Hunter Of Wishes

15 Tirando o véu


- Atena, eles estão vindo!

- Como Kiki?

- Os djins...

Mas ele se calou.

Percebeu que estava cercado de copias exatas de Túccia.

Com exceção dos cabelos e olhos, todas as vestais tinham a mesma postura, roupas e expressões corporais umas das outras.

Sua líder, uma mulher de longos cabelos castanhos que caiam em ondas sobre seus ombros até a altura dos joelhos, com uma cicatriz de queimadura em forma de chama invertida sob o olho direito, selara a porta contra seres que não fossem aliados de Atena.

Ao longe, todos ouviam ecoar o grito de Jihad se aproximando.

- Onde está Shaka agora...?

Astréia andava de um lado para o outro, correndo o dedo na lamina da espada.

Shura, encostado em uma parede de Sagittarius, esperava a reação do amigo, que gelara ao ouvir a decisão da mulher de lutar ao seu lado.

O espanhol achou melhor não se afastar, mantendo a salvo a pequena herdeira da casa, nem que fosse da fúria dos pais. Mesmo que isso fosse trabalho do Milo, como repetia para si enquanto esperava a guerra.

- O que devo fazer Shion?

- Atena, está em segurança aqui...

- Mas Shion...

- Estarei na primeira casa, lutando no lugar de Mu.

- Compreendo, vá, mas tome cuidado.

- Soube que essas criaturas podem bloquear o cosmo...

- Diga a Dohko... Diga a Dohko que permito a utilização da armadura de Libra.

- Sim Atena, fique tranqüila.

Desceu correndo as escadarias, não sem antes deter o olhar na vestal Ryoko.

Seus pensamentos vagaram para a coragem daquela líder, que não possuía nada alem de sua crença.

- Você está bem? Não te vejo há quase um mês.

- Sim, obrigado por se preocupar. Sei que sempre está muito atarefada...

- O que nunca me impede de fazer o que realmente desejo. Shina me substituiu hoje.

- Marin, eu preciso te dizer...

- Aiolia...

- Mestre Shion? O que faz aqui?

- Atena ordenou o uso das doze armas –jogou uma espada para ele- mas devo alertar...

- Conheço as regras de uso Mestre.

- Ótimo. Preciso chegar logo a Áries.

- Mu não voltou?

- Ah, você está aí Marin? Não, ele não voltou ainda. Agora tenho que ir. –ele saiu apressado.

- O que ia me dizer Aiolia?

- Tome cuidado.

Marin sorriu.

Podia não saber o que era, mas com certeza não era aquilo que ele ia dizer.

- Por aqui.

Guiado pelo instinto Afrodite os guiava, surpreendendo todos que o consideravam um mero jardineiro dependente de luz.

Alcançaram o imenso cristal, semelhante às miniaturas que os djins levavam, sendo alimentado por água carregada do cosmo da Senhora da Chama.

Milo e Afrodite ficaram para destruir o cristal e os outros três seguiram os encanamentos de água. Passar pela Morte e pela Ganância não foi fácil pois a primeira era muito forte e a segunda se multiplicava assustadoramente.

Venceram e logo chegaram a Túccia.

- Virgo, Áries, por favor, me ajudem com essa água!

O ambiente frio e úmido mal permitia a fraca voz de Vesta chegar até eles.

Mu libertou Túccia, mas foi com pesar que perceberam que Luxuria possuía em dobro o poder das irmãs.

Na busca por Milo e Afrodite, se separaram, todavia a djin restante seguia Túccia pelo cheiro do que restava de seu cosmo.

Mu e a Vestal foram parar em um túnel em construção.

- Estamos cercados.

- Não é o fim. Ouvi que nenhum cavaleiro de ouro morre sem contemplar pela ultima vez a luz.

- Mesmo sem cosmo ou armadura? –Mu não pode deixar de ironizar.

- Não adianta, sinto seu cosmo a distancia. Ele fede a luz e calor.

- Existe alguma forma de bloquear seu cosmo senhorita?

- Uma forma, extremamente proibida, até mesmo nessa situação.

- Então morreremos.

Ela vacilou. Podia sacrificar seu corpo humano, mas não modificar o destino daquele guardião.

Suspirou.

- Se me beijar, bloqueará meu cosmo.

- Mas isso...

- Uma vez me disse que nenhuma regra é valida se um amigo está em perigo. Mentiu para mim?

Mu não respondeu. Apenas fechou os olhos e apoiou a mão na base da nuca da mulher, a beijando com delicadeza.

O cosmo de Vesta se extinguiu de vez, e o do guardião começou a voltar.

Sentiu ela perder as forças em seus braços, então a acompanhou até o solo, a deitando suavemente.

Ao mesmo tempo, Luxuria pode sentir o impacto do golpe do terceiro guardião. A justiça de Astréia se fazia presente. Era sentida na pele.

No Santuário centenas de seres chegavam aos montes, deixando o horizonte negro.

Os cavaleiros de bronze e prata protegiam as vilas enquanto os de ouro lutavam com unhas e dentes contra o mar de inimigos.

Aiolos e Astréia lutavam lado a lado, o arqueiro e a espadachim, enquanto Shura, na retaguarda, se mantinha a porta da nona casa.

A dificuldade aumentava com o tempo e o cansaço.

- Aiolos!

Astréia matou o djin que atacaria seu marido pelas costas, mas Aiolos, por conseqüência da distração, errou a flecha destinada ao djin que ia em direção ao amigo.

Shura, com uma das espadas de Dohko, enfrentava três djins ao mesmo tempo.

O quarto passou.

- NÃO!

- Aela! –Astréia deu meia volta, abandonando o oponente, para alcançar a casa antes da criatura.

Pagou por isso.

O djin abriu uma talha em sua face com uma de suas enormes cimitarras e ela caiu.

Com um só golpe Shura matou dois, mas o que restou ainda o impedia de chegar a tempo.

Quando o djin alcançou a nona casa uma flecha atravessou sua garganta. Eros plainou até a entrada da casa, indicando a Aiolos para socorrer Astréia, passando ele mesmo a dar cobertura a nona casa e seus habitantes, destruindo cada inimigo em um raio de dois quilômetros, fazendo jus a sua fama de eterno arqueiro.

Ao mesmo tempo, Milo, Shaka e Afrodite destruíam o cristal, e, por osmose, os djins, fazendo que os que restavam virassem pó.

Mu teletransportou todos de volta ao Santuário assim que todos se reencontraram.

Lá Ryoko esperava Túccia.

- Túccia.

- Sacerdotisa-Mestre!

- Você não compareceu ao encontro anual, e como resultado Vesta não nos abençoou com sua presença.

- Eu... –Vesta estava encurralada.

- Se estivesse protegendo Atena... Mas não. Cometeu o pior dos pior dos pecados, quebrou sua promessa.

- Jamais faria isso. –Vesta sabia que tinha sido pior que isso...

- Terá que provar.

Mas a interlocutora da ultima frase foi Astréia, e Vesta gelou ao se voltar para ela. Estava com uma aparência assustadora, o rosto feroz agora marcado por uma cicatriz mal fechada que percorria seu queixo, rasgava seus lábios e terminava sob o olho esquerdo.

Astréia fez questão de demonstrar a Vesta que ela não poderia usar seus poderes ou seu cosmo, a apavorando.

- Terá de ir da Fonte de Atena até o Templo de Vesta carregando água nesta peneira. Se disser a verdade, a água não derramará em mesmo uma gota, eu lhe asseguro.

- Q... Quando?

- Daqui a uma hora.

Vesta se sentou.

- O que posso fazer para te ajudar? –Atena permaneceu ao seu lado.

- Nada. –Vesta sorriu tristemente- Eu aceitei os riscos de permanecer aqui.

Tudo que podia fazer era esperar, pois sabia que somente ela mesma poderia inverter aquela situação, o que era obviamente impossível.

Quarenta minutos depois Shaka encontrou Astréia descendo as escadas. Seu cosmo estava tão perturbado que ele abriu os olhos para a fitar.

- Astréia! –ele se aproximou, percorrendo com os dedos a ferida da deusa, que cerrou os olhos diante do toque- Você...

- É uma longa historia Shaka. Me surpreende que esteja aqui.

- Por que não estaria?

- Por causa de Vesta. –ela sentiu o movimento dos dedos dele, que ainda não haviam sido retirados de sua pele.

- O que houve?

- Daqui a dez minutos ela se submeterá ao teste da verdade vestal. Sem cosmo. –ela tentou sorrir, mas a dor a fez desistir.

- Ah, por Buda! O que ela terá de fazer?

- Água na peneira.

- Está se divertindo?!

- É meu trabalho, ela tem feito muita coisa errada ultimamente, e vai pagar. Nem que seja na lamina da justiça.

- Têmis sofreria ao saber o que está se tornando. Espero que o espírito de Aiolos se sobreponha ao seu em Aela, você a envergonharia. Pode trabalhar com Nêmesis.

- Já chega!

- Com licença.

Ele saiu correndo. Naquela prova somente Mu poderia ajudar Túccia.

Quando ele saiu Eros pousou ao lado de Astréia.

- Está mentindo para si mesma, essa não é você.

- Eu sei, mas não posso evitar.

- Claro que pode. Me ajude e seu erro será perdoado. Ordens lá de cima.

- Está bem.

- Mu!

- Shaka?

- Rápido, no caminho te explico!

- Onde vamos?

- À Fonte.

Convencer o ariano foi mais fácil do que Shaka imaginava e, para a surpresa de quase todos a vestal não derramou uma gota de água se quer, entrando de cabeça erguida no templo de ébano e mármore que lhe homenageava.

- Peço minhas...

- Nossas. –retalhou Astréia.

- Sinceras desculpas. –completou Ryoko- Reconheço sua fidelidade a Vesta.

- É claro que reconhece, Ryoko. E aceito suas desculpas.

Vesta mostrou seu antigo esplendor adormecido aos presentes.

Seus longos cabelos lisos agora eram de fogo, e seu vestido, que deixava a mostra os delicados pés em sandálias de prata, era da cor do céu em um dia claro de verão.

- Senhora...

Shaka não conseguiu pronunciar mais nada inteligível, mas foi o que disse que permitiu aos presentes reconhecerem a deusa, uma vez que nem mesmo Atena ou Astréia nunca haviam a visto assim.

Seguindo o exemplo de Ryoko as vestais se ajoelharam.

- Sei de tudo que passou para chegar aqui Ryoko e até mesmo eu não me saí tão bem como você como vestal.

- Minha Senhora é muito gentil...

- Talvez deva afrouxar um pouco suas rédeas. Percebi que não podem viver...

- Mas somos bem recompensadas. As regras serão seguidas ao extremo em troca de seu conhecimento. –uma vestal murmurou.

- Ora Dinorah, nenhuma regra é valida quando um amigo está em perigo.

- Eu...

- Você tem amigos?

- S...Sim...

- Aprendi isso com um grande amigo e um homem que admiro.

- Um homem?

- Sim Ryoko, um homem tão bom quanto os outros. Não deixe seu passado influenciar a sua opinião, por muito tempo fiz isso.

- Fico feliz que tenha um novo ponto de vista.

- Minha estadia aqui foi essencial para isso Atena. Obrigada, não sei como posso te recompensar.

- Já fui recompensada por sua nova opinião, Vesta.

- Podem partir vestais. Voltem aos templos, que em breve lhes ditarei as novas regras.

Elas se levantaram, agradeceram a Vesta e se dirigiram cada qual para um canto. Ryoko se dirigiu a saída do Santuário, consternada com os acontecimentos.

- Você está bem senhorita?

Encarou os dedicados olhos róseos de Shion, com a leve impressão de que os conhecia.

Notas finais
Em breve, a histórinha de de onde o Shion conhece a Ryoko ^.^