Humanos
6 Margarida
Notas iniciais
Abri a porta da sala e deparei-me com David sentado, muito pensativo, no canto. Já se tinha passado uma semana desde que tinha entrado na minha escola nova, tinha-me habituado já à presença daqueles alunos e aos olhares de inveja deitados a David por passar a maior parte do tempo comigo.
Após dar um “bom dia a todos” que foi calorosamente retribuído, fui na direção de David, que nem levantou os olhos dizendo apenas um seco “olá”, continuado mergulhado nos seus pensamentos. Sentei-me na cadeira a seu lado e tentei meter-me com ele:
–Tão embrenhado nos pensamentos? Andas doente? – E pus-lhe a mão na cabeça para verificar.
Ele desviou a minha mão, gentilmente e levantou os seus olhos para mim:
–Não é nada, estava só a pensar para mim mesmo.
–E eu posso saber o que pensavas para ti mesmo?
David abriu um largo sorriso:
–Não.
–Oh diz lá!
–Lá!
–Não, o que estavas a pensar?
–Desculpa é confidencial!
–E não me podes confidenciar?
–Nope!
–Idiota! – Disse eu entre risos, fazendo David rir-se também.
O professor chegou e rapidamente nos virámos para a frente tentando prestar atenção na aula, e não trocámos palavras.
Muito tempo depois, a aula acabou e era hora de almoçar. Levei David para vir almoçar comigo sem lhe dar tempo para falar o que fosse. Fomos comer á cantina e após alguns momentos decidi perguntar-lhe:
–Então já me podes contar o que vai nessa mente poluída?
David engoliu o último pedaço de bife, mastigou-o calmamente e disse um pouco baixo:
–Aqui não dá, vamos na biblioteca e digo-te.
Suspirei, tentando controlar a minha curiosidade, e acabando de comer seguimos diretos para a biblioteca.
Encostámo-nos a um canto, puxando duas cadeiras e então ele abriu o jogo:
–É sobre o livro, eu acho melhor acabar a escola e então numa Universidade, que eu já escolhi, fazer o livro.
Olhei para ele. Ainda há alguns dias ele estava todo o animado com o livro e agora já andava que nem um gato morto. Fitei-o nos olhos e perguntei-lhe:
–Porque estás a tentar atrasar?
Ele suspirou, apoiou os cotovelos na mesa e começou a contar-me a sua ideia:
–Bom, fazer um livro a criticar os humanos, baseado apenas em fatos do presente é fácil, mas eu quero ir mais além… Quero também mostrar acontecimentos do passado e coisas que poderão acontecer no futuro devido aos humanos. Tipo o aquecimento global e tudo relacionado. O meu conhecimento sobre isso é vago e apenas esta Universidade me consegue dar tudo que preciso, mas é necessário ter um boa média para entrar então vou ter que me agarrar nos estudos.
Fiquei parada a olhar para ele. Aquele rapaz sempre me impressionava, cada vez que pensava que já sabia como ele era, fazia ou dizia qualquer coisa que sempre me deixava sem resposta, impressionante!
Dei um sorriso e agarrei-lhe na mão:
–Acho sensato essa ideia! Eu vou fazer o mesmo! Irei para onde tu fores, pois quero este livro acabado!
Ele desviou a minha mão, ficando com tons de vermelho na face, e então levantou-se e disse na minha direção:
–Bom eu vou indo na frente pois tenho umas coisas para fazer, até já!
Tentei pará-lo mas ele já se tinha posto longe. Dei um suspiro e arrumei as cadeiras no sítio certo. Aquele rapaz tinha mesmo algo de especial!
Quando abri as portas da biblioteca, para vir para a rua, deparei-me com uma rapariga á minha espera, a mesma que me deitava olhares de raiva cada vez que me via. Fiquei parada esperando que me dissesse alguma coisa, o que demorou apenas uns segundos, e foi algo totalmente inesperado e com uma voz sem emoção:
–Diz-me uma coisa, tu namoras com o David?
Dei uns passos para trás, ficando a olhar para ela. Aquela rapariga gostava de David?! Olhei-a de todos os lados, os seus cabelos eram curtos e totalmente negros e os seus olhos estavam vazios, sem expressão. Acenei negativamente á sua resposta e então ela deu um risinho:
–Pois mas não é isso que parece! Andas sempre muito chegadinha a ele e trocar sorrisos!
Acenei com as mãos como se agitasse o ar e tentei negá-la:
–Não é nada disso! Nós somos apenas grandes amigos! Mais nada!
–Amigos é? Bom então não deve haver problema em que tu te separes dele, pois não?
Foi a gota de água. Eu não podia aguentar mais! O que me pedia era totalmente inaceitável! Decidi colocar o meu tom mais mandão:
–Desculpa mas não posso! Eu e ele estamos a trabalhar numa coisa, e precisamos de continuar, e não és tu que evitarás isso!
A rapariga ficou parada a olhar para mim e no fim deu um sorriso:
–Então é assim? Prontos só te digo mais uma coisa! – Chegou-se ao pé de mim e disse em voz baixa mas firme – O David é meu!
Paralisei completamente! Ele deu um sorriso e foi-se embora calmamente, demorou um pouco para que me conseguisse mexer. Analisei a situação. Uma garota louca por David odiava que as outras se aproximassem dele e faria tudo para que isso não acontecesse. Estanquei e foi então que tudo começou a fazer sentido. Provavelmente David era popular com as garotas, por esse motivo que não tinha amizade com nenhum rapaz e por causa daquela rapariga as outras foram obrigadas a se afastar, ficando David solitário. Refleti sobre essa ideia e dei um riso, o David popular com raparigas! Era até de rir!
Mas acabou-se por provar esta teoria. Umas garotas da nossa turma estavam a falar entre sussurros e estavam a falar algo sobre David, aproximei-me para descobrir mais:
–Quem me dera poder namorar com o David!
–Sim ele é tão lindo!
–Pena que aquela rapariga, a Sara, fica no caminho! Aquela rapariga é mesmo louca!
–Por falar nisso e aquela rapariga nova, Margarida, ela é amiga de David, vai ter grandes problemas!
–Coitadinha!
Deixei de as ouvir á medida que se afastavam, mas eu também não precisava de ouvir mais nada. A minha teoria estava correta! Aquela rapariga era mesmo louca por David e não deixava ninguém aproximar-se dele. Senti pena de David. Como ela não percebia que só lhe estava a causar problemas? Sentia muita raiva por causa disso! E David era tão tapado que nem isso via!
Sem sequer notar já estava dentro da sala e David encontrava-se sentado a balouçar na cadeira, com o lápis na boca. Devia contar-lhe? Não, da maneira que ele era só iria arranjar mais problemas, era melhor estar calada.
Sentei-me a seu lado e fiquei a deitar-lhe olhares de esguelha. Aparentava ser um rapaz preguiçoso, embora eu já o conhecesse melhor, mas como é que se podiam apaixonar por ele? Era magro e o seu estilo era totalmente escandaloso. Não havia nada de interessante nele!
Olhei para Pedro. Ele parecia uma escolha muito melhor, e pelos vistos também era, já que muitas raparigas andavam á sua volta a falar com ele, então porque David era assim tão procurado?
A aula começou e não consegui prestar atenção nenhuma. Ora dava olhares para David ou para as outras raparigas, havia algo que não encaixava…
Ao toque da campainha, despedi-me apressadamente de David, dirigi-me a uma rapariga e falei com ela sobre tudo o que sabia, ela encostou-me a um canto e disse:
–É como dizes, o David é adorado pelas raparigas, mas nenhuma se aproxima dele por causa da Sara!
–Sim mas porquê o David? Ele não tem nada de especial!
Ela deu um sorriso:
–Não é a aparência. São os seus feitos!
–Feitos?
–Há cinco anos fomos a uma visita de estudo e o dormitório onde ficámos começou a arder. Tudo ficou cheio de medo e ninguém conseguia fazer nada, mesmo os professores! David foi o único que deitou o seu medo fora e que ajudou toda a gente a escapar, sem ninguém ficar ferido. Ele ficou muito conhecido, mas então a Sara começou a tirar toda a gente de perto de David, até os rapazes! Desde aí tivemos de fingir que o odiávamos, pois se não o fizéssemos algo nos podia acontecer…
–Mas têm tanto medo dela assim?
Pôs-me a mão no ombro e disse calmamente:
–Aquela rapariga é maluca! Ela irá fazer tudo por David! Tem cuidado!
Depois foi-se embora. Fiquei a meditar naquilo até casa. Agora tinha que lidar com uma rapariga doida por David! Dei um sorriso e olhei para o céu. Por alguma razão, David tinha feito com que a minha vida desse uma volta completa…
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