Hunter's Instinct

49 Episódio 49 - Bringing It All Back Home


Notas iniciais
OIÊ MEUS AMORES! Desculpa por ter demorado uma semana a mais do que de costume para postar! Minhas semanas de provas começaram (sim, semanas, porque só vai acabar no sábado que vem), fora que eu fiquei enrolada com o prazo pra entregar o primeiro capítulo da monografia... Mas tudo deu certo e minha orientadora amou, então estou BEM feliz! Já chego então com um capítulo bem grandinho, espero que o tamanho não assuste vocês... Teremos três POVs! Um do Daryl, outro do Billy Ray e um da Peggy! Eu recomendo MESMO que leiam o da Peggy ouvindo o link da música que vou inserir no meio do capítulo, ahahaha! Vai fazer uma diferença e tanto! Esse capítulo mistura muitas emoções... Raiva, rancor, medo, angústia, ansiedade... Mas também emoções boas! SIM, BEM BOAS! Preparem-se para ficar bravas com o POV do Daryl, hahahaahah! E também para os feels dos POVs do Billy e da Peggy. Acho mesmo que vão gostar! Dedico este capítulo à leitora Harley Quinn, agora com o perfil conhecido como Joke, essa linda que me fez MARAVILHOSAS QUATRO FANARTS PERFEITAS, que inseri juntas no fim desse capítulo em uma montagenzinha! Sério, além dessa menina escrever bem demais, ela ainda por cima desenha muito! Amei, estou MUITO lisonjeada pelos presentes, flor! =D Agradeço também aos leitores que sempre comentam aqui na fic! Meus queridos Joke (de novo), Sami, Vivi Costa, marcelammota, Filho de Kivi, Anna L, Giovana Catalani e Thaaty! Vocês são fodas, o retorno de vocês é essencial para manter o bom andamento da fic! Também agradeço a Babi Prongs, que costuma comentar por outros meios, mas que usou o sistema de reviews da fic no último capítulo, hehehehe! E agradeço a leitora nataliasilveira, que voltou!!! o/ Menina, fiquei MUITO feliz de te ter de volta nos comentários! Espero que apareça sempre. Dito isso, fica o recado para a sumidinha Luna Miller! Menina, cadê você? :( Estou preocupada! Apareça! E, por enquanto é só... Se preparem para esse episódio cheio de feelings! Adianto que as fangirls, especialmente as românticas... Vão se amarrar, ahsushsue! Ou ao menos eu assim espero! Beijos e boa leitura!

Cerca de uma hora já havia se passado desde que Daryl baixara o rádio comunicador, encerrando aquela conversa repentina com Mavie.

O caçador arqueiro, de início, ficara aliviado. Apenas ouvir a voz da Esquila outra vez, garantindo que haviam chegado em Alexandria e que tudo estava bem, pôde acalmá-lo de pronto.

O mesmo alívio se prolongou ao escutá-la indagando como estavam Abraham e Sasha, e como ele próprio estava. A voz de Mavelle naquela entonação doce... Tinha um efeito muito reconfortante sobre ele, sobre seu espírito.

Mas, de alguma forma, o arqueiro ainda estava irrequieto... Por alguma razão desconhecida, Daryl sentia certa urgência em voltar para Alexandria. Aquilo não fazia sentido algum, ele sabia. Mavie lhe garantira, pelo walkie talkie, que tudo estava correndo bem.

Contudo, mesmo ouvindo a voz afirmativa e calma da Esquila, mesmo tranquilizado pelas boas notícias... Algum fator levou a intuição de Dixon a lhe dizer que algo não saíra como esperavam.

Porra, Esquila, você tá escondendo alguma coisa.

— A gente devia voltar — disse Daryl, assim que concretizou o pensamento, levantando o walkie talkie. Logo veio a resposta de Abraham, em seu comunicador.

— Você tá chapado?! — o soldado ruivo indagou em resposta, incrédulo. — Por que caralhos faríamos essa merda?

— Acho que já dispersamos eles — Dixon disse, entredentes, impaciente. Referia-se aos errantes, já quilômetros e quilômetros distantes de Alexandria.

— Rick falou que tínhamos de percorrer toda a quilometragem do plano... — A voz cautelosa de Sasha se fez ouvir.

— Já estamos a quase cento e cinquenta quilômetros de distância. Viajamos a porra do dia inteiro — redarguiu Dixon, um pouco irritado. — Fora que está cheio de pequenas cidades aqui onde estamos, então os errantes vão se espalhar e comer os restos que estiverem jogados por aí. Podemos desviar e ir por... — A voz de Daryl Dixon foi subitamente interrompida por uma torrente de tiros disparados contra o carro de Sasha e Abraham.

Subitamente desperto, o lado instintivo de Dixon se manifestou de prontidão. Mais intuitivo e preparado para as dificuldades do caos do mundo novo que muitos dos seus amigos sobreviventes, o caçador jamais era pego de surpresa.

Nisso, Dixon pensou rápido, na mesma fração de segundo dos disparos. Já havia guardado e desligado o walkie talkie, escondendo-o em sua jaqueta de couro, quando guiou a moto em movimentos de zigue-zague para escapar do ataque inesperado. Pelo retrovisor da motocicleta, pôde ver que um carro escuro os seguia, alguns metros mais atrás.

No mesmo momento, o carro vermelho guiado por Sasha fez uma curva brusca, fazendo com que o perseguidor passasse em disparada. Os tiros agora foram direcionados a Daryl.

Balas passavam zunindo por seus ouvidos, atingindo parte da lataria da moto, inclusive despedaçando o retrovisor direito. Naquela fuga frenética, Dixon foi incapaz de manter a motocicleta sob controle naquelas manobras improvisadas, derrapando com ela em meio a uma viela estreita.

Repleta de errantes.

Sem escolha, Dixon teve de se levantar rápido, já aprumando sua balestra para eliminar os mortos-vivos que o cercavam. Daryl os derrubava, enquanto corria para longe, seus ouvidos aferindo o som do rifle sniper de Sasha sendo disparado, bem como da metralhadora de Abraham. Um pouco mais controlado, o arqueiro pôde raciocinar que ambos sobreviveram até então.

Ouviu o som de uma colisão longínqua, enquanto a quantidade abissal de errantes próximos dele o obrigavam a seguir adiante. Sem escolha, teve de torcer para que o carro perseguidor tivesse batido, e não o de seus amigos.

Daryl Dixon infiltrou-se em um matagal denso próximo, com árvores e arbustos espinhosos que inclusive cortaram fundo sua pele, algo que sequer sentiu pela adrenalina do momento. Muitos errantes foram dispersados naquela fuga, uma vez que o terreno os confundia.

O arqueiro correu pelo que poderia ter sido vinte e cinco minutos, mantendo um mesmo ritmo ligeiro constante. Seu coração palpitava acelerado, mas sabia que tinha o preparo físico para se recuperar. Depois de uma vida às margens da sociedade, tendo de batalhar com o próprio suor e esperteza para chegar ao dia seguinte... Era um fato inegável que Dixon já se habituara com a busca pela sobrevivência muito antes daquele horror todo acontecer.

Daryl já havia entrado fundo naquela floresta. Não tivera tempo de esconder sua motocicleta, que ficou para trás. Contudo, decidiu guardar sua jaqueta com o walkie talkie e uma arma reserva no tronco oco de uma árvore, camuflando-os com as folhagens secas de outono caídas no chão.

O local estava silencioso, exageradamente quieto. Dixon sabia muito bem o que aquilo significava. Seus ouvidos sempre aguçados não captavam os típicos sinais dos pássaros ou insetos noturnos, nem mesmo um rastejar próximo de cobras ou répteis que seriam típicos de um habitat como aquele. Apenas um vento frio de final de outono ululava agourento pelas folhagens, fazendo os pelos de seu braço eriçarem pela temperatura baixa... E por aquela sensação angustiante que já lhe acometera.

A lufada fria passava por seus ouvidos, deixando-o cada vez mais inquieto. Algo de muito, muito estranho estava acontecendo ali. Munido de sua balestra, o arqueiro avançava em meio ao completo breu nada convidativo da floresta abandonada. Não seria seguro ligar sua lanterna naquela localidade hostil.

Daryl não era facilmente impressionável. Depois da dura vida que levara desde criança, era necessário muito para acuá-lo ou deixá-lo ressabiado. Mas a impressão que tinha, naquele momento, era desconfortavelmente familiar... Algo que ele sentira semanas atrás, quando Aaron e o caçador saíram em missão de recruta.

Daryl Dixon sabia que estava sendo observado.

Um ruído estalado alto e um som abafado metros a sua direita lhe denunciaram a posição de alguém.

Dixon, reagindo de imediato com seu lado animal, tomou cobertura atrás de um grosso tronco de árvore. Vendo apenas sombras recortadas na escuridão profunda daquele breu, ele se moveu com reserva redobrada na direção do som.

Estava preparado para soltar a flecha, quando escutou o som rascante de um errante comendo alguma carne que encontrara.

Filho da puta. Pensou Dixon, sem manifestar sua fúria interior, andando até o errante que se refestelava com sua presa. O caçador chegou ainda mais perto, silencioso como um predador noturno.

Ao ver a figura de quem ali era devorado, Daryl sentiu como se levasse uma punhalada.

Servindo de banquete para não apenas um, mas três errantes simultaneamente, Daryl viu o corpo decapitado de uma criança de Alexandria, um menino que se chamava Leonard. Um garoto que a Esquila recentemente dera aula particular de violão, como fazia com Sam.

Ele o vira na manhã daquele dia, desejando boa sorte para os que saíam na missão de desvio dos errantes, usando aquelas mesmas roupas.

A camisa amarela já parcialmente rasgada, mostrando apenas partes da estampa do desenho animado que o garoto uma vez gostara, estava destroçada, manchada pelo sangue da criança. Suas tripas eram arrancadas pelas mãos grotescas dos mortos-vivos, levadas até suas bocas apodrecidas com o frenesi alimentício típico daquelas criaturas repugnantes.

Daryl Dixon não soube como agir por um segundo, horrorizado com aquela cena.

E foi então que o pesadelo continuou.

As folhagens crespas dos arbustos ao redor passaram a se mover. Os errantes ainda não haviam se dado conta da presença do arqueiro, até o momento que também escutaram o novo movimento. Retiraram suas bocas da carne morta da criança degolada, interessados no caçador.

Mal haviam se levantado, quando três disparos de arma de fogo precisos, simultâneos, os aniquilaram e os fizeram cair ao chão, por cima do corpo destroçado do menino.

Daryl olhou ao redor, a balestra mais uma vez em punhos, todos os seus instintos de caçador atentos ao máximo. Mas ele entendera.

Naquela situação, ele era apenas a presa.

— Sabe, eu falei para a tal “Esquila” — uma voz grave feminina, debochada, se fez ouvir em meio ao breu da noite — que nós não mexeríamos com vocês se vocês não saíssem da rota. Mas mudamos de ideia. — Dixon sentiu a proximidade súbita de três corpos atrás de si, na direção contrária de onde vinha a voz de mulher.

Voltou-se sobre si mesmo com a balestra, mas não pôde reagir. A centímetros de distância, três sujeitos munidos de AK-47s e rifles G36 apontavam suas armas na direção de seu rosto.

Em um sinal silencioso, os três homens ordenaram que Dixon abaixasse sua balestra. Por alguns segundos, Daryl hesitou. Olhou fundo nas sombras escuras que eram os orbes daqueles sujeitos desconhecidos, mas não conseguiu classificar emoção alguma.

Surpreso com aquela frieza mais do que explícita, o arqueiro não pôde fazer nada. Abaixou sua balestra, que foi chutada para longe, metros distante de onde estava parado.

— Eu não resisti. Tive de vir testá-los. — A voz feminina mais uma vez falou. Daryl voltou o rosto na direção dela, levantando os braços, rendido, para os sujeitos que miravam suas armas nele.

A sombra de uma mulher se aproximou de Daryl, mantendo-se cerca de um metro de distância dele. Em meio à escuridão, Dixon pôde ver que ela tinha traços similares aos de Glenn, asiáticos. Seus olhos escuros faiscavam de deboche, mas não revelavam emoção alguma além de algum tipo de empolgação cruel.

— Você, Abraham e Sasha se saíram bem, é verdade. Talvez fique aliviado de saber que seus amigos conseguiram escapar. — A estranha abriu um sorriso sem alegria, como se fingisse solidariedade. Atrás dela, uma outra mulher surgiu, munida de outra AK-47, já empunhada na direção do arqueiro.

Daryl não dizia nada, apenas observava, medindo, julgando seus algozes. Tentando entender o que realmente acontecera.

— O que você fez com eles? — Dixon perguntou em um rosnado de desprezo. Pelo posicionamento de todos, percebera que aquela era a líder do grupo.

— Sabe, você é interessante também — falou a mulher, enquanto apontava a pistola bobcat na direção da cabeça do arqueiro. Daryl pensou em como deveria se mover para tomá-la como refém, e se isso seria efetivo contra os outros que o cercavam.

— É o cavalo xucro do grupo. Posso ver tudo isso só em uma leitura rápida de você — a asiática afirmou. — Devia ser o pária, antes de tudo. Esse seu sotaque interiorano, seu nome e sobrenome... Suas rugas... Não teve uma vida fácil, teve, Daryl Dixon? — ela falou, como se mais uma vez forçasse empatia. — E agora eles te procuram e te valorizam. São espertos. Vocês são fortes. Sabem reconhecer a força um do outro. — Uma faísca de interesse surgiu em seus olhos.

— Ora, quem diria que o caipira indomado do grupo iria se envolver com a arqueira irlandesa... “Esquila” — riu a asiática, enfurecendo o caçador de imediato. — Ela é uma gracinha, não é? Meus homens ficaram bastante animados com os talentos dela — provocou, fazendo a ira de Daryl se elevar. Um dos sujeitos riu seco como se concordasse. O sangue do arqueiro ferveu de ódio, mesmo que ainda não soubesse o que acontecera com Mavie e seus amigos.

— Responda o que eu falei, sua vagabunda — Dixon não mais resistiu, grunhindo em cólera.

A asiática apenas o encarou de cima abaixo, como se calculasse algo. Em seguida, levantou a mão na direção dos três sujeitos que mantinham Daryl fortemente cercado. Um deles deu-lhe uma coronhada atroz na nuca, forçando o corpo do arqueiro a se curvar. Nesse mesmo instante, outro se movimentou de forma a amarrar os braços de Dixon, que até tentou resistir, mas foi rapidamente controlado com fortes socos e coronhadas de metralhadoras dos três. Sentiu seu maxilar trincar após as agressões, bem como sangue escorrer de seu nariz, já muito machucado.

Após ter sido contido pelas amarras em seus braços, o mesmo homem que os prendeu passou a amarrar suas canelas, juntando-as.

Forçado a se ajoelhar, submisso e humilhado, o caçador reparou que os capangas daquela bizarra mulher continuavam em silêncio, apenas aguardando possíveis ordens. A forma contida, calculada e planejada com que agiam era estranhamente bem organizada.

Agiam como se fossem soldados. Membros de um exército.

E enfim Daryl entendeu.

— Hashimoto. — Daryl Dixon cuspiu sangue no chão, receoso do que acontecera. De súbito, tudo fizera sentido. Os ataques a ele, Abraham e Sasha. A criança desfigurada aparecendo ali, na frente dele. As mentiras de Mavie.

Em meio aquele momento de fragilidade, quando boa parte dos mais habilidosos sobreviventes de Alexandria saíram para evitar que as centenas de errantes da pedreira se aproximassem da comunidade, seus inimigos entraram em ação.

Depois de todas as pistas que Dixon e Aaron deixaram naquelas armadilhas dos Wolves, quando perderam a mochila do recrutador mais antigo... Depois de todas as informações desesperançosas passadas por Tucker, o único fugitivo daquele grupo aparentemente lendário... A lenda se fazia verdade, em frente aos olhos do caçador. Em carne e osso, atacando-os no momento mais favorável para destruí-los, separá-los, e aterrorizá-los.

Hashimoto, que enfim se revelava, e seu Exército de Wyoming County... Estavam tentando tomar o controle.

— Até que para um white trash você não é tão burro assim — troçou a japonesa, em resposta ao xingamento proferido pelo arqueiro. Aquele maldito sorriso assustador continuava no rosto dela.

— Responda — Dixon insistiu, contido, porém abrasante, em meio à total fúria e a preocupação por seus amigos. Por Mavie.

— Seus amigos estão mesmo em Alexandria. Quer dizer, não Abraham e Sasha, eles estão enfurnados em algum lugar. Perdemos a rota deles. Não tem problema, viremos buscá-los depois, quando for a hora. — A mulher tinha tamanha propriedade em sua voz que chegava mesmo a deixar Daryl aflito.

— Mas os outros... Rick, Billy Ray, Glenn, a sua “Esquila” — sorriu ela, ainda mais. — Estão na comunidade de vocês, presos por um mar de rastejantes em seus muros. Sua comunidade não tem chances de sobrevivência — disse a mulher, categoricamente. Dixon, angustiado, percebeu que ela não parecia mesmo mentir.

— Quer dizer, é claro que há uma solução. Se aceitarem a minha ajuda. Tudo o que eu quero é que aceitem minha liderança, e que venham integrar meu Exército. Vamos treiná-los, e despertaremos o melhor de vocês. Alexandria será nossa, assim como minha base. Seus suprimentos serão nossos, sua mão de obra... Nossa, também. Sua força... Será nossa. — A mão de Hashimoto empunhou com firmeza a arma bobcat na direção do rosto de Daryl.

Em resposta, o arqueiro reuniu mais sangue das feridas em sua boca, e cuspiu aos pés dela. Levantou os olhos na direção da mulher, com o máximo de desafio que poderia ousar.

— Imaginei que recusaria, de início. Sua teimosia parece evidente, só de olhar na sua cara. Mas pode levar um recado para Rick, Daryl — Hashimoto falou, bocejando, tapando a boca com a mão.

— Avise-o que enquanto ele resistir, mais gente irá morrer. Vou me encarregar disso. Sei as fraquezas da sua comunidade. Sei como chegar lá. Sei como fazê-los caminhar para a morte sem que nem percebam que estão fazendo isso. — Ela sorriu outra vez, seus olhos não acompanhando o movimento de todo seu rosto.

— Isso não é uma ameaça vazia. Esse garoto que eu sei que você reconheceu morreu por uma invasão em Alexandria, comandada por mim. Ele, e muitos outros, que também se provaram fracos. Com pais fracos. Que não puderam lhes salvar. — Hashimoto não mostrava nenhum tipo de culpa ou compaixão pelo resultado de suas ações.

— É apenas uma questão de tempo até que os mortos-vivos coloquem vocês a prova. Muito antes de outra visita pessoal minha — ela garantiu, cruel. Em seguida, a mulher que mirava a AK-47 no rosto de Daryl entregou para a japonesa uma bolsa pequena. Hashimoto jogou-a aos pés do caçador, que viu que ela estava aberta. Dentro da bolsa estava a cabeça de Leonard. Seus olhos arregalados em um esgar de pavor, o crânio rachado.

— Faça uma gentileza para mim, já que decidi que vou te deixar vivo, por enquanto. Pretendia matá-lo para compensar a valente morte de alguns dos meus homens que cercaram seus amigos. Mas... Pensei melhor. Quero ver até onde você aguenta. Afinal, você pode se unir às nossas fileiras muito em breve. — A japonesa sorriu, novamente mais interessada.

— Por isso, só te peço uma coisa... Avise o seu amigo Rick que ele não manda mais em nada por aqui — alertou a mulher, parando de sorrir. O olhar penetrante e determinado que Hashimoto lhe deu, isento de qualquer tipo de empatia, deixou Dixon realmente desconfortável.

Em seguida, ela mirou a bobcat em sua coxa esquerda, e atirou.

Daryl sentiu a dor excruciante subir por sua perna, fazendo-o soltar um urro abafado rápido, pois logo em seguida recebeu mais coronhadas violentas até desmaiar.

[.....]

Ao acordar novamente, Daryl Dixon sentiu pontadas de dor como se seus músculos da perna esquerda se rasgassem por dentro. Contendo uma exclamação angustiada, o arqueiro levantou o rosto, retornando desesperado à consciência, e olhando ao redor. O alvorecer despontava ao longe, em um horizonte nublado.

O caçador estudou onde estava. Fora largado dentro de um carro preto, o mesmo que o seguira e tentara matá-lo. De portas fechadas, apenas um errante tentava alcançá-lo, colocando as mãos pelo buraco do vidro traseiro destroçado. No banco de trás, estavam sua balestra, sua jaqueta, e tudo o que escondera.

O arqueiro olhou para a frente, e reparou que a chave repousava na ignição. Colocando as duas mãos no volante, Daryl fez força para erguer-se de forma a ficar sentado. Enfim teve a oportunidade de encarar sua ferida.

O tiro que Hashimoto lhe dera entrara na lateral esquerda de sua coxa, o que, aparentemente, fora calculado. Dixon poderia até mesmo tentar arrancar a bala na mão, se suportasse a dor, cada vez mais agonizante. Seu sangue se espalhara por toda a calça jeans que usava, dentro e fora dos rasgos promovidos pelo tiro, deixando-a encharcada. Sentiu-se um pouco tonto.

Não vai arregar agora, não é, Darlena? Seu viadinho. A voz de Merle lhe falou, mordaz, em pensamento.

Você vai ser o último homem de pé. Daryl reconheceu a lembrança de Beth, de quem não se recordava há tempos. A tontura apenas aumentou.

Ele morreria mesmo ali, daquele jeito imbecil? Completamente humilhado por aqueles sádicos doentes?

Você tem a obrigação de voltar são e salvo, seu idiota.

Daryl ouviu a voz de Mavie ressoar em sua cabeça, muito mais alta do que as duas outras.

Poderia ser uma decisão arriscada, estúpida até, mas foi em frente.

Daryl Dixon pegou a própria faca. Rasgou a barra de sua camisa, e a amarrou em volta de sua boca, forçando-o a mordê-la. Atrás do carro, com as mãos por dentro do vidro traseiro despedaçado, o errante continuava rosnando, impaciente.

Em seguida, Dixon usou os dedos e a faca de caça para retirar a bala de dentro de sua carne.

Urrou de dor, sentindo que sua cabeça iria se partir em diversos pedaços, mas não desistiu. Quando sentia que ia trincar os dentes de tamanha aflição, arrancou a bala para fora da coxa, jogando-a pela janela do carro. Logo em seguida, tirou o pano da boca, arfando.

Não desmaie, sua bicha. Daryl se xingou em pensamento, arrancando mais um pedaço da camisa. Amarrou a ferida, pegando um pedaço do pára-brisas traseiro quebrado para manter o torniquete improvisado estável.

Daryl Dixon deu a partida, e o carro miraculosamente andou. Ignorou o melhor que pôde a dor penosa, o medo do que de fato acontecera com seus amigos, e persistiu. Jurando que faria seu melhor para matar Hashimoto, Dixon olhou pelo espelho do carro. O errante que tentava alcançá-lo já fora há muito deixado para trás.

*****



[NA NOITE ANTERIOR, PERTO DE ALEXANDRIA]

— Acorde! ACORDE, AGORA! — Uma voz de mulher insistia, desesperada. Ao fundo, ele podia ouvir o som irritante de zumbidos que não paravam.

Billy Ray abriu os olhos lentamente, piscando até finalmente conseguir desanuviar a própria visão.

Por uma fração de segundo, teve a impressão de ver uma garota loira curvada próxima dele, sacudindo-o pelos ombros. Por trás dela, a noite escura o impedia de enxergar ou ouvir qualquer coisa mais do que suas súplicas para que se levantasse.

Becky.

O coração do sulista do Alabama acelerou. Billy piscou os olhos, afoito, erguendo-se o mais rápido que podia, ainda tonto depois das agressões que sofrera. Encarou a jovem que agora se afastava, e pouco a pouco os cabelos dela escureciam, ao passo que a visão dele se esclarecia. O rosto da garota que o acordara tomou proporções menos angulosas e mais bochechudas.

— LEVANTA! — Mavelle Berry gritou, seus dentes salientes exigindo que Billy acordasse, erguendo-se com seu arco e flecha em mãos. Billy Ray soergueu seu próprio corpo, um tanto zonzo, tirando seu rifle de caça do chão da estrada onde fora largado desmaiado.

E, finalmente, passou a escutar a realidade do som que lhe soara como zumbidos.

Billy arregalou os olhos, chocado.

Uma multidão de carniceiros, mortos e mortos andantes a perder de vista, seguia na direção deles. A meros metros de distância. No meio da noite fria, Billy inspirou, nervoso, sentindo aquele cheiro hediondo infiltrar-se por suas narinas.

Mavie, perto de Billy, atingia os mais próximos com suas flechas. Mais na frente, Glenn e Rick derrubavam poucos mortos-vivos, baixas superficiais para a quantidade incontável de carniceiros daquela horda sem fim. Quando Billy enfim passou a ajudá-los, abatendo alguns com seu rifle de caça, perceberam que não havia jeito.

— DESISTAM! CORRAM, CORRAM! — Rick Grimes gritou, ordenando a recuada de todos, ele próprio com um tom desesperado na voz que surpreendeu Billy. Apavorados, todos os quatro correram na direção de Alexandria, visível a poucos quilômetros de distância.

— ABRAM OS PORTÕES! ABRAM OS PORTÕES! — Rick demandou, amedrontado, fechando o cortejo dos corredores desesperados.

Billy Ray não se lembrava de ter coberto uma distância de quilômetros em tão pouco tempo, cerca de dez minutos. Com o coração saltando da boca, ele apenas anteveu Michonne e Spencer abrindo os portões, angustiados, percebendo as proporções temerosas daquela multidão de mortos-vivos.

O sulista do Alabama atingiu alguns errantes com sua mira precisa de caçador, especialmente um que quase mordera a mão ferida de Rick Grimes. Entrou na comunidade, por fim, seguido do policial.

Billy Ray se curvava para recuperar o fôlego, ouvindo o estrondo dos portões sendo fechados às pressas. Estava nauseado por tamanho esforço em tão pouco tempo. Rick se jogara no chão, seus olhos fixos nos carniceiros que cercavam os portões, e, logo, impediriam a saída de qualquer um da comunidade.

Billy viu de canto dos olhos Maggie Greene, grávida, correr na direção do marido recém-chegado. Ouviu o som da voz de Glenn dizer um “não”, entrecortado, mas Maggie já parara defronte ao descendente de asiáticos. Da mesma forma, viu Annie e Peggy correrem até Mavelle, que as abraçou.

— Maggie, você ficou maluca? Não pode correr assim! — ralhou Glenn, sua respiração também arfante. Billy levantou os olhos, vendo que Maggie Greene segurava o rosto do marido, olhando-o como se não o visse há uma vida.

— Eu sabia que você ia voltar. Sabia que ia voltar pra nós. — Maggie abraçou e beijou o esposo, sem nem se importar com o rosto dele ferido e sanguinolento.

Glenn, também emocionado, enlaçou a esposa de volta. Apertou-a contra si, fechando os olhos. Billy se sentiu desconfortável, como se invadisse algo privado.

Em seguida, viu que Glenn Rhee se abaixara, beijando a barriga da esposa por cima da blusa que ela usava, em um gesto simbólico de conforto para seu filho que crescia lá dentro. Maggie Greene sorriu, e Billy também teve vontade de sorrir com a doçura da cena.

Becky. Billy Ray olhou ao redor, procurando pela jovem mulher circense. Próximos dele, enquanto Rick lhes esclarecia parcialmente o que ocorrera — dissera apenas que o plano dera errado —, estavam apenas Deanna, Spencer, Michonne, Glenn, Maggie, Aaron, Jessie, Tobin, Peggy, Annie... E Mavie.

Billy deteve seu olhar rapidamente no rosto da garota irlandesa. Mavie Berry também parecia perdida, encarando ao redor, como se finalmente compreendesse algo. Seus olhos brilhavam, como se ameaçassem cair no choro.

— Hey — ele a chamou, constrangido. Mavelle o encarou, devagar, como se não o visse direito.

— Não se afobe. A gente acabou voltando. Daryl vai voltar também — consolou-a, embora incerto do que dizia.

Mavie franziu as sobrancelhas, olhando para ele como se estivesse surpresa. Talvez não esperasse tamanha solidariedade de sua parte.

Aquilo era uma besteira. A garota irlandesa deveria saber que era uma pessoa importante para Billy.

Billy Ray, todavia, também se surpreendeu com sua própria atitude. Foi a primeira vez que falou de Mavelle e do outro caipira sem que aquilo o machucasse de alguma forma.

De alguma estranha maneira, por mais que estivessem agora cercados de mortos-vivos rosnando em suas portas... Por mais que os semblantes de todos refletissem medo e angústia... Billy Ray sentiu como se retirasse um peso de seu peito.

De algum jeito, sem que nem percebesse sua despedida... Billy fora libertado daquele sofrimento antigo. Daquele sentimento antigo, que em nada lhe fora construtivo.

Becky. Billy Ray pensou, querendo sorrir em meio ao caos.

— Ela voltou? — Billy Ray cortou algo que Michonne dizia. Perguntou diretamente a ela.

— Quem? — a espadachim retorquiu, surpresa.

— Rebecca — insistiu ele, impaciente.

Michonne apontou para uma direção específica. Billy Ray voltou-se para trás, seguindo o braço dela.

Morgan, Tucker e Becky se aproximavam dos sobreviventes recém-chegados, correndo. Rebecca, mais rápida que todos os outros.

Billy Ray sentiu algo quente subir por suas veias. Tudo a sua volta ficou menor, menos relevante, menos apavorante, menos aflitivo.

Rebecca estava viva, sã, inteira.

Ali, junto daquele moleque drogado, junto daquele estranho homem metido a monge... Junto dela. Ali era sua casa. O lugar que ele morreria para manter vivo. O propósito pelo qual ele vivia, pelo qual ele se esforçava, todos os dias, para ser alguém melhor. Para superar seus próprios tormentos pessoais, seus medos, sua culpa... Para se redimir.

Para voltar para casa. Para voltar para ela. Rebecca era, agora, sua referência de lar.

Billy jogou seu rifle de caça no chão, e correu ele mesmo na direção da garota loira. Surpresa, Becky parou, arregalando aqueles grandes olhos castanhos que tinha. Billy Ray sorriu ainda mais, abraçando-a, puxando-a pela cintura com tamanha alegria, que levantou a garota do chão, fazendo-a girar.

Não se importava que aquela cena parecesse sem propósito, naquele momento. Nada disso importava tanto assim.

Ainda olhava aliviado para o rosto daquela menina loira, que sorria com os olhos repletos de lágrimas, rindo boba com ele, segurando-o pelos ombros, quando Tucker e Morgan se aproximaram. Becky se afastou, mas Billy ainda a encarava enquanto abraçou um por um os outros dois amigos.

Foi então que Billy Ray percebeu a movimentação ao redor. Muitos já haviam se dispersado, com Glenn, Maggie e Peggy agora conversando com Mavelle, que tinha o mesmo ar desconsolado de antes. Annie discutia com Deanna, falando algo sobre os turnos de vigia necessários para não deixar qualquer brecha de carniceiros derrubar a murada, enquanto todos os outros escutavam. Rick Grimes se afastou deles, andando na direção de Billy, que se voltou para o pai de Carl.

— Escute — falou ele, afastando Billy Ray dos outros, em um murmúrio contido. — Preciso que reúna Tucker e os outros que... Encontraram com ela, hoje. Você entendeu o que aconteceu?

— Ela nos deixou na estrada. Deve ter sido mais um destes testes malucos para saber se somos fortes? — Billy Ray indagou, impreciso.

— É mais do que isso. Hashimoto quer me desmoralizar — disse Rick, irritado, sem paciência. — Ela quer nos separar, retirando qualquer autoridade que julga que eu tenho. Com Alexandria cercada, é muito mais fácil para que ela surja como a pretensa salvadora que diz ser. Mas nós não vamos deixar isso acontecer, certo? — perguntou o policial, severo.

— Não — concordou Billy, pressionado. Percebia que Rick ainda mantinha seu raciocínio no limite da sanidade.

— Vamos falar com Tucker, exigir que ele nos conte absolutamente tudo que puder sobre os métodos de Hashimoto. Como ela atua, os números exatos de seus soldados, seus pontos fracos. Esse é o momento de nos armarmos contra o inimigo. Entendeu? Precisamos eliminar essa ameaça o mais rápido possível. Mas só vamos contar para os outros depois que nós, que a enfrentamos, soubermos de tudo que Tucker souber — assegurou Rick Grimes, seu semblante sério e decidido.

Naquela madrugada, ficando com o papel de levar Tucker até uma casa vazia pré-escolhida por Rick em uma rua menos populosa de Alexandria, Billy Ray seguiu com o plano, ainda entorpecido pelo alívio de ver que tudo estava bem com Rebecca e seus amigos. Ao menos por enquanto.

Depois de horas aflitivas de discrição, pouco a pouco, os convidados especiais chegavam. Mavelle primeiro, depois Glenn, e por último Rick Grimes. Fora difícil não chamar a atenção de ninguém, ainda mais com as vigílias redobradas que haviam ocorrido naquela noite, pela horda de mortos-vivos ao redor deles.

Rick poupou tempo. Foi direto até Tucker, que se apoiava, nervoso, na beirada de uma mesa da sala de jantar daquela casa. Com as luzes desligadas, a reunião secreta começou.

— Billy já deve ter te contado o que aconteceu. Ela nos deixou escapar — Rick falou, sem nenhuma sombra de emoção em sua voz. Atrás dele, Billy reparou no rosto tristonho de Mavie, tentando se manter neutra, mas falhando para alguém que a conhecia bem como ele. Glenn, atrás, estava sério, estudando Rick e o rapaz.

— Ela faz isso. É o primeiro passo — retrucou o garoto, ficando ainda mais aflito.

— Primeiro passo para o quê? Invadir? — rebateu o policial, ainda frio como gelo.

— Não. Não é tão simples assim. Ela gosta de... De jogos de manipulação. Ela vai querer deixar todos em uma situação tão sem saída, que não vão ter escolha a não ser obedecer ao que ela mandar. Foi o que aconteceu comigo — Tucker afirmou, receoso.

— O que ela fez? — foi a vez de Mavie perguntar. Seus olhos de avelã-esverdeado encaravam diretamente Tucker. Agora, tinha rancor no olhar.

Tucker engoliu em seco. Suas mãos tremeram.

— Você não tem escolha. Vai ter de falar — Rick ordenou, e Glenn o segurou pelo ombro, falando para que "fosse com calma".

— Eu... Éramos eu e a minha irmã mais velha. Bonnie. Ela era... Ela era foda. Tipo vocês. E um dia, nós passamos a viver em um acampamento. Nada tão elaborado quanto isso daqui. Era nas fronteiras de Wyoming County. — Tucker respirou fundo.

— Hashimoto me convenceu a matar minha irmã.

*****

[NO MESMO MOMENTO, EM OUTRA PARTE DE ALEXANDRIA]

Peggy passara um tempo escondida na sala da casa em que morava, apenas para ter certeza de que Mavie saíra e não retornaria tão cedo.

Passara-se apenas um dia desde a morte de Aya.

Irrequieta, a garota rolara na cama madrugada adentro, sem conseguir adormecer direito. Sonhara novamente com a melhor amiga sendo baleada, seu tórax perfurado, vertendo sangue, pelos disparos da metralhadora do maldito Wolf que ela mesma havia se encarregado de matar, junto a Nicholas.

Poucas horas atrás, Glenn, Mavie, Rick e Billy Ray haviam retornado. Dos envolvidos com o plano de desviar os errantes, aparentemente só sabiam da morte de Carter, Gerald, Annie, David, Sturgess e Nicholas, morte esta que também abalou Peggy, pois o sujeito lhe ajudara a sobreviver ao cerco dos Wolves perto da pedreira. Daryl, Abraham e Sasha ainda não tinham voltado, mas Rick Grimes tentou controlar os ânimos, dizendo para que não tirassem conclusões precipitadas.

Peggy Taylor não se enganava. Imaginava que o namorado de Mavelle já estivesse morto àquela hora, assim como o soldado ruivo e a sniper.

É o que sempre acontece.

Com tais pensamentos desiludidos em mente, a adolescente aguardou até se sentir segura para sair. Abriu uma janela que ficava atrás de um sofá, se lançando pelo quintal, fechando-a com cuidado. Cobriu-se com o capuz do moletom azul marinho que usava. Pôs as mãos nos bolsos, abaixou o queixo, e passou a caminhar na única direção que era de seu interesse.

A casa dos circenses.

Peggy lidava atualmente com um sentimento de culpa pesado. Não só por se julgar responsável pela morte de Aiyana, mas por não ter podido ainda iniciar o rito de passagem que sua grande amiga lhe tinha ensinado. Já havia separado as sementes de girassol para plantar em homenagem a Aya, ao lado da azaléia vermelha que crescia por Noah.

A adolescente parou, olhando para o céu escuro daquela noite. Piscou os olhos, enquanto refletia, melancólica.

Vocês podem me ver, aí de onde estão? Pensou.

Como ela esperava, não houve resposta. Apenas o vento choroso assobiando nas telhas das casas e folhagens das árvores da comunidade.

Noah. Sua azaléia está cada dia mais bonita. Ela engoliu em seco, após mentalizar tal pensamento.

Aya... Você... Vocês... Ela abaixou o rosto, esfregando a manga do casaco em seus olhos. Não podia chorar. Devia isso a eles.

Vocês vão me perdoar?

Mais uma lufada de vento evidenciou sua falta de resposta.

No tempo que levou até chegar a casa dos circenses — escondendo-se de vez em quando de Jessie e Rebecca, que faziam uma patrulha noturna nos muros próximos do caminho que ela escolhera —, a garota refletiu sobre como se enganou ao julgar que se sentiria melhor por ter matado alguns daqueles Wolves.

Na verdade, isso só a fizera se sentir ainda mais vazia. Não sentia raiva, nem rancor... Sentia apenas a dor, a dor que já era sua companheira desde que fugira do Aquário da Georgia. A dor que só era amainada quando estava com Aya.

Quando estava com Moritz.

Emocionalmente distante, Peggy nem sequer pediu licença para entrar. Apenas girou a maçaneta, olhando rápido para os lados para ter certeza de que ninguém a vira ali. A porta estava destrancada, como sempre.

A menina andou pelo corredor de entrada, indo até a sala de leitura que ela sabia ser o local preferido do ex-palhaço. Não o encontrou ali. Com o olhar vago, subiu pé ante pé as escadas, pensando se não se sentiria melhor dormindo ali.

Por mais que estar naquela casa mostrasse a ausência de Aiyana, alguém que ainda deveria estar viva, morando ali... Ainda assim, era o único lugar naquele mundo perdido pelo qual ela ainda conseguia nutrir algum tipo de apreço.

A casa parecia totalmente vazia. Não ouvia som algum, e, pelo visto, o antes dono de circo decidira seguir as ordens de Rick Grimes e Deanna, de economizar energia. Nenhuma luz estava ligada, e muitos eletrônicos, retirados da tomada. Ela evitou acender as luzes, até chegar ao fim do corredor dos quartos.

Viu que ali, a esquerda, havia uma porta que nunca tinha entrado.

O quarto dele.

Peggy bateu discretamente algumas vezes. Não houve resposta, então ela apenas empurrou a porta.

Ao entrar no recinto, mirou ao redor com cuidado, reparando que também estava sem ninguém. Portanto, acendeu as luzes.

A garota deu uma sombra de sorriso ao aferir que havia uma lareira no quarto de Moritz. Do tipo antigo, das que ela mais gostava, com tijolos. As lareiras que lembravam a que havia na sua casa, quando o mundo ainda era bom.

Outra surpresa agradou os olhos de Peggy. A menina logo reparou em um tocador de vinis, e uma pequena estante com uma coleção deles. Abaixou-se perto deles, lembrando de imediato de seu pai, e dos invernos que passava com seus irmãos e sua mãe em casa, nas férias de fim de ano, ouvindo os LPs da família. Riam enquanto a neve caía lá fora e a música tocava na sala de estar, os vinis crepitando, junto ao eco da lenha no fogo. Às vezes dançavam juntos, às vezes brigavam, mas sempre estava lá, de fundo, a música de seu pai... Embalando aquela família.

Uma onda irrefreável de solidão investiu sobre Peggy, como se a queimasse por dentro.

Franzindo os lábios, ela tentou seguir o mantra de Mavie. Apenas ache algo para fazer.

A garota se abaixou, passando os dedos pelos LPs. Um, com uma borda entre o cor de rosa e o vinho, chamou sua atenção.

Peggy Taylor retirou o vinil da estante, estudando-o. Reconheceu-o na hora: "Blood on the Tracks", disco de Bob Dylan, um dos músicos favoritos de seu pai.

Franzindo as sobrancelhas pela estranha coincidência, a garota colocou o LP no suporte, ligando o aparelho. Encaixou a agulha no disco, e esperou. O som estrepitante, seco, do disco sendo lido, logo deu lugar as cordas até um tanto animadas da primeira música.

Peggy guardou o papel que embalava o LP na estante, e foi até a lareira. Reparou que havia lenha o suficiente ali empilhada, e até alguns jornais velhos. No batente, viu os fósforos longos que serviam para acender a madeira.

Se ocupou de atear fogo na lenha. Em seguida, a menina foi até o interruptor, desligando a luz. Sentou-se de costas para a porta, de pernas cruzadas, alguns centímetros distante do fogo, mas perto o suficiente para se aquecer bem. Retirou o casaco, colocando-o no chão ao seu lado.

Tentou se concentrar apenas na música que já terminava. A segunda faixa era uma de suas favoritas. Peggy sempre gostara de músicas tristes. Talvez por alguma clarividência de suas dificuldades futuras.

Se fechasse bem os olhos, conseguia lembrar com clareza do rosto do pai, dos suéteres de Natal da família, e até mesmo do cheiro das rabanadas de sua mãe. Em um movimento involuntário, abraçou o próprio corpo, lembrando outra vez dos rostos de Noah e de Aya.

Sabem... — ela passou a falar, como se conversasse com a presença invisível das pessoas amadas que perdera. — Já passou da meia-noite.

— Hoje é meu aniversário — Peggy confessou para ninguém, em um murmúrio quase inaudível.

Finalmente recebeu resposta. Ouviu passos no corredor que lhe trouxeram um sobressalto, fazendo com que levasse instintivamente as mãos para a arma que guardava no bolso da calça. Logo depois, a porta do quarto se abriu, com um surpreso Moritz guardando de volta em seu blazer uma pistola, talvez temendo algum tipo de intruso hostil.

— Parabéns, Sininho! Então temos de dar um jeito de comemorar, de preferência durante o dia — sugeriu o ex-palhaço, com a voz cansada. Passou a mão em seus cabelos grisalhos, parecendo exausto porém aliviado.

— Desculpa — Peggy rebateu, de imediato, embora não fosse um pedido sincero.

— Não se preocupe. Só fiquei surpreso porque não te vi voando para cá — tranquilizou-a Moritz, com a fala espirituosa não condizendo com sua aparência cansada. Em seguida, foi até o tocador de discos, fazendo menção de desligar a música. A segunda faixa começaria a qualquer momento.

— Não — pediu Peggy. O ex-professor a encarou, curioso. — Se não for um problema... Eu adoro essa música — ela esclareceu.

Moritz não se moveu por um segundo. Depois, deu um sorriso curto, indo até a colcha que cobria sua cama. Retirou de lá duas almofadas grandes, colocando uma contra a parede próxima de Peggy, ao passo que a outra foi posta contra a madeira de suporte da cama, no piso de madeira. Em seguida, sentou-se ali, perto dela, recostando-se em sua almofada.

— Sua coluna vai agradecer. — Ele indicou a almofada restante, contra a parede. Peggy não pôde evitar dar outro sorriso ligeiro, arrastando-se até o lugar sugerido. Ajeitou-se, encarando-o, por fim.

— Como se sente com dezessete anos? — perguntou o ex-palhaço, enquanto Bob Dylan começava a cantar sobre uma "simples virada do destino" no toca-discos.

— Muito mais velha do que isso. Depois de... Você sabe. Depois de tudo — confessou Peggy, olhando para a lareira, e depois para ele.

— Eu imagino. Isso me dói também — disse Moritz, compadecido. Peggy o fitou sem compreender.

— É muito triste. Tudo isso é muito triste. Você merecia aproveitar sua juventude. Crescer e amadurecer quando fosse o tempo. Mas aí está. — O circense a encarou com olhos tristonhos. — Sua inocência, arrancada de você.

— Eu precisei mudar. Por eles. Por todos que perdi pelo caminho — retrucou Peggy, seca. Não queria se emocionar outra vez, embora fosse inevitável.

— Não precisou — rebateu o ex-palhaço, logo em seguida.

— É claro que precisei — redarguiu ela, ríspida. Franziu o cenho outra vez, mirando-o agora um tanto contrariada.

Moritz sorriu.

— Não precisou, porque essa força já estava dentro de você. Tudo o que é, agora — ele levantou a mão, indicando-a — é apenas você.

Peggy olhou para a lareira acesa, e depois outra vez para Moritz, sentado naquela postura sempre afável. Porém, ela o vira frágil, na manhã do dia anterior. Por trás dos sorrisos, das gentilezas, ele sofria tanto quanto ela. Ou talvez mais.

— Por que você é tão bom comigo? — Peggy Taylor perguntou, contendo um soluço. Seus olhos marejaram outra vez. Tinha vontade de ir até ele, abraçá-lo, e adormecer em seus ombros. Mas não faria aquilo. Tinha de ser forte.

Ao invés disso, se levantou, pensando em encerrar a conversa. Levou a almofada até a colcha, ajeitando-a onde antes estava.

Moritz também se ergueu, mas moveu-se de forma somente a encarar a garota.

— Porque você é o meu único brilho de esperança neste mundo morto. — Ele ainda a encarava. — Você é a pessoa mais importante para mim — complementou, como se tirasse um peso dos ombros.

Peggy apenas o olhava de volta, atônita. Aquelas palavras tiveram um efeito tamanho sobre ela que mal pôde reagir. Embasbacada, demorou a responder.

— É porque sou a última ainda viva — ela zombou de si mesma, fazendo uma fagulha de irritação se acender nos olhos do ex-palhaço.

— Sabe que não é verdade — o dono de circo falou, direto, ainda a fitando por todo o tempo.

Peggy não sabia o que fazer. Não conseguia desviar os olhos dos dele, mas também não conseguia agir. Tinha algo que queria, algo que já esperava há muito... Mas não sabia. Não sabia se devia.

— Bem, acho que está um pouco tarde. — Moritz levantou as sobrancelhas, como se recobrasse a compostura. Você quer dormir na sala de leitura, ou no quarto de... — ele tentou desanuviar a intensidade de tudo o que haviam falado até então, mas Peggy o parou.

— Só... Escuta. — Ela levantou uma mão, indicando o toca-discos. Moritz encarou o vinil que ainda tocava, um pouco surpreso com aquilo. A voz de Bob Dylan falou por ela, cantando os versos:

"People tell me it's a sin, to know and feel too much within. I still believe she was my twin, but I lost the ring. She was born in spring, but I was born too late... Blame it on a simple twist of fate."

— Eu nasci no outono, mas... É meio irônico... Tudo isso. E essa é uma das minhas músicas favoritas — Peggy falou, sem jeito, enquanto Moritz voltava a olhar para ela, lentamente. Na verdade fora ela quem nascera "tarde demais", mas a mensagem passada era clara.

— Você tem uma alma antiga, Sininho. E poética — brincou o ex-palhaço, mas a adolescente pôde notar o interesse que ele tentava refrear em seus olhos escuros. Seu sotaque austríaco estava nítido, mostrando que ele fora surpreendido.

— Eu... — Peggy passou a mão direita pelo ombro esquerdo, caminhando até ele. Franziu os lábios, e continuou. — Eu quero dormir aqui sim. Mas... Eu sei que você sabe... Sabe o que eu quero — ela finalmente reuniu coragem para falar.

— Não — Moritz rebateu, rápido, recuando um passo. Ainda a encarava, e ela via a dúvida em seus olhos. Aquilo não a surpreendeu, mas não deixou de feri-la um pouco.

— Não posso fazer isso com você, Peggy. Não agora. Por mais que eu também queira — admitiu ele, sem mais usar apelidos, olhando para a garota como se resistisse a algum forte impulso.

— Por quê? — ela insistiu, avançando mais um passo.

— Porque eu não quero te machucar. Não quero jamais te expôr a uma situação que vá te ferir. As pessoas aqui fora, se soubessem... Não aceitariam — ele falou a verdade.

— Isso não envolve outras pessoas. Isso só diz respeito a nós dois — retorquiu ela, com propriedade. Moritz a encarou outra vez. Peggy se aproximou dele, passo a passo, devagar.

Peggy nunca passara por um momento tão intenso quanto aquela troca de olhares.

O disco ainda tocava, a lareira crepitava, e ela o enlaçou pelo pescoço. Munindo-se de toda a coragem que tinha, reclinou o rosto para cima e o beijou.

No mesmo momento, soube que tinha feito a escolha certa.

— Eu sei o que eu quero, e sei o que você quer também. — Peggy disse de olhos fechados, com a testa colada na dele, sussurrando após o beijo que despertou calafrios de deleite dentro dela.

— Foi você quem me disse que nós nos apegamos à vida, mesmo com toda a morte ao nosso redor. — Ela se afastou um pouco, olhando fundo nos olhos do ex-professor de filosofia.

— Então, por favor, antes de morrer... Vamos viver um pouco. Juntos — Peggy pediu, decidida, e Moritz não mais teve defesas.

Os dois se encararam, Peggy, determinada, e Moritz, enfim convencido. Abandonando o receio do julgamento alheio, o homem se aproximou dela, segurando o rosto e a cintura da garota, beijando-a com ardor.

O que se seguiu foi uma noite que ficaria para sempre guardada nas memórias de Peggy.

Guiada por toda a gentileza que eram naturais do homem por quem ela se apaixonou, a menina descobriu ainda restarem, mesmo naquele mundo desolado, regalos a serem conhecidos.

Moritz a desnudou com cuidado, carinhoso e delicado por todo o tempo. Beijaram-se, enlaçando seus corpos, enquanto ele não parava de lhe dizer o quanto ela era linda, e o quanto o encantava. Ela não sentiu dor, apenas um breve desconforto que logo deu lugar a um torpor imensurável de desejo.

Peggy, enfim, se sentiu mulher.

Embalados pelo som longínquo do disco que tocava, pelo crepitar das chamas na lareira, Peggy, envolvida pelos braços, lábios e corpo de Moritz, sentia-se ela mesma aquecida, por fora e por dentro, por um novo sentimento que ainda não havia conhecido.

O alento de ser plenamente amada.

Notas finais
~ FANARTS MARAVILHOSAS DA DIVA HARLEY QUINN/JOKE! Temos, da esquerda pra direita: Mavie diva, Becky musa, Davie lindos e Peggy, maravilhosa! s2 Puro amor essas fanarts!!!! Dêem uma olhada no perfil dela, além de desenhar muito bem ela também escreve benzão: https://fanfiction.com.br/u/643431/ ~ E aí, o que acharam dos momentos ship? Heheheheh! ~ Espero que estejam amando odiar a Hashimoto! Ela ainda vai tocar muito o terror por aqui! ~ Aguardo seus lindos comentários! o/