Hunter's Instinct
30 Episódio 30 - Simple Man
Notas iniciais
Boy, don't you worry,
you'll find yourself
Follow your heart and nothing else
And you can do this
if you try
All I want for you my son
Is to be satisfied
And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son If you can?
Baby, be a simple man
Be something you love and understand
Baby, be a simple man...
Lynyrd Skynyrd — Simple Man
[TRÊS DIAS ATRÁS]
– FUJAM! – gritou Moritz, alguns metros à distância de Billy Ray. Sobressaltado e surpreso, o sulista do Alabama mal teve tempo de se recuperar do choque súbito de ver dezenas de carniceiros cercando o local onde haviam decidido montar o acampamento.
Tiros se fizeram ouvir da espingarda antiga do homem de meia idade barbado, enquanto o estalo do chicote de Tejas ressoava pelo ar da noite.
Soltando urros e arquejos pelo esforço, a menina indígena, Aiyana, lutava junto ao indiano que era seu companheiro, eliminando diversos mortos-vivos com suas adagas e punhais atirados em cheio nas têmporas dos inimigos.
Billy, desarmado, munido apenas de uma faca comprida, teve de improvisar com os mortos que se aproximavam dele.
Dando chutes, empurrões, socos e cotoveladas, fincando a lâmina em testas, cortando dedos e mãos, o homem se esforçava para guiar-se em meio a pouca luz daquela noite, quase que unicamente movida pelas chamas bruxuleantes da fogueira do acampamento.
Em pouco tempo, foi cercado por um grande número de carniceiros. Sentia que suas forças eram usadas ao máximo, em cada golpe, em cada esquiva e contra-ataque que desferia para proteger-se das garras e dentes podres daquelas carnes mortas ambulantes.
Depois de alguns minutos de luta intensa, Billy passou a se sentir zonzo. Fazia tempo que não tinha uma refeição decente, estava desidratado, fragilizado pelos longos dias sozinho na estrada, quase sem comida e água. Sem armas de fogo para lhe ajudar, apenas pôde ver ao longe, por trás da multidão de carniceiros que se aglomerava em volta de si, o grupo circense fugindo agilmente por entre as árvores.
Já não escutava o estalido do chicote de Tejas. Ou tinha vislumbres prateados das lâminas de Aiyana. Não escutava mais os tiros certeiros do homem de barba grisalha.
Tinha certeza de que iria morrer, ali, naquele momento.
Levantou a comprida faca que tinha, quando percebera que perderia aquela batalha por sua sobrevivência. Moveu-a para o seu pescoço.
Se era sua hora de morrer, não deixaria aquele mundo horrendo servindo como comida para aquelas monstruosidades.
A lâmina da faca já estava em seu pescoço, e seus pensamentos a mil por hora.
Adeus Mavie. Adeus Mary Anne. Espero que estejam bem.
Billy fechou os olhos, e preparou-se para cortar a própria garganta, com todo o vigor que ainda lhe restava.
Deus, tenha piedade de mim.
– VOCÊ TEM MERDA NA CABEÇA?! – A voz aguda e estridente, desafinada, se fez ouvir muito próxima dele. Billy parou o movimento na hora e abriu os olhos.
Becky, com os cabelos soltos, não mais presos em marias chiquinhas, girava seu corpo com uma agilidade incrível, e esmagava cabeças semi-decompostas de carniceiros com habilidade impressionante. Sozinha, conseguiu abater muitos cadáveres caminhantes que ameaçavam a vida do sulista do Alabama.
Rápida como um lince, a mulher loira derrubara cerca de oito mortos-vivos ao redor de Billy, seu rosto sujo de sangue, seu próprio nariz escorrendo o fluido rubro e viscoso. Cerca de uma dezena ainda restava, avançando intrepidamente apesar da lentidão de seus corpos.
– E aí?! Vê se me ajuda e deixa para se suicidar depois! – ordenou a esquisita jovem, com sarcasmo na voz. No mesmo instante, Becky se abaixou e passou por baixo das pernas abertas e arqueadas de um errante, que provavelmente quebrara alguns ossos daqueles membros se arrastando.
A mulher loira fizera tal movimento com uma flexibilidade fora do normal, abrindo as próprias pernas em uma quase espacata perfeita que a lançou para longe do alcance do errante, atravessando por baixo das pernas dele e novamente erguendo-se atrás das costas dele, em uma ação tão rápida que os olhos do homem moreno quase sequer puderem perceber.
– Boa noite, fofinho! – disse Becky com deboche, enquanto juntava as duas mãos no bastão de baseball preto e vermelho que tinha, e esmagava o crânio do morto-vivo com força brutal.
Billy, novamente desperto pela adrenalina e novo cenário, desta vez favorável, fincou sua faca em diversos carniceiros que ameaçavam sua vida e a da mulher loira. Em pouco tempo, ambos tinham derrotado a generosa quantidade de cadáveres ambulantes que ali havia.
Billy Ray examinou as testas dos mortos-vivos eliminados, aferindo que todos, sem exceção, tinham a marca de um W desenhada com alguma lâmina, ou posta a ferro em brasas na superfície da pele.
– Vamos embora. Agora! – Becky falou em tom de exigência, correndo para onde Billy vira os outros escaparem.
Em silêncio, atento para uma possível nova leva de inimigos, Billy seguiu-a, munido do máximo de resistência e agilidade que pôde reunir em seu corpo fraco e cansado.
Tendo apenas a luz da lua daquela noite estrelada para lhes guiarem ao longo daquele amplo matagal, os dois corriam, mantendo um mesmo ritmo de velocidade, até finalmente encontrarem uma clareira em meio a densa floresta.
– NÃO! – Becky gritou, agudo, parecendo desesperada. A mulher loira, já excêntrica quando aparentemente animada, parecia completamente transtornada naquele momento. – NÃOOO! NÃO FOI ISSO QUE COMBINAMOS! NÃO FOI! VÃO SE FODER! – a mulher não parava de gritar, deixando seu bastão cair no chão.
Ali, no meio da clareira, havia algo que destoava do local. Billy aproximou-se do que vira, um pouco ansioso com o escândalo da jovem loira. Aquilo poderia atrair mais mortos-vivos e outro tipo de companhia nada bem-vinda.
Com rapidez, Billy Ray abaixou-se e tirou algo que estava jogado embaixo de uma pedra. Uma superfície fina, branca, destacada no meio da grama escura.
O mesmo papel que falava sobre o tal exército de West Virginia.
– Hey! – Billy voltou-se para Becky, ficando cada vez mais preocupado. Olhou para os lados, mas não havia movimentação alguma em meio as árvores.
– Hey, pare de gritar, dona, pelo amor de todos os santos! Isso só vai piorar as coisas! – pediu Billy Ray, aproximando-se da mulher e segurando os ombros dela. Becky havia se curvado para o chão, as mãos ao rosto, mas gritava abafado em meio as suas palmas. – Vê se se controla! – insistiu o homem, tentando ampará-la a uma distância educada.
A mulher parou por um tempo, mas seus ombros tremiam convulsivamente. Deveria estar chorando por baixo das mãos que escondiam seu rosto.
– Por que você não vai procurar um mato para carpir, caipira desgraçado?! – resmungou Becky de volta, olhando para o homem. Seus olhos estavam vermelhos, manchados de lágrimas, chorara em profusão por algo que aparentemente a desapontara muito.
– Com todo o respeito, moça, ficar lelé da cuca* não vai resolver nada – Billy falou em seus termos interioranos, e finalmente reparou em algo diferente que havia no papel. Alguém escrevera com carvão naquela folha impressa.
Becky aparentemente vira os escritos também, pois, no mesmo momento, arrancou a folha das mãos de Billy. Leu, em seguida, o que estava escrito, em voz audível:
– “Au revoir, Rebecca.” – A jovem loira parecia querer rasgar o papel em várias tiras, tamanha a força que segurava a folha. – “Você fez sua escolha. Espero que isso ajude.” – Ela baixou os olhos até a última letra.
– “Boa sorte. Nos vemos em uma próxima vida. Com carinho, Moritz.” – Becky terminou a leitura, e Billy mostrou-lhe o que achara junto ao papel. Duas pistolas com silenciador, cartuchos de munição compatíveis, e um saco de balas de morango.
– Velho filho da puta! Tinha que ter sido palhaço de circo, mesmo. Não perde uma maldita piada! – Rebecca abriu o saco de balas, revoltada, jogando todo o seu conteúdo no chão. Billy, ignorando a reação dela, abaixou-se e recolheu as balas, guardando-as em sua mochila.
– Deixa ver se entendi direito – Billy começou, limpando a garganta. – Você me guiou até aqui porque ia encontrar com eles nesta clareira?
– Era o combinado – disse Becky, entre dentes. Batia o queixo de tanta raiva.
– E esse sujeito teve tempo de escrever essa carta assim... De última hora? – Billy insistiu. A mulher loira já estava descontrolada, se fosse para ela surtar, era melhor que descarregasse de uma vez.
– Do que está falando?! – questionou Rebecca, ainda indignada.
– Dona... Acho que ele já planejava te deixar pra trás. Ou eles. Isso aqui foi escrito a carvão. Deve ter sido o da fogueira de hoje à noite – explicou o caçador. – Ele não escreveu isso aqui nessa clareira, sendo perseguido por carniceiros – pontuou o homem.
Becky olhou para o papel, e dele para Billy Ray. Seu rosto, antes com feições agressivas, parecera se transformar para uma expressão de desalento quase infantil. Billy, mesmo julgando aquela mulher ensandecida, teve um ímpeto de compaixão.
– Calma, moça. Para tudo tem jeito nessa vida – disse Billy, incerto, engolindo em seco e guardando a carta.
– Dá essa merda aqui – exigiu Becky. Billy Ray, levantando as sobrancelhas, pegou o papel que acabara de guardar no bolso, e o entregou para ela.
Becky, respirando fundo e repuxando os lábios com raiva, pegou o bastão que estava no chão, e começou a surrar a carta.
Billy apenas observou aquela nova demonstração de insanidade, quieto. Depois de satisfeita, arfante, com o papel rasgado em vários pedaços e amassados, ela olhou para ele outra vez.
– Da próxima vez que eu encontrar com aquela múmia escrota vou estourar as bolas dele com esse bastão – prometeu a jovem loira.
Pobre velhote desmilinguido**. Pensou Billy Ray, mas não falou nada.
– Dona, acho melhor achar algum lugar para passar a noite – Billy sugeriu, depois de alguns segundos.
– Não vamos dormir hoje. Esse lugar não é seguro – Rebecca respondeu, parecendo mais calma.
– Hey, como assim?! – Billy Ray começou a ficar irritado com as considerações insanas da mulher loira.
– É assim sim – retrucou ela. – Caso queira dormir aí sozinho ao relento, você é quem sabe – falou, impertinente. Billy teve vontade de lhe dar um sermão pelo desrespeito, mas ignorou mais um absurdo.
– Depois de tanta peleja e gastura***, sua ideia é picar a mula**** p’ronde, então?! – falou Billy, manifestando seu sotaque do interior.
– Puta que o pariu – soltou Becky, grosseira, levantando uma sobrancelha e rindo com honestidade. – Você pediu para ser caipira e entrou na fila cem vezes, né? – comentou a jovem loira, sorrindo. Mesmo debochando, o rosto dela era bem mais agradável assim, do que quando parecia fora de si. Seria uma menina formosa, se não fosse tão doida. Refletiu Billy Ray, surpreso.
– Desculpa – falou ela, subitamente, comprovando-se instável. – Desculpa por te xingar e desculpa pelos... Ataques. Mas não posso te garantir que não vai acontecer de novo – complementou Becky, com um sorriso triste.
– Já fui casado. Estou familiarizado com faniquito de mulher – brincou Billy, tentando ser menos duro e desanuviar a tensão.
Rebecca riu outra vez. O sorriso dela era largo, alvo... Honesto. Seus olhos escuros cintilavam quando sorria.
– Vamos para Wyoming County, em West Virginia – decretou Becky, apontando para o papel destroçado com o bastão de baseball. – Já sabemos aonde fica – disse, determinada.
Naquela noite, Billy Ray e Rebecca andaram seguindo a bússola que a jovem loira portava consigo e as direções do mapa que Billy tinha. Estava exausto, fatigado, mas a súbita nova companhia despertara mais... Energia, dentro do sulista do Alabama.
Becky não batia bem da cabeça, não lhe restavam dúvidas sobre aquilo. Mas era uma sobrevivente ágil, forte e incrivelmente flexível. Até o fim dos combates daquela noite, Billy tivera certeza de que, se ela realmente trabalhara no circo, deveria ter sido contorcionista.
De mais a mais, quando falava coisas com sentido, era uma companhia agradável. E, se não fosse pela intervenção dela, teria terminado sua vida daquela forma terrível... Matando-se para não ser comido vivo por carniceiros.
Billy sentia que tinha uma dívida com aquela mulher loira. Bem ou mal, louca de pedra ou não, Billy Ray decidira acompanha-la na missão que a garota decidira: descobrir a verdade sobre o tal exército contra carniceiros, localizado em West Virginia. Ela lhe dera uma chance de sobreviver, e ele tinha de compensá-la por aquilo.
Já estava cansado de ouvir apenas os ecos de suas memórias. Era bom estar na companhia de uma voz humana, alheia, para variar. Ainda que dissesse inúmeras sandices.
Ao amanhecer, fincaram acampamento perto do riacho Savage, munindo-se de bastante água potável. Becky tinha equipamentos úteis consigo, como um filtro de água, um fogareiro e outros itens de sobrevivência de excelência. Billy, estranhando tanto preparo, passou a refletir consigo mesmo...
...Se ela já não sabia que seria abandonada pelo grupo.
Passaram os outros dois dias caminhando até suas forças se esgotarem, alternando turnos para garantir a própria segurança. Mataram cerca de cinquenta e cinco errantes ao todo, sem o prejuízo de lidar com arranhões, mordidas ou incidentes que pudessem afligir sua saúde.
Billy reparara mais e mais nas estranhezas daquela garota loira.
Algo na forma dela se portar, no discurso desconexo da realidade, aleatório, que tinha, às vezes, ia além do excêntrico.
Becky mudava de humores com facilidade, estando estranhamente séria e taciturna por um momento, e, no outro, alegre e vivaz. Tinha momentos de completa paranoia, e outros de confiança destemida, sem cabimento.
Talvez fosse algum trauma que sofrera naquela realidade caótica do mundo repleto de mortos-vivos... Ou algo diferente.
Apesar de tudo, ela se mostrava bastante preparada. Não apenas atacando e matando carniceiros, mas tinha bastante experiência na sobrevivência na estrada. Sabia encontrar bons atalhos, despistar mortos-vivos, rastrear trilhas, caçar, colher, reconhecia até mesmo vegetais venenosos.
Assim, no terceiro dia, Billy Ray veio a saber mais sobre ela. Sentados em volta de uma fogueira acesa facilmente por Rebecca, Billy ouvira atento enquanto ela finalmente se sentia à vontade para se abrir mais com o sulista do Alabama.
Enquanto seus ouvidos prestavam atenção no que a mulher loira lhe contava, Billy Ray olhava a noite estrelada daquele local árido, depois de terem passado o dia atravessando, sem descanso, o Long Hunter State Park até chegar em Brush Creek. Naqueles três dias, haviam caminhado um total de 45 quilômetros, cerca de quinze quilômetros de caminhada por dia. Era mais do que Billy costumava caminhar sozinho, mostrando que quem estava fora de ritmo, aparentemente, era o próprio sulista.
Billy olhou o riacho que descia ligeiro metros e metros abaixo do pico onde se localizavam, local muito íngreme de terra que, para ser acessado, exigia alguma capacidade de força para escalar rochas. Ali, carniceiros não conseguiam chegar, e eram vistos à distância.
– Sabe... Eu acho que posso ser sincera com você – falou Rebecca, suspirando, parecendo soltar um fardo dos próprios ombros.
– Salvamos a pele um do outro algumas vezes, dona. Pode falar o que der na telha – ele foi gentil.
– Talvez isso seja o efeito dos meus pés estarem me matando – comentou ela com um sorriso debochado – mas agora que não tenho outra saída... Vou te falar: sabia que eles iriam me deixar. Se eu escolhesse o que escolhi – esclareceu Becky.
– Eu desconfiava disso – Billy Ray respondeu, sem olhar nos olhos da jovem.
– Por quê? – perguntou Rebecca, parecendo surpresa pelo tom de sua voz.
– Vocês eram um grupo de quatro pessoas, e você está equipada para quem vai sobreviver sozinha na natureza selvagem – explanou Billy, com conhecimento de causa. – Eu sou um caçador, aprendi a caçar desde criancinha com meus outros irmãos e meu pai. Já passei muitas noites e dias ao relento, debaixo de sol forte, e de vento frio da noite – comentou. – Alguém que realmente tivesse sido surpreendida não seria assim precavida.
– Então você não está puto comigo? – perguntou a jovem loira.
– Não. O mundo mudou, dona – disse Billy. – Aprendi isso na pele... Eu também já fiz muita besteira. Sei o que é... Estar no limite de perder a cabeça. Sei o que é ficar fora de si, e fazer coisas que a gente se arrepende depois. – Deu um olhar significativo para Becky, ajeitando o chapéu que usara no dia.
– Pare de me chamar de dona, devo ser só uns treze anos mais nova do que você – retrucou Rebecca, dando um sorrisinho enviesado. Billy riu um riso seco.
– Uma pessoa costumava falar isso para mim. Me chamava do jeito que você me chama de caipira, também. Mas eu não chamava ela de dona – confidenciou Billy, tirando o chapéu da cabeça e coçando o couro cabeludo.
– Sua esposa, ou namorada, algo assim? Sinto muito – falou Becky. Parecia realmente sincera. Moveu-se um pouco mais para perto de Billy, arrastando-se no chão arenoso.
– Não, nunca foi. Embora eu quisesse – admitiu Billy Ray. – Mas estraguei tudo. Descobri muito tarde que a amava. E já era tarde demais... – Billy confessou, ele mesmo respirando fundo e soltando a respiração, bufando em silêncio.
– Ela era idiota – respondeu Becky, surpreendendo Billy que lhe deu um sorriso honesto.
– Tá doida, menina? – disse Billy, e subitamente sentiu um aperto no peito. Se referira a Rebecca da mesma forma que costumava se dirigir a Mavelle.
– Ela que deveria estar. Você é um partidão do fim do mundo! Como poderia te recusar? – considerou Becky, dando um soquinho de leve no ombro de Billy e rindo amplamente.
– Você caça, tem mira precisa com uma arma e uma faca, sabe táticas de sobrevivência na vida selvagem... E dá um caldo, mesmo emporcalhado desse jeito. – Becky deu uma piscadela forçada que Billy não soube ser debochada ou um flerte sincero.
– Pare de me bajular, não carece disso – afirmou Billy Ray, à moda caipira.
Rebecca riu da mesma forma que Mavelle Berry ria quando Billy falava algo em “caipirês”.
– E por quê ela foi tão burra? – perguntou Rebecca, agora com um olhar solícito em seus grandes orbes castanhos escuros.
– Tinha outro caipira no meio do caminho. – Billy fechou a expressão. — Que veio depois, e que também sabia caçar, e tinha pontaria, enfim, o diacho do filho da puta parecia nascido para essa vida de hoje em dia. Desde o começo jurei de ódio o filho de uma égua. Não sei, acho que previ o que ia acontecer... – Billy voltou os olhos para a noite escura, e para o riacho metros e metros abaixo.
– Ah... Desculpa. Foi um erro ter tocado nesse assunto. – Rebecca parecia um pouco constrangida.
– Não, moça. Não dá nada... Isso foi em outra vida. Não tenho nem ideia do que aconteceu com eles, e com o resto do pessoal que eu estava junto – Billy falou, pensativo.
– Então você abandonou seu grupo também? – ela perguntou.
– Meio que isso... – Billy complementou, enquanto Rebecca abraçava os próprios joelhos, sentada do lado dele.
– Hey... – Becky falou, sua voz soando baixa. – Eu me arrependi, no início, de ter feito a minha escolha. De não seguir com eles. Mas agora não mais.
– O quê? – Perguntou o caçador.
– Eu vou te contar a verdade: quando fingi que fui abandonada, e fingi surpresa e fiz aquele escândalo todo porque eles supostamente teriam me deixado, com a carta forjada e tudo... Eu realmente fiquei raivosa naquela hora. Achei que tinha feito a escolha errada. Mas tive de encenar aquilo, o falso abandono, para que você não se sentisse traído, e, sei lá, não quisesse me matar – Becky garantiu, honesta, um pouco preocupada.
Billy continuou em silêncio, a encarando.
– Eu, Moritz, Tejas e Aya sabíamos que estávamos sendo seguidos. Aquela multidão de corpos podres não apareceu lá à toa querendo nos comer vivos. Interceptamos a trilha do que pareciam ser pegadas de pessoas vivas... Rodeando a gente, há algum tempo. Lembra da marca do “W” que tinham nas testas daqueles troços?
Billy confirmou com a cabeça, ainda quieto.
– Achamos que eles usam aqueles mortos-vivos. Que devem ser armas de algum grupo. Algum grupo que nos seguia há dias, e que armou aquela armadilha para nos matar. E nós pretendíamos despistá-los... Usando você como isca – Becky confessou, contrita.
Billy Ray nada dissera, ainda assim.
– Era o combinado... Por isso que nos aproximamos de você. Enquanto os “W” seguiam a gente, a gente te seguia. Tanto que o caminho de fuga, naquela noite, era ir pela clareira, se estivéssemos todos juntos. Mas eu estava mais indecisa a respeito dessa ideia. Achei... Achei injusto demais. Nós já matamos pessoas para sobreviver, mas somente pessoas que nos atacavam ou nos ameaçavam. Você... Ia ser uma covardia, desculpa.
– Aquilo ia contra o que fazíamos... Mas estão todos tão assustados, tão exaustos depois de dois anos na estrada, sem descanso, apenas morte atrás de morte... Éramos um grupo circense maior, sabe? Bem maior, no começo de tudo... E mais... Humanos... E menos... Aberrações – explicou Becky.
– Por fim, decidimos que faríamos essa armação, caso eu não estivesse com eles durante a debandada pela floresta. Se estivesse, você seria devorado vivo, e a gente escaparia – terminou ela.
– Se quiser me matar... Vá em frente. Mas eu não me entregarei sem luta – alertou a jovem loira.
– Você fez algo muito difícil, moça. Não vou te matar. Meus sinceros parabéns – disse Billy, um tanto apático, sem olhar para Becky.
– Do que você está falando?! – Rebecca não parecia acreditar. Pelo visto, realmente achara que Billy Ray pularia em seu pescoço para assassiná-la.
– Por minha culpa, meu melhor amigo morreu. Injustamente. Porque eu estava louco... Porque eu estava cego – confidenciou Billy Ray, lembrando-se da morte de Haywood.
– Eu não posso negar que o “matei”. Porque fui egoísta. – Billy soltou o ar, melancólico. – Eu revivo a imagem da morte dele em sonhos, todos os dias. Os gritos desesperados, enquanto aqueles monstros comiam as tripas dele... Mas o pior monstro era eu. – Billy Ray fechou os olhos, fazendo uma expressão de dor.
Becky ficou em silêncio por alguns segundos. Em seguida, tocou com delicadeza no ombro esquerdo de Billy Ray.
– Hey. Por que não combinamos assim... – ela falou, com cuidado. – Vamos apagar nossos passados, certo? A partir de agora, só vale o que vier em seguida. – Becky sorriu seu sorriso infantil e sincero.
– Isso é fácil de fazer. Entre nós. Mas não internamente... Não esquecemos nosso passado. – Billy desviou o olhar dos olhos luminosos de Rebecca.
– Você ainda a ama, não é? – Becky falou, subitamente, e Billy voltou seu rosto para encará-la. Olharam-se por longos segundos, nenhum dois dois falando uma palavra sequer.
– Eu... – Billy Ray ia continuar, mas o olhar de Becky tornou-se apavorado.
– Ali! – Rebecca apontou, se levantando e munindo-se do seu próprio bastão. – Atrás de você! – ela gritou.
Billy girou nos calcanhares, pondo-se de pé em um salto, protegendo Becky com a própria silhueta, e o que vira o surpreendera completamente.
*****
Daryl Dixon havia acabado de sair daquela sala improvisada no meio de uma das casas de Alexandria, a qual chamavam de biblioteca.
Um tanto agitado e desconfortável, o arqueiro apenas tentava lidar com as novas informações que lhe haviam sido concedidas. Mavie, que reagira tão emotiva e irracionalmente nos últimos dias, finalmente fora honesta consigo e com o que sentia, jogando na cara do caçador tudo o que parecia pensar e lidar dentro de si.
Mas que merda foi essa? Daryl pensava, incomodado. Não era bom lidando com aquele tipo de coisa. Aquele tipo de conversa não era algo que estava habituado... Nem com tamanha sinceridade.
Era estranho que tivesse demorado tanto a perceber. Sempre ficara surpreso com a extrema honestidade daquela garota, que sempre se comportava de forma transparente. Mavelle não era boa escondendo as coisas, ele já sabia disso. Mas não tinha percebido ainda... Não podia nem imaginar que tivesse uma importância tão grande para aquela menina dentuça.
Daryl não costumava se dar ao trabalho de pensar nesse tipo de assunto. Expectativas alheias. Vínculos. Padrões de comportamento. A vida hoje em dia era mais simples. Mais... Encaixada com o que ele sabia fazer. Você mata para sobreviver, e para proteger as pessoas com quem se importa. Caça. Encontra abrigo. Sobrevive. Continua seguindo em frente.
Mas agora, naquele lugar escroto onde Rick e os outros haviam decidido ficar... Aquela comunidade cheia de gente mimada e mal acostumada, almofadinhas e patricinhas por todos os lados, pessoas que não entendiam o que era o mundo, o que realmente era a verdade atual... Ele simplesmente não podia se adaptar aquele lugar. Não podia se acostumar com aquelas cobranças.
Daryl era um animal selvagem.
Seu lugar era lá fora, sobrevivendo na estrada. Como aquele maldito filho da mãe que quase matara a ele, Carl, Michonne e Rick, daquele grupo de trombadinhas e maníacos que “dominavam” o que queriam...
Daryl era um bicho de rua.
E o bicho de rua mais triste é o que fingia pertencer a um lar doméstico.
Era surpreendente que Mavie, com aquele rosto delicado mesmo com seus dentes grandes, também não estivesse se adaptando ali. Daryl tinha certeza que ela tiraria aquele lugar de letra, sociável como era, extrovertida como era. Mas não. Ela estava reclusa, isolada, ferida...
...Tal como ele, embora por razões diferentes.
Com tais pensamentos em mente, Dixon chegou na frente do pórtico de entrada da casa onde vivia com Rick, Carl, Little Ass Kicker, Carol e Michonne. Rick lá estava, sozinho, ao lado de Carol. De fato era um horário tardio, provavelmente os outros já estavam recolhidos. A um olhar, o arqueiro reconheceu que estavam lhe esperando.
Daryl sacou o maço de cigarros do bolso, e subiu as escadas, sentando na beirada da varanda ao lado de Carol, que lhe lançou um daqueles olhares filhos da mãe de compreensão astuta. Daryl Dixon ignorou os espertos olhos da amiga como pôde, enquanto aguardou o que Rick tinha a dizer.
Mas fora Peletier quem começara.
– Esse lugar vai nos deixar fracos. – Carol foi direta ao ponto, assim que desviou os olhos de Daryl, encarando com sagacidade Rick Grimes.
– Nós faremos dar certo – Rick foi assertivo. – Se eles não conseguirem levar esse lugar adiante... Então nós tomaremos o poder. Outra vez – Grimes afirmou, enquanto ele e Carol punham os olhos firmes em Daryl. Aparentemente, já haviam combinado aquilo de antemão. Apenas esperavam pela reação do caçador.
Imediatamente, o arqueiro lembrou das palavras de Mavie. Do que ela afirmara, com tanta veemência.
E do efeito que teve dentro de si.
– Estou fora – Daryl retrucou, seus olhos brilhando determinados. Carol o olhou com uma expressão levemente desapontada, embora nada surpreendida.
– Daryl... – Rick ia começar, levantando uma mão mediadora, mas Dixon jogou o cigarro no chão e o pisoteou com certa agressividade.
– Pra mim já chega disso – Dixon reiterou sua posição. – Eu nunca vou dar as costas para vocês – Daryl falou, encarando os amigos sem receio algum. – Mas não vou fazer parte disso – o arqueiro decidiu em definitivo, e puxou outro cigarro para fumar.
– Isso não vai ser um erro – tentou Carol, aproximando-se dele.
– Já tem sua resposta – Daryl retorquiu, ríspido, porém sincero, mantendo o olhar firme nos olhos azuis da amiga.
– Posso confiar que manterá isso em sigilo absoluto? Quero que isso fique apenas entre nós três. Ainda por cima é só uma ideia – confiou Rick, e Daryl, quase atônito, soltou um “tsc” audível.
– É óbvio – Dixon falou, sério. – Não estou contra vocês. Mas, dessa vez, não vou ajudar.
Rick, levantando as sobrancelhas, se afastou e entrou dentro da casa.
– Pense bem – aconselhou o policial de Alexandria, assim que fechou a porta.
Carol andou para mais perto de Daryl, seus braços cruzados.
– Sabe que isso não é o mesmo da última vez, não é? – perguntou, direta.
– Não, não sei – redarguiu Dixon. – Só sei como as coisas acabaram da última vez – enfatizou a pronúncia.
– Você está sendo infantil – Carol suspirou, parecendo decepcionada.
Daryl não respondeu. Não falaria mais sobre o assunto, já tinha sua posição.
– Apenas... Não se deixe enfraquecer – sua amiga pediu, desejando-lhe boa noite e também dirigindo-se para a porta da casa.
– E mais uma coisa... – Carol continuou, já na frente da porta. – ...Se você quer agradá-la, uma escolha menos impulsiva e mais inteligente seria tomar um banho. É bom para variar. Ou você vai me obrigar a te lavar com uma mangueira enquanto você dorme – Carol debochou de Daryl, fechando a porta.
Irritado pela astúcia sem igual da mulher, Daryl Dixon sequer soube como responder. Apenas falou, agressivo, para a porta fechada.
– E você ficou ridícula com essas roupas! – disse Daryl, sentindo-se um completo idiota logo depois.
No dia seguinte, ainda sem saber como reagir aos últimos acontecimentos nem como lidar com toda a confusão mental e emocional que sentia naquele lugar patético que era Alexandria, Daryl decidira esfriar a própria cabeça indo em uma caçada. Era o quarto dia de estadia naquela comunidade e ainda se sentia mais deslocado e perdido do que uma agulha em um palheiro.
Propenso a irritação fácil, depois das notícias dadas por Rick, da estranhíssima conversa que teve com Mavie e tudo o mais, Daryl não estava com seus sentidos tão atentos quanto em outros tempos.
Mas, ainda assim, foi capaz de perceber uma aproximação, embora um tanto próxima e perigosa demais.
Ouvira sons de galhos se partindo e passos abafados em meio a pedra e grama. Como foram controlados, e não a bagunça arrastada que era o caminhar dos errantes, soube de pronto tratar-se de gente viva.
Enfurecido com toda aquela vigilância que sentia sobre si desde que chegara a Alexandria, fosse de seus amigos, fossem daqueles malditos habitantes de merda, Daryl falou, ríspido, pronto para atirar uma flecha a qualquer deslize alheio.
– Sai daí. Agora! – exigiu o caçador, sua voz rouca soando definitiva e autoritária.
Parecendo surpreso, aquele que se escondia na mata ao redor de Daryl, nos arredores das fronteiras de Alexandria, parara de andar. Depois de alguns segundos, moveu-se para fora da vegetação que o escondia.
– Pode diferenciar errantes e humanos só pelo som dos passos? – perguntou o maldito tagarela Aaron, levantando os braços, rendidos.
Daryl nada disse. Apenas manteve a balestra apontada para o sujeito falastrão.
Vamos. Me dê um motivo. Só um motivo para atirar na sua cara, e você nunca mais vai dar um pio, sua bicha tagarela. Pensou Daryl, furioso.
– Acho que também pode diferenciar um cara legal de um babaca – Aaron falou, sorrindo, e parecia se referir a si mesmo. – Rick não parece saber fazer isso muito bem – completou.
– Não tem mais muita diferença hoje em dia – Daryl retorquiu, secamente. Não baixara a balestra.
– É o que acha da sua gente? – questionou o namorado de Eric.
– Por que você está me seguindo? – indagou em rebatida o arqueiro.
– Não sabia que estava. Na verdade, vim aqui caçar coelhos – falou Aaron, rindo um pouco. Parecia sincero.
Daryl ainda assim não deixara a postura alerta. Sua balestra continuava a postos, enquanto Aaron não parecia nada intimidado.
– Sei porque está aqui – alegou o tagarela. – Se importa se eu for junto?
Sem escolhas, Daryl não tinha o que fazer. Odiava aquela gente, odiava aquele lugar, odiava a ideia do plano de Rick e Carol causar novos problemas outra vez... Odiava a estranha situação que estava junto a Mavie, mas prometera a Grimes e Carol que tentaria. Ao menos um pouco.
– Vá em frente e cale a porra dessa boca, se não for impossível – troçou Dixon, baixando a balestra.
– Com ce... – Aaron ia responder, ao passo que Daryl lhe lançou um olhar mortal. O homem falastrão fez um gesto caricato de quem fecha a boca como se ali tivesse um zíper, e o seguiu.
Passaram algumas horas percorrendo o terreno, sem achar nenhum animal que valesse a pena. Apenas insetos e roedores menores, de carne ruim. Dixon pretendia achar algo de mais valia, até para diminuir aquela maldita vigilância desconfiada que os mauricinhos e patricinhas lhe lançavam.
Em determinado local, um pasto amplo, acharam um belo cavalo. Parecia forte, saudável, com uma crina reluzente, realmente esbelto e admirável.
Aaron pareceu reconhecer o animal.
– Estou tentando captura-lo há meses – relatou, depois de muito tempo quieto. Acabou a paz. Pensou Daryl, já esperando a avalanche de palavras. Aquele sujeito conseguia falar mais do que a Esquila.
– Pretendo leva-lo para dentro – Aaron voltou a mencionar o cavalo. – Ele se chama Buttons. Uma das crianças o viu correndo perto do portão faz um tempo, disse que tem cara de Buttons – comentou, com um sorriso simpático.
– Não o via tinha um tempo. Temi que fosse tarde demais – continuou o discurso, enquanto Daryl já entendera o que ele queria. Sem escolha, pediu que Aaron lhe entregasse a corda que levava em sua mochila. O homem assim o fez, parecendo agradecido.
– Sempre que eu ou o Eric chegamos perto ele se assusta. Acho que não tenho jeito com isso – disse um conformado Aaron. – Você já fez isso antes?
– Meu grupo já. Mas não com cavalos livres há tanto tempo – revelou Dixon. – Quanto mais tempo ficam soltos, mais eles viram o que realmente são – acrescentou.
Aaron ficou em silêncio, ao passo que o arqueiro moveu-se para perto do cavalo que pastava. Com a corda a postos, o caçador se aproximava com cuidado do animal, favorecido por seus instintos de caçador e familiaridade que tinha com a vida selvagem.
– Não vou te machucar, ok? – falou Daryl. – Vem garoto – chamou o cavalo, com o máximo de suavidade que conseguia.
– Isso, vem – aprovou, falando com a pouca ternura que conseguia ter. – Continue comendo. Yeah. Bom menino. – Daryl estava a apenas centímetros do cavalo, que parecia dividido sobre como agir.
– Você era de alguém, não era? – continuou Dixon, encarando o cavalo por todo o tempo. – Agora é dono de si mesmo. – Curiosamente, Daryl pensou no mesmo momento em seu irmão.
Na forma como sempre seguia Merle para lá e para cá... Como julgava severamente, antes, todos os outros, que não tiveram a vida difícil e miserável que os dois irmãos Dixon... Como os considerava um bando de ovelhas, diferentes e muito mais incapazes do que os dois caipiras white trash, endurecidos pela vida muito antes do mundo virar aquele inferno de errantes.
Agora, precisavam da ajuda de gente como eles. Gente que se adaptaria e poderia protegê-los. Protegeria pessoas que, em outros tempos, numa realidade como a de Alexandria, o olhariam torto, o julgariam um caipira sujo, ignorante, limitado.
Mas as coisas nunca eram tão simples assim. Agora ele sabia.
No mesmo momento em que refletia sobre tais considerações, o cavalo empinou-se nas patas traseiras, assustado. Mas não pela presença de Dixon. Cavalgou para longe, fugindo do que seus sentidos mais aguçados que o dos humanos podia sentir.
Alguns errantes saíram se arrastando pelo meio do pasto, querendo comer a carne do animal.
Subitamente, sem que precisasse pedir por auxílio, Aaron já estava ao lado de Daryl.
– Vamos, eles estão chegando! – Dixon avisou o homem ao seu lado, que passou a atirar nos errantes que se aproximavam. O cavalo mal tivera tempo de se afastar. Alguns mortos-vivos haviam o cercado, e já se banqueteavam com sua carne. O pobre animal relinchava de dor, apavorado.
Daryl e Aaron, sem escolha, passaram algum tempo liquidando os errantes que se aproximavam. Dixon atacou cerca de quatro errantes, matando-os com tiros certeiros da besta e com a faca de caça que levava consigo. Aaron, com seu facão de cortar grama, fincara a lâmina no cérebro de um par de errantes, e, por um momento, tinham o caminho livre.
– Vamos embora – Daryl Dixon falou, frustrado.
Alguns metros longe daquela cena, em um terreno livre de errantes, Aaron voltou a tagarelar.
– Você anda a cavalo?
– Ando de moto – respondeu Daryl, com sinceridade.
– Imagino que não precise de dez velocidades diferentes – Aaron considerou, enquanto Daryl franziu as sobrancelhas. Por que ele falara aquilo?
– Eu sei que se sente como um forasteiro. Como um pária – o homem eloquente falou, parecendo usar um tom de voz conciliador.
– Não é sua culpa. Eric e eu ainda recebemos esses olhares... Estranhos, algumas vezes. Ouvimos também várias gentilezas, mas não deixamos de escutar coisas ofensivas vindas de supostos homens e mulheres gentis. Pessoas são pessoas... Quanto mais medo têm, mais estúpidas ficam – Aaron falava, seguindo Daryl pela mata, enquanto voltavam a Alexandria, sem caça naquele dia.
– O medo encolhe o cérebro... – afirmou o namorado de Eric.
– Eles têm medo de nós por razões diferentes. Agora têm menos medo de mim porque me conhecem. E esse medo vai diminuindo a cada dia – Aaron garantiu. – Então... Deixe eles te conhecerem! – sugeriu o homem. – Vá para a festa de Deanna hoje à noite – aconselhou o tagarela.
– Não tenho nada pra provar – retorquiu Daryl, outra vez irritado com aquela sugestão inoportuna. – Esse seu papo aí não passa de um bando de merda. Conheci muita gente escrota nesse mundo, que fez muitas 'escrotices'. Pessoas que não tinham medo de nada – contestou Daryl o discursinho amigável de Aaron.
– Não, Daryl – O homem falou, enquanto cruzavam os portões de Alexandria. – Elas tinham – disse Aaron com certeza plena. Daryl voltou os olhos para ele, desconfiado.
Sabia que ele tinha razão.

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