Hunter's Instinct

65 Episódio 65 - Scar Tissue


Notas iniciais
Oiê galerinha! Feliz dia das mães para todas as mamães! Espero que tenham aproveitado o dia. Chegando nesse domingo com mais um "episódio" semanal de Hunter's Instinct, divididos em quatro POVs: Mavie, Peggy, Daryl e Carl. Sim, sim, nosso filhote de xerife Grimes estreará seu primeiro POV da fanfic hoje mesmo! O capítulo terá um início focado mais em ação, mas não se enganem: ele é puramente emocional. Se preparem para se deparar com os personagens esmiuçando diversos sentimentos: tristeza, raiva, mágoa, rancor, revolta, frustração, mas também esperança e afeto. Muitos traumas virão à tona neste "episódio" bastante visceral. A saga de Negan já se inicia pesada, e podem crer que será apenas mais e mais intensa com o passar do tempo. Por isso, apertem os cintos e vamos lá, juntos! Quero dedicar este capítulo aos leitores comentaristas: Sami, marcelammota, ReedusGirl, Vivi Costa, Joke (finalmente você voltou guriaaaaaaa), Filho de Kivi, Caçadora e Kanon! En Sabah Nur e Luna, estou esperando por vocês em breve ;) tanto nesse capítulo quanto no da semana passada! Agradeço e muito pelos leitores que sempre comentam. Sem vocês, Hunter's Instinct jamais seria a história que é hoje em dia. Considerem-se também responsáveis por todos os avanços da fic, pois me empolgo demais com as respostas, sugestões e opiniões que recebo! Realmente gosto muito de todos vocês, meus queridos! Também tenho de agradecer aos fantasmas, que são essa maioria esmagadora, eheheh. A fic conta com literalmente centenas de leitores contabilizados, então, peço que por gentileza não se acanhem para me contar suas opiniões. Eu realmente ficaria muito feliz de saber o que estão achando, sejam elogios, críticas construtivas, sugestões, enfim. Sintam-se bem-vindos para se expressar, isso realmente me recompensa muito! Dito isso, beijão e boa leitura a todos vocês, seus lindos!

Uma lufada gélida de vento passou rascante por seu rosto, movendo seus cabelos escuros com brusquidão.

Muito ao longe, ela ouviu o crocitar de um corvo. A ave de rapina cantou distante, traduzindo em seu lamento fúnebre a emoção pesada que se abatia sobre si. Percorrendo caminhos recônditos até se solidificar em seu âmago.

Ao seu lado, Daryl Dixon erguia a balestra. Mas a garota sequer se virou para encará-lo. Seus olhos se focaram em uma única figura a sua frente. A silhueta e rosto de Jeffrey Gallagher, que piscou os olhos e finalmente a fitou, desviando o olhar assustado que dirigia a Daryl.

Aquele homem pestanejou ainda mais, como se não acreditasse em quem via diante de si. Aquele sujeito que um dia fora seu amado noivo. O pai de seu filho que jamais teve a chance de nascer, assassinado pelo aborto clandestino que Mavelle sofrera. Enganada, dopada e violentada para que Jeffrey e seu pai garantissem que seu feto fosse arrancado dentro dela, com meras semanas de vida.

Ela se lembrava daquele pesadelo realista com todos os detalhes. O pior dia de sua vida, empatado com o testemunho do assassinato de sua avó.

Tudo isso percorreu seus pensamentos em uma fração de segundo. Mavelle Berry sentiu o ódio crescer dentro dela como veneno corroendo suas entranhas.

— Mavie? — Seu ex-noivo, boquiaberto, tinha as íris trêmulas, como se estivesse simultaneamente diante de um milagre e de uma assombração.

A garota irlandesa firmou a flecha ainda mais no cordel, e a liberou, sem pensar duas vezes.

Gallagher saltou de pronto, escapando por pouco de uma flecha certeira em seu peito. O projétil, contudo, perfurou seu braço direito, o levando a gritar de dor e cair ao asfalto da estrada.

Berry reparou de soslaio que Dixon a encarou. Mas ela não raciocinava no momento. Apenas colocava mais uma flecha no arco, reagindo por impulso. A raiva a tomava por completo, motivada pelo rancor profundo que ainda residia dentro de si.

O outro homem com balestra mirou em Mavelle e atirou, porém Dixon a puxou para trás da caminhonete no ato, reagindo antes que o algoz pudesse acertá-la. Somente então Mavie fitou o caçador arqueiro, que franzia as sobrancelhas, surpreso com o supostamente desconhecido que pelo visto era familiar para a irlandesa.

— Mas que porra está acontecendo aqui? — o homem loiro com balestra falou, aos ecos dos lamentos de Jeffrey Gallagher, mas Daryl e a garota já haviam se levantado, ambos mudando seus artifícios, portando armas de fogo em punhos.

O homem ainda de pé arregalou seus olhos escuros, ainda mantendo a balestra pronta para uso. Dixon, portanto, não hesitou. Atirou aos pés do sujeito, que deu um pulo para trás, abaixando a balestra e soltando no susto uma flecha no asfalto.

As mãos de Mavelle tremiam e suavam. Era difícil acreditar que aquilo estava acontecendo. Ela estava preparada para aguentar as mais diversas perversidades. Para ver boas pessoas morrendo nas mãos de gente cruel, depois de tudo o que passara com Hashimoto e seu Exército.

Mas jamais imaginou que também teria de suportar a injustiça de ver o pai que assassinou seu próprio filho em seu ventre... Sobreviver.

— Abaixe essa porra e saia daqui. Agora — Daryl ordenou, sua voz fria como a temperatura daquele dia de inverno, rangendo os dentes.

O desconhecido nada disse. Pareceu medir forças por segundos. Daryl Dixon destravou a arma, enquanto Mavelle movia a sua na direção do corpo de Jeffrey, alguns metros distante, caído no asfalto.

Só um tiro. Só bastava um tiro.

Mas por que era tão difícil?

— Mavie, por favor, corra! — seu ex-noivo implorou, ainda urrando pela dor da flecha atravessada em seu braço. Daryl a mirou outra vez, ainda mais desconfiado. O desconhecido abaixou a balestra, aos poucos, fitando seu companheiro no chão.

Subitamente, disparos de rifles passaram raspando pelos ouvidos dos dois caçadores. Quando viu, Mavelle já estava sendo arrastada para dentro da caminhonete por Daryl. Mais cinco homens surgiram da mata que os circundava, atirando neles para matar.

Não! Eu ainda não terminei! Mavelle Berry pensou, instantaneamente, e fez um movimento impulsivo de tentar abrir a porta já travada do automóvel. Daryl Dixon havia arrancado, dirigindo na velocidade máxima para fugir do grupo de sete homens que atirava sem parar no veículo e no caminhão que conduziam, preso à caçamba por algumas cordas de alpinismo emprestadas por Heath.

— Você 'tá' maluca?! — o caçador urgiu ao seu lado, acelerando o mais rápido que podia. Puxou o braço dela de volta com a mão direita. Mavelle não respondeu. Ainda achava difícil voltar a raciocinar. Estava entorpecida pelo ódio. Pela dor.

Pelas cicatrizes novamente abertas.

— Que merda acabou de acontecer lá atrás?! Quem era aquele cara?! — Dixon continuou. Já havia conseguido uma distância prudente dos homens hostis que tentaram matá-los.

Mavie baixou os olhos para o porta-luvas a sua frente. Um zumbido perturbava seus ouvidos. Seu coração batia descompassado, cada vez mais rápido.

O arqueiro colocou uma mão em seu ombro esquerdo, dando um apertão suave porém contundente.

— Estou falando com você! — insistiu o caçador, mas Mavelle não conseguia reagir. Não conseguia encará-lo. Algo danoso se retorcia dentro dela, tomando toda a sua atenção.

Ela fechou as mãos em riste, apertando os dedos com o máximo de força que tinha. Todo seu corpo tremia. Algumas de suas unhas se cravaram na palma da sua mão, a fazendo sangrar. Dixon notou aquilo.

— Hey, que merda você está fazendo?! — O homem parecia cada vez mais preocupado. Com a mão direita, separou os dedos da irlandesa de sua palma, a apertando, nervoso.

— Cuidado! — Mavelle alertou, apontando para a frente, e Dixon enfim levantou os olhos. Apertou o freio com o pé quase cavando o piso do automóvel. A irlandesa foi lançada para a frente pela violência da trava, fazendo a caminhonete ficar mais lenta até parar. O veículo tremeu perigosamente, girando alguns metros em alta velocidade, quase capotando.

Atestaram uma espécie de armadilha. Uma fileira de trinta mortos-vivos fora amarrada com arame farpado e outros materiais em uma cerca de bloqueio armado pela estrada. Costurados uns aos outros, enlaçados uns aos outros, em uma imagem grotesca de corredor humano montado por carne pútrida.

Mavelle Berry piscou os olhos, pouco a pouco retornando à realidade. O fedor daqueles seres em decomposição invadiu a caminhonete, e Daryl, ao seu lado, respirou fundo, tomando uma decisão. Ouviram o som dos resmungos horríveis daqueles tristes pedaços de carne humana, parecendo um canto gregoriano de um pesadelo.

— Vai ali atrás e corta a corda — pediu o caçador, resoluto. Mavelle o encarou mostrando insegurança.

— Não temos escolha. Provavelmente foram aqueles filhos da puta que fizeram essa porra — resmungou o arqueiro, impaciente. Mavie ainda não se movera.

— Olha só, Esquila, eu vou te levar pra casa. Quer você colabore ou não. Não faço a menor ideia de que merda acabou de acontecer, mas eu estou pouco me lixando se vou comer capim pelos próximos dias, contanto que você esteja bem e viva. Está me entendendo? — Os olhos azuis de Daryl Dixon faiscaram, decididos. Mavelle pestanejou algumas vezes. Era difícil tirar a imagem de Jeffrey, vivo, saudável, de sua cabeça. Mas Dixon tinha razão. Precisava agir. Não podia deixar que alguma coisa acontecesse com Daryl.

— Ok. — Berry se ergueu rapidamente, pulando para fora do veículo que finalmente parou. Os sons de tiros voltaram a ecoar. O grupo hostil se aproximava. Talvez tivessem adentrado seus próprios automóveis.

A garota correu para a carroceria da caminhonete, se alçando lá dentro. Em seguida, retirou a faca de caça do bolso de seu casaco, cortando com ligeireza as cordas de Heath. Demorou menos de um minuto, e logo voltou ao compartimento da frente, se sentando ao lado do arqueiro.

— Afivele o cinto e se segure — avisou o caçador, enfiando o pé no acelerador. A caminhonete, já separada do peso extra do caminhão repleto de suprimentos que haviam achado arrancou com mais velocidade. Berry fechou os olhos na hora que o automóvel disparou contra a barreira de mortos-vivos, o impacto fazendo toda a caminhonete tremer. Corpos daqueles seres grotescos foram esmigalhados pelas rodas pesadas, carne podre sujando o painel, avermelhado pelo sangue velho dos mortos-vivos. Daryl apertou o botão para usar o limpador do parabrisa, mas não adiantou muito. Apenas espalhou aquela sujeita repulsiva de um lado ao outro.

Demoraram algumas horas para chegar em Alexandria, já de noite. Não tiveram mais encontros inesperados durante a viagem, mas aquele bastara para atormentar Mavelle Berry profundamente. Daryl não tentara mais lhe perguntar nada, apenas a fitando de tempos em tempos. O humor do arqueiro ficara tão sorumbático quanto o da irlandesa, fechada em seus próprios pensamentos sombrios.

Foram recepcionados por Michonne e Heath, que teria se revoltado com o estado em que suas cordas de escalada foram devolvidas, não fossem as feições sisudas dos dois caçadores. A espadachim estranhou o humor pesado deles, perguntando sobre o sucesso da missão.

— Encontramos uns filhos da puta no caminho. Tentaram nos pegar. Tivemos de largar um caminhão de comida para trás para escapar. O que conseguimos está na caçamba — esclareceu Dixon, apontando com o polegar para trás, em breves palavras. Olhando para a sobrevivente de dreads, a irlandesa ainda achava difícil se manter na realidade, atacada pelas emoções dolorosas que quase a impediam de pensar.

— O importante é que estão aqui — respondeu Michonne, brindando-lhes com um sorriso acolhedor. — E nós, ao menos, temos notícias ótimas. — Adiantou-se. Mavelle piscou os olhos. Boas notícias naquela vida que levavam sempre eram bem-vindas.

— A filhinha de Glenn e Maggie nasceu. É uma bebêzinha linda — contou a espadachim, sorrindo mais. Mavelle fitou Dixon, que deu um sorriso torto. Os olhos estreitos do caçador pareceram brilhar de entusiasmo e satisfação, o que teria agradado Mavie mais, se não tivesse esbarrado com Jeffrey.

Aquela notícia era realmente boa. Mas não fora o suficiente para desanuviar o emocional destroçado da garota irlandesa.

— Maggie dormiu um pouco. Está acordada agora. Querem conhecê-la? Estão ansiosos para exibirem a garotinha para vocês — brincou Michonne, os guiando para dentro da comunidade. Mavelle se deixou ser levada junto com Daryl até sua própria casa, onde agora Glenn e Maggie também moravam, depois da morte de Annie.

Volta e meia, o caçador a encarava, visivelmente preocupado. Mavie tentou seu melhor para disfarçar a confusão mental que sentia, mas percebia que ele reparava em seu sofrimento.

Assim que chegaram à residência, subiram até o quarto do casal. Lá dentro, Glenn se sentava na cama ao lado da mulher, que dava de mamar a pequenininha. Mavie teria rido do constrangimento de Dixon, que realmente não costumava lidar bem com situações íntimas do gênero, mas formar um sorriso parecia uma tarefa muito difícil.

Aquilo tudo era muito irônico. Da forma mais ferina possível. No dia em que descobrira que seu maldito ex-noivo ainda vivia, um casal amigo concretizava o sonho de dar a luz ao seu bebê. Uma chance que fora podada de Mavelle, sem dó nem piedade.

Com tantas reações confusas em seu emocional, a irlandesa fez o seu melhor para se empolgar com a linda filha de Glenn e Maggie. Ela era realmente adorável.

— Ela é uma misturinha de vocês dois — comentou a garota de dentes salientes. Não pôde deixar de dar um sorriso honesto para aquela linda criança, que, satisfeita, dormia nos braços de Greene depois de se alimentar. — Principalmente nos olhos — acresceu, sorrindo mais. Ver aquela menininha angelical a feria e a confortava ao mesmo tempo.

Daryl parecia encantado com aquele bebê. Mavie teria achado aquilo uma graça, em outras condições.

— Qual é o nome da Little Ass Kicker II? — indagou o caçador, passando os dedos no bracinho da criança. Glenn abriu um sorriso.

— Bethalie — disse o pai do bebê.

Uma centelha simultaneamente triste e confortada brilhou nos olhos do arqueiro. Beth. Pensou Mavie. Uma homenagem a irmã de Maggie. Aquela menina que um dia fora tão amada pelo grupo de Rick Grimes.

— Você vai ser durona para caralho, Bethalie — declarou Dixon, ainda acarinhando o braço da bebê que dormia a sono solto no colo da mãe, que sorriu para os amigos. Estampava em seu rosto radiante felicidade e satisfação.

— Vocês querem ser os padrinhos? — perguntou Maggie. Mavelle foi tomada de surpresa, assim como Daryl. Os dois devem ter feito o mesmo olhar atônito, pois Glenn e sua esposa riram juntos.

— Sério? — A irlandesa se manteve boquiaberta. Não esperava receber aquele convite.

— Não, é brincadeira — debochou Glenn, com um olhar jocoso. — É claro que é sério! Gostamos muito de vocês — o descendente de coreanos disse pelo casal.

Daryl e Mavie se entreolharam. A irlandesa sentiu seu peito amornar. O caçador parecia sem palavras. Ela sorriu mais uma vez, finalmente ficando um pouco mais confortável. Segurou uma das mãos de Dixon, deitando a cabeça em seu braço, se movimentando para perto dele. O arqueiro a fitou, surpreso pela proximidade calorosa depois daquela tarde terrível.

— Seria uma honra — concordou Mavelle Berry. Daryl Dixon enfim se moveu, enlaçando a irlandesa pela cintura, dando um sorriso enviesado.

Mavie amava quando ele sorria. Era tão raro.

— É claro, porra — Daryl quase sussurrou. Dava para ver o quanto ele estava feliz com aquilo, apesar de se mostrar pateticamente desajeitado. Glenn e Maggie deram mais uma risada, e Mavie finalmente riu também.

E Berry enfim entendeu o quanto estava sendo egoísta. Aquilo não era uma ironia do destino. Era, na verdade, um presente para todos eles. Não só para os recentes pais.

Ouviram alguém bater na porta. Michonne, que os havia deixado ali, avisou a Mavelle que Rick queria falar com ela assim que pudesse. Berry deixou o padrinho de Beth com os pais da pequena, se perguntando o que o líder da comunidade poderia querer. Talvez lhe fazer outro pedido de busca de suprimentos urgente para o dia seguinte, já que arranjaram tão poucos mantimentos.

Ela encontrou com Rick parado na frente de sua casa. O policial pediu desculpas por atrapalhar, e, tomando mais um severo baque naquele dia, Mavelle descobriu que o problema que Grimes queria lhe falar não se tratava de nada que tivesse relação com o abastecimento da comunidade.

— Peço desculpas por te falar isso desse jeito, mas acho que adiar não vai adiantar nada... Estamos julgando o caso de Moritz Alvintzi. Nós do comitê político. Você tem licença para participar, porque de certa forma é parte interessada — relatou o líder de Alexandria.

— Que caso? — Berry indagou, perplexa. Não sabia de nada polêmico a respeito do circense.

— Bem... Ele nos procurou para admitir algumas coisas. Recentemente, quase teve parte na morte de um dos nossos habitantes. Para proteger outro — pronunciou Grimes. Mavie ainda não entendia aonde ele queria chegar.

— Ele foi forçado a escolher entre matar Maggie ou Peggy, pelo Exército de Wyoming County. Durante uma invasão da nossa comunidade — esclareceu, direto. — E escolheu Peggy. — Rick passou uma das mãos pelos cabelos cacheados, claramente incomodado com aquilo.

— E...? — Mavelle entendia a controvérsia, mas não compreendia o desagrado do policial com aquela fala. Parecia realmente perturbado.

— Ele escolheu Peggy porque está tendo um caso com ela. Tem algum tempo. Achei que deveria saber também — revelou o policial. Mavelle sentiu seus lábios se abrirem imediatamente.

Outra onda de raiva lhe subiu pelo corpo. Aquilo não era possível. Não fazia sentido.

E então, uma vertigem de compreensão a deixou zonza. Era por isso que Peggy sumia de vez em quando. Toda a proximidade dela com Aiyana. Às vezes que a flagrava tentando sair no meio da noite. As aulas que matava. Os livros de filosofia que começaram a aparecer em sua casa.

— Moritz... Que está no comitê político? O camarada de cinquenta e tantos anos? — Sua voz soou descrente. Por mais que não quisesse aceitar, sabia que era verdade. Aquilo explicava todo o comportamento recente da filha de Dakota Taylor.

Rick Grimes apenas anuiu com a cabeça.

— Estamos decidindo que providências tomar. Pode ter certeza que vamos resolver isso — garantiu-lhe o policial. Todavia, Mavelle Berry já não aguentava mais.

Estourara.

Era muito para lidar em um dia só.

Deixou Rick Grimes na varanda de sua casa, andando quase marchando na direção dos portões da comunidade. Ignorou quando ele a chamou alto, apertando ainda mais o passo. Sabia que Peggy Taylor estava em um turno de vigia naquele momento, junto com Tara Chambler.

Ao chegar na entrada de Alexandria, Mavelle já mal podia se conter.

— PEGGY! Desce daí, agora! — fremiu a irlandesa. A adolescente olhou por cima do ombro, abaixando o rifle sniper que segurava.

— Mavie? — falou alto de volta, surpresa pelo tom raivoso da neta de Annie Guinness.

— Não vou esperar muito. É urgente! — bradou a garota arqueira, esperando a descida da adolescente.

Mavelle Berry passara alguns meses depois da morte de sua avó se torturando. Se sentindo um fracasso. Não pudera protegê-la daquele falecimento hediondo, assassinada pela crueldade de Hashimoto. E agora descobria que Jeffrey estava vivo, depois de todo o mal que lhe causara. E que Peggy mentira para ela por todo esse tempo, aceitando ser manipulada por algum velho pervertido nojento.

A irlandesa pensou o quanto mais suportaria, até desistir de tentar. Tinha a sensação de que sempre errava grosseiramente. Sempre humilhada, enganada, forçada a fazer papel de otária, falhando miseravelmente em tudo o que era importante para si.

Se não fosse Daryl, talvez já tivesse enlouquecido há muito tempo.

****

Peggy trocou um olhar confuso com Tara, descendo pela escada vertical colocada naquela elevação de guarda. Assim que desceu, Mavelle a puxou pelo braço, como faria com uma criança malcriada. Peggy Taylor reclamou alto, pelo tratamento gratuitamente agressivo.

— Qual é o seu problema?! — perguntou a adolescente, irritada. Puxou o braço para longe de Mavelle, que a arrastara até o quintal de uma casa vazia da comunidade.

— Eu que te pergunto isso. Mas que merda você pensa que está fazendo, Peggy?! — A irlandesa lhe cobrava, seus olhos de avelã esverdeado furiosos. Taylor engoliu em seco.

— Por que está dando piti? Do que está falando?! — a adolescente redarguiu, embora já estivesse desconfiada dos motivos da amiga.

— Será possível que você é tão idiota assim?! — Mavelle foi grosseira, sem dó. Peggy abriu a boca, chocada. — Você realmente pode ser tão burra a ponto de acreditar na conversinha de um velho tarado?! — a neta de Annie Guinness ofendeu Moritz, furiosa.

— Quem você pensa que é... — Peggy ia começar a discutir, mas Mavie a cortou outra vez.

— Não! Cala a boca, Peggy, pelo amor de Deus, só cala a boca! — rosnou Mavelle, descontrolada. — Você só tem dezessete anos! E aquele nojento tem mais de cinquenta! Você realmente acha que ele vê algo em você além de um fetiche? Céus, eu pensei que você fosse mais madura, mas não, puta que pariu, você se odeia! É só isso que eu consigo compreender! — Peggy Taylor ouvia as palavras de Mavelle como se fossem lâminas cortando seu peito. Uma mais afiada, cortando mais fundo do que a outra.

— Você não entende! Você não pode me julgar, você não tem o direito... — Taylor tentava rebater, balbuciando as palavras, lágrimas se formando no canto de seus olhos. Como temia aquilo. Sabia que ela reagiria assim quando soubesse. Que todos reagiriam assim. Insistiam em vê-la como aquela mesma coisinha frágil da época do Aquário. A menina quebradiça e manipulável. Insistiam em decidir tudo por ela, pensar por ela, agir por ela.

— Eu não entendo? — Mavelle riu com sarcasmo. — Ah, com certeza, eu não entendo! Porque você, no auge da sua sabedoria adolescente, simplesmente sabe que ele te ama! Que ele se importa com você! E, mesmo assim, mentiu para mim, para a minha avó, nos escondeu esse lindo e legítimo romance por tanto tempo! — ironizou. Peggy deixou as lágrimas raivosas descerem por seus olhos.

— Ele se importa! Você nem o conhece! Eu tinha que esconder, para evitar que você reagisse exatamente assim! — Apontou para a irlandesa, ficando também enfurecida.

Eu me importo com você! E a minha avó também se importava! — Mavelle quase berrou. — Nós sempre cuidamos de você, diferente de um sujeito que manipula a sua inocência para ser o objeto sexual dele!

— E por que você presume isso? Só porque ele é mais velho? Aquele tal sujeito que parece um mendigo mal encarado é quase vinte anos mais velho do que você! E eu não vejo ninguém dizendo que você é uma vítima da perversão sexual dele! — retorquiu Peggy, lembrando da diferença de idade entre Mavie e Daryl.

— Eu sou uma adulta e ele também. É totalmente diferente! — Mavelle fitava a adolescente com orbes incrédulos. A raiva consumia Peggy Taylor como se a queimasse por dentro.

— Totalmente? Você é só SETE anos mais velha do que eu! Eu perdi minha família inteira! Eu SALVEI essa comunidade! Mais de uma vez! Eu vou em missões, mato pessoas e carniceiros, e vocês vão agir como lixo hipócrita, falsos moralistas malditos que acham que eu sou velha o suficiente para assassinar alguém, mas não para escolher com quem fazer sexo?! — Peggy se aproximou de Mavelle, os rostos das duas a centímetros uma da outra.

— Se você é tão adulta assim e ele te respeita tanto... — Mavie baixou a voz, ferina. — ...Por que foi procurar Rick e os líderes políticos da comunidade para confessar que vocês dois estão juntos?! Por que não achou justo que você tivesse no mínimo conhecimento do que ele fazia? Acho que seu namorado te acha tão madura quanto eu e a comunidade inteira. É melhor refletir sobre a saúde dessa relação — Mavelle parou de falar, virando de costas para Peggy. Aquilo de fato a surpreendeu e a machucou, mais do que qualquer outra palavra grosseira que a irlandesa disse anteriormente.

Moritz fora se confessar ao comitê político de Alexandria. Como se tivesse cometido algum tipo de crime. Buscando assumir para si todas as responsabilidades.

Era assim que ele a via? Que via tudo o que viviam juntos? Algo criminoso, errado, controverso? Se fosse verdade... Mavelle e toda Alexandria estariam cobertos de razão.

Tudo o que ela compreendia como sua relação com Moritz, seria, pelo visto, algo totalmente unilateral. Distorcido.

Falso.

Com aquelas dolorosas constatações em mente, Peggy foi até a casa dos circenses. Só percebeu que havia entrado quando se deparou com Alvintzi sentado na sala de leitura, lendo algum livro grosso do filósofo Friedrich Nietzsche. A mesma sala onde começaram tudo aquilo, todos os flertes, toda a aproximação... Peggy sentia algo se retrair dentro de seu coração. Não era possível. Não era possível que ela realmente tivesse vivido tudo aquilo... Sozinha.

Ela julgava que tinham uma relação de igual para igual. Mas talvez estivesse redondamente enganada.

— Por que você fez isso? — Peggy perguntou, sua voz soando mais lamuriosa do que pretendia.

Moritz levantou os olhos do livro para ela. Não percebera sua aproximação, o que ficou claro pelo olhar atônito que a deu.

— Sininho...?

— Não me chame assim. Só responde a minha pergunta — demandou, direta. Moritz Alvintzi piscou os olhos, devagar, parecendo amargurado.

— Eu tinha que fazer isso. Você já tem muito o que carregar sozinha. Não poderia colocar mais isso nos seus ombros — admitiu o ex-palhaço. Provavelmente julgava que tomara a melhor escolha. Mas aquilo só fragilizava ainda mais Peggy. Fazia parecer que ele concordava com a hipocrisia alheia.

— E por isso você vai, sozinho, contar sobre nós para os outros? Como se tivesse violado alguma regra não escrita? Como se eu fosse... Como se eu fosse uma vítima sua? — A voz de Peggy Taylor saiu ferida, aguda. Fechou os punhos em riste, controlando a mágoa, a dor, a humilhação.

— Não foi assim, Peggy. Eu apenas assumi minhas escolhas. Não posso te obrigar a estar comigo nessa... Nessa clandestinidade. Você não merece isso — o professor tentava se escusar, mas Taylor balançou a cabeça, furiosa.

— Você não percebe que me coloca na mesma posição inferior que eles quando faz uma coisa dessas? Quanto tempo vai demorar para você me considerar uma parceira sua, e não uma... Uma protegida? Uma garotinha fraca com quem você transa?! — Transpareceu toda a sua revolta.

O olhar de Moritz parecia desolado.

— Peggy, eu fiz isso pensando no melhor para vo... — Ela o cortou.

— Não! Você fez isso para livrar a SUA consciência! Você adora ter esse papinho de que é mente aberta. Que não pensa como os outros. O quão livre você é! — falou com um tom ferino, estreitando os olhos. — Mas você é tão preso quanto os outros, e me enganou direitinho! Você se importa com o julgamento deles. Você tem medo de, no fundo, realmente ter me usado. Como uma substituta pra sua esposa que se matou! Pra aguentar sua solidão e a sua dor! — condenou-o. Moritz abaixou os olhos, parecendo ter envelhecido alguns anos com a fúria da garota se abatendo sobre ele. Ela percebia que aquele temor era algo real para ele.

— Eu...

— Eu cansei de ver você se lamentando revendo as fotos do circo! Do tempo que era casado com ela. E eu me enganei também — afirmou a garota, as lágrimas descendo por seus olhos outra vez.

— Mais uma ilusão. Um lindo espetáculo, como qualquer outro truque de circo. É o que você sabe fazer melhor, não é mesmo? — A voz da adolescente ficou embargada. Moritz se levantou, tentando se aproximar dela. Seu rosto mostrava uma expressão desconsolada.

— Peggy, não, por favor... Eu realmente... Eu... — gaguejou, e ela o impediu de falar outra vez.

— Não diga que me ama. Por favor. Você só ama a si mesmo. E as suas memórias. E qualquer imagem que projeta em mim. — As lágrimas desciam por seu rosto. Moritz tentou segurar sua mão, mas ela o evitou, afastando-se.

— Você não me ama. Se amasse, jamais teria feito o que fez comigo. — Suas palavras eram duras, mas honestas. As íris escuras de Alvintzi pareciam mais e mais feridas. Ela vomitava aquelas frases sinceras, mas sua garganta ficava cada vez mais fechada.

— Peggy, por favor, deixe-me tentar explicar... — Moritz Alvintzi segurou sua mão outra vez, e a garota sentiu as emoções controversas se apoderarem dela. Queria aquilo, o desejava tanto. Cada mero contato dele mexia tanto consigo.

Ela sabia bem que o que sentia por ele era honesto, verdadeiro, pulsante. Mas não podia aceitar mais aquilo. Ser colocada naquela posição secundária, infantilizada, reduzida.

Ela queria andar pelas próprias pernas, e, se Moritz fosse um impedimento para isso... Não poderiam ficar juntos.

— Já chega. O show acabou. — Fitou-o profundamente, seus olhos lavados pelo pranto doloroso que a corroía por dentro. Soltou a mão dele, deu-lhe as costas e deixou a casa dos circenses.

Peggy Taylor queria desatar a correr. Fugir para outro lugar, para bem longe. Achar outra comunidade. Viver na estrada por sua própria conta. Mas, no fundo... Queria apenas deixar sua própria consciência. Nem que fosse por alguns segundos.

Aquilo tudo fora tão arduamente lastimoso que ela sentia que arrastava seu corpo. Apesar de sua baixa estatura e compleição física harmoniosa com sua idade, Peggy Taylor sentia que pesava toneladas. Cada passo era um esforço indescritível.

Vagou a esmo pela comunidade, indo até o outro extremo dela, onde uma pilha de lenha e tijolos estava disposta contra a murada da comunidade, próxima de uma escada alta. Se escondeu ali mesmo, alguns metros distante dos construtores de Alexandria, que fortificavam uma trincheira do outro lado do muro.

Peggy Taylor sentou-se no chão, escondida por trás da pilha de materiais de construção, chorando abraçada com seus joelhos. Não soube quanto tempo passou naquele momento de tormento. Só percebeu que foi interrompida quando sentiu a luz de um dos postes acesos com fogo e querosene brilhar acima de seus olhos. Alguém mexera na pilha de tijolos que a escondia.

— Ai, caralho! — A pessoa que a flagrara tomou um susto desajeitado, levando uma das mãos no peito, na direção do coração. Ele fechou os olhos, respirando fundo e se recompondo. — Porra, por um segundo achei que fosse um rastejante! — Aliviado, pestanejou e franziu as sobrancelhas, estranhando encontrar uma garota escondida por trás daquele pequeno monte de materiais.

Peggy Taylor não soube como reagir. Não sabia se deveria se levantar ou não. Aquele que a descobriu ali arregalou os olhos, parecendo finalmente reparar em seu rosto molhado de lágrimas.

— Hã... Yo, você tá bem? Aconteceu alguma coisa? — perguntou de maneira retórica Tucker Hayes.

****

Ele abriu a porta do arsenal e ali a encontrou, como imaginava.

A garota irlandesa guardava os armamentos e munição utilizados por ela naquele dia. Repunha os rifles de caça em seu lugar, pendurados na parede e guardava as balas em caixas de munição. Cada gesto tentava transparecer calma, zelo e cuidado, mas ele podia enxergar mais além. Percebia o quanto o emocional dela estava completamente atormentado.

E saber que ela tentava esconder aquilo dele o tirava do sério.

— Você vai brincar de fingir que não rolou nada por quanto tempo? Só para saber mesmo — Daryl Dixon foi direto com Mavelle Berry. A dentuça ergueu seus olhos para ele, fazendo uma expressão exausta.

— Posso te pedir um favor? — Mavie franziu as sobrancelhas. — Me deixa em paz um pouquinho. Só um pouquinho — retrucou, de maneira malcriada, ajeitando as balas que sobraram em uma caixa pequena. Dixon ficou ainda mais irritado com a birra.

Tinha um palpite sobre aquilo tudo. Aquela reação desgastada, exagerada dela. Mavelle não costumava ser dramática daquele jeito. Ela era sensível, sabia disso. Mas sempre que estava mal se esforçava para fingir que estava bem. Sorrindo, falando besteiras, soltando piadas a torto e a direito.

Recentemente, ela retornara a ser quem era. A menina petulante, convencida, divertida e imensuravelmente doce por quem ele se apaixonara. Mas, depois de topar com o sujeito que tentou matar naquela tarde... Parecia haver uma nuvem negra em volta dela. Que ela nem conseguia forçar seu bom humor para tentar dissipar.

Algo muito grave se sucedera. E Daryl já tinha certeza do que era.

De quem aquele filho da puta era.

— Aquele cara é seu noivo?

Mavelle levantou o rosto no mesmo momento. A expressão que ela fez já dizia tudo.

Dixon sentiu uma emoção amarga tomar conta dele. Como se engolisse algo estragado.

— Imaginei — o arqueiro quase murmurou. Virou de costas. Pretendia deixá-la ali.

Era por isso que Mavie ficara tão distante. Depois de tanto tempo de luto pela avó, finalmente a irlandesa se parecia novamente com a garota espevitada que antes era. Mas, pelo visto, o homem que um dia seria o pai do seu filho ainda era uma figura forte dentro dela. Ainda era importante de algum jeito.

Dixon se sentiu patético. A relevância daquele sujeito talvez fosse muito maior do que um dia ele seria para ela. Memórias assim não são esquecidas facilmente. Nem superadas.

Aquele cara um dia fora o homem com quem ela escolhera passar o resto da vida. E Daryl... Bem, ele era o quê? Um caipira que trombou com ela por acaso. Que vivia debochando dela, e que jamais teria sequer lhe dado mais do que três segundos de atenção se não fosse a insistência da garota.

Talvez o melhor fosse aquilo mesmo. Se afastar e lhe dar o tempo que ela precisava. Afinal, como poderia competir? Quem era ele?

Você é uma piada, é isso o que você é. O mantra insistente de Merle Dixon já se repetia em sua mente, quando ele pôs a mão na maçaneta.

Ex—noivo — Mavelle disse, cortando o silêncio. O caçador voltou o rosto para ela.

— Eu... Eu não... — Os olhos da irlandesa se encheram de lágrimas. Instintivamente, o arqueiro caminhou até ela. Nunca conseguia deixar Mavelle assim, chorando. Tentar consolá-la sempre era mais forte do que ele.

— Eu o odeio. Eu nunca... Eu nunca detestei tanto alguém na vida. Nem Hashimoto — confessou. — Talvez isso me faça muito egoísta... — Soluçou. Dixon já estava a centímetros de distância dela.

— ...Mas ele matou meu filho... Ele matou meu bebê! — Mavelle arfou. — Saber que ele está vivo, que nada aconteceu com ele, nada do que ele merecia... Isso está me destruindo por dentro! Ele não pode continuar se safando de tudo! — Ela levantou seus olhos lacrimosos para encará-lo. Daryl auferiu a dor evidente dela em seus olhos entre o verde e o castanho. Aquilo também partiu seu coração.

— Eu tenho medo do que isso pode fazer comigo. Eu só quero... Só quero que ele morra — confidenciou a irlandesa. Dixon sentiu seu ódio por aquele sujeito apenas ficar ainda mais intensificado. Ele só vira aquele rosto maldito uma vez, mas perceber que a existência daquele escroto deixava Mavelle tão destroçada... Era suficiente para também querer jurá-lo de morte.

— Você é e sempre vai ser melhor do que ele. Melhor do que tudo que ele te fez. Da dor que te trouxe — assegurou Daryl Dixon, segurando o rosto dela com uma das mãos. Mavelle Berry tremeu os lábios, contendo o choro.

— Só me deixa... Me deixa te ajudar. Você não precisa fazer tudo sozinha — pediu Daryl, quase suplicante. Mavie franziu os lábios, o abraçando com força. Escondeu seu rosto na jaqueta de couro dele, o apertando com os braços.

— Você não tem ideia, Esquila... — O arqueiro acarinhava os cabelos escuros dela com uma das mãos, enquanto a abraçava com o outro braço.

— Do quê? — ela perguntou, sua voz abafada contra seu peito.

— Do quanto me faz bem ver você sorrindo com esses seus dentões. Sei lá... Eu meio que preciso disso. — Ela se afastou do enlace, o fitando ao passo que franzia as sobrancelhas. Estava adorável. Como sempre.

— Desculpa por... Por tudo isso. Estou um caco. Insuportável de chata — desculpou-se a irlandesa, forçando um sorriso amarelo. Daryl soltou um "tsc" com os lábios.

— Você sempre foi chata pra caralho. Pode ser pentelha o quanto quiser. Só quero que fique bem — Dixon falou, e Mavie soltou uma risada seca, honesta.

— Eu nunca pensei que admitiria isso... Mas sinto tanto a falta de ter você me enchendo a paciência sem parar. As coisas... As coisas ficam sem graça quando você não sorri — confidenciou. Os olhos de Mavelle brilharam em uma fagulha rápida, e ela enfim soltou um sorriso largo.

— Eu fico bem quando estou com você — confessou Mavie, e o deu um olhar significativo.

Aquilo bastou. Como sempre, os dois não precisavam de muitas palavras para se entender. O essencial não podia ser transmitido pela fala. A ligação que tinham era muito mais profunda do que qualquer frase bonita.

Daryl a beijou em um movimento sôfrego. Ter ela em seus braços sempre tinha aquele efeito inenarravelmente intenso dentro dele. Como se o entorpecesse. Não pensava, apenas sentia. Apenas agia.

Mavelle o puxou pela jaqueta, abaixando-se consigo até o piso do arsenal. Não se importaram que a portava estava destrancada, que em meia hora Olivia estaria de volta para guardar as armas, e que qualquer um poderia entrar ali a qualquer momento. O mundo não existia naquele instante, só eles dois. Seus corpos, suas bocas, e o entrosamento cúmplice, desejoso, apaixonado que tinham a benção de desfrutar.

Toda a vez que a tinha consigo era igualmente ávido. Dixon não se cansava de Mavie, dos olhos meigos contrastando com seu sorriso travesso e seus dentinhos proeminentes. Das curvas, saliências, montes e recônditos dela que só ele tocava. Do seu corpo delicioso, tão cheio de cicatrizes e feridas quanto seu coração. Uma garota tão linda, tão maravilhosa, e tão cheia de sofrimentos, de fardos que ele tentava ajudá-la a dividir e torná-los menos pesados.

Não podia mais se imaginar sem aquela garota ao seu lado. Daryl se deleitou a vendo nua abaixo de si no piso do arsenal, enquanto se impelia esfaimado para dentro dela e a fazia alcançar o êxtase mais uma incontável vez. Sabia que a vida como ele conhecia não era mais a mesma, e nunca mais seria. A vida era melhor por causa de Mavie.

Seu mundo era melhor por causa dela. Seu mundo, na verdade... Era ela.



****

[NO DIA SEGUINTE]

O rapaz bateu na porta do quarto da garota. Não recebeu resposta nenhuma. Bateu mais uma vez, ficando irritado.

Já não tinha mais paciência para tudo aquilo.

Sem escutar nada em retribuição, ele simplesmente adentrou os aposentos, levando uma bandeja com um sanduíche de manteiga de amendoim e um suco de laranja.

— Come — disse, em tom de ordem.

A menina de cabelos escuros longos o fitou como se não o enxergasse realmente. Seus olhos castanhos estavam isentos de vida. Parecidos como eram na época em que trabalhou junto ao Exército de Wyoming County.

— Por que você se importa? Eu tentei te matar — Enid respondeu para Carl Grimes. O filho do líder de Alexandria apenas respirou fundo, contendo um muxoxo de desdém.

— Porque você não ajuda ninguém fazendo isso — retorquiu friamente. — Definhar de fome e morrer não vai fazer a menor diferença para consertar seus erros — O rapaz foi direto, insensível praticamente. Enid não pareceu ligar. Apenas baixou os olhos para a bandeja que ele colocou em cima da sua cama.

— Eu não posso consertar nada do que ela me fez fazer. Nada do que eu fizer vai mudar isso — admitiu a garota melancólica.

— Não pode. Mas ninguém te julga. Todo mundo sabe do que ela era capaz. Do que ela obrigava todo mundo a fazer. — Carl mal tinha paciência para aquilo.

Por que todos andavam tão sentimentais?

— Ela me forçou a apontar armas pro meu pai. E para todo mundo que estava com ele no dia. Michonne, Rosita, Tara, Aaron, Heath. Eu estava chapado. Eu seguiria qualquer coisa que ela falasse — reconheceu o primogênito do policial da comunidade. Hashimoto o drogou com todo tipo de substância alucinógena para deixá-lo como uma marionete obediente.

— Eu também fui torturado. Lembro do que ela fez comigo. — Um calafrio desagradável percorreu sua espinha. — Só que se a gente se deixar levar por isso... Vamos comprovar o discurso dela. De que somos fracos. Eu me recuso a ser fraco — asseverou.

A adolescente o fitou lentamente.

— Por quê? — As íris castanhas de Enid pareceram sinceras naquela pergunta.

Carl Grimes soltou um "tsc" incrédulo. Não acreditava que teria de explicar aquilo. Como ela podia não entender a abominação que era fraquejar naquela realidade? Era a mais simples diferença entre a vida e a morte.

— Cara... Só come. Facilita a vida de todo mundo. Acredite, você piora as coisas sendo esse peso morto. — O garoto nem se importou de ser duro com a adolescente. Na verdade, não entendeu como um dia poderia ter se sentido atraído por ela. Ela atualmente era apenas um pedaço de gente, quebrado em frangalhos.

Carl Grimes deixou o quarto de Enid, fechando a porta. Precisava falar com seu pai.

Rick também andava estranho ultimamente. Mais paranóico do que de costume, parecendo ter medo de sombras nas paredes. Carl não compreendia aquilo. Ora, eles não tinham vencido? Eles se provaram os fortes. Se provaram melhores do que Hashimoto. Aquele mundo era deles. Bastava apenas estender a mão... E colher os frutos.

O pequeno Grimes se lembrou de tudo o que testemunhara. Todos andavam realmente muito emotivos. Glenn e Maggie tiveram sua filha, no caso deles era compreensível. Mas o resto... Todos pareciam tão fragilizados que deixavam Carl irritado. Cheios de sentimentos.

Isso o lembrou do dia anterior. Quando adentrou o quarto de Carol Peletier para chamá-la para ajudar Maggie Greene, que já estava em trabalho de parto.

Nem Carol, quem ele admirara tanto por seus feitos, uma verdadeira guerreira de fazer tremer até mesmo a japonesa psicopata... Nem ela passara incólume àquela onda de emoções turbulentas. Tentara fugir de Alexandria, fora resgatada, e, como flagrou Carl... Estava de casinho com aquele rapaz drogado, o tal de Tucker Hayes. O filho de Rick jamais esperaria por aquilo. Não só pela diferença de idade — ele devia ser uns vinte anos mais novo do que ela —, mas por ver essa fragilidade sentimental até mesmo nela.

O mundo estava acabando do lado de fora, e metade de Alexandria estava preocupada em repovoar essa merda toda? Carl simplesmente não entendia aquilo. Que tipo de prioridades malucas eram aquelas?

O filho mais velho do policial seguiu até a entrada da prisão projetada por Morgan, já mais reforçadas pelos esforços de Eugene e Tucker, o arquiteto de Alexandria. O homem de cajado fazia sua guarda de sempre na frente da entrada da casa onde "Jesus" estava preso no porão.

Carl esperou por seu pai, que saíra de mais um recente interrogatório. Estava cansado daquele chove não molha. Era a hora de voltar a arriscar. O mundo era maior do que os muros de Alexandria e aquele bando de casaizinhos irritantes.

Rick logo saiu, saudando Morgan e pedindo que levasse mais comida para o cativo. O homem concordou, adentrando a casa, deixando pai e filho sozinhos.

— O que foi? — O policial perscrutou o rosto do filho com o olhar. Seu herdeiro já estava decidido.

— Pai, não temos escolha. Temos de ir pra Hilltop — disse, ao passo que Rick franzinha o cenho.

— Quem te falou de Hilltop? — O Grimes mais velho pareceu insatisfeito.

— Ele. — Carl apontou para o porão. Rick passou nervosamente as mãos pelos cabelos.

— Eu disse para você não se meter nisso, Carl — ralhou seu pai. O menino se controlou para não revirar os olhos.

— Esse cara já está aqui há um tempão! Todo mundo sabe sobre ele. Já virou fofoca. — O jovem Grimes deu de ombros. — Sério, não fez a menor diferença descer para interrogá-lo. — Tentou se livrar da culpa por ignorar as ordens do líder da comunidade.

— Não importa. Você tem que me obedecer — demandou Rick Grimes, e seu filho forçou um falso pedido de desculpas.

— Eu só queria ajudar. Pai, ele é só um cara — falou o rapaz, tentando acalmá-lo.

— Um cara pode ser perigoso — redarguiu o líder de Alexandria.

— Nós somos perigosos — acrescentou o filho de Rick Grimes.

Rick não soube o que responder por um momento, e Carl continuou.

— Pai, nós vencemos. Vencemos. Pode aceitar isso. Hashimoto está morta. Nós superamos tudo. Nós somos os fortes! — Carl reproduziu indiretamente o discurso da japonesa psicopata.

— Não há nada que nós não possamos enfrentar. Você sabe disso. Então tome o que é seu de direito! — o menino pediu, quase implorando. Rick baixou os olhos para o chão, parecendo ainda indeciso. Como se quisesse manter algo em segredo.

— Nós vamos para Hilltop. Daqui a uma semana. Só estamos esperando Maggie poder levar a filha com segurança — confidenciou o pai ao filho. Carl soltou um sorriso honesto, aliviado.

— Finalmente! — O rosto de Carl Grimes luziu de alegria. Rick Grimes não pareceu muito contente com a empolgação do herdeiro. — Pai, sério, vocês não estão enxergando as coisas com clareza — falou convicto o garoto.

— É? E o que você, meu experiente sábio de plantão, sabe sobre isso? — debochou o policial, em um tom entre o afeto e a ironia direta. Os olhos azuis do pai pareceram se demorar no curativo do filho. Aquilo machucava Carl. Percebia que seu pai não conseguia se perdoar por aquele imprevisto.

— Você é foda, pai! Você é o herói de todo mundo. E você tem conseguido sobreviver e superar tudo. O Governador, Gareth, Jed, os Wolves, Hashimoto... Ninguém consegue parar a gente. — A voz do filho de Rick Grimes saía animada. Os olhos de Rick pareciam preocupados, como se aquele ímpeto não fosse saudável.

— O mundo é nosso. Nós somos os fortes de quem Hashimoto falava — Carl finalizou seu discurso. Rick olhou para o lado, meneando a cabeça em concordância descontente.

— Filho... Você vai conosco para Hilltop. — Carl Grimes sorriu ainda mais ao ouvir o pai. — Porque você não pode pensar assim. Se você pensa assim, você já é fraco.

O menino franziu as sobrancelhas, novamente irritado. Seu pai não era assim. Irrequieto. Assustado.

Frágil.

— A arrogância te cega. E ser prepotente, no mundo de hoje... — Grimes coçou o rosto, fatigado. — ...É fatal. Não estamos seguros se pensarmos que podemos tudo. Só podemos tudo se nos protegermos. Cuidarmos de nós e daqueles que amamos. Compreendeu? — lecionou o policial. Carl Grimes respirou fundo, tentando se controlar.

— Ok — respondeu, sem mais mostrar entusiasmo. Seu pai lhe deu alguns tapinhas no ombro, caminhando para resolver algum outro problema da comunidade. Carl o acompanhou com o olhar.

Se nem mesmo seu pai via a verdade, um dia ele mesmo demonstraria para ele. Eles eram fortes. Sobreviventes.

E Carl estava disposto a fazer uso desse legado. Era seu direito. Direito que, com seu sangue, sua insistência, suas forças, puderam alcançar. O novo mundo era deles.

E apenas aguardava que seus conquistadores o clamassem.

Notas finais
~ Gif by me, usando edições de [http://wildinstinkt.tumblr.com/post/143434774707/things-we-lost-to-the-flames-things-well-never] e outros gifs achados na internet. Tudo para transmitir os feelings desse capítulo... :'( ~ O JEFFREY AINDA ESTÁ VIVO, é claro. Ainda vai dar muuuuuuuuuita dor de cabeça. ~ Capítulos com feelings, um pouco de ação, dramas, tretas, conflitos, discussões... Um tantinho de tudo! E ainda POV do Carl Grimes no final! Filho de sociopata, sociopatinha é! Carl também está pirado, só não sabe disso ainda! ~ Aguardo comentários, seus lindos! :3