Humanoide
1 PRÓLOGO: Desorientado
Notas iniciais
Era mais um final de expediente como qualquer um dos anteriores. Até o momento tudo estava tranquilo e ele podia ir para casa com a maravilhosa sensação de dever cumprido. Olhou para seu relógio digital preso no pulso indicando 00h15min e se sobressaltou. Teve de olhar fixamente para as horas por um momento até se convencer de que algo estava errado. Ele nunca se atrasava. Apareça Mark, implorou mentalmente.
Não podia finalizar seu turno até Mark aparecer. Esse é o seu território como guardião e não podia tê-lo desprotegido ou os Cinzentos teriam facilidade em atacar suas presas e seu dever era protegê-las. Clicou em um botão amarelo no lado esquerdo de seu relógio digital e o aproximou de meus lábios finos.
— Lucy, está na escuta? — Perguntou mantendo uma entonação baixa, porém, audível.
— Pode falar. Problemas? — Respondeu a voz suave e delicada em seus fones de ouvidos.
Olhou ao redor uma vez mais para se certificar de que se encontrava sozinho.
— Mark ainda não chegou.
— Estranho. Já troquei de turno com Jaspe. Mark estava com ele, indo até você.
Isso não é bom, pensou.
— Vá até o centro e relate o que houve, por favor, Lucy.
— Deixa comigo. E Gadriel, cuidado! — Desligou.
Gadriel não se sentia seguro no presente momento, então retirou as grossas luvas escuras de Couro e se preparou para o que fosse vir na sequência. Preparou-se para o melhor, mas também para o pior.
Enquanto olhava ao redor podia sentir as batucadas de seu coração nas paredes do peito, uma gota de suor deslizou pela lateral da sua face e quanto mais o tempo corria sem respostas, mais uma onda de terror o dominava como uma sombra.
O estalar de um galho seco em suas costas lhe chamou a atenção, virou. Mark estava a centímetros do amigo.
— Mark? — foi tudo o que conseguiu pensar para dizer. Ainda sentia que algo estava fora dos padrões. Mark não parecia o Mark, estava quieto demais. Seus olhos castanhos estavam fixos no rosto de Gadriel, vidrados, como se o filtrasse. Uma barra de ferro firme em sua mão o intimidou. Gadriel recuou.
Você não é o Mark!
Recuou mais um passo e deu meia-volta com a intenção de fugir — congelou. Não estava sozinho.
Enfileirados em um arco em meia-lua, todos os seis homens de capuz Marrom encaravam sua presa com os olhos ferozes cor Rubi. Gadriel estava preparado. Apurou os sentidos em plena concentração, lembrando-se dos seus treinamentos.
Alguém se aproximou pelas suas costas, Gadriel se virou lentamente em direção aos passos, derrotado. Podia senti-la e a sensação foi aterradora porque ela também estava preparada, talvez, mais do que ele próprio.
A mulher o encarava e já murmurava encantamentos capciosos. Usava um vestido vermelho longo e esvoaçante, seus traços eram fortes e sensuais, um visgo á parte. Os lábios carnudos e vermelhos pareciam ainda mais intensos sobre a luz prateada do luar. Seus olhos escuros o carregavam para uma dimensão profunda e desconhecida, antes que pudesse perceber que já se rendera sob os poderes dela.
Sua consciência beirava cair, porém com os últimos vislumbres de sanidade estendeu as mãos á cega em frente ao seu corpo. Esperava com todo o seu ser que suas mãos a tocassem. Se isso acontecesse, sabia o risco que corria de todos eles lhe considerarem um assassino, mas naquele momento não se importava com nada. Queria tocá-la e destruí-la por tudo o que lhe havia privado, por todos aqueles anos de sofrimento. O desejo de vingança nunca se saciou e agora, após tantos anos, ela reapareceu para si. Seu coração queimava como se impulsionado por um reagente químico.
Ele queria matá-la!
No entanto, suas mãos não a encontraram e seus pensamentos adentravam a uma escuridão ainda mais intensa. Começava a se sentir perdido no meio em que estava. Podia ouvir a voz dela sussurrando palavras que lhe pareceram um zumbido á parte e quanto mais ela murmurava, mais para o meio da inercia se perdia.
Uma vez com o olhar nela, era impossível desviar. Ninguém conseguia e Gadriel era fraco demais para conseguir. Talvez fosse a marca. A marca dela nele que o corrompia com mais facilidade. A feiticeira havia sido apenas um experimento mal sucedido, não era de fato algo terrível o que lhe acorreu, apenas seguiu cursos que não esperavam. O guardião sempre teve a certeza de que ela nunca soube aproveitar seus dotes — ou talvez os tenha usado até demais.
Tudo estava silencioso, nem mesmo o vento soprava. Seus pensamentos já não mais existiam, sua mente se encontrava inerte. Os fluxos de informações não se moviam, controlados pela força suprema que vinha dela. A estranha sensação de ter seus neurônios anestesiados o angustiava.
Uma fragrância incomum invadiu suas narinas, era agradável. Uma brisa recomeçou a soprar, ela se aproximou, os cabelos longos, lisos, sedosos e negros acariciavam o pescoço de Gadriel.
— Vá até o meio da pista e fique lá. Estarei sentada em um banco na praça vendo a sua destruição — sussurrou de uma maneira estranhamente envolvente nos ouvidos do jovem guardião.
A mulher teve a cautela de não tocá-lo.
— Venate, está se arriscando demais! E se ele acordar do devaneio?
Ela não se moveu, porém, o encarou de soslaio. Patrix enrijeceu onde estava, conhecia aquele olhar felino e letal. Imparcial como cristais de gelo.
— Eu lamento, estou apenas preocupado com sua integridade, Mestra. — se curvou em uma reverência.
Patrix era seu braço direito e no fundo Venate até gostava da maneira protetora como ele agia. Era um cuidado ao qual ela desprezava. Confiava demais em si mesma.
— Vá! — ordenou em um sussurro imponderável. — Vá e encontre sua destruição.
Sem olhar para trás, pé após pé, foi caminhando lentamente para sua sina. Talvez fosse a hora que tanto ouvira falar. As cicatrizes anteriores foram por vontade própria, mas desta vez seria diferente. Ele não havia desistido como das vezes anteriores estava sendo obrigado a fazer aquilo.
Não sabia qual seria a próxima cicatriz, mas desejava que fosse a última.
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