. Depois de todo o preparo — no qual debochou da falta de jeito do rapaz para a cozinha, quando tentou ajudá-la — e com a torta já no forno, teve de voltar aquele assunto.
— Você tinha algum tipo de fetiche com mulheres mais velhas ou algo assim? — teve de indagar. Aquilo era tão novo para ela e tão confuso também, de certa forma.
Tucker deu de ombros.
— Nada assim específico. Cathy tinha a minha idade — lembrou, com um curto sorriso triste. Aquilo trouxe uma espécie de torção involuntária ao peito dela. Carol se sentiu ridícula por ter algum tipo de ciúmes. — E depois... Bem, eu não gosto de lembrar do depois. — Uma sombra perpassou o belo rosto daquele rapaz.
Peletier se recordou de que Tucker fora abusado por Hashimoto em diversos sentidos. Inclusive no âmbito sexual. Essa memória lhe trouxe outra sensação instintiva, mas, dessa vez, raivosa. Protetora.
— Você realmente não sabe o quão gata você é? — insistiu o rapaz, incrédulo. Carol apenas meneou a cabeça, irredutível. Tucker deu uma risada descrente. — Você tem um corpo absurdo, e o seu rosto é lindo, todo delicado. Parece uma elfa daqueles filmes medievais, versão MILF — enalteceu-a, e ela soltou mais uma risada quase constrangida.
— Elfas não envelhecem — pontuou, e Hayes apenas moveu o rosto em descrença, apoiando o cotovelo na bancada.
— Tá bom. Pode se fazer de desentendida. Deve ter tido uma fileira de corações partidos de caras aos seus pés. — Ele tamborilou os dedos na bancada, levantando as sobrancelhas para Carol com um olhar resoluto.
— Não mesmo. Tive só alguns namorados antes de Ed, nada sério. Nos casamos quando eu tinha vinte e oito anos, depois de seis anos de noivado — contou. Baixou os olhos para a bancada, pensando em toda aquela vida passada ao lado de seu finado marido. Sem Ed, jamais teria tido Sophia. Esse era o único motivo que a impedia de se arrepender de seu casamento.
— Ele era o pai da sua filha? — A expressão alegre de Tucker já tinha se modificado. Estava mais comedido, porém não menos gentil.
— Sim.
As memórias continuavam vindo, irrefreáveis. Os anos de namoro. Seu casamento. Tudo o que viveu antes de saber que Ed era um abusador. E depois... Toda a violência. Consigo. Com Sophia.
— Sinto muito — disse o rapaz. Carol o fitou, e viu que ele também tinha o olhar distante.
— Não sinta. Ele era um filho da puta — confessou, e Tucker aparentou surpresa. O clima na cozinha já havia mudado completamente, e a mulher enfim se sentiu à vontade para falar algo que pretendia há certo tempo.
— Eu sei que eu sou difícil. Eu sei que tudo isso é... Estranho e complicado. Mas eu queria te agradecer por ter falado tudo aquilo ontem. — Ela passou os dedos pelo pano de prato apoiado em cima do fogão.
— Hey... — Tucker já ia dizer algo, mas Carol pediu que esperasse.
— Eu olho para você e vejo o quão novo você é, e às vezes me esqueço de que já é um homem. Mais maduro e com mais bagagem do que muitos aqui — admitiu. Tucker Hayes abriu ainda mais os olhos, surpreendido. Carol não era de elogios.
— Por mais que eu não demonstre tão fácil, eu gosto... Disso. — Voltou-se para o rapaz e sorriu com meiguice. Por um momento, se soltou de suas defesas.
— Não desista de mim, ok? — Carol pediu. Os olhos do rapaz se iluminaram. Íris azuis cintilantes focadas em orbes azuis mais claros, incertos.
— Eu já te disse que não vou — recordou Tucker, se aproximando dela e a enlaçando pela cintura. — Amanhã vou até a fábrica de balas que Eugene achou. Vem comigo? — Sorriu, e ela sorriu ainda mais. Beijaram-se, e dessa vez só pararam quando o forno apitou.
— Faltam quarenta minutos para a torta ficar pronta... — Carol comentou sugestivamente aos ouvidos dele.
Tucker não disse nada, apenas a puxou pela mão, apressado, escadas acima, ao passo que ela soltava uma risada. Leve, alegre, feliz... Como costumava se sentir ao lado dele.
****
[NO DIA SEGUINTE]
Tinha de se concentrar para não pestanejar. Estava morrendo de sono, sentindo como se não dormisse há anos.
Ela anotou na lista de Denise mais um nome esquisito dentre os diversos nomes estranhos de medicamentos que a médica lhe ensinara. Com a mão livre, coçou o olho esquerdo, fechado, segurando seu cansaço o melhor que podia.
— Vai sair também? — Uma voz conhecida soou atrás de si.
Rosita Espinosa moveu o rosto e o tronco de forma a encarar Eugene Porter. O professor de ciências carregava uma mochila de trilha nas costas, aparentemente recheada.
— Vai para onde? — A mulher latina quis saber, contendo um bocejo exausto.
— Você não me respondeu. Mas, já que perguntou... — Ele ajeitou o peso em seus ombros. — ...Vamos até a fábrica de balas. Aquela que achei perto de Roanoke, ao sudoeste de Alexandria — contou. — Eu, Tucker, Carol e Rick. Michonne e Maggie ficarão no encargo da comunidade, enquanto estivermos longe — assegurou.
— Volta antes do anoitecer? — Ela anotou mais um remédio na prancheta.
— Sim. E você? — Eugene aguardou até que ela terminasse o inventário.
— Provavelmente. Vamos aqui perto. Vamos subir para Leesburg. Antes da cidade, até — relatou a enfermeira de Alexandria.
— Agasalhe-se bem. Acho que os dias de neve começarão em breve — certificou o ex-professor. Rosita soltou uma risada pelo nariz.
— Pode deixar. — Deu uns tapinhas amigáveis no ombro do sujeito. — Se cuida, viu? — A jovem mulher sorriu para o amigo.
— Vou me cuidar. Desejo-lhe o mesmo, encarecidamente — Eugene falou, do seu jeito esquisito e pomposo.
Rosita lhe deu um tchauzinho e mais um sorriso afetuoso. Porém, assim que virou as costas e saiu do depósito de medicamentos, Porter a chamou outra vez. Ela o fitou, a porta já aberta.
— Tente dormir melhor. Você merece descansar... Depois de tudo. Permita isso a si mesma. Você já fez muito por todos nós. — Eugene lhe olhou solidário.
A jovem morena deu um sorriso contido, saindo e fechando a porta atrás de si. Conferindo a lista outra vez, subiu as escadas do porão até o primeiro andar do hospital de Alexandria. Passou defronte a um espelho, vendo como sua imagem refletida revelava suas olheiras fundas. Reflexos de sua insônia, de sua tristeza constante, os olhos inchados de chorar até dormir.
Ela não havia superado a morte de Abraham. Sabia que ele não a via com os mesmos olhos. Talvez fosse uma questão de tempo até que decidisse largá-la. Mas ela se apaixonara verdadeiramente por aquele homem. Tinha, nele, seu referencial de sobrevivência.
Rosita fora o tipo de mulher que passara a vida acompanhada. Sempre tivera muitos amigos, uma família imensa, e, por sua beleza, jamais estivera só. Escondera suas inseguranças, suas carências e todo e qualquer sofrimento nos muitos braços dispostos a embalá-la. E, agora, a realidade batia na sua porta. Esmurrava-na, com um aríete, a lembrando de que sempre estivera sozinha. Todos estavam. Podiam viver juntos, mas, no fundo, ninguém os salvaria de si mesmos.
Muitas vezes tinha pesadelos com o assassinato de Abe. Hashimoto cortando suas vísceras para fora, derramando seus intestinos arrancados com sua espada katana. A vida era frágil: em um suspiro, em um segundo, tudo poderia estar acabado. Em um golpe de um psicopata, em uma mordida de errante, em qualquer deslize.
Perdida em pensamentos, nem reparou que já estava no quarto de um dos pacientes, um idoso hipocondríaco, acompanhado por Denise. Foi só quando a médica lhe perguntou se estava com a lista pronta que despertou de suas meditações.
— Podemos ir. Onde está a Tara? — indagou a latina.
— Não tive coragem de pedir para que ela fosse. Ela já fez tanto ultimamente... — confidenciou Denise Cloyd, torcendo os lábios, depois de dar ao paciente um copo d’água e alguns comprimidos.
— Ah, porque para nós está tudo muito calmo, né — ironizou Espinosa, cruzando os braços, segurando a prancheta.
— Rosie... — Denise, que também ficara bem próxima da latina, andou até ela, as mãos em posição de súplica. — Eu sei que peço muito de você. Mas acho que eu distrairia a Tara. Tenho medo de que ela fique tão preocupada comigo que se atrapalhe — esclareceu a médica.
— Mas não podemos ir só nós duas. Pode ser que tenhamos de lidar com imprevistos no caminho. No mínimo três, para termos certeza de que teremos cobertura o suficiente. — A ajudante fez um três com os dedos.
— Seremos três — confirmou a mulher loira, com um sorriso meigo.
— Quem... — a enfermeira já se punha a perguntar, e alguém bateu na porta do quarto. Denise abriu, e o paciente idoso começou a reclamar do burburinho.
— Todas prontas? — perguntou a recém-entrada.
Mavelle Berry fitou Rosita Espinosa e Denise Cloyd, ajeitando a aljava de flechas em suas costas.
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— Fair**!
O taco de baseball estourou a cabeça de um decomposto, amassando sua testa com o impacto do golpe possante, a isolando a metros de distância. Voou além das cercas vivas de uma casa próxima, sumindo atrás dos muros.
— Está empolgada, hein, menina? — A voz robusta de Billy Ray ecoou pelas ruelas vazias, além dos limites de Alexandria.
Rebecca virou-se para o namorado, sorrindo enquanto segurava o taco sanguinolento atrás de si com as duas mãos.
Billy e Glenn faziam a aniquilação habitual dos mortos-vivos desgarrados que se aproximavam das cercanias da comunidade, munidos de suas facas compridas. Rebecca os acompanhava, mas, naquele dia, estavam livres de trabalho.
Já estava perto da hora do almoço, e haviam matado apenas cerca de dez comedores de gente. O frio do inverno apenas se intensificara naquele dia, fazendo com que Rebecca criasse teorias a respeito da lentidão dos mortos caminhantes conforme o tempo esfriava.
Ela não tivera de lidar com nenhum inverno particularmente complicado desde o início da infecção dos mortos-vivos. Nos estados pelos quais viajara, no sul do país, não havia nevado em nenhum dos anos anteriores.
— Quanto tempo acham que vai levar até cair neve? — indagou aos que a acompanhavam, olhando para o céu nublado. Pesado. Aparentando promessa de chuva penosa.
— Talvez alguns dias, algumas semanas... Não sei como costuma ser o clima aqui na Virgínia — o caipira da Georgia respondeu, limpando a testa com uma luva grossa. Becky fechou suas mãos, protegidas por luvas de motoqueira, ainda mais firmes em seu taco de alumínio.
— Eu realmente acho que eles não vão ser um problema se nevar — ratificou, certa do que dizia.
— Também acho — concordou Glenn Rhee, coçando o pescoço. Tirou o sangue da faca, esfregando a lâmina em um pano que trouxera em sua jaqueta. — Tipo, eles são só carne morta andando para lá e para cá. Sem nenhum tipo de cobertura para protegê-los de congelar — acrescentou.
— Eu acho que o real problema vai ser como esquentar esse povo todo. Se usarmos todos os aquecedores, será energia demais ao mesmo tempo, há um risco do gerador ir pro brejo — receou Billy Ray, com seu linguajar típico.
Rebecca enrolou os fios de cabelos loiros, presos em um rabo de cavalo, em alguns de seus dedos da mão direita.
— Como estão as coisas na construção? Acho que essa madeira toda que eles estão reunindo vai servir de algo, não? — perguntou a jovem garota loira. Billy moveu o rosto em negativa.
— Até onde eu sei, Tucker e Eugene precisam usar tudo nas fortificações. E não só madeira, é claro, porque senão aquela tranqueira toda acaba em um incêndio — comentou agourento o caipira.
— Eles saíram hoje, não é? — lembrou Glenn, caminhando com os dois de volta para a comunidade. Nenhum morto-vivo estava à vista.
— Sim. Tem um outro projeto mirabolante. — Billy levantou as sobrancelhas. — Foi só juntar o cientista com o garoto que agora não param quietos. Parecem uma dupla dinâmica — brincou o namorado de Becky. Ela sorriu.
— Mas eles ajudaram na missão de anteontem, parece. Foram fundamentais — recordou.
— Hey, não estou reclamando. O problema é só me deixar no encargo do trabalho deles quando já tenho trocentas coisas para resolver, ainda mais com aquela missão daqui a algumas horas — resmungou Billy. Fora responsável por chefiar as construções e expansão da comunidade enquanto ambos estivessem fora.
— Quem diria! Um caipirão desse tamanho reclamando de trabalho... E eu pensava que dizer que vocês eram folgados era reforçar um estereótipo — troçou Rebecca, cutucando o namorado com o taco — já limpo — nas costelas. Glenn deu uma risadinha simpática.
— Abaixe isso aí, moça — pediu Billy, no mesmo tom de gracejo. Ambos entraram pelos portões da comunidade, depois do marido de Maggie. Paul Rovia e Padre Gabriel estavam encarregados da vigilância naquele momento.
Saudaram os dois, que os cumprimentaram em retorno. Jesus era bastante afável. Rebecca tinha uma simpatia gratuita por ele.
Glenn seguiu caminho, e Billy Ray se despediu de Rebecca, avisando que iria para as construções. Deram um selinho, e, quando se movia para substituir Rosita na enfermaria, Paul a parou.
— Rebecca! Queria falar com você. — O diplomata de Hilltop caminhou até ela, que se voltou para o sujeito.
— Em que estado ficou aquela minivan que você achou em uma das coletas? — Paul sorria para ela, esfregando as mãos.
— Acho que ainda pega no tranco. Por quê? — indagou em resposta, com um sorriso afável.
— Estamos pensando que veículos poderíamos pegar emprestados quando fosse a hora de voltar para Hilltop. Deixar tudo preparado, sabe? Se ficarmos por muito tempo aqui, talvez não iremos conseguir sair antes de uma nevasca. E achamos que essa situação com o Negan não demorará muito para ser resolvida — esclareceu, seu sorriso diminuindo conforme mencionava o miliciano que os amedrontava há tanto tempo.
— Ah, claro, podem levar. Mas são mais do que o carro comporta. Acho que vão precisar de outro — aconselhou ela, franzindo as sobrancelhas.
— Sim, sim. Até porque um morador de Alexandria também está pensando em se mudar! — Jesus manteve sua postura desinibida.
— Quem? — perguntou, curiosa.
— Moritz. Aquele meio coroa. Que fala bonito e tudo o mais... — Rebecca levantou uma das mãos, piscando os olhos.
— Eu sei quem ele é. Sei bem quem é. Mas... Se mudar... Como assim? — repisou, sem compreender. Pestanejou nervosamente.
— Ele me procurou ontem à noite. Parecia bem decidido — certificou Paul. Becky nem esperou. Virou as costas e seguiu na direção da casa dos circenses, sem responder aos apelos de Jesus.
Não deveria se importar com ele. Moritz era um babaca. Um velho egoísta, aproveitador, manipulador, oportunista, que sabia muito bem como usar as pessoas próximas ao seu favor. Um sujeito que a abandonara na estrada, quando ela decidiu que não seguiria seu plano de usar um inocente como isca.
Mas Rebecca era mole demais.
Ela não se lembrava só de todo o mal que seu ex-chefe já lhe fizera. Recordava-se de como ele a acolheu bem no circo. Como jamais a julgou por sua enfermidade psíquica, e como sempre fora um bom conselheiro, um ombro amigo e um conforto. Céus, até mesmo já fizera sexo com ele, buscando alento em todos os sentidos possíveis.
Não o encontrou em sua casa. Continuou buscando pela comunidade inteira, até encontrá-lo parado em um jardim. Defronte a algumas flores plantadas. Dois girassóis, algumas azaléias e outras plantas.
— Que merda você pensa que está fazendo?! — Rebecca Gable inquiriu diretamente, furiosa.
Moritz Alvintzi pestanejou, movendo o rosto para fitá-la, surpreendido. Estava com feições terríveis. Parecia deprimido.
— Rebecca?
— Você acha que fugir vai resolver alguma coisa? O que é que você vivia me dizendo?! — Becky andou até ele a passos largos.
— Pelo visto, ultimamente tenho tido a capacidade de enfurecer todas as mulheres ao meu redor — brincou ele, forçando um sorriso amarelo.
— O quê?! — Rebecca arregalou os olhos, o cenho franzido mais e mais.
— Estou decidido a me mudar, Rebecca — Moritz fitou a jovem mulher loira — Porque não há mais nada para mim aqui. Vocês todos já se firmaram. Assentaram suas vidas. Eu não pertenço a este lugar — disse, seus olhos escuros úmidos. Parecia profundamente entristecido.
— Espera. — Ela coçou a nuca, tentando compreender. — Você tomou um toco, é isso? — Ajeitou o taco de baseball nas costas, por cima dos ombros.
— ...Também — Moritz demorou a responder, como se aquilo não fosse nem de perto tão simples. — Mas é mais do que isso. Eles já sabem de tudo. E, como imaginava, não viram minhas escolhas com bons olhos. Serei um pária aqui — afirmou.
— Um pária... — Rebecca soltou um “tsc” alto. Andou para mais perto dele, o fulminando com um olhar determinado.
— ...Uma fala contraditória dessas vinda de um dono de circo. De um professor de filosofia! Chefe de um bando de “aberrações”, degenerados e desgarrados, como eu, Tej, Aya, Mimi... — à menção do nome de sua falecida mulher, Moritz desviou o olhar, ferido.
— Olha pra mim, velhinho — Rebecca segurou no ombro de seu ex-chefe. Ele a fitou novamente, duvidoso.
— O seu trabalho foi fazer um bando de gente estranha, rejeitada e perdida na vida se sentir útil, acolhida, em casa. Em um lar, uma casa móvel, uma lona montada em diferentes cidades. Cortando o país em um trem. — Ela sorriu, se emocionando com as lembranças do tempo de circo. Moritz sorriu também, ainda entristecido.
— Você era o coroa safo que empregava menores de idade, foragidos da justiça, malucos e gente bizarra de toda sorte e fazia todo mundo se entender, contra todas as probabilidades! — Rebecca falava com determinação. — Você protegeu todos nós, cuidou de todos nós, e todo mundo te seguiu até esse fim de mundo. Exceto quem você largou na porra do meio da estrada. — Becky lhe deu um soco controlado no mesmo ombro que segurou.
— E daí que te julgam mal? Te julgavam desde que você veio para a merda deste país, afinal, professor de filosofia, dono de circo... — Rebecca levantou os ombros. — Ao menos é o que você me dizia, ou era pra tentar me comer? — debochou Rebecca Gable, o levando a negar em um gesto com a cabeça.
— É diferente agora, Rebecca... — manteve suas palavras, afastando o olhar.
— É diferente como? — duvidou ela. — Você continua inteligente para caramba, pode ajudar. Você consegue dobrar esse pessoalzinho e fazer todos eles prezarem seus conselhos em dois tempos! — Becky estalou os dedos. — Fora que você continua atirando bem e sendo bem ágil e resistente para a sua idade — acresceu.
— Fico lisonjeado que me tenha em tão alta estima...
— Não tenho, te acho um babaca — cortou-o. Moritz não segurou um sorriso desajeitado.
— Eu fui um babaca. Um babaca egoísta. Julguei mal as circunstâncias, agi mal com ela... — Alvintzi encarou as flores plantadas.
Becky compreendeu do que se tratava.
— Essas flores são daquele ritual da Aya, né? — Recordou-se com carinho da garota indígena. — Ela ensinou a amiga dela esse rito de despedida? — Alvintzi confirmou.
— Moritz, você não pode se culpar pelo que aconteceu com a Micaella a vida inteira — disse Rebecca, segurando em seu braço. O ex-dono de circo manteve o olhar nas flores.
— Se você acha que falhou com a tal Peggy também, bem, ela está viva, não está? — perguntou Becky, sem muito tato. O homem a mirou, sem compreender.
— Ela é importante para você? — foi uma pergunta retórica. Rebecca pôde reparar que aquele homem que a conhecia há anos estava muito abalado, e aquela garota com certeza fazia parte da motivação disto. Ele não respondeu. Não precisava.
— Então insista. Ache um jeito de consertar junto a ela. Se afastar não vai fazer bem nenhum. Respeite o espaço dela e o tempo dela, mas esteja aqui para ela. — Apontou para a grama de Alexandria. — Às vezes é só isso que é necessário. Você é bom de conversa, sempre foi. E se ela sentir o mesmo, uma hora vai dar a brecha para que vocês possam falar mais a respeito — garantiu a jovem loira.
Moritz passou os olhos pelas flores plantadas, inspirando profundamente.
— Você não está sozinho aqui, por mais que mereça, não perdeu todo mundo — assegurou, lhe dando um tapinha no ombro.
— É bom ver que está bem, Rebecca. — Tentou dar um sorriso mais honesto. — Espero que esteja feliz com Billy.
Becky deu um sorriso meigo sem mostrar os dentes.
— Muito — admitiu a jovem loira. — Mas lembre-se: não acabou ainda. Você é um filósofo, cacete! Ache a solução para esse impasse, e não fuja dele. Você sempre disse que não adianta nada fugir de nós mesmos — lembrou a contorcionista.
— Às vezes é mais fácil olhar para o que está no mundo externo do que em nosso interior — disse o professor, com humildade.
— Para mim sempre foi o contrário — Rebecca fazia referência à sua doença. Moritz segurou seu braço, finalmente dando-lhe um olhar mais afável.
— Muito obrigado, Rebecca. Você continua a mesma pessoa maravilhosa — enalteceu-a.
— E você continua o mesmo velho pervertido — brincou, se afastando. — Não desista de tentar! Você nos deve isso. — Deu-lhe um último olhar significativo. Moritz fora o mentor dela e de muitas outras pessoas. Por mais que tivesse rancores de atitudes passadas, não gostaria de vê-lo sofrendo.
Becky seguiu para sua casa, pensando em tudo aquilo. Não vira Moritz sofrer tanto desde que Micaella se fora. Ele era um homem difícil de atingir, duro na queda, que não se envolvia facilmente. Desejou, em seu íntimo, que realmente se resolvesse com aquela garota. Ele já sofrera bastante por seus próprios erros.
****
— Sabe, Denise me procurou hoje. — Ele acariciava os cabelos escuros dela, deitada nua abraçada consigo, debaixo de quilos de cobertores. Suados, nem sentiam o frio da noite, depois de prazerosas sessões carnais. Estavam tão agarrados que podia sentir sua traquéia tremer enquanto falava.
— E?
— Ela me pediu para ir em uma missão de coleta amanhã — comentou Mavelle, ajeitando o queixo em seu peito, encarando-o. Daryl apertou seu nariz, enquanto ela sorria e fechava os olhos.
— E por quê? Já estamos cheios de comida até o talo — falou vulgarmente, sua voz rouca. Não queria conversar. Estava prestes a cair no sono, mas ficara preocupado. Sempre temia que a Esquila fosse se meter em encrenca. Ela tinha um bom tino para isso.
— Não é comida. Precisamos de medicamentos. Esse pessoal novo chegou meio ferido, alguns adoentados, e ela falou que estamos com um estoque curto desde... Desde Hashimoto. — A expressão de Mavelle murchou com a lembrança.
Dixon passou a mão no rosto dela.
— Por que você? Outras pessoas poderiam ir — sugeriu. Mavie lhe deu um olhar semicerrado.
— Quer dizer que tudo bem você sair amanhã com o Jesus, o namorado dele e o Billy para uma tarefa de rastreio, mas eu tenho que ficar em casa? Esperando o machão aqui? — debochou, abaixando o rosto e beijando seu peito. Daryl continuou lhe fazendo cafuné.
— Não é isso.
— Acho bom. Quanto tempo acha que vai demorar? — indagou por uma vez incontável, ao passo que o abraçava com mais força.
— Já disse. Acho que acampamos no máximo por um dia fora — assegurou-lhe. — Não estaremos longe. Não vamos demorar — prometeu. Tapou os olhos dela com a mão, apenas para provocá-la. Mavie deu uma risadinha.
— Vamos dormir. Estou pregado.
Mavelle ajeitou-se do seu lado, deitando em seu peito como se fosse um travesseiro. Parecia sonolenta também.
— E você também trate de voltar logo — demandou, dando um beliscão carinhoso em uma das coxas dela. Mavie levantou o rosto e o beijou.
— Não vou nem ter tempo de sentir saudades — certificou a garota irlandesa, sorrindo petulante com aqueles dentinhos que Daryl tanto amava.
[...]
Ele lembrou-se de tudo aquilo, enquanto, totalmente paralisado pelo choque, se encontrava em um quarto de uma base de Negan.
Rastreada por Daryl, Billy Ray, Paul e Gaspar, a base, localizada em um quartel perto da cidade de Reston, estava completamente abandonada. Passaram a tarde seguindo, à uma distância segura, uma trilha consideravelmente recente de um grupo pequeno de homens, que haviam deixado para trás itens que o namorado de Rovia garantiu pertencerem aos Salvadores.
Depois de um dia relativamente tranquilo, matando poucos errantes, a maior tensão do grupo havia sido as discussões pontuais e trocas de farpas entre Billy e o arqueiro, que ainda não haviam superado o desgosto mútuo que sentiam um pelo outro. Até aquele momento.
A base estava limpa, sem nem sinal de ter sido ocupada por semanas. O grupo marchara para outro local, encarregado de outra tarefa. Mas o que encontrara lá dentro fora suficiente para deixar Daryl atordoado.
Sozinho no alojamento, Daryl Dixon primeiro viu fotografias presas em um quadro de cortiça, de cabeças amassadas, crânios perfurados, cérebros em pedaços. Em seguida, em uma cama ao final do quartel, achou um álbum de fotos daqueles metidos à besta, portfólios de artistas almofadinhas. E, ao abrí-lo, sequer soube como reagir. O que achou o assustou muito mais que as cabeças partidas.
As páginas estavam tomadas por fotografias de Mavelle Berry. Na abertura do álbum, estava escrito “Jeffrey Gallagher – Fotografias”. Todas batidas em um lugar que não parecia ser os Estados Unidos, ou nada que ele tivesse visto do país. Provavelmente, tiradas na terra natal de Mavie. Fotos dela sorrindo, dormindo, acordando, dançando, correndo, cantando, tocando seu violão, atirando com seu arco, pulando. Em dias diferentes, estações diferentes, cenários diferentes. E, no fim, havia uma foto dela junto com seu ex-noivo. Sorrindo amplamente, feliz, alegre como ele só a vira em poucos momentos.
Momentos em que estava consigo.
— O que achou aqui? — A voz irritante de Billy Ray o despertou daquele torpor de tensão. Daryl não teve tempo de esconder o álbum.
— Mas que porra?!
****
Com a mala de um Subaru Impreza recheada de medicamentos de toda sorte, o grupo de três mulheres retornava confiante para Alexandria. A noite já caíra há algumas horas, e, agasalhadas até o rosto, elas conversavam, animadas pela missão bem-sucedida.
— Eu falei que o lugar deveria estar vazio. Essas farmácias menores e tradicionais nunca foram os pontos de mais saque. Todo mundo pensa nas drogarias enormes ou farmácias dos hipermercados — gabou-se Denise, se vangloriando do seu palpite certeiro.
— E o que é isso aí com você? — Mavelle, sentada ao volante, perguntou para um chaveiro metalizado nas mãos da médica.
— Isso... É para lembrar do meu irmão. Éramos gêmeos. Mas ele insistia que era mais velho porque nasceu minutos antes de mim. — Ela sorriu tristemente. Mavie se sentiu mal por perguntar. Notou que na placa se lia “Dennis”.
— Dennis e Denise... Nomes ridículos, parecíamos uma dupla country, mas nos dávamos muito bem. Era muito protetor comigo. — A médica moveu a placa nos dedos.
— Hey... Eu sei o que é perder alguém da família. Sei como dói — garantiu a irlandesa, segurando a mão de Denise, olhando de novo para a estrada. A doutora apenas anuiu com a cabeça, soltando um leve sorriso.
— Eu sei. Eu te chamei por isso. Sua avó era uma ótima pessoa. Aprendi muito com ela. Imaginei que você quisesse fazer isso... Até por causa dela — falou a médica, voltando os olhos para Mavelle. Rosita, atrás, se mantinha silenciosa. Não gostava de se ausentar durante a noite. Provavelmente por se lembrar das noites passadas no encalço de Hashimoto.
Mavie deu outro olhar gentil para Denise. Aquela coleta fora boa. Aproximara as duas. Ela lhe contara várias histórias de sua avó, diminuindo um pouco as terríveis saudades que sentia todos os dias.
— Olha pra frente! — Rosita Espinosa apontou, mas foi tarde demais.
Mavelle bateu com tudo contra um carniceiro que saíra de uma plantação à beira da estrada. Ele caiu contra o vidro do carro, quase o partindo, quicando para longe do automóvel. A irlandesa freou, e quase capotaram.
Respirando rápido para se recuperar, depois de perguntar se todas estavam bem, Mavie Berry piscou, tentando se controlar. Firmou as mãos no volante, agoniada, e tentou ligar o carro outra vez. Não respondia.
Puta que pariu, agora não.
— Eu vou checar o motor. — Rosita se lançou para fora do carro, impaciente, dando um olhar de reprimenda sério para Mavelle. Fechou a porta com estrondo, sem dar tempo da irlandesa se desculpar.
— Nossa, por favor, me desculpa por isso. — Mavie moveu a cabeça para os lados, incrédula. Denise segurou em seu ombro de forma consoladora.
— Não se preocupe. Ele apareceu do nada. Eu também não tinha visto — admitiu a médica, mais calma depois do susto.
Rosita levantara o capô do carro, e passara a mexer com algumas ferramentas que tinha consigo no motor. Alguma engrenagem que movimentou começou a deixar o aquecedor do carro superaquecido. Mavelle tentou desligar, mas não conseguiu. Se viram forçadas a abaixar o vidro para não serem cozinhadas lá dentro.
— Precisa de uma ajuda? — a irlandesa perguntou.
— Não! — retorquiu a latina, rapidamente. Mesmo se precisasse, talvez tivesse perdido a confiança em Mavie. De todo jeito, ela saiu do carro. Outro carniceiro poderia se esgueirar até a ajudante de Denise e atacá-la desprevenida.
Denise decidiu deixar o banco em que se sentava também. Se aproximou das duas, que passaram a apenas olhar Rosita trabalhando, já que não aceitava que ninguém se metesse.
— Sabem, quando eu voltar, finalmente vou tomar coragem. — Denise sorriu, mais empolgada.
— Para quê? — indagou Mavelle, simpática.
— Finalmente vou dizer a Tara que a amo. — Denise sorriu ainda mais, mas algo impensável, hediondo e abominável se sucedeu.
Uma flecha penetrou o olho direito da médica, fazendo seu sorriso congelar em seu rosto. Por alguns segundos, nem Mavie nem Rosita compreenderam o que aconteceu. Apenas viram o corpo de Denise tombar contra a estrada, mole, desfalecido, abandonado de vida.
Mavelle não teve tempo de colocar uma flecha no cordel. Horrorizada, outra flecha cortou a escuridão, dessa vez perfurando o ombro de Rosita, na altura do trapézio. Ela caiu para a frente, soltando um gemido de dor angustiante.
Mavie, apavorada, não teve tempo de se lançar para as amigas, tentar ajudá-las de alguma forma. Ela logo ouviu o som de uma voz masculina ecoar debochada pela estrada abandonada.
— Porra, Jeffrey, errou por muito pouco!
Um homem loiro de cara marcada saiu da mesma plantação de onde o carniceiro desgarrado tropeçara. E, logo atrás dele, Mavelle mais uma vez encontrou com seu ex-noivo. Com a balestra de Dwight nas mãos, pronto para atirar.

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