Hunters

2 Mr. Uncle killer


Ao chegar em casa novamente, largou a mochila prateada e brilhante no sofá e cumprimentou os pais. Estava prestes a se encaminhar para o quarto quando ouviu a voz rouca e cansada de Lisel.

— Ridley?

— Oi mãe. O que aconteceu?

A mulher estava sentada no sofá branco ao lado de Donnie. Sua expressão estava vaga, como se sua mente travesse uma batalha de pensamentos. Seu cabelo negro estava preso em um coque baixo e os olhos pequenos castanho-claro observavam o nada.

— O que? O que aconteceu? — ela contornou o sofá e se sentou na poltrona em frente a eles.

Lisel suspirou e fechou os olhos e, quando os abriu, olhou diretamente para a filha.

— Os Anciões querem punir o clã Nikolau.

Assim que ela disse isso, os olhos de Ridley caíram-se sobre Donnie. Ela não havia reparado o quão irritado ele parecia.

— Não fomos nós — ele disse baixo e entredentes.

Lisel olhou para ele, sua expressão vazia se transformando em raiva.

— Me explique então o que Duhann fazia na cena do crime? Seu irmão!

— Ei! — Ridley gritou, desesperada. Nunca havia os visto tão irritados um com o outro. — O que exatamente aconteceu?

— Dois humanos foram encontrados mortos dentro de um Mausoléu no cemitério Saint-Maurén. E Duhann foi encontrado saindo de lá, com as mãos repletas de sangue... — Lisel se jogou no sofá e encarou o teto. — O líder dos Nikolau, Donnie. Ele é o líder.

— Ele disse que estava tentando ajudar, Leslie!

— Quem ele... quer dizer, quem eram as pessoas?

— Eu não sei. Will não foi checar, era perigoso demais. E Duhann não quis revelar... Me pergunto o porque — respondeu ela com um quê de ironia na voz.

Uma das regras dos Caçadores era não matar humanos. Afinal, as intenções eram livrar os humanos dos sobrenaturais que os matavam. Assassinar humanos era definitivamente, o pior crime.

— Então Duhann está preso? — ela perguntou.

— Não. — Donnie respondeu.

— Will o achou. E é só uma questão de tempo até os humanos acharem ele também... E os Anciões já estão agindo.

— O que pretendem fazer?

— Mata-lo — o homem não pareceu nada satisfeito ao falar isso. — E depois substituir o líder com alguém de status de outro grupo.

— Mas não podem fazer isso. É contra as regras! —protestou Ridley.

— Contra as regras deles. —e ao dizer isso, Donnie se retirou do local, cheio de ódio.

A expressão de Lisel se suavizou e pela primeira vez pareceu realmente ver Ridley ali. A mulher sorriu.

— Não se preocupe com isso. Seu tio ficará bem.

Mas ela sabia que ele não ficaria nada bem. Muito menos seu clã. Para os Anciões colocarem um líder de um grupo totalmente diferente, era porque não fora só o líder que errou. E se Ridley pensasse nisso por muito tempo, pareceria ser mentira. Era totalmente insano fazer algo assim. Clãs eram como famílias, com tradições e gostos diferentes. E matar Duhann? Seria mesmo necessário? Caçadores não eram humanos, no final das contas. Eram um pouco, minimamente, profundamente, sobrenaturais...

Donnie ficaria arrasado. Thomas também. E o clã Nikolau ficaria... revoltado.

* * *

Dois dias depois do incidente, todos comentavam sobre o assunto. A ACA se tornou um enorme burburinho de fofoca. Arlie já a olhava com uma expressão de sinto muito, como se soubesse que Duhann iria morrer. Mas ainda havia esperança.
Sempre havia esperança.

De qualquer modo, toda essa especulação a deixava irritada, e ela evitava falar com todos, apenas se concentrando nos estudos e exercícios. Se falasse com algum amigo, tudo o que recebia eram perguntas sobre Duhann. Ele ficará bem? O clã Nikolau vai acabar? Lisel tem algum poder de mudar a opinião dos Anciões?Ridley apenas respondia cansada, sempre a mesma coisa: Eu não sei.

— Você está ficando boa, Ridley. Muito mesmo — elogiou Hedgar sem sorrir.

— Obrigada.

Ela nem precisava dos raros elogios de Hedgar para saber. Sentia que já estava mais que pronta para fazer os testes no fim do mês e ela vinha ganhando carinhas felizes vermelhas em tudo o que fazia.

Na saída, Thomas a puxou pelo braço.

— Nós temos que fazer algo.
Ela nem precisava perguntar sobre do que se tratava. Sabia muito bem

— Nós? Perdeu a cabeça?

— Não. Perdi meu pai. — Thomas disse irritado.

Ela suspirou e tentou alcançar sua paciência... Em algum lugar.

— Ele ainda está vivo, Thomas.

O garoto sorriu, e seus olhos verdes brilharam. Eram os mesmos olhos espertos de Duhann e Donnie.

— Exatamente.

— O que pretende fazer?

— Provar o contrário. Não sabemos se a polícia já encontrou a cena do crime, afinal, ninguém mais vai a aquele Mausoléu velho a anos.

— Thomas... — Ela tentou dizer não, mas ele era manipulador. Basicamente a guiou até dizer o contrário. Então ela pressionou os dedos na têmpora e sussurrou

— Me diga o que fazer.

Afinal, família é família.

No sábado, Ridley passou no ginásio para ver como as coisas estavam indo até agora. Assim que entrou no lugar, viu o corpo pequeno e robusto de Madison se esticando para colar adesivos na parede.

— Alguém me ajude aqui! — ela gritou com a voz estridente e fina.

Ridley sorriu e correu ate ela.

— Oh, você por aqui — Disse a morena rindo. Ambas terminaram de colar a bruxa feia e enrugada na parede. — Valeu.

Ela olhou em volta. Ainda faltava muito, mas as barraquinhas de madeira já estavam ali, assim como os painéis roxos na parede.

— Está faltando luzes, decoração e os bonecos gigantes — Falou Madison como se houvesse lido a sua mente. Ela olhou para a amiga. — Tem certeza de que não quer ajudar?

— Só vim dar uma passadinha — respondeu Ridley sorrindo.

Ao longe, ela viu Mark carregando uma enorme caixa de papelão. Veias saltavam de seus braços musculosos e ele usava orelhas de gato metálicas sobre os cabelos dourados. Ele se aproximou de uma das barracas e largou a caixa no chão, soltando a respiração.

Um menino muito bonito do terceiro ano, Cris Hansom, passou por ele. Só faltou Mark desmaiar ali mesmo. Ridley e Madison riam ao longe. Quando o loiro as viu, deu um sorrisinho e revirou os olhos.

— Vocês, caladas! — ele disse se aproximando.

Madison comprimiu os lábios prendendo a risada. Ridley pôs as mãos na cintura e falou:

— Eu não acho que Cris faça parte do seu clube. Mês passado ele namorava Felicity.

— Não estou preocupado; ninguém resiste a mim.

Talvez ele estivesse certo. As maças do rosto de Mark eram definidas e naturalmente coradas. O cabelo tinha ondas perfeitas e os olhos azuis escuros tinham pontinhos dourados irresistíveis. Observar seu rosto já lhe causava uma sensação boa.

— Bem, boa sorte à vocês, estou indo — se despediu Ridley.

Ela caminhou até a porta, mas parou no meio do caminho ao lado de uma das barracas. Sua cabeça doía. Muito. Quando tentou dar mais um passo, seus olhos começaram a arder. E aí os ruídos começaram.

Ela olhou em volta. Tudo o que viu fora alguns adolescentes de sua classe a alguns de outras turmas caminhando de um lado para o outro. Mas então ela viu.
Ginger conversava com um garoto alto e mais velho, enquanto passava as mãos pelos cabelos loiros tingidos tentando fazer charme. Ridley sabia que era ele que causava isso.

Um Espírito.

Cabelo marrom ondulado, boca pequena, maxilar quadrado, pele branca como leite e os olhos caídos azulados, porém tipicamente cinzentos; sem alma.

Ela não reparou que estava o encarando que nem uma idiota até ele encontrar seu olhar. E sorrir. Isso a aterrorizou mais do que tudo. Ela apertou o passo e saiu correndo porta a fora. Só parou quando estava do lado de fora do colégio.

As únicas vezes que havia visto algum desses seres fora quando um vampiro invadiu sua casa, mas seus pais acabaram com ele rapidamente. A outra, foi quando vira uma fada em uma cafeteria. Tudo o que a garota fez foi sair de fininho com o coração acelerado. Ela não podia ataca-los (ainda) ou se comunicar com eles; era contra a lei dos Caçadores.

Mas com certeza iria investigar e falar com Ginger depois. Um sobrenatural em sua escola conversando com um de seus amigos não era uma coisa nada boa.

De repente se sentiu observada e os ruídos em sua mente voltaram. Quando olhou para trás, viu uma águia branca pousada no portão azul e descascado da escola. E ela sabia. Era ele.