Hunter's Instinct
20 Episódio 20 - Road Trip
Notas iniciais
Apenas mais uma semana separava o grupo de Rick Grimes do prazo dado por Jed. Quando foram disfarçadamente sequestrados e manipulados a integrar o grupo de habitantes do Aquário da Georgia, todo e qualquer novo membro escutou do idoso sardento a promessa de que, ao fim de três meses, teriam suas armas de volta e a chance de ir embora se assim quisessem.
Desde o começo, Daryl Dixon sempre soubera que aquilo não passava de uma mentira inventada pelo idoso apenas para fingir uma hospitalidade forçada. Ele dificilmente deixaria qualquer um que lhe fosse útil ir embora de seu território, não enquanto a pessoa em questão, no mínimo, não fosse substituível.
Ao longo do tempo, o arqueiro pôde perceber claramente o que significava a técnica de Jed do prazo de três meses. Na verdade, obrigá-los a ficar no Oceanário de Atlanta por esse tempo, sem autonomia para maiores decisões para ir e vir, talvez fosse realmente o período necessário para fazer o novo membro assimilar o que o líder queria: perceber que não há provavelmente outro lugar neste mundo desolado e caótico aonde se alojar, que não fosse debaixo da vigilância e leis de Jed.
Daryl soubera desde a primeira conversa que teve com o idoso sardento que ele não valia nada. Oportunista, manipulador e autoritário, Jed fingia que governava uma pequena sociedade ideal, onde cada um tinha seu espaço, seu alojamento, sua função e até mesmo alguma voz... Mas onde cada mínimo funcionamento deveria obedecer o padrão que ele assim escolhesse.
Nos últimos dias, Rick e o arqueiro foram flagrados tentando depor o controle de Jed pelo próprio; sem escolha, tiveram de mais uma vez se submeter às vontades do líder do Aquário, aguardando o momento oportuno para voltarem a se rebelar.
Naquele dia em especial, Grimes e Dixon haviam conseguido se reunir junto a Carol nos jardins externos do Oceanário, uma vez que os três haviam sido designados a desempenhar tarefas naquela localidade. Disfarçadamente, com medo dos "muitos olhos" de Jed — que dispunha de câmeras e gravadores para vigiar os novatos -, o trio conseguiu conversar sobre o futuro e cada vez mais necessário golpe. Rick Grimes já havia decidido a sentença de Billy Ray, e, com isso, elaborado junto a Carol a tática necessária para que pudessem enfim tomar a liderança dos punhos de ferro de Jed.
Eles conseguiriam colocar o grupo do Oceanário contra o próprio líder, e teriam consigo... Meios, de fazê-lo.
Porém, teriam de aguardar a volta da missão de caça de rotina de Daryl, para conseguirem seus intentos.
Assim, em meio a reflexão sobre esses assuntos que o deixavam um tanto ansioso, Daryl fingia se concentrar na paisagem que passava lépida e fagueira por seus olhos, por fora da vidraça de um 4x4 que Mavie Berry dirigia. Depois do último acontecimento, o típico quarteto de caça: Billy Ray, Haywood, Daryl e Mavie, fora obrigado a se dividir de forma a evitar possíveis situações de conflito entre o caipira do Alabama e Dixon.
Daryl não era nenhum idiota, e sabia muito bem o que motivara aquele homem a atacá-lo tão gratuitamente. Na verdade, ele mesmo sabia que era uma questão de tempo até que alguma briga do gênero acontecesse. Billy declarara guerra contra Dixon desde o primeiro momento em que este interagiu com Mavelle, e sua reação seria óbvia depois do que os flagrara fazendo na creche do Oceanário...
Tomara que ele tente mais vezes. Vou adorar quebrar a cara desse filho da puta de novo. Pensou Daryl, sendo mais uma vez levado pela mesma descarga de energia raivosa que o impelia a pouco a pouco detestar cada vez mais aquele sujeito.
– Haywood, Mavie falando. A estrada está livre? – A voz de Mavelle Berry se fez ouvir ao lado de Daryl, distraindo-o um pouco de seus pensamentos furiosos. O caipira deu um olhar de esguelha para a jovem caçadora, que no momento dirigia o veículo com apenas uma mão, enquanto a esquerda segurava um walkie-talkie.
– Mavie, Haywood na escuta. Aparentemente sim. Vou lhe alertar caso testemunhe algo estranho – o homem de meia idade respondeu, sua voz saindo um tanto abafada pela interferência no produto eletrônico.
Mavelle abaixou o walkie-talkie, em silêncio. Desde o dia da briga entre Daryl e Billy, a garota morena não deu muita conversa para nenhum dos dois.
Quanto a Billy Ray, muito pelo contrário, parecia tratá-lo agora como se fosse ele próprio um errante; a irlandesa o evitava a todo custo. Em uma oportunidade, Dixon inclusive a flagrara dando um olhar de profundo desprezo para o antes amigo, como se sua verdadeira vontade fosse fincar-lhe uma lâmina na cabeça.
Em relação ao caçador arqueiro, a última vez que haviam tido algum tempo a sós havia sido na... Situação, na sala reservada para atividades infantis do Aquário. Desde então, aquela missão de caça era a primeira ocasião em que ficaram sozinhos de novo.
– Mavie? – A voz de Haywood passou a falar um pouco mais tensa no walkie-talkie. A garota dentuça apertou um botão no aparelho e respondeu que o escutava. – Mavie, não venha pela rodovia 75 no sentido – avisou o companheiro de Dakota. – Está tudo tomado, eu repito! Tudo tomado! – Haywood falou, sério, alertando a motorista.
– Vamos para onde então? – a garota de dentes salientes respondeu, apressada.
– Siga pela 75 no sentido Kennesaw, para noroeste. Os carniceiros estão caminhando para leste. Depois vire a direita e siga pela 401 e depois pela 20, vamos nos encontrar em Canton! Na entrada da cidade, você sabe onde fica – combinaram ambos pelo walkie talkie, com a resposta afirmativa de Mavelle.
Daryl e Mavie passaram algum tempo em silêncio, a jovem mulher se concentrando na estrada, e Dixon perdido em seus próprios pensamentos. Como era de se esperar, Mavelle não pôde aguentar muito tempo quieta.
– Mas foi quase um Mortal Kombat aquilo tudo, hein? – comentou Mavelle, com o tom entre o sarcasmo e uma ponderação de tristeza. – Eu já tinha ouvido falar em rinha de galos, de cachorros... Mas de caipiras é realmente a primeira vez! – debochou ela, olhando para o arqueiro sem nenhum constrangimento, e Daryl Dixon apenas sentiu sua raiva aflorar.
– Vocês gostam de pagar de civilizados, mas foi esse seu amiguinho de merda que veio na minha direção pedindo para apanhar – falou Daryl, sem meias palavras, encarando a estrada.
Mavie teve sua expressão sarcástica murchada um pouco pela dureza do caçador. Entretanto, logo em seguida ela lhe deu um olhar cúmplice.
– Eu estou do seu lado. O Billy enlouqueceu. De uns tempos para cá eu não o fecking reconheço mais – confidenciou a garota com seu sotaque irlandês muito pronunciado, o que demonstrava que aquele assunto era realmente algo sensível para ela.
– Esse tipo de coisa acontece no mundo de hoje – replicou Daryl, ainda taciturno.
Mavie continuou calada, assentindo com o rosto devagar. Seus olhos focaram-se na rodovia outra vez, e já estavam beirando as fronteiras da cidade de Kennesaw. O arqueiro aferiu que, pela expressão contida e entristecida que a garota morena fizera, talvez a causa da loucura de Billy Ray não fosse apenas o caos do mundo em que viviam.
Daryl sabia disso, mas preferia não pensar muito no assunto. Aquilo lhe deixava raivoso, irascível, algo que o fazia apenas se sentir muito estúpido depois por reagir de tal forma... Era melhor evitar lembrar-se da fixação de Billy Ray pela menina irlandesa, ou seria ele próprio o próximo a sair socando o caipira sem nenhum aviso prévio.
A viagem seguiu sem maiores problemas até a altura da via 401. Entretanto, quando estavam quase chegando na cidade de Acworth, na indicação da estrada que deveriam seguir... Dixon insistiu para que Mavelle parasse o carro.
– Você perdeu a cabeça? Tem Frankies por aqui! – Irritou-se Mavie, indicando com a mão aberta cerca de algumas poucas dezenas de errantes que andavam a esmo, todos muito separados uns dos outros. Não eram uma ameaça para Daryl e ela, ambos exímios arqueiros com bastante munição.
– Você não viu? – Apontou ele para o que chamara sua atenção.
Um garotinho que parecia ter cerca de três anos de idade, muito novo, magro demais, chorava desabalado. Estava caído em meio a grama, sem nenhum sinal de casas, cabanas ou qualquer moradia que o valha por perto. Parecia estar morto de fome, com cabelos compridos e sujos de terra, loiros. Alguns errantes mais próximos já haviam escutado seu choro e se arrastavam na direção dele, para devorá-lo o mais rápido que seus corpos podiam levá-los.
– Puta que pariu – exclamou Mavie, nervosa, finalmente vendo a criança desamparada.
– Fica aí. Eu já volto. – Dixon estava decidido a salvar o garoto.
– Espera! – Mavelle Berry tentou impedi-lo, mas naquele momento Daryl já saía do 4x4, batendo a porta do automóvel.
Com sua balestra em punhos, Dixon mirou algumas flechas sem muitas dificuldades nos errantes a alguns metros de distância do menino. Acertou todas as tentativas de primeira, andando com cuidado até encontrar o garoto.
– Hey – Daryl o saudou, um pouco sem jeito. O garoto o encarou apavorado, e fez menção de se levantar e sair correndo.
– Calma, não vou te machucar – Dixon se adiantou, segurando com delicadeza firme o braço magricelo do menino que parecia estar a beira da inanição.
– HEY! – Uma voz masculina soou, fazendo Daryl levantar os olhos na hora e, por conseguinte, sua balestra junto. A criança correu na direção da voz, revelando um homem parrudo, gordo, com uma barba enrolada de aspecto sujo, que apenas parecia ainda mais bem alimentado em excesso quando comparado com o garoto que claramente passava fome. O menino o abraçou, escondendo o rosto choroso em sua coxa, enquanto o homem lhe dava um tapa forte fazendo o garoto cair no chão.
Seus olhos apertados e suínos tinham uma expressão clara de deboche, e Dixon entendeu na hora que caíra em uma armadilha para tolos benevolentes.
– Não precisa se preocupar com o moleque. Nós tomamos conta dele. – Mais três homens saíram de trás da mesma vegetação espessa onde o sujeito gordo havia se escondido. Todos armados até os dentes, um com dois revólveres, o outro com um raro bacamarte inglês, e o último com uma pistola.
Parecem a porra de uns assaltantes de faroeste. Pensou Daryl, debochado. Ser assaltado naquele lugar já não era uma situação favorável, ainda mais considerando que estava acompanhado de Mavie, que poderia virar algum tipo de atração para aqueles sujeitos escrotos. Se usavam uma criança passando fome para atrair incautos na estrada, o que não fariam com uma garota atraente?
– Abaixe a besta, amigo, e pode nos dar a arma agora. Junto com a mochila e as chaves do carro. – O homem obeso indicou com a cabeça o carro de onde Dixon veio, fazendo seu papo flácido se mover junto com o movimento.
Daryl, devagar, abaixava a balestra, pensando no que poderia fazer. Conseguiria matar dois de uma vez, o sujeito da pistola e o com os dois revólveres. O bacamarte era mais lento para atirar, mas não sabia se o gordo escondia alguma arma consigo, para usar em caso de resistência. Era grande demais para não conseguir esconder algo bem em suas roupas.
Antes que se rebelasse contra os assaltantes e disparasse a primeira flecha contra o homem dos revólveres, ele ouviu o som de uma flecha veloz cortar o ar. Atingiu em cheio a têmpora esquerda do assaltante com os revólveres. Um segundo depois, outra flecha finalizava o homem com a pistola.
Daryl levantou a balestra com esmero no mesmo segundo. Atingiu em cheio o homem do bacamarte, enquanto mais uma flecha que só podia ser de Mavelle se alojava no homem gordo, trazendo muita satisfação a Daryl Dixon. Essa, entretanto, não tivera a mira tão certeira, atingindo-o fundo nas costelas.
Como uma felina que se escondera em meio as folhagens, Mavie saiu por trás de um arbusto rapidamente, encarando Daryl com avidez. Havia derrubado, sozinha, três dos quatro oponentes.
Porra, Esquila. Mandou bem. Admitiu Dixon, admirado, em pensamento.
– Vamos embora! – ela falou, já correndo na direção do carro, às pressas.
Daryl Dixon ainda não desistira de salvar o garoto. Tentou alcançá-lo correndo antes de voltar, mas o menino desatou em uma carreira desabalada inacreditável para seu estado de fome. Fugia de Dixon como se ele fosse seu verdadeiro algoz, e não os homens que o exploravam.
Passando um pouco do matagal perto da estrada, Daryl ouviu a voz do gordo que caíra ao chão segundos atrás gritar algo finalmente inteligível:
– VENHAM! ELES VÃO ESCAPAR! VENHAM! SÃO DOIS, SÓ DOIS! – o filho da puta gritou, e, pelo visto, seu bando era bem maior.
Daryl retrocedeu de imediato. Percebera o que iria acontecer, assim que fez uma curva em uma árvore. À distância, o menino, ágil como uma lebre, fugia na direção de ruídos que Dixon já entendera a origem: um carro se aproximava, provavelmente dirigido pelos capangas restantes.
Deu meia volta, girando em seus tornozelos, a balestra de prontidão. Sentia pelo destino do garoto, mas não poderia fazer nada naquela desvantagem. Olhando para trás, vira cerca de vinte homens correndo em seu encalço, saindo do meio da mata, fora o som do carro que se aproximava.
Filhos da puta. Daryl flechou todos os que conseguia, que erravam seus tiros pela espessa vegetação, impedindo-os de ter uma boa visão de Dixon, acostumado a se embrenhar nesse tipo de terreno. Provavelmente atacou cerca de dez homens ao total. Perderia aquelas flechas, mas valeria a pena.
Seriam menos pessoas para escravizar aquela pobre criança que não conseguiria salvar.
Ao sair do mato alto, viu o gordo caído em meio a grama outra vez, e teve certeza do que já havia reparado; os sons de tiros não vinham apenas dos homens que o perseguiam, mas de onde o homem flácido havia tombado.
Mavie atirara quatro vezes no sujeito, uma no peito, duas na barriga e uma na cabeça. Provavelmente fora o tiro de misericórdia, e ela também deve ter se sentido revoltada pelo que aquele grupo fizera com aquele menino, uma isca viva.
A irlandesa o aguardava escondida em uma árvore, o arco e flecha em punhos para o que fosse preciso. Daryl fez um sinal com o rosto para ela, e a garota o seguiu, ambos correndo juntos até o carro o mais rápido que conseguiam. Mavie foi para o volante, e Dixon sentou-se ao seu lado, já que ela portava as chaves do automóvel.
Correndo alucinadamente pela estrada, Mavelle fugia do carro que já passara a persegui-los, um Chrysler 200 amarelo. Do veículo, tiros eram mirados contra o carro blindado dos dois caçadores, atingindo o porta-malas, buscando provavelmente furar os pneus ou perfurar os vidros para atingir os ocupantes do automóvel.
– Arranje uma curva em algum lugar! – Daryl falou, nervoso, ele mesmo olhando para trás, vendo o Chrysler 200 muitos metros distante deles, mas ainda assim preocupantemente próximo.
– Não tem! Você acha que eu sou estúpida, porra?! – Mavie respondeu, ela mesma desesperada. – Eu não vou morrer nas mãos de um bando de assaltantes de estrada e escravos de criancinha, ah, mas não vou mesmo! – Mavelle gritou para si mesma, rangendo os dentes grandes, enquanto virava o volante para a esquerda em um movimento brusco. Daryl foi jogado para o lado, enquanto tentava entender o que ela pretendia.
– Mas isso é a porra de um brejo, sua burra! – Dixon xingou a garota irlandesa, incrédulo com o que ela fizera. Movimentara o carro para acelerar para cima de um terreno pantanoso, onde poderiam atolar o 4x4 e aí sim seria o fim de ambos.
– Eu sei o que estou fazendo, seu babaca! – respondeu ela no mesmo tom, pisando fundo no acelerador. Berry moveu seus dedos para acionar o sistema 4x4, e o carro deslizou pelo terreno encharcado. Atormentado, Dixon olhou para trás, e reparou que o carro perseguidor, agora muito longe, desistira de segui-los. Freara, e voltara pelo mesmo caminho. Ou talvez decidisse segui-los por uma via alternativa.
Depois de alguns minutos, Mavie Berry continuava guiando muito bem dentro do terreno molhado, mesmo com os pneus encharcados de água lamacenta. O automóvel era mesmo muito resistente, e o veículo de qualidade mediana que os seguia jamais conseguiria adentrar aquela terra amolecida.
– Well, that escalated quickly!* – brincou Mavelle, dando a Daryl um sorriso sardônico. Era impressionante a capacidade que essa garota tinha de relaxar depois de uma situação de incrível tensão.
Haviam alcançado um local onde a terra passava de molhada para apenas de terra batida levemente úmida, repleta de buracos. Os dois quicavam dentro do carro, que, mesmo sendo um 4x4, não poderia impedir todos os impactos com o terreno completamente acidentado que andavam. Demoraram cerca de meia hora para encontrar uma estrada estreita, por onde Mavelle guiou o automóvel.
– Mas que porra foi essa? – falou Dixon, ainda retesado e nervoso, começando a relaxar aos poucos.
– Podemos dizer que o plano deles foi pro brejo – troçou Mavie, fazendo a péssima piada infame.
– Você consegue melhor do que isso – retrucou o caçador. – Estou falando sério. Eu espero que você não tenha feito essa curva no improviso – ralhou o homem, dando um olhar de possível reprimenda para a garota.
– E você deveria ter um pouco mais de confiança em mim – Mavelle redarguiu, dando-lhe a língua como faria uma criança, e depois um sorriso provocador. Ter achado aquilo inegavelmente convidativo e sensual fez Dixon se sentir um imbecil.
– É claro que eu sabia o que estava fazendo. Já fui forçada a fugir de Frankies por esse mesmo caminho que fiz agora. E tenho razão para ficar reticente na hora de salvar aquele laddie – falou Mavie, na expressão irlandesa que Daryl já havia aprendido, pelo convívio, significar "rapazinho".
– Eu caço por essas bandas há muito tempo, e nessas áreas desoladas, de vez em quando aparece um assaltante ou outro... – ela lamentou, dando um suspiro. – Eu também sinto muito pelo que aconteceu com aquela criança. Mas não dá para abraçar o mundo com as mãos – soltou a garota tal frase sábia.
– Sua avó que te ensinou essa expressão? – perguntou Daryl.
– Sim, por quê? – ela respondeu, interessada. Seus olhos de avelã esverdeado se voltaram para Daryl Dixon em uma expressão de curiosidade infantil que era muito típica dela.
– Imaginei. Tem cara de ditado de gente velha – retrucou Dixon, debochando dela, sem jeito por ter se sentido mexido pela expressão doce que a garota havia feito.
– Você adora fingir que é um geebag**, não é? – Mavelle riu da tentativa falha de Daryl de provocá-la.
– Não faço a menor ideia de que porra seria isso – o arqueiro foi direto.
– Não é difícil adivinhar – ela retorquiu, rindo de leve seu riso espontâneo, soltando seu amplo sorriso. Daryl se sentiu hipnotizado por uma fração de segundo, e desviou o olhar.
– 'Pra onde agora? – perguntou Dixon, tentando voltar ao clima sério. Ficar a vontade com Mavie poderia levar a outro tipo de acontecimento.
– Olha... Estamos longe demais – comentou a garota, com honestidade. – Acho que na altura da via 3.
– Então estamos perto do Condado de Bartow – disse Daryl, pensando nas possibilidades. – O seu troço está funcionando? – perguntou ele, apontando para o walkie-talkie.
– Putz, é verdade, esqueci. – Mavie ligou o aparelho, claramente atrapalhada por conta dos últimos momentos de tensão. Tentou fazer a chamada com Haywood inúmeras vezes, mas só pegava interferência.
– Será que devemos voltar? – Ela matutou, nervosa.
– Não. Aqueles caras podem estar por lá. São muitos para lidarmos sozinhos – Daryl foi sincero. – Duvido que achem os outros, pois já estão muito ao norte, e eles voltaram ao sul.
– É verdade – Mavelle concordou, refletindo. – O que faremos?
– Acho melhor tentar arranjar algum lugar para abastecer. A gasolina está na metade. – Dixon apontou para o medidor no painel do volante.
– Puta que pariu... – Mavie praguejou, sabendo que não havia outra escolha. – Vamos nos atrasar muito, mas não há outro jeito.
Passaram cerca de três horas em busca de um posto, encontrando apenas locais lotados de errantes. Não havia a possibilidade de limpar aqueles postos de gasolina sozinhos, e o combustível já quase entrava na reserva.
Quando já era por volta de três horas da tarde, o veículo preocupantemente quase sem gasolina, uma tempestade forte se armou. Sem aviso, desabou rápida sobre a estrada mofina, deixando os errantes perturbados e sem rumo, seguindo os ruídos dos trovões a esmo.
– Vamos precisar parar em algum lugar – Daryl ressaltou.
– Haywood deve estar preocupado... – Mavie falou, e Dixon sentiu um átimo de alegria por ver que ela sequer fizera menção a Billy Ray. Logo em seguida, julgou-se um idiota por se importar com isso.
Sem saída, ambos procuraram algum local que servisse de abrigo, inclusive para esconder o veículo. Com apenas um décimo do total da gasolina, Mavie apontou, exclamando alegre:
– Grand***! – ela falou a expressão irlandesa, parecendo feliz. Daryl seguiu a direção que seu dedo indicador apontava e viu um letreiro acima de um terreno cercado por um muro grosso e alto o suficiente para que significasse alguma segurança: Floyd Hotel.
– Porra, estamos bem longe – o arqueiro atentou. Em termos de milhas, nem tanto, mas apenas se distanciaram mais ainda de Nantahala. Haywood jamais pensaria em procurá-los ali.
– Ah, vamos ver qual é! – Mavie parecia animada. O lugar estava completamente deserto.
A beira de um rio e de um grande lago, o Parque Nacional do "Sloppy" Floyd era uma área turística da Georgia repleta de hotéis, para turistas com dinheiro para pagar, geralmente interessados em pesca e caça.
A irlandesa olhou por cima do muro, agilmente se levantando por seus braços fortes para o tamanho que tinha. Sentada em cima do concreto, observou ao redor.
– Não há nada aqui. Livre, livre – ela garantiu.
Daryl subiu junto, e ambos fizeram a ronda pelo terreno. O hotel estava completamente abandonado, com muitos casebres pequenos e um casarão principal de três andares, onde havia a cozinha, algumas salas e alguns quartos menores e provavelmente mais baratos. Demoraram cerca de duas horas e meia para terminar de conferir o local, matando alguns poucos errantes aqui e ali.
Já anoitecia quando enfim puderam estacionar o carro dentro de uma garagem do casarão principal, fechada com chave que Mavelle encontrara. Depois disso, decidiram fazer a vistoria nos suprimentos. Passaram o dia somente a base do café da manhã, e Daryl já estava roncando de fome, embora não exibisse seu estado.
Nas cozinhas, mais uma surpresa. Com um sorriso largo, Mavelle, retorcida pelo chão com a flexibilidade de um gato, se enfiara dentro de um dos balcões imensos industriais daquela cozinha do hotel obviamente caro. Saíra lá de dentro com uma peça inteira de salame na mão, sacos de batatas fritas, amendoins e salgadinhos diversos.
– E não para por aí. – Ela levantou um dedo como se pedisse que Dixon esperasse. Moveu-se para dentro do balcão outra vez, com sua agilidade felina, arrastando consigo três caixas empilhadas, junto a uma garrafa. Engradados de cerveja heineken e um whiskey caro que o caipira não conhecia.
– Vamos fazer uma festa! – Mavie comentou animada, puxando para fora as comidas e bebidas, com a ajuda de Daryl. Seus olhos tinham um brilho de entusiasmo infantil tamanho que Dixon soltou um riso curto pelo nariz.
– Está parecendo uma criança encontrando o Papai Noel – debochou o arqueiro.
– Muito melhor do que Papai Noel! Prefiro o St. Paddy's ao Santa Claus****! – troçou Mavelle, embora Daryl não tenha entendido a piada.
– Pelo menos não vamos precisar de abridor para nada. Com esses seus dentões... – ele fez a piada em retorno.
– Feck you! – Mavie retrucou, dando um tapa na perna direita de Daryl com força. Ele soltou o mesmo riso seco pelo nariz.
– Anda, levanta daí, Esquila, para de sujar as calças – brincou Dixon, falando com sua voz rouca. Deu a mão para que Mavie levantasse, sem entender porque fizera aquele gesto. Surpresa, ela encarou a palma da mão dele, mas, antes que pudesse retrair-se, Mavelle fechou sua mão em volta da dele, que a levantou um pouco atrapalhado.
– Isso foi bem bacana, "mister Nice Guy" – falou Mavelle Berry com ironia, dando a Dixon um sorriso provocador. Daryl dera a brecha para ela entrar em seu "modo sedutor", e as circunstâncias não eram das melhores para favorecê-lo a resistir à tentação.
Limpando a garganta, Dixon seguiu adiante, equilibrando as três caixas de cerveja, enquanto Mavie ficava encarregada da garrafa. Ela tentou confrontá-lo para dividir igualmente o peso, mas Daryl preferiu ignorá-la, evitando conversar com ela.
Mas sabia, claramente em seu íntimo... Que provavelmente aquela noite não terminaria da forma que havia planejado, afinal de contas.

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