Notas iniciais
Desculpe, leitor, não me aguentei, tive que adicionar algo do qual eu gosto muito... Teehee :3

Acordo. Minha cabeça está explodindo. Sinto muito calor. Meu equipamento de proteção está me fritando. Minha visão ainda está embaçada, não consigo identificar onde eu estou. Rolo para o lado com dificuldade, deixando a minha barriga virada para cima. Meus braços ainda estão um pouco fracos, mas ainda assim eu consigo estender-los. Preciso tirar meu capacete. As minhas mãos perambulam pelo meu queixo. Os meus dedos encontram a fivela, mas tem a mesma dificuldade de abri-la como um ébrio ao tentar andar. Primeiro estralo. Preciso forçar mais um pouco... Segundo estralo. Abriu. Minhas mãos começaram a tremer. Minha visão aos poucos volta. Puxo o capacete e deixo-o rolar pelo chão de terra batida. Puxo a minha balaclava que estava grudada em minha pele pelo suor. Solto um suspiro de alívio, como se estivesse sufocando.

Agora, me esforço para abrir a minha jaqueta. Descolo o velcro com dificuldade, e a abro. Ainda presa aos meus braços, jogo eles para cima e para baixo, até que ela finalmente me larga. Consigo sentir o vento atingindo o meu rosto, secando-o. Olho para o lado, e vejo a grama alta. Estou no que parece ser uma estrada. Essa grama é verde como... Como a da alucinação. Arregalo os meus olhos. Levanto o meu braço à procura daquele troço que ele havia deixado em meu braço, e lá estava ele. Aquilo não foi um delírio.

Meus lábios estão tão ressecados que estão quase cortando. Preciso beber um pouco de água. Me entorto todo para conseguir pegar o cantil de água do bolso de dentro de meu casaco. Não posso beber muito. Mais um gole. Pronto. Ainda com sede, mas deu para molhar o lábio. Passo a mão em meu rosto, e sinto a minha barba um pouco grande. Quando saí do abrigo, ela estava totalmente aparada. A quanto tempo estou desmaiado?

Respiro fundo. Sinto como se houvesse um peso em meu peito sendo quebrado aos poucos enquanto meu tórax se expande. Meus braços estão esticados. Praticamente todo meu equipamento está jogado ao meu redor. Apesar do sol estar tão quente, o vento soprando em meu corpo me refresca. Começo a ouvir um barulho ao fundo da estrada. Não tenho forças para me levantar. Não tenho forças para girar a cabeça. Estou tão confortável aqui. Agora, seja o que fosse que estava se aproximando, parou ao meu lado, a alguns metros de distância, posso suspeitar.

Vejo com o canto dos meus olhos o que parece ser a figura de uma pessoa. Não consigo identificar se é homem ou mulher. Abaixou-se. Ele ou ela coloca a mão em meu pescoço, provavelmente para verificar se eu não estava morto, mesmo que os meus olhos estivessem encarando seja lá quem fosse. Levantou-se. Eu... Eu não consigo mais ficar acordado, eu vou... Dormir. Peraí... Aquilo são orelhas de animal?

Acordei. Aonde diabos eu estou? Estou coberto em uma cama que, pela primeira vez em anos, estou confortável. Me viro aos poucos, ficando sentado. Estou de cueca. Pelo menos desta vez não estou pelado no meio do nada. Aquele troço ainda está no meu braço. Não estou sujo de fuligem e nem nada. Essa nem é a minha cueca. Eu estou num quarto. Bem confortável, devo admitir. Uma lareira que era a única fonte de luz espalha o seu calor até mim. A porta aparenta estar sendo aberta. Me jogo novamente para baixo do cobertor, fingindo que estou dormindo.

Ouço passos se aproximando de mim. Quero ver o que irá acontecer se ele ainda acreditar que estou desacordado.

“Ela sabe que você está acordado, imbecil.”

Essa é a mesma voz da minha alucinação não alucinação. Ele deveria estar no quarto também. Esbugalho os olhos. E-Eu.. Ela... Ela está me encarando, cara a cara. A voz acertou, era uma mulher. Quanto mais eu olhava em seus olhos, mais eu percebia que ela não era comum. Suas íris eram vermelhas como as rosas, e aquele olhar era um olhar sereno. Ela está se afastando. Agora está ajeitando a coluna, ficando de pé. Encaro diretamente a cintura dela, e ela está pelada. Dirijo minha atenção para a cabeça dela, e ela tem... As orelhas. Ela tem orelhas similares à de um animal... Um lobo, ou... Raposa? Não importa, isso é muito estranho... A aparência de um ser humano e essas características de animais. Ela ainda está me secando com o olhar. Ela parece estar com uma expressão de preocupação. Ela se virou e... Ela tem um rabo? Ela tem uma porra de um rabo? Que merda é essa? Ela saiu do quarto. Será que foi dela aquela voz?

“Não. Estou no seu braço.”

Tremendo, aproximo aquela coisa negra de meu rosto. Surgiu um olho semelhante ao de uma fera dos desenhos animados das antigas terras ao noroeste daqui. Suas íris também era vermelhas, mas o seu olhar era mais similar ao de alguém irritado.

“Acho que ela consegue me ouvir também” – murmurou por um instante, enquanto olhava o ambiente. “Ela não é um ser humano normal, como você já pode ter percebido.”

“Eu quero começar perguntando quem é você, e o que você está fazendo nesse troço no meu braço.” – Respondi com um tom de voz baixo.

“Bom, acho que posso responder isso.” – Seus olhos rolavam em minha direção – “Sou seu Guardião. Designado para te guiar em direção à sua missão.”

“Que tipo de missão? E designado por quem?”

“Creio que você não tenha se esquecido do seu encontro com Atlas, certo?”

“Quem é Atlas?”

“Atlas é o titã que você encontrou. Ele é capaz de distorcer a gravidade para conseguir ter uma prévia do futuro e modificar brevemente o passado. O seu encontro com ele foi feito após um dos tremores, estou correto?”

“S-Sim. Como voc-”

“Silêncio, eu ainda não terminei.”

Babaca.

“Após cada tremor, seus poderes não tem restrições. Todas as leis da física são quase que alteradas quando ele os deixa funcionais. Você o encontrou quando ele estava alterando o passado. A sua presença neste lapso temporal que nunca deveria ter existido é fruto dele.”

“Eu não sabia que eles eram tão poderosos.”

“Nem eu sabia. A cada terremoto, eu me surpreendo mais.”

“Você conhece os outros?”

“Apenas conheci Atlas. Os outros são aberrações furiosas com vocês, humanos.”

Peraí, ele citou como se não fosse humano. O que diabos ele é afinal?

“Eu ainda consigo ler sua mente, seu mongol.”

“Ah, então você...”

“Sim. Enfim, eu sou um ser de outra dimensão. Quando Atlas distorce a gravidade, portais para outras dimensões são abertos, e com isso, algumas vezes, há a troca de materiais, como eu e aquela mulher. Não pertencemos à este plano.”

“E você neste outro “plano” era esse troço?”

“Você deve fazer bastante força para ser burro assim. Eu fui trancado neste material para que a minha energia não emanasse e causasse dano ao planeta. Agora sou um servo de Atlas.”

A porta então abriu repentinamente. Os olhos que estavam conversando comigo sumiram. É aquela mulher com orelha e rabo de animal que entrava com uma bandeja. Parece que na bandeja tem um copo e um prato. Agora ela está parada, me olhando, como se estivesse aguardando uma ordem minha. Ainda está pelada por sinal. Me arrumo na cama, esticando as pernas ainda embaixo do edredom e apoiando as minhas costas naquela parede ligeiramente fria. Ela já está entrando no quarto. Abaixou-se para colocar aquele monte de coisa no meu colo de maneira cuidadosa, inclinando sua cabeça para baixo. Observo suas orelhas. Elas parecem ser tão macias, e são tão peludas... Não seria correto que, ao invés de ela ter um cabelo liso preto ela ter pelo também na cabeça? Ela levantou bruscamente a cabeça e esta me encarando. Eu não sei o que fazer. Eu, eu...

“Não precisa falar nada.” – Disse ela. Sua voz parecia amargurada com algo... Talvez comigo? – “Você deveria estar mais interessado do porque eu te resgatei, e não sobre a minha aparência.”

“Eu te disse que ela conseguia ler sua mente.” – Acabou de resmungar o servo.

“Pelo visto Edmund já lhe explicou sobre mim.”

Edmund? Um ser de outra dimensão de nome Edmund?

“Escuta aqui, seu arrombado, se você criticar o meu nome de novo, me aguarde pra ver se você vai ter alguma ajuda na próxima vez”

“Não se importe com ele. Ele é grosso assim mesmo.”

“Vocês se conhecem?” – Respondi com uma voz meio chocha. As orelhas dela estão de pé, ela deve estar prestando bastante atenção.

“Nos conhecemos sim. Durante a junção de dimensões, acabamos ficando perdidos por um tempo no Limbo. Como não há noção de espaço e nem de tempo no Limbo, nos comunicávamos e nos viamos quando nós quisessemos, não importava o quanto andássemos. Então esse tarado ficava me seguindo.” – As orelhas dela então inclinaram-se para trás. Seu rabo também está um tanto quanto agitado.

“Olha só” – Falava com um tom de voz um pouco agitado – “Não fui eu quem conseguiu salvar a própria pele tornando o amigo em um servo.”

"Amigo? Você se autoproclama "Meu amigo"? Eu nunca te dei essa intimidade!"

"Não foi o que você demonstrou lá."

E a discussão iniciava-se. Uma discussão de casal, talvez? Ou no caso de um ex-casal? Me ajeitei na cama, e como eles conseguiam se comunicar entre si querendo ou não querendo, olhei para aquele prato com uma sopa de aparência horrorosa, e comecei a tomar como se fosse a melhor do mundo. Fosse dia ou fosse noite, o período restante até eu dormir novamente será longo e árduo pelo visto.