Hunters

1 ''Normal'' life


A cidade de Doddge sempre fora calma e pacífica para as pessoas normais, mas não para ela. Esse era o mundo em que vivia; repletos de cheiros e sons que rodeavam a sua mente. Ou melhor, embaralhavam-na. Seus sentidos eram um tanto anormais e sua família... bem, mais anormal ainda.

Vivia com seus pais Lisel e Donnie, dois grandes caçadores. Lisel era líder do clã Caesy, a linhagem mais pura de caçadores. Strauss Caesy, o primeiro, provavelmente era seu tátara alguma coisa. Já Donnie vinha do clã Nikolau, os sombrios e imprudentes. Duas figuras importantes no mundo dos caçadores. E isso soava ótimo para todos, menos para Ridley.

Primeiro de tudo, era a última garota da linhagem dos puros. E segundo, o clã Nikolau vinha causando problemas demais na comunidade de caçadores. Terceiro, ela teria que decidir qual seria seu clã permanente daqui a quatro meses.

***

— Então gente, prestem atenção! O baile de Halloween está vindo, e caso não saibam, vocês foram a turma sorteada para organiza-lo! — Sr. Rowley disse com um grande sorriso no rosto. — E, eu serei o tutor de vocês.

O homem alto e desengonçado provavelmente estava esperando palmas e assobios de felicidade. Mas tudo o que ganhou foi o barulho do chiclete de Hanna Wilson estourando.

— Hanna, o chiclete, por favor — Ele disse cansado e talvez um pouco decepcionado. A morena se levantou para joga-lo fora. — Eu realmente esperava mais animação da parte de vocês.

Rosalyn, a garota de cabelos castanhos oleosos que sentava na frente, se pronunciou:

— Essa turma não ficaria animada nem se fosse alguma estúpida celebridade pop falando. Eles são assim — Ela disse esnobe. Esnobe demais para alguém que almoçava sozinha no intervalo.

Sr. Rowley deu-lhe um sorriso amigável e fechou o livro vermelho de Biologia Avançada. Poucos minutos antes do sinal tocar, ele liberou a turma.

— Eu apenas irei sentar e ver tudo ficar pronto — disse Ridley dando uma mordida em seu sanduíche.

Ela e seus amigos faziam uma roda no meio do gramado verde do pátio da escola.

— Eu acho que vou ajudar — Disse Madison. Ela costumava se voluntariar para inúmeras coisas, mas nunca dava conta de tudo. — Quer dizer, não queremos que o baile fique feio, certo?

— É. Transforme-o em glitter e bruxaria que eu e Rid ficaremos assistindo — Falou Zoella sorrindo para Ridley.

Ambas eram melhores amigas e quase sempre compartilhavam da mesma opinião.

Mas apesar disso, eram bem diferentes, enquanto Zoella tinha cabelos cacheados e platinados, olhos suaves e azuis, Ridley tinha cabelo marrom-avermelhado macio como seda, e olhos arqueados e amarelo-esverdeados, como os de uma gatinha.

Madison revirou os olhos em resposta.

— Bem, eu estou disposta a ajudar. Mas não todos os dias. E já vou dizendo que não vou me esforçar muito... — Ginger observava as próprias unhas azuis bebe enquanto falava. Gostava de adicionar as coisas no currículo mas nunca realmente faze-las.

— Eu vou ajudar também. Vamos lá, se deixarmos na mão do Sr. Rowley e dos nerds, o primeiro e terceiro ano irão nos odiar para sempre.

Mark estava certo, como sempre. Mas Ridley não se mexeria nem se quisesse. Tinha curso todo o dia depois da escola, mas é claro que não poderia contar a ninguém, já que esse curso incluía treinamento intensivo de luta e tudo sobre seres sobrenaturais. A chamariam de louca para sempre se descobrissem.

Assim que chegou em casa, escutou aquele silêncio perturbador. Era Terça-Feira 15, dia em que Strauss, o primeiro, nasceu. O que significava uma pequena reunião bizarra entre os Anciões e Lisel. Todas as terças 15 eles se reuniam, independente do mês.

Ridley atravessou a sala apertando o passo e chegou até a cozinha, encontrando Donnie apoiado na bancada negra comendo morangos.

— Oi, pai — ela sussurrou.

Ele ergueu os olhos verdes e sorriu para ela, depois sussurrou de volta:

— Oi, querida — Então ele segurou um morango e o ergueu em sua direção. Ela negou com a cabeça.

— Não estou com fome.

Ela subiu para o seu quarto e rapidamente mudou o suéter roxo e calças jeans para casaco azul marinho de academia, calça negra de couro e botas. Pegou a outra mochila, que estava escondida debaixo da cama e a jogou por cima dos ombros.

E assim seguiu seu caminho até ACA. Ficava em um antigo depósito de máquinas no litoral de Doddge. Assim que você entrava, encontrava um auditório improvisado no canto e alguns colchões de luta espalhados por lá.

Ano passado, Ridley completou o Primeiro Ciclo, que fora escolher seu Guardião. Caçadores nasceram para passar a fase de jovem adulto solitariamente, saltando de país em país em busca de criaturas para matar. Guardiões estariam mais para acompanhantes, no máximo "ajudantes" nessa jornada. Eram os filhos fracos dos caçadores, aqueles que não aguentavam a pressão ou simplesmente não nasciam com o dom. Esse ano, completaria seu Segundo Ciclo, que seria escolher um clã, e só de pensar no assunto a deixava com frio na barriga.

Sua Guardiã se aproximou. Ela tinha sardas nas enormes bochechas, cabelos cacheados e ruivos e olhos azuis. Ela usava dois coques de cada lado da cabeça.

— Oi, Arlie.

Ela ignorou seu cumprimento e disparou.

— Hoje marquei uma aula com Hedgar. Respire fundo porque ele vai pegar pesado.

— O que?! — Franzi o cenho e a encarei. Ela estava com uma expressão satisfeita no rosto.

— O que foi? Você é capaz e sabe disso.

Ridley queria protestar, mas Hedgar já subia no colchão alto e duro. Ele era um dos treinadores mais hardcore dali. E sua aparência deixava isso bem claro. Músculos que saltavam do corpo, alto, rosto marcado e cheio de cicatrizes, cabelo raspado dos lados, deixando apenas um tufo no meio aonde saía uma trança curta.

Ela engoliu em seco e prendeu seus cabelos em um rabo de cavalo.

— Bem, obrigada. — ela agradeceu a Arlie sarcasticamente. — Agora estou ferrada.

Subiu no colchão e relaxou. Se esticou como um gato e depois esperou pelo ataque. Hedgar era rápido e forte, então ela sabia que ele viria com tudo. O homem saltou e parou na sua frente, transferindo um soco. Ela se abaixou e o empurrou, agarrando sua cintura. Mas ele a pegou e a jogou no canto do colchão de plástico, e ela quase caiu pro lado de fora.

Se caísse, seria menos 5 pontos tirados da prova final.

Todo mês sempre tinham uma prova final, aonde eram 50 pontos para os testes mentais e 50 para os testes físicos. Ou seja, um total de 100 no final de cada mês. Até agora, ela já tinha 686 ao todo. Para conseguir ir para o Terceiro Ciclo, precisaria de no mínimo 1195 pontos.

No ano passado, Arlie não conseguiu pontos o suficiente, e acabou se tornando Guardiã. Ela era boa nos testes mentais, mas não conseguira bons resultados nos testes físicos. Mas para não se tornarem guardiões, os jovens caçadores poderiam mudar de comunidade e tentar novamente, o que era difícil, já que eram poucas existentes.

Distraída, ela sentiu uma dor tremenda após Hedgar dar um soco certeiro em sua cara. Ela deveria ter desmaiado, mas continuou de pé cambaleando e tentando raciocinar. O homem não deu moleza e tentou soca-la novamente. Ela bloqueou e com um rápido reflexo agarrou seus braços, os arranhando com as unhas pontiagudas cor de rosa. O treinador fez cara de poucos amigos e a atirou no colchão novamente, o que a fez rolar pelo chão.

Ela ficou uns belos e demorados segundos lá.

— Droga — ela sussurrou.

Alguém a levantou.

— Olhe o placar, Hedgar gostou de você.

Ela ergueu o olhar e viu seu nome em vermelho, ao lado de uma carinha feliz digital.

Ela estava prestes a sorrir quando viu quem a levantou.

— Você realmente acha que ele vai deixar essa passar? — Perguntou irritada se referindo a questão do chão. Menos 5 pontos.

Thomas Redbird a encarava com um brilho divertido nos olhos.

— Sim, eu acho. Já lutei com ele. Hedgar gosta de guerreiros e você não desistiu fácil.

Ridley respirou fundo e franziu o cenho. Não havia reparado em seu estado antes.

— O que aconteceu com você?

O olho de Thomas estava um pouco arroxeado e a boca inchada e vermelha. O cabelo ruivo estava um caos e a sobrancelha direita raspada pela metade.

— Acabei de chegar da caça com os meninos. Dois vampiros.

— E vocês os mataram?

Ele sorriu orgulhosamente e assentiu.

— Fácil, fácil.

É, claro, fácil. Ela poderia dizer pela sua aparência. Basicamente, estava pronto para entrar no caixão e morrer.

Para ser sincera, não gostava muito do primo. Era orgulhoso demais e, provavelmente, apoiava essa nova fase "rebelde" de seu próprio clã.

Ele já estava no Terceiro Ciclo, mas caçava desde o Primeiro, o que era, claro, contra as regras. Nos primeiros dois anos não era permitido caçar sem a presença de um caçador adulto; era perigoso demais. Mas para Thomas nada era proibido, simplesmente pelo fato de ser filho do chefe do clã Nikolau, Duhann Redbird.

— E quanto a seu futuro noivo, prima?

Pronto, aí estava. Ridley revirou os olhos.

— Olhe, ai está ele.

Jules Caesy passara por eles apressado, tentando acompanhar o grupo. O auditório do Primeiro Ciclo ficava no segundo andar. E sim, seu futuro noivo, de acordo com todos, era dois anos mais novo que ela. Uma pressão enorme vinda da maioria dos Anciões se fazia entres eles, últimos da linhagem pura. E a linhagem de Jules, chegava a ser mais intocável ainda, já que seus pais eram primos Caesy que se casaram na adolescência.

Os descendentes diretos de Strauss, o primeiro, não eram muito férteis e no máximo sempre tinham três filhos. E essa geração, gerara apenas um de cada, o que não era nada bom. Portanto, com a chance de produzir mais puros, os Anciões deixaram Lisel ciente do que queriam. E que, obviamente, não era o que Ridley queria.

Ela deixou o ruivo falando sozinho e foi fazer o resto de seus deveres.