Abri meus olhos, mas não estava no laboratório, mas sim na Associação, entrei na sala dos presidentes, porém meus pais não estavam lá, apenas uma garotinha de uns três anos de idade, cabelos e olhos cor de mel, que segurava um cachorro marrom de pelúcia.

Ela andou até a estante de livros e tirou um livro marrom que escondia um pequeno botão preto. Esticou seu pequeno braço e apertou o botão. A garotinha se afastou alguns passos e a estante se moveu para o lado revelando uma passagem.

Ela entrou na passagem e a segui, reconheci esse corredor escuro pelo qual passávamos imediatamente como sendo o corredor que levava até o laboratório dos meus pais.

Chegamos até o final do corredor, a direita havia uma porta preta que se mesclava com a parede e de frente para ela, uma porta de metal.

Não me lembro dessa porta preta, cheguei mais perto dela e tentei abri-la, porém minha mão atravessou a maçaneta como se fosse ar. A garotinha ia abrir a porta de metal, já estava na ponta dos pés tentando alcançar a maçaneta.

Um ruído veio da porta escura, parecia o barulho de alguém socando ou chutando a parede, talvez até mesmo batendo a cabeça na mesma. A pequena se virou para a fonte do barulho com os olhos brilhando de curiosidade. Desistiu da porta de metal para tentar a sorte na outra.

Depois de algumas tentativas falhas a porta finalmente abriu e, com passos hesitantes, ela adentrou o cômodo desconhecido.

Novamente a segui, era um pouco tolo seguir uma garotinha tão pequena em suas descobertas infantis, mas eu não conseguia evitar, parecia que minhas pernas se moviam sozinhas.

Entramos em um quarto, era um cômodo pequeno com paredes marrons. Numa delas havia um guarda-roupa e na outra uma porta que provavelmente levava a um banheiro. Não havia janela, apenas uma lâmpada de luz amarelada que iluminava precariamente o cômodo, em especial a cama de colchas escuras onde um adolescente estava sentado. Cabelos negros, olhos verde-esbranquiçados e uma expressão de completa frustração.

-Porque você tá tão triste? — a garotinha se pronunciou aproximando-se lentamente dele.

-Porque algo que eu queria muito não deu certo — ele respondeu de cabeça baixa.

-Isso é mesmo muito ruim, minha mamãe diz que quando não conseguimos algo que queremos muito, é horrível — a pequena comentou parando na frente dele — mas ela também diz que quando eu quero muito algo se eu tiver ajuda tudo fica mais fácil.

-Isso é uma verdade, pequenina, mas mesmo com a ajuda da sua mamãe e do seu papai conseguir o que eu quero não é fácil — ele lançou um sorriso triste para a menina que sorria animada tentando transmitir sua felicidade para o pobre garoto.

-Ah! Se o papai e a mamãe estão te ajudando você, com toda certeza vai conseguir!

-É verdade? — e parou um instante e analisou a garotinha com os olhos — e qual o seu nome senhorita?

-Eu sou a Anabelle, mas todo mundo me chama de Belle — ela contou se sentindo toda importante por causa do senhorita.

-Se todo mundo te chama de Belle, então vou te chamar de Ana, o que você acha?

-Legal senhor. Qual o seu nome, moço?

-Willian — ele deu um sorriso amável.

-Então Willy eu também vou te ajudar — ela decidiu.

-Aé? Como? — ele arqueou uma sobrancelha, já parecia bem menos frustrado.

-Bem, eu vou — ela parou um segundo para pensar — vou te dar o Senhor Gato — colocou o cachorro no colo dele — ele sempre me ajuda quando eu estou triste, e agora pode ajudar você.

-Porque seu cachorro de pelúcia se chama Senhor Gato?

-Ah! É porque ele é um cachorro muito gato, ou pelo menos foi isso que a minha mãe disse dele — ela parecia um pouco confusa, mas ainda sorria.

As coisas começaram a rodopiar ao meu redor, parecia que eu estava em um daqueles brinquedos malucos de parque de diversão. Até que tudo parou e eu me vi no salão de treinamento.

Estava tudo escuro e pela iluminação que eu vi na janela já devia ser tarde da noite. Escutei a porta se abrindo e logo as luzes se acenderam, me virei para ver quem entrara e me deparei com a mesma garotinha de antes, porém ela estava com uns dez anos agora.

Entrou sorrateiramente e começou a treinar, socava e chutava um saco de areia que tinha, no mínimo, o dobro de sua altura e peso.

-Você sabe que lutar contra algo parado não lhe dará nenhum preparo para quando precisar lutar de verdade, não sabe? — a voz conhecida de Willian soou da entrada e fez a garota se virar instantaneamente.

-E o que você sugere, Willy? — ela indagou desafiadora, porém sua voz infantil tirou boa parte do efeito que a fala deveria ter.

-Porque você não treina comigo? — ele se aproximou numa velocidade tão grande que ela só conseguiu ver por causa de sua ótima visão.

-Então prepare-se — e dizendo isso ela tentava atacá-lo enquanto ele se defendia e lhe dava dicas e corrigia seus erros.

Novamente a sensação de tudo rodando se apoderou de mim quando finalmente passou me vi em um lugar escuro com apenas algumas tochas para iluminar. Parecia ser um grande e antigo hall, que pela umidade e temperatura deveria ficar no subsolo.

No centro desse lugar a garota, já com provavelmente quatorze ou quinze anos lutava arduamente contra sete oponentes. Percebi logo que todos eram vampiros por causa de sua velocidade, e embora ela evitasse todos os ataques e atacasse com precisão, já estava se cansando ao compasso que seus oponentes tinham muito fôlego sobrando.

Ela levou um chute na boca do estômago e deu alguns passos para trás, pela força do chute ela provavelmente estava sem ar e os, agora cinco oponentes, vinham em sua direção rapidamente.

Mas antes que eles chegassem perto dela William apareceu na sua frente e começou a lutar com eles.

Como Will lutava era impressionante, primeiro porque ele era excepcionalmente mais rápido que eles e claramente mais forte. Ele tinha ataques precisos e não precisava mais de dois golpes para finalizar um oponente. Nem parecia o William que eu me lembro. Na verdade o William humano sempre perde para mim. Mas eu não fazia idéia do quão forte ele já foi.

Ele se aproximou da garota lentamente, agora não parecia mais que a diferença de idade entre eles fosse tão grande — Ana, você está bem?

-Estou ótima, eu podia ter dado conta deles — ela se recompôs e o encarou meio irritada — mas de qualquer forma, obrigada pela ajuda.

-Não há de que — ele sorriu e se aproximou mais um pouco. Antes que eu pudesse raciocinar ele encostou os lábios nos dela e eles se beijaram por longos minutos.

Ver isso me fez sentir algo muito estranho, senti minhas bochechas ficarem quentes e meu coração acelerar, de alguma forma eu sentia como que quem estivesse o beijando fosse eu.

Tudo voltou a rodar, porém dessa vez, quanto tudo voltou ao normal eu estava sentada na cama do quarto marrom, usando uma camiseta que ia até um palmo para cima do meio das minhas coxas.

A porta escura se abriu e William entrou, ele me olhava sorrindo, porém estava com um olhar preocupado.

-Então o que meus pais queriam? — perguntei me sentando mais para o lado para que ele pudesse se sentar do meu lado.

-Ficou pronto, o antídoto, finalmente está pronto — ele respondeu sorrindo animado.

-Isso é ótimo! William! Mas que maravilha! — eu o abracei forte, mesmo com o corpo frio dele, para mim parecia algo mais confortável do que mil cobertores.

-Mas tem um problema — anunciou me empurrando gentilmente para ficar de frente para ele.

-O que? — senti a sensação estranha e desconfortável de que algo ruim iria acontecer.

-Seus pais disseram que — ele fez uma pausa e segurou minhas mãos — que eu irei esquecer de tudo, será como se eu nascesse de novo, e isso quer dizer que eu vou — ele deixou a frase no ar olhando-me triste, e vê-lo assim era de partir o coração.

-Se esquecer de mim — completei para ele — então me faça esquecer de você.

-Ana, por quê?

-Ora Willy, se eu me esquecer de você e você se esquecer de mim, teremos de nos conhecer novamente — sorri para ele — se nós esquecermos ninguém irá sofrer.

Ele segurou minhas mãos mais firmemente — já que é assim — ele olhou bem nos meus olhos, mas parecia que ele enxergava dentro de mim com a intensidade daquele olhar. Depois disso tudo ficou escuro.

Abri meus olhos e levei um tempo para conseguir ver alguma coisa, todo meu corpo doída, de modo que eu conseguia sentir músculos, que eu nem sabia que existiam, doer.

-Belle! Você acordou — ouvi uma exclamação animada do meu lado — Senhor e Senhora Stevens a Belle acordou!

O que estava acontecendo? Onde exatamente eu estava, porque meus músculos estão doendo, e onde está o William?

Virei o rosto e me deparei com Vincent, que sorria para mim sem largar minha mão, atrás dele estavam meus avós. Então tudo aquilo fora um sonho, mas foi muito real para ser apenas um sonho.

-Querida, você consegue falar? — minha vó perguntou se aproximando lentamente.

-Sim — minha voz estava fraca e baixa, mas pelo menos conseguia falar.

-E como se sente?

-Como se tivessem esmurrado todo meu corpo.

-Isso é bom, você está sentido seu corpo todo, certo? — acenei a cabeça positivamente e vovó me deu um sorriso amável — em um mês você já terá se recuperado por completo.

-Ouviu isso Belle? Deu tudo certo — Vincent sorria animado — logo você estará 100% boa.

-Mal posso esperar — comemorei, porém com minha voz fraca a animação não saiu como deveria.

Agora seria um mês para me recuperar e me acostumar com o efeito do que colocaram no meu corpo, serão longos e doloridos dias que tenho pela frente, mas valerá a pena.

Notas finais
Heeey!!! Nossa! Nem acredito que já está no capítulo 15 essa fic *chorando cachoeirinhas de emoção*
Espero que gostem deste capítulo, que era um dos quais eu queria escreve desde o começo da fic
Bem, não se esqueçam das deixar reviews
XoXo