Humanos
7 Adrian
Notas iniciais
A sala de aula encontrava-se cheia de conversas e risos. Estava uma completa algazarra, nem podia raciocinar direito. Tirei os fones da mochila e coloquei-os nos ouvidos com a música no máximo. Muito melhor. Era preferível ouvir uma música boa do que as conversas irritantes de alunos que não se importavam com nada. Cerrei o punho para controlar a minha fúria. Como eles podiam estar tão indiferentes quanto ao que os rodeia? Não deviam se questionar sobre o que aí vem e sobre o estado atual do mundo? Do jeito que o mundo se encontrava provavelmente iria entrar em decadência em pouco tempo, e em pouco tempo o mundo encontrará o seu fim! E, ao contrário do que as pessoas pensam, está para muito próximo, até esta geração poderá ver o fim de tudo! Balancei a cadeira pensativo. Porque as pessoas não se preocupavam com o futuro? Porque continuavam sem se preocupar com nada? Depois de muito me debater sobre este raciocínio tinha chegado a uma conclusão – As pessoas deixaram de se preocupar com o futuro! Desde que se instalara a ideia de que o presente é que importava, e não o que vinha na frente, as pessoas deixaram de se preocupar, as gerações seguintes que sofressem as consequências! Desde que se vivesse bem!
Tentei-me acalmar respirando múltiplas vezes. Para tirar estes pensamentos da cabeça, dei uma olhada nos meus rivais. Tinha passado uma semana desde que tínhamos feito o desafio e o clima entre nós estava tenso. Olhei para Jack. Desde alguns dias tinha um sorriso de orelha a orelha, nada comparado a antes. Tinha começado a participar mais na aula e a falar mais com as outras pessoas. Franzi o sobrolho. Algo realmente tinha acontecido com ele!
Virei o meu olhar para Pedro. Ele encontrava-se no seu estado normal. Falando com os que o rodeavam alegremente. Fitei-o por uns momento e então percebi que algo não estava certo. Poderia ser só impressão minha, mas tinha uma aparência mais tensa que o habitual, e isso podia indicar que também ele já tinha começado os seus movimentos.
Virei-me então para Margarida. Encontrava-se a falar alegremente com outras raparigas. Á primeira vista até parecia uma rapariga normal. Mas após a observar por muito tempo percebi que podia ser matreira como uma cobra e sabia muito mais do que aparentava…
Só me restava um. David. Encontrava-se a baloiçar-se na cadeira, pensativo. De todos era sem dúvida o mais misterioso. A sua ideia para fazer as pessoas mudarem podia ser um pouco infantil. Mas ele aparentava mostrar muito mais do que aquilo que tinha mostrado até agora. Embora só se tivesse passado uma semana, David dava cada vez mais a mostrar que a sua ideia tinha muitas probabilidades de dar certo. E a sua face era impenetrável, era impossível saber o que ia na sua cabeça! Foi então que ele reparou no meu olhar. Virou-se lentamente e fitou-me nos olhos. Paralisei por completo. Não mexi um dedo. Apenas ficámos a fitarmo-nos com ar de desafio. Que segredos escondia por debaixo daqueles olhos? Que tinha a tramar? Foi então que ele se mexeu. Agarrou na caneta e fez uns movimentos no ar como se estivesse a escrever no nada. Observei cada movimento da caneta atentamente, até ao momento em que ele a pousou. Fique parado a olhar para ele, ainda a digerir a mensagem dele: “Desiste de tentar ver através de mim, eu sou impenetrável!” Ele tinha lido os meus pensamentos! Tal como pensara ele era um adversário para levar em consideração! Dei-lhe um sorriso forçado e ele abriu um largo sorriso em resposta.
Os nossos olhares cessaram quando o professor entrou pela sala. Virámo-nos para a frente e evitamos o contacto. Deixando David de lado, eu comecei a refletir sobre o plano de hoje. Iríamos tentar uma abordagem direta. Atacar um quartel com vários militares, era liderado por um homem considerado um dos melhores tenentes. O plano era o seguinte: iríamos interromper as transmissões deles e colocar imagens do Soul a falar com eles, uma maneira de ganhar tempo, enquanto os explosivos, previamente colocados em baixo do quartel, explodissem e então – KABOOM! Iria a base e todos os militares pelos ares.
Passei toda a aula a rever o plano para ter a certeza que não iria falhar. E quando o toque soou saí rapidamente e meti-me entre ruas e caminhos estreitos, sempre a olhar para os lados para ter a certeza que ninguém vinha atrás de mim. Quando já não havia ninguém há volta, tirei a mochila e abri o fecho. O disfarce de Soul encontrava-se lá. Vesti-o por cima da minha roupa, e coloquei a máscara. Arranjei-me o melhor que podia e segui em direção á base, com precaução em caso de alguém aparecer.
Após me deparar com a base, abri a porta das traseiras e fui logo em direção à sala de manutenção. Metade dos nossos homens já tinham partido para verificar se os explosivos se encontravam em ordem, outra parte encontrava-se um pouco mais longe, para atacar quando fosse necessário e os restantes estavam na sala comigo. Tínhamos chegado a 100! O número crescia a cada dia que passava! As pessoas queriam um novo lugar para viver! Um lugar onde pudessem ser livres á sua maneira! E eu iria criar esse mundo!
Os meus pensamentos foram interrompidos por Alice que me disse:
–Chefe está pronto para a transmissão?
Acenei afirmativamente e na tela grande apareceu um homem com a barba mal feita. No entanto algo naquele homem me fez sentir um arrepio pela espinha acima. Os seus cabelos e olhos eram exatamente iguais aos de Pedro e David. E não ficava por isso. Em termos de estatura eram muito parecidos. Teriam algum laço familiar? Após uns segundos deixei esse pensamento de lado e clareei a minha voz dizendo em tom forte:
–Boa noite! Eu sou Soul aquele que pretende conquistar o mundo!
O homem deu uma risada entre dentes, num tom sarcástico:
–E o que o senhor que pretende conquistar o mundo quer connosco?
Ignorei a frase sarcástica e dirigi-me a ele:
–Bom, nós temos alguns assuntos a tratar convosco. Poder-me-iam dar a vossa atenção?
O homem assentiu com a cabeça e eu prossegui:
–Ouvi dizer que um de vós é considerado um dos melhores tenentes a nível mundial? Estou, certo?
O homem voltou a assentir.
–E então, quem seria esse homem?
–Para o senhor que quer conquistar o mundo está pouco informado, pois neste momento está a olhar para ele!
Era o que aparentava. Olhei o relógio, faltavam dois minutos para as bombas explodirem. Tinha de continuar com a conversa:
–Nunca diria isso! Você tem aparência tão desleixada que eu achei que nem soldado era!
Pensei que o tinha insultado em cheio, mas o homem limitou-se a dar uma risada:
–Parece que o senhor Soul tem mais gana do que parece! Mas esses insultos parecem mais de um adolescente! Que idade tens, 16?
Ele tinha atingido no ponto! Como tinha descoberto? Era impossível, a máscara estava bem posta e não havia maneira de ele descobrir! Saberia ele quem eu era? Ou seria só um palpite? Fitei mais uma vez aquele homem. Era bem mais do que aparentava! Olhei o relógio – 1 minuto e meio para a explosão. Continuei com a conversa:
–Se eu fosse um adolescente, achava mesmo que eu estaria aqui a desperdiçar a minha vida?
–Já nem diferencio adolescentes de adultos, tenho dois filhos em casa, ambos adolescentes, são completamente opostos mas ambos se preocupam com coisas que supostamente não eram para a sua idade.
Dois filhos? Seriam então Pedro e David? Seria pai deles? Se isso estivesse certo, então as coisas tinham ficado mais interessantes:
–Coitados dos seus filhos, com um pai como esse! Nem lhes posso desejar outro mal!
O homem calou-se por uns momentos, dei um olhar ao relógio, faltava um minuto, voltei a olhar para o homem ele abriu lentamente a boca e falou num tom mais grave, mas sarcástico:
–Se queres que te diga a verdade, um deles seria o suficiente para te derrotar!
Paralisei. Se fossem mesmo Pedro e David aquilo era uma ofensa! Eu tinha dito que ganharia de David a todo o custo! Comecei a tremer de raiva e dirigi-me num tom mais ofensivo:
–Se forem como o pai duvido muito!
O homem deu então um suspiro, como se estivesse desinteressado:
–Embora eu goste muito de conversar, tenho uma coisa para te perguntar, porquê tantas perguntas? Se queres conquistar o mundo, deves ter coisas mais importantes a fazer!
Tinha medo que chegasse neste ponto. Olhei o relógio. Faltavam trinta segundos, só mais um pouco:
–Foi para deixar um aviso, para me temerem… — Não consegui acabar a frase, que ele cortou-a logo de seguida:
–Se quisesses dar um aviso não andarias com rodeios e irias logo direto ao assunto!
Hesitei. E agora? Faltavam 20 segundos.
–Oh temos alguém astuto!
–Chega de rodeios! Vai direto ao que tu queres!
15 Segundos. Só mais um pouco. Mas nem pude ir direto ao assunto pois fui interrompido por ele outra vez:
–E esse relógio aí? Adora-lo assim tanto? Tens algum encontro? Ou então tás á espera que uma equipa qualquer entre por aí a atacar-nos?
10 Segundos. O destino dele estava traçado. Dei uma risadinha e disse numa voz grave:
–Já vais ter a resposta!
O homem ficou parado a olhar para mim sem dizer nada. Olhei-o nos olhos em tom de desafio. Faltavam 5 segundos.
3 Segundos. Levantei lentamente a cabeça e disse:
–Kaboom! 1 Segundo para a explosão. Comecei-me a rir mas depois parei. O homem encontrava-se parado no mesmo sítio. Não houvera explosão, nada acontecera, fiquei parado sem saber o que fazer. Foi então que o homem desatou às gargalhadas. Esperei que acabasse para depois ele me dar uma resposta concreta:
–Desculpa lá mas eu já sabia tudo desde o começo! No momento que os teus homens entraram por aqui eles encontraram o seu destino! – Estalou os dedos e imagens de homens pertencentes ao meu grupo apareceram, todos com sangue a escorrer por todos os lados. Como ele tinha descoberto?! Tinha tomado todas as precauções, então como?
–Achavas mesmo que entrar numa base militares seria fácil? Subestimaste-nos, e isso só um adolescente faria, não, só uma criança!
A raiva e o pânico começaram a tomar conta de mim. Estava completamente perdido!
–Então? O gato comeu-te a língua? Tenho que admitir que o teu plano era bom, mas esqueceste-te de uma coisa – Por melhor que tu sejas, se não tiveres pessoas de confiança isso de nada te servirá. Todos os homens que aqui vieram estavam todos com receio, nenhum deles confiava plenamente em ti. Tentamos extrai-lhes algumas informações de ti mas eles não sabem nada sobre ti, um comandante assim nunca poderá ter ninguém de confiança.
Cada palavra que ele disse acertou-me como se fosse uma flecha. Ele tinha descoberto o meu ponto fraco e isso tinha-me levado á derrota! Nem sabia mais o que dizer!
–Bem foi divertido! Espero poder lutar contigo um dia cara a cara como verdadeiros homens e nessa altura quero ver toda a garra que tiveres! E ao contrário de ti eu não me vou esconder numa máscara e vou revelar o meu nome – Albert! Lembra bem este nome pois será um inimigo que fará com que caias na lama!
A tela apagou-se e a imagem de Albert desapareceu. Fiquei paralisado com tudo aquilo. Tinha sido derrotado. Tinha perdido á volta de 25 homens que mesmo duvidando me seguiram. Olhei para o nada vendo o meu sonho se afastar mais e mais. Estiquei a mão tentando agarrá-lo, acabando apenas a tentar apanhar o nada. Fiquei parado a olhar para mão como se estivesse á espera que algum poder dos céus viesse e me desse todo o poder que precisava, mas nada veio. Ouvi passos. Virei a minha cabeça para lá, sem saber mais se aquilo era sonho ou real. A mulher que se encontrava ao pé de mim era Alice. Estava pálida. Tentou abrir a boca para falar alguma coisa, mas eu interrompi-a:
–Diz aos outros para voltarem às suas vidas, o grupo será desfeito!
Ela tentou protestar mas eu limitei-me a desviá-la para o lado e então desatei a correr como um garoto com medo que lhe batessem. Meti-me entre ruas e becos, sem ter uma direção certa. Pouco tempo depois já não sabia onde me encontrava. Caí de joelhos no chão e tirei a máscara. Olhei para todos os lados e foi então que vi um local perfeito, que ninguém daria conta. Tirei a capa e deitei-a para lá. Tirei a máscara e coloquei-a em cima do fato. Ninguém a veria ali. Deitei um último olhar para o fato que eu usava como Soul e então chorei como nunca tinha chorado antes, um choro que parecia de um lobo perdido da sua alcateia!
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