Hunter's Instinct
45 Episódio 45 - Misty Blue
Notas iniciais
She said when the wind blows my darling, I’ll be calling to you,
Down by the waters of old Misty Blue.
O sol de outono já caía, deixando antever uma noite gélida e de muito vento. Enquanto todos os outros habitantes da comunidade se agasalhavam e se escondiam dentro de suas casas, o arqueiro e alguns de seus companheiros esperavam junto aos portões de Alexandria.
Mais cedo naquele mesmo dia, ao contrário do que Rick Grimes esperava, Daryl e Aaron saíram em uma missão de busca por novos moradores, ainda que o xerife discordasse daquilo.
O caçador percebia o quanto o policial estava tendo de lidar com muito, atualmente. Deanna havia perdido o foco do governo. Um tanto omissa e passiva, ela apenas concordava com as maiores diretrizes dadas pelo Comitê Político de Alexandria, que se esforçava dobrado com as novas e nada animadoras notícias trazidas pelo grupo novato. Tucker, o ex-membro do tal Exército de Wyoming County, fora incisivo ao dizer que o risco da comunidade ser encontrada era provável, e que os mercenários contratados pelo Exército conhecido como Wolves também eram uma ameaça grave.
Morgan Jones, um sujeito quieto porém incrivelmente observador, passara por um período de aprovação dentro da comunidade, junto aos seus três outros companheiros, agora solidificados dentro de Alexandria.
De todo modo, Morgan e os outros três mostraram-se úteis e confiáveis, até que se provasse o contrário. O moleque com cara de playboy agora era bem quisto pelo grupo de construtores, o maldito Billy Ray também era uma boa aquisição nos termos práticos da comunidade, ajudando a manter as plantações e criações, além de também trabalhar junto ao construtores... E a loira histérica, Rebecca, se provara muito eficiente no combate aos errantes, fazendo parte da linha de frente dos coletores.
Naquele dia, de manhã, Daryl e Aaron haviam saído para sua missão de busca e patrulha até o final do dia, enquanto os batedores se locomoveram para um local onde buscariam armas. Glenn e Mavelle, os líderes do grupo, fizeram questão de acordar mais cedo do que o de costume, de forma que Dixon se vira surpreendido com o fato de que Mavie já havia saído quando ele começaria sua missão de manhã, junto a Aaron.
Quando os dois enfim decidiram seguir um caminho uma vez tomado por Heath para as terras mais estéreis e áridas perto de Alexandria, Aaron não aguentou mais. Desabafou algo que escondera do arqueiro.
E fora aquilo que soube por meio do outro recrutador que deixou Daryl furioso. Fora de si, como não se sentia há tempos. Aquilo o incomodara de forma tão gritante que o choque de ver aquela pedreira que encontrara com Aaron, repleta de centenas e centenas de errantes, não foi tão impactante como deveria ter sido. Apenas dobrou sua preocupação e irritação já a níveis estratosféricos.
Como consegue ser tão burra, Esquila?! Dixon pensava, rangendo os dentes de fúria mal contida. Ele, Aaron, Rick e Michonne aguardavam, um tanto impacientes, na frente dos portões de Alexandria. Já era passada da hora dos batedores voltarem. Se anoitecesse e nenhum deles retornasse, já estavam preparados para sair em uma missão de resgate.
Daryl olhou de esguelha para Rick, que conseguia estar tão descontente quanto ele, por outras razões. A notícia sobre aqueles mortos-vivos acumulados na pedreira, bloqueados de chegar a Alexandria apenas por dois caminhões imensos era algo que deveria ser contado o mais urgentemente possível. Precisavam dos batedores de volta para isso, pois Rick já havia bolado um plano de contenção. Plano este que precisaria da ajuda de praticamente todo e qualquer cidadão da comunidade.
Quanto mais tempo demorassem, mais se arriscavam. Pelo visto, as ameaças dos humanos rondando áreas longínquas da comunidade não eram mesmo os únicos problemas.
Naquele momento, os quatro ouviram uma buzina tocar brevemente algumas vezes. Aaron, encarregado daquele turno nos portões, pegou seu binóculo e imediatamente avisou aos outros que reconhecera o furgão com Glenn dirigindo, e, um pouco mais atrás, o furgão de Mavie o seguia.
Dixon estava tão cheio de ira que o alívio que sentiu naquele instante não foi o suficiente para melhorar em nada seu humor.
Alguns minutos depois, Aaron e Rick já haviam puxado os portões, e os veículos entravam na comunidade. Estacionaram rapidamente, e logo o caçador e os outros puderam ver que tudo não correra tão bem assim.
Ao lado de Dixon, Rick Grimes, com os nervos à flor da pele como estava, mal deu tempo dos líderes dos coletores saírem dos automóveis, seguidos pelos outros membros do grupo.
— Onde estão Lisa, Chester e Jenny? — indagou o policial, enquanto Mavelle fechava a porta do furgão que dirigira.
Daryl respirou fundo, a encarando por todo o tempo, reservado em seu canto. Queria abraçá-la ao mesmo tempo em que queria esbravejar umas broncas mais do que merecidas.
Glenn olhou de Rick para Daryl, recebendo um aperto gentil em seu ombro de Michonne, satisfeita por vê-lo bem. Eugene e Aiyana saíram trêmulos do veículo da garota irlandesa, encostando-se no furgão e não falando palavra, enquanto Rebecca encarava os dois líderes com um olhar vago e arrogante, como se não estivesse prestando muita atenção no que acontecia.
Heath seguia ao lado de Glenn, saudando os outros moradores de Alexandria, parecendo tão preocupado quanto o descendente de coreanos. Tara estava mais próxima de Mavelle, seu olhar fácil de decifrar mostrando desolação pelas perdas do dia.
— Não conseguiram. Não... Não estavam prontos — Mavie respondeu, desviando o olhar de Rick, tentando se afastar dos outros. Parecia muito abalada, e aquilo também preocupou Daryl.
— Vocês vão ter de me dar uma explicação melhor — Grimes cobrou, segurando Mavelle com delicadeza, o que fez Daryl sentir certa necessidade de se aproximar. Glenn fez menção, imediatamente, de continuar a explicação, mas a irlandesa foi mais rápida.
— Ótimo. Perdemos o nosso tempo com eles. É essa a verdade, está melhor assim? — a Esquila confessou, com lágrimas nos olhos. — Não acho que seja uma boa ideia contar para as famílias deles que Chester jogou Jenny nos mortos-vivos, quando ela tentou fugir e deixar todo o nosso grupo para trás. Os dois não tinham a menor estrutura para a tarefa. Lisa foi mordida e se transformou quando voltávamos, dentro do furgão. Estamos com o cadáver dela aqui dentro, para enterrarmos. — Mavelle parecia à beira do choro, mas se controlava, desconsolada com o fracasso da missão.
— Caímos em uma armadilha. Nicholas estava lá como isca, amordaçado atrás de algumas grades. Quando tentamos levantar a cerca, outra grade que guardava uma multidão de carniceiros foi içada, e quase morremos todos — Rhee adiantou, tocando em um dos ombros de Mavie, como que para acalmá-la.
— Nicholas morreu também? — perguntou Rick, friamente. O policial de fato não estava sendo muito compreensivo com o que todos acabaram de passar, mas os batedores ainda não sabiam a gravidade da situação da pedreira. Não havia mesmo tempo para gastar sendo sensível.
— Não. Acho que não. Tranquei-o de volta antes de fugirmos — Glenn contou.
— Então os tais dos Wolves pegaram ele mesmo — Aaron falou, angustiado, um pouco atrás de Michonne.
Glenn Rhee confirmou com a cabeça, enquanto todos os remanescentes coletores e os outros moradores se olhavam, ansiosos.
— Há quanto tempo acham que isso aconteceu? Digo, capturarem Nicholas? — Grimes continuou o questionamento.
— Por que isso é importante? — Dixon viu que Rebecca enfim falou, levantando as sobrancelhas como se não entendesse a postura de Rick.
— Ele pode ter dado informações sobre nós. Onde fica a comunidade. Ou poderia até mesmo ser um informante — o policial não hesitou em responder, e Dixon reparou que Glenn engoliu em seco, particularmente assustado com essa última possibilidade.
— Não tem como sabermos — Eugene afirmou — mas ele dificilmente deve trabalhar para eles. Estava com uma aparência péssima, como... Como...
— Como se tivesse sido torturado — adiantou Michonne. Eugene confirmou com a cabeça.
Ao lado do caçador, Rick Grimes não deu mais tempo nem para que os habitantes de Alexandria pudessem se entreolhar nervosos, mais uma vez.
— A situação aqui é pior do que imaginávamos. Nós também temos muito a conversar. Daryl e Aaron acharam algo essa tarde — Rick alertou, sério. — Preciso que estejam todos prontos para uma reunião noturna de emergência na casa de Deanna daqui a meia hora. Literalmente todos. Essa será uma reunião aberta para Alexandria inteira — garantiu o policial, dando espaço para que o grupo pudesse guardar os armamentos e se dirigir o mais cedo possível para a assembleia emergencial.
Depois de saudar Glenn com um tapa amigo nos ombros, Dixon cumprimentou Eugene, Heath, Aiyana e Rebecca com um aceno de cabeça, esperando Michonne, Grimes e Aaron se prontificarem para ajudar a guardar a quantidade abundante de armamentos que os coletores haviam conseguido.
Percebeu que Mavie ficou propositalmente para trás, empilhando alguns rifles de caça e munição em seus próprios braços, desviando seus olhos entre o verde e o castanho do olhar fuzilante que Dixon lhe dava. Quando ela se deu por satisfeita e estavam os dois sozinhos na frente da mala do furgão, o caçador arqueiro arrancou todo o saco de armamentos que ela carregava dos braços dela, com rispidez.
— Hey! — A arqueira reclamou, voltando a encará-lo, surpresa.
— Nem comece. Vamos conversar depois. Não pense que se safou — Daryl falou secamente, segurando ele mesmo os armamentos e dando as costas para a Esquila, que o encarava quase chocada. Agora que o alívio de vê-la bem já havia diminuído de intensidade, sua fúria voltou a transtorná-lo com força total.
Mal tiveram tempo de descarregar as armas dos porta-malas, quando as ruas já frias pela noite de temperatura hostil do outono começaram a se encher de gente, movendo-se até a casa de Deanna. O burburinho era audível pelas ruas, assim como eram claros os olhares assustados, apavorados até.
Puta merda, Rick, você tem mesmo um prato cheio pra lidar. Dixon pensou, ele mesmo preocupado com a dose de tensão máxima que eclodia naquela comunidade.
A assembleia de emergência na comunidade se deu como Daryl esperava. Carter, Spencer, Olivia e Ron — o filho adolescente de Jessie —, não pareceram aprovar o plano de Rick, de início, julgando-o muito arriscado. Mildred, Tracy e outros idosos mais conservadores e mimados também concordavam. É claro que quase todos os membros da comunidade não sabiam da existência do Exército de Wyoming County nem da ameaça dos Wolves, apenas da versão genérica e menos grave de “pessoas com más intenções por perto” passada por Grimes aos outros, para evitar pânico geral. Dixon pensou como aquela comunidade poderia resistir aos perigos que a rondavam, se o menor deles — a multidão de errantes na pedreira —, já os apavorava.
Rick se esforçou para manter a calma dos presentes, sendo um pouco duro com Padre Gabriel, negando de imediato sua participação quando este tentou se voluntariar para ajudar no plano da pedreira. Grimes conseguiu convencer Carter a ajudá-los, o que era uma boa adição, já que o sujeito tinha experiência de trabalhar com Reg, o falecido marido de Deanna, na montagem dos muros de Alexandria.
Depois dos esclarecimentos sobre no que passariam a trabalhar e de contar sobre as perdas ocorridas na missão dos coletores, Deanna e Rick avisaram que fariam o funeral de Lisa naquela noite, e também um funeral simbólico para Jenny e Chester.
Contudo, apesar de Grimes ter convencido alguns poucos a tomarem parte nas difíceis missões que se dariam dali para frente, Dixon percebera que o pessoal que ainda não confiava muito no policial ficara mais assustado e reticente. Seria preciso muito cuidado para manter a ordem e o equilíbrio dentro daquela comunidade.
No final daquela noite, após o enterro e a reunião, Daryl estava exausto, porém ainda muito irritado. Pensara em deixar Mavie descansar antes de lhe pagar um esporro fenomenal, mas não foi capaz de ter auto-controle o suficiente.
Já era tarde da noite quando enfim se decidiu e foi até a porta da casa em que morava com Rick, Michonne, Carl, Judith e Carol, quando sua amiga de cabelos grisalhos o testemunhou tentando sair. Sentiu-se de imediato um imbecil por fazer aquela escapadela furtiva.
Carol Peletier levantou os olhos do mapa do condado de Wyoming County que estudava e demarcava, e o encarou com um sorrisinho curto, daqueles malditos sorrisos que ela costumava dar quando agia como se conseguisse ler seus pensamentos.
— Você sabe que não deve nada a ninguém, não é Pookie? — falou ela dubiamente, mal controlando seu sorriso presunçoso.
— Vá dormir — Dixon respondeu, quase grunhindo, e seguiu caminho quase batendo a porta. Não queria ficar tempo o suficiente para ouvi-la rindo, lá dentro.
Sua raiva foi só aumentando por se sentir um tanto idiota e premeditado por fazer aquilo, até que chegou defronte a casa de Annie, Peggy, Tara e Mavie. Não tinha pensado ainda em como faria para falar com a Esquila em uma hora tardia daquelas.
Maldizendo-se a si mesmo em pensamento, sem ter outra escolha, Daryl tocou a campainha.
Teve de tocar algumas vezes mais até ser atendido. A porta se abriu com alguma delicadeza, e Dixon teve de olhar para baixo para ver quem abrira. A menina baixinha do Oceanário, Peggy, o encarava atônita.
— Sim? — a garota perguntou, olhando para os lados, sem entender.
— Preciso falar com a... — Dixon quase chamou Mavie de Esquila — Mavelle — disse, atrapalhado. — Ela está aí? — Daryl sentia seu sangue quente, pela raiva e pelo auto-julgamento de desprezo que fazia.
— Mavie! — Peggy chamou alto, sem cerimônia, e Dixon deu um passo para trás, ridiculamente. Não tinha o menor jeito para se comportar em uma situação daquelas. Ainda se sentindo um imbecil, viu a garota adolescente se afastar, enquanto ouvia os passos da irlandesa.
— Por St. Patrick, isso é mesmo surpreendente — riu Mavie, abrindo um sorriso genuíno em meio ao seu rosto também exausto pelas perdas e sofrimentos daquele dia. — Que bicho te mordeu? — a irlandesa perguntou, sorrindo debochada com aqueles malditos dentes grandes que Daryl tanto se afeiçoara.
Dixon não esperou e a puxou pelo braço para fora da casa, fechando a porta com um empurrão de seu ombro. Mavelle o olhou, agora parecendo irritar-se um pouco.
— Dá para ser um pouco mais civilizado? Cop on*!
— Pra variar, não sei que porra é essa — Dixon mencionou a expressão irlandesa desconhecida. — Mas o que é que passou pela sua cabeça quando resolveu sair nessa missão suicida? — Daryl cobrou, novamente furioso. — Porra, Esquila, você é tão burra que seu cérebro deve ser tão pequeno quanto uma noz! — o arqueiro reclamou, seus olhos semicerrados fuzilando Mavelle outra vez, raivoso.
A irlandesa baixou os olhos para o chão da varanda, mas Dixon insistiu.
— Olhe pra mim — exigiu ele, sério e intenso. Mavie o encarou de novo, suas pálpebras tremendo um pouco.
— Achei que você ia tentar me impedir — confessou a caçadora. — Ou fazer alguma coisa para se meter no meio.
— E o que teria de errado com isso? Você e Glenn não estavam raciocinando direito, porra!
Ela abaixou os olhos outra vez, e, num impulso, Daryl levantou seu queixo. Quando viu o olhar simultaneamente culpado e emocionado da garota, quase se arrependeu por pressioná-la.
— Nós dois temos funções a cumprir... Eu também quase morri de preocupação quando você sumiu por dias. — Os olhos de Mavie brilhavam tristonhos mirando-o. — Mas agora... Agora eu entendi melhor. Tínhamos de correr esse risco. E eu... — Mavelle tentou virar de costas, abraçando seu próprio corpo.
Daryl virou-a com firmeza delicada, mais uma vez fazendo com que ela o encarasse.
— Eu preferi correr esse risco sozinha, do que imaginar que você poderia morrer. Mas lá... Quando achei que tudo iria acabar... Pensei que nunca mais ia te ver de novo. — Os olhos dela marejaram, e Daryl a puxou para um abraço, escondendo seu rosto em seus ombros.
— Eu sei. Eu pensei isso quando quase não voltei — confessou o arqueiro, sussurrando aos ouvidos dela. Mavie o abraçou com força, rindo emocionada e trêmula em seu peito.
— Nós somos dois idiotas — a irlandesa afirmou, voltando a encará-lo. Daryl passou os dedos pelo rosto dela, ainda surpreso em como sentia tanto carinho por aquela garota. Como Mavie tinha um efeito avassalador sobre ele, que o fazia ficar tão transtornado só por uma ação impensada dela.
— Fale por você mesma — Daryl debochou, fingindo seriedade, e a garota morena lhe deu um tapa no ombro, suave. — Isso tem que parar, Esquila — falou ele, resoluto.
— O que tem que parar? — perguntou ela, um pouco receosa.
— Isso. — Daryl apontou para ela e para si mesmo. — Isso que estamos fazendo. — Mavelle fez uma expressão chocada e desolada, como se alguém tivesse jogado um balde de água congelante em cima dela.
— Não! Não, não isso. — Dixon segurou nos braços da garota dentuça, com um pouco mais de firmeza. — Você precisa confiar mais em mim. É isso que eu quero dizer — Daryl se expressou, finalmente. Nunca fora bom com as palavras.
— É meio difícil. Você é um pouco inacessível, às vezes — Mavelle retorquiu, também séria, como se aquilo não dependesse dela.
— Ah, porra, Esquila, não mete essa — Dixon rebateu, de imediato, soltando o ar pela boca com desdém.
— Essa o quê? — ela insistiu, franzindo as sobrancelhas.
Daryl apenas soltou um “tsc”, voltando-se para sair. Era realmente difícil. Mavie segurou sua mão, porém. O arqueiro voltou-se para a arqueira, outra vez.
— Essa o quê? — Ela parecia resoluta. Seus olhos mergulhavam nos de Daryl com a mesma intensidade com que ele a encarara naquela tarde. Daryl apertou a mão dela de volta.
— Você sabe — Dixon rosnou, arredio.
— Essa o quê? — Mavelle apertou seus dedos alvos em volta da pele da mão dele com mais força, beliscando-o, quase. Daryl por pouco não riu em meio a mistura bizarra de emoções que sentia.
— Porra, Esquila, você sabe... Você é minha garota — afirmou o caçador, em uma declaração tão súbita, bruta e sem jeito quanto ele.
Muito significativa justamente por isso.
Mavelle soltou sua mão, seu rosto mostrando uma expressão pateta, como se estivesse surpresa. Seus olhos se arregalaram ainda mais, sua boca com aqueles dentões destacados em um sorriso abobalhado que quase fez Daryl rir.
— Sim. — Mavie riu, quando Dixon começava a se arrepender pelo rompante. — Sim, eu sou. — A garota irlandesa pulou nos braços dele, envolvendo-o pelo pescoço e beijando-o na mesma ação abrupta com que ele dissera aquilo. Daryl ainda não sabia realmente como lidar com nada daquilo que estava acontecendo. Era estranhamente novo para ele.
Ele já estivera com mulheres ao longo da vida, se deitara com várias. Mas nenhuma delas chegara tão perto dele.
Mavie fora a única garota com quem ele de fato se abrira. Queria estar com ela, perto dela, mesmo naquele mundo caótico e que não fazia sentido nenhum. Assim como o que ele sentia por ela não fazia o menor sentido. Mas não precisava fazer.
Sua Esquila era sua garota, e aquilo lhe bastava.
*****
— Onde está essa merda? — Rebecca Gable revirava a gaveta de seu quarto, procurando a Clozapina. Depois de jogar para o lado alguns frascos de remédio, a jovem loira se muniu de mais um comprimido emergencial, engolindo-o seco garganta abaixo.
Esperou sentada por algum tempo, até sentir a sonolência e curta náusea que indicava que o medicamento estava fazendo efeito. Já havia tomado o remédio na manhã daquele dia, como o fazia todos os dias, mas percebeu que teria de dobrar a dose.
Depois daquela reunião ainda mais angustiante com Rick Grimes e companhia, a circense se surpreendeu vendo que, realmente, sua situação tinha como piorar. Mavelle a tinha expulsado do grupo dos batedores, por sua postura inflexível e rebelde ao desobedecer suas ordens.
Depois de todas as mortes daquele dia, ainda tivera de ser convocada para trabalhar novamente ao lado do tal coreano e da irlandesa nojentinha, dadas as circunstâncias de emergência ao redor da comunidade. Como se não bastassem os Wolves, o Exército do qual Tucker quase se borrava nas calças ao mencionar, ainda por cima tinham de lidar com um carnaval de decompostos que poderia decidir fazer seu desfile rumo à Alexandria.
O emocional de Rebecca, já muito instável pelas agressões que sofrera aquele dia vindas daquela garota que a fazia se sentir tão diminuída, ficara ainda pior com as novas responsabilidades. Era preciso dar conta de tudo isso e engolir tudo que pudesse importuná-la. Suas alucinações. Seus medos. Sua auto-estima inexistente.
“...tão desequilibrada quanto você” a voz melodiosa daquela garota dentuça a xingando voltou em seus ouvidos, em forma de memória. Não alucinara com aquilo.
Teria de se esforçar ao máximo para fingir para eles que tinha algum valor. Não poderia se permitir fracassar novamente.
Decidiu descer as escadas e respirar um pouco de ar fresco na noite fria de outono. Billy Ray ainda não voltara para casa, mas aquilo a deixava mais aliviada, pois se afastara bastante dele depois de tudo o que o ouvira falar sobre a tal irlandesa. Precisava de um tempo longe, para ela mesma processar o peso de tudo aquilo dentro de si.
Becky sentia-se muito solitária, deixada de lado.
Por mais que soubesse racionalmente que sua doença era plenamente controlável, bastando que tomasse a medicação, algo que sabia desde quando fora diagnosticada... Não eram suas alucinações e a condição com que vivia que a assustavam.
Era sim o fato de que jamais conseguira fazer alguém aceitá-la plenamente por quem realmente era.
Rebecca tinha medo de que sua vida continuasse um espelho do que sempre fora. Do que começara com sua mãe, e se reproduzira ao longo da vida. Nunca aceita. Sempre rejeitada.
E jamais amada.
Rebecca esfregava os próprios ombros, descendo até a garagem de sua casa, sozinha com seus pensamentos, como sempre fora. Ligou uma das luzes e se preparou para abrir a porta articulada, quando viu que esta já estava aberta.
— Yo! — Tucker a saudou do quintal, bebendo uma garrafa de cerveja.
Becky pensou em virar-lhe as costas e sair. Não precisava receber o desprezo de mais outra pessoa, ainda mais um mero moleque como aquele rapaz.
— Quer uma? Tenho algumas aqui no cooler — ofereceu o rapaz.
— Não estou a fim de beber — mentiu Becky. Acabara de tomar o anti-psicótico, era melhor evitar álcool.
— Tem umas lights, sem álcool. Vocês, mulheres, vivem se preocupando com peso — brincou ele, dando um gole grande na garrafa.
Rebecca olhou do cooler para Tucker, e depois para os lados, analisando a noite fria, quieta. Que mal faria? Talvez pudesse se distrair um pouco, e fingir que não era uma pessoa assim tão miserável.
Ela se aproximou, e o rapaz lhe deu uma cerveja sem álcool gelada. Becky abriu-a, dando um gole. Era uma porcaria, mas fingiu apreciar.
— Então... Estamos todos na merda, não é? — o rapaz começou, olhando para os contornos escuros das árvores.
— Sempre estivemos — Becky falou mais por si do que por qualquer outro.
— Hey. — Tucker a encarou, devagar. — Você está assim por causa da reunião? Esse plano do tal policial é nossa menor preocupação.
Becky apenas olhou para a grama, expirando fundo e bebendo mais um gole.
— Aconteceu alguma outra coisa? — indagou o rapaz, parecendo realmente atencioso. Talvez estivesse um pouco alto, mas estava sendo mesmo gentil.
— Por que eu deveria te contar? — Ela levantou uma sobrancelha, encarando-o duramente. — Ou melhor, por que você se importa?
— Hoje o meu dia foi uma merda também. Não só pela reunião... Passei uma vergonha do caralho. E fiz algo de que me arrependo — Tucker confessou, seus olhos um pouco bêbados brilhando.
Rebecca apenas o mirou, esperando se continuaria ou não.
— Sabe... Uma das coisas que eu fazia, para aguentar tudo, no Exército... Era me drogar. Eu sempre usei muita merda desde adolescente, e não é como se eu fosse um crackudo... Mas desde Wyoming County... Eu preciso me drogar. Para esquecer tudo, para ter um momento de paz. Sabe o que é... — Ele respirou fundo. — Sabe o que é querer fugir de você mesmo? De dentro de você? — O garoto a olhou, desconsolado.
— Mais do que você imagina — admitiu Becky, um pouco mais empática com o rapaz.
— Quando eu não estou bêbado, ou chapado, é... É muito difícil aguentar. E hoje, eu tinha achado um baseado enorme... Fumei até acabar, e eu já tinha bebido depois do expediente... E só me lembro de acordar no sofá da dona Peletier — riu sem alegria.
— Ela disse que me viu transtornado na praça e me botou para dormir na sala dela. Para que ninguém visse meu estado. É um doce, aquela mulher — disse Tucker, parecendo completamente desgostoso de si mesmo. A empatia de Becky por aquele rapaz só aumentava.
— Não precisa ter vergonha disso. É muito difícil suportar essa merda toda. Quase impossível — Rebecca falou, séria, enquanto ela e Tucker se encaravam.
— Sabe, por mais que pareça bizarro... Eu queria agradecer a você e ao Billy. Vocês me deram a chance de fugir daquele... Daquele horror todo — o rapaz claramente mencionava o Exército de Hashimoto. — Por mais que tenham me enfiado a porrada e tudo o mais.
— Você não precisa agradecer por nada, Tucker. Você é um bom rapaz — disse Rebecca, ainda bebendo sua cerveja sem álcool, se sentindo um pouco mais próxima de Tucker.
— Rapaz? Yo, assim você me quebra — ele riu, um pouco mais animado. — Você deve ser o quê? Uns quatro anos mais velha do que eu? — brincou o pobre coitado.
— É uma grosseria pedir para uma dama revelar sua idade — Rebecca troçou de volta, e Tucker levantou os braços, como se pedisse desculpas.
— Foi mal. Sei lá, fico meio sem jeito de falar com você — admitiu ele, encarando Rebecca um pouco desconfortável.
— Como assim?
— Cara... É meio óbvio, não? Você é linda, tipo assim, gostosa pra caralho, parece uma atriz. Não consigo nem te olhar direito por muito tempo — o rapaz a elogiou, surpreso por ela não saber. — E porra, você conseguiria quebrar um idiota como eu em dois com uma mão só. Já vi o que consegue fazer com os bichos podres lá fora — falou ele, assombrado.
— Sei lá, se eu fosse invasivo, o Billy Ray também poderia me quebrar de porrada... — o rapaz continuou, sem jeito.
— Por que ele faria isso? — Becky falou, agora rindo com a falta de tato do rapaz.
— Bem, porque vocês estão juntos. Vai que ele se ofende — afirmou Tucker, constrangido, levantando os ombros.
— Não estamos juntos — disse Rebecca, desviando o olhar, sentindo-se como se seu corpo tivesse ficado muito pesado subitamente.
— O quê?! — Tucker perguntou, incrédulo. — Mas ele está montando uma lona de circo no bosque só para você. Achei que vocês tinham alguma parada, só pelo jeito como se falam, como se olham — o rapaz continuou, atônito.
— Ele está fazendo o quê?! — Rebecca também indagou, surpresa.
— Montando um trapézio, e aquelas paradas de circo e tudo o mais. Quando está fora do expediente dos construtores. Até ajudei ele outro dia. Está fazendo isso há semanas. Você não sabia? — ele não parecia acreditar.
— Não fazia ideia — Becky respondeu, emocionada por aquele gesto.
— Bem... Acho que eu não deveria ter falado nada, então. — Tucker coçou a cabeça.
— Não se preocupe... — Rebecca falou, juntando coragem e encarando o rapaz com doçura. — Tucker. Você é uma graça. Não sabe como essa conversa me ajudou, então vou abrir o jogo com você.
— Que jogo? — O rapaz a encarou, ressabiado.
— Eu estou na merda... Eu sei exatamente o que você disse sobre querer fugir de dentro de você mesmo. Porque eu sinto isso com muita frequência. Você pode guardar um segredo?
— Claro. Mas como você pode se sentir assim? — Tucker indagou, incrédulo. Becky fez um sinal para que ele esperasse.
— Desde que eu tenho doze anos, fui diagnosticada com esquizofrenia paranoica. Fiz terapia e tomo medicação, que elimina todos os sintomas. Exceto se eu passar por um baque emocional muito forte, quando eu posso ter um ou outro revertério. Mas eu já sei lidar com a doença. — Ela olhou para as próprias mãos, encarando os dedos, incomodada. — O que eu não sei lidar... É com o fato de que ninguém consegue me aceitar quando sabe disso. As únicas pessoas que sabem que eu sou esquizofrênica são Moritz e Billy. E eu os fiz prometer guardarem segredo, porque simplesmente estou cansada... Fico cansada, de sempre ser julgada por isso. Menosprezada. Rejeitada. — Becky sentia que soltava um pouco do peso de seus ombros.
Tucker passou alguns segundos em silêncio, e Becky já imaginou que quando fosse voltar os olhos para o rapaz ele a desprezaria. Mas o viu com um olhar ainda mais empático.
— Você não deveria ter medo disso. Se alguém te julga assim, o erro está na pessoa. Você é uma das melhores e mais talentosas pessoas que eu já conheci no mundo. Não deixe nunca ninguém te convencer do contrário — o rapaz disse, sério, sem parecer se chocar com o que ela contara.
— Eu mesma já me convenci, e me fodo por isso — Rebecca reconheceu. — Hoje... Hoje eu deixei de seguir o protocolo dos batedores. Chester atirou Jenny para cima de uma multidão de decompostos, e Mavelle mandou que eu tentasse impedi-lo. Mas eu não obedeci. Preferi provar que eu seria mais útil matando os mortos-vivos que se aproximavam da gente, do que evitando que um psicopata que nem o Chester jogasse uma covarde que nem a Jenny para a morte. Ela tentou trancar a gente em um galpão cheio de decompostos — confidenciou Becky.
— Achei que o melhor que eu poderia fazer seria isso. Ser essencial para o grupo, não só mais uma isca para os mortos-vivos. Achei que se eu matasse a maioria dos decompostos por mim mesma, eles veriam meu valor. Mas fui egoísta demais. E fiz papel... Fiz papel de maluca — afirmou ela, com um sorriso triste e irônico.
— Sim, você fez merda. — Tucker estalou os dedos, jogando a garrafa de cerveja longe na grama do quintal, já vazia. — Você fez merda, agiu errado, e foi egoísta. Mas você é um ser humano. Ficar se martirizando pelos cantos não vai adiantar de nada, eu sei, porque eu mesmo faço isso. — O rapaz a encarou, devagar.
— Você não é fraca que nem eu, que me drogo querendo alucinar e viver fora da realidade. Você se esforça para jamais fugir dela, encara de frente, mesmo se machucando. E, só por isso... Já te faz uma sobrevivente mais forte do que grande parte de quem já durou até agora. Você é foda, Rebecca. Você é... Você é maravilhosa, porra! — O rapaz apontou para ela, fazendo um som de incredulidade com os lábios como se não acreditasse que uma mulher como ela pudesse não gostar de si mesma.
Becky sorriu amplamente, finalmente se sentindo um pouco melhor pelo que fizera. Um pouco mais esperançosa. Seguiu até o rapaz que tanto a ajudara naquela noite e lhe deu um beijo na bochecha, antes que ele pudesse esboçar qualquer reação.
— Obrigada, lindinho — Rebecca agradeceu de coração, dando um tchauzinho para Tucker e voltando para casa, enfim calma o suficiente para dormir. Tucker levou uma das mãos à bochecha, ainda embasbacado com a atitude calorosa dela.
Abrindo a porta da garagem que levava a um dos corredores da casa, Rebecca ouviu que Tucker sussurrou algo parecido com “friendzoned”.
Riu, um pouco menos angustiada.
*****
[CINCO DIAS DEPOIS]
Peggy juntava em uma mochila pequena algumas provisões curtas apenas para o dia, na cozinha dos circenses.
Naquele dia, ela enfim decidira tomar sua parte nas novas responsabilidades de Alexandria. Havia discutido com Mavelle e Annie, que a vetaram de fazer parte do plano de Rick para ajudar nas construções da nova “estrada” que impediria os mortos-vivos da pedreira de chegarem a Alexandria.
As coisas estavam muito estranhas na comunidade. Nicholas sumira, e, agora Enid também. Aquela garota era mesmo um pouco arredia e costumava desaparecer de vez em quando, mas não por tanto tempo assim.
Os moradores estavam cada vez mais assustados e angustiados, com o sumiço não só de um veterano como de uma jovem adolescente, fora a ansiedade pelo medo de que os carniceiros aglomerados na pedreira próxima logo se soltassem antes do plano de contenção. Todos se perguntavam se a comunidade estaria pronta para aquilo, o que estariam fazendo os tais grupos hostis de localidades longínquas que Aaron e Daryl haviam encontrado, se eles teriam capturado Enid ou Nicholas, ou até mais... Se haveriam espiões em Alexandria.
O clima hostil parecia piorar a cada dia, por mais que todos se ocupassem com seus afazeres e a vigilância tivesse sido redobrada. Annie e Mavie não puderam impedir Peggy de participar dos turnos de vigia, em que qualquer um capaz de atirar poderia fazer a diferença, mas ainda tentavam barrar sua saída dos muros da comunidade, ainda que alguns dos adolescentes tivessem recebido permissão para ajudar na construção, como Aiyana, por exemplo. Aquilo enlouquecia a garota, que faria questão de participar e ajudar a todo custo.
O tempo em que ficava trancada, isolada de todos, sempre subestimada e superprotegida já passara. Peggy agora sabia como sobreviver, como matar mortos-vivos, e sabia que poderia fazer a diferença para eles, a diferença entre a vida e a morte. Não deixaria que as duas irlandesas barrassem sua chance de ser útil para todos.
Não se permitiria voltar ao tempo em que apenas se apavorava, sozinha em seu próprio casulo de medo. Ninguém poderia pará-la agora.
Peggy seguiu até o local dos muros de Alexandria pouco vigiado, repleto de árvores, com uma visão mais difícil para quem tentasse flagrar algum invasor ou fugitivo. Esperou algum tempo, e foi o mais rápido que pôde sem fazer ruídos até a murada, escalando-a rapidamente.
Comemorou em silêncio, a se ver lá fora pela primeira vez em tantos dias.
Atenta, seguiu o caminho no mapa que achara na casa dos circenses, querendo ir na direção onde iriam, mais tarde, Aiyana e outros jovens da idade dela e um pouco mais velhos, trabalhando juntos sob a supervisão de Glenn. Ninguém sabia do veto que recebera de Annie e de Mavelle além do Comitê Político de Alexandria. Pretendia se misturar a esse grupo mais jovem e inexperiente e, discretamente, fazer isso por alguns dias até que sua posição de utilidade pudesse ser reorganizada, recebendo o apoio de outros moradores.
Peggy andou sozinha por algum tempo, portando consigo a pistola com silenciador que recebera, com bastante munição, e algumas adagas que Aya lhe dera. Achou poucos mortos-vivos no caminho, matando-os sem problemas com as lâminas, até que sentiu-se surpreendida ao ver um rio que não estava no mapa.
Puta que pariu. Acho que me perdi.
A menina começou a ficar um pouco preocupada. Olhou o mapa outra vez, e viu que se desviara apenas uns poucos quilômetros do local onde os jovens participavam da construção da estrada. Decidiu contornar o rio, o que levaria mais algum tempo, mas parecia mais fácil do que voltar.
Estava enganada. Peggy foi pouco a pouco vendo que se desviava cada vez mais do caminho original, ficando angustiada a cada novo morto-vivo que aparecia, em dúvida sobre o impulso de voltar para a comunidade ou de continuar.
Depois de quase uma hora caminhando, Peggy ouviu o som de um farfalhar de folhas próximo. Moveu-se para trás, apontando uma adaga, esperando que um morto-vivo aparecesse. Como isso não aconteceu, trocou rapidamente a arma por sua pistola.
— Saia daí — falou, com o máximo de frieza que pôde reunir.
— Que ideia foi essa?! — Aiyana perguntou, se revelando para a surpresa de Peggy.
A garota mais jovem relaxou os ombros instantaneamente, soltando a expiração, aliviada.
— Você sabe ao menos para onde está indo?! — Aya falou, séria, aproximando-se da amiga.
— Sei. Para a parte da “estrada” que vocês estão montando — afirmou a filha de Dakota, novamente audaciosa.
— Não. — A indígena lhe deu um olhar de reprovação. — Eu te segui desde o começo, e fiz você me perceber de propósito. Estamos fazendo o caminho mais longo.
— Eu achei que ia perder tempo demais voltando para Alexandria... — Peggy tentou se justificar, mas Aya a cortou.
— Você já perdeu tempo querendo participar assim. Tinha que ter me pedido para ir junto. Eu te levaria — Aiyana garantiu, cruzando os braços.
— Mas Annie e Mavie...
— Nós já fizemos MUITAS coisas que Annie e Mavie não aprovariam. — Aya rolou os olhos. — Eu estou do seu lado. Se eu te levasse, sem ser às escondidas, as chances de convencer o Glenn seriam muito maiores. Ele é a maior manteiga derretida, é bonzinho com todo mundo — disse a indígena.
— Você não quer é ter que depender de alguém. Mas para com isso! Todo mundo aqui depende um do outro — afirmou a índia, determinada, segurando a amiga pelos ombros. — Você pode confiar em mim. E no Moritz. — O olhar de Aya ficou um pouco mais malicioso.
— Aliás, a sua cara ontem depois de passar parte da noite conversando com ele estava impagável — Aiyana debochou da amiga, que lhe deu um tapa no braço.
— Para! — Peggy retorquiu, sorrindo constrangida.
— Você está caidinha por ele. Se duvidar quer fazer isso até para impressionar! — troçou a indígena, constrangendo a filha de Dakota.
— Não tem nada a ver. Estou fazendo isso por mim mesma — disse Peggy categoricamente.
— Sei. É melhor assim. Até porque você fica parecendo ainda mais imatura com atitudes como essa — Aya garantiu, voltando a seriedade inicial. — Vem, vamos por aqui. Se quer mesmo fazer parte do grupo e quer que eu te ajude, vamos contornar um caminho mais curto. Mas fique atenta.
— O que tem nesse caminho? — a adolescente mais nova indagou.
— Vamos passar pela beira de um precipício. Perto da pedreira. Vai entender de perto porque estão todos desesperados assim — assegurou Aiyana, aparentando algum nervosismo.
As duas seguiram caminho, silenciosas e furtivas, enquanto Peggy volta e meia dividia sua atenção entre o que faziam e as lembranças da noite anterior.
[...]
Por vontade própria, Peggy passara a ler e estudar um pouco de filosofia. Discutia um pouco do que lera sobre os contratualistas e a formação do Estado democrático de direito com Moritz, quando, no decorrer do diálogo, a conversa mudou de rumo. Aiyana há muito já havia subido para seu quarto e os deixara sozinhos. Nisso, Peggy flertara com o ex-circense e se envolvera tamanhamente com a conversa, que dera brechas demais. O ex-palhaço, sempre tão gentil e cauteloso, se sentiu a vontade para perguntar algo que a deixara simultaneamente interessada e constrangida.
— Peggy, por acaso você estaria tentando me seduzir? — o ex-circense perguntou, dúbio, enquanto Peggy guardara um apanhado sobre as considerações de John Locke, propositalmente movendo-se de forma a se inclinar na estante perto dele, permitindo que visse o decote que usava no dia.
Falou no mesmo tom afável e nada malicioso com que conversara com ela, inclusive durante os flertes, mas ela podia ver a clara centelha de interesse brincando nos olhos do sujeito.
Peggy teve o instinto de se repreender e negar, mas guardou o livro com calma, munindo-se de coragem. Voltou-se para ele, questionando-o tão despretensiosamente como se ainda conversassem sobre filosofia.
— E se eu estiver? — disse ela, sem um pingo de malícia em sua voz visível.
Moritz passou a mão pelo rosto, um pouco menos dissimulado depois de ter tomado um copo de whiskey. Sorriu, parecendo achar graça.
Levantou-se e andou até a garota. Peggy sentiu seu coração ribombar em seu peito, enquanto ele a encarou, colocando uma madeixa dos cabelos castanhos dela atrás de sua orelha.
— Reflita bem sobre isso — o ex-circense a mirava, e seu sorriso tinha um tom menos ingênuo. — Talvez da próxima vez eu não tenha tanta força de vontade para resistir. — O circense lhe deu um beijo na testa, algo simultaneamente paternal e aberto a outras interpretações ao mesmo tempo.
[...]
Peggy ainda se recordava da noite anterior quando algo sobressaltou a ela e Aiyana. Próximo a árvore que elas contornavam para enxergar a pedreira, partes de um morto-vivo estavam penduradas pelos pés, seu tronco cortado pela metade.
— Que merda é essa? — a filha de Dakota questionou, preocupada, enquanto Aya lhe pediu para que fizesse silêncio. Ignorando o carniceiro ali pendurado, levou-a até perto da borda do precipício.
Os olhos de Peggy arregalaram-se e seu queixo caiu quando viu aquele formigueiro de mortos-vivos. Metros e metros abaixo delas, mais do que um Exército se reunia, preso apenas por caminhões que os retinham ali dentro.
Mas ela mal teve tempo de sofrer aquele assombro.
Subitamente, cercando-as por todos os lados — exceto da queda do precipício —, cerca de quatro sujeitos surgiram do nada, com rifles, peixeiras, fuzis e pistolas nas mãos. O sangue de Peggy gelou, quando ela desejou por um instante que aquilo fosse só um pesadelo.
Todos os quatro tinham cicatrizes com um “W” cravado em suas testas.
Aya, ao seu lado, segurou em sua mão. Peggy a encarou, vendo o olhar da indígena vacilar, tentando olhar nos olhos daqueles sujeitos e fazer uma postura de defesa.
— Conseguimos achar algo além de uns mortos na caçada de hoje... — falou um sujeito gordo e de idade, porém ainda forte, armado de uma peixeira.
— Caçamos umas gatinhas também. Umas belezinhas... Tão novinhas — disse um homem ruivo, mirando o rifle de Aiyana para Peggy, lambendo os lábios.
Um calafrio hediondo gelou a espinha de Peggy. Ela sabia o que aconteceria. Mas não conseguia agir, ainda. Não podia colocar Aya em perigo.
— Bem, vocês podem fazer o que quiserem... Não tenho pressa. Posso esperar. — Um rapaz loiro as encarava com uma pistola na mão, o mesmo olhar predatório em seus olhos compartilhado com todos os outros.
— Tire a roupa você primeiro, amorzinho — um homem negro, que ainda não falara nada, apontara seu fuzil para Aya. A indígena, silenciosa e sangue frio como só ela conseguia ser, foi pouco a pouco levantando a blusa e jogando-a para o lado. Os homens comemoraram, enquanto Peggy apenas a encarava, em choque.
Aya, o que você está fazendo?
— Isso. Que beleza! Agora coloquem as suas armas na frente dos seus pezinhos, devagar. — O homem da peixeira girou-a em suas mãos, e os outros ainda apontavam as armas para as garotas. — Você primeiro. — Ele apontou para Peggy com a lâmina.
A adolescente mais nova abaixou-se, seus lábios tremendo, enquanto colocava suas armas defronte a si. Em seguida, obrigaram Aya a se desarmar. Ela retirou três das suas quatro adagas e colocou-as na frente de si, junto com sua pistola.
— Venha para cá, indiazinha — ordenou o homem ruivo. Enquanto isso, o sujeito gordo nojento se aproximou de Peggy, segurando os braços dela, impedindo-a de se mover. Lambeu sua bochecha, fazendo a garota sentir um calafrio de nojo e de medo ao mesmo tempo.
— Vamos ver um espetáculo — o velho disse aos seus ouvidos, fazendo Peggy se contorcer de horror e repúdio.
Aiyana foi lentamente até o sujeito, mas o homem negro interpelou.
— Vamos deixar aquele outro merdinha ver um showzinho antes de morrer. É piedoso — debochou, com um sorriso cruel nos lábios.
— Por que não? Não vai poder fazer nada mesmo. Faz o seguinte! — O ruivo voltou-se para o sujeito loiro. — Solta ele, e fica segurando o cara. Quero só ver como ele vai reagir — o Wolf ruivo gargalhou, e alguns dos outros riram também. O velho que segurava Peggy apenas bufava atrás dela, enquanto a garota tentava se desvencilhar.
O Wolf loiro obedeceu as ordens. Foi até uma mata fechada, arrastando alguém de lá, e soltando as cordas que o mantinham amarrado. Peggy exclamou, surpresa, e quase gritou:
— Nicholas?!
O velho atrás de si colocou sua mão imunda na boca dela.
— Olha só! Elas são da turminha dele... — O sujeito gordo parecia animado. — Então a gente pode mesmo ficar com as duas, e mandar ele de volta para dar o recado. Esse inútil vai servir para alguma coisa!
— É uma ótima ideia — concordou o ruivo, enquanto Nicholas, com a boca vendada, reconhecia Peggy e Aya, e se debatia enquanto o loiro o segurava.
— Então vamos logo começar com isso... Ele pode nos ver dando um tratinho nelas, elas estão precisando... E depois o largamos perto da comunidade dele. Já sabemos onde fica mesmo — o ruivo determinou, sádico, olhando para Aiyana como se visse um pedaço de carne.
Assim que o Wolf ruivo se aproximou da garota indígena, tudo aconteceu simultaneamente.
— Peggy, FOGE! — Aiyana gritou, desesperada, enquanto ela retirou a adaga que escondera dentro da calça e atingiu propositalmente a garganta do homem gordo que mantinha Peggy presa. O sujeito caiu para trás no mesmo instante, desfalecendo, e o homem ruivo encarou a indígena com raiva mortal nos olhos.
NÃO! Peggy só teve tempo de pensar, sem nem conseguir soltar uma exclamação de terror perante o que testemunharia, desesperançada.
Em uma fração de segundo, o Wolf ruivo fuzilou o tórax desnudo de Aiyana, que caiu, levantando a mão na direção da outra garota, cuspindo sangue até enfim morrer.
Peggy, munida por um ódio que nunca antes sentira em sua vida, arrancou a peixeira das mãos do corpo caído antes que qualquer um dos Wolves visse que reagira, e cortou fora as mãos do homem negro que segurava o fuzil. Peggy lançou-se no chão, os tiros do ruivo não a acertando por pouco, enquanto Nicholas se debatia e conseguia sair das mãos do Wolf loiro.
A garota levantou o fuzil alguns centímetros do chão, descarregando a arma nas pernas do ruivo, que gritou de dor, caindo surpreso na grama. O homem loiro tentava matar Nicholas, errando alguns tiros de sua pistola, um deles acertando a cintura de Peggy, ferindo-a de raspão. Enquanto isso, o morador de Alexandria roubava ele mesmo a arma do Wolf ruivo. Nicholas conseguiu se afastar o suficiente para acertar alguns tiros certeiros no loiro, aniquilando-o.
Peggy atirou na cabeça do homem negro que decepara fora as mãos, matando-o de imediato, ignorando a dor na altura da cintura. Depois, levantou-se, mirando o fuzil nas partes íntimas do Wolf ruivo.
— P-por favor, n-não... — o sujeito tentou, e Peggy nem se dignou a ouvi-lo. Descarregou o pente fuzilando os órgãos sexuais do sujeito, fazendo seu corpo já morto virar uma poça de sangue irreconhecível naquela região.
Nicholas e ela se encararam, enfim livres de ameaças, e a filha de Dakota correu na direção de Aya. Jogou-se no chão ao lado dela, abraçando seu cadáver, e fechando os olhos de Aiyana para que parecesse ter tido uma morte menos hedionda.
Peggy chorava abertamente, embalando Aya de um lado ao outro, enquanto Nicholas arrancou o pano que vendava sua boca e jogava os cadáveres dos Wolves pelo precipício. Largou-os para alimentar os mortos-vivos lá embaixo, que certamente ouviram os ecos daquele barulho. Quando terminou, ajudou a garota a se levantar e se afastar da amiga morta.
Fez menção de dar um tiro de misericórdia na cabeça de Aya, mas Peggy o impediu. Ela pegou uma das adagas de Aiyana, cravando-a na cabeça da amiga, seus olhos tão enevoados que mal conseguia enxergar o rosto dela, por conta das lágrimas. Cobriu o corpo dela, evitando que ficasse exposta, com a blusa que ela mesma tirara pela crueldade daqueles homens.
— Temos que ir. Há mais deles por aí. Não estão tão longe assim. Precisamos contar aos outros — Nicholas garantiu, ajudando Peggy a se levantar mais uma vez, e recolhendo algumas das armas.
A garota olhou para trás uma última vez, vendo Aya deitada na grama, como se estivesse ali dormindo. Os sons de mortos-vivos se aproximando pelo cheiro de carne sanguinolenta estavam cada vez mais audíveis, e logo o corpo de Aiyana viraria um festim alimentício para os carniceiros.
Peggy voltou os olhos para a frente, chorando ainda, ela e Nicholas se apoiando um no outro para caminhar. Feridos internamente e externamente, Peggy apenas pensou... Por que não fora ela no lugar da amiga?

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