Notas iniciais
Devido á proteção que forneciam aos humanos há muito tempo Humanos e Humanoides não mantinham contato, porém naquela noite, algo fugiu de controle, afinal Ela também havia reaparecido e queria destruição com suas bizarras táticas de controle mental. Uma humana se envolve na confusão, embora tudo pareça bem, Zayme vive seu terrível pressentimento de que algo terrível está prestes a acontecer com a SUA garota.

Estaria mentindo se dissesse que não havia se divertido. Divertiu-se — e muito.

Havia sido a sua noite e seu tutor havia sido espetacularmente incrível ao realizar aquela festa. Nunca apreciara essas coisas de menininhas, no entanto, a surpresa fora acolhida com júbilo. Bebeu como nunca antes havia bebido, riu ao lado dos colegas de classe e não recusou os lábios de um deles.

Agora no vestiário, ainda podia sentir a vibração da noite maravilhosa percorrendo sob sua pele, fazendo-a reluzir. O salão havia sido alugado por Zayme para a festa, as comidas, as bebidas, tudo havia sido bancado por ele. Pela primeira vez não se sentiu em conta com alguém por terem lhe feito algo. Era o seu aniversário e completar 22 anos não era algo que acontecia todos os dias.

O vestido preto com detalhes em branco nas mangas, nos babados e na cintura lhe dava um ar de boneca. A maquiagem ainda estava impecável e os cabelos presos em cachos perfeitos. Sorriu para si mesma. Era bom se sentir daquela maneira, como se fosse especial ou importante, mesmo sabendo que não era. Depois de tantas preocupações, um pouco de diversão caiu bem.

Vestiu a blusa preta de mangas longas e simples sobre o vestido e soltou os cachos com facilidade deixando-os cair sobre os ombros e deslizarem pelas suas costas.

— Estamos indo Emily! — Chamou Jean batendo na porta do banheiro. Sua voz sobressaindo-se ao som da música pop dançante dos anos 90 que tocava ao fundo.

— Terminei — disse saindo. Jean lhe encarava com admiração, mas logo desviou o olhar.

Juntos, cruzaram a multidão de corpos em movimento. Helena e Tábata aguardavam próximo á saída. Uma lufada fria de ar puxou os cabelos de Emy para trás quando chegou á porta. Sentia-se viva.

— Tem certeza que não quer que eu a acompanhe até sua casa?

Era fofo da parte dele, mas Emily dispensou sua companhia. Não, não queria se apaixonar, assim como não queria um namorado.

— Absoluta! Até a aula então!

— Até — Jean retribuiu o aceno levemente frustrado.

Abraçou as amigas e se despediu delas também. Os três seguiram para a direita enquanto Emy foi para a esquerda, caminhando lentamente apreciando a noite. O luar estava intenso e a lua parecia maior que de costume. Lamentava apenas pelas luzes da cidade que interrompiam o esplendor das estrelas.

O vento soprava frio. Parou próxima a Sorveteria CAMADA DE AÇÚCAR observando dois cupcakes iluminados cintilando entre a logo da sorveteria. No entanto não foi por isso que parou. Sorriu para si mesma com certa timidez. Odiava-se parar ali por um motivo daqueles...

Ao voltar da faculdade sempre o fitava. Ele nunca a havia notado, mas Emily sempre o via na praça, no mesmo banco esperando um amigo e saindo em seguida. Era fascinante observá-lo. Talvez, a verdade fosse que apenas o achasse uma graça.

Conferiu a hora em seu celular 00h22minh, não iria vê-lo naquela noite costumava encontrá-lo mais cedo, mesmo assim, não resistiu e passou o olhar pela pracinha iluminada enquanto guardava o celular na bolsa novamente.

O coração pulou no peito quando o viu. Sorriu para si mesma timidamente. Ele estava lá. Estava sozinho e caminhava. Podia estar enganada, mas ele vinha em sua direção. Ficou estática, encarando-o, queria sair dali, mas tirar os olhos dele era difícil. Desviou o olhar mexendo no laço que ajeitava em sua cintura, olhando-o de soslaio.

Ele desceu do meio-fio e cruzou o asfalto, mas para sua surpresa parou ali. A jovem sentiu um frio envolver sua espinha. Saia dali, por favor! Não houve nenhum movimento da parte dele. Emily olhou ao redor, mas não havia transeuntes nas ruas.

Á distância pôde ouvir o ruído alto de um veículo se aproximando, podia ver as luzes amarelas se aproximarem em alta velocidade. Por favor, não! Por favor, por favor!

O veículo de carga era grande e pesado e transportava madeira, ao vê-lo buzinou e pisou no acelerador, Emy teve certeza de que o veículo não iria parar — não em tempo.

A garota podia sentir as batucada fortes de seu coração. Nunca havia falado com ele, sequer sabia seu nome ou sua origem, do que gostava ou de algum de seus defeitos, mas talvez isso não importasse muito. Seu sonho sempre havia sido se formar em medicina e havia apenas um motivo para isso: salvar vidas. Mais do que nunca sentiu esse desejo se intensificar em seu peito naquele segundo.

Ignorou todas as vozes em sua mente que diziam o oposto de seu coração e sem hesitar, a garota forçou as pernas a correrem o mais depressa possível. Sentia a adrenalina correr por suas veias como o próprio sangue.

Um pouco do pânico se partiu ao sentir seu corpo impactando a outro corpo. Ambos caíram na calçada. Um impacto na cabeça lhe fez perder a visão por um breve segundo, podia sentir o líquido quente e vital deslizar pela têmpora, mas não havia tempo para se importar com dores naquele instante.

Encarou o jovem rapaz ao seu lado e pousou a mão sobre a testa dele, mas algo a fez afastar os dedos com rapidez. A pele dele queimou-a. Ele abriu os olhos repentinamente, parecendo confuso, como se despertasse de um sonho surrealístico. Encarou a garota por um breve segundo, embora ela encarasse sua própria mão avermelhada e sensível sem compreender o que havia acontecido.

Minutos pareciam ter percorrido enquanto centenas de sensações percorriam pelo corpo de Emy, cruzavam seus neurônios e inflavam sua sanidade, no entanto, apenas uma fração milésima de segundos passou e Emily permanecia guarnecida pelas dúvidas.

Apenas desviou o olhar das mãos quando o viu se sentar rapidamente com os olhos arregalados. Pulando em sua frente, e então, ela também compreendeu: o perigo ainda não havia terminado.

O caminhão ainda deslizava pela pista descontrolado, ziguezagueando, e seguia em direção a eles. A garota encolheu-se em um canto, fechou os olhos e apertou as mãos na cabeça. Não queria ver o que estava prestes a acontecer.

Tudo o que ouviu foi um som alto, seguido de uma explosão e depois tudo silenciou outra vez.

Abriu os olhos, olhando a sua volta. O jovem de cabelos negros estava de pé encarando as chamas no motor do caminhão. A parte da frente havia sido desmanchada por algum reagente químico ou algo semelhante que ela não conseguia explicar para si mesma. Observou a borda grossa que havia restado do caminhão cintilando de vermelho, em seguida encarou sua mão queimada.

— Gadriel! — Braços apertados de alívio surgiram do nada e fizeram-no cambalear.

— Drimmy! — sussurrou sem abraçá-la. Não precisava perguntar como ela o havia encontrado, era uma excelente exploradora do futuro. — Se afaste Drimmy, por favor. — Pediu antes que pudesse machucá-la.

Drimmy se afastou rapidamente. Sua preocupação com Gadriel era tão grande que as consequências pouco lhe importavam.

— Minhas luvas, por favor.

Drimm as recolheu do chão, e, com cuidado para não entrar em contato com a pele dele, colocou as luvas na mão do rapaz observando-o com cautela, mas o olhar dele se manteve fixo nas mãos pequenas e delicadas de Drimmy calçando suas luvas. Gadriel sentia-se extremamente inútil com sua limitação. Pensou bem e concluiu que talvez não devesse ter sido salvo. Era tão difícil estar com ele e por mais que se esforçasse alguém sempre teria de auxiliá-lo em alguma coisa...

— Você está bem? — Perguntou num murmúrio suave. Sabia que aquela testa enrugada não significava bons pensamentos.

Gadriel ergueu os olhos para fitá-la, também sabia que era difícil esconder algo de Drimmy. Drimm era especial. O Vento frio do anoitecer puxava seus cabelos acaju e longos para trás, fazendo-os dançar no ar. Seus olhos castanhos e grandes estavam preocupados, mas já se acostumara a vê-los assim, não que quisesse.

— Ás vezes eu sinto que não existo. Não tem saída, não é sonho, é maldição.

— Gadriel!

— Desista Drimm, não dá mais. Não para mim. — Olhou para as luvas escuras e juntou os dedos na palma da mão. Deixou-a ali e se aproximou da humana que se apoiava na cerca coberta por uma trepadeira verde. Segurou o queixo da jovem e jogou os cachos dela para trás para descobrir seu rosto.

— Você está bem? — Quis saber. Podia ver seu corpo frágil tremendo, embora seus olhos não empurraram nenhuma lágrima para fora.

Ela aquiesceu.

— Fica calma, está tudo bem agora. Eu não irei machucá-la, você pode acreditar em mim?

Emily o encarou por alguns segundos. A pele do rapaz era branca como a neve e perfeita. Seus lábios finos estavam numa linha reta e seus olhos, talvez fossem o mais surpreendentes. Seus olhos eram grandes, maiores que o de humanos e levemente puxados para cima, como os olhos de um felino. Sua íris era cinzenta e cintilante, como se milhares de partículas de purpurina corressem de um lado para o outro. Permaneceu encarando-o, perdida em seus olhos profundos.

Gadriel franziu a testa e desviou o olhar.

— Está tudo bem?

— Está. — Engoliu em seco. — Tudo bem.

— Gadriel! — Chamou Drimm.

Gadriel olhou ao redor, um aglomerado de pessoas começava a se juntar no local, curiosos e prestativos com o motorista.

— Confia em mim? — encarou-a com cuidado.

— Eu não sei — a voz da humana saiu trêmula.

— Tudo bem, isso não importa, mas precisamos sair daqui. — Estendeu-lhe a mão.

Emily hesitou sobre aceitar ou não, então lentamente, estendeu a mão para ele. Gadriel envolveu seu pulso com a luva e deu a volta no caminhão sem ser notado, ao lado de Drimm. O guardião manteve um braço ao redor da humana, guiando-a.

— Ela esteve por aqui, não esteve? — quis saber Drimmy.

Gadriel suspirou. Não queria falar sobre ela, no entanto, estava ciente de que também não podia fugir do assunto.

— Ela esteve. — Confirmou, ainda podia ouvir a voz dela ecoando em sua mente “estarei aqui perto, observando sua destruição”. — Porque não me contou sobre a visão? — não pretendia ser rude com Drimm, mas não conseguiu ocultar a mágoa.

— Gadriel! — sussurrou.

— Por favor, não discutam isso agora. Eu não quero saber o que está havendo, por favor!

— Tudo bem — Gadriel podia sentir como a humana estava assustada e isso não lhe agradava muito. Inconscientemente, intensificou o aperto na cintura da garota. Queria poder fazê-la se acalmar, porém, não sabia como.

Em silêncio, contornaram a praça escura. Ao longe, Gadriel ouviu o estalo de um disparo. Esperava que todos estivessem bem.

— Para aonde estamos indo? — questionou Emily.

— Qualquer lugar que não seja aqui — respondeu Gadriel com a voz suave.

Continuaram caminhando pela calçada. Do outro lado da rua viu uma figura com capuz Marrom.

— Drimmy — sussurrou.

— Estou atenta — respondeu ela. — Vamos nos separar, leve-a para casa! As coisas estão fugindo do nosso controle esta noite.

Há poucos metros dali, um tiro ecoou pelo anoitecer. Alguns humanos na calça se assustaram e correram pelo caminho de volta. Emily olhou por sobre o ombro e viu a figura de capa marrom estirada no chão. A mulher guardou a arma no cós da calça e Emily desviou o olhar. Voltando a atenção para a rua á sua frente. E suas pernas já estavam bambas agora sentia que podia se estatelar no chão a qualquer segundo.

— Precisamos recuar! — A voz de Lucy ecoou pela noite. Ela falava com alguém pelas ondas de frequência do comunicador que carregava no pulso.

— O.K. RECUANDO! — Jaspe gritou ordens para seus companheiros.

— Eles vieram preparados, estão em maior número, três dos nossos já foram mortos — sua voz falhou na última palavra.

— Lucy, eu lamento... — Também não conseguiu terminar a frase. Sentia muito por Mark, entretanto, palavras eram tão necessárias quanto um unicórnio naquele momento.

— E quem é você? — dirigiu-se para a humana. — Acho que eu te conheço de agum lugar...

— Deve estar me confundindo com outra pessoa — tentou sorrir. — Sou Emily.

— Emily? Espera você...!

Gadriel acenou sutilmente com a cabeça para como sina de desaprovação. Lucy suspirou.

— Você está certa, acho que eu estou confundindo você com alguém que conheço.

Emily sorriu com os lábios apertados.

— Estão nos seguindo — Drimmy comentou se aproximando do trio.

— Quantos?

— Eu notei a presença de três.

— Leve-a daqui, rápido. Eu cuidarei deles! — Lucy disse determinada, com sede de vingança.

— Eu ajudo — ofereceu Drimm.

— Vocês duas, tenham muito cuidado! — Segurou a humana nos braços e correu. Correu o máximo possível. Tentou entender toda aquela confusão repentina. Tentou compreender o motivo por Ela ter retornado. Havia se escondido por tanto tempo porque só agora havia voltado? E porque o perseguia novamente? Já não bastara o que lhe fizera? Já não bastava ter lhe privado da liberdade? Não é hora para pensamentos distrativos.

Olhou ao redor, mas naquele momento se encontrava sozinho. Não estava sendo seguido.

Naquela noite fria, a humana era sua única companhia.

Ao se afastarem o bastante para Gadriel ter certeza de que a humana estava fora da linha de perigo que corria por estar em sua companhia, sentou-a em um banco que encontrou ao lado de uma lojinha fechada e sentou-se ao seu lado. Sentia dor em seu corpo, os chutes de Mark pareciam mais dolorosos do que quando haviam sido dados.

Retirou uma bolsa de pano das costas e abriu-a. De seu interior tirou um cantil e ofereceu-o a Emily. A garota hesitou, mas aceitou precisava de um pouco de água.

— Pode beber tudo — disse ele.

Emily esvaziou o cantil antes que pudesse perceber. Olhou para a lua no céu e para o silêncio ao redor. Sentia-se bem melhor, os perigos pareciam terem terminados. Devolveu o cantil ao rapaz de cabelos rebeldes, uma franja na diagonal cobria sua testa acima do olho esquerdo.

— O que está acontecendo aqui?

— Não é o momento certo para você saber dos detalhes. Mesmo eu estando ciente de que você tenha visto coisas demais por uma única noite.

— Porque você tentou se matar? — Emily o encarou.

— Por favor, não me faça perguntas — implorou. — Tente seguir sua vida como se tudo isso fizesse parte de um pesadelo e esqueça.

— Não foi o melhor conselho que você poderia ter dado.

— Eu sei, mas esqueça. Eu irei lhe levar para casa e todas as coisas voltarão ao normal em sua vida.

— Não! — Emily se ergueu sobressaltada. — Eu não vou fingir que nada disso aconteceu! Não posso! — sua voz saiu três quartos mais alto que o habitual.

— Porque quer saber? Deixe-me fazer o trabalho de protegê-los e siga adiante. — Manteve o tom de voz baixo e pacífico.

— Dane-se! Dane-se! Eu não me importo! DANE-SE! — A humana sentia seu peito arder. Não tinha muita certeza do que sentia, era um misto de sentimentos embaralhados: raiva, dor, frustração, medo. Seguiu andando sem nem olhar para trás. Não se importava mais. Queria apenas tomar um banho e uma xícara bem quente de chocolate.

Procurou seu celular, mas percebeu que ele estava na bolsa. Sentiu ainda mais raiva. Chutou uma latinha de cerveja que encontrou no caminho, porém, estava distante de aliviar sua raiva. Não queria chorar, mas os olhos de Emily ardiam.

Demorou até perceber que Gadriel a seguia. Parou de caminhar e olhou para ele.

— Você pode ir embora agora! — Disse. — Não preciso de um guarda-costas!

— Está no direito de se sentir dessa forma — dizendo isso lhe entregou uma bolsinha preta com alças de metal. — Talvez eu também estivesse.

Emily segurou sua bolsa e pela primeira vez desde a formatura no ensino médio, sentiu as lágrimas sendo expulsas, baixou os olhos e as deixou correr.

Gadriel se aproximou lentamente, defensivo. Hesitou, em seguida, levou uma mão á cabeça da humana e gentilmente a puxou para um abraço — um contato que geralmente evitava. Já havia machucado pessoas assim, e, mesmo com suas roupas especiais e toda a tecnologia de seu universo utilizado para mantê-lo em sociedade e assegurar a proteção dos que o cercava, sempre vivia com medo de destruir alguém.

Lily havia sido a primeira a ser ferida pela sua “maldição”, era assim que designava. Lily nunca mais havia voltado. Jamais iria se esquecer do momento em que ela queimou em seus braços sem que pudesse salvá-la. Desde então, evitado o contato com seus semelhantes.

Gadriel afastou a humana de si, a lembrança o encheu de pânico.

— Tudo bem? — Emily notou o pavor em seus olhos grandes e acinzentados.

Ele assentiu, tentando se recuperar.

— Vamos! Eu vou te acompanhar se não se importar. Caso se importe, irei acompanha-la da mesma forma.

— Eu não tenho escolha — murmurou para si mesma.

Durante todo o caminho permaneceram em silêncio. Cada qual perdido em seus pensamentos: Gadriel ainda perdido em pensamentos sobre a morte de Lily e Emily tentando compreender o que havia sido aquilo tudo. Tentando procurar respostas que desconhecia.

Emily parou repentinamente de caminhar, sem olhar para ele.

— Só me diga o que você é. Sei que não nos veremos mais, mas... — não soube como concluir e a frase morreu ali.

— Sou seu Protetor. E é tudo o que precisa saber.

Emily o encarou, mas aquela expressão singular indicava que ele não diria nada mais.

— Entendo.

— Não sei por que o fez, mas agradeço por ter me salvo Emily. — E assim lhe fez uma breve reverência, deixando-a sem graça.

— Estamos quites — tentou sorrir, mas pareceu falso até para si mesma e desistiu.

Houve uma pausa.

— Eu vou entrar então.

— Boa sorte! — disse Gadriel e se afastou.

Emily mordeu os lábios, mas o deixou partir. Encarou sua silhueta até vê-lo desaparecer ao longe. Abriu o portão com a chave e o fechou ao passar. Apoiou as costas no portão e dali conseguiu ver as centenas de estrelinhas reluzentes no céu ao lado da esplendorosa lua cristalina. Era bom estar em casa novamente.

Observou a movimentação na casa. Havia uma luz acesa no segundo andar e por detrás das cortinas brancas e transparentes avistou a silhueta escura de seu tutor. Suspirou. Duvidava que ele não houvesse visto seu acompanhante e esperava que ele não fizesse perguntas, pois ainda não sabia como se justificar.

Cruzou o enorme quintal e abriu a porta da casa. Correu para o quarto que dividia com Nina e entrou de fininho sem fazer barulho. Vasculhou suas coisas apenas com a ajuda da iluminação de seu celular e correu para o banheiro tomar um banho demorado enquanto meditava sobre tudo o que havia acontecido. Não tinha certeza do motivo pelo qual se sentia mais apavorada, talvez houvesse sido o acidente, talvez fosse a força dele ou o seu toque capaz de queimá-la. Não tinha certeza.

Ao finalizar desceu até a cozinha e ascendeu a luz. Levou um susto ao ver seu tutor sentado em uma cadeira é mesa com as pernas cruzadas apenas com uma pequena faca em mãos presa por uma corrente a qual balançava de um lado para o outro.

— Que faz aqui no escuro? Brincando de morcego? — Emily sentia-se á vontade para fazer piadas com Zayme, mesmo quando suas piadas se enquadravam no estereótipo de “totalmente sem graça”. Sempre o vira usando terno e gravata no estilo clássico, mesmo á noite quando podia andar mais livremente, sua única mudança era caminhar pelos corredores de meias e usando uma camisa social.

Emily aguardou, porém, Zayme não respondeu de imediato e Emily podia ver sua expressão pensativa, parecia preocupado.

— Tudo bem Zayme? — Indagou enquanto colocava o leite para ferver.

— Hmmm chocolate! Também vou querer um pouco se não se importar!

Emily sorriu. Havia um ar infantil nele que Emily adorava. Apesar de sua seriedade era simpático com todos, embora com Emily fosse mais “aberto”.

— E respondendo sua pergunta, agora estou. Não consigo dormir até você voltar e saber que está segura. — Respirou profunda e audivelmente. — Emily, Emily, Emily. Minha querida Emily, você não sabe o quanto me importo com você.

Por um breve momento a garota apenas o encarou. Sempre soube que Zayme zelava um carinho intenso e inexplicável por ela, mas nunca havia entendido o motivo. Ele nunca tentara explicar e toda vez que ela perguntava sobre, o tutor criava uma barreira e não a respondia. E assim se sucedeu ao longo dos seis anos de convivência. E talvez fosse não saber o motivo que o fazia amá-la tanto que criara uma barreira entre eles. A jovem acabou tendo medo dos motivos.

O leite começou a ferver, Emily misturou com o chocolate — bastante chocolate, como ambos gostavam. Teve de sorrir, tinham muito em comum além de meras preferências: o mesmo tom dourado dos cabelos, a cor clara dos olhos, da pele, e quando o encarava demais até o achava fisicamente parecido consigo, mas apenas quando o encarava demais.

Encheu a caneca grande para si e outra para Zayme.

— Obrigado — disse cortesmente, sorriu.

Emily gostaria de perguntar novamente sobre o motivo pelo qual ele lhe tratava com singularidade e o motivo da festa de aniversário, mas uma voz em sua mente sussurrava para que permanecesse calada. Assim, esvaziou a caneca rapidamente e a deixou na pia.

— Bem, boa noite Zayme.

— Boa noite, Mili. Bons sonhos. — Abriu um sorriso de canto para a garota. Aquele sorriso que fazia a maioria das garotas do Instituto suspirarem, mas não Emily.

***

Zayme respirou profundamente enquanto a jovem subia as escadas e se instalava em seu quarto. Terminou a sua xícara de chocolate e lavou-a, também lavou a de Mili, como gostava de chamá-la.

Subiu até seu escritório particular, a última porta no fim do corredor, podia descansar agora. Mili estava segura, assim como as demais garotas cujo mantinha sob sua proteção, pelo menos por enquanto.

Sentou-se em sua mesa e abriu uma gaveta, retirando um pequeno objeto retangular que mais parecia um telefone móvel. Havia uma tela escura quadrada e pequena. No centro um botão quadrado verde. No lado direito um botão circular vermelho e no lado esquerdo outro pequeno botão amarelo. Clicou no botão verde e aguardou. Enquanto clicava em seguida no botão vermelho e no amarelo.

Verde: chamada. Amarelo: som e Vermelho: Visor holográfico em cinco dimensões.

— Zayme? — Perguntou a voz do outro lado límpida como se estivesse conversando pessoalmente. O visor revelou a imagem de um velho em um terno cor de terra. Seus cabelos alvos e as rugas indicavam sua avançada idade, mas uma cicatriz em sua bochecha indicava toda a sua bravura e o motivo por todos respeitarem-no. — Esperava pela sua ligação.

— Damos, o que houve? Esta noite me deparei com a cena da qual temi durante estes seis anos: vi um de dos Guardiões da Sede trazendo uma das garotas ao Instituto, uma em especial, e eu preciso que me informem o que aconteceu! O que ela viu?

— Emily, sim, esta foi a garota que levaram em segurança até o Instituto.

— Se algo acontecer a Emily... — pela primeira vez desde muito tempo sentiu um rasgo dentro de si, não conseguia imaginar o se. Nada podia acontecer a Emily. Mili pensou.

— Meu caro Zayme, a garota é livre e você deve saber que as escolhas acarretam em consequências. O que aconteceu hoje foi apenas uma escolha impulsiva que resultou em uma consequência trágica, mas já que insiste em saber não lhe pouparei dos fatos.

Houve uma breve pausa, ficou encarando o visor, a imagem do velho por um momento que se estendeu brevemente. Lembrou-se da primeira vez em que havia acontecido. Da vez em que a capturaram e apagaram suas memórias. Lembrou-se dos obscuros dias em que Os Cinzentos surgiram.

Mili.

Notas finais
Espero que a história os agradem queridos leitores. Críticas são sempre bem-vindas! *-* Boa leitura!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.