Hunters
1 A Triste História de "Ninguém" - Parte 1.
Notas iniciais
Sábado, 20 de Agosto de 2016, 21 horas e 42 minutos, a chuva que cai torrencialmente do céu escuro, na auto estrada, em um lugar muito longe da civilização é cortada por um carro preto habitado por aquele que perdera sua identidade muitos anos atrás.
Meu nome? O que sou? O que faço?
Essas são perguntas difíceis de explicar para vocês humanos que levam suas vidas normalmente, cujo grande problema é o que vou comer no almoço.
Antes de falar de mim, gostaria de apresentar meus companheiros. Esse dormindo no banco de trás é o Fallen Star ele é um gato malhado maior que um urso pequeno e menor que um urso médio, gordo e preguiçoso, que passa a maior parte do seu tempo dormindo no banco traseiro do automóvel, dificilmente ele faz algo além de dormir.
Do lado dele está La Muerte, ela é uma foice gigantesca, parecida com a de um ceifeiro de almas. Quando estou empunhando ela mal consigo enxergar onde termina sua lâmina, ela é mais silenciosa que Fallen, porém cumpre muito bem suas tarefas.
Sabe, não me lembro direito de quando eu e Fallen nos tornamos parceiros, já faz tanto tempo que nem sei direito, mas acho que foi no Kansas.
Lembro-me que era uma noite chuvosa como essa, parei em um bar na beira da estrada para beber e deixei os vidros abertos, pois o cheiro de cigarro parecia ter impregnado no meu carro, quando voltei, lá estava ele, deitado no banco traseiro, fiquei com pena de enxotá-lo para fora e então trouxe-o junto comigo em minha jornada.
Qual é minha jornada ?
Antes que eu me esqueça acho que não me apresentei, meu nome é Don.
Isso mesmo, apenas Don, não possuo sobrenome como vocês humanos.
Para vocês entenderem o que sou e o que faço, tenho que voltar um pouco no tempo, acho que vai dar tempo, pois essa é a triste história sobre “ninguém”.
Lembro-me vagamente do que aconteceu naquele dia afinal não faz mais parte de minha vida, acredito que vou conseguir recordar um pouco, mesmo que isso possa me trazer problemas.
Levantei-me cedo para ir trabalhar, como todos os dias, era primavera, eu acho, podia sentir o perfume das flores do quintal, que minha esposa cultivava, ficavam logo abaixo da janela de nosso quarto, não consigo lembrar o nome delas.
Fiz a barba, pois fazia dias que não me barbeava, fui até a cozinha tomar café e lá estavam as duas coisas mais preciosas de minha vida, minha esposa Janis e minha filha Becky, de oito anos apenas.
Becky veio até mim, me abraçou para cumprimentar, se soubesse o que estava por vir, jamais teria a soltado, beijei minha esposa e sentei-me com elas a mesa para tomar café.
“O Trevor sumiu papai” – disse Becky.
Trevor era nosso gato, às vezes ele sumia e Becky sempre ficava preocupada achando que ele tinha nos abandonado.
“A senhora Thompson hoje pela manhã quando fui levar o lixo para fora, falou que o cachorro dela e do senhor Bautista também sumiram” – disse Janis.
“Bom acho que eles devem ter fugido, ninguém aguenta viver com a senhora Thompson muito menos com o senhor Bautista” – respondi.
“Querido, não seja engraçadinho, a senhora Thompson realmente está preocupada, ela tem reclamado de um carro preto parado nas últimas duas noites em frente a sua casa, sem falar nos sons estranhos que temos ouvidos”
“Está se referindo a ontem à noite, aquilo deve ter sido algum animal solto por ai e o carro parado, bom deve ser apenas alguém perdido.”
“Papai, eu vi uma coisa estranha ontem à noite, acho que era o lobisomen.”
“Querida fique tranquila, lobisomens não existem” – disse para Becky tentando confortá-la, humanos idiotas e seu ceticismo.
Após terminar o café, me despedi das duas entrei em meu carro e fui trabalhar, talvez, o maior erro de minha vida, mas não posso desfazer o que ficou para trás.
Cheguei no meu emprego idiota de diretor de vendas em um desses prédios com diversos andares que você acha que só existem na televisão. Estava cheio de serviço naquele dia, tive que ficar até tarde, eram quase onze horas da noite quando peguei meu carro e retornei para casa.
Ao chegar em casa, vi o carro preto que a senhora Thompson falara parado em frente a minha garagem, a porta estava aberta, o ar pesado, as flores do jardim amassadas, aquela cena, aquele clima me encheu de desespero, foi então que ouvi um disparo.
Pow, Pow, Pow
Foram três disparos. Ao ouvir isso, em uma ação de desespero sai correndo e entrei em minha casa. Lá estava, havia sangue no piso, nas cortinas, no sofá, por todos os lados.
Comecei a gritar procurando pela minha filha e minha esposa, tentando acreditar que nada acontecera, mesmo com todo aquele sangue.
“Beeeeeeeeeeeccckyyyyyyyyyyy”
“Jaaaaaaaaaaaaannnniiiissssssss”
Adentrei nosso quarto e vi um homem com cabelos longos negros, usando um chapéu e um, sobretudo preto, segurando uma pistola dourada em suas mãos de costas para mim olhando pela janela e resmungando.
“Droga, tenho certeza que acertei, três vezes ainda.”
Ao lado dele estava minha bela esposa Janis caída ensanguentada, seu corpo estava completamente mutilado, sua garganta cortada.
O ar parecia me sufocar, o cheiro era insuportável, eu tremia e estava paralisado, faltava-me forças ao ver aquela imagem, porém, a emoção e o desespero me impulsionaram e saltei sobre aquele homem e comecei a socá-lo.
“Miserável, miserável, eu vou lhe mataaaaaaarr” – gritava, enquanto o agredia, foi então que ele disse.
“Olhe pela janela, a janela”
Olhei pela janela e vi algo que jamais imaginava existir, um vulto prateado imenso, parecendo a silueta de um lobo, mas como poderia existir um lobo daquele tamanho.
“Loooobibibisomen” – falei atordoado.
O homem estranho que não reagira a minhas agressões respondeu.
“Quem dera se lobisomens existissem, aquilo é algo muito pior, algo muito mais sombrio e terrível, o que você vê aqui é obra dele.”
“Becky, onde está Becky, vamos diga” – interrompi desesperado o homem.
“No banheiro, mas ach...”
Sai correndo até o banheiro, na esperança de que Becky ainda estivesse bem, porém ao chegar lá, meu mundo desabou.
Becky estava irreconhecível, o banheiro estava coberto de sangue por todos os lados, entretanto, peguei-a no colo e abracei-a enquanto chorava desesperadamente.
“Porquê, porquê, porque isso aconteceu?”
“Lamento, infelizmente não consegui chegar a tempo” – falou o homem parado na porta.
“Sua vizinha, senhora Thompson chamou a policia quando viu meu carro, tive que despistá-los antes de retornar.”
“O que era aquilo? E porque fez isso comigo?” – indaguei.
“Não há tempo para lhe explicar, tenho que sair daqui e se eu fosse você sairia também, o que aconteceu aqui não há como explicar para os outros humanos.”
Os sons das sirenes de polícia se aproximavam, os vizinhos devem ter chamado a polícia em virtude dos sons dos disparos, o homem estranho adentrou rapidamente seu carro e foi embora. Bom, eu permaneci ali parado em choque, sem saber o que fazer, sentindo uma dor inexplicável.
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