Hunter's Instinct
12 Episódio 12 - Trust Issues
Notas iniciais
Repletos de afazeres cotidianos, ocupados com suas tarefas rotineiras, aquele dia começara e passara como qualquer outro no dia a dia comum do Oceanário de Atlanta. Isto é, “normal” para o que se compreendia como ordinário dentro de um cenário hostil e caótico como a infecção dos mortos-vivos alastrada por todo o mundo.
Mas sem dúvidas seria um dia que iria terminar de forma atípica.
A mão de Mavie acabara de sarar completamente, e a garota irlandesa enfim pudera tirar os curativos desde o dia em que cortara a palma, partes dos dedos e das costas da mão machucando-se em um refletor de luz de um dos jardins do Aquário da Georgia.
De certa forma, aquilo havia sido culpa do indivíduo que mais despertava sua curiosidade dentre todos os membros – novatos ou não – do Oceanário: o homem que ela gostava de chamar de “Cupido”.
Daryl Dixon era um sujeito reservado, dado à poucas palavras, turrão e um tanto irritadiço demais. Mas, para Mavelle Berry, ele lhe chamava muita atenção. Não apenas em razão de suas habilidades incríveis com uma balestra e nos meios de caça, sendo um excelente rastreador e muito mais observador do que ela poderia imaginar por sua aparência agressiva, mas pela surpreendente forma com que lidava com aqueles que julgava dignos de sua afeição.
Ela já reparara no quanto aquele homem se importava com os membros de seu grupo anterior, especialmente com Carol Peletier e Rick Grimes, que aparentavam ser os mais próximos dele. Daryl os tratava com uma atenção irredutível, parecendo estar sempre atrás de seus passos, guardando uma retaguardada.
O instinto protetor daquele caçador era algo notável; parecia intrínseco à sua personalidade, desmentindo a aparência arredia e casca supostamente impenetrável que ele gostava de exibir para lá e para cá.
Recentemente, Mavie descobrira finalmente a razão de despertar tanto a irritação constante do Cupido quanto, ao mesmo tempo, ser uma das pessoas alheias ao seu grupo original que ele permitia maior aproximação. O mesmo olhar que ela aferia no semblante dos membros do grupo do arqueiro, ela também percebia em seus olhos azuis que tentavam o tempo todo passar uma ideia de distância. Porém, pareciam falhar um pouco no momento em que seus olhos se cruzavam com os de Mavie.
Segundo o que dissera Maggie Greene, jovem mulher com quem Mavelle criara amizade mais rapidamente, a irlandesa era bastante parecida com sua irmã mais nova e falecida, Beth Greene. Uma garota mais jovem do que ela, que supostamente era bastante diferente nos quesitos relativos à aparência física e personalidade, mas, nas próprias palavras de Maggie:
“Você tem o jeitinho dela. Em essência, vocês duas se parecem muito.”
Aquilo não saíra da cabeça de Mavie, mesmo dias após aquela conversa. Então esta era a razão do grupo de Daryl a encarar sempre com olhos um tanto saudosos e ao mesmo tempo compassivos. Por isso ela sentia como se toda vez que a encaravam, estivessem reconhecendo nela algo que ela não sabia o que era.
Relacionavam-na com essa menina morta. E que, aparentemente, era muito querida por todo o grupo dos novatos.
E, especialmente... Parecia muito importante para Daryl Dixon.
– Está na hora da distribuição dos afazeres. Vamos lá, Mavie, Billy, Annie, Peggy, todos... – Jed chamou o grupo do Oceanário de Atlanta, muito cedo, para repassar o cronograma daquela semana.
Estavam todos os oito veteranos membros do Aquário da Georgia juntos no escritório do líder idoso. Cada um pegou uma ficha com as atividades relativas ao seu nome, com um horário distribuído para cada uma, dividido entre os dias da semana.
Jed era um homem muitíssimo organizado e disciplinado. Sua forma de manter a estrutura do Aquário, tanto do próprio prédio quanto dos deveres referentes aos membros que o habitavam era o que permitia que aquele local continuasse funcionando, e jamais cedesse às condições extremas de adversidade que existiam naquela realidade. Mavelle admirava sua engenhosidade, mas, especialmente, admirava sua astúcia. Seu julgamento de caráter nunca falhava, e ele sempre parecia estar um passo a frente de todos.
Era por isso que ela esperava, sinceramente, que não tivesse julgado mal o grupo de Daryl Dixon. Aquelas pessoas não lhe inspiravam desconfiança, e muitas delas já estavam se tornando estimadas pela jovem morena.
Mavie leu a própria ficha de afazeres, e, após uma breve conversa com Peggy, que parecia um pouco ansiosa ao ver que estaria responsável por fazer a primeira ronda do dia junto a Noah, foi chamada por Billy Ray. Ambos começariam o dia responsáveis por sair em busca de alguns produtos para a horta de Annie, que começava a atrair alguns insetos e pragas que ameaçavam destruir a próxima colheita antes que estivesse sequer pronta para ser recolhida.
A horta de sua avó era composta de inúmeros legumes e vegetais que ajudavam a manter nutritiva e completa a dieta dos habitantes do Oceanário de Atlanta. Se perdessem tudo o que fora plantado, teriam que se arriscar a ir à caça e em atividades externas ainda mais do que já faziam.
E aquele era um luxo arriscado demais para se permitirem.
Assim, Billy e Mavie seguiram para um pequeno mercado natural próximo do Oceanário, onde saberiam encontrar tais produtos e teriam menos “Frankies” ocupando o local para os ameaçarem. Depois de uma hora e meia, haviam chegado ao estabelecimento e limpado todos os carniceiros que ali haviam, cerca de quinze, apenas, número fácil de abater estando em dupla e tendo toda a experiência de ataque àqueles seres que ambos arrecadaram.
Reviraram algumas prateleiras e o estoque do local até finalmente achar a lista dos produtos inseticidas e contra pragas que a avó de Mavelle Berry encomendara. Quando voltavam, com a mochila de Mavie já cheia e a de Billy Ray também, ele limpou a garganta em um tom que indicava que lhe falaria algo sério.
Lá vem. Sermão desse camarada é dose. Pensou Mavelle, se controlando para não revirar os olhos.
– Divide essa tranqueira toda aí comigo, menina – falou o caipira do Alabama, mexendo na mochila de Mavie e tirando grande parte dos pesados inseticidas. – Não precisa bardeá tanta coisa, seu tamanho de leprechaun não permite – ele foi solícito, debochando com carinho da garota.
– Ô capiau, eu já dividi igualmente o material entre nós dois! – a irlandesa respondeu, franzindo o cenho e puxando as mercadorias de volta. – Não começa com essa mania de superproteção aí, que eu já imagino até o que você vai dizer – retrucou ela, petulante, levantando as sobrancelhas. – E que infernos significa “bardeá”? – perguntou a garota, rindo um pouco.
Billy abriu a porta do mercadinho para que os dois passassem, enquanto ela guardava os produtos outra vez na mochila. O cheiro de carniceiros mortos empesteava aquele local, fechado por muito tempo com aquela carne podre ambulante dentro do lugar.
– Bardeá é carregar. Você sabe, isso que a gente tá fazendo, esse trabalho de burro de carga – brincou ele, fingindo impaciência, e Mavelle deu mais uma risadinha. – Mas você se acha muito esperta, toda regateira, simpática, dando esse seu baita sorriso pra Deus e o mundo. O problema é que não se pode prosear com qualquer um. Às vezes, dar muita confiança acaba virando um angu de caroço – o sulista do Alabama parecia dar um sermão na garota.
– Não entendi porra nenhuma do que você falou – revidou Mavie, falando entre a brincadeira e a seriedade. De fato tinham muitas gírias caipiras daquele homem que ela não entendia.
– Regateira é extrovertida. Falastrona, que nem você é. E lava essa boca com sabão, menina, que tá falando muita besteira – Billy a censurou pelo palavrão, enquanto abria a porta de um veículo blindado pequeno que usaram para aquela tarefa em que buscariam mercadorias miúdas. Mavelle jogou sua mochila cheia de pesticidas no banco de trás, entrando pela porta do carona, ao lado do motorista.
– Prosear é conversar, imagino, e o que significa angu de caroço? – ela perguntou, rindo, sem conseguir se conter.
Billy colocava o cinto e a orientava a colocar o seu, algo que ela costumava sempre esquecer, e ela o fez, rapidamente, um pouco impaciente com aquela postura sempre superprotetora do amigo.
– Angu de caroço é confusão. É o que você vai atrair se não der logo um ‘chegue’ pra lá nesses desmilinguido* que ficam te rondando feito corvo em milharal – disse Billy Ray, dando a Mavie a bronca mais caipira que ela já ouvira na vida.
– Meu Deus do céu, você é realmente um bicho do mato mesmo! – brincou ela, rindo bastante.
– Estou falando sério, garota – redarguiu Billy Ray, as mãos firmes no volante, engatando a primeira para saírem logo dali. – Primeiro é o caipira feanchão**, agora tem esse coió*** com cabelo de mulher que não arreda pé de ti. Aquele dia que você tava cantando e proseando com o pessoal eu quase agradeci o sujeito metido a arqueiro por não deixar o bicho feio peludo sentar do seu lado, não fosse eu saber que ele quer contigo o mesmo que o barbudão cabeludo também quer. – O amigo enciumado olhava para Mavie de esguelha, parecendo censurá-la.
– Eu não tenho culpa de nada disso. Jed sempre nos orientou a tratar os novatos com educação e simpatia, e é o que eu sempre faço, com qualquer um que seja – ela justificou, fingindo indiferença.
– Ser educada é uma coisa. Dar espaço demais é outra. Você não precisa cutucar crocodilo com vara curta, menina. Não se finja de inocente que eu sei que você é esperta. O mundo que a gente vive, hoje, é cruel, é cada um por si, é a lei do mais forte – falou Billy com alguma sabedoria. – Não dê intimidade pra esses sujeitinhos, porque eles não prestam. Eles vão tentar se aproveitar de você se você baixar a guarda – ralhou o homem, sério.
– Eu sei me cuidar sozinha, Billy, obrigada pela intenção – replicou ela, olhando pela janela do carro. Já estava começando a ficar incomodada com aquilo. As crises de ciúme do amigo estavam ficando cada vez mais frequentes, e ela começava a desconfiar que isso se dava mais pelo fato de estar se aproximando do Cupido do que pela chegada dos dois novatos que de fato pareciam mal encarados.
– Você devia orar a Deus para ter mais juízo, menina. E agradecer aos céus por ter quem se importe contigo – afirmou o homem, fazendo uma curva um pouco brusca com leve agressividade. Mavie Berry olhou para ele de lado, e reparou que seu rosto parecia severo, contrariado. Parecia ferido com algo.
– Hey, relaxe. – Ela deu um tapinha de leve no braço dele, e um leve beliscão brincalhão depois. Ao seu toque, Billy pareceu arrefecer um pouco a postura de incômodo. – Eu sei que você quer o meu bem. E agradeço por isso. Mas não precisa me tratar como se eu fosse, sei lá... A sua filha ou algo do tipo. Sabe que eu sou dura na queda, nada vai acontecer comigo – respondeu ela, confiante.
– Graças a Deus não te vejo como minha filha – disse ele, assertivo, de repente. Mavie o encarou, franzindo as sobrancelhas. Billy a admirou devagar, e ela viu tanto carinho nos olhos do homem que ficou um pouco constrangida.
– Se visse, já teria te botado no castigo de joelho em cima de milho umas trezentas vezes. Você bem merece. Tome tento, menina! – debochou o sulista do Alabama, abrindo-lhe um sorriso sincero.
Mavelle deu uma risada, aliviada por aquela reação mais tranquila. – É, ainda bem mesmo. Agora vê se levanta essas meias**** e pisa fundo no acelerador – concordou ela, divertida.
Mavie olhou para a frente e tentou puxar assuntos desimportantes ao longo de todo aquele trajeto de volta.
De certa forma, a reação de Billy fora um pouco inesperada, quando lhe dissera aquelas palavras com tanta intensidade.
E aquilo despertara em Mavelle uma sensação de presságio aguçadamente desagradável.
***
A manhã e a tarde se passaram sem maiores acontecimentos. Mavie ajudara Peggy a preparar o almoço, uma carne de cervo que Haywood e Billy Ray haviam caçado na última saída em busca de suprimentos na floresta de Nantahala, auxiliara na ventilação e limpeza de alguns tanques de peixes, e, de tarde, após algum descanso, fora para seu primeiro turno de ronda do dia ao lado de Tyreese.
Decidira apenas levar sua aljava com catorze flechas e seu arco, caminhando sem pressa pelo perímetro. A maior parte dos “Frankies” vagava à toa pelo estacionamento do Aquário, impedidos de entrar pelas grossas paredes da estrutura. Um ou outro se debatia contra os muros e grades enormes da parte externa do edifício, mas, fora isso, eram quase nada as possíveis ameaças à segurança dos grupos que agora lá residiam.
Por fim, Mavelle caminhara até o último lugar que faltava checar, falando com o homem negro ao seu lado, um camarada simpático e que parecia gostar bastante de conversar. Era um dos poucos do grupo do Cupido que se mostrava realmente receptivo e aberto para com o pessoal do Aquário, e ela apreciava bastante esse desprendimento. Sentia-se mais a vontade perto dele, gostava de sua companhia.
Contava-lhe o quanto sentia falta de ouvir notícias no rádio e na televisão, algo que lhe fora ensinado desde pequeno pelo seu pai. Dissera-lhe que aprendera desde muito novo que era importante saber “o que acontecera e o que está acontecendo”, em suas próprias palavras. Fora uma das razões de, conforme o que ele lhe dizia, ter conseguido sobreviver. Estava por dentro de tudo o que antecedera a infecção, tentando se preparar para lidar com o inoperável.
Enquanto conversavam, Mavie ouvindo as histórias de Tyreese com atenção e complementando com as suas aqui e ali, eles se aproximaram da horta de Annie, que lá estava, acompanhada de Rick Grimes e seu filho, Carl, bem como de Daryl que carpia o terreno e retirava de lá as plantas mortas. Aquilo deu um leve sobressalto no peito de Mavelle. Não esperava vê-lo naquela tarefa, que não era de seu feitio.
Deu mais uma olhada ao redor, e enfim entendeu porque o Cupido se encontrava ali. Junto a Rick, Carl e Annie, estavam os dois sujeitos novos e antipáticos: Elliot e Orlando.
Mavelle reparara já nos olhares cobiçosos e degradantes que Elliot lhe dava. Não parecia disfarçar nem um pouco o desejo obsceno que seus olhos demonstravam ao encará-la, geralmente sobrepondo-os no seu corpo com tamanho afã que a mulher se sentia constrangida, como se ele tentasse despi-la com os olhos.
Orlando era mais reservado, mas, ainda assim, também não parecia muito digno de confiança. Aparentava vigiar a todos no Aquário, como se esperasse um momento de falha na vigilância do grupo para atacá-los. Como um animal selvagem que aguarda, parado, o momento em que sua presa daria-lhe a oportunidade de dar o bote.
Daryl Dixon, por sua vez, como Mavelle Berry reparara, fora o habitante do Aquário que menos aceitara a presença dos dois novatos. Vigiava-os como um cachorro vigiaria um intruso em seu território, esperando o momento de atacá-los e botá-los para correr.
O que Mavie admitia ser algo que ela ansiava bastante para ocorrer. E desconfiava de que Jed já estava preparado para o momento em que aquilo talvez se fizesse necessário.
Assim, Mavie Berry e Tyreese saudaram os outros seis moradores do Aquário da Georgia, continuando a patrulhar.
Mas bastou Mavelle dar as costas que tudo aconteceu.
Ela apenas tivera a chance de ver um brilho maldoso nos olhos de Elliot, mas não fora rápida o suficiente para impedir.
Os dois sujeitos antipáticos moveram-se em uma velocidade surpreendente, tão rápidos quanto Daryl era em uma caçada.
Em movimentos claramente planejados, Elliot puxou Carl pelo braço para longe de Rick, e Orlando deu um soco em cheio no rosto da idosa irlandesa, em sua bochecha direita, fazendo-a quase cair desfalecida enquanto tentava em vão alcançar as próprias armas.
Orlando e Elliot a desarmaram em segundos, Orlando guardando consigo a pistola e uma arma de cano fino que ela tinha consigo, retirando dos bolsos depois a pistola escura e apontando-a na cabeça da idosa. Tinha consigo a avó de Mavie em seus braços, segurada pelo pescoço, o cano da arma pressionado contra a têmpora de Annie.
Elliot, por sua vez, agarrava Carl da mesma forma, tendo tirado do cinto da idosa uma faca afiadíssima que já posicionara no pescoço do garoto. O menino tentara se desvencilhar antes de ser detido, mas a força do sujeito barbudo era muito maior.
Mavelle, sem poder dizer que estava de fato surpresa, já tinha o arco apontado para a testa de Orlando. Suas feições estavam graves, sérias, totalmente concentradas na flecha que segurava no cordel.
Bastava um milésimo de segundo e perfuraria o olho direito do maldito que agredira sua avó e a ameaçava. Não se dava espaço nem sequer para sentir o ódio que ameaçava estourar por seu corpo, sabendo que Annie precisaria que ela estivesse totalmente imersa naquela tarefa, para matá-lo de uma vez sem que ele pudesse ferir sua avó.
Mas sabia que não podia atirar apenas em um deles. Se matasse Orlando, sua avó sobrevivia e Carl morreria. Se matasse Elliot... Seria o contrário.
Tyreese, ao seu lado, desarmado, parecia atordoado. Não sabia o que fazer nem como agir, então apenas olhava da garota com arco e flecha para os dois homens que ameaçavam o adolescente e a idosa.
Rick Grimes, com seu rosto todo em uma máscara de impassibilidade e frieza de dar inveja a Jed, trazia consigo uma expressão contida que, por trás do brilho inclemente de seus olhos, prometia aos dois homens uma morte lenta, dolorosa e hedionda. Especialmente ao que ameaçava seu filho. Ao encará-lo, Elliot engoliu em seco e disse, rapidamente:
– Não se mexe papai, ou o pescoço do filhinho já era. Não se mexa nem um centímetro. – A faca que Elliot roubara de Annie perfurou levemente aquela parte do corpo de Carl, um pouco de sangue saindo do pequeno ferimento.
– Vamos todos fazer silêncio e ficar bem quietinhos – Orlando recomendou, sua voz baixa e rouca, séria. – Nada de gritar, ou a vovó e o menininho morrem! – o homem garantiu, e todos sabiam que era uma ameaça verdadeira.
Mavelle enfim encarou Daryl. O homem olhava tanto nos olhos de Orlando quanto nos de Elliot com uma agressividade que ela nunca vira em seus orbes azuis. Se ele a dirigisse um olhar daqueles, tão cruel e terrível quanto o que Rick dava a Elliot... Provavelmente ela ficaria demasiadamente amedrontada.
– Caipirão, você – falou Elliot, a faca firme no pescoço de Carl. – Joga essa enxada aqui, na frente dos meus pés. E depois, anda devagarinho pro lado do papai aí. – Indicou Rick, com o queixo.
Sabendo não ter escolha, Daryl fez o que lhe foi ordenado. Não modificando seu olhar em momento algum.
Mavie sentiu a mão tremer levemente no cordel. Estava muito preocupada com o que poderia acontecer. Alguém do Aquário tinha de interceder, por mais que, naquele momento, estivessem todos ocupados em tarefas longe daquela ala, os portões ao norte do Oceanário, onde se localizavam.
– O que vocês querem? – Rick perguntou, austero, sua voz fria como gelo.
– Só queremos sair. E algumas armas – respondeu Orlando, enquanto Elliot concordava com um sorriso cínico. – O que conseguimos da vovó já basta, para voltarmos ao nosso grupo – Orlando acrescentou.
Eu sabia. Mavelle pensou, mais angustiada. Dakota havia lhe falado que os homens resistiram muito pouco quando foram desarmados e levados ao Aquário. Aquilo era digno de desconfiança. Para dois sujeitos, sozinhos, naquele cenário hostil, aceitarem tão rápido essa mudança de patamares... Era algo muito estranho.
Pelo visto, tinham um grupo maior, e sabiam onde encontrá-los de volta. Foram ao Aquário com a esperança de que todos fossem tolos o suficiente para serem enganados por eles. Conseguiram comida, abrigo por uns dias, e agora tinham arma e munição para voltar ao convívio dos outros que conheciam.
– Gostosa, abaixe o arco – Elliot exigiu, lambendo os beiços enquanto encarava Mavelle daquela forma repulsiva. Os sobreviventes próximos a ela a encaravam, esperando sua reação. Mavie não abaixou o arco, a flecha pronta para atirar ainda direcionada ao olho de Orlando.
– Ele falou para abaixar. – Orlando destravou a arma, o clique audível para todos, o cano da pistola apertando com força a testa de sua avó. – Ou vamos ter miolos de vovó na janta de hoje à noite – ele ameaçou, dando uma risada discreta e cruel. Sua barba comprida tremelicava enquanto ria sadicamente.
Os lábios de Mavelle, retorcidos em desgosto, tremeram de leve. Sabia não ter outra escolha, e o ódio que sentia daqueles homens somente se aprofundou ainda mais, espalhando-se por seu corpo como veneno. Ela abaixou, deixando o arco e a aljava de flechas com a flecha que antes tinha preparado no chão. Deu vários passos para trás, ficando mais perto de Tyreese, afastando-se muito de suas armas.
– Crioulo gordão – Elliot falou, voltando os olhos para Tyreese, parado ao lado de Mavie Berry. – Pegue com ela a chave para abrir aquela porta ali, abra-a, e depois jogue a chave para a gente. – Apontou o cabeludo para uma porta de ferro enorme que só era aberta com um cartão magnético.
– Não é uma boa ideia – falou Mavie, agora muito preocupada. Temia que eles fossem escolher aquele caminho.
– Não falei com você, peitinhos – retrucou grosseiramente Elliot. – Ainda vou querer algo de você, espera, sua hora vai chegar – prometeu o homem com perversão em sua voz asquerosa. Mavelle sentiu um calafrio de desgosto correr-lhe a espinha.
– É melhor você calar essa merda de boca – Daryl Dixon respondeu, sem conseguir se segurar, aproximando-se do homem. Foi detido por Rick, que o encarou com severidade, com receio de, provavelmente, Elliot descontar em seu filho. Mavie olhou para o arqueiro, um pouco surpresa por ele ter se incomodado tanto com aquele tratamento humilhante que o homem dava a ela.
– Seu namorado ficou revoltado – Elliot falou e pareceu ainda mais divertido. – Como será que ele vai se sentir daqui a pouco? – provocou com crueldade o homem, a faca pronta para dilacerar o pescoço do filho de Rick Grimes. Carl, orgulhoso, tentava não demonstrar medo, mas Mavie via em seus olhos o quanto o garoto estava apavorado.
– Entregue a chave – Orlando ordenou para a garota irlandesa. – Ou a vovó já era. Dou-lhe uma... – Ele começou a contagem, e as mãos de Mavelle passaram a tremer. – Dou-lhe duas... – O cano da arma estava tão fincado na testa de sua avó que ela podia ver quase um buraco se formando ali. Annie fechava os olhos, respirando profundamente, tentando não demonstrar sentimento algum.
– Está bem! – ela falou, séria, e o aperto na testa da idosa foi arrefecido por Orlando. Mavie passou o cartão magnético que guardava consigo para a abertura daquela porta para o homem ao seu lado.
Desculpe-me, Tyreese.
Eu realmente não tenho outra escolha.
Espero que possa me perdoar.

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