Hoje faz três semanas que eu estou aqui, e pela primeira vez desde que meus pais morreram, eu me sinto em casa. Cada dia que passa mais eu desejo que a destilação nunca fique pronta, mas ao mesmo tempo uma parte de mim mal consegue agüentar de ansiedade. A idéia de me vingar daqueles velhos é tentadora demais para desistir.

Levantei-me e coloquei uma roupa confortável e desci para tomar café da manhã.

Entrei na cozinha e o único presente lá era Vincent – Bom dia – o cumprimentei com a voz mais sonolenta do que previ.

-Tenho boas noticias – ele anunciou sorrindo assim que eu sentei – seus avós estão nesse momento terminando a destilação.

Foi como se um balde de água fria tivesse sido jogado em mim sem nenhum aviso prévio, todos meus músculos ficaram tensos e eu senti a ansiedade percorrer meu corpo – que bom – foi apenas o que consegui articular. Uma parte de mim estava verdadeiramente ansiosa, porém outra já estava sentindo saudades de ter uma família.

-A senhora Stevens disse que você tem que comer bastante e não fazer muitos exercícios hoje – ele continuou me olhando preocupado – você está bem, Belle?

-Estou – menti – então não iremos treinar hoje – me concentrei em passar geléia na minha torrada.

-Anabelle, você tem certeza que quer seguir nisso?

-Tenho – será que tinha mesmo certeza? Respirar já estava começando a ficar difícil e a comida já perdia o gosto.

-Você pode desistir disso, seus avós ficariam felizes em tê-la morando com eles e você voltaria a ter uma família e a caçar vampiros.

Ele estava certo se eu desistisse teria uma família novamente, mas o Conselho ficaria impune. E só pensar nisso me sinto enojada, aqueles velhos merecem tudo de ruim e mais um pouco – eu vou seguir em frente Vincent, e quando todos do Conselho estiverem mortos eu voltarei para viver feliz com meus avós.

Vincent começou a rir, não era um de seus risos cínicos ou sarcásticos, mas sim um riso de quem estava achando verdadeiramente graça em algo.

-Sempre tão confiante – comentou entre risadas.

-Tantas risadas, qual é a piada? – vovó indagou entrando na cozinha com um de seus sorrisos amáveis.

-Nada não, ele só está achando graça na minha confiança – respondi sorrindo, era estranho, mas a presença dela fazia eu me sentir mais calma, mais segura.

-Que bom que está tão confiante – vovó ampliou seu sorriso e eu senti pela primeira vez nessas semanas que eu fiz a escolha certa – já acabou de tomar café?

-Sim, já estou satisfeita.

-Ótimo, me acompanhem então – vovó fez um sinal com a cabeça, eu e Vincent nos levantamos e a seguimos para fora da cozinha.

Vovó nos guiou até uma porta que havia em baixo da escada. Ao abri-la o lugar parecia ser um armário normal, cheio de ferramentas, sacos de sementes, cordas, cortadores de grama e uma prateleira abarrotada de cacarecos na parede à minha frente.

-Senhor Richard, poderia me dar uma ajudinha?

-Claro senhora Stevens – Vincent deu um passo a frente e empurrou a prateleira para o lado, até que na parede que ela escondia uma porta ficou completamente visível.

Vovó abriu a porta e fez um sinal para que nós entrássemos, eu passei e me deparei com uma escadaria pouco iluminada que descia íngreme até, que no final dela, podia-se ver uma luz vindo provavelmente do laboratório.

-Tome cuidado – ouvi a voz de Vincent atrás de mim, enquanto descia segurando no corrimão.

-Claro, estou acostumada a descer escadas – comentei, era algo inconsciente, mas quando dei por mim descia a passos cada vez mais rápidos, sentindo meu coração acelerar cada vez mais.

-Hey, Belle! Não corre! – escutei Vincent berrar, mas nem liguei, pulei os último três degraus e fiquei parada alguns segundos para recuperar o fôlego.

Olhei para frente e me deparei com uma parede, me virei para o lado esquerdo e vi o bem iluminado corredor. Caminhei lentamente por ele até chegar num verdadeiro e sofisticado laboratório. Que além de objetos para experimentos químicos ainda guardava e pelo jeito fabricava armas de todos os tipos. Algumas deles eu nunca havia visto na vida.

Meu avô estava no fundo do laboratório, mas não conseguia ver direito o que ele fazia.

-Charles! Querido ela já chegou – ouvi minha vó gritando da entrada e vi meu vô se virando na minha direção. Ele provavelmente deixou o que estava fazendo e veio até mim sorrindo.

-Neta – ele me deu um abraço apertado o qual eu retribui.

-Tudo bem? – perguntei estranhando a ação dele, essas semanas eu aprendi que demonstrações físicas de afeto eram coisa da minha avó.

-Claro, só precisamos conversar com você – ele respondeu me soltando e dando alguns passos para trás.

Vovó passou por mim e ficou do lado dele. Os dois estavam bem sérios agora e isso me fez engolir em seco.

-Belle, o que vamos injetar é um composto muito instável, e muito, mas muito mais forte do que o que seus pais injetaram em você – ela começou.

-Certo, isso é um problema?

-Não podemos dizer que é um problema, é um composto forte o suficiente para te deixar com as habilidades de um vampiro transformado, mas o problema é que – vovô fez uma pausa e olhou para vovó, que sorriu e acenou para ele o encorajando – o problema é que se acontecer algum erro, o mínimo que for, você pode se transformar em um vampiro.

Certo, era algo arriscado, um erro mínimo e eu iria me tornar meu inimigo, mas ao mesmo tempo esse era um risco válido que eu tenho de correr se quiser enfrentar o Conselho. Aqueles velhos podem não parecer, mas já foram ótimos caçadores, ficar mais forte que um humano normal era a única solução.

-Fora me transformar em vampiro, isso pode ter algum outro possível efeito colateral? – minha voz estava fraca e eu suava frio.

-Bem, receio que também possa haver a possibilidade de haver uma rejeição – vovó falou pensativa.

-E o que acontece se tiver a rejeição? – Vincent questionou antes que eu pudesse pensar.

-Ela – vovô engoliu em seco e olhou sério para mim – morre.

-Certo, eu quero continuar com isso – decidi depois que a vontade de vomitar passou – sacrifícios precisam ser feitos para realizar seus objetivos.

-Não faça isso Belle – Vincent pediu – você não ouviu? Você pode virar uma vampira, ou...

-Morrer? – o interrompi sentindo minha confiança voltar ao meu corpo aos poucos – não me importo, já tomei minha decisão e ninguém vai me fazer mudar de idéia.

-Vejo que está decidida – vovó comentou voltando a sorrir amável – seu pai também era assim, quando colocava algo na cabeça ninguém mais tirava.

-Vamos – vovô começou a andar para o fundo do laboratório e seguimos ele.

Cada passo que eu dava parecia que meu coração ia sair pela boca, mas eu preciso ser forte, essa é minha escolha e eu não vou voltar atrás.

Chegamos à frente de uma cama simples com lençóis brancos e um travesseiro que aparentava ter quase nada de uso.

-Sente-se – vovó falou olhando para mim e apontando para a cama.

Acenei com a cabeça e me sentei na cama, percebi que tinha do lado da cama algum daqueles monitores de hospitais, que serviam para mostrar os batimentos cardíacos, etc.

Vovô pegou minha mão e colocou num dos meus dedos um negócio meio estranho que parecia um prendedor, mas não apertava o dedo – deite – ele pediu e eu obedeci encostando a cabeça lentamente no travesseiro e colocando os pés na cama.

-Você tem mesmo certeza que quer isso? – vovó perguntou uma última vez, ela segurava em uma mão um pouco de álcool e alguns algodões e na outra uma injeção com um líquido de cor alaranjada.

-Tem que ser uma injeção? – eu odeio injeções, na verdade odeio tudo que envolva gostos ruins e dor. Vovó acenou afirmativamente – certo, eu tenho certeza.

Vovó esticou meu braço direito, molhou um algodão no álcool, o passou no meu braço e depois o segurou com firmeza enquanto com a outra mão se preparava para injetar o líquido alaranjado na minha veia.

Fechei meus olhos na esperança que se eu não visse a dor seria menor. Senti a dolorida picada e depois a pequena dor da ponta da injeção sendo retirada do meu braço.

Segundos depois senti algo que nunca havia sentido antes na vida, parecia que algo muito, mas muito gelado estivesse se espalhando pelo meu corpo, como se cada parte estivesse se congelando internamente. Depois tudo parou, numa dormência da qual a única coisa que conseguia fazer era pensar, apenas isso, não conseguia sentir nenhuma parte do meu corpo, nem mesmo os olhos conseguia abrir.

-Belle? – ouvi a voz de Vincent ao longe – ela está bem?

-Os batimentos estão regulares, embora a respiração esteja ofegante – dessa vez era meu vô quem falava – por enquanto ela está bem.

Quando eu estava quase me acostumando com essa dormência algo mais estranho ainda aconteceu. Um calor estranho estava botando do meu peito, e a cada pulsação parecia que litros de água fervente eram lançados ao meu corpo. Senti a dor alucinante dessa queimação, algo tão intenso que não conseguia nem me lembrar de como gritar.

Parecia que meus pulmões iam se fundir, sentia meu corpo ferver e não conseguia me mexer ou falar, até que, eventualmente, nem pensar mais eu conseguia.

Notas finais
Hey!!! Aqui está mais um capítulo!!! Saído diretamente do word
Isso me fez ver que essa primeira parte da fic está quase no final.
Mas não se preocupem terá uma continuação o/
Espero que gostem do capítulo o/
E não se esqueçam das reviews