Hunter's Instinct
66 Episódio 66 - Brave New World
Notas iniciais
But I don't want comfort. I want God, I want poetry, I want real danger, I want freedom, I want goodness. I want sin.
~ Aldous Huxley
As lágrimas manchavam seu rosto, grudentas como cola ressecada. Ela levantou os olhos, insatisfeita por ter sido surpreendida em seu esconderijo. Será que depois de um maldito massacre como ao que tinham sobrevivido, a comunidade de Alexandria ainda estava apinhada de gente? Não teria privacidade em lugar nenhum daquele lugar infeliz repleto de pessoas de mente tacanha?
Ela só queria ser deixada sozinha, nem que fosse por algumas horas.
A garota olhou para a pessoa que a flagrara escondida por trás da pilha de materiais de construções. Aquele rapaz meio atordoado com jeito de drogado que Billy Ray trouxera para Alexandria.
— Hã... Yo, você tá bem? Aconteceu alguma coisa?
Tucker Hayes fitava Peggy Taylor, aninhada abraçada com seus joelhos por trás de uma fileira de tijolos empilhados.
Ela mal se dignou a responder. Começou a se levantar, dando ao construtor um olhar gélido.
— Nada que alguém precise se preocupar — retorquiu em um tom monocórdio. Sua voz saiu rouca, produto do choro sôfrego que deixara descer de seus lacrimais.
Hayes levantou as sobrancelhas, anuindo algumas vezes com a cabeça. Sua postura desajeitada dava a entender que não pretendia testar a paciência da garota com maiores perguntas.
Peggy já caminhava para longe, com as mãos nos bolsos de seu casaco rosa violeta. Foi interrompida por um sonoro “hey!” de parte do mesmo rapaz.
Taylor voltou os olhos, sem o menor interesse no que ele pudesse dizer. Sua indiferença deve ter sido notável, pois o arquiteto coçou a nuca, novamente sem jeito.
— Então... Não sei o que aconteceu, mas, se você estiver sem nada pra fazer, poderia nos ajudar aqui. — Apontou com o polegar para trás, mencionando as estruturas que montavam em áreas externas da comunidade, além dos muros.
Peggy franziu o cenho, pestanejando.
— Estamos montando um tipo de posto avançado de guarda. Como se fossem novas torres de vigia. Mais resistentes e tal. — O rapaz volta e meia olhava na direção das construções, que já subiam parcialmente a mais de três metros.
— Eu não sei... Eu não sei mexer com essas coisas — Peggy balbuciou, sem saber o que dizer. Não esperava por aquela sugestão.
— Bem, com certeza o Pace também não sabia. E hoje em dia ele humilharia a maior parte dos mestres de obras que eu já conheci. — O arquiteto sorriu. Mencionava um garoto um ano mais velho do que Peggy, um rapaz sardento, pálido e franzino, cuja maior aptidão para atividades de força do gênero se relacionava a conseguir carregar um saco de arroz por dez metros de distância sem arfar.
Taylor soltou uma risada seca. Ao invés de julgá-la por vê-la chorando como uma garotinha assustada, o tal drogado a convidara para ajudar em uma atividade importante para a comunidade. Para ser produtiva.
Para agir como adulta, da forma como queria ser vista por todos eles.
— Ok. — Forçou um sorriso com os lábios fechados, e seguiu o arquiteto de Alexandria. Tucker a guiou por uma abertura construída com algumas placas de metal nos muros, uma porta resistente projetada na murada, protegida pela construção externa na qual já caminhavam.
— Aqui o pessoal constrói a argamassa. — O rapaz indicou um grupo composto pelo menino franzino citado pelo arquiteto, além de Morgan e Billy Ray. O caipira do Alabama saudou Peggy levantando o chapéu, seus braços vigorosos parcialmente sujos daquela massa que misturava. Taylor retribuiu com um aceno minimamente educado.
— Aqui o restante ajuda a construir este prédio de vigia. Queremos subir só mais um metro mesmo — comentou o líder da construção, enquanto Eugene lhe apressava para dizer que precisavam usar toda a mistura até o final do expediente daquela noite. Não podiam utilizar livremente da luz elétrica da comunidade, pois Rick Grimes queria poupá-la para os piores dias de inverno. Portanto, o grupo de construtores trabalhava sob a luz de lampiões e lanternas, algumas inclusive em capacetes como de mineradores.
Enquanto Hayes conversava com Porter, Peggy reparou em como o rosto do rapaz estava cansado, sentindo uma pontada de inveja. Também queria isso. Ser tão reconhecida pelas pessoas de Alexandria que poderiam lhe confiar um trabalho sério, pesado, ao qual poderia se dedicar com toda a determinação que dispunha.
Depois de decidir com Eugene os últimos trâmites, Tucker fitou a adolescente mais uma vez. Ela viu a animação nos olhos azuis brilhantes dele. Dava para aferir que participar daquilo o entusiasmava de verdade. A simpatia daquele rapaz era realmente contagiante, tendo em vista que Taylor já se sentia menos amargurada com aquela breve interação.
Tucker Hayes juntou as palmas das mãos uma na outra e abriu um sorriso discreto.
— É uma boa coisa que você seja tão baixinha — disse o construtor, levantando as sobrancelhas depois, percebendo que foi indelicado. Peggy encrespou o cenho novamente.
— Quero dizer, tem uma parte da elevação que já está matando o Mike de dor nas costas. — Indicou com o olhar para um senhor de seus cinqüenta anos, de ombros largos, caminhando com as mãos na lombar. — Ele precisa ficar abaixado para encaixar os tijolos e raspar a argamassa, e está nessa o dia todo. Vamos trabalhar só por mais uma hora. Se você puder ajudar, acho que fica mais ou menos na altura do seu tronco. — Tucker mediu com as mãos à distância, tentando consertar a desatenção. Peggy apenas fechou os olhos e levantou a palma da mão esquerda, como se pelo gesto dissesse que ele não precisava se explicar.
— Certo. E onde está aquela coisinha...? — Peggy Taylor queria se referir à espátula de obra.
— Tem uma espátula dentada ali mesmo. Mike a deixou lá. — Hayes moveu o queixo na direção que Taylor deveria seguir. A menina foi até uma borda do prédio que elevavam do zero. Logo escutou a voz de Tucker de novo, um pouco atrás dela.
— É bem simples. — O rapaz se aproximou, pegou a espátula e demonstrou como fixar a argamassa e o tijolo, um por vez. Depois de assistir simulações o suficiente, Peggy disse que já compreendera e que pretendia tentar.
— Como diz aquele ET verde irado de Star Wars: “faça ou não faça, não existe tentar”! — Tucker tentou ser simpático citando Yoda. Pelo visto não entendia muito da franquia.
Aquilo trouxe um nó ao peito de Peggy. Lembranças diretas de Noah, que lhe dera sua Millenium Falcon de miniatura de presente, no dia em que falecera.
— É “Mestre Yoda” — redargüiu Taylor, passando a argamassa em cima dos tijolos já fixados.
— Yeah! Yoda, isso aí. — O rapaz sorriu, tentando supervisionar o trabalho da garota com discrição. Apoiou o cotovelo e o braço direitos na edificação, em uma parte já sólida. Ela percebia que Hayes julgava seu resultado de forma agradável, sem parecer que a pressionava muito.
Uma espátula dentada para Peggy “Garras de Tigresa”. Ela fez a associação, se lembrando do rosto de Aiyana. A ponta esquerda de seus lábios moveu-se quase imperceptivelmente para cima. Pouco a pouco, começava a se recordar de sua melhor amiga, a irmã que a vida lhe deu, apenas com carinho saudoso. E não mais com a dor excruciante de antes.
— É bom, não é? Eu realmente acho. — Tucker começou a puxar papo, bocejando apoiado na construção. Peggy achava aquilo curioso. Interações sociais jamais foram seu forte, mas tinham pessoas que pareciam nascer com um dom nato para lidar com as outras.
— É — concordou. Aquela tarefa lhe acalmava. Dava-lhe uma ocupação, um sentido melhor para gastar seu tempo do que chorar encolhida em si mesma.
— O melhor de tudo vai ser quando a gente terminar — garantiu. A adolescente lhe deu um olhar de esguelha. Os olhos de Tucker subiam metros acima, cintilando sob a luz dos lampiões. Parecia de fato empolgado com a edificação.
— A satisfação de ver algo que nós mesmos fizemos, com as nossas mãos, ficar pronto — levantou-as em um gesto para enfatizar suas palavras — é muito foda. Ainda mais... Sabendo que isso vai servir para proteger as pessoas, sabe? — O olhar juvenil de Tucker agora ia longe, para dentro de Alexandria. Talvez pensando em algumas pessoas que pretendia proteger, ou alguém, especificamente.
— Carniceiro! — A voz retumbante de Billy Ray Holloway soou alta, avisando aos construtores que algum morto-vivo conseguira escapar das armadilhas e trincheiras preparadas por todo o entorno da obra. Taylor e Hayes, subitamente alertas, voltaram os olhos na direção do som de rosnados famintos.
Pace, o menino franzino com quase a mesma idade de Peggy, parou de misturar o restante da argamassa. Saiu com uma longa faca de pesca em mãos, na direção de um rastejante esquálido, a barriga transpassada por um pedaço de madeira afiado da trincheira. O rapaz fincou a lâmina na testa do morto caminhante, eliminando sua sobrevida sem dificuldades.
— Eu vou lá conferir se algum outro se soltou. Pode continuar sem problemas, você ‘tá mandando bem — assegurou-lhe Tucker, dando um tapinha cordial no ombro direito de Peggy. Despediu-se com um sorriso gentil e logo foi junto a Billy, Mike e Morgan checar se algum morto-vivo conseguira transpor os redutos.
Taylor lhe deu outro sorriso sem mostrar os lábios. Continuou a atividade, ainda mais dedicada agora que fora deixada a sós.
O tempo de sofrer e chorar sozinha já havia passado. Bastava ter aberto os olhos e prestado atenção ao seu redor, e veria tantas maneiras diferentes de provar o que — e quem — poderia ser. Sentiu-se muito grata pela gentileza daquele rapaz com jeito de maconheiro. Talvez sem aquele empurrão ficasse mais tempo tropeçando à toa em seus próprios pés.
Ela tinha pelo que se dedicar. Sua própria independência estava ao alcance das suas mãos, construída paulatinamente como aquela edificação. Mas, assim como o prédio que ajudava a montar, seria impossível de se erguer sozinha.
Ela precisava lutar de corpo e alma para crescer.
****
[CERCA DE UMA SEMANA DEPOIS]
"— Estamos do lado dos vivos. Vocês tinham toda a razão para me deixar lá. Mas não deixaram.
...Seu mundo está prestes a ficar muito maior."
Ele se recordou das palavras do sujeito barbado metido a diplomata. O tal homem que gostava de ser chamado de Jesus.
Glenn fixou seus olhos atentos em sua filha, aninhada nos braços de sua mulher, sentada ao seu lado em um banco do trailer RV de Alexandria.
Próxima dela, uma mulher de cabelos curtos e encrespados falou com voz aguda com Bethalie. A bebê era a sensação do veículo, capaz de desanuviar os ânimos dos recém resgatados moradores de Hilltop.
Depois de terem sobrevivido a uma batida de automóvel, Bertie — a mulher que agora brincava com a pequena Beth —, Crystal, Andy, Wesley, Dr. Harlan e Freddie foram ajudados por Glenn Rhee e seus companheiros. Ao todo, o trailer levava os moradores de Hilltop, além do pai de Bethalie, sua esposa, Rick, Michonne, Mavelle, Daryl, Carl, Jesus, Billy Ray e Rebecca Gable. Estavam superlotados. O automóvel mal tinha espaço para tanta gente.
— Ela é a bebêzinha mais linda que eu já vi — Crystal, uma jovem mulher de quase trinta anos disse, sorrindo deslumbrada com a meiguice da filha de Rhee.
— Ela é — admitiu o pai, orgulhoso, acariciando os cabelos da esposa sentada ao seu lado. Maggie sorriu em resposta, sem nada dizer.
— Como puderam trazê-la para cá? — Freddie, um homem moreno de cabelos castanhos um pouco ralos questionou. Ferira-se com gravidade no acidente. — Digo, as coisas são perigosas aqui fora, vocês sabem — asseverou o sujeito de barba por fazer.
— Precisávamos vir. E não vamos mais a lugar algum sem ela — garantiu Maggie Greene. Glenn concordou, movendo o rosto em um aceno afirmativo. Bethalie era a prioridade de ambos, e por isso mesmo se decidiram por acompanhar Rick e os outros naquela viagem.
Toda e qualquer perspectiva de melhora na realidade de Beth seria bem-vinda. Ela merecia um mundo melhor.
Um mundo maior, como Jesus prometera.
— Merda! — Rick Grimes praguejou, do banco da frente. Próxima de Glenn Rhee, Mavelle Berry moveu os olhos de arqueira rapidamente na direção do motorista. Daryl seguiu o movimento no mesmo momento. Michonne já fitava Grimes, sentada perto dele. Carl, também confortável em um dos bancos mais frontais, ergueu o pescoço, preocupado.
— O que foi chefe? — Glenn atestou que Rebecca perguntou, levantando uma das sobrancelhas. Estava de pé, perto de Billy Ray, enquanto o caipira do Alabama estudava o oficial com cuidado.
— A porcaria do RV atolou. Acho que a tempestade deve ter passado por aqui — resmungou o líder de Alexandria.
Paul Rovia colocou o rosto próximo da janela do local onde se sentava. Abriu um sorriso rápido, e logo falou alto:
— Não se preocupe. Já chegamos! É aqui que vivemos! — Paul fez sinal para que Daryl, próximo da porta, a abrisse. O arqueiro assim o fez, enquanto ele e Mavie desciam primeiro, tomando posição com suas armas brancas. Os habitantes do Alto do Morro os seguiram, depois Rick, Michonne, Carl, Billy Ray e Rebecca. Por último, Glenn e Maggie deixaram o trailer. Bethalie estava calma e silenciosa. Pareceu ter gostado da viagem. Nascera com gosto pela aventura, pelo visto.
Como o pai.
O pensamento fez Glenn Rhee sorrir, enquanto Jesus abria os braços, se colocando na frente do grupo. Cercados por muros altos, mais altos do que os de Alexandria, não podiam ter noção do tamanho da comunidade, pois a murada se estendia além da vista, menos de um quilômetro a distância de onde o grupo estacionou.
Haviam subido uma ladeira bastante escarpada. Ao redor deles, a grama crescia alta, e uma floresta fechada contornava as proximidades. Parecia mesmo uma espécie de vilarejo protegida da civilização.
Ao lado do Dr. Harlan, o médico de sua comunidade, Jesus parecia satisfeito com a viagem bem sucedida.
— Aqui é Hilltop!
Com o fraco sol de inverno acima deles, Glenn abraçou a esposa pelos ombros, que acalentava Beth envolta por mantas de lã para protegê-la do frio. Sentiu seu peito se aquecer com aquela visão e sorriu amplamente, beijando a bochecha de Greene. Talvez, quem sabe, tudo realmente melhorasse para eles. Talvez a civilização não tivesse acabado. Talvez sua filha tivesse a chance de crescer em um mundo reconstruído.
Depois de caminharem em direção a comunidade, guiados pelo diplomata, foram surpreendidos com berros estridentes vindos do muro a uma distância de algumas dezenas de metros.
— Parem aí! — um homem gritou do alto da murada.
— Calma, gente! Relaxa, Eduardo, eles são amigos! — Jesus já se interpôs rapidamente na frente do grupo, erguendo as mãos em outra posição tranqüilizadora. Glenn reparou que Daryl, Mavie, Rick, Carl, Rebecca e Billy já tinham suas armas apontadas para os vigilantes.
— Esses babacas querem nos matar? — Dixon rosnou, intempestivo, perto de Rhee. O pai recente lhe deu um olhar censor. Não seria uma boa idéia comprar briga com a comunidade que pretendiam conhecer.
— Abra os portões, Kal, qual é cara?! Freddie está ferido! — alertou Jesus. Sua voz soava quase ofendida pela ressalva dos vigias de Hilltop. Logo depois, olhou para o restante do grupo de Grimes, passando os olhos especialmente no casal com o filho recém-nascido.
— Desculpem por esses caras. Ficam nervosos por não fazerem nada o dia todo — esclareceu o diplomata, em um tom cansado.
— Eles entregam as armas, aí abrimos os portões! — demandou Kal, berrando em resposta.
— Por que não vem pegá-las? — retrucou Daryl, irritadiço. Glenn soltou um “calma aí, cara!” para o amigo. Mavelle também olhou para o namorado, surpreendida. Não adiantaria nada hostilizá-los.
— Nós confiamos neles! Salvaram-nos lá fora! — Carson, o médico, bradou de forma que os homens aos portões pudessem escutar. — Abaixem as armas!
Glenn reparou que Rick caminhou até Jesus.
— Eu não vou arriscar. Diga ao Gregory para vir aqui — o policial falou com um tom autoritário.
— Não! Não viu o que acabou de acontecer? — Os olhos claros de Paul Rovia brilharam ao mirar os de Rick Grimes. — Vou deixar que fiquem com as armas. Estamos sem munição há meses! E eu gosto de vocês. Confio em vocês. Podem confiar em nós também — ratificou Jesus, perscrutando o olhar de Grimes com assertividade.
— Abre a porra do portão, Kal! — Paul pediu mais grosseiro desta vez. Finalmente os vigilantes se moveram, e logo Glenn Rhee foi brindado com uma visão ainda mais surpreendente.
A comunidade de Hilltop era simplesmente imensa. Parecia uma espécie de vilarejo medieval, algo steampunk* que misturava construções modernas como trailers e equipamentos movidos a energia elétrica com currais, estábulos, plantações, um moinho, estabelecimentos com forjas e ferreiros trabalhando, galinheiros e hectares e hectares de terra livre. Repletos de vegetações, bosques, e um rio que corria gorgolejante comunidade adentro.
— Meu Deus... — Maggie murmurou, atônita, ao seu lado. Glenn fitou a esposa, vendo que seus olhos verdes pareciam encantados por aquele lugar idílico.
— Eu sei! — seu marido exclamou, alto, quase rindo. Mavelle, atrás deles, se aproximou, perto de Daryl.
— That’s class! Parece até o Kakariko Village de Zelda** — disse a irlandesa, embasbacada. Glenn deu uma risada legítima.
— Não é? De Ocarina of Time! — mencionou o videogame que ambos já deviam ter jogado anos atrás. Mavie acenou em afirmação com o rosto, os olhos de avelã esverdeado faiscando de fascinação. Dixon, perto dela, deu um sorriso enviesado. Devia estar satisfeito de ver a namorada um pouco mais animada. Ela passara por dias negros.
— Gente, onde vocês estavam escondidos esse tempo todo? — A voz alta e aguda de Becky se fez ouvir. Billy Ray a enlaçou pela cintura, animado, também sorvendo com os olhos entusiasmados todo aquele cenário de sonho.
— Havia um depósito de materiais de uma empresa aqui perto. Foi assim que construímos os muros — Jesus afirmou, outra vez se aproximando do grupo de Rick Grimes enquanto seus amigos se dispersavam por suas residências.
— Muitos vieram de um acampamento de emergência e trouxeram os trailers. — O barbudo apontou para os muitos RVs dispostos por Hilltop.
— E como as pessoas descobriram esse lugar? — Michonne indagou, tentando não demonstrar muita emoção para dar suporte a frieza de Rick. Ele e seu filho eram dois dos poucos que não pareciam surpreendidos com a vastidão daquele pequeno feudo.
— Estão vendo aquilo ali? — Indicou uma grande construção colonial. — Essa é a Casa Barrington. A família que era a dona a doou ao Estado nos anos 30. Então, o Estado a transformou em um museu de história viva. As escolas primárias da região faziam excursões para cá. — Jesus parou para tomar fôlego e logo continuou.
— A casa funcionava muito antes de o mundo moderno crescer ao seu redor. As pessoas vieram, portanto, porque acharam que ela continuaria sem o mundo moderno. Nas janelas de cima dá pra ver tudo por quilômetros e quilômetros de distância. É perfeito em termos de segurança! — assegurou Paul. — Venham, vou mostrar a parte de dentro.
Glenn Rhee e os outros foram levados para o interior daquele casarão colonial. Era tão suntuosa por dentro quanto por fora.
Sobrecarregada por papéis de parede delineados com cuidado, quadros pintados a óleo, móveis de madeira antigos; toda a decoração e a arquitetura da casa transpareciam uma sofisticação que Glenn quase quis rir da expressão de desprezo que Daryl fez. Seu amigo caipira provavelmente desgostava daquele tipo de ambiente de gente rica.
— Tucker ia amar isso daqui! Olha esse teto! — Becky comentou alto para Billy Ray, apontando para cima, mas o homem do Alabama também não parecia muito à vontade naquele ambiente cheio de requinte. Rhee honestamente não apreciava muito tudo aquilo, mas estar entre quatro paredes seguras, dentro de muros sólidos, já era bom o suficiente. Não tinha do que reclamar. Bethalie soltou uma exclamação nos braços de Maggie. Glenn se voltou para sua filha, imediatamente, mas Maggie já se punha a amamentá-la, sendo em seguida ajudada a se sentar em um sofá pelo marido e por Michonne.
— Parece aquela casa de “E o Vento Levou...” — comentou Mavie, guardando a flecha que tinha preparada em seu arco na aljava. Dixon, rondando perto dela, parecia controlar um muxoxo de desdém.
— Os cômodos foram transformados em espaços para morar. Mesmo os que não eram quartos — disse-lhes Jesus, de pé mais ao centro da sala de entrada.
— As pessoas moram aqui e nos trailers? — Rick Grimes subia os olhos pela ampla escadaria esmerada a contornar a sala.
— Pretendemos construir mais. Afinal de contas... Temos bebês nascendo, não é? — Apontou para Bethalie. Glenn e Maggie lhes sorriram.
Uma porta próxima da sala de entrada foi aberta. Dela saiu um sujeito grisalho, bem vestido e estranhamente limpo, de forma metódica.
— Jesus! Você voltou. E com convidados — acrescentou o homem de modos polidos. Glenn teve uma primeira impressão estranha. Talvez fosse pelo jeito de falar ou pela idade próxima, mas aquele homem o lembrava de Jed Freeman.
— Pessoal, esse é Gregory! — Paul Rovia fez a apresentação. — Ele é que mantém a ordem aqui — disse, de maneira simpática. Fitou o líder de Hilltop.
— Eu sou o chefe! — brincou Gregory, mas algo em seu tom não agradava muito Rhee.
— E eu sou Rick. Lidero uma comunidade... — Grimes pretendia começar a apresentar seus amigos de Alexandria, mas o homem grisalho o cortou.
— Por que não tomam um banho?
Glenn franziu as sobrancelhas à sugestão estranha. Reparou que o tal Gregory mirava Maggie de maneira ríspida. Como se vê-la amamentando o incomodasse de algum jeito.
— Estamos bem, obrigado — Rick agradeceu sarcasticamente. Rhee viu que Dixon encarava o sujeito com olhos ariscos e irritadiços. Mavelle, perto dele, cruzava os braços. Michonne mantinha o semblante sisudo como o do pai de Carl, assim como o adolescente Grimes. Billy Ray e Rebecca mostravam expressões de clara surpresa e ofensa para Gregory. Paul Rovia pareceu engolir em seco.
— Jesus vai mostrar onde podem se lavar! Depois voltem quando estiverem prontos. — O mandatário mirou Rick Grimes com um sorriso falsamente polido, tendendo para um trejeito irônico. — É difícil manter esse lugar limpo, sabem.
— Yeah, certo. — retrucou Grimes. Glenn aferiu o olhar penetrante de Rick para o líder de Hilltop. Dava-lhe sua melhor expressão de descaso.
— Sigam-me — Jesus falou, claramente sem jeito. O tom alegre de sua voz se esgotara.
Glenn Rhee subiu junto com sua esposa as escadas, guiado por Paul Rovia. Rick desceu alguns degraus para falar com Maggie. Rhee reparou que tampouco Mavelle ou Daryl aceitaram a sugestão de tomar banho. Continuaram parados na sala.
— Você toma banho primeiro e vai falar com ele.
— Por quê? — sua esposa perguntou, surpresa com o pedido.
— É melhor que não seja eu. Além do mais, está na hora de você começar a se responsabilizar por essas coisas também. — Grimes deu seu voto de confiança para que a esposa de Glenn mostrasse suas habilidades de liderança.
Depois de quase todos aceitarem a sugestão absurdamente ofensiva de Gregory, Maggie tentou negociar com o líder do Alto do Morro, sem sucesso. Em seguida, Jesus se reuniu com o grupo em uma sala separada da Casa Barrington. Esclareceu-lhes que precisavam negociar e que poderia fazer seu líder ceder e conseguir um acordo lucrativo para eles, se lhes dessem alguns dias. Enquanto o grupo deliberava e concordava com a tentativa de Paul Rovia, ouviram vozes soando angustiadas nas ruas de Hilltop.
Jesus e o grupo de Rick saíram da construção suntuosa, seguindo uma discussão que se dava perto dos jardins do casarão.
— O que foi? — Gregory, que já estava do lado de fora, perguntava a um homem desconhecido.
— Eles voltaram!
— Ethan, o que houve com os outros? — a jovem mulher de cabelos castanhos chamada Crystal perguntou. — Onde estão Tim e Marsha? — Sua voz saiu fina, assustada.
— Estão mortos! — o tal Ethan disse, e Glenn teve um mau pressentimento. Estava com Bethalie no colo, que assistia a discussão sem parecer se abalar. A pequena escondeu o rosto no peito do pai, seus bracinhos querendo abraçá-lo.
— Negan? — o líder de Hilltop demonstrou um ar cansado e aterrorizado. Como se tivesse envelhecido alguns anos subitamente. Bethalie soltou um suspiro incomodado no colo de Rhee.
— ...Sim — confirmou o homem chamado Ethan.
— Mas tínhamos um acordo! — Gregory parecia exaltado. — Ele disse que não bastava, que a carga estava leve...? — Aparentava tentar compreender.
— Não. — O recém-chegado meneou a cabeça, nitidamente perturbado.
— Ainda tem o Craig! — Crystal se lembrou de outro desconhecido para Glenn Rhee.
Ethan caminhou para perto de Gregory. Glenn, alguns metros distante, reparou que os olhos do homem estavam marejados. O ex-entregador de pizzas apertou Bethalie com mais cuidado em seus braços, que agora balbuciava como se fosse chorar.
— Falaram que o manteriam vivo, que o devolveriam para nós... Se eu entregasse um recado para você — confidenciou ao mandatário do Alto do Morro o até então desconhecido.
— Diga? — Gregory perguntou, soando agoniado.
— Eu sinto muito! — O tal Ethan avançara contra seu líder, esfaqueando sua barriga a sangue frio. Subitamente, por instinto paterno, Glenn deu alguns passos para trás, puxando Maggie Greene consigo com um de seus braços.
Rick e Michonne reagiram de um átimo. Correram até o homem que tentara assassinar Gregory, o puxando para longe, enquanto o governante era amparado por membros de seu pequeno feudo.
— Me soltem, eu tive que fazer isso! — o homem se punha a gritar. Alto, jovem e de força física considerável, o sujeito se soltou do enlace de Michonne, a empurrando grosseiramente para o lado. Glenn viu que Rick se enfureceu, enquanto o pai de Bethalie tentava levar sua filha e Maggie para longe da confusão.
Grimes se jogou como um bólido furioso na direção de Ethan. Os dois rolaram pelo chão, trocando socos, pontapés e agressões diversas. Daryl teve de conter um sujeito que queria se meter na briga para proteger Ethan, enquanto Billy, Becky, Mavie e Michonne apontavam armas para outros habitantes que queriam se aproximar e talvez gerar mais problemas.
Contudo, o homem pareceu levar a melhor. Depois de receber alguns socos seguidos do mandatário de Alexandria, Ethan conseguiu colocar uma faca no pescoço de Rick, seu corpo travando o dele embaixo de si, largado na grama da verdejante Hilltop.
— Solta o meu pai, AGORA! — ordenou Carl. Sua voz pareceu estranhamente com a de Rick. Glenn, a essa altura, já afastara Maggie e Bethalie até a soleira de um trailer.
— Afastem-se! Quem tentar me deter vai matar meu irmão! — Pelo visto, o homem atormentado falava de Craig.
— Larga a faca! — Michonne urgiu, retirando a katana da bainha. Bastou a espadachim fazer o movimento para desembainhar sua lâmina que tudo acabou. Sem que ninguém previsse aquilo, Carl Grimes se aproximara com uma de suas facas e a cravara no pescoço de Ethan, assim que ele moveu o rosto para fitar a mulher de dreads compridos.
O sangue do homem assassinado pelo filho de Grimes molhou o rosto do policial por completo. Daryl, Billy, Mavelle e Rebecca ainda tinham trabalho para conter a população de Hilltop, mas eram poucos os que continuavam se movendo. A maioria fitava Rick, embasbacada.
Um silêncio fúnebre se ergueu sobre tudo e todos, terminado apenas quando o pai de Carl, ajudado a se levantar por seu filho, passou seus olhos pela multidão.
— O quê? — falou, em um tom tão indiferente que fez Glenn e Maggie se entreolharem. Bethalie começou a chorar, finalmente. O pai da pequena se sentiu terrivelmente mal, a embalando o melhor que podia e falando um “shh, papai está aqui” tranqüilizador aos seus ouvidos. Sua bebêzinha tinha apenas uma semana de vida e já testemunhara mortes violentas.
— Ethan! Você o matou! — Crystal, revoltada, conseguiu se soltar com violência do aperto de Rebecca, que a segurava pelos braços. A garota loira bamboleou as pernas para trás, se mantendo equilibrada graças à sua agilidade espetacular. A jovem mulher de cabelos castanhos correu até Rick Grimes.
— Ele tentou me matar e matar Gregory também! — rosnou Grimes em retorno, mas ela não esperou. Desferiu-lhe um cruzado de direita potente em seu rosto. Maggie conteve uma exclamação ao lado de seu marido, apertando sua mão e se movendo para ainda mais perto da filha nos braços do pai. Bethalie chorava alto.
Michonne pulou como uma pantera em cima da mulher, a fazendo cair no chão e a deixando lá deitada. Rick já tinha retirado seu revólver do coldre, e o apontava para quem quer que se aproximasse. Carl, ao seu lado, fazia o mesmo.
— Larguem as armas! — Kal, o homem de traços asiáticos como os de Glenn, que estava antes nos portões, demandou.
— Acho que não — respondeu sarcasticamente o pai do adolescente.
— TODO MUNDO, CHEGA! — Jesus correu para terminar o rebuliço. — Acabou! — compeliu, se pondo como uma barreira humana entre os grupos que já haviam se dividido.
— Ethan era nosso amigo, mas não vamos fingir que ele não era um covarde — disse em um tom mais brando, fitando os moradores do Alto do Morro. — Ele nos atacou. Ele causou isso. E essas pessoas o impediram — Paul lembrou. Gregory ainda estava deitado gemendo de dor na grama.
— E o que eu posso fazer? — Rick insistiu no mesmo tom de sarcasmo.
— Abaixe a arma. Já fez o suficiente — o diplomata pediu, com urgência.
Depois de acalmar seus amigos, Paul Rovia levou Glenn e os outros para dentro da Casa Barrington. Bethalie já dormia novamente. Ela era mesmo durona. Resistia bem às tensões do dia. Paul foi rapidamente tratar dos primeiros socorros de seu líder junto a outros membros de sua comunidade, e depois de alguns longos minutos retornou para dar notícias aos moradores de Alexandria reunidos.
— Olhem... O Dr. Carson conseguiu salvar o Gregory. Ele está sofrendo, mas vai sobreviver. — Jesus soltou um lamento cansado.
— E agora? — Carl Grimes perguntou, parado perto do pai.
— Esse tipo de coisa não costuma acontecer por aqui, mas... Está resolvido. — Paul parecia olhar para cada um com olhos envergonhados, como se pedisse desculpas. — Precisam saber que as coisas não são tão simples quanto parecem. Só me dêem um tempo para resolver tudo.
— Ouvimos falar de um nome, Negan. — Rick se aproximou de Jesus, seus olhos azuis faiscando perigosamente.
— Pareciam com medo quando o mencionaram. Isso me lembra um tratamento muito parecido. — Ficou óbvio que Grimes fazia referência a Hashimoto.
— Quem é esse cara? — cobrou, fuzilando Paul Rovia por suas íris em brasas. Jesus coçou a barba, incomodado. Parecia frustrado.
— Negan é líder de um grupo que usa a alcunha de “Salvadores” — disse. — Quando o muro foi construído, os Salvadores apareceram.
A atmosfera da sala se tornou mais uma vez tensa. Tão tensa quanto estiveram os jardins durante a briga e morte de Ethan.
— Conversaram com Gregory em nome do chefe deles, fizeram muitas exigências e ameaças. E mataram um de nós — Jesus suspirou. Glenn reparou que Mavelle e Daryl trocaram olhares nervosos, assim como Billy Ray e Rebecca. Maggie aninhava Bethalie sonolenta em seus braços, enquanto Rhee apertou seu ombro, também nervoso.
— Era o Rory. Ele tinha só dezesseis anos. Espancaram o garoto até a morte bem na nossa frente. Falaram que precisávamos entender de cara — confessou Paul, torcendo os lábios. Glenn sentiu a angústia crescer em seu peito. Mais uma Hashimoto não.
— Gregory não é bom em confrontos. Não é o líder que eu escolheria. Mas... Ele ajudou a construir este lugar. E as pessoas gostam dele — Jesus deu de ombros. — Ele fez um acordo: metade de tudo. Nossos suprimentos, colheitas, gado. Metade vai para os Salvadores.
— E o que vocês ganham em troca? — Daryl perguntou, sua voz rascante demonstrando a mesma preocupação de todos os outros, disfarçada em seu tom costumeiramente turrão.
— Eles não atacam este lugar. Não nos matam — acrescentou Paul Rovia, levantando as sobrancelhas.
— E por que vocês não os fecking matam, então?! — questionou a irlandesa amiga de Glenn. Ela se aproximou mais de Daryl, que lhe deu um olhar atento.
— A maioria daqui não sabe lutar. E nem temos munição, mesmo que soubessem não adiantaria de muita coisa... — admitiu Jesus, levantando os ombros mais uma vez.
— Quantos Negan tem? — Rick Grimes indagou.
— Não sabemos. Avistamos grupos de até vinte pessoas — respondeu Paul.
— Calma aí... — Carl começou a falar, sua voz assertiva, perto do pai. — Eles vieram aqui, mataram um moleque e vocês dão metade de tudo?! Isso é conversinha deles! Esse Negan não deve ser de nada — o Grimes mais jovem contestou, soltando um “tsc” audível.
— Não temos como saber — acresceu o diplomata de Hilltop, impotente. Glenn reparou que Daryl se moveu, impaciente, perto de Mavie.
— Poderíamos pensar em uma combinação. Poderíamos nos livrar de Negan. Em troca de comida, suprimentos, uma das vacas — sugeriu o caçador e rastreador do grupo. Mavelle, perto dele, o fitou cuidadosa. Ela parecia reticente.
— Confronto realmente jamais foi um problema para nós. Mas precisamos conhecer esse inimigo — adicionou o líder de Alexandria.
Os amigos de Glenn e Jesus se entreolharam. Beth, entregue a um sono tranqüilo, provavelmente não tinha idéia do que se passava. Tampouco poderia imaginar que boa parte de seu destino seria ali decidido, em alguns momentos.
— Vou falar com Gregory. Logo conversamos outra vez — garantiu Jesus, saindo da sala e deixando o grupo de Alexandria a esperar.
Depois de mais alguns minutos, Glenn, com sua filha adormecida embalada em seus braços, olhava pela varanda de um dos andares superiores da Casa Barrington. Aquela vista para uma paisagem utópica era realmente linda. Mas sua mente estava ocupada com diversas preocupações para apreciá-la.
— Eles têm comida e nós não. Não temos nada em quantidade suficiente — Rick atestou, caminhando de um lado ao outro na varanda. Apenas Grimes, Michonne, os pais de Bethalie e sua pequena, Carl e o casal de arqueiros de Alexandria estavam reunidos.
— Não temos nada a não sermos nós mesmos. O que podemos fazer. — O policial abaixou a cabeça e a levantou depois, parecendo decidido.
— Essa vai ser a transação — decretou Rick Grimes.
— Vai nos custar alguma coisa — Maggie alertou, ao lado de seu marido. Glenn sabia. Não sairiam desse novo problema sem mais perdas.
Ouviram passos se aproximando. Logo, Paul Rovia apareceu pela porta.
— Gregory acordou e quer conversar — declarou. Rick fez menção de segui-lo, mas o diplomata do Alto do Morro levantou a mão, o impedindo.
— Com a Maggie. Ele quer falar com a Maggie — esclareceu Jesus. Rick e os outros fitaram a esposa de Glenn. Rhee sentiu orgulho de sua mulher, enquanto abraçava Bethalie consigo.
— Você dá conta — o ex-entregador de pizzas deu suporte para sua amada. Maggie o mirou hesitante, mas o olhar de Glenn foi suficiente para lhe dar coragem.
— Deanna tinha razão ao seu respeito. — Rick deu um sorriso torto para a filha de Hershel, colocando uma de suas mãos em um de seus ombros.
Glenn olhou para sua mulher se afastando, enquanto Paul sussurrava algo como “já peço desculpas, o Gregory sabe ser um idiota” para a esposa de Rhee. Ficando levemente preocupado, o descendente de asiáticos não teve outra escolha além de aguardar.
Demorou algum tempo, mas Maggie Greene tivera uma conversa bem sucedida. O orgulho de Glenn Rhee por ela apenas aumentou. Sabia que Maggie conseguiria. Assim que ela contou ao grupo sobre como convencera Gregory a aceitar termos até melhores do que os antes combinados entre eles, seu marido foi até ela e a beijou, satisfeito.
Se aquele era o preço a se pagar para mantê-la segura, para manter sua filha segura, ele estava disposto. Enfrentaria Deus e o mundo, mas nada aconteceria a Beth e a Maggie.
Os moradores de Alexandria pouco a pouco passaram a se organizar para sair de Hilltop, levando metade da produção da comunidade para casa. Jesus chegou a comentar, perto de Rhee e Greene, que nem Negan conseguira tanto de primeira.
Alguns metros próximo de Glenn, um homem chamado Andy os olhava feio. Rick foi até ele, concretizar o restante do que haviam pensado.
— Nós vamos precisar da sua ajuda — Grimes falou com o máximo de gentileza que podia reunir. O sujeito continuou o olhando de maneira desdenhosa.
— E por que eu te ajudaria? — retorquiu o homem friamente.
— Porque pretendemos resgatar o Craig. E outros dos seus. Jesus nos contou sobre os que foram forçados a trabalhar para Negan — testificou Rick. Andy pareceu mais aberto ao diálogo, mas ainda fitava Grimes como se o policial o desagradasse muito.
— Jesus nos disse que leva suprimentos a ele desde o começo. De todo o tipo. Vamos para essa base, e vamos resgatar o Craig — garantiu Rick Grimes, reiterando suas palavras.
— Só vão resgatá-lo se levar a cabeça do Gregory — retrucou o sujeito, descrente.
— Não vamos precisar. Precisamos só saber o que você sabe dessa base do Negan. Por isso, venha conosco. — Glenn apenas ouviu, guardando boa parte dos mantimentos no trailer, enquanto Rick tentava convencer Andy.
— Está bem — o homem enfim cedeu. — Mas por que eu poderia ter certeza de que elaboraremos um bom plano? — desconfiou o morador de Hilltop.
— Porque nós temos ótimos atiradores e Jesus. Além de um bom cientista. E também... Temos um ótimo arquiteto.
****
Ele estava se sentindo tão bem.
Com um sorriso frouxo, levou o cigarro até os lábios, inalando a fumaça. Sentiu a nicotina penetrando seus pulmões, relaxando sua caixa torácica naquele efeito já conhecido há tantos anos.
Realmente, nada daquilo era particularmente novo. Mas, ao mesmo tempo, era totalmente inédito.
Ao passo que expelia a fumaça de seu cigarro, seus olhos se perderam por alguns segundos na noite estrelada de inverno acima da pequena varanda de seu quarto, projetada para os fundos da comunidade. Sentado no chão, com as costas contra a parede da casa, seus olhos sorviam a vista do céu de Alexandria e da mata ao redor daquele amplo condomínio de casas. Era mesmo uma visão bonita e relaxante, mas ele sabia que sua sensação de alento tranqüilo que o revigorava por dentro não tinha a menor relação com a beleza bucólica do lugar.
— Pode parar por aí. — A voz de Carol Peletier falou, sentada consigo, abraçada em seus braços. Soou simultaneamente meiga e sem jeito. As costas da mulher se apoiavam no tronco do rapaz, que a aninhava contra si naquela noite não tão gélida assim de inverno.
— Não estou fazendo nada! — Tucker Hayes passou o cigarro que dividiam para ela, que não se fez de rogada e logo o tragou. Carol expeliu a fumaça, virando o rosto para fitá-lo com um meio sorriso.
— Eu consegui te ouvir sorrir. — A mulher deu um sorriso enviesado, colocando o cigarro de volta nos lábios dele. Tucker a abraçou com um pouco mais de firmeza, rindo silenciosamente enquanto fumava. Era impressionante como ela parecia rejuvenescer a cada dia, porque demonstrava mais felicidade e sorria com uma boa frequência. O rapaz sentia uma espécie de orgulho pateta por saber que tinha responsabilidade nisso.
— Só você pode sorrir que nem boba, então? — ele debochou em retorno, dando-lhe o cigarro que estavam prestes a terminar.
— Eu?! — Carol voltou o rosto para o rapaz, outra vez, se fingindo surpreendida. — Eu não estou... — Hayes começou a lhe fazer cócegas nas costelas, e Peletier não pôde se conter e começou a rir tolamente.
— Para! — exigiu, mas o rapaz só desistiu da travessura quando ela fez menção de se afastar, lhe dando um empurrão brincalhão em um dos ombros. Um sorriso largo ainda iluminava o rosto dela e seus olhos de um azul muito claro.
— Eu realmente me preocupo com a sua idade mental — troçou-o, levantando-se do chão enquanto apagava o cigarro em um cinzeiro perto deles.
— Não precisa. Acho que já deve ter ouvido falar que eu sou atualmente o chefe das construções e expansão de Alexandria! — Tucker contou vantagem, entre o debochado e o orgulhoso.
— Não disse que me preocupo só com a sua idade mental — rebateu a mulher, estreitando os olhos em deboche. O arquiteto arregalou os dele, levantando as sobrancelhas e fingindo-se de ofendido, mas ainda sorria.
— Então, já que é tão mais sábia e madura do que todos nós, dona Peletier... — Usou a forma de tratamento que ela detestava de propósito, e Carol estreitou ainda mais o olhar, mas continuou com a expressão risonha. — ...Você deveria se envergonhar de tirar vantagem de um cara ingênuo como eu, até se esgueirando para fumar escondida na minha varanda como uma adolescente rebelde — brincou, e Carol cruzou os braços, fazendo menção de abrir a porta da varanda, rindo um pouco.
— Eu não sou perfeita — redargüiu, e Hayes já tinha a resposta na ponta da língua.
— Tenho que discordar — gracejou, e ela voltou o rosto para ele com um sorriso maior nos lábios. Percebeu que Carol ficou outra vez sem jeito. Ele achava aquilo de uma meiguice sem igual. Tão contrastante com a personalidade sempre segura dela.
— Pare de falar besteira, garoto — Carol Peletier soltou um de seus mantras a respeito de Tucker enquanto ele já se aproximava para beijá-la. Porém, ao adentrarem o quarto de Hayes — palco de outras agradáveis práticas do casal naquela mesma noite —, tiveram uma surpresa.
Sob a luz de um lampião aceso na cabeceira de Tucker, um homem se sentava na cama de lençóis embolados. Ele olhava o retrato que Hayes tinha de sua irmã e de Cathy, retirado da gaveta aberta.
— MAS QUE PORRA...?! — Tucker Hayes arregalou os olhos, franzindo o cenho, a mão direita desajeitadamente tentando achar sua pistola no bolso do casaco. Tentou se colocar na frente de Carol, mas ela empurrou seu braço para o lado, ela mesma com a pistola curta que tinha erguida, apontada para a cabeça do sujeito.
— O que quer? — A voz da mulher se tornara fria, ameaçadora, o tipo de tom que ela usava em missões com risco de vida. Para os outros.
O coração de Hayes, que quase parara com o susto, voltou aos poucos a um ritmo menos acelerado. Percebeu que se tratava de alguém conhecido. O homem colocou a fotografia de volta na gaveta aonde estava guardada e a fechou com calma
— Rick e eu precisamos de você — o sujeito que gostava de ser chamado de Jesus disse, fixando seu olhar em Tucker, como se invadir seu quarto e sua privacidade não fosse nada de mais.
— E não tinha um jeito menos dramático e completamente babaca de fazer isso, vadia?! — perguntou o rapaz, incrédulo com aquele absurdo. Paul levantou as mãos, dando uma risada sincera.
— Olha, até tinha, mas a casa estava vazia, exceto por Morgan. Ele disse que você deveria estar aqui em cima e que eu poderia subir, e quando entrei no quarto achei que não tinha mesmo ninguém. Só que... Enfim... — Olhou para ele e para Carol. — Quando percebi que estavam na varanda, não quis atrapalhar. Sabe como é. — Deu de ombros, se levantando e dando um olhar amigável para os dois.
— Não, não sei como é! — retrucou Hayes, mas Peletier colocou uma das mãos em seu ombro, meneando a cabeça de leve. Como se desse a entender que a discussão não levaria a lugar algum.
— Bem, eu vou descer. Rick está esperando na casa que era dos Monroe. Ele falou que vão te explicar tudo. — Paul o encarou parado por algum tempo, como se aguardasse que o rapaz o acompanhasse.
— Você ‘tá de sacanagem? Acha que eu vou simplesmente descer e que se foda? — Tucker abriu os braços, descrente. Contudo, Carol Peletier pareceu aberta para o diálogo. Deu um olhar rápido para o rapaz, e depois fitou Jesus, aproximando-se dele.
— Vamos, então — disse ela. Saiu dos aposentos, abrindo a porta e descendo as escadas.
Paul piscou os olhos, ainda encarando Tucker.
— Puta que pariu... — resmungou o rapaz, olhando feio para Jesus e passando a seguir Carol.
Em poucos minutos, o trio já se reunia na sala de jantar que antes fora de Deanna. Lá, toparam com Rick, Michonne, Eugene, Daryl, Mavelle, Rosita e Tara. Um sujeito que chegara naquele dia, chamado Andy, também estava presente.
— Então, a idéia é a seguinte... — Rick Grimes começou, passando uma das mãos pela nuca, cansado. — Nós vamos para uma base a alguns quilômetros daqui. Andrew nos explicou tudo sobre sua localização — Grimes asseverou, concentrado. Mostrava alguns mapas e plantas arquitetônicas desenhados a mão, dispostos em cima da ampla mesa de madeira. A um olhar, Hayes percebeu o amadorismo daqueles desenhos.
— Temos que resgatar algumas pessoas de Hilltop. Dentre elas, meu namorado — Jesus contou, olhando com seriedade para todos. Hayes levantou uma sobrancelha, surpreso.
— Resgatar do quê? E o que querem que eu faça?! — Tucker indagou, sem compreender nada.
— Precisamos dos seus conhecimentos. Depois de salvar os reféns, vamos detonar o lugar. E não queremos deixar pedra sobre pedra. É uma mensagem importante, a que queremos passar — Rick disse determinado.
— Eu sei como distrairemos os nossos algozes. E Andy será uma das principais distrações, e o que ele levará para eles — Paul ratificou, movendo seu queixo na direção do morador de Hilltop.
— Eu sei como montar uma bomba caseira. Mas não posso dizer exatamente aonde devemos instalá-la — admitiu Eugene, olhando com cuidado para seu amigo arquiteto. Hayes se chocava com aquela determinação aleatória de todos eles.
— Dá para alguém explicar que porra está acontecendo aqui?! — Tucker demandou, sério. Trocou um olhar com Carol, mas ela não o fitava. Apenas mirava seus amigos, seu rosto indecifrável.
— Fizemos um acordo com Hilltop, por toda a comida que trouxemos hoje. Temos de ajudá-los — Mavelle disse com seu sotaque estrangeiro. Daryl, perto dela, apenas olhava em silêncio para o grupo, tão avaliador quanto Carol.
— Alguns dos moradores da comunidade deles — Dixon apontou para Andrew — Foram escravizados nessa base. Trabalham lá dia e noite em troca de ter o que comer, onde dormir com segurança, enfim — o arqueiro esclareceu, e Tucker sentiu um vazio na boca do estômago.
— Está na hora de todos saberem sobre Negan. — Michonne complementou, austera. Carol Peletier e a espadachim trocaram um olhar demorado.
— Quem é essa vadia de Neg... — Hayes, agastado com tamanho suspense dúbio, já ia praguejar, mas foi cortado.
— ...Ele é nossa nova Hashimoto — esclareceu, curto e grosso, Rick Grimes.
Tucker piscou os olhos. Sentiu seu coração acelerar num ritmo descompassado, enquanto um peso incômodo desabava por sua garganta seca.
Ele sabia que aquilo aconteceria. No mundo doente, sádico e caótico em que viviam, era mesmo apenas uma questão de tempo.
Deu um olhar rápido na direção de Carol Peletier, que continuava silenciosa. Em uma mesma fração de segundo, sentiu receio por qual seria a real pretensão daquela missão. Desconfiou de que aquilo reacendia dúvidas complicadas, talvez ainda não resolvidas, dentro daquela mulher de quem ele se aproximara tanto.
Temeu, por fim, algo ainda mais obscuro, profundamente escondido nos recônditos de seu âmago.
Se Hashimoto pudesse atestar o que acontecia, provavelmente gargalharia de satisfação.
Tucker temia não estar preparado para enfrentar aquilo outra vez.

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